QUALIDADE DE VIDA - parte 2


Analisando o termo qualidade de vida, nota-se que o emprego da palavra Qualidade a essa forma de percepção de mundo estabelece uma existência inerente a esse campo de conhecimento, independente de ser considerado bom ou ruim. A qualidade de vida sempre esteve entre os homens; remete-se ao interesse pela vida. Logo, é possível estabelecer que qualidade de vida não é algo a ser alcançado, um objeto de desejo da sociedade contemporânea que deve ser incorporado à vida a partir de esforço e dedicação individual. Pelo contrário, é uma percepção que sempre esteve e sempre estará presente na vida do ser humano. O fato é que, a partir desse tipo de análise, todos os sujeitos têm qualidade de vida, não sendo esse um elemento a ser alcançado através de ações embutidas no padrão de boa vida da sociedade contemporânea; porém, o interessante para a vida de cada um é buscar uma boa qualidade frente às suas possibilidades individuais de ação.
Quanto ao valor implícito a essa percepção (bom ou ruim), é possível afirmar que respeita tanto questões de ordem concreta, que exercem influência direta sobre as possibilidades de ação do sujeito frente à própria vida, como formas de percepção, ação e expectativas individuais frente a esses elementos. Inclusive, estabelecer se algo é bom ou ruim depende de diferentes referenciais ou pontos de vista.
Neste segundo momento, se faz importante uma definição sobre o termo em questão, para um encaminhamento frente aos limites de abrangência dessa área de conhecimento.
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De acordo com Minayo et al. (2000, p.10), qualidade de vida
é uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Pressupõe a capacidade de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar. O termo abrange muitos significados, que refletem conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e coletividades que a ele se reportam em variadas épocas, espaços e histórias diferentes, sendo, portanto, uma construção social com a marca da relatividade cultural.
Nota-se que essa abordagem esbarra numa compreensão social do termo, que considera questões subjetivas como bem-estar, satisfação nas relações sociais e ambientais, e a relatividade cultural. Ou seja, esse entendimento depende da carga de conhecimento do sujeito, do ambiente em que ele vive, de seu grupo de convívio, da sua sociedade e das expectativas próprias em relação a conforto e bem-estar.
Gonçalves e Vilarta (2004) abordam qualidade de vida pela maneira como as pessoas vivem, sentem e compreendem seu cotidiano, envolvendo, portanto, saúde, educação, transporte, moradia, trabalho e participação nas decisões que lhes dizem respeito.
Essa abordagem indica, num primeiro momento, para as expectativas de um sujeito ou de determinada sociedade em relação ao conforto e ao bem-estar. Isso depende das condições históricas, ambientais e socioculturais de determinado grupo, ou seja, o entendimento e a percepção sobre qualidade de vida, nessa perspectiva, são relativos e variáveis.
Qualidade de vida não se esgota nas condições objetivas de que dispõem os indivíduos, tampouco no tempo de vida que estes possam ter, mas no significado que dão a essas condições e à maneira com que vive. Nessa concepção, a percepção sobre qualidade de vida é variável em relação a grupos ou sujeitos. Para essa autora, o termo está relacionado ao significado que damos às condições objetivas da vida.
Para Nahas (2001, p. 5), qualidade de vida é a “condição humana
Definição e Conceitos 20
resultante de um conjunto de parâmetros individuais e socioambientais, modificáveis ou não, que caracterizam as condições em que vive o ser humano”.
Gonçalves (2004, p.13) define qualidade de vida como “a percepção subjetiva do processo de produção, circulação e consumo de bens e riquezas. A forma pela qual cada um de nós vive seu dia-a-dia”.
Por fim, qualidade de vida, para a Organização Mundial da Saúde (OMS) (1995), é “a percepção do indivíduo de sua inserção na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”.
Não é possível existir um conceito único e definitivo sobre qualidade de vida, mas se pode estabelecer elementos para pensar nessa noção enquanto fruto de indicadores ou esferas objetivas (sociais) e subjetivas, a partir da percepção que os sujeitos constroem em seu meio. (BARBOSA, 1998)
Segundo Vilarta e Gonçalves (2004, p. 33), essas esferas se caracterizam como:
Objetividade das condições materiais: interessa a posição do indivíduo na vida e as relações estabelecidas nessa sociedade;
Subjetividade: interessa o conhecimento sobre as condições físicas, emocionais e sociais relacionadas aos aspectos temporais, culturais e sociais como são percebidas pelo indivíduo.
