QUALIDADE DE VIDA
DEFINIÇÃO, CONCEITOS E INTERFACES
COM OUTRAS ÁREAS DE PESQUISA
Autores:
MARCO ANTONIO BETTINE DE ALMEIDA
GUSTAVO LUIS GUTIERREZ
RENATO MARQUES
Prefácio do Professor Luiz Gonzaga Godoi Trigo
São Paulo
Escola de Artes, Ciências e Humanidades - EACH/USP
2012
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO-NA-PUBLICAÇÃO
Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo
Universidade de São Paulo
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Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
Almeida, Marcos Antonio Bettine de
Qualidade de vida: definição, conceitos e interfaces com outras
áreas, de pesquisa / Marcos Antonio Bettine de Almeida, Gustavo Luis
Gutierrez, Renato Marques : prefácio do professor Luiz Gonzaga
Godoi Trigo. – São Paulo: Escola de Artes, Ciências e Humanidades
– EACH/USP, 2012.
142p.: il.
Modo de acesso ao texto: <http:/www.each.usp.br/edicoes-
each/qualidade_vida.pdf>
ISBN: 978-85-64842-01-4
1 Qualidade de vida. 2.Promoção da saúde. I. Gutierrez,
Gustavo Luis.II. Marques, Renato. III. Trigo, Luiz Gonzaga Godoi,
pref. IV. Título
CDD 22.ed. – 613
Sumário
9 Introdução
Capítulo 1
13 1.1 Qualidade de vida: uma área de conhecimento em processo de definição
23 1.2 Percepções objetivas de qualidade de vida
26 1.3 Percepções subjetivas de qualidade de vida
32 1.4 Estilo, modo e condição de vida como constituintes da qualidade de vida. As relações entre as esferas objetivas e subjetivas de percepção
39 1.5 Qualidade de vida, saúde e atividade física
50 1.6 Índices do IBGE: instrumentos para análise dos indicadores e das políticas públicas
Capítulo 2
59 As interfaces de uma área de pesquisa multidisciplinar
59 2.1 Qualidade de vida: discussões contemporâneas (RDH e SF-36)
64 2.2 Políticas públicas de lazer e qualidade de vida: a contribuição do conceito de cultura para pensar as políticas de lazer
74 2.3 Esporte: relações com a qualidade de vida
79 2.4 Comentários sociológicos da cultura alimentar
85 2.5 A Educação nutricional desde a ótica de Pierre Bourdieu
90 2.6 Gestão e qualidade de vida na empresa
99 2.7 Patologias sociais e qualidade de vida na sociedade moderna
109 2.8 Gestão e qualidade de vida: o esporte como meio para a integração e bem-estar entre os funcionários da empresa
119 2.9 Inovação tecnológica edesenvolvimento humano: aspectos importantes para a análise da qualidade de vida
125 2.10 Documento eletrônico e assinatura digital: inovação tecnológica no Direito brasileiro e os benefícios à qualidade de vida
129 Observações Finais
131 Bibliografia
PREFÁCIO
Cada vez mais se fala sobre qualidade de vida. É uma concepção que envolve parâmetros das áreas de saúde, arquitetura, urbanismo, lazer, gastronomia, esportes, educação, meio ambiente, segurança pública e privada, entretenimento, novas tecnologias e tudo o que se relacione com o ser humano, sua cultura e seu meio.
Os conceitos e concepções referentes à qualidade de vida são bastante diversos. Por exemplo, no Dicionário Oxford de Filosofia (Rio de Janeiro: Zahar, 1997) a consulta ao vocábulo remete diretamente à outro vocábulo, Felicidade . É uma visão bastante específica do tema, apesar de fugir dos aspectos mais práticos do problema. Por outro lado, na década de 1990, o filósofo alemão Hans-Magnus Enzensberger, considerava que o luxo do futuro, um dos patamares mais elevados da qualidade de vida do ponto de vista do consumo capitalista, será menos supérfluo do que estritamente necessário. Os novos luxos, segundo ele, seriam: tempo, atenção, espaço, sossego, meio ambiente e segurança. Pode ser um paradoxo, mas em um mundo fragmentado e contraditório, envolvido em crises econômicas, políticas e sociais cíclicas, os paradoxos são comuns.
