QUALIDADE DE VIDA - parte 5


A ideia de uma prática esportiva pluralista trouxe a possibilidade de democratização e dissociação do esporte e do atleta profissional. A abrangência social do esporte passou a ser preponderante. As formas de exercício do direito ao esporte passaram a ser o esporte-educação, o esporte-lazer e o esporte de alto desempenho. Essas dimensões do conceito contemporâneo de esporte podem ser explicadas por princípios: a.) do esporte-educação, qual seja, princípios socioeducativos voltados à participação, à cooperação, à coeducação, à corresponsabilidade, à inclusão, ao desenvolvimento esportivo e ao desenvolvimento do espírito esportivo; b.) do esporte-lazer, constituído pelo princípio da não-obrigatoriedade e da adaptação para a participação de todos; e c.) do esporte de alto desempenho, com foco na superação, na performance e no uso de diferentes tecnologias.
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Com a globalização tecnológica e a mundialização cultural, o esporte incorpora rapidamente as principais características desses fenômenos sociais. Os avanços tecnológicos possuem aspectos positivos – como o uso de mídias para o ensino tático e técnico, novos materiais como fibra de carbono, nutrição, psicologia – e aspectos negativos – os diferentes tipos de doping, aspectos financeiros como motor exclusivo da prática, perda da relação entre o atleta e o país de origem.
Na mundialização cultural, o esporte se integra ao meio social conforme suas dimensões e características locais. Por exemplo, o esporte de lazer adapta-se à realidade cultural local como, por exemplo, o jogo de futebol dos índios da tribo de Caetés, que a partida termina quando uma equipe marca o primeiro gol. Na dimensão pedagógica, cada local de trabalho possui características distintas, como nos mostram os livros de ensino desportivo. Porém, o esporte de alto rendimento profissional é aquele que, pelo fenômeno da secularização, da igualdade, da especialização, da racionalização, da burocracia, da quantificação e do recorde, integra uma realidade cultural sem sofrer adaptações. Uma competição mundial na China, por exemplo, é a mesma nos Estados Unidos, independente do modelo econômico, cultural e social desses e de outros países, o que mostra que o esporte burocratizado estrutura-se em um todo coeso e é justamente essa coesão que possibilitou o esporte se tornar um fenômeno mundial.
A partir do momento que o esporte passa a ser um fenômeno mundial, ele sofre com uma crise ética, principalmente quando seus objetivos deixam de ser a prática e passam a incorporar aos seus fins o uso político-econômico, como assistimos na Alemanha com Hitler, na União Soviética com Kruschev, nos Estados Unidos com Nixon, no Brasil com Médici, na Argentina com Afonsín. Ao mesmo tempo, temos por um lado essa postura estratégica do esporte e, por outro, a busca pelo jogo limpo e pela transparência esportiva, mostrando que o esporte reflete os conflitos sociais com os quais, hoje, qualquer manifestação humana se depara.
O esporte passa a ser movimento de massa por meio da transformação do sentido da prática; primeiramente como rendimento máximo, para o esporte participação e escolar, com o rendimento possível.
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Outro ponto a ser lembrado sobre a massificação do esporte é que a partir da ampliação dos praticantes, aumentaram-se os investimentos do Estado, levando a uma transformação no conceito de planejamento urbano e de políticas públicas no setor. O próprio desenvolvimento na área científica demonstrou um avanço no entendimento do esporte participativo nas escolas, juntamente com a prática das modalidades. Nesse sentido, é razoável defender a ideia de que o esporte participação como cultura espelha mais a sociedade atual do que a prática de alguns escolhidos geneticamente para representar o país como monocultura. Porém, o esporte participação necessita de um espelho, algo para mimetizar, e isso é oferecido pela espetacularização, por meio da sua beleza, da arte, da integração e da plasticidade. As imagens veiculadas ao esporte, bem como um aparato midiático de grande proporção, leva a alimentação do sentido da participação da prática, e quanto mais pessoas colocam o esporte no seu cotidiano, mais espetacularizado ele fica. Esse processo histórico complexo oferece uma pequena base para entender a esportivização da sociedade e como ela está presente na vida das pessoas, simbolizando competição, originalidade, beleza, frustração, vitória, reciprocidade ou alegria, tornando as relações sociais repletas de valores esportivos. Aspectos que devem ser pensados quando os relacionamos com a busca de qualidade de vida.
Outro ponto importante é pensar o fascínio do esporte derivado de aspectos que, de forma diversa, estamos habituados a experimentar e admirar nos espetáculos. O aspecto estético é um dos elementos na consolidação da popularidade do fenômeno esportivo. O esporte não é somente um “tema” e/ou “inspiração” para obras de artes, mas, também, é a própria manifestação artística, estabelecendo diálogos com outras linguagens.
A discussão sobre o grau de relacionamento entre o esporte e o espetáculo não é recente. Por exemplo, Pierre de Coubertin, quando idealizou a recriação dos Jogos Olímpicos na modernidade, já os concebia não somente dedicados ao esporte, mas como festivais culturais em um sentido ampliado, tendo implementado concursos de poesias, de artes plásticas e mesmo de músicas. O esporte como espetáculo constrói valores; tornando-o mais que um objeto puramente estético, traz consigo o conteúdo ético. Dessa ética, o esporte pode ser veículo de educação. Demonstrado a inserção do esporte na sociedade e sua relação com as
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manifestações humanas, o esporte como manifestação de massa começa a ser objeto de discussão na pedagogia. Não demorando muito para ser veículo de ensino-aprendizagem, desde os próprios conteúdos ligados ao movimento até sentidos que os indivíduos dão à prática.
