Quando a Depressão Ataca - parte 4


Questione-se: você está se amando? Procura ajudar-se e ser
ajudado? Está procurando resolver seus problemas? Até que
ponto você está colaborando, não só com o seu terapeuta como
com as demais ajudas? Ao se fechar em copas, a tendência do
quadro é piorar. Se trancar em casa está sendo a solução?
Afastar os amigos o faz mais feliz? Insistir em fazer alguma
coisa está indo adiante? Se você não estiver fazendo nada disso,
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provavelmente estará só consigo mesmo. Estará sendo o seu
próprio asilo. Vale a pena? Evidente que não.
Positive a mente e as ações, lembre-se de compartilhar sua
vida, pois você não está só no mundo. Procure ensinamentos e
beleza nos pequenos detalhes que antes não via, nesses
momentos em que está a sós consigo mesmo.
Evite a falta de diálogo pelo afastamento dos meios de
comunicação, para não lhe faltar assuntos atualizados. Procure
antenar-se. A Internet é ultra-interessante, mas poderá aliená-lo
ainda mais. Navegar é preciso, mas exige cautela.
Com a sua força de vontade, essa solidão haverá de ser
passageira, vale a pena positivar-se. Como não há nada como
um dia após o outro, faça do seu dia seguinte, algo mais
participativo, caso não esteja se sentindo bem sozinho.
Existem muitos trabalhos comunitários; atividades que não
constavam de seus planos e que agora poderão ajudá-lo a se
sentir útil e ao mesmo tempo, torná-lo menos só.
Como tudo isso é passível de acometer o depressivo e, se
seu caso chegar a afastá-lo de suas atividades habituais, as
saídas apontadas o ajudarão a preencher o seu tempo, até voltar
a estar apto para o seu dia a dia.
Torna-se controvertido quando por vezes alertamos: afastese
de outros depressivos, ou pessoas predominantemente
negativistas. Depois, recomendamos essa aproximação para sua
auto-avaliação, para que compare com o seu próprio estado
depressivo; ninguém melhor para fazê-lo. Outras vezes, a
recomendação é que se aproxime só de pessoas de alto-astral,
para que se beneficie dos seus fluídos positivos. Tudo serve
como parâmetro. Seu estado de saúde mental, e seu humor,
constituídos de altos e baixos, são os motivos dessa simbiose
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proposta. É a aproximação com o que se julga normal e com
situações extremadas. Sua auto-análise, a distribuição dos
problemas e soluções devem ser alojadas nos compartimentos
adequados do seu cérebro. E seu amor próprio, mais do que
aqueles que o cercam, será o pêndulo, o fiel da sua balança para
a volta do equilíbrio.
A ciência médica está do seu lado, mas para o seu estado de
angústia parece lenta. O milagre acontece com o casamento
desses recursos, com a sua força de vontade.
Procure não se sentir e/ou ficar só. Essa solidão há de ser
passageira, a não ser que dela tenha gostado - muitos assim o
fazem. Mas se não for esse seu caso, recorde-se dos seus
relacionamentos pessoais. Como eram curtidos os seus finais de
semanas, suas férias, suas reuniões de amigos. Tudo isso há de
voltar a ser como antes. Pode parecer agora, sobre-humano
exigir isso de você, que está tão desinteressado por tudo. Mas,
acredite, ela essencialmente está em sua vontade de vencer.
Sobreponha-se aos seus temores de aproximações
interpessoais; separe o que lhe parecer bom. Errar é humano, e
sempre temos que insistir em buscar saídas não ilusórias. E
ainda que débeis lhe pareçam, podem se tornar consistentes.
Ficar olhando para o teto não é a solução. A sua tristeza
está aí, presente mais do que nunca, mas a sua volta, o mundo
vibra. Sinta isto e saia da casca de ovo em que se meteu, procure
participar.
Antes você chorava por qualquer motivo, com ou sem ele,
mas os remédios devem estar colaborando e ajudando-o a
controlar-se. Então, deixe essas lágrimas para outros momentos.
As suas angústias do agora exigem outros procedimentos. Você
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está precisando dos olhos límpidos e secos para enxergar melhor
o que a vida pode lhe oferecer.
