Xamanismo, a Arte do Êxtase


Xamanismo, a Arte do Êxtase Ana Vitória Vieira Monteiro

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ÍNDICE
Xamanismo, a Arte do Êxtase — 5 Agradecimentos — 6
Dedicatória — 7 Introdução da Autora — 8 Começando — 12
A Experiência Extática e o Teatro — 13
A Iluminação e o Cérebro Humano Moderno — 16 O Xamanismo Arcaico — 20
Pajé — Xamã Clássico — 25
No Final, Só os Mestiços Vão Abraçar o Velho Demônio — 29
Mulher Nativa Torna-se Cacique — 30 Xamanismo de Plantas de Poder — 32 Plantas que Perderam o Poder — 35
As Plantas que Não Degeneraram — 37 Princípio Ativo da Ayahuaska — 41 Voltar do Transe — 43
Quem é o Xamã? — 45 Ovnis — 48
Xamanismo Não é Religião mas o Princípio Inspirador Delas — 52
Dom ou Psiquismo — 59
Tipos de Paranormalidade — 62 Os Elementais — 64
“Espírito” ou Energia Auxiliar — 67 Buscar o Animal de Poder — 70
Os Monstros Interiores e a Criação — 73

Fim do Sacrifício dos Animais — 75 O Balanço Vindo do Mar — 77 Adendo — 79
O Balanço — 83 Em Tempo — 93 Conclusão — 97
Breve Histórico De Ana Vitória — 98


Xamanismo,
a Arte do Êxtase

Ana Vitória Vieira Monteiro




AGRADECIMENTOS
Seria impossível fazer este trabalho sem a colaboração dedicada de algumas pessoas que felizmente cruzaram os meus caminhos:
Alleyona
Joaquim de Campos Salles Lucinha Luz
Rogério Ciryllo Reis
Philomena Lacerda Monteiro — minha querida mãe




DEDICATÓRIA
Dedico este livro ao grupo PORTA do SOL, minha razão e motivação
para a elaboração deste livro.




INTRODUÇÃO
da AUTORA

O enigma da vida e da morte sempre me fascinou. Viver para mim é ser criativa, sempre soube que a minha vida depende desta qualidade. Pergunto-me: por que uma idéia nova em arte ou ciência “salta” do inconsciente, num determinado momento? Qual é a relação entre talento e ato criativo, entre criatividade e morte? Quais foram as primeiras idéias criativas do ser humano? Com que recurso ou técnica contou o nosso antepassado? Com a palavra do Divino? Como os nossos antepassados entraram em contato com o Divino, segundo indicações de seus textos, que o afirmam com tanta segurança? O Divino veio numa nave do céu? Ou foi no céu de sua mente? Muitas perguntas, muitas desconfianças. Devido  a este espírito de pesquisadora fui buscar respostas mais precisas, pois foi pela existência destas crenças que as instituições mataram e torturaram durante milênios, afirmando o que “Deus disse”. Pergunto: disse para quem, como e em que circunstâncias? Os livros não possuem as respostas que procurei e procuro.

No alvorecer de uma nova era, em que a tecnologia nos permite ir à LUA, enviar foguetes teleguiados a Júpiter, e anuncia a medicina das clonagens e das interferências no DNA, dos genomas, dos transplantes, dos alimentos transgênicos, indicando que estamos transcendendo limites antes nunca pensados.
O SER HUMANO criando novos humanos — cremos que da mesma forma como fomos criados um dia — é a maturidade da raça humana mostrando sua capacidade fecunda, a de CRIAR raças. Ao chamarmos DEUS de Criador, será o Deus conhecido ou Deus é mais, transcende a criação humana, sendo causa primeira de algo que nem sonhamos? A Humanidade está em vésperas de repensar suas crenças.
A FÉ não é abstrata, ela é calcada em provas concretas, e é a busca desta FÉ perdida em algum lugar de nosso passado que  nos impulsiona a retornarmos ao conhecimento de RAIZ, para acharmos como tudo pode ter começado. Pois a pior coisa do mundo que pode acontecer a uma pessoa é ser enganada em sua crença no Divino.
O xamanismo, na figura do xamã ou pajé, é um buscador, sendo o predecessor do pensamento científico. Esta pessoa está longe de ser ingênua, seus métodos e recursos são claros e simples, há muito estuda sobre os mistérios insondáveis da mente e do espírito, contando a