O esporte pode ser entendido como um campo de estudo composto de incontáveis formas de relações humanas, todas elas passíveis de serem examinadas pela ótica das orientações educacionais e dos valores morais. O esporte transmite valores em qualquer ambiente, por isso a importância para uma educação para prática esportiva e, ao mesmo tempo, uma educação do esporte enquanto fenômeno social. A primeira educação é a do gesto, da técnica, do controle emocional e dos princípios das ciências do esporte; a segundo, uma educação dos valores, da alteridade, da valorização da cooperação e da problematização do esporte de alto rendimento que é vinculado à mídia.
A relação do esporte com a educação não é recente; ele foi elaborada pela aristocracia inglesa no século XIX, entendida como uma espécie de “escola de caráter”, isto é, como uma prática que ajuda a formar os jovens dentro de princípios de hombridade e de comportamento civilizado, preparando-os para competirem entre si dentro de uma ordem instituída e inserida no grupo social delimitado. Graças ao sucesso do movimento olímpico, no século XX, o esporte tornou-se um elemento central da educação moral. Mas, a legitimação de uma “ética esportiva” não ficou restrita ao âmbito da escola, uma vez que o esporte se difundiu e se desenvolveu em outras instituições.
A educação consiste em transmitir normas de comportamento técnico-científico (instrução) e moral (formação do caráter) que podem ser compartilhadas por todos os membros da sociedade. Por isso, a educação deve ser entendida como inseparável de princípios éticos como igualdade, liberdade, justiça e felicidade, assim como da aceitação do direito às diferenças e da preservação da autonomia individual ou institucional. Podemos pensar a educação esportiva no ensino das modalidades, das técnicas, das táticas, da visão espacial, no estímulo das capacidades sensoriais, no desenvolvimento fisiológico, na busca pela saúde e manutenção da saúde pela prática reiterada no tempo.
O esporte, na sua origem, derivava de jogo e brincadeira. Eles eram parte da cultura, como expressão das tradições do sagrado ou do profano,
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consistindo em uma atividade essencialmente lúdica de caráter ritual. Pelas suas exigências, essas atividades celebravam o corpo, a força, a beleza e o mágico. Uma característica do esporte moderno é retirar o caráter ritual religioso do jogo e o transformar em algo secularizado, sem estruturar-se na religião, incorporando elementos racionais, como medidas, recordes e igualdade de chances.
A primeira aproximação possível entre o esporte e a promoção da saúde é recuperar os aspectos primeiros da gênese do esporte, que é o movimento lúdico e prazer trazendo para a sociedade contemporânea, desvinculando o esporte de rendimento máximo, para a prática do movimento lúdico com suas regras e estruturas, valorizadas pela mídia. O ritual esportivo e seu caráter essencialmente mágico, como os uniformes – a camisa da equipe –, as bandeiras, são exemplo de veneração que podem ser utilizados como meios de promoção da saúde, valorizando o esporte pela beleza do movimento.
A quantificação geralmente se faz acompanhar de dois outros fenômenos muito frequentes no mundo esportivo de alto rendimento que é a especialização – definição dos papéis a serem executados pelos atletas – e as estratégias – táticas de jogos cada vez mais formais, rígidas e calculistas, estes dois elementos visam, em última instância, um melhor desempenho dos atletas e das equipes nas competições. Essas características do esporte podem servir tanto para afastar dos cânones da qualidade de vida, como aproximar. A quantificação pode ser marca de desempenho ótimo, como parâmetro de envolvimento com a atividade e busca de resultados intrínsecos do praticante, para poder comparar no sentido de melhora da performance.
A introdução do uso de aparelhos tecnológicos confere mais racionalidade e precisão aos movimentos; esse processo pode levar tanto a uma exacerbação do culto exagerado ao corpo, ou também utilizar os aparelhos para promover o movimento pelo esporte. Exemplo disso é utilizar a tecnologia para adaptar a altura da tabela de basquete, ou mesmo criar formas de interação entre os praticantes de alguma modalidade. No surf, a utilização de pranchas com maior flutuabilidade e equipamentos de segurança para os iniciantes. Fica claro que se propõem à utilização do fenômeno esportivo como valorização do movimento, e a sistematização do movimento reiterado no tempo para a busca de um
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estilo de vida saudável. O rendimento não será a qualquer custo, mas utilizar as modalidades esportivas como ampliação das possibilidades de movimento. Consagrando o esporte como prática social que pode ser vista como parte da modernização do mundo ocidental, de seu processo civilizador, no sentido que lhe atribuiu Nobert Elias (1980).
2.4 Comentários sociológicos da cultura alimentar
A questão da alimentação no Brasil ganhou relevância acadêmica, principalmente após os estudos sobre a fome de Josué de Castro. A influência de Castro reverberou para outras áreas, como a das artes audiovisuais, consagrando filmes de Glauber Rocha com o Cinema Novo e a estética da fome, influenciando meios teatrais e musicais. Podemos recordar da tropicália, de Gilberto Gil e Caetano Veloso, bem como os sambas de protesto de Chico Buarque tratando do tema.
A estética da fome foi transformada pela estética do gordo; hoje, nos causa maior impacto a versão cinematográfica e documental de obesos mórbidos do que as cenas gritantes das crianças na Somália da década de 1990 durante os duros anos de guerra civil. Isso mostra que o conceito de alimentação e de preocupação alimentar é socialmente construído, bem como a estética do saudável. Será que nos acostumamos a visualizar as “anoréxicas” e “bulímicas” com as roupas da última moda, transformando o sentido do que é um corpo saudável?