Estou à procura de um antídoto para a sua solidão e
diversos caminhos já percorri.
Na peça –“ Entre Oito Paredes”, de Maurício Witczar, o
canal de conversação entre duas pessoas foi aberto através do
telefone, que servia para preencher suas solidões. Ele funciona
como lente de aumento do ser humano. É muito utilizado para
sair do encarceramento urbano tecnológico, aprisionado que está
dentro de suas fantasias, ou melhor, de si mesmo.
O aparelho está a seu alcance, mas pondere para utilizá-lo.
Do outro lado da linha estão pessoas preocupadas com seus
próprios afazeres, mesmo seu terapeuta.
A tendência normal de quem se sente só, é procurar alguém
que, se não o entende, pelo menos o escute. Contudo,
autocensure-se: não fique ligando a torto e a direito. Espere que
as pessoas interessadas em você o façam. A sua insônia, a sua
inatividade não podem servir de arma para quem assim não se
encontra. É necessário respeitar a privacidade dos outros.
Você se sente só. Mesmo em meio a uma multidão, não
está nem aí para o que está acontecendo. Ficar só ou rodeado de
pessoas não resolve o seu estado de espírito. O meio para se
livrar do isolamento, só você e mais ninguém será capaz de
encontrar. No máximo, alguém poderá sugerir algo que ainda
não lhe tenha passado pela cabeça. A vontade é sua; quem sabe
se trabalhar mais seja a saída? Pelo menos você estará fazendo
alguma coisa produtiva.
Situações assim só serão compreendidas por aqueles que
de fato estão com seus espíritos realmente tristes.
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As fugas de situações, por mais simples que sejam, são as
tendências naturais para o depressivo e ficar solitário é uma
delas. Dormir também é muito usual, esquecendo-se que ao
acordar estará tudo igual, e nada foi feito para sanear os
obstáculos. Estes que só serão solucionados se tomadas as
providências - de iniciativa própria ou sugeridas - para cada
caso.
Sua solidão há de ser passageira, nada mais é que uma
companheira da tristeza, das horas difíceis. Com sua
autodeterminação, ela passará a fazer parte de um tempo, de
uma página virada. E uma vez reintegrado na sua convivência
normal, você há de esquecê-la.
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As Internações
Os pacientes tratados em suas residências, tendem a
apresentar melhores resultados que aqueles tratados em clínicas,
pois o aconchêgo do lar é mais salutar. Mas digamos que nessa
sua jornada, algum motivo o levou a uma clínica. Seja ela qual
for, não se trata de um clube (principalmente de lazer) e não é
agradável; muito pelo contrário. E se essa clínica for de repouso,
você se defrontará com casos de dementes mentais. São seres
humanos fora da realidade. Sua cabeça está a mil com as
palavras desconexas que ouve, com os gritos e a visão de
comportamentos atípicos. Se estiver lá para uma sonoterapia vá
lá, mas por outros motivos, há de presenciar cenas que por certo
o marcarão muito e poderão servi-lhe de alerta. É nesse ponto
que cobramos a sua auto-análise e crítica. Muitos que assim
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estão, não encontraram a saída e enveredaram por outros
meandros de doenças mentais. Foi a entrega para as drogas, o
alcoolismo, ou outras formas alternativas encontradas para se
livrar da tristeza. Uma coisa puxa a outra, que você vê nos
olhares, nas expressões, ou na fúria pela falta de controle.
Se a falta de apetite debilitou-o a ponto de chegar a uma
internação, você poderá conviver, mesmo que em um hospital
comum, com outras doenças. E querendo ou não, irá se deparar
com quadros deprimentes, que em nada contribuirão com a sua
melhora.
Abordei em outro capítulo, as doenças oportunistas que
atacam a pessoa depressiva, inclusive as fatais. Já pensou estar
em um hospital convivendo com elas?
Poderia descrever inúmeras oportunidades de situações a
que seu caso pode chegar. É preciso, ainda que me torne
repetitivo, atinar para a recuperação da sua auto-estima, cuidarse
tanto mental como fisicamente, se autopreservar para não
incorrer ou reincidir em internações. São situações extremadas,
mas que infelizmente ocorrem.