Mesmo as atividades ligadas ao prazer e às delícias da vida são comprometidas pelos limites e carências dos seres humanos. Gilles Lipovetsky pergunta como se explica que a melhoria contínua das condições de vida material não ocasione de modo algum a redução do mal estar na civilização ? O paradoxo maior, ei-lo: as satisfações vividas
são mais numerosas do que nunca, a alegria de viver fica estagnada ou até recua; a felicidade parece continuar inacessível enquanto temos, ao menos aparentemente, mais oportunidades de lhe colher os frutos. Esse estado não nos aproxima nem do inferno nem do paraíso; define simplesmente o momento da felicidade paradoxal
(A felicidade paradoxal. São Paulo; Companhia das Letras, 2007).
Mas essas discussões acontecem em um mundo pretensamente desenvolvido no ocidente e em algumas partes da Ásia-Oceania e Oriente Médio, onde os IDHs atingem níveis considerados mais satisfatórios, pois em vastas áreas do planeta a miséria e a opressão impedem que se chegue a um padrão elementar sobre as condições de qualidade de vida, restando apenas a indiferença dos mais bem aquinhoados de bens materiais, mas ainda carentes de sentido e significado, em relação a uma imensa massa humana alijada das benesses do desenvolvimento material e tecnológico. Mais um paradoxo, representado pelo permanente abismo entre os ricos e os pobres do planeta, em uma época onde a ciência e a tecnologia pensam poder quase tudo.
Em uma época em que várias igrejas, sindicatos, partidos políticos, governos, empresas respeitáveis e até mesmo universidades se renderam à ambição e ao egoísmo, não é estranho que o incômodo contemporâneo, sucessor de incômodos mais antigos, perturbe a desejável e idílica serenidade que a mídia tenta passar. Mas essa mesma mídia mescla a sensação de bem-estar aos medos e traumas, formando o contexto onde esses paradoxos se desenvolvem.
Os três autores desse texto sobre Qualidade de vida: definição, conceitos e interfaces com outras áreas de pesquisa compreendem essas complexidades contemporâneas, o interesse pela vida e o desejo que as pessoas sentem de bem viver. Souberam superar os clichês da problemática e as condições meramente objetivas representadas por tabelas e gráficos. Claro que pontos objetivos são importante em um estudo acadêmico, mas as percepções subjetivas são igualmente significativas e o texto explora essa riqueza de argumentos e possibilidades. Está preparado o terreno para uma boa discussão interdisciplinar sobre qualidade de vida, que acontece a partir do segundo capítulo e se aprofunda pelo texto. As implicações do lazer, da cultura, do esporte, da alimentação são exploradas como constituintes das políticas públicas e
privadas que garantem incremento das condições de qualidade de vida. Não é apenas uma questão individual, mas também social e comunitária, onde os campos do ócio e das atividades produtivas, inclusive as novas tecnologias, influenciam essas políticas e práticas.
É importante que esses pesquisadores tenham ampliado o campo da discussão sobre qualidade de vida, incorporando diversos pontos que aprofundam a análise e oferecem novas perspectivas sobre o tema. Para diversos profissionais e estudantes, essa temática relaciona-se diretamente com seu campo de atuação ou pesquisa. Compreender as novas estruturas sociais e políticas, econômicas e culturais, que influenciam a qualidade de vida das pessoas é fundamental em um planeta cada vez mais conectado, seja no campo virtual ou nas complexas realidades cotidianas. Marco Bettine de Almeida, Gustavo L. Gutierrez e Renato Marques somaram esforços e idéias em uma proposta multidisciplinar, pluralista e comprometida com os desafios de entender e melhorar as vidas das pessoas em um mundo ao mesmo tempo mais confortável e desafiador, desenvolvido a altamente competitivo, onde as tecnologias de comunicação e informática mascaram, de certa forma, as angústias e dilemas do cotidiano estressante, principalmente nos grandes centros urbanos.
Este livro é uma plataforma inicial que envolve algumas possibilidades e se insere no universo interdisciplinar que marca muitas de nossas novas universidades e campos de atuação profissional. Eles conseguiram avançar nesse campo e a leitura do texto trará novas idéias e alternativas sobre essa questão humana, demasiadamente humana, parafraseando Nietzsche. Boa leitura.
