Xamanismo, a Arte do Êxtase - parte 3


AS PLANTAS QUE NÃO DEGENERARAM

As plantas de Poder que não degeneraram (não são muitas) diferem em muito dos alucinógenos criados pelos laboratórios químicos existentes no mundo urbano, por várias razões. A principal delas é o rito, a presença dele, a forma como é feito, eliminando qualquer prejuízo a quem delas se serve corretamente — é o que determina ou não o sagrado e os ensinamentos provenientes de seu autocontrolado uso, mesmo por nativos na selva, sendo que nem todos eles podem tomar. Em algumas tribos somente o pajé; em outras ele e os seus amigos, e nas mais liberais somente os homens. O  xamanismo inovou no sistema urbano ao permitir a presença das mulheres.
Mesmo que um princípio ativo de uma planta esteja contido num produto químico, ele poderá agir quase igual a planta, mas não fará o mesmo efeito, pelo simples fato que TRANSE e ALUCINAÇÃO são coisas diferentes. O primeiro traz informações verdadeiras e úteis; o segundo apenas mostra imagens e sons fora de sintonia com a realidade, criados pela imaginação.

Alguns antibióticos produzem alucinações (o princípio ativo presente às vezes é semelhante ao da planta, mas no caso dos remédios são misturados com outros componentes químicos no mesmo preparado, mudando tudo. Por isso os chamamos de drogas, mesmo que necessárias, drogas de drogaria de farmácia). É o caso dos anabolisantes, que criam dependência; sedativos e estimulantes — são DROGAS quando  misturadas com álcool, tornando-se fonte de dor e sofrimento para muitas pessoas.
Poucos cientistas e pesquisadores hoje em dia conhecem os segredos das Plantas de Poder. Seus cantos, sons e gestos, parecem funcionar como chaves para abrir os PORTAIS da mente, quando esta se encontra em estado Alfa. Estamos aprendendo o que fazer com elas, coletando dados de observadores dedicados e capazes de fazer uma análise objetiva. Muitas informações deverão ser trocadas por mais uns 10 anos, e não podemos prescindir das informação do xamã.
Tratando-se de plantas especiais, pois operam num nível mais sutil da natureza, o cuidado do nativo é redobrado; colhendo e preparando de maneira especial, como os produtos Homeopáticos e os Florais de Bach. Lembro-me que meu bisavô receitava Homeopatia no princípio do século passado e era chamado de “médico espírita”. O que já não acontece hoje em dia, quando tanto a Homeopatia como a

Psicologia e a Acupuntura são reconhecidas como Ciência.
A energia das Plantas de Poder, de forma geral, tem a capacidade de expelir do corpo humano substâncias estranhas a  ele.  Entendendo como estranha qualquer entidade ou energia que não faça parte do universo natural do corpo humano.
A natureza das Plantas de Poder é essencialmente transformadora, agindo de forma tríplice. Assim é no plano material, imaterial — astral, etéreo — fluído, invisível; ensinando a regeneração do ser humano no plano espiritual, fortalecendo a vontade, e enobrecendo todas as faculdades anímicas. Tão úteis e necessárias como as Plantas de Poder Alimentar, capazes de transformar em horas a química do corpo.
Há muito pouco tempo a política de pesquisa no Brasil vem se desenvolvendo, dando atenção à sua reserva florestal como um BEM, que o nativo vê como VALOR (temos de nos orgulhar por eles terem preservado este conhecimento...) para nós. Isso sem falar das plantas que crescem no fundo das cavernas, dos rios e dos mares. Muito ainda teremos que APRENDER em como nos relacionarmos com  PODEROSO  REINO VEGETAL.
O xamanismo de Planta de Poder espiritual é muito variado, sendo impossível enumerá-lo.O

dado mais importante é o que se refere à linguagem cantada, e à língua em que é cantada.
Vamos nos deter apenas na  AYAHUASKA,  que é a planta MESTRA de todas as plantas da Floresta Amazônica (apesar de existir outra, mas que ainda permanece secreta, e acredito ficar assim por mais tempo do que imaginamos pensar).
PLANTA MESTRA é a que tem o Poder de revelar (contar, falar, comunicar) ao xamã como agem outras plantas quando misturadas a ela. Justifica-se este respeito uma vez que a selva é cheia de mil plantas venenosas e é a Ayahuaska  que faz o papel do laboratório de análise avançada, ajudando a distinguir as  plantas  de cura e as comestíveis, daquelas mortais.
Daí vem o hábito (assimilado pelo caboclo ao ver o xamã misturar plantas no chá da Ayahuaska), de fazer o mesmo. Mas os caboclos não sabiam, como a maioria continua não sabendo, que essa ação consiste apenas num teste, não sendo uma norma para todos e nem uma prática usual...




