QUALIDADE DE VIDA - parte 3

Porém, considerando a ocorrência de diferentes formas de consumo simbólico e material entre as diferentes estruturas sociais, as oportunidades de escolha não se apresentam da mesma forma para todos. Elas dependem das chances de ação em sua vida, geradas pelas condições econômicas, de subsistência, saneamento, entre outras. Alguém que tenha um orçamento e condições de subsistência melhores do que outra pessoa terá maiores possibilidades de escolhas em relação às práticas adotadas em seu estilo de vida. Essas possibilidades são criadas de acordo com a condição e o modo de vida do indivíduo (VILARTA e GONÇALVES, 2004), que permitirão que ele possa fazer escolhas que direcionem seu estilo de vida.
Gonçalves (2004) define modo de vida como a garantia das necessidades de subsistência do indivíduo, através de sua condição econômica e, em parte, por políticas públicas; e condições de vida como os determinantes político-organizacionais da sociedade como um todo, que norteiam a relação entre os grupos de sujeitos e as variantes de saneamento, transporte, habitação, alimentação, educação, cuidados à saúde, entre outros.
A definição dos níveis de qualidade de vida dos sujeitos passa pela interação entre esses três aspectos, sendo as práticas pessoais
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(estilo de vida) com maior influência direta, porém, possibilitadas pelas determinantes socioeconômicas (modo e condição de vida).
A adoção de um estilo de vida tido como saudável é tomada, na sociedade contemporânea, como um fator determinante perante a situação de saúde e de vida dos sujeitos. Porém, muitas vezes isso não ocorre, não por falta de vontade do sujeito, mas pela ausência de condições socioeconômicas favoráveis. Hábitos como uma nutrição adequada, horas de descanso, visitas periódicas e profiláticas ao médico, e prática frequente de atividade física, nem sempre são possíveis para todos os indivíduos, devido a modos e condições de vida que não possibilitam tais ações.
O uso do termo estilo de vida é muito comum e se faz de grande importância quando são focadas questões relativas a qualidade de vida, pois essa grande área diz respeito ao padrão de vida que a própria sociedade define e se mobiliza para conquistar, e ao conjunto de políticas públicas que induzem e norteiam o desenvolvimento humano (MINAYO et al., 2000).
Segundo os mesmo autores, em sociedades estratificadas a ideia de bem-estar vem de padrões e parâmetros das classes superiores, que, detentoras do capital e do acesso a inovações tecnológicas, estabelecem as possibilidades de melhoria dessa variável de percepção, estipulando, histórica e culturalmente, ações e bens de consumo que levam a uma percepção positiva sobre a vida ou o que é considerado como um bom nível de qualidade de vida.
A sociedade contemporânea define e cria padrões de vida a serem seguidos, seja de forma consciente ou inconsciente. Isso se dá através de processos de renovação e transmissão cultural que se incorporam na percepção e expectativa dos sujeitos perante a própria vida. Além disso, a preocupação com a qualidade de vida é uma questão que não diz respeito somente ao ser individual, mas sim à sociedade como um todo, pois remete a condições de sobrevivência e de conforto de todos os sujeitos. Por isso, é uma questão social que engloba ações de diferentes esferas, desde o Estado até a adoção de práticas saudáveis pelo indivíduo. Porém, o direcionamento dado à utilização desse conceito ocorre de acordo com interesses específicos, carregados de significados e intenções.
Gutierrez (2004) atenta para o risco de analisar a qualidade de vida de
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forma despolitizada, desconsiderando influências do Estado, do mercado ou adotando visões reducionistas sobre o tema. É possível observar que o uso desse termo, devido sua grande abrangência e possibilidades de ação (pois é um campo multidisciplinar) é feito, muitas vezes, de forma a atender demandas de mercado e direcionar interesses políticos. Isso ocorre tanto na promoção de produtos, quanto em promessas eleitoreiras. Nota-se que esse direcionamento estabelece uma característica reducionista ao campo, como se o consumo de determinados bens, ou a mudança de setores específicos da sociedade estabelecessem uma melhoria definitiva sobre a qualidade de vida dos indivíduos.
Nesse processo, o Estado diminui sua responsabilidade sobre a oferta de condições para a melhoria da qualidade de vida dos sujeitos através de serviços de saúde, educação, transporte, acesso à alimentação, moradia, saneamento, pois, para que isso ocorra, é preciso que as condições de vida possibilitem melhorias no modo de vida e, consequentemente, a adoção de estilos de vida mais saudáveis.
Segundo Gonçalves (2004), a lógica capitalista, caracterizada pelo democratismo das ações individuais, promove a ideia de que a saúde e a qualidade de vida melhoram diretamente a partir da adoção de estilos de vida saudáveis, e isso se torna uma estratégia para controle social. Isso ocorre porque nem sempre são criadas condições que possibilitam aos sujeitos a adoção de hábitos saudáveis. Difunde-se a ideia de que, para melhorar a vida, algumas práticas devem ser incorporadas, como se isso dependesse exclusivamente da vontade do sujeito.
Nota-se um empenho dos meios de comunicação para transmissão dessa forma de pensamento, e uma certa omissão dos órgãos de poder, pois através da divulgação da necessidade primária de estilos de vida saudáveis, a maior responsabilidade pela melhoria da qualidade de vida individual passa a ser do próprio sujeito. Isso é fortalecido pelo mercado, que oferece produtos que interferem nessa mudança de hábitos, prometendo a esperada melhoria da qualidade de vida.