Para a guerra aqui tratada, todas as armas são válidas. Useas
todas, inclusive a principal, o amor próprio, pois sem ele, o
seu arsenal estará fraco e as demais não surtirão o efeito
desejado.
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Procurando a Cura
A procura da cura, das saídas, a luz no fim do túnel, exigem
uma longa caminhada e certamente nunca fácil.
Em primeiro lugar, o depressivo tem que se conscientizar
do amor por si mesmo. Em segundo, sair da mesmice que
qualquer especialista médico é o indicado para o seu caso. No
máximo poderão encaminhá-lo para os psicoterapeutas capazes
de mostrar o que fazer.
Pessoas do relacionamento do depressivo hão de notar que
o ambiente ao seu redor está comprometido. E se não puderem,
pessoalmente, tomar alguma atitude, que peçam ajuda. O
importante é deter a bola de neve que está se formando.
O paciente tem que acreditar ser ele um tesouro no
universo. Sentir-se amado; amparado. Atentar que as
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oportunidades existem para todos e vale o lembrete: se a vida
lhe deu um limão, faça dele um limonada. É necessário dar
sentido para sua existência. É preciso, caso a pessoa não seja
capaz, mostrar-lhe esse caminho. É necessário compreender que
não devemos somar nossos problemas, fazendo de todos um só
pacote e sim resolvê-los, um de cada vez. Ao nos defrontarmos
com um deles, nos coloquemos a sua altura, em pé de igualdade.
Por maior que ele seja, devemos imaginar estarmos subindo uma
escada, degrau por degrau e olhando-o de cima, ele irá ir ficando
pequeno, até ficar do tamanho devido. Ao problema que
aparecer em meio a outros e que você não tenha a solução de
imediato, hoje ou daqui a um mês, eu pergunto, vale a pena se
desesperar? Vale a pena não dormir? Ficar irritado?
Nessas ocasiões, o autocontrole é de muita valia, no sentido
de organizar cada compartimento da sua mente e estar
contribuindo para a volta do seu perfeito equilíbrio.
Seguir a orientação dos psicoterapeutas é primordial e sua
colaboração mais ainda, inclusive observando as suas reações
durante o tratamento. Isso poderá acarretar mudanças na
medicação, nos métodos terapêuticos, o acréscimo ou
diminuição de remédios e sessões. Devo lembrar que o doutor é
o médico, ele estudou para isso e a você só resta colaborar. Não
devemos pular de galho em galho, trocando de especialistas.
Pode não ser bom, pois eles abordarão um caso já em andamento
e terão que pesquisá-lo desde o início. Mas nada o impede de
analisar os resultados que esteja alcançando. Se notar que outros
profissionais sejam mais indicados, mude. Afinal, você se ama e
sabe o que é melhor para si próprio.
Não dê ouvidos a quem o criticar pelo uso de remédios.
Eles existem para proporcionar bem-estar e não serão os
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"outros" a impedi-lo de fazer uso deles. Na hora certa seu
médico poderá ministrar-lhe apenas doses de manutenção, ou
mesmo se poderá deixar de tomá-los, marcar consultas de rotina.
A essa altura, você já terá entendido o quanto valeu a pena
passar por cima dos preconceitos e ter uma qualidade de vida
melhor.
Em suma, a doença é sua e cabe a você assumi-la. É uma
bandeira que outra pessoa não poderá carregar. No máximo, ela
poderá compartilhar com você dessa sua viagem.
Como o terapeuta é peça chave nos distúrbios de
comportamento, o leigo pode ser levado a pensar que ele só
cuida das "neuras" da vida. E que seu quadro de tristeza,
independente da fase de duração e intensidade, não seja da
competência desse especialista. As metodologias de tratamento
podem até se confundir, mas no seu caso, o motivo é a
desorganização dos neurotransmissores cerebrais e se não
tratados convenientemente, seqüelas poderão dar origem a
outros distúrbios de probabilidades catastróficas - iguais ou
maiores que uma depressão.
A reordenação dos seus neurônios exigem a assistência
médica e terapêutica especializadas. Você poderá estranhar a
aparente frieza desses profissionais, aptos a cuidarem de você,
sem envolvimentos emocionais.