Pontos de vista objetivos buscam uma análise ou compreensão da realidade pautada em elementos quantificáveis e concretos, que podem ser transformados pela ação humana. A análise desses elementos considera fatores como alimentação, moradia, acesso à saúde, emprego, saneamento básico, educação, transporte, ou seja, necessidades de garantia de sobrevivência próprias da sociedade contemporânea.
Essa perspectiva caracteriza a análise em qualidade de vida como uma busca por dados quantitativos e qualitativos que permitam traçar um perfil de um indivíduo ou grupo em relação ao seu acesso a bens e serviços. Esses dados são gerados com base em informações globais
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dos grupos estudados. A partir deles, são traçados índices estatísticos de referência sobre posições socioeconômicas de populações, assim como comparações entre objetos diferentes. Com esse tipo de tratamento, torna-se possível estabelecer quadros de perfis socioeconômicos para ações voltadas à melhoria da qualidade de vida dos sujeitos envolvidos.
A análise de qualidade de vida sob um aspecto subjetivo também leva em conta questões de ordem concreta, porém, considera variáveis históricas, sociais, culturais e de interpretação individual sobre as condições de bens materiais e de serviços do sujeito. Não busca uma caracterização dos níveis de vida apenas sobre dados objetivos; relaciona-os com fatores subjetivos e emocionais, expectativas e possibilidades dos indivíduos ou grupos em relação às suas realizações, e a percepção que os atores têm de suas próprias vidas, considerando, inclusive, questões imensuráveis como prazer, felicidade, angústia e tristeza.
Quanto aos aspectos subjetivos, é preciso uma caracterização prévia do ambiente histórico-social em que vive o grupo ou sujeito para uma análise sobre seus níveis de qualidade de vida. Lembrando que o estabelecimento desses níveis se dá de forma relativa às necessidades, expectativas e percepções individuais.
Relacionando as definições de qualidade de vida apresentadas com as duas esferas em que circula essa área de conhecimento, pode-se observar que, embora os autores citados apresentem prevalências individuais de análise quanto a elementos objetivos ou subjetivos, não é possível isolá-los em suas definições.
Há uma relação íntima entre aspectos objetivos e subjetivos a respeito desse tema: “nenhuma análise sobre qualidade de vida individual poderá ser desenvolvida sem uma contextualização na qualidade de vida coletiva” (TUBINO, 2002, p. 263). Do mesmo modo, a definição de qualidade de vida da OMS, por exemplo, contempla as concepções de subjetividade do indivíduo e de objetividade das condições materiais (VILARTA e GONÇALVES, 2004).
Essa compreensão direciona o estudo sobre qualidade de vida para a necessidade de estabelecer parâmetros objetivos como condições de saneamento básico, saúde, alimentação, moradia, transporte, educação, entre outros (VILARTA e GONÇALVES, 2004). Porém, não se pode
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excluir o impacto dessas variáveis sobre a vida dos sujeitos, sendo que a interpretação, a percepção e a expectativa perante a vida variam de acordo com a individualidade de cada um.
Essa divisão de esferas de percepção busca esclarecer a problemática da multidisciplinaridade presente em estudos sobre qualidade de vida, visto que esse é um tema de grande abrangência semântica. É importante considerar que, por existirem diversas formas de definição sobre o termo, a adoção de somente uma delas parece imprudente, pois esse ainda é um campo em formação e em processo de definição de conceitos e verdades. Logo, tais definições são aceitas e utilizadas, porém, devem ser analisadas com olhar crítico e de forma situada em relação aos aspectos objetivos e subjetivos de análise, além do fato de serem complementares entre si. Tanto aspectos objetivos quanto subjetivos devem ser considerados numa análise sobre o tema.
No processo de definir as fronteiras de abrangência de qualidade de vida, torna-se necessário especificar o campo em que se encontra esse tema como área de conhecimento e saber científico. A primeira reflexão diz respeito à sua área de concentração: Humanas ou Biológicas.