Esse controle social se expressa na responsabilização do sujeito pelos seus níveis de qualidade de vida, processo denominado por Gonçalves (2004, p. 21) como culpabilização da vítima. Dessa forma, o papel dos órgãos de poder muda num sentido de não proporcionar reais melhoras nas condições de vida, mas de divulgar formas de ação individuais que venham a colaborar para a adoção de estilos de vida
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saudáveis. Por exemplo, em vez de proporcionar uma política de trabalho que possibilite ao sujeito dedicar algumas horas de seu dia à atividade física, simplesmente é fortalecida a necessidade dessa prática, deixando a cargo do indivíduo as formas de realização.
O mesmo ocorre no ambiente profissional privado. Em vez da empresa criar alternativas para diminuir a ansiedade e a insatisfação do empregado com seu trabalho, ela simplesmente realiza campanhas antitabagismo ou antialcoolismo, desconsiderando as razões sociais que causam esse “vícios” e que podem estar ligadas, inclusive, à própria vida profissional do funcionário (FREITAS, 2006).
Logo, existe um limite de responsabilização do sujeito frente a seus níveis de qualidade de vida, devido às possibilidades de escolha de hábitos e estilos de vida. Porém, a amplitude de escolhas deriva das condições que o ambiente oferece ao sujeito, desde opções de consumo, até noções de necessidades e desejos, visto que tudo isso deriva da sociedade.
O que é necessário para uma boa vida é estabelecido, num primeiro momento, pelo ambiente físico-social, e, posteriormente, pelas escolhas do sujeito para sua própria vida. A partir desse ponto, o que ele consegue ou não realizar é decorrente das oportunidades disponíveis e também de seu esforço frente às oportunidades que sua condição de vida oferece.
Uma boa percepção de qualidade de vida dependerá das possibilidades que tenham as pessoas de satisfazer adequadamente suas necessidades fundamentais. Isso se liga à capacidade de realização individual, que é dependente das oportunidades reais de ação do ator social. Ou seja, uma boa ou má percepção sobre a vida é relativa à qualidade do ambiente em que se encontra o sujeito, ao oferecimento de condições de realização e de satisfação das necessidades básicas que a própria sociedade estipula como essenciais, e que o interessado toma e deseja, ou não, como verdade para sua própria vida.
Os desejos manifestam a relação psicológico-emocional e subjetiva com as necessidades e as carências. Descrevem um tipo de necessidade que a sociedade atribui aos seus membros em geral, e que o sujeito adota como indispensáveis (BARBOSA, 1998).
A esfera subjetiva de percepção considera a ideia de felicidade e
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satisfação dos desejos. Um indivíduo se considera com boa qualidade de vida se consegue realizar as aspirações criadas por sua sociedade e por suas escolhas frente às possibilidades que o universo social lhe oferece. Ou seja, as possibilidades de consumo e escolha que são estipuladas objetivamente pelo meio social.
Portanto, a percepção de níveis de qualidade de vida toma-se como algo amplo, que não pode ser estipulado somente com análises globalizantes. Indicadores objetivos têm funções de traçar perfis de grupos sociais, úteis para intervenções em populações, porém, não expressam a percepção e situação individual frente às próprias vidas dos atores sociais.
De fato, uma boa ou má qualidade de vida depende da percepção que o sujeito toma para seu existir biológico e social, sendo dependente de suas ações e do ambiente que o cerca. Segundo Barbosa (1998), essa noção deve ser analisada a partir da percepção que os sujeitos possuem do seu viver, associada às transformações ambientais e às necessidades básicas sentidas.
A condição de qualidade de vida está intimamente, mas não integralmente, ligada à área da saúde. As intervenções nesse campo se dão, numa primeira e importante instância, em alterações e melhorias do estilo de vida das pessoas (MINAYO et al., 2000). Por isso ocorre esse processo de culpabilização da vítima, pois a transmissão de responsabilidade pelas condições de saúde, das políticas públicas para a ação individual do sujeito, se faz vantajosa para os órgãos de poder, que além de se omitirem de melhorar as condições de vida, agem de forma economicamente mais interessante em outros setores.
Para analisar os níveis de qualidade de vida de grupos ou sujeitos é preciso, sempre, considerar as variáveis de condição, modo e estilo de vida que o cercam. O quadro gerado por essas perspectivas irá estabelecer a forma de vida do sujeito.
Portanto, é necessário um olhar crítico em relação às abordagens referentes à qualidade de vida, que se apoiam única e exclusivamente na adoção de hábitos saudáveis (vide reportagem citada no item 2.1 deste trabalho). Essa perspectiva reducionista direciona a responsabilidade por tais condições de forma tendenciosa e vantajosa para os órgãos de poder
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e, principalmente, para o mercado, que se nutre desse filão, por exemplo, com a venda de possibilidades e produtos vinculados à prática periódica de atividade física.
1.5 Qualidade de vida, saúde e atividade física
Independentemente da concepção adotada, do instrumento indicador utilizado ou do conceito adotado sobre qualidade de vida, existe uma íntima relação entre este campo de conhecimento, a área da saúde e a prática de atividade física. Embora haja certa prevalência, principalmente nos instrumentos indicadores, de uma abordagem de saúde mais próxima da área médica (GARCIA, 2002), a abrangência desse elemento se apresenta de forma bem ampla, relacionada a aspectos físicos, emocionais, de relacionamentos, ligada ao bem-estar. De toda forma, essa relação se apresenta como o primeiro referencial de percepção.