Passados os estudos da fome e sua estética, bem como a transformação do saudável nas artes, o conceito de cultura alimentar ganha contornos muito mais complexos do que a presença ou ausência de alimentos. Fala-se hoje da segurança alimentar e nutricional como um direito humano que deve ser garantido pelo Estado. Implica a garantia de todos a alimentos básicos de qualidade e em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais (COLLAÇO, 2003).
O conceito também prescreve práticas alimentares saudáveis, de modo a contribuir para uma existência digna em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana. A essa definição somam-se outros aspectos como: a.) soberania alimentar – frente aos fluxos de
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ampliação dos fast foods pelo mundo que, por vezes, substituem as comidas típicas que possuem um valor nutricional historicamente construído e muitas vezes contêm nutrientes que se adaptam às particularidades regionais; b.) a defesa da sustentabilidade do sistema agroalimentar, baseado no uso de tecnologias ecologicamente sustentáveis – utilização de recursos que agridam menos o meio ambiente, discutindo a questão da necessidade de produção de alimentos versus os problemas de distribuição e acesso; por fim, c.) a questão da preservação da cultura alimentar – hoje se consolidam as comidas light como monocultura alimentar, a ideia é introduzir novos hábitos sem perder as características culturais, descobrindo os motivos daquele alimento e reconstruindo as necessidades populacionais.
Podemos aprofundar o tema de cultura alimentar ao discutir a importância dos “sistemas alimentares” como uma resposta à necessidade de se analisar a alimentação em função dos processos de produção e de consumo, assim como de todas as etapas intermediárias, no contexto da sociedade num sentido mais amplo (MESSER, 1995).
Fazendo uma rápida análise desse programa, podemos entendê-lo não como a redução da alimentação a números calóricos, mas contextualiza-lo dentro do universo maior do educar para se alimentar, conduzindo esse processo dentro de um contexto cultural particular, que vai desde a produção até o consumo do alimento (MINTZ, 2001). Trata-se, portanto, de considerar todos os determinantes do consumo alimentar a partir das relações estabelecidas entre os diferentes agentes sociais participantes da cadeia alimentar: produtores, distribuidores e consumidores. Dessa forma, as especificidades locais, inclusive culturais, também seriam levadas em conta no estudo dessas relações e na definição de estratégias no campo da alimentação.
Mesmo com as novas mudanças de hábitos, não podemos esquecer que o ato de comer é construído culturalmente, sempre foi mediado por regras dietéticas, cujas origens e finalidades são múltiplas e, muitas vezes, são elaboradas a partir de diversas formas de saber, como o conhecimento científico, o senso-comum e as religiões (CANESQUI, 1988).
Nesse sentido, podemos compreender a cultura alimentar como um sistema simbólico, ou seja, um conjunto de mecanismos de controle, planos, receitas, regras e instruções que governam o comportamento
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humano quando o assunto é comer (BRANDÃO, 1981). Esses símbolos e significados são partilhados entre os membros do sistema cultural, assumindo um caráter público e, portanto, não individual ou privado.
A cultura alimentar é formulada, principalmente, por meio da atividade prática e do interesse utilitário (COLLAÇO, 2003). Atividade prática seria desde as condições objetivas para a produção do alimento até as possibilidades de adquiri-lo, seja pela troca através de moeda, seja pelas condições corpóreas para colher o alimento. O interesse utilitário é o valor simbólico que determinado agrupamento dá ao alimento. Portanto, a cultura alimentar é definida por meio das pressões materiais impostas pelo cotidiano e também pelo sistema simbólico, numa relação entre facilidade de adquirir o alimento versus o valor cultural que ele possui em determinada sociedade.
Para exemplificar a afirmativa acima, podemos apontar como exemplo os estudos (MINTZ, 2001) que abordam as mudanças alimentares em virtude da aquisição material e acesso aos bens. Grupos populacionais da Ásia e África que tiveram maiores condições financeiras ao longo do tempo foram paulatinamente substituindo sua base alimentar de tubérculos, para cereais e, posteriormente, incorporaram na sua dieta a carne.
Por isso é complicado apenas apontar as questões culturais e simbólicas como únicos componentes da cultura alimentar. Logicamente, a incorporação desses hábitos e dos alimentos adquiridos, a partir das facilidades materiais, foi culturalmente determinada de acordo com as tradições do lugar. Pode-se dizer que a dieta de uma determinada população relaciona-se com os símbolos compartilhados pelo grupo e suas condições materiais. Ou, utilizando os termos da qualidade de vida, a alimentação é uma relação direta entre as condições de vida (acesso) e estilo de vida (símbolos).
Podemos interpretar as regras que constituem o sistema simbólico como parte integrante do mundo das reações espontâneas, em que se constroem as regras e os hábitos alimentares mesmos. As regras que constituem o sistema simbólico são, em sua formulação, partes da construção racional do homem e possui uma nítida intenção de disciplinar o comportamento humano para a vida em comunidade.
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À luz dessas afirmações, pode-se apontar que nossos hábitos alimentares fazem parte de um sistema cultural repleto de símbolos, significados e classificações, de modo que nenhum alimento está livre das associações culturais que a sociedade lhes atribui (LÉVI-STRAUSS, 1973). Nesse caminho, vale dizer que essas associações determinam aquilo que comemos e bebemos, o que é comestível e o que não é. Símbolos, significados, situações, comportamentos e imagens que envolvem a alimentação podem ser analisados como um sistema de comunicação, no sentido de que comunicam sobre a sociedade que se pretende analisar.
A construção da linguagem pelo alimento não é de difícil visualização: nos banquetes de Platão, o estar à mesa é tão importante quanto os Discursos do Amor Platônico; as feiras na Idade Média e hoje, em muitos locais do Brasil, são importantes pontos de encontro tanto para o comércio quanto para as festas; para a Religião Cristã, lembramos do milagre dos pães e da transformação do corpo de Cristo na Última Ceia, imortalizada no quadro de Leonardo Da Vinci. São pequenos exemplos de como há cultura e símbolos em torno do alimentar-se.