Luiz Gonzaga Godoi Trigo
Professor Titular da Escola de Artes, Ciências e Humanidades
da Universidade de São Paulo
INTRODUÇÃO
Este livro procura apresentar ao leitor um panorama abrangente das principais discussões e problemas relacionados com a questão da qualidade de vida, desde uma perspectiva acadêmica e contemporânea. Parte do princípio que por trás de iniciativas pontuais e, muitas vezes simples, como um programa de ginástica laboral ou de antitabagismo, os quais sem nenhuma dúvida são importantes e úteis, existe também um debate conceitual denso, atual e sistemático.
A principal característica deste debate é a interdisciplinaridade. A pesquisa sobre qualidade de vida ultrapassou sua origem na área de saúde e constitui hoje um dos campos mais importantes para o diálogo entre as diferentes disciplinas e escolas de pensamento, no sentido da busca de avanços reais para as pessoas das mais diferentes culturas. Esta vocação original para a interdisciplinaridade permite trazer para o mesmo espaço de discussão pessoas e áreas que, de outra forma, muito dificilmente encontrariam um denominador comum para o diálogo e o crescimento intelectual conjunto.
Esta diversidade, ao mesmo tempo em que disponibiliza uma riqueza impar de ideias, exige do pesquisador disciplina e grande rigor metodológico no sentido de não perder de vista os paradigmas originais de cada área no processo de aproximação. Neste sentido, o livro caminha todo o tempo na situação, em alguns momentos paradoxal, de aproveitar as possibilidades teóricas dessas interfaces sem, contudo, cair na
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tentação fácil da construção de uma colcha de retalhos onde cada parte tem pouco compromisso na articulação entre os fundamentos da própria área de origem e as características constitutivas das outras áreas com as quais dialoga.
Procurando ser coerente com este compromisso, o livro inicia o primeiro capítulo apresentando uma reflexão sobre a constituição e principais características da área de pesquisa em qualidade de vida, como forma de uniformizar a linguagem e determinar uma base conceitual que deixe o mais claro possível, frente à complexidade e diversidade do campo, as diferentes aproximações que serão apresentadas a seguir. A pesquisa em qualidade de vida, no que diz respeito à forma de apresentar seus resultados, caminha de um extremo ao outro. Por um lado, pretende dar conta da enorme complexidade de todos os fatores que impactam com importância nas condições de vida das pessoas, e, por outro, espera poder apresentar o resultado na forma simples de um índice numérico. As vantagens da apresentação do resultado da pesquisa na forma de um índice são evidentes: permite ilustrar o complexo como algo simples, ou pelo menos aparentemente simples, e viabiliza comparações entre diferentes populações ou de uma mesma população no tempo. Não se pretende aqui questionar esta dimensão da pesquisa em qualidade de vida; acreditamos que os principais índices desenvolvidos guardam uma relação significativa com o fenômeno que pretendem avaliar. Sua melhor utilização, contudo, vai depender de conhecer os elementos que lhe deram origem, capacidade para trabalhá-los de forma desagregada e acesso aos dados de conjuntura mais significativos. Ainda no primeiro capítulo deste livro, são apresentados aspectos do WHOQOL desenvolvido com apoio da Organização Mundial da Saúde e outros índices utilizados no Brasil, a partir do trabalho do IBGE.
O segundo capítulo do livro procura exemplificar algumas das interfaces que a pesquisa em qualidade de vida possibilita, apresentadas em ordem de abrangência, partindo de discussões mais gerais e conceituais, até chegar a questões mais específicas como a relação com o esporte e as inovações tecnológicas. Esperamos que a diversidade de enfoques, os casos e exemplos apresentados, assim como a bibliografia
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comentada possam ser úteis às pessoas interessadas nesta área de estudo e, se possível, despertar interesse e curiosidade naqueles que estão chegando agora.
Boa leitura!
CAPÍTULO 1
QUALIDADE DE VIDA: DEFINIÇÕES E CONCEITOS
O universo de conhecimento em qualidade de vida se expressa como uma área multidisciplinar de conhecimento que engloba além de diversas formas de ciência e conhecimento popular, conceitos que permeiam a vida das pessoas como um todo. Nessa perspectiva, lida-se com inúmeros elementos do cotidiano do ser humano, considerando desde a percepção e expectativa subjetivas sobre a vida, até questões mais deterministas como o agir clínico frente a doenças e enfermidades.