Qualidade de vida seria um híbrido biológico-social, mediado por condições mentais, ambientais e culturais (MINAYO et al., 2000). Essa área de estudo, se simplesmente se ativer a questões de ordem biológica, ligadas exclusivamente à saúde clínica, corre o risco de ser incompleta e equivocada, pois desconsiderará as variáveis histórico-culturais, influentes inclusive no processo saúde-doença. A preocupação com o conceito de qualidade de vida refere-se a um movimento dentro das ciências humanas e biológicas no sentido de valorizar os parâmetros mais amplos que o controle de sintomas, a diminuição da mortalidade ou o aumento da expectativa de vida (FLECK et al., 1999, p. 20).
A colocação desses autores apresenta uma noção que busca a humanização deste conceito e dos avanços científicos e tecnológicos na área de saúde e bem-estar das populações. Humanizar a saúde e a qualidade de vida não significa somente acrescentar anos às vidas dos sujeitos, mas acrescentar vida aos anos (FLECK et al., 1999). Ou seja, não basta aumentar a expectativa de vida, mas melhorar a qualidade dos anos vividos. Portanto, tanto a percepção individual dos sujeitos, quanto análises objetivas sobre qualidade de vida, desde um ponto de
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vista semântico sobre o termo, até possíveis aplicações diretas no real, não podem ignorar o caráter de interdependência entre as duas esferas de percepção (objetiva e subjetiva), nem aspectos clínicos e sociais para que o ser humano não seja tratado como um número ou índice de análise, nem tão somente um realizador integralmente responsável pelo seu bem-estar.
Com base na revisão bibliográfica, é possível perceber uma tendência em estabelecer conceitos e níveis de qualidade de vida a partir da análise de instrumentos indicadores dessa noção. Esses parâmetros buscam quantificar aspectos populacionais da saúde e bem-estar de grupos humanos, e se apresentam sob formas, origens, referenciais e áreas de atuação distintas. Nota-se, inclusive, que expressam as esferas de percepção objetiva e subjetiva.
As aplicações de instrumentos de avaliação de qualidade de vida [...] são amplas e incluem não somente a prática clínica individual, mas também a avaliação de efetividade de tratamentos e funcionamento de serviços de saúde. Além disso, podem ser importantes guias para políticas de saúde (FLECK, 2000, p. 38).
“Os indicadores de qualidade de vida têm sido usados para avaliação da eficácia, da eficiência e do impacto de determinados tratamentos na comparação entre procedimentos para o controle de doenças” (SEIDL e ZANNON, 2004, p. 581). Embora tais perspectivas levem em consideração as relações entre saúde e qualidade de vida, elas explicitam uma intenção desses indicadores de elucidar os perfis das populações em relação às condições e aos parâmetros em que estão ocorrendo suas vidas. Os dados gerados levam a caracterizações e comparações dos grupos, e podem ser usados para fins diversos, como a promoção de saúde ou objetivos políticos e mercadológicos.
Embora os indicadores busquem traçar perfis sobre a qualidade de vida, é possível relacioná-los com as esferas referidas a partir da forma e da caracterização dos dados coletados. Os instrumentos de ordem objetiva abordam principalmente os bens materiais que influenciam a condição e modo de vida, sendo esses termos configuradores de uma ordem social. Esse tipo de análise busca estabelecer quadros gerais da vida de populações, a partir de dados obtidos de forma concreta, sem abordagem individual dos sujeitos. Por outro lado, os de ordem subjetiva visam
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também a estabelecer perfis de populações, porém, a partir da percepção individual dos sujeitos, complementando as análises referentes a bens materiais do grupo. Um desafio importante para esses instrumentos é a geração de formulações que permitam expressar correspondências entre as melhoras dos índices coletivos e de satisfação pessoal (GONÇALVES e VILARTA, 2004).
Os indicadores de níveis de qualidade de vida proporcionam um caminho metodológico de análise das esferas de percepção objetiva e subjetiva. Por essa razão, esses elementos serão apresentados de forma separada; porém, é preciso considerar a relação dialética que se expressa entre eles.