quem quiser ouvir que todos temos capacidades mentais e intelectuais que vão além das que estamos usando. Como argumento lógico basta observarmos que o seu pensamento subsiste desde os primórdios até os nossos dias, sem que os mesmos tivessem feito qualquer religião para perpetuá-lo, apesar das constantes perseguições ocorridas na história do mundo civilizado.
Este livro foi escrito a princípio como uma apostila para estudantes de um grupo de estudos da ARTE DO ÊXTASE, voltado para o auto conhecimento, para que os mesmos tivessem uma idéia facilitada da história da transição do xamanismo da floresta para o sistema urbano na América do Sul e especialmente no Brasil.
As anotações em forma de apostila transformaram-se num saite, que uma vez na net, foi aceito por milhares de pessoas da língua portuguesa. A idéia de condensá-lo em um livro editado no mundo virtual foi uma questão quase natural.
Optei primeiramente por tirar as fotos  do saite e somente deixei as necessárias para o entendimento do texto, como também achei desnecessário manter algumas páginas  que  só têm significado no próprio saite. O formato de  livro ficou com maior fluidez de leitura, em que compartilho com o leitor diretamente, sem que haja interrupção de mudanças de páginas, nem a pressão da leitura rápida. Na net a informação

direta e com imagens é mais desejada, enquanto que no livro, mesmo sendo virtual, temos mais tempo para raciocinar e aprofundar o tema escolhido.
Creio que mesmo que você já tenha visitado o meu saite, irá gostar de ler sobre o mesmo tema com o tempo suficiente que ele pede, pois tenho a esperança de poder compartilhar de um conhecimento antigo quase perdido, nato ao ser humano.
Ana Vitória Vieira Monteiro




COMEÇANDO

Quando NOS distanciamos demais do princípio é hora de voltar para a origem da questão.
Estudar o Xamanismo, é conhecer a RAIZ.

Arte do Êxtase ou "ex stasis", termo grego, significa literalmente — "ficar fora" —, "libertar- se" da dicotomia da maior parte das atividades humanas. Êxtase é o termo exato para a intensidade de consciência que ocorre no ato criativo. Não é irracional, é supra-racional, une o desempenho das funções intelectuais, volitivas e emotivas; a experiência com o LUMINOSO, a CONTEMPLAÇÃO do TODO, UNIDADE, ENCONTRO.
O ÊXTASE elimina a separação entre objeto e sujeito, alargando as fronteiras da consciência humana, levando o sujeito à CRIATIVIDADE.
No entanto a vida é dinâmica, não extática, é movimento puro. A harmonia entre o extático e o movimento é o ponto da questão.




A EXPERIÊNCIA EXTÁTICA
e o TEATRO
O que têm em comum o TEATRO e a experiência extática? — O som, a palavra, a capacidade de representar emoções pelo dom da linguagem da voz humana.
Transito tanto na Floresta Amazônica, como estudiosa do xamanismo, como no Teatro como escritora; e percebi com alegria a semelhança de intenções de um e de outro. Não tenho intuito de ensinar (nada de novo descobri), ou de impor fatos que fundamentem meu pensamento, mas apenas de relatar experiências incomuns aos estudiosos desta igualmente incomum expressão humana — a ARTE.
Nativos sul americanos, habitantes da floresta do Amazonas, criaram a sua ARTE próxima ao que conhecemos como expressão teatral, como uma forma de transmitir seus sentimentos para o grupo, usando a arte para não ofender a sensibilidade de seu próximo.