Pode-se perceber inúmeros esforços na tentativa de elucidar esse campo de conhecimento. Compreender qualidade de vida como uma forma humana de percepção do próprio existir, a partir de esferas objetivas e subjetivas, é um desses. Porém, é preciso que, para uma compreensão adequada, não haja reducionismo perante esse tema, pois o que se percebe são inter-relações constantes entre os elementos que compõem esse universo.
Para melhor compreender a área de conhecimento em qualidade de vida é necessário adotar uma perspectiva, ou um paradigma complexo de mundo, pois se expressa na relação entre o Homem, a natureza e o ambiente que o cerca (BARBOSA, 1998). Por exemplo, embora haja diferença entre esferas de percepção deste conceito, para compreendê-las melhor é preciso que sejam associadas, que a influência de uma sobre a outra seja considerada, formando um todo.
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1.1 Qualidade de vida: uma área de conhecimento
em processo de definição
A presença do termo qualidade de vida é facilmente percebida no
linguajar da sociedade contemporânea, sendo incorporado ao vocabulário
popular com várias formas de conotação. Parece que existe um consenso
de que é algo bom falar em qualidade de vida, mesmo sem definir
exatamente do que está se falando.
O senso comum se apropriou desse objeto de forma a resumir
melhorias ou um alto padrão de bem-estar na vida das pessoas, sejam
elas de ordem econômica, social ou emocional. Todavia, a área de
conhecimento em qualidade de vida encontra-se numa fase de construção
de identidade. Ora identificam-na em relação à saúde, ora à moradia, ao
lazer, aos hábitos de atividade física e alimentação, mas o fato é que essa
forma de saber afirma que todos esses fatores levam a uma percepção
positiva de bem-estar.
A compreensão sobre qualidade de vida lida com inúmeros
campos do conhecimento humano, biológico, social, político, econômico,
médico, entre outros, numa constante inter-relação. Por ser uma área de
pesquisa recente, encontra-se em processo de afirmação de fronteiras
e conceitos; por isso, definições sobre o termo são comuns, mas nem
sempre concordantes. Outro problema de ordem semântica em relação à
qualidade de vida é que suas definições podem tanto ser amplas, tentando
abarcar os inúmeros fatores que exercem influência, como restritas,
delimitando alguma área específica.
Não é difícil observar manifestações desse movimento. Por exemplo,
na edição número 1897 da revista Isto É, do mês de março de 2006, a
matéria de capa intitula-se “9 lições de qualidade de vida: mudanças que
você pode promover no seu dia-a-dia para conquistar um novo padrão
de bem-estar físico e mental, e viver melhor”. Neste momento, serão
realizadas duas análises sobre esse objeto. A primeira em relação ao
conteúdo do título da reportagem, a segunda referente ao conteúdo do
texto como um todo.
Nota-se que o título encerra que qualidade de vida depende de
ações individuais para que seja transformada, pois passa a ideia de que
o sujeito pode mudar seus hábitos e, com isso, melhorar seu padrão de
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bem-estar e viver melhor. Além disso, coloca que bem-estar e qualidade
de vida são sinônimos ou que, pelo menos, um exerce interferência sobre
o outro.
Quanto ao conteúdo da matéria, que dispõe de cinco páginas da
revista, começa com uma frase curta: “Qualidade de vida virou um objeto
de desejo”. Essa afirmação direciona para uma percepção do tema como
um objeto a ser alcançado, ou seja, como se para chegar a esse nível
fosse preciso estabelecer padrões de realizações na vida. Além disso,
são apresentados em seguida (compreendendo a maior parte da matéria)
nove passos que, se seguidos pelo sujeito, prometem ajudá-lo a alcançar
tal objetivo: “1. Cuide de sua vida sexual; 2. Tenha prazer; 3. Garanta mais
tempo para si mesmo; 4. Movimente o corpo; 5. Coma bem; 6. Não exija
demais; 7. Vá ao médico com regularidade; 8. Mantenha boas relações
e 9. Cultive a espiritualidade”. Nota-se que essas orientações remetem
a hábitos individuais e formas de lidar com alguns dos acontecimentos
cotidianos, mas que nem sempre estão ao alcance do sujeito que procura
melhoria de qualidade de vida.