PRINCÍPIO ATIVO DA AYAHUASKA

O cipó, Banisteriopsis Caapi. Contém: beta- carbolina, harmina, harmalina, e tetrahidroharmina .
A chacrona, Psychotrias, e Diplotes cabreana. Contém: Alcalóide alucinógeno N- dimetiltripamina DMT, substância que tomada sozinha ou por via oral é inativa devido à atuação da Monoamina Oxidasse MAO. As análises mostram que, embora as beta-carbolinas encontradas nos preparos estejam em doses demasiadamente baixas para mostrarem suas propriedades alucinógenas, elas parecem desempenhar um papel na inibição da MAO, livrando assim o DMT de sua ação e permitindo- lhe manifestar suas propriedades psicotrópicas.
Podemos notar pela composição das plantas que a AYAHUASKA cura a depressão.
Ayahuaska não vicia e nem cria dependência física ou psíquica, como os remédios para convulsões ou antidepressivos.
Não há nenhum impedimento legal por parte da SECRETARIA da SAÚDE.
O chá da chacrona e do cipó age como facilitador, colocando o cérebro pronto para

trabalhar com velocidade máxima, em estado CONSCIENTE ALFA.




VOLTAR DO TRANSE

É possível interromper o processo cerebral bloqueando a ONDA ALFA, através de exercícios de atenção ao mundo exterior com o balançar do maracá (hoje na cidade pode ser a palavra escrita no papel dos hinários), respirando  profundamente e voltando em etapas mentais (algumas vezes ansiosos se projetam muito rápido para níveis profundos e não contam que deveriam fazer o caminho de volta lentamente).
Esta é uma das razões pela qual o xamã não aconselha a misturar nenhuma outra planta ao chá. O ideal mesmo é o jejum e estar acompanhado de alguém em quem se possa confiar (o xamã em geral tem sempre três ou quatro amigos por perto), em lugar seguro e tranqüilo, e com a firme intenção e desejo de “ATRAVESSAR A PONTE”, que após a travessia  irá ser QUEIMADA. O iniciado deve ter consciência de que se trata de um caminho sem volta.
No xamanismo arcaico há um hábito fortemente enraizado em todos os xamãs: o de não revelar nada enquanto a outra pessoa não perguntar diretamente, deixando o aprendiz descobrir sozinho; até que este tenha a

humildade de se colocar claramente como uma pessoa que DESEJA APRENDER.
Quando isso ocorre ele aceita o aprendiz, e entre eles irá se estabelecer uma cumplicidade gerada na confiança mútua. Qualquer quebra de postura ética do aprendiz com o seu MESTRE levará ao afastamento automático, sem maiores explicações.
O xamã sabe que as pessoas são o que são,  se for possível haver alguma transformação profunda é somente porque a pessoa em questão REALMENTE deseja.




QUEM É O XAMÃ?

O XAMÃ é aquele que consegue entrar, manter-se, e sair dos estados alterados de consciência; trazendo ensinamentos e curas para si e para os outros, com técnicas exclusivas, tendo à sua disposição espíritos, seres ou entidades, que quando chamados o atendam prontamente.
Conhece a Lei do Som, das vogais comuns a toda a humanidade, como força criadora de tudo o que existe na Terra. Reconhece a evolução da linguagem como meio de comunicação, levando à compreensão da realidade, ampliando os limites das fronteiras da mente.
Não se nasce Xamã — torna-se, pois não é uma profissão, como ser médico, em que se pode desistir quando queira. Não se é xamã por indicação, convite ou oportunismo, na realidade não se decide ser xamã.
Existem algumas referências naturais como justificativas que o confirmem:
— Ter antepassados com este dom (entendo que deva o candidato ter maior probabilidade pela força da genética), que no decorrer da vida deverá se manifestar, confirmando-o como herdeiro do DOM;

— É considerado como sinal quando o nativo se auto-cure ao passar por uma doença grave.
— Ser aceito como discípulo de um pajé ou xamã mais velho, que irá lhe ensinar algumas técnicas.
Ser um xamã não é, como em nossa sociedade urbana, ser um professor, terapeuta, um médico especialista que faz diagnósticos e receita ervas, indo depois da consulta para casa ou clube do bairro, ou ainda um bom ouvinte dando palpites. O XAMÃ CURA algo específico com um dom (para-normal), tem uma arte e a domina.
Estava eu em Tocantins visitando a reserva indígena quando um amigo mencionou  que  lá vivia um pajé muito bom. Quis conhecê-lo.  Cheguei na sua casa, perto de uma árvore frondosa e muito antiga. Perguntou-me: O  que você quer? Respondi: desejo me libertar de um pensamento insistente, que me tira a paz (uma paixão não correspondida). O pajé sorriu, pegou o maraká, chacoalhou várias vezes em volta  da minha cabeça e disse: Está pronto, pode ir. Perguntei: “Só isso?” Respondeu: “Só”. — E nunca mais pensei em tal pessoa  —  O dom dele era este, tirar coisas da cabeça dos outros.
Numa outra vez recebi em minha casa a visita de um xamã andino da Ayahuaska. Entre uma conversa e outra mencionei a ele que todas