1.2 Percepções objetivas de qualidade de vida
A esfera objetiva de percepção de qualidade de vida lida com a garantia e satisfação das necessidades mais elementares da vida humana: alimentação, acesso à água potável, habitação, trabalho, saúde e lazer (MINAYO, et al., 2000). Essa forma lida com as possibilidades de consumo e utilização de bens materiais concretos, por isso, independe da interpretação do sujeito perante sua própria vida.
Essa perspectiva é mais facilmente compreendida se associada com instrumentos indicadores, visto que se apoia em dados de acesso dos grupos sociais a materiais de consumo.
Os primeiros indicadores objetivos de qualidade de vida incluíam três ordens de fato: “1. aquisição de bens materiais; 2. avanços educacionais; 3. condições de saúde” (GONÇALVES e VILARTA, 2004, p. 9). Esse tipo de análise leva a uma generalização dos grupos em questão, pois suas particularidades históricas e culturais não são levadas em consideração. Esse tipo de instrumento indicador, que se apoia em questões socioeconômicas relativas à aquisição de bens, desconsidera vertentes subjetivas e a mutliculturalidade da sociedade contemporânea, adota referenciais hegemônicos como parâmetros avaliativos (GONÇALVES e VILARTA, 2004, p. 10):
Tomam como referência padrões ocidentais modernos como modelos de referência para aferir todas as
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nações do planeta; Discriminam pouco entre países de condições assemelhadas; Adotam enfoque reduzido de desenvolvimento como melhora de produção e crescimento econômico, ignorando que qualidade de vida também transita por valores e práticas como urbanidade, respeito mútuo, enfim, a força espiritual da democracia.
Nesse tipo de abordagem faz-se possível uma comparação mais direta entre grupos separados pelo tempo ou por etnias diferentes. Isso ocorre devido à adoção de elementos identificáveis como essenciais à vida, com base em parâmetros culturalmente hegemônicos. Por um lado, essa ocorrência atribui a possibilidade de classificar grupos quanto a seus níveis de qualidade de vida, por outro, como não considera as percepções individuais e especificidades culturais dos sujeitos e coletividades, a validade das comparações e índices gerados se faz de forma política e culturalmente hegemônica em alguns momentos.
Esses indicadores apresentam pontos positivos referentes à facilidade de obtenção de dados e a geração de índices gerais sobre as condições de qualidade de vida dos grupos analisados. Isso se deve ao processo de obtenção desses dados, que se dá em análises generalizantes da sociedade, através de índices ligados às áreas da saúde, moradia, transporte, educação, alimentação, entre outras, e não através de intervenções individuais. Outra característica é o enfoque quantitativo sobre os dados e elementos analisados. A esfera objetiva de percepção lida com a presença ou ausência de determinados elementos nos grupos e a intensidade dessas ocorrências.
Um exemplo desse tipo de instrumento indicador é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Esse tipo de índice, além de considerar aspectos socioeconômicos, lida com questões de saúde, incluindo no cálculo a expectativa de vida ao nascer e taxas de mortalidade da população. “Esse índice varia de zero a um: o nível alto de qualidade de vida corresponde de 0,800 a 1,000; o nível médio está no intervalo de 0,500 a 0,799 e o nível baixo é inferior a 0,499” (GONÇALVES e VILARTA, 2004, p. 10).
A estipulação de valores entre os elementos analisados toma como referência padrões ocidentais de percepção de boa qualidade de vida e de
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expectativa quanto às necessidades de sobrevivência e bem-estar. Esse índice é aplicado em populações em nível nacional, o que, de certo modo, se caracteriza como um limite metodológico, visto que diferentes regiões de um mesmo país possuem condições socioeconômicas extremamente divergentes. Por outro lado, existe a possibilidade de adaptar ou desagregar esse indicador para grupos específicos, selecionando um critério de diferenciação entre eles (gênero ou classes sociais, por exemplo), considerando-os como países (PAIXÃO, 2000). Essa se apresenta como uma alternativa para aplicação em diferentes populações, mantendo ainda a característica objetiva de análise.
Todavia, embora seja possível adaptar esse instrumento para grupos específicos, essa alternativa, assim como toda espécie de análise objetiva, mantém o caráter de comparação entre populações, desconsiderando as especificidades étnicas e culturais.