Para uma análise mais específica sobre essa relação, a saúde é definida como “um estado de amplo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de doenças e enfermidades” (Organização Mundial de Saúde, 2006). Compreendida dessa forma, é um processo instável, sujeito a mudanças rápidas e fortemente influenciado por ações do sujeito e do ambiente. Não apenas um estado físico puro e objetivo, que apresenta funções orgânicas intactas, mas uma dimensão subjetiva, individual, psíquica, mental e social (WEINECK, 2003).
A relação entre saúde e qualidade de vida depende da cultura da sociedade em que está inserido o sujeito, além de ações pessoais (esfera subjetiva) e programas públicos ligados à melhoria da condição de vida da população (esfera objetiva). O estado de saúde é um indicador das possibilidades de ação do sujeito em seu grupo, se apresentando como um facilitador para a percepção de um bem-estar positivo ou negativo. É influenciado pelo ambiente, pelo estilo de vida, pela biologia humana e pela organização do sistema de atenção à saúde em que o sujeito está inserido.
A noção de saúde se coloca como uma resultante social da construção coletiva dos padrões de conforto e tolerância que determinada sociedade estabelece (MINAYO et al., 2000). As necessidades de saúde,
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como uma das vertentes da qualidade de vida, não podem ser separadas dos movimentos sociais urbanos e nem da dimensão da cidadania (BARBOSA, 1998).
A relação entre a saúde e a qualidade de vida compõe-se dos seguintes elementos (VILARTA e GONÇALVES, 2004, p. 42):
Domínios funcionais: Função física; Função cognitiva; Envolvimento com as atividades da vida; Avaliação de saúde subjetiva.
Domínios do bem-estar: Bem-estar corporal; Bem-estar emocional; Autoconceito; Percepção global de bem-estar.
Devido a essas características, o estado de saúde de um sujeito sofre influências de inúmeras variantes, desde a subjetividade e a relatividade do conceito e dos limites aceitos em determinada sociedade, até elementos físicos, sociais, ecológicos, de hábitos pessoais, entre outros. Por isso, os estados de saúde e doença de um indivíduo não podem ser atrelados a somente uma forma de influência (por exemplo, alimentação), pois se configuram por uma interligação contínua, que depende tanto das ações individuais quanto das políticas públicas (SEIDL e ZANNON, 2004).
Pela relação e semelhança quanto aos processos de percepção de saúde e qualidade de vida (ambos ligados a aspectos objetivos e subjetivos de percepção), a análise do primeiro conceito pode ocorrer da mesma forma que a do segundo. Inicialmente, será estabelecida uma associação entre aspectos objetivos e saúde, através de políticas públicas e questões de nível socioeconômico, e, num segundo momento, a atenção será direcionada às questões ligadas aos hábitos individuais e ao estilo de vida dos sujeitos.
Conforme já abordado nesse trabalho no item 1.4, a qualidade de vida tem íntima ligação com os aspectos socioeconômicos de determinada população, que configuram a condição de vida dos sujeitos dela integrantes. Existe uma relação direta entre essas variáveis e as condições de saúde, expressada e comprovada por instrumentos e indicadores objetivos (GONÇALVES e VILARTA, 2004).
Tais condições são determinadas pelas possibilidades de acesso aos cuidados à saúde que são disponibilizados à população. Deslandes
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(2004) cita duas abordagens político-organizacionais referentes à organização desses serviços: prevenção em saúde e promoção da saúde. A primeira diz respeito ao incentivo da associação direta e predominante entre os hábitos do sujeito e sua condição de saúde. Essa linha de intervenção se apoia numa concepção de responsabilização do sujeito pelo seu estado de saúde (responsabilização da vítima), pois se aplica em um modelo médico hegemônico, centrado no atendimento de doentes e na divulgação de hábitos positivos à manutenção de bons níveis de saúde. Apresenta limites para uma atenção comprometida com a efetividade, a equidade e as necessidades prioritárias, ainda que possa proporcionar uma assistência de qualidade em determinadas situações. A segunda surge primeiramente na Conferência de Ottawa, em 19861, pela iniciativa da responsabilização múltipla, que uniria esforços voltados à promoção da saúde advindos do Estado (por meio de políticas públicas saudáveis), da comunidade, de indivíduos, do sistema de saúde e de parcerias intersetoriais (BUSS, 2000). A partir desse período, são valorizados na promoção da saúde (DESLANDES, 2004, p. 02): políticas públicas saudáveis, fortalecimento dos recursos de saúde comunitários, ambientes favoráveis à saúde, desenvolvimento de habilidades pessoais, redefinição dos serviços de saúde.
Esse modelo lida com a ideia de totalidade, definindo saúde como uma questão social ampliada, além de incorporar a ação individual. Na ideia de promoção da saúde, um estilo de vida tido como positivo é importante, assim como a prática de atividades físicas e esportivas. Porém, isso é uma parte do processo de integração entre vários fatores, e não a única solução.
Essas abordagens representam a organização da atenção à saúde da população, estabelecendo processos e possibilidades de acesso a esses cuidados. São responsabilidades do Estado, assim como a preocupação de proporcionar possibilidades de acesso a bens de consumo tidos como indispensáveis na sociedade contemporânea: educação, transporte, moradia, alimentação, saneamento básico, e, claro, cuidado à saúde clínica. As probabilidades de alcance e consumo desses elementos por parte dos sujeitos implicam as possibilidades de que se adotem diferentes formas de estilos de vida, buscando os padrões saudáveis de sua sociedade, devido à associação e à dependência de realização desses hábitos aos aspectos socioeconômicos do ambiente.
11ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, 1986, Ottawa, Canadá.
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Em relação aos hábitos individuais e estilos de vida dos sujeitos, a esfera subjetiva de cuidados à saúde diz respeito ao impacto dos costumes cotidianos do indivíduo perante sua vida. Entre os comportamentos considerados saudáveis na sociedade contemporânea, Vilarta e Gonçalves (2004, p. 47) destacam:
Adotar hábitos alimentares que respeitem as necessidades biológicas de regularidade de ingestão de nutrientes (distribuir a quantidade total de alimentos ingeridos em várias refeições ao longo do dia);
Respeitar as necessidades específicas de nutrientes para cada etapa da vida (considerar as demandas por vitaminas, minerais, água, carboidratos, lipídeos, ou proteínas de acordo com o estado fisiológico, por exemplo, adolescentes, gestantes, atletas e crianças);
Praticar atividade física apropriada à própria condição fisiológica e com regularidade;
Controlar o estresse físico e emocional com técnicas específicas às expectativas e os objetivos de cada pessoa;
Envolver-se em ações comunitárias estabelecendo laços de apoio e convívio familiar e social;
Dedicar-se ao lazer não-sedentário, baseado em ações que envolvam atividade esportiva, hobbies ou trabalho voluntário.
Nota-se que, dentre as ações listadas, pode-se observar aspectos voltados à alimentação, aos relacionamentos sociais e às práticas sistemáticas de atividade física. Como o foco desse trabalho reside nas relações entre a prática esportiva e a qualidade de vida, faz-se de fundamental importância uma reflexão sobre o impacto desse tipo de atividade na percepção humana, assim como os aspectos sociais envolvidos nessa prática. Porém, não se pode ignorar o fato de que a adoção de hábitos saudáveis depende da atitude e da adequação do sujeito a uma rotina apropriada, desde que suas condições de vida proporcionem sua opção de escolha. Por exemplo, é utópico falar em prática periódica e frequente de atividade física sistematizada para um sujeito que mal consegue realizar três refeições diárias e não tem acesso a bons sistemas de atenção à saúde clínica. A adoção de um estilo de vida tido como saudável depende de acesso à informação, às oportunidades para prática de atividade física e aos hábitos positivos, ao apoio socioeconômico e à atitude para mudança de comportamento (NAHAS, 2001).
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A atividade física é colocada na sociedade contemporânea como uma ponte segura para melhores situações de saúde. É uma função bastante ampla, atribuída a um único conceito, sintetizando a abrangência das inúmeras consequências do mesmo sobre o organismo humano. Porém, esse termo é utilizado de maneira generalizante, pois é possível que seja direcionado ao controle do estresse, assim como uma prática antissedentária, e também para fins estéticos ou de melhora de performance atlética (LOVISOLO, 2002).
Com o intuito de apresentar uma definição acerca do termo atividade física, apresenta-se três opções, sendo que duas apontam para um sentido semântico de qualquer prática corporal que gaste mais energia do que o estado de repouso (NAHAS, 2001 e CARVALHO, 2001), enquanto uma terceira estabelece a necessidade de racionalização e sistematização da prática (LOVISOLO, 2002).
O termo atividade física carrega toda e qualquer ação humana que comporte a ideia de trabalho como conceito físico. Realiza-se trabalho quando existe gasto de energia. Esse gasto ocorre quando o indivíduo se movimenta. Tudo que é movimento humano, desde fazer sexo até caminhar no parque, é atividade física (CARVALHO, 2001, p. 69).
“É uma característica humana que representa qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética, que resulte num gasto energético acima dos níveis de repouso. Inclui atividades da vida diária, do trabalho e do lazer” (NAHAS, 2001, p. 30).
“A atividade física refere-se a motivos e intenções de movimento ou conservação das capacidades físicas, e implica um plano de ações racionalizadas ou sistematizadas [...] controlada e corrigida por especialistas” (LOVISOLO, 2002, p. 281).
Para esse trabalho, serão adotadas como significado de atividade física as duas primeiras definições, que expressam nesse termo o movimentar-se humano. Dessa forma, é possível que, ao abordar esse tipo de prática, sejam englobados desde a realização de trabalhos cotidianos, quanto de atividades planificadas, sistematizadas e a prática esportiva. Essa opção se dá com o intuito de apontar a necessidade de, ao realizar
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reflexões sobre atividade física, especificar o tipo de prática a qual se faz menção, como por exemplo, atividade física moderada como prática antissedentária, ou atividade física ligada ao treinamento esportivo.
Por outro lado, embora adote uma concepção diferenciada de atividade física, as reflexões de Lovisolo (2002) denunciam a existência de mitos ou crenças ligadas à atividade física e saúde. Para a abordagem realizada sobre o trabalho desse autor, seu conceito de atividade física (mais específico do que os de Carvalho e Nahas) não se coloca como um empecilho ou como fator de incompatibilidade teórica, visto que essa conceituação se encaixa na esfera de abrangência da definição de atividade física adotada, pois se caracteriza como uma das possibilidades de entendimento sobre o termo em questão (atividade física de forma sistematizada).
Carvalho (2001) também denuncia a existência de um mito na sociedade contemporânea, que associa atividade física com saúde, promovido especialmente pelos meios de comunicação. Nesse contexto, a ideia de que atividade física está diretamente relacionada com uma boa saúde é literalmente vendida, segundo a autora, como uma prática generalizante e que cultua estereótipos de boa forma física e saúde. Essa ideia pode ser até comprovada por métodos científicos; porém, é preciso considerar esse elemento função coadjuvante nesse processo, pois, como já descrito nesse trabalho, a saúde é um complexo de vários componentes que interagem e exercem influência sobre o resultado final.