as vezes em que tomava o “chá” sentia um certo medo e isso me incomodava muito. Ele sorriu e disse: — “Não é nada.” Em seguida sentou-se no chão e cantou uma breve canção, com palavras em português, chipiu, tupi e quíchua — nunca mais senti esse medo.
Com estes exemplos demonstro ser o grande xamã aquele que tem um dom específico, pessoal e intransferível, o que o difere das nossas profissões acima exemplificadas. Na nossa cultura o que mais se aproxima dele é o médium, o para-normal, mas mesmo assim é diferente, pois o xamã não depende somente dos espíritos ou elementais, ele os interioriza tornando-os parte de seu ser, como qualidades SUAS.
Convém citar que numa aldeia existem, além do xamã ou pajé, os raizeiros, e também os aprendizes de raizeiros e amigos do xamã, assim como existem os muito velhos que somente trabalham se quiserem e são consultados em alguma dificuldade. Interessante que quando morrem, nenhum nativo diz que morreram, mas que viajaram e vão demorar a voltar.




OVNIS

Tempos depois surgiu um segundo convite para ir passar uns dez dias numa tribo indígena da Ilha do Bananal, quando eu estava na capital de Tocantins, cumprindo um calendário de palestras e oficinas sobre criatividade.
Aceitei prontamente, primeiro por poder rever o meu amigo pajé, depois por lembrar-me de minha infância, quando ouvi falar pela primeira vez desta ilha — foi no jornal, o presidente Juscelino Kubichek tinha ido visitá-la, com o repórter informando em destaque que esta era a maior ilha fluvial do mundo. Alguma coisa no meu peito palpitou, a sensação de estar no coração geográfico do Brasil fascinou-me, fato que havia esquecido da primeira vez em que lá estive.
A viagem foi de carro, partimos da capital Tocantins, cheia de pó vermelho, recém construído; o termômetro assinalando  mais  de 40º graus de temperatura. O interior da Amazônia, com árvores frondosas e rios de águas cristalinas me parecia realmente o paraíso.
Ficamos acampados numa pequena ilha dentro da grande ilha, em frente à aldeia, o que muito preocupou o cacique, pois eu não sabia

nadar e desta vez a temporada seria maior. O rio cheio de jacarés, piranhas e botos — era lá que os botos tinham seus filhos, eles ficavam quietos o dia todo e à noite cantavam ou gritavam sem  parar. Tudo muito lindo não fosse a presença dos mosquitos que invariavelmente chegavam ao fim da tarde em bandos e acabavam de passar só depois das 21horas, picando a todos. Tentei usar urucum, um repelente natural nativo — não deu. Lancei mão dos artificiais que havia trazido comigo — não adiantou. Tudo o que consegui foi ficar com a pele vermelha como a  dos  nativos, que  não tinham dúvidas do meu parentesco com os Mudurucus, o que muito me divertia e facilitava a vida lá, pois assim eu era aceita como um deles. Um detalhe: todas as vezes que vou a uma tribo tenho o cuidado de pintar meu cabelo de preto para não ficar muito diferente do clima da moda local; da mesma forma clareio mais os cabelos quando vou à Europa. Como um camaleão que muda de cor, como diria  minha mãe.
Depois do jantar, como costume local, todos nós fomos nos deitar no chão de barriga pra cima olhando o céu, que estava coberto de estrelas, e conversávamos um pouco, coisas triviais. Num dado momento não me contive e perguntei ao cacique, que estava sentado num toco ao meu lado:

“Todos os dias vocês ficam vendo as estrelas aqui?”
Respondeu:
“Sim é muito bom isso.” Continuei confiante:
“Dá para ver tudo o que se passa no céu, até os aviões, não é?”
Indiferente ele respondeu:
— “É”.
Continuei:
“O senhor já viu alguma coisa brilhante de várias cores piscando lá em cima?”
Sem se alterar ele disse:
— “Já”.
Incrédula e rápida:
“Disco voador?” Ele: — ”É”.
Eu: — “O senhor já viu disco voador?”
Ele: — “Já, (apontando para a curva do rio) eles gostam de aparecer lá, de madrugada.”
Não precisa nem dizer que passei a noite na curva do rio. O pajé que me fez  companhia contou que os OVNIS eventualmente descem nas aldeias trazendo sementes para eles jogarem na selva, que são muito parecidos com os humanos e falam a língua deles. Notei que os nativos não os confundem com deuses vindos do espaço, na realidade os vêem como amigos que nunca fazem mal a eles (diferindo dos nativos brancos do planeta). Perguntei sobre a razão das sementes,