Em resumo, numa leitura descuidada sobre o tema, é possível
concluir que nem todos os sujeitos têm qualidade de vida, e que é preciso
se esforçar para obtê-la. E é essa a principal mensagem que se veicula
nos meios de comunicação.
Tal forma de entender qualidade de vida é muito corrente em
ambientes comerciais, propagandas de alimentos, condomínios
residenciais, campanhas políticas, entre outros. A concepção sobre
qualidade de vida, que a eleva como um objeto a ser alcançado mediante
esforço do sujeito, promove uma corrida para alcançar algo que o senso
comum sabe que é bom, mas não tem claros seus limites conceituais
e sua abrangência semântica. É como se tratasse de um ideal da
contemporaneidade, que se expressa na política, na economia, na vida
pessoal. Busca-se qualidade de vida em tudo (BARBOSA, 1998).
Qualidade de vida tornou-se, em muitas circunstâncias, um jargão
útil a promessas fáceis e propagandas enganosas. Isso ocorre devido a
uma falta de compreensão específica sobre o termo, e sua consequente
colonização por parte dos meios comerciais e de comunicação, que
o utilizam como justificativa para tornar seus produtos úteis, ou para
manipular a opinião pública.
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Finalizando a análise desta reportagem, é preciso salientar
uma outra relação presente no senso comum referente à definição de
qualidade de vida: a ligação desta com a saúde e a atividade física.
Talvez essa seja a principal associação entre o tema estudado e um de
seus elementos, possuindo mitos e crenças fortemente enraizados na
sociedade contemporânea.
A intenção em citar essa matéria não é desvalorizá-la ou invalidá-la
como tentativa de discussão sobre qualidade de vida, mas exemplificar
abordagens sobre esse tema que se encontram explícitas em nosso
cotidiano e principalmente na mídia. Nota-se que, ao lidar com essa área
de conhecimento, muitos meios de comunicação, assim como o linguajar
popular, buscam fatores que ilustram ou interferem sobre essa noção,
porém, sem definir ao certo a dimensão do objeto. Por essa falta de
especificidade terminológica e de uma visão fragmentada sobre o tema,
muitas vezes qualidade de vida passa a ser, de forma equivocada, um
termo abordado como algo a ser alcançado e que depende unicamente
da boa vontade e da atitude individual do sujeito em mudar seus hábitos.
Nesse sentido é que estudos em qualidade de vida podem se
centrar, buscando alternativas para a melhoria do nível de vida do maior
número de pessoas possível, pois isso não depende só do sujeito.
Em abordagens sobre qualidade de vida, é necessário ter atenção à
multiplicidade de questões que envolvem esse universo, desde parâmetros
sociais até de saúde ou econômicos. Esses indicadores podem ser
analisados (e assim o são) por diferentes áreas de conhecimento, com
referenciais e procedimentos diferentes, sendo vinculadas definições e
concepções variadas.
É possível observar esforços em estabelecer um tratamento
científico para o universo de qualidade de vida. Devido ser esta uma área
multidisciplinar, pode-se observar várias frentes de pesquisa e reflexão.
Para uma racionalização da análise sobre esse objeto, as formas de
definições sobre o tema serão analisadas em dois momentos: Análise
semântica do termo e discussão sobre sua abrangência; Definições sobre
essa área de conhecimento, com o objetivo de cercar suas variáveis e
campos de estudo.
18 Qualidade de Vida
Quanto à análise semântica, tem-se que o termo Qualidade, num
sentido filosófico, refere-se a um caráter do objeto, que a princípio nada
diz sobre ele, suas propriedades ou possibilidades. Significa uma forma
de estabelecer valores. Caracterizar algo pela sua qualidade é estipular
um nível bom ou ruim a ele; porém, essa atribuição é subjetiva, de acordo
com o referencial e os elementos considerados. O que é boa qualidade
para alguém não é necessariamente para outra pessoa (BETTI, 2002).
Ao atribuir valores a um objeto, está implícita a veracidade da
existência real do mesmo. Consequentemente, o que se analisa não é a
presença ou ausência deste no mundo concreto, mas seu valor perante
às variáveis que o rodeiam.

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