Faz-se necessária certa reflexão (LOVISOLO, 2002): Qualquer tipo de atividade física é benéfico para a manutenção da saúde? A mesma forma de atividade física serve tanto para diminuir o estresse quanto para proporcionar melhoria de performance atlética? A simples ausência de sedentarismo garante um bom quadro de saúde?
Inicialmente, torna-se necessário definir os limites e as fronteiras sobre sedentarismo. Nahas (2001) classifica que um sujeito sedentário é o que não produz gasto energético mínimo de 500 Kcal/semana, ou seja, que não pratica atividade física por 30 minutos, cinco vezes por semana. Essa definição, baseada em gasto energético ou periodicidade da prática, se faz um tanto quanto genérica, pois conforme o próprio autor salienta, ao adotar essa concepção é preciso não ignorar as ações corporais dos sujeitos em seu dia-a-dia, inclusive em momento de trabalho.
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Ao considerar tais realizações, estabelece-se que qualquer forma de movimento corporal é benéfica para a saúde, desde que compreenda 30 minutos do dia do sujeito. Isso pode ser considerado um equívoco, pois existem diversas práticas de atividade física, desde caminhadas leves, até trabalhos com peso ou um treinamento intenso de um triatleta, com efeitos diversos sobre o organismo, assim como seu benefício ou malefício à saúde (LOVISOLO, 2002).
Ao levar em consideração a multiplicidade de formas de atividade física e suas consequências para o bem-estar do sujeito, para a manutenção ou melhoria dos quadros de saúde, é necessário que essa prática esteja adequada às condições e expectativas individuais, assim como ao local, aos processos e ao ambiente em que ocorre. Por isso, a concepção de antissedentarismo, que orienta para que o indivíduo se movimente independente da forma de atividade, aponta para um passo inicial para campanhas pró-atividade física, mas não é o trabalho suficiente. O ideal, para um estilo de vida tido como saudável, seria a adoção de práticas de atividade física sistematizada, considerando toda a condição de vida e saúde do sujeito. Porém, como nem tudo acontece próximo do ideal, o que se observa é uma realidade pautada pelo acesso um tanto quanto restrito dessa forma de prática a algumas camadas da sociedade, devido a critérios socioeconômicos. Por isso, a questão do sedentarismo apresenta um quadro no qual a ideia de movimentar-se, independente da forma e processos adotados, tem certa validade e impacto positivo sobre a saúde dos sujeitos, incorporando, infelizmente, o sentimento de que é melhor isso do que nada.
Por outro lado, Lovisolo (2002) atenta para o fato de que classes socialmente privilegiadas também apresentam altos índices de sedentarismo, mesmo com a divulgação de que um estilo de vida saudável e as condições de saúde são diretamente dependentes da prática de atividade física. O autor aponta para uma tese ligada ao aumento do avanço tecnológico, que, por um lado, é benéfico à qualidade de vida dos sujeitos, facilitando a comunicação e tornando a vida mais ágil e segura, mas que privilegia a substituição do esforço humano pelo da máquina. Essa ideia é compartilhada por outros autores, que denunciam um menor uso da força humana no decorrer do tempo na sociedade contemporânea.
Avanços tecnológicos apresentam uma relação ambígua frente à prática cotidiana de atividade física na sociedade contemporânea. Podem
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tanto ser um fator de estímulo à inatividade (com inovações que facilitam atividades do dia-a-dia, demandando esforço físico, divulgação e criação de formas de consumo do lazer sedentário), como também a manutenção de um estilo de vida ativo para praticantes já engajados nesse hábito, com produtos ligados à melhoria de condições de prática.
Nesse aspecto, nota-se um filão de mercado que visa desde desenvolver produtos que melhorem as condições de prática (como isotônicos ou calçados apropriados), até artigos que criam novas atividades (bicicletas para ciclismo indoor). De toda forma, os avanços tecnológicos estabelecem aos consumidores praticantes algumas novas necessidades, como roupas com tecidos especiais ou materiais que prometem melhora de performance, que, se utilizados de forma adequada, e com consciência de que não é o produto que promove a prática, mas sim o sujeito, podem colaborar para manter o interesse e a inserção desse hábito presente no estilo de vida, o que pode ser favorável à qualidade de vida (MARQUES, 2007, p. 145).
A influência da tecnologia sobre os hábitos de atividade física é um dos inúmeros aspectos que inter-relaciona essa ação humana com qualidade de vida. A questão abordada numa reflexão acerca das relações entre saúde, atividade física e qualidade de vida não é de causalidade direta entre as partes, tida como consenso na sociedade contemporânea, mas a forma, a intensidade e o impacto com que se estabelece essa inter-relação. O foco da reflexão não é abordar se a atividade física colabora ou não com a melhoria dos quadros de saúde, mas que tipo de atividade, e em que contexto se faz positivo ou negativo esse processo.
Autores como Nahas (2001) e Lovisolo (2002) salientam diferenças entre formas de atividade física (exercício e atividade, práticas leves e intensas, treinamento e prática voltada ao bem-estar), que se fazem importantes devido aos diferentes impactos causados pelas variadas formas de práticas sobre o organismo e também sobre o convívio social dos sujeitos. Pode-se diferenciar as formas de atividade física como ligadas a momentos de trabalho e não-trabalho (CARVALHO, 2001). Essa proposta estabelece um parâmetro para compreensão desse termo, pois
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especifica que, embora em momentos diferentes, é possível a prática de atividade física. Por outro lado, abre a possibilidade de interpretação para um campo em que a prática tenha sentido profissional, como por exemplo, atletas de alto rendimento.