Criaram máscaras usadas em dias especiais e somente em determinadas reuniões. Dançam e cantam em transe, onde a criatividade aflora e os leva a reclamar ou elogiar uns aos outros, usando danças e cantos belíssimos. É a arte desta delicada maneira de ser nativa — o que chamamos de Teatro eles chamam de A CASA DAS MÁSCARAS, o lugar mais importante e sagrado da aldeia nativa.
Na Grécia Antiga as experiências do êxtase eram chamadas de experiências "extáticas" e estavam vinculadas às declarações proféticas, principalmente no Oráculo do Templo de Delfos, como também nos templos romanos e egípcios, assim como nos dervixes do Islã, em algumas seitas cristãs inglesas e nos “ranter” (ritos de falar com exaltação).
O deus nascido duas vezes, DIONÍSIO,  através do transe gerado pelo VINHO NOVO,  criou a ARTE da REPRESENTAÇÃO DIVINA, para divulgar AS BOAS NOVAS e ensinar  à  humanidade as coisas do céu e da terra.
Aos que não tinham acesso ao êxtase, à experiência extática, até então praticada dentro das cavernas pela elite de sacerdotes e bacantes, foi criado o TEATRO, arte praticada até os nossos dias, refletindo o ser humano em sua beleza e diversidade, usada também por instituições religiosas e políticas, para ensinar e impor  idiomas, filosofia, costumes, etc...

É inevitável pensar nos nativos com sua Casa das Máscaras, seus deuses da floresta que ensinam tudo o que precisam saber e falam pela boca de um pajé em transe. Da mesma forma que na antiga Grécia, onde Dionísio falava através de seus sacerdotes em transe, criando assim o Teatro.
Nos dois casos temos a presença do transe produzido por uma beberagem, das máscaras e do teatro, com iniciados representando seus papéis, e através deles fazendo suas reclamações, expondo suas dores ou ensinando algo importante. Ou ainda, em situações de crise coletiva divertindo a todos, fazendo-os rir ou voar através da imaginação do que é representado com ARTE.
Podemos estudar como estes fatos se  dão hoje, na intocada tradição indígena da Floresta Amazônica. Fatores em comum ainda sobrevivem, ensinando a mesma coisa, através da única forma de ser criativa, a ARTE.




A ILUMINAÇÃO
e o
CÉREBRO HUMANO MODERNO

Para se entender que os nativos, sabedores e dominadores das técnicas do êxtase, não criaram uma civilização da forma como entendemos, precisamos compreender como seus cérebros funcionavam (saber o que comiam, quais eram suas plantas prediletas, e quais partes de seu cérebro eram usadas há milênios atrás — temos pistas deixadas como documentos nas suas ARTES). Como sabemos, viveram e sobreviveram sem necessidade de garantir a própria SOBREVIVÊNCIA como nós; estavam satisfeitos com a sua forma de vida natural e coletiva menos ansiosa, ciente de que cumpriam sua missão com a humanidade. A sua tradição dizia serem eles os guardiões do resto do planeta e que quando eles acabassem o planeta acabaria também.
Num dado momento, seres vindos de outro lugar para as Américas, com todas as características de conquistadores, impuseram seu modo de vida, criando muitas civilizações, com cidades e estradas — como os Incas, os Chan- Chan, os Maias e os Astecas. A maioria dos

nativos na época destas conquistas, tanto das civilizações citadas como das que vieram depois da conquista européia, já falavam várias línguas. Da mesma forma é difícil nos dias atuais achar um nativo que não fale pelo menos quatro línguas diferentes, todos têm excelente memória pois a sua cultura é oral. Não se perdem nos caminhos da mata, viajando por longas distâncias, são ótimos anfitriões e têm muito bom humor. Influenciaram o mundo ensinando o colonizador  a tomar banhos diários. Em suas  aldeias  ninguém passava fome ou não tinha onde morar. São pessoas gentis, sofisticadas em suas relações humanas, jamais envergonhando o seu semelhante com palavras ou atos.
Os xamãs ou pajés mantiveram sua identidade apesar das novas culturas que chegavam. Conheciam as ervas que tinham efeito de antibiótico e anestésico, faziam pequenas cirurgias — como também conheciam as artes do plantio de plantas comestíveis e venenosas. Tinham cultura.
Suas crenças e o estado mental do funcionamento de seus cérebros foram fatores determinantes no seu comportamento social, pois viviam em um universo mental de perpétua paranormalidade, onde o supra-real era mais importante que o real. Acredito que deviam funcionar muito no estado ALFA e pouco em

BETA, ao contrário de nós, que vivemos a maior parte do tempo em BETA e muito pouco em ALFA. A maioria dos povos da floresta vive para cumprir uma determinação divina e pinta-se para se apresentar belo para o mundo divino, como os
animais.



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