Outro exemplo desses indicadores é o Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS), formulado por profissionais da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), que busca uma análise socioeconômica geral sobre grupos, porém, agregando campos menores que o nacional, tornando o índice mais específico. Esse índice “assenta-se em três grupos categoriais – riqueza municipal, longevidade e escolaridade – tendo sido aplicado em 645 cidades paulistas com resultados considerados bem-sucedidos” (GONÇALVES e VILARTA, 2004, p. 12).
Esses tipos de indicadores, por se aterem a determinadas populações, na maioria das vezes países ou Estados oficiais, estabelecem dados generalizantes referentes às condições de vida dos sujeitos (que interferirão diretamente na qualidade de vida dos mesmos), configurando um perfil socioeconômico de determinado grupo de análise. Por razão de o termo e a percepção de qualidade de vida não serem objetos bem definidos no senso comum, e por constituírem uma forma de propaganda mercadológica e política, a utilização desse tipo de índice pelos governos é prática constante, visando divulgar as benfeitorias de seus mandatos. Paixão (2000) cita o episódio de mudança dos critérios para cálculo das variáveis econômicas do IDH durante o governo do ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso. Nessa ocasião, o país, que tinha um índice que o classificava na faixa dos países de IDH elevado, com tal
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mudança, passou a ocupar o nível médio, com IDH igual ao do vizinho Peru. O governo brasileiro do período questionou tais mudanças, visto que utilizava o índice como forma de propaganda política e dado confirmador de ações socioeconômicas positivas.
Essa esfera de percepção (objetiva) lida com uma interpretação da qualidade de vida a partir das condições sociais dos grupos em questão. Tais determinantes são geradas como dados generalizantes, que englobam os diferentes sujeitos numa mesma condição.
Após adotar as definições deste termo, apresentadas no item 2.1 deste trabalho, uma classificação da qualidade de vida desvinculada das percepções individuais parece um tanto quanto equivocada. Mas não é; as análises objetivas produzem uma grande colaboração para intervenções nessa área, principalmente na saúde e na programação de ações sociais, direcionando pontos carentes de melhorias na vida do grupo em questão.
Por outro lado, embora seja útil do ponto de vista de melhorias de serviços à população, essa abordagem objetiva não comporta toda a complexidade que abrange o termo qualidade de vida. É preciso uma compreensão especifica sobre esses instrumentos e esfera de percepção para localizar seu papel e função nessa área de conhecimento.
Portanto, a compreensão acerca da esfera objetiva de percepção, assim como seus instrumentos indicadores, se faz importante em dois aspectos: 1. Como instrumento de avaliação das condições de vida das populações, indicando campos de carência de serviços ou de assistência; 2. Como base para caracterização dos grupos em relação aos ambientes socioeconômicos em que estão inseridos. Considerando que a percepção de qualidade de vida do ser humano é vinculada tanto às suas subjetividades, quanto às suas possibilidades de realização em sua vida, essa esfera de percepção se caracteriza como um primeiro passo para o entendimento desse campo de conhecimento.
1.3 Percepções subjetivas de qualidade de vida
Essa esfera de percepção lida, numa primeira instância, com as ações individuais perante a própria vida do sujeito. Engloba desde suas opções por práticas, como a expectativa e a percepção de seus níveis de
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qualidade de vida.
Segundo Gonçalves (2004), a esfera subjetiva de compreensão de qualidade de vida diz respeito ao estilo de vida do sujeito, que se caracteriza como os hábitos aprendidos e adotados durante toda a vida, relacionados com a realidade familiar, ambiental e social. São ações que refletem as atitudes, os valores e as oportunidades na vida das pessoas, em que devem ser considerados elementos concorrentes ao bem-estar pessoal, controle do estresse, a nutrição equilibrada, a atividade física regular, os cuidados preventivos com a saúde e o cultivo de relacionamentos sociais.