Outro aspecto da cultura alimentar refere-se àquilo que dá sentido às escolhas e aos hábitos alimentares: as identidades sociais. Sejam as escolhas modernas ou tradicionais, o comportamento relativo à comida liga-se diretamente ao sentido que conferimos a nós mesmos e à nossa identidade social. Desse modo, práticas alimentares revelam a cultura em que cada um está inserido, visto que comidas são associadas a povos em particular (COLLAÇO, 2003). Por exemplo, gafanhotos, na cultura urbana paulista, seriam insetos e nada mais que isso; serpentes são para ter medo, bem como os escorpiões, diferente so significado que esses insetos possuem na cultura alimentar da Ásia.
Não é demais afirmar que aprendemos desde cedo a incorporar gostos, alimentos e tipos de comida, e este aprendizado, apesar de individual, insere-se no contexto cultural mais amplo. A comida e o comer assumem uma posição importante na construção das teias sociais de relacionamento de determinada comunidade, influenciando a vida cotidiana. Esse aprendizado, inserido em diferentes grupos sociais, determina a valoração dos diferentes alimentos, qualificando-os por sabor, gosto, estética e, muitas vezes, preço. Constrói-se, também, o momento particular de consumir determinado alimento, sequências de pratos, melhores receitas e dias específicos para comer esse ou aquele alimento.
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Em cada data comemorativa, um prato em cada região do planeta é o mais indicado para se servir à mesa.
Essas questões de cultura alimentar são tão complexas que estudos de grupos sociais são feitos de forma longitudinais, analisando, inclusive, aspectos religiosos, considerados pelos antropólogos como importante aspecto de formação da cultura alimentar (SAHLINS, 1979). As grandes religiões monoteístas, por exemplo, sempre se preocuparam em seus livros sagrados em estabelecer tabus alimentares delimitando o que os seguidores podem ou não comer. Regras dietéticas estão presentes na Bíblia, no Levítico e no Deuteronômio, classificando os animais em puros e impuros, permitidos ou proibidos para consumo. Assim, se fossemos da religião judaica, poderíamos comer animais que têm unha fendida dividida em duas e que ruminam, como boi, ovelha, cabra; mas não comeríamos aqueles que só apresentam uma dessas características, como camelo, lebre, porco, com unha fendida, mas que não são ruminantes. Essa lista segue com os que vivem na água, são comestíveis, aqueles com barbatanas e escamas, mas são imundos os que não têm essas duas características (TOPEL, 2003).
Discute-se se as proibições do consumo de determinados alimentos pretendem proteger o “organismo biológico” do indivíduo, por conter determinado nutriente ou defender o “organismo social” dos membros de determinado grupo religioso, fixando suas identidades em contraponto às identidades de participantes de outros grupos religiosos (SAHLINS, 1979). A resposta a essa questão é simples: tanto os alimentos tendem a proteger o indivíduo e seu bem-estar, quanto a comunidade. Marshal Sahlins discute o consumo de carne de porco pela religião judaica; apresenta tanto a dificuldade de digestão da carne, como a sua criação, dada a escassez de água e as impurezas próprias do animal. Essas regras dietéticas têm o caráter prático, fundado no conhecimento acerca das propriedades dos alimentos, como também fazem parte de um sistema simbólico mais amplo, ancorado na ideia de sagrado (LÉVI-STRAUSS, 1973).
Com o tempo, as vontades por determinados alimentos em detrimento de outros acabam por construir no grupo uma formação do gosto. O que se come afeta a maneira dos indivíduos conceberem e classificarem as qualidades do gosto, portanto, formar preferências pelos
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sabores (doce, amargo, salgado, picante etc.). Assim, a textura e o sabor constituem, em boa medida, o que é familiar nos alimentos e o que pode influir na aceitação de novos alimentos. As características visuais, como a cor, a forma e a aparência de conjunto, também afetam a aceitabilidade e as preferências alimentares, pois configuram aspectos do simbolismo alimentar (MINTZ, 2001). Sobre essa dimensão simbólica, Bourdieu (1983) afirma que as pessoas e os extratos sociais se distinguem pela maneira como as pessoas usam os bens materiais e simbólicos de uma sociedade de acordo com o acesso a esses bens, dando sentido ao mundo social. Por este motivo é tão importante compreender esses aspectos da cultura alimentar para construir formas de intervenção na dieta de determinada sociedade ou indivíduo.
Quanto à sociedade, sublinha-se a preocupação com o respeito e a preservação da cultura alimentar de cada povo. Nesse sentido, cada país deve ter condições de assegurar sua alimentação, sem que lhe seja imposto um padrão alimentar estranho às suas características e tradições. Essa concepção surge como uma reivindicação feita por grupos que percebem suas práticas alimentares ameaçadas pelos efeitos da globalização. Entre os efeitos nocivos, destaca-se a perda da soberania desses países em decidir o que produzir e comer. Também é denunciada a tendência global à massificação do gosto alimentar, observada a partir da preferência dos consumidores a produtos industrializados em detrimento dos produtos in natura. Quanto ao indivíduo, buscar dietas e formas de intervenção na alimentação de maneira a contemplar as características essenciais da sua cultura alimentar, principalmente quanto a preservação dos sentidos (olfato, tato, paladar e visão) que os alimentos possuem.