Nahas (2001, p. 33) chama atenção para uma variável que se relaciona com a prática de atividade física, a aptidão física, definida como “a capacidade que um indivíduo tem para realizar atividade física. Deriva da hereditariedade, estado de saúde, alimentação e prática regular de exercícios físicos”. Pode estar relacionada à melhoria de performance, contribuindo para um bom desempenho em tarefas específicas, trabalho ou esporte; ou à saúde, lidando com prevenção de doenças e busca de maior disposição para atividades do dia-a-dia, exercendo influência sobre o bem-estar.
Pode-se diferenciar formas de atividade física de acordo com o sentido dado à prática, significado e motivação. Dessa forma, é possível elencar duas categorias que podem ocorrer tanto em momentos de trabalho como de não-trabalho do sujeito praticante, e acabam por influenciar a aptidão física do sujeito, de forma voluntária ou involuntária:
a.) Atividade física ligada à incorporação ao estilo de vida: Práticas sem o intuito de alcançar os limites de alto rendimento físico do organismo, privilegiando o antissedentarismo, o prazer pela prática e a socialização. Podem ou não ser sistematizadas, embora não excluam o sentimento de esforço e cansaço.
b.) Atividade física ligada ao treinamento e melhoria de performance atlética: Práticas que buscam estabelecer melhores patamares de limite de realização de performance atlética. Ocorrem (ou pelo menos deveriam ocorrer) de forma sistematizada, com controle da intensidade, buscando segurança e bem-estar do sujeito. Nessa categoria, são englobadas situações de treinamento esportivo, estético, com auxílio de controle das variáveis do treino e efeitos deste sobre o organismo.
Os diferentes tipos de atividade física apontados nessa divisão caracterizam uma heterogeneidade perante o sentido e os efeitos de sua prática, mas, de toda forma, lidam com a melhoria do bem-estar do sujeito. Esse quadro fundamenta o risco de generalizar afirmações referentes à relação atividade física e saúde, pois, por exemplo, atividades voltadas à
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melhoria de performance, visando um trabalho físico próximo do patamar de limite de realização do sujeito, não se fazem interessantes para um indivíduo sedentário iniciante em atividade física, podendo até gerar um impacto negativo sobre sua saúde (NAHAS, 2001; WEINECK, 2003).
Portanto, ao relacionar atividade física e saúde é preciso considerar o contexto sujeito – aptidão física –, sentido – objetivos da prática, para que a atividade seja adequada às condições e intenções do praticante.
Com essa conclusão, é possível afirmar que existe uma relação muito íntima entre a prática constante de atividade física e a condição de saúde; porém, essa associação só se dá de forma positiva se ambas forem compatíveis entre si e com a realização prática do sujeito e seus objetivos, não esquecendo que a saúde é um todo complexo que engloba inúmeros fatores, dentre eles, a atividade física.
Nesse quadro, o profissional de Educação Física, esporte e da atividade física atua diretamente sobre o estilo de vida dos sujeitos, promovendo práticas saudáveis e periódicas de atividade física. Porém, existe a necessidade desse sujeito considerar as condições de vida dos indivíduos praticantes, promovendo práticas adequadas às suas possibilidades de acesso a bens materiais, e, sempre que possível, auxiliar na melhoria dessas variáveis (GONÇALVES, 2004).
Intervenções sobre a qualidade de vida de um sujeito ou de um grupo lidam com a melhoria do bem-estar e, principalmente, com a possibilidade de autonomia por parte do indivíduo (VILARTA e GONÇALVES, 2004). A proposta de atividade física como uma forma de melhoria do bem-estar e da qualidade de vida exige atenção do profissional tanto em relação ao seu impacto sobre a saúde clínica, quanto social e emocional, pois a autonomia pessoal é fruto de boa condição de saúde, relacionamentos pessoais e capacidade de realização prática das expectativas individuais.
Porém, o que se vincula na mídia é uma generalização deste tema, que se faz interessante para um mercado próprio sobre atividade física e saúde (CARVALHO, 2001). Isso justifica a análise realizada no item 2.1. deste trabalho, que denuncia um reducionismo de cuidados com a qualidade de vida somente a ações individuais, e quando se trata de atividade física, à prática ligada simplesmente à movimentação genérica do corpo.
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Esse mercado se aproveita de um padrão de vida sedentário presente na sociedade contemporânea e divulga o mito de que atividade física é uma solução salvadora e milagrosa para inúmeros males. Na verdade, se apresenta como um dos vários hábitos tidos como saudáveis e formadores de um estilo de vida positivo. O mercado que se cria a partir disso, lida com materiais para a prática, meios de divulgação de hábitos saudáveis ou eventos com esse fim, serviços técnicos de especialistas na área, produtos alimentícios que prometem melhoria de performance, entre outros.
Um dos filões desse mercado se expressa no esporte e na transformação desse fenômeno em produto. Isso ocorre principalmente na divulgação dos mitos esporte é saúde, esporte salva das drogas, entre outros, e na infinidade de produtos ligados a esse universo.
Um olhar crítico sobre essa ação midiática se faz interessante (CARVALHO, 2001), pois é necessário salientar uma relação complexa entre qualidade de vida, saúde e atividade física, que se expressa numa análise dos objetivos, possibilidades, condições de vida e de realização do sujeito, adequando a prática ao estilo de vida de forma crítica, consciente e positiva à saúde clínica, emocional e social.