Seja qual for o caminho escolhido para se ajudar, fique
atento para embarcar na primeira oportunidade para o caminho
da vida normal.
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Para Manter seus Círculos Afetivos
Avalie como andam seus relacionamentos, seja em casa, na
sociedade, no seu trabalho (lembre-se que por oito horas
úteis/diárias, você convive com esses colegas). Alguma coisa
mudou? Até que ponto você aquilata a sua tristeza? Se sente só,
abandonado? O que fez para que as pessoas se afastassem de
você? O seu humor despenca das nuvens para o chão e viceversa?
Na troca de apenas algumas palavras já sente
necessidade de agredir o seu interlocutor? Ou já não existe
diálogo? Seu mundo está mudo? Pare e pense: o que você tem
feito para manter os seus relacionamentos? Nada? Você está
amargo e a vida não tem sentido. O que os outros vão querer
com a sua amizade, o seu amor, sonhos? Como compartilhar o
que você não tem para dividir?
Encheria páginas e páginas de perguntas para as quais você
só teria uma resposta – não tenho feito nada para cultivar o meu
lado afetivo. Quando muito, poderá responder: tenho tentado,
mas me falta ânimo, autocontrole. Assim você vai ficando cada
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vez mais só. Os círculos dos quais estou falando são como
plantas. Se você não regar, morrem. E não serão fáceis de serem
reconstituídos. Afinal, você está lidando com o que há de mais
caro na sua existência, depois da própria sua vida.
Seus bens materiais, você não levará quando morrer. Preste
atenção que caixão não tem gaveta. Mas, os sentimentos, esses,
mesmo depois da sua partida, ou de outrem continuarão, na
saudade, nas lembranças.
O pior que poderá ocorrer será você ter que tentar
reconstituí-los, depois que a sua alegria de viver voltar. O
casamento se desfez em casquinhas. Você já não tem o carinho
da pessoa amada. Seus filhos não se fazem presentes; seus
amigos se afastaram. Guardaram de você a imagem de uma
pessoa amarga, presa em sua própria essência. E para
reconquistar esses entes queridos, você vai ter que lutar e poucos
entender suas grosserias, seus atos impensados.
Não vejo outra saída para evitar suas bruscas mudanças,
que não o auxílio terapêutico. Com as suas orientações e
remédios moderadores ou equilibradores de comportamento,
muito mal-estar poderá ser evitado.
Amizades, amor, novos círculos de relacionamentos, não
são fáceis de se constituírem. Exigem uma infra-estrutura para
trocas e não podem surgir do nada.
Entenda que palavras podem machucar mais que uma
agressão física. Cicatrizes poderão ficar gravadas, por mais que
você tente amenizar o quadro. E nada mais poderá ser como
antes.
Na recuperação da sua vida, as pessoas hão de ser muito
importantes. Você poderá sentir como seria mais fácil se
pudesse contar com a ajuda de fulano ou de ciclano. No entanto,
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por um tempo você se alienou e os demais podem ter
interpretado como pouco caso da sua parte. E como explicar o
inexplicável? Como recompor essas amizades, seu amor? O
perdão é pregado principalmente da boca para fora. Assim quem
estará disposto a lhe perdoar? Durante esse tempo, você se
conscientizou dentro de seu quadro de autopiedade, que se você
quisesse alguma coisa, teria que se safar pelos seus próprios
meios. Se mandasse ou pedisse, poderia não surtir resultado.
Mas você esqueceu de analisar que a vida dos demais viventes
também estava em andamento e eles não podiam parar para
esperá-lo. Você se magoou, e acha-se abandonado por isso.