Portanto, o ato da busca, da escolha, do consumo e proibições do uso de certos alimentos dentre todos os grupos sociais é ditado por regras sociais diversas, carregadas de significados. Apreender a especificidade cultural dessas regras sociais, as quais precisam ser explicadas em cada contexto particular, é de extrema importância, pois o alimento constitui uma linguagem.
O alimento é uma forma do homem se expressar dentro de um contexto cultural particular, o preparar o alimento é carregado de ritual, traz consigo uma carga simbólica enorme, sendo fonte de sociabilidade e
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reciprocidade. Fazendo que as pessoas signifiquem e sintam pertencentes a determinado grupo através da comida. Vemos isto com certa frequência quando pessoas vão para um local, viajar ou morar, que possui hábito alimentar distinto, ou pior, não se encontra determinado alimento naquela localidade. Por vezes esse indivíduo se realiza quando o parente leva aquela farinha ou feijão. Se bem que o mundo globalizado deixa mais perto o alimento, ao mesmo tempo afasta a nostalgia do comer.
O caráter simbólico do alimento é importante, no entanto, não devemos esquecer da preocupação de construir em grupos populacionais amplos uma alimentação saudável. Esse conflito aparente entre hábito alimentar e saúde ao comer deve ser superado pela compreensão e adaptação das dietas e das vontades. È claro que essas questões são permeadas pelo poder aquisitivo dos segmentos sociais e por oscilações entre comer aquilo que é ditado pela nossa cultura e aquilo que é entendido como saudável. Por isso o esforço multidisciplinar em construir formas de intervenção na alimentação, preservando aquilo que são valores, daquilo que são modismos, do que faz sentido. Exatamente esta sensibilidade que devemos construir quando o assunto é intervenção na cultura alimentar.
2.5 A Educação nutricional desde a ótica de Pierre Bourdieu
A estruturação de propostas de ação em educação nutricional requer uma reflexão inicial a respeito dos fatores que interferem na percepção de qualidade de vida dos sujeitos, além de questões ligadas às suas condições socioeconômicas e culturais. Tais fatores exercem influência sobre as condições de acesso ao alimento, as formas de apreciá-lo, compreendê-lo e inseri-lo em seu estilo de vida.
A educação nutricional pode colaborar para que os indivíduos analisem suas práticas e, a partir disso, tomem decisões. Tal processo de mudança de hábitos deve agregar conhecimentos ligados ao campo da Educação e das Ciências Sociais, para que esteja inserido em um contexto político-social adequado de promoção da saúde e qualidade de vida. Há uma diferença fundamental entre um sujeito social que adota hábitos prejudiciais à saúde por falta de informações e alternativas, e o
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sujeito que prefere esse tipo de conduta por outros fatores como privilegiar, por exemplo, uma experiência que ele considera prazerosa. A educação nutricional, como é característica do campo das intervenções em qualidade de vida, procura divulgar informação e disponibilizar recursos para a mudança de hábitos pessoais a partir de um processo de conscientização, respeitando sempre a autonomia e responsabilidade de cada um.
A educação nutricional é útil e necessária também, porque, embora haja desigualdade entre classes sociais na distribuição de alimentos, a má alimentação não é problema apenas dos pobres. Os ricos também apresentam tal quadro, não por impossibilidade de acesso, mas por hábitos não-saudáveis presentes em seu estilo de vida. Pelo fato de a qualidade de vida relacionar-se com a satisfação e cultura individual, e se apoiar nos padrões do que determinada sociedade considera como boa vida, é preciso considerar tanto os aspectos objetivos quanto os subjetivos que a permeiam e delimitam. Os fatores objetivos lidam com questões referentes às condições e modo de vida dos sujeitos, enquanto que os aspectos subjetivos delimitam-se através do estilo de vida dos mesmos que, segundo Bourdieu (1983a), se caracterizam como ações individuais que refletem os hábitos e a carga cultural do sujeito, e que interferem diretamente em sua vida. Nesse sentido, para qualquer análise relativa à percepção de qualidade de vida se faz necessário considerar questões sociais que ditam possibilidades de ação dos agentes (fatores objetivos), e as escolhas que eles fizeram, de fato, para suas próprias vidas (fatores subjetivos). Por isso, é possível afirmar que padrões alimentares são determinados por questões que incluem, além de educação orientada para uma nutrição adequada, fatores socioeconômicos, ecológicos e culturais. E com base nessas premissas, a educação nutricional precisa considerar questões ligadas tanto à condição e modo de vida, quanto à cultura alimentar e as escolhas feitas pelo próprio sujeito.
Na busca por referencial teórico que investigue a relação entre aspectos objetivos e subjetivos, entre condição e estilo de vida, segue uma abreviada apresentação da obra de Pierre Bourdieu. Este sociólogo francês baseou-se na busca por categorias universais referentes às relações sociais, que permitissem a análise de diversos grupos, em diversas situações, considerando a inter-relação entre fatores objetivos, determinados pelo espaço social, e o poder de escolha e tomada de decisão por parte do sujeito.
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Na sociedade capitalista, as desigualdades sociais se mostram aparentes. O ato de comer não é uma simples luta pela sobrevivência, mas também um ato social que incorpora uma dimensão de diferenciação social. Comer não satisfaz apenas a necessidade biológica, mas preenche também funções simbólicas e sociais. Esse caráter simbólico se diferencia com a idade, situação social e outras variáveis (RAMALHO; SAUNDERS, 2000). Se comer é uma necessidade vital, o quê, quando e com quem comer são aspectos que fazem parte de um sistema que implica atribuição de significados ao ato de se alimentar (MACIEL, 2005).
Pode-se notar, em estudos relacionados a hábitos alimentares de diferentes classes sociais, que existem diferenças quanto ao acesso, à percepção, à preparação, à apreciação e à valorização dos alimentos entre diferentes agentes sociais. Tais variações dependem de seus habitus e sua identidade social como grupo.