Toda forma de atividade em que há troca de informação entre seres humanos está sujeita à transmissão de valores morais, que influenciarão na formação do sujeito e na sua perspectiva perante a própria vida. Uma forma de prática que exerce influência sobre a qualidade de vida dos sujeitos é o esporte, pois se trata de uma categoria de atividade física que pode promover alterações tanto nas condições e no modo (através de possibilidade de ascensão social), quanto no estilo de vida por meio da prática periódica.
O esporte contemporâneo apresenta uma característica mercadológica muito presente, que deve ser considerada de forma crítica e consciente pelos profissionais e educadores envolvidos com esse fenômeno. Por esse motivo, o próximo capítulo desse trabalho se destina a uma contextualização do esporte como fenômeno sociocultural que está presente na vida da sociedade contemporânea como um universo complexo que transmite valores através de suas práticas.
Como é um campo em processo de definição, é possível observar
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direcionamentos e definições distintas para qualidade de vida. Neste trabalho, será considerada como uma área complexa, que se pauta na multidisciplinariedade e circula tanto em esferas subjetivas quanto objetivas de percepção individual sobre a qualidade da própria vida. Essa complexidade pode ser observada, por exemplo, na definição da OMS para qualidade de vida, que contempla as concepções de subjetividade dos indivíduos e objetividade das condições materiais.
1.6 Índices do IBGE: instrumentos para análise dos indicadores e das políticas públicas
O primeiro indicador do IBGE de 2005 que trata da qualidade de vida é o percentual da População Economicamente Ativa (PEA) por ramo de atividade. Um dos grandes avanços da humanidade, segundo Almeida (1998), é a diminuição da mão de obra empregada na agricultura em favor dos empregos no setor industrial e de serviços. O autor considera ser este um dos fatores mais importantes do aumento geral do padrão de vida. O decréscimo do percentual de mão de obra empregada na agricultura é utilizado como um indicador de desenvolvimento agrícola, pois menos empregados rurais devem significar mais máquinas, aumento da produção e maior produtividade, e também maior desenvolvimento econômico, segundo uma visão de tipo desenvolvimentista.
Esse avanço deve ser confrontado com algumas outras questões, como: a.) a expulsão de pessoas do campo por meios insidiosos parte do processo de concentração de terras para viabilizar a agroindústria ou a valorização pura e simples (grileiros); b.) a diminuição da economia rural familiar e o êxodo rural, dificultando a vida destas pessoas na cidade, aumentando o número de excluídos e desempregados (falta de crédito para o pequeno agricultor); c.) investimento em produtos da monocultura no mercado de commodities e redução dos produtos de primeira necessidade encarecendo-os, afetando principalmente o trabalhador de baixa renda (plantação de cana de açúcar).
Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (2001) os índices do trabalho agrícola estão associados às condições de vida precárias, se comparados com a vida nas cidades: maior incidência de doenças infectocontagiosas, menor expectativa de vida, maior pobreza,
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pouco acesso a serviços etc. O deslocamento da PEA da agricultura para os serviços e a indústria segue trajetória idêntica ao deslocamento da população do campo para a cidade. Segundo dados do IBGE de 2005, em 1940, a mão de obra agrícola representava 66% de toda a PEA, hoje responde por apenas 26%. Esta mudança ocorreu com a incorporação da PEA pela indústria e pelo setor de serviços. A indústria, por seu turno, passou por um ponto de inflexão em 1980, quando ocorreu a mudança de uma indústria que empregava uma fatia cada vez maior da PEA, para uma indústria que emprega cada vez menos. O avanço tecnológico provavelmente não permitirá a reversão de tal tendência. O trabalho na indústria está sendo substituído pelo mundo dos serviços. Talvez, o maior desafio contemporâneo ao desenvolvimento brasileiro seja que o setor de serviço consiga alocar todo o contingente de trabalhadores que saem do campo, sem perspectivas e que não encontram formas de acesso ao mercado de trabalho formal, entre outros motivos por falta de qualificação profissional.
Para pensar a qualidade de vida de maneira ampla e não-fragmentada, é conveniente levar em conta que a maior mecanização no campo, sem uma política pública de readequação de mão de obra, ou mesmo políticas de manutenção de famílias de economia familiar, pode vir a gerar gargalos em outros índices da qualidade de vida, como concentração de renda. È conveniente considerar também que esses avanços seguem o desenvolvimento do capitalismo mundial, e não constituem, portanto, parte de uma política pública integrada entre os diversos setores. É possível perguntar aqui até que ponto os índices refletem uma melhoria efetiva na qualidade de vida como afirmou Almeida (1998), ou se eles apenas apontam um padrão da lógica evolutiva do próprio sistema (MANTEGA, 1995).
A taxa de analfabetismo é um indicador educacional. É consenso que ser ou não alfabetizado é fundamental para a qualidade de vida. A capacidade de ler e escrever dá acesso à informação, abre espaço em termos de oportunidade de emprego e possibilita uma integração social mais ampla. O analfabetismo diminuiu no Brasil do século XX em todas as suas grandes regiões. Em 1940, a taxa de analfabetismo atingia a casa dos 61%; no Plano Nacional de Desenvolvimento, de 1995, era de 16%. A diminuição ocorrida entre os censos de 1940 e 1980 é, por si só, bastante
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significativa: em 1980, o analfabetismo era de 35%, representando uma redução de quase 50% em 40 anos. Vale notar ainda que a tendência de queda é ininterrupta, e se aplica a todas as grandes regiões do Brasil. Há um aumento expressivo e consistente da alfabetização da população durante todo o século XX. Em 1900, apenas 34,7% das pessoas com 15 anos ou mais de idade eram alfabetizadas. No início deste século, esse indicador é de 80,0% (IBGE, 2005). Um aumento de pouco mais de 130%.