A sua tendência é a de generalizar que todos se voltaram
contra você, e aí pergunte-se, há quanto tempo já não procura
mais aquele velho amigo de longas datas? Pode ser que o tenha
visto ou se comunicado com ele antes que a depressão o
acometesse. Talvez um simples telefonema poderá restabelecer a
situação. É bom constatar antes de generalizar. Se por uma
causalidade encontrar um amigo, poderá aquilatar que o sentido
de rejeição é só da sua parte. Os que o rodeiam e que o
acompanham de perto são os mais prováveis de sentir
ressentimentos com relação a sua pessoa. Mas no seu balanço
afetivo, depois que tudo estiver de volta ao normal, você até
agradecerá por ter se afastado de alguns. Foi preciso acontecer o
inevitável para que você as visse por inteiro. Para aquelas a
quem o convívio lhe faça falta, recorde que perdão foi feito para
pedir e para dar. Vença essa barreira. Os círculos provavelmente
irão retornando e certamente algumas baixas haverão de
acontecer, umas mais, outras menos sentidas. As mais,
representarão mais que uma perda financeira, ou um bem
material. Daí insistirmos na preservação ou tentativa de
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manutenção dos relacionamentos de uma forma equilibrada para
que você não se arrependa depois.
No capítulo “ Os iguais se atraem”, abordei o assunto, mas
não é demais repeti-lo. Figurativamente falando, em seu vale de
lágrimas, de uma forma ou de outra, você tende a se aproximar
de outros depressivos. Na sua situação, já tem problemas de
sobra, ainda tem que escutar e muitas vezes tentar resolver os
alheios. Antes você era um elo achado nos momentos de aflição
dos seus amigos, dos seus familiares. Agora, mesmo no estado
em que você se encontra, essas pessoas nos momentos de
desespero, não recordarão disso e continuarão a procurá-lo. Isso
não o poupará de eventuais pedidos de ajuda e mesmo de ação.
Pondere e se ame antes de tomar qualquer iniciativa. Seja
egoísta. Se a sensibilidade dos outros não é suficiente para
entender o seu estado de espírito, eles não perderão a
oportunidade de continuar a se apoiar nos seus já frágeis
ombros, antes tão fortes. Não procure dar o que não tem, seu
ânimo está enfraquecido. Explique-se de forma tal a não afastarse
daqueles que sempre confiaram na sua pronta ajuda. Seja
diplomaticamente correto. O egoísmo sugerido é no sentido de
se preservar, de não sofrer mais do que está sofrendo. É pouparse
de emoções passíveis de serem evitadas, nesse momento em
que a busca do seu equilíbrio é tão necessária.
O altruísmo nessa altura do campeonato não deve ser a
peça chave em seu contexto. Somos o que "piscamos" para
aqueles que nos cercam e para muitos, somos como faróis, sendo
que de momento você não está em condições de iluminar
caminhos. Muito pelo contrário, está à procura nem que seja de
um raio de luz para si mesmo.
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A natureza nos mostra que as árvores têm raízes que
servem como que pára-raios para escoarem as descargas
elétricas. Faça e recomende, encostar a uma, que mal não lhe
fará, pois as cargas negativas se escoarão através desse contato.
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Para Manter seu Trabalho
Em meio a outras colocações o assunto já foi abordado de
maneira mais indireta, mas é primordial fazer-se a pergunta: o
meu trabalho me interessa de fato? Não será ele a causa
principal dos meus problemas? Poderei sobreviver sem ele?
Uma reciclagem não seria interessante para mantê-lo? A procura
de uma outra atividade não é mais aconselhável?
Faça sua análise particular e com o seu terapeuta, quem
estará prejudicando quem. O seu trabalho a você, ou você a ele?
Se é você a causa, tente de toda forma se readequar a ele, pois
como o desemprego e a competição dos dias de hoje são
grandes, não podemos ignorar que no seu estado, só tenderá a
levar desvantagens, relativamente àqueles que estão bem e no
páreo.
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Se nas perguntas iniciais você se concientizou que não terá
meios de sobrevivência sem o que faz e não tem outra opção
para outro reinício, alie-se aos remédios e aos terapeutas.
Troque-os se necessário. Encare os fatos como possíveis e não
como passíveis de serem resolvidos.
No desempenho das suas tarefas, você lida com
equipamentos que exigem atenção, ou agilidade na operação? O
seu médico terá que saber para adequar a medicação a esse
manuseio, ou mesmo afastá-lo, enquanto não tenha condições.
Observe-se, como estão a sua destreza, a sua atenção, os seus
reflexos, a produtividade. Escute as considerações que lhes
sejam feitas, todos são indícios para não acontecerem fatos
desagradáveis e não sendo possível você executar suas tarefas
habituais, tente uma mudança temporária nos seus afazeres.