Nesse aspecto, a comida, ou ainda o ato de alimentar-se, se transforma num ato simbólico. Existem cozinhas diferenciadas, maneiras culturalmente estabelecidas, codificadas e reconhecidas de se alimentar, nas quais os pratos são elementos constitutivos de uma identidade. A cozinha de um grupo é forjada na sua tradição, como afirmado no item anterior. Assim, deve-se levar em conta o processo histórico-cultural específico de cada existência. A culinária, ou as formas de se alimentar de um grupo social específico, torna-se uma forma de identidade. É possível, assim, pensar os sistemas alimentares como sistemas simbólicos em que códigos sociais estão presentes, atuando no estabelecimento de relações dos homens entre si e com a natureza.
Se hábitos alimentares obedecem a um código simbólico, é fundamental uma compreensão, por parte de profissionais da saúde, das especificidades que permeiam a dimensão simbólica dos grupos.
Partindo do pressuposto de que existe desigualdade no acesso aos alimentos, o alcance da possibilidade de escolha em relação ao quê, onde, quando, como e com quem comer, pode ser representado como a posse de um capital simbólico pelo agente. Ou seja, a aquisição de um reconhecimento social de que ele tem condições socioeconômicas que o diferenciam de outros e que lhe permitem circular em determinadas esferas da sociedade. Ao mesmo tempo em que esse capital ilustra ascensão social do sujeito, também é uma porta para o aumento de seu capital social.
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A partir do momento que possuir um capital simbólico específico posiciona determinado agente num estágio privilegiado dentro de seu grupo, o acesso a certos tipos de alimentos e, principalmente, ao capital cultural necessário para apreciá-los, faz dos possuidores de tais aspectos, sujeitos diferenciados socialmente.
Dessa forma, com base na obra e nos conceitos de Pierre Bourdieu, pode-se afirmar que a boa alimentação pode vir a se tornar um capital simbólico importante na sociedade capitalista, desde que os hábitos associados à busca por boa saúde se relacionem positivamente com a facilitação para encontros sociais e o status quo, proporcionada por aspectos como ascensão econômica, cultural política ou social. Nesse mesmo sentido, parece importante não associar o ato de alimentar-se corretamente com valores contrários, como dificuldade de interação social, esquisitice, arrogância e desagregação.
Parece importante que os programas de educação nutricional levem em conta o que é compreendido, em cada grupo social, por alimentar-se bem. Ou seja, a dimensão social do ato de se alimentar traduz um capital simbólico, facilitador da aquisição de capital social e que expõe a posse de capital econômico. O alimento bom ou ruim é determinado, também, socialmente.
Existem diferenças quanto à expectativa do sujeito frente a seu alimento. Classes sociais menos privilegiadas têm a necessidade de sentir-se com a barriga cheia, e por isso, somado à condição econômica desfavorável, recorrem a alimentos tidos como “pesados”, gordurosos, que compõem o prato principal (o arroz com feijão), enquanto que classes mais abastadas buscam alimentos mais leves, complementares, como misturas (peixes, legumes, frutas) (DANIEL; CRAVO, 2005).
Tais considerações demonstram que, na aplicação de programas de educação nutricional, se faz necessário considerar como se traduz o capital simbólico específico daquela estrutura e daquele espaço social, para, a partir daí, estabelecer metas e planos de ação. Talvez não seja possível afirmar que existe um campo nutricional (com base no conceito de campo de Bourdieu), mas pode-se afirmar que se trata de um subcampo de um espaço social maior, o campo econômico, com suas diferenças socioculturais. Isso é possível, visto que o capital simbólico relativo ao alimentar-se constitui uma das inúmeras formas de diferenciação social desse espaço.
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A tentativa de ensinar pessoas a melhorar seus hábitos alimentares só vai atingir seu objetivo se fizer sentido para os agentes, em seu espaço social. Ou seja, não basta dizer ao sujeito que ele deve se alimentar de maneira correta se isso demandar a adoção de hábitos alimentares pouco valorizados em seu meio, ou que não sejam de fácil acesso. Transformar o hábito alimentar dos sujeitos e, mais do que isso, fazer com que outras formas de alimento sejam valorizadas e aceitas como capital simbólico, é, com certeza, um caminho difícil. A percepção da dimensão simbólica, nos termos apresentados por Bourdieu, dos hábitos alimentares arraigados no grupo, parece um elemento importante pra facilitar essa transformação, ou pelo menos para não torná-la mais difícil ainda.
Deve-se considerar, para pensar a educação nutricional, duas esferas importantes. A primeira, compreender que a mudança de hábitos, ou seja, de estilos de vida, é diretamente dependente da melhoria de condições de vida. Ou seja, um sujeito só pode adotar certos hábitos se o acesso a eles lhe for garantido ou facilitado. Portanto, não basta centrar esforços apenas no sentido de conscientizar os sujeitos acerca dos benefícios de uma boa alimentação. Muitas vezes, principalmente no caso de esferas sociais menos privilegiadas, é necessário adotar programas de políticas públicas que facilitem e aumentem as possibilidades de escolhas de alimentos para o dia-a-dia desses sujeitos, evitando, inclusive, a culpabilização da vítima por suas escolhas, conforme apontado no item 1.1. Afinal, na sociedade capitalista o alimento é mercadoria e só pode ser obtido na troca por dinheiro.
A segunda esfera diz respeito à compreensão dos diferentes habitus e seu caráter de estrutura estruturante. Nisso se inclui que o capital simbólico, caracterizado pelo ato de se alimentar de determinada maneira, só faz sentido e tem valor se o grupo social específico assim o reconhece. Portanto, é necessário não apenas inserir novos conceitos de alimentação saudável, mas transformar paradigmas. Fazer com que o reconhecido e valorizado em determinado grupo social seja algo próximo do que se tem como ideal e objetivo no programa de educação nutricional.