ele disse achar que elas são para cura de doenças. Insisti para que ele me mostrasse uma, alegando que sofria de artrite e desejava ser curada. No dia seguinte ele foi comigo até perto de uma árvore, cavou um buraco pegando uma raíz e me ensinou a fazer um chá.
Vencendo minha timidez perguntei pelo pajé Canoa-Javaé e soube que já tinha ido embora dali.
Quando cheguei em São Paulo fiz o chá como ele me ensinou e tomei em doses diárias. Nada alterou de fato, tive que admitir para os meus filhos e amigos ser uma pessoa muito crédula e esqueci o fato, pois continuei sentindo os progressos da doença. Algum tempo depois apaguei este fato da memória, mesmo após os sintomas terem desaparecido. Fui fazer exame médico de rotina e por curiosidade pedi para verificar como estava a bendita artrite. O exame demonstrou que eu nada tinha, estava curada, depois de quatro anos da conversa  na  curva do rio.




XAMANISMO NÃO É RELIGIÃO MAS O PRINCÍPIO INSPIRADOR DELAS

O xamanismo se perpetuou por nunca ter saído da idéia original que o gerou, permanecendo FIEL, não esperando fidelidade mas sendo ele próprio FIEL à crença que abraçou. É considerado como prática dominante em todos os lugares onde a experiência do êxtase é realizada como uma experiência religiosa por excelência.
FILOSOFIA XAMÂNICA
Cada tribo indígena tem sua história a respeito de seu nascimento na TERRA, cada uma delas sabe somente de sua própria origem, sem universalizá-la, ficando restrita à família daquele grupo de pessoas, com os mesmos hábitos e a mesma língua.
Os xamãs são guardiões do cumprimento desta determinação milenar. Podemos entender também porquê surgem e desaparecem.
Quando alguém oriundo de um povo mestiço como o Americano, herdeiro de várias culturas, deseja voltar-se para o xamanismo, é natural que

queira saber qual é a sua verdadeira origem, sua missão na terra. Para os xamãs esse acontecimento é um fato novo, e também eles desejam saber como isso vai ficar.
Dizem que isso faz parte do BALANÇO natural, o que nos leva a crer que seja equivalente ao sentido que damos ao APOCALIPSE — transformação de uma forma de pensar, de ser e de viver. Não são tão românticos a ponto de achar que DEUS virá numa nuvem de fogo julgando a tudo e a todos; crêem que o BALANÇO se concretiza aos poucos, pois a natureza humana não dá saltos nem pula etapas. Sabem que não são somente eles que irão deixar de ser necessários na TERRA. Muitas outras civilizações e línguas também estão desaparecendo diariamente, como foi um dia com o latim, o grego arcaico, etc..., sempre foi assim em todas as mudanças anteriores pelas quais o mundo passou.
O novo mundo continuará a se fazer devido ao SOM. Esta mudança está sendo processada a partir dos SONS emitidos  pelos  SERES  HUMANOS, que são verdadeiros PORTAIS de um mundo de LÁ e de CÁ — do consciente e do inconsciente — do manifesto e do imanifesto — do visível e do invisível.
Por esta razão os cantos indígenas são tão importantes. (Os nativos sabem que as palavras são energias transcendentes. Ao analisar o seu

significado, sabendo de qual tribo vieram, eles compreendem qual será a tônica espiritual desta nova ordem). É maravilhoso que o seu SOM continue se integrando  UNIVERSALMENTE  —  pois desta forma sentem que estão dando sua contribuição ao mundo e garantindo o futuro de novas gerações na TERRA.
INTRODUÇÃO ao PENSAMENTO ARCAICO — a LEI
O xamanismo arcaico é a mais antiga das ARTES. Como ARTE? Perguntamos espantados —  e o velho xamã responde que o xamanismo é ARTE porque une técnica, inspiração, intuição e beleza, e que ficou conhecida como a ARTE do ÊXTASE regida pela LEI.
A LEI da NATUREZA
Tudo que nasce, morre e se transforma — ninguém escapa a esta LEI.
Podemos nos preparar durante a vida todos os dias para aceitarmos o inevitável, mas é certo que vamos todos morrer. A aspiração máxima do xamã é fazer esta passagem consciente e em paz. Ele acredita na transmigração da alma, o que fica evidente através de seus contos tradicionais.



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