Afastamentos só devem acontecer em último caso e a volta ao
que habitualmente você executa, só quando estiver apto. Evite
ao máximo os pedidos constantes de licenças e nesse tempo, não
use as folgas facultativas desnecessariamente. Você poderá
precisar delas mais à frente. Caso você ainda não fez uma
autocrítica, outros podem fazê-la. Basta não valorizar a
assiduidade, o desemprego, a cordialidade para com os colegas,
e você sabe, a fila de interessados em sua vaga é imensa.
Portanto, não despreze os detalhes que no final podem contar
pontos.
Nem sempre somos ligados às Leis Trabalhistas, mas elas
contém nuances, detalhes que antes nos pareciam supérfluos.
Mas, nesse momento, é indispensável que os valorizemos e os
entendamos. Para isso, procure ler sobre o assunto e se informar,
até onde vão os seus direitos. Informe-se de pormenores,
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entrelinhas, inclusive assegure-se deles. Faça consultas junto ao
seu sindicato, a profissionais que entendam.
Por vezes vemos o chefe, o patrão como vilões, e nem
sempre vamos estar em estado de autocriticar-nos e concluirmos
pela nossa culpabilidade nos problemas com o trabalho. O dito
popular, "a corda sempre arrebenta do lado do mais fraco" é
verdadeiro. Compulsivamente, somos levados a tomar partido de
nós mesmos, mas será que estamos certos? Não foi falha nossa?
Nesse sentido é bom sabermos junto aos nossos superiores como
anda o nosso desempenho no serviço e reflita se é possível uma
melhora, ou se estamos aquém dessa expectativa devido ao
nosso estado.
Seus colegas por certo estão achando-o diferente, mas não
têm idéia da sua turbulência interior. Não é necessário que o
saibam, a não ser os mais íntimos. Hoje a medicina é capaz de
ajudá-lo a camuflar os sintomas e mais uma vez repito, não
estou pedindo ou induzindo você a mentir e sim, tanto quanto
possível, omitir.
A tristeza por si só, talvez não lhe tenha causado sintomas
aparentes e lhe seja difícil guardar só para você o que está se
passando. Como a depressão é muito complexa e difícil de ser
compreendida, os profissionais da medicina que no momento lhe
tratam, não são vistos pela maioria como os mais
recomendáveis. Se reserve. Sempre haverá alguém para tocar na
ferida. Seja cauteloso em seus desabafos e em sua maneira de
agir. O momento assim exige.
Se alguma das perguntas iniciais não puder ser respondida
de imediato, não se apresse em fazê-lo. Deixe para quando os
problemas estiverem sob controle. Também analise onde você se
enquadra e quais as soluções a tomar.
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Observe se não está chegando atrasado ao seu trabalho. Se
não está se ausentando com muita freqüência, ou mesmo saindo
mais cedo. O dormir poderá estar sendo um canal de fuga, a ida
ao bar da esquina... Aqui dou uma parada maior. Você não
estará bebendo demais, e mesmo durante o horário de
expediente? Mesmo que não esteja fazendo isso durante seu
horário de trabalho, a sua ressaca não estará interferindo no seu
humor, na sua capacidade de raciocínio? Responda para você
mesmo: o álcool não pode estar servindo de válvula de escape?
Se for, reaja, procure ajuda, pois se você não se contiver, não só
seu trabalho estará comprometido, mas todo o seu mundo,
interior e exterior. Seja o álcool, remédios sem serem
devidamente receitados, drogas, todos são inimigos do seu
sustentáculo. Se por esses caminhos ocorrem as suas fugas, que
seja apenas um deles, continuar realimentando-os significa uma
derrota após outra em sua vida. A mistura de qualquer um desses
vícios com antidepressivos pode ser fatal, sem contar nas
seqüelas que podem provocar. Durante o seu tratamento nem o
hábito de beber socialmente pode ser cultivado, tampouco a já
famosa - primeira dose.