Os agentes valorizarão e buscarão a aquisição de certo capital se este lhe fizer sentido e lhe trouxer reconhecimento. Ou seja, antes de inculcar novos hábitos no estilo de vida do sujeito, é preciso que toda sua
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compreensão quanto à alimentação, e de seu grupo social também sejam modificadas, para que certos hábitos sejam almejados por eles. Portanto, a questão da educação nutricional parece passar também por tentar estabelecer esforços tanto objetivos (na melhoria de condições de vida e na transformação de paradigmas), quanto subjetivos (na transformação de hábitos presentes no estilo de vida do sujeito e na percepção do que é reconhecido como valioso no meio social), para que intervenções tenham sucesso não somente como “doutrinas da boa alimentação”, mas como formas verdadeiras e eficientes de transformação social e promoção da saúde.
2.6 Gestão e qualidade de vida na empresa
Um pequeno histórico da relação entre qualidade de vida e o desenvolvimento da empresa mostra que há uma ligação entre a procura da qualidade dos produtos, das técnicas e tecnologias e a melhoria do ambiente de trabalho. Com novos maquinários, foi possível preservar a saúde do trabalhador, principalmente dos acidentes de trabalho, e, com a melhoria das técnicas de produção, propiciou-se a limpeza do ambiente, um dos requisitos para a qualidade dos produtos. Para ocorrer a qualidade dos produtos e da produtividade foi necessária a criação de novas técnicas e de procedimentos que interferissem na própria estrutura empresarial, como a diminuição dos empregados e qualificação dos trabalhadores, propiciando, para quem permanece na empresa, meios mais especializados de trabalho, já que com o desenvolvimento tecnológico, as profissões repetitivas tendem a extinguir-se.
Para melhorar a produção, foi necessária uma reestruturação no ambiente de trabalho. A própria saúde do trabalhador afeta diretamente na qualidade do serviço. Pois a rotatividade é negativa dentro da empresa, principalmente na linha de produção. Essa nova visão empresarial mudou o rumo do conceito de trabalho, de segurança e de higiene dentro das fábricas. Posteriormente, os avanços tornaram-se significativos, tanto em países desenvolvidos como subdesenvolvidos; todo este processo levou à preocupação com a responsabilidade social e à criação de selos de qualidade para serviços, produtos e clientes, como a criação do ISO’s; do SA 8000 e OHAS 18001.
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A responsabilidade social, em linhas gerais, é uma forma de conduzir os negócios da empresa de tal maneira que a torne parceira e corresponsável pelo desenvolvimento social. A empresa socialmente responsável é aquela que possui a capacidade de ouvir os interesses das diferentes partes (acionistas, funcionários, prestadores de serviços, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente) e conseguir incorporá-los nos planejamentos de suas atividades, buscando atender às demandas de todos e não apenas dos acionistas ou proprietários.
O SA 8000 é uma norma internacional, Social Accountability International, que discute as questões diretamente da qualidade de vida do trabalhador como o trabalho infantil, forçado, a saúde e a segurança, a liberdade de associação e o direito à negociação coletiva, a discriminação e o horário de trabalho. A ISO indica a qualidade dos produtos, serviços e dos meios de produção, a partir de selos. E, por último, OHAS 18001 preocupa-se com a saúde ocupacional do trabalhador.
Esse sistema de selos funciona, principalmente, devido ao mundo globalizado, em que as empresas não ficam restritas somente ao seu universo cultural, mas, para a exportação de produtos no mercado internacional devem se preocupar com os selos de qualidade dos produtos e serviços, e agora, com a responsabilidade social, há a exigência dos consumidores com a saúde do trabalhador. Existe a reivindicação dos consumidores que exigem o certificado para compra de tais produtos, fornecedores ou mesmo países preocupados com a responsabilidade social, levando as empresas nacionais a inserir-se nesse sistema. As empresas nacionais devem procurar alternativas e rumos da qualidade de vida na empresa, trilhando novos caminhos, pensamentos e, principalmente, resolver alguns dos problemas substanciais da qualidade de vida do trabalhador brasileiro. O debate torna ainda mais interessante se revermos as discussões internacionais a partir do referencial local, isto é, procurar absorver criticamente os preceitos estrangeiros colocando as nossas particularidades e problemas característicos.
Algumas mudanças já estão em processo, como os antigos ambientes insalubres que foram modificados por locais limpos, higiênicos e saudáveis, os funcionários da produção trocarem os seus famosos macacões por roupas brancas, a substituição de todo maquinário antigo
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por novos e mais mecanizados que protegem a vida do funcionário dos acidentes de trabalho. Esse é o novo universo das grandes corporações que, em um futuro próximo, serão exigências às médias e pequenas empresas nacionais.
Posterior ao movimento de higienização do ambiente de trabalho, que foi a preocupação governamental em vários campos, como saneamento básico, asfaltamento, fechamento de córregos, e, também, nas empresas, com locais claros, secos e com temperaturas saudáveis, houve uma reestruturação no conceito lazer, antes ligado à ociosidade – caracteristicamente negativa ao trabalho e trabalhador –, agora chamado: “Qualidade de vida do trabalhador”. Pois, como o descanso e o repouso são privilegiados no lazer, ele pode ser analisado à luz da qualidade de vida na empresa. Hoje, o lazer criou uma dimensão que o senso comum o pensa como algo sem uma ligação direta com as corporações industriais, mas, num passado próximo, o lazer foi parte desse processo de qualidade de vida e preocupação com a saúde do trabalhador ou, como preferirem, da diminuição do estresse físico. Percebeu-se que era necessário repouso e descanso depois de um dia estafante no trabalho.