A questão que se coloca sobre esse índice é de qual analfabetismo estamos tratando e como são os alfabetizados. Pesquisas recentes divulgadas por jornais de grande circulação nacional como Folha de São Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo, ilustram como estão sendo preparados os alunos de escolas públicas e particulares. O nível dos alunos caiu com relação aos anos anteriores; as pesquisas apontam a redução do analfabetismo no país sem especificar qualitativamente como são os alfabetizados. Se a ideia de alfabetização é dar acesso à informação e oportunidade de emprego, não se pode construir índice de qualidade de vida apoiado nesse tipo de alfabetização (analfabetismo funcional). Somente com análises da educação brasileira como um todo, como o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico, é possível apontarmos caminhos para a implementação de projetos que atinjam os objetivos de transformação social. Ao estabelecer parâmetros sem intermediação desses problemas de aplicação, ou uma melhor metodologia dos questionários, teremos uma falsa representação da realidade educacional brasileira. Porque, de um lado, temos a diminuição do analfabetismo, e, do outro, a menor qualificação dos alunos, principalmente da rede pública.
A taxa de matrícula no 2° grau tem melhorado de maneira ininterrupta de 1940 até os dias atuais. Em 1940, os matriculados no ensino secundário correspondiam a 6,2% da população entre 15 e 17 anos. Em 1960, essa taxa era de 18,1%, e, em 1991, em torno de 40% (IBGE, 2005). Mesmo se considerando que os dados disponíveis não incluem os cursos técnicos nem pedagógicos, não há dúvida que o ensino de 2° grau está longe de abarcar toda a sua clientela potencial. A questão da educação básica no Brasil é extremamente complexa, em que se cruzam fatores que vão desde a estrutura de carreira e salários de professores até a implantação de projetos pedagógicos, que não conseguiram atingir os objetivos propostos. Mesmo as avaliações qualitativas como, por exemplo, o ENEM, precisam ser analisadas com cuidado. Para efeito deste texto, basta destacar a relatividade de um índice absoluto como a taxa de analfabetismo para pensar a qualidade de vida da população.
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A qualidade de vida depende de vários indicadores que expressam serviços públicos básicos. Dentre eles, destacamos a oferta de rede geral de água, de rede sanitária, coleta de lixo, de eletrificação residencial e de estabelecimentos de saúde e médicos por mil habitantes. Em todos eles, o Brasil apresenta melhorias nos Índices de Desenvolvimento Humano (2001).
Rede geral de água significa água centralmente coletada e tratada, o que contribui para a redução de inúmeras doenças transmissíveis através da água e, consequentemente, a diminuição da taxa de mortalidade infantil e do aumento da esperança de vida ao nascer. A rede geral de esgoto é outro serviço público básico que, juntamente com a rede geral de água, melhora a qualidade da água consumida, contribui para a redução da mortalidade infantil e o aumento da esperança de vida ao nascer. É óbvio que melhor qualidade de vida está associada com um abrangente serviço de rede geral de esgoto. A alternativa a isso é, em geral, nos sítios urbanos, a vala negra e o esgoto a céu aberto. Nesse caso, tanto a população infantil quanto a adulta fica exposta às doenças infecciosas e parasitárias. A sujeira atrai também animais nocivos à saúde, como ratos, e degrada as condições de vida e o meio ambiente.
O lixo coletado é também um serviço básico que tem relação direta com a saúde pública e o meio ambiente. Quanto maior a proporção de domicílios atendidos por esse serviço, menos sujeira é acumulada em áreas residenciais, menor é a possibilidade de formação de focos de doenças e, como consequência, melhor é a qualidade de vida (Almeida, 1998). A eletrificação residencial é igualmente fundamental para a qualidade de vida. Não apenas porque fornece acesso à iluminação elétrica noturna, mas, principalmente, por permitir à população a utilização de geladeira, fundamental para a conservação dos alimentos em países tropicais, e de inúmeros aparelhos eletrodomésticos fortemente associados à qualidade de vida como, por exemplo, TV, rádio, liquidificador e chuveiro elétrico. A eletrificação residencial é mais um indicador relevante para a qualidade de vida que apresenta melhoria constante nos anos em que o dado existe. Em 1970, 47,6% dos domicílios tinham energia elétrica; em 1995, 91,7% das residências já possuíam iluminação elétrica, geladeira e televisão. Nesse século, cerca de 93% possuem iluminação (IBGE, 2005).
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Segundo Almeida (1998), por causa da preponderância assumida pela televisão, a energia elétrica é um importante fator de conforto e informação. Maior abrangência da eletrificação residencial significa população mais bem informada e tempo livre usufruído de forma mais agradável. Podemos, contudo, acrescentar um outro olhar ao procurar mostrar que o governo pode não ter uma atuação proativa nessas ações, vinculadas muito mais a uma exigência econômica do que a políticas participativas que visam a melhoria da qualidade de vida. Podemos citar como exemplo a necessidade de ampliar o número de consumidores, levando a cada casa os produtos e os pensamentos de setores que detêm os meios de comunicação.




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