Olhe a sua volta, quantas pessoas não têm o previlégio de
poder trabalhar como você. Não tiveram as oportunidades que
você teve, não são preparadas profissionalmente como você, têm
deficiências que as impossibilitam de exercer o que você
executa. Agradeça a vida por assim ser, e procure os meios para
que continue. Pode até parecer impossível, mas você terá que
lutar com todas as suas forças e meios. Mentalize: minha
depressão vai passar e vou ter de continuar a trabalhar. Ela há de
passar mais cedo ou mais tarde e seu trabalho continuará.
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Portanto, não encoste, não o afaste antes do tempo certo ou
devido.
No capítulo “ Ela Aposentou Você” literalmente, enfoquei
situações em que as pessoas involuntariamente tiveram de se
aposentarem, devido á depressão. Existem casos em que nem
toda boa vontade do mundo conseguiu deter a marcha dos
acontecimentos. Mas como foi tratado, nem tudo está perdido e
para continuar a viver, sempre há de existir esperanças e sonhos.
Nunca tudo estará perdido. Mas esse não será o seu caso, você
há de se superar e recorrerá a todos os meios ao seu alcance
para se manter ocupado com o seu trabalho. Pense nessa
possibilidade e vislumbre um futuro sombrio, a ociosidade, a
falta do que fazer. Será bem pior de administrar. Talvez tenha
que redobrar suas forças, a sua criatividade para um recomeço
incerto. Nada melhor que autocontrolar-se e manter o certo, o
seguro e que você já sabe como fazer.
Com ajuda ou sem ela, você concluíu que o seu trabalho é o
motivo real da sua depressão. Nada mais resta a fazer. Você não
se sente bem, falta-lhe motivação, sente calafrios só de pensar
no trabalho, é a angústia do seu existir. Pode ser uma conclusão
camuflada, às vezes "os colegas" são os que mais o chateiam e
você não pode afastá-los. Seja prático, peça transferência para
outro local. Não fuja da realidade, que o problema é você e não
os outros. Fale com seus terapeutas, encontre caminhos,
paliativos, um meio termo para harmonizar o quadro. Caso todos
eles falhem, não aja por impulso. Isso sempre, ou quase sempre,
funciona. Se tudo estivesse bem com você, o seu espírito de luta,
de autoperseverança poderiam lhe ajudar, mas não é esse seu
caso. Agindo cautelosamente, você poderá manter seu trabalho
até que se recicle, aprimorando-se em sua própria atividade ou
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em outra. Só que procurando acertar para que não venha no
futuro, arrepender-se da escolha.
Errar é humano, mas perseverar no erro não é nada
recomendável. Sendo a vida uma escola, olhe ao seu redor e
encontrará muitos exemplos do que estamos falando.
Por você ter caído de cabeça no seu trabalho, esqueceu-se
de avaliar suas condições físicas e psicológicas para executá-lo e
dar continuidade a ele. O bom senso manda você ir mais devagar
na consecussão dos seus objetivos, ou até mesmo dar um tempo
para que você volte à forma. Essa de que "o importante é agora"
poderá estar sendo a causa da sua situação, no fundo do poço. E
o futuro? Ninguém depende de você? Nesse seu futuro está seu
trabalho? Sem ele como será a sua vida? Não será a falta de
férias? Mas preste atenção, se você as gozou e alguma coisa
ainda vai de mal a pior, será que realmente é o seu trabalho o
problema? Se questione, se cobre uma resposta. O motivo pode
ser outro bem diverso para a sua falta de motivação e tristeza.
Enfoquei os prós e os contras, devido aos casos em questão,
tenderem a se manter enquanto não houver a superação ou
aniquilação dos motivos que os ocasionaram.
O seu trabalho não estará sendo afetado por causas
externas, devido aos seus problemas afetivos, a sua situação
financeira, a sua saúde física? Os motivos poderão advir deles e
não do seu serviço. Só o culpe, quando afastadas todas as
possibilidades. Ele não pode tornar-se bode expiatório, se é
essencial para a sua sobrevivência.
Priorize seus valores, a solução dos problemas que o
afetam, revitalize sua vontade de trabalhar, de produzir. Você
pode ter 20 anos e se encontrar nessa situação, mas vale a pena
abandonar o que você está fazendo? Pode não ser ele a causa.