O próximo passo das empresas foi a inserção da ginástica laboral, sendo uma outra resposta à qualidade de vida na empresa. Em outras palavras, há uma preocupação com este estresse físico no próprio trabalho. Percebeu-se que o tempo de descanso, de lazer não era suficiente para a saúde do funcionário, que eram necessários momentos inseridos no ambiente de trabalho que propiciassem um descanso direcionado. Os benefícios são inúmeros, como prevenção da lesão por esforço repetitivo, relaxamento, aliviamento das tensões, propiciar descanso e sociabilidade. A ginástica laboral se especializa no tipo de atividade exercida pelo trabalhador e no tipo de estresse físico encontrado nesse trabalho, tendo um nicho muito claro de atuação.
Agora o novo desafio deste século, na gestão dos recursos humanos e na preocupação da qualidade de vida na empresa, é com o estresse psíquico; para muitos, esta é a nova enfermidade da modernidade. Cabe uma reflexão para atentarmos a esse problema.
O estresse psíquico está intimamente relacionado com o grau de responsabilidade que o indivíduo está submetido durante um tempo ininterruptamente; não há um tempo predeterminado, pois é muito pessoal
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a quantidade de horas, dias, meses ou anos que alguém consegue suportar estando sob algum tipo de pressão psíquica. Por ser muito subjetivo e muito vago, o estresse psíquico é uma discussão pouco palpável se compararmos com a lesão por esforço repetitivo e dores corporais, que sabemos o músculo exato e temos técnicas avançadas e comprovadas que resolvam esse problema. Já no estresse psíquico, não há consenso sob o que o desencadeia, como resolver o problema e, principalmente, como evitá-lo; esse é o grande foco da qualidade de vida: como prevenir o estresse psíquico.
De modo geral, ocorre o estresse em duas ocasiões. Primeiro, quando o indivíduo tem que se adaptar a um estímulo externo ou interno, exigindo intensa participação emocional e persistência contínua. Nesse caso, há um esgotamento por falência adaptativa devido aos esforços (emocionais) para superar uma situação persistente. Em segundo lugar, quando a pessoa não dispõe de uma estabilidade emocional suficientemente adequada para adaptar-se a estímulos não tão traumáticos. Isso quer dizer que a pessoa sucumbiria emocionalmente a situações não tão agressivas a outras pessoas colocadas na mesma situação.
Uma possível tese do estresse psíquico no trabalho é vinculada aos avanços das tecnologias, esta com mais velocidade do que a capacidade de adaptação dos trabalhadores. Os profissionais vivem hoje sob contínua tensão, não só no ambiente de trabalho, como também na vida em geral. Há, portanto, uma ampla área da vida moderna em que se misturam os estresses do trabalho e da vida cotidiana. A pessoa, além das habituais responsabilidades ocupacionais, da alta competitividade exigida pelas empresas, das necessidades de aprendizado constante, tem que lidar com o estresse normal da vida em sociedade. É bem possível que todos esses novos desafios superem os limites adaptativos levando ao estresse.
No ambiente de trabalho, os estímulos estressantes são muitos. Podemos experimentar ansiedade diante de desentendimentos com colegas, da sobrecarga, da corrida contra o tempo, da insatisfação salarial. A desorganização no ambiente ocupacional põe em risco a ordem e a capacidade do trabalhador. As consequências desse estresse do trabalho são fatores significativos na determinação de certas doenças. Geralmente, as condições pioram quando não há clareza nas regras, normas e tarefas
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que deve desempenhar cada um dos trabalhadores, assim como os ambientes insalubres, a falta de ferramentas adequadas.
Os desgastes emocionais a que pessoas são submetidas nas relações com o trabalho são fatores muito significativos na determinação de transtornos relacionados ao estresse, como é o caso das depressões, ansiedade patológica, pânico, fobias, doenças psicossomáticas. Tanto o operário como o executivo podem apresentar alterações diante dos agentes estressantes. A pessoa com estresse ocupacional não responde à demanda do trabalho e geralmente se encontra irritável e deprimida. Por causa das normas e regras sociais, as pessoas acabam ficando prisioneiras do politicamente correto, obrigadas a aparentar um comportamento emocional ou motor incongruente com seus reais sentimentos de agressão ou medo.
O estresse pode ser entendido como um estado de desequilíbrio da pessoa que se instala quando ela é submetida a uma série de tensões suficientemente fortes ou suficientemente persistentes.
Fatores relacionados ao serviço também contribuem para a pessoa manter-se estressada, como é o caso da sensação de insegurança no emprego, sensação de fracasso profissional, pressão. Isso tudo sem contar os fatores internos que a pessoa traz para o emprego, tais como seus conflitos, suas frustrações, suas desavenças conjugais, etc. O extremo oposto, ou seja, ter uma vida sem motivações, sem projetos, sem mudanças na ocupação ao longo de muitos anos, sem perspectivas de crescimento profissional, assim como passar por período de desocupação no emprego também pode provocar o mesmo desenlace do estresse.
Não devemos privilegiar apenas as razões emocionais em relação ao estresse, por ser este uma alteração global do organismo. Aqui deve ser considerado o conforto térmico, acústico, as horas trabalhadas ininterruptamente, a exigência física, postural ou sensorial e outros elementos associados ao desempenho profissional. Ambientes ruins, em termos de temperatura, umidade do ar e contacto com agentes agressivos à saúde fazem parte da exigência física a que alguns trabalhadores estão submetidos.


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