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Você pode ter 40, 50 anos, a situação é a mesma? Diria que sim,
pois todos terão de recomeçar, nem sempre acertivamente. Daí,
você pensa como a estrela do outro brilha e a sua não. Acontece.
Nem perfeitos somos por natureza. É tudo uma questão
temporária. Depois, mais equilibrado, o brilho da sua voltará.
Por isso repetimos, vá sempre em frente, nem que seja pelos
lados.
Você já tem tempo de serviço suficiente para aposentar-se,
mesmo assim racionalize. Não o faça enquanto não tiver outras
perspectivas de atividades ocupacionais, coisa que já deveria ter
feito, mas foi pego de surpresa pela angústia. Protele, até
pressentir o que vai fazer, mesmo que o impossível aconteça:
chegar à conclusão que não poderá fazer nada. Mas aí você terá
todo o tempo do mundo para pensar e chegar as suas próprias
conclusões.
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Para Enfrentar a Rotina
O seu próprio trabalho poderá ser a sua terapia ocupacional.
Mas como conciliar cansaço, falta de interesse, lentidão, falta de
concentração naquilo que antes fazia com tanto prazer? Atente
que para adequar-se a essa situação, precisará da ajuda dos
terapeutas, talvez neurologistas e outros. Nessa montanha russa,
onde cada caso é um caso, por vezes precisará de remédios que
o estimulem. Por outras, daqueles que o tranqüilizem. Existem
"n" estados emocionais. O importante é que com a ajuda deles,
você se mantenha ativo, não deixando o desânimo tomar conta.
A força de vontade tem que ser total para não cair em deslizes.
Procure preservar a sua produtividade normal e acima de
tudo, controlar-se para que o seu humor não fique entre altos e
baixos - o que poderá provocar instabilidade nos seus
relacionamentos interpessoais. Durante esse período, observe
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seus procedimentos e comunique-os ao seu médico, caso
verifique alguma mudança.
Insisto na manutenção das atividades habituais, porque fora
delas você se sentirá ainda mais inseguro.
Quem sabe já está na hora de merecidas férias, um
tratamento anti-estresse, ou mesmo a mudança de emprego e
procurar novos horizontes em sua vida? O importante é que em
meio a todas essas propostas, você encontre a melhor para si. O
que adiantará manter-se em uma rotina que não lhe dê prazer?
Procure se reencontrar, lutar por uma nova realidade.
Sua empresa está indo muito bem, seu patrão está em paz
com a vida, os seus colegas estão contentes, mas você como
está? Faço a colocação do seu trabalho e a sua manutenção,
porque talvez não seja ele o motivo da sua depressão. Motivos
outros é que a provocaram, mas diversas situações têm que ser
apresentadas para que você se situe. Seja qual for o causador do
seu mal-estar, é como fogo, se não cortar a fonte ele não se
apaga. Assim é a depressão, se você não se readaptar à nova
condição, à situação em que se encontra, ela não desaparecerá,
você tem que se reprogramar. Aos trancos e barrancos, você
poderá se manter em uma atividade. Mas, vale a pena se acabar,
talvez para manter um status social?
Se o emprego atual é sua fonte de renda, como conviver
sem ele? Não sendo possível adequar-se a ele, procure mudar,
até mesmo de ramo se for o caso, senão a tendência do seu caso
é só de agravar-se. Para mantê-lo, você se sufoca, fora dele
poderá desestabilizar seus laços familiares. Poderá encontrar
válvulas de escape no tabagismo, no álcool, nos bares da vida,
enfim os canais de fugas estarão sempre abertos a sua frente,
como estão para todos os mortais. Por acaso você é diferente?
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Daí, a necessidade da procura de soluções. A causa tem que ser
encontrada, curada, cortada pela raiz. Paliativos não adiantarão.
Tem que ser o cara a cara com a realidade. Necessariamente,
nem sempre o seu trabalho é a fonte do problema. Ele apenas
sofre as conseqüências de outros fatores. Mas fora de uma
atividade habitual, você poderá enfrentar uma realidade ainda
pior. Sentir-se inútil, solitário, sentir autopiedade, insegurança,
etc.


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