Minayo et al. (2000) tratam a esfera subjetiva de percepção com valores não materiais como amor, felicidade, solidariedade, inserção social, realização pessoal e felicidade. Logo, como se trata de uma perspectiva subjetiva de ações, é sempre necessário considerar as infinitas possibilidades individuais de percepção, conceituação e valorização dessas variáveis imensuráveis objetivamente, como, por exemplo, o sentimento de prazer em diferentes situações do cotidiano, que se expressa de formas distintas entre sujeitos. Isso se exemplifica na afirmação de Rosário (2002), de que a melhoria da qualidade de vida está atrelada à busca pela felicidade.
Percebe-se que a esfera subjetiva de percepção engloba sentimentos e juízos de valor dos indivíduos. Isso é atrelado à carga cultural do sujeito, ao ambiente e local em que ele vive e às condições de desenvolvimento possíveis para sua vida. Direciona desde sua forma de ação na sociedade, como os meios de percepção e julgamento de sua vida, sempre relativos às expectativas e ao entendimento de bem-estar de seu grupo. “A subjetividade sobre o conceito de qualidade de vida diz respeito também às diferentes fases da vida do sujeito, tendo um significado diferente em cada uma delas, para a mesma pessoa” (NAHAS, 2001, p. 5).
Cada sociedade estabelece culturalmente seu padrão de vida e isso direciona as formas de expectativa e níveis de satisfação dos indivíduos que a compõem (MINAYO et al., 2000). Essa percepção exerce influência sobre o que é e o que não é uma boa qualidade de vida. O grau de satisfação dos sujeitos com suas realizações pessoais, assim como os bens materiais obtidos, variam de acordo com o padrão de sua sociedade, e, de forma mais profunda, com seus valores pessoais.
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Os gostos e as expectativas dos indivíduos variam de acordo com sua classe social e os valores e significados atrelados a ela (BOURDIEU, 1983b). Essa perspectiva exerce influência direta tanto sobre o estilo, quanto a percepção individual da vida. Isso ocorre de acordo com as possibilidades de ação e de adoção de estilos de vida saudáveis por parte dos indivíduos, determinadas pelas variáveis socioeconômicas de seu grupo social.
Além das diferenciações por classes sociais identificáveis numa mesma sociedade, existem também diferenças culturais entre grupos sociais, separados pela história ou por origens étnicas. Essa multiculturalidade expressa um fator dificultante perante a concepção do termo qualidade de vida e, principalmente, sobre instrumentos de quantificação, devido à relatividade de compreensão e a expectativa sobre o que é um bom nível de vida.
Os indicadores ligados a uma esfera objetiva de percepção têm maior facilidade em lidar com essas variações culturais, pois jogam com elementos concretos e de aquisição material, pautados numa lógica e cultura hegemônico-ocidentais. Como essa forma de análise respeita tendências ligadas às classes dominantes e seus patamares de bem-estar, também apresenta um critério sobre uma boa qualidade de vida. Dessa forma, a questão da multiculturalidade não se coloca como um problema para coleta de dados em análises objetivas, mas, por outro lado, coloca suas conclusões em dúvida, justamente por ignorarem as diversidades.
É nesse sentido que os indicadores ligados a uma esfera subjetiva de percepção atuam. Esse tipo de análise, por se caracterizar pela coleta de dados relativa à percepção individual dos sujeitos e estar voltada à sua satisfação frente às expectativas próprias, busca o desenvolvimento de perfis relativos à qualidade de vida que consideram a pluralidade cultural da sociedade contemporânea e de sociedades de outros períodos históricos.
“Os [indicadores] de natureza subjetiva respondem a como as pessoas sentem ou o que pensam das suas vidas, ou como percebem o valor dos componentes materiais reconhecidos como base social da qualidade de vida” (MINAYO et al., 2000, p. 17).
Esses indicadores atendem à premissa de que só é possível falar em qualidade de vida a partir da análise da percepção individual dos
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sujeitos sobre a própria vida. O simples questionamento pessoal pode se mostrar um critério vago, visto que depende de inúmeras variáveis que compõem a complexidade humana no momento das respostas. Logo, esses instrumentos indicadores buscam avaliar tanto questões individuais de percepção quanto a presença de bens materiais na vida dos sujeitos, sendo que informados pelo indivíduo e não por órgãos generalizantes, como na forma objetiva de análise.
Como exemplos desses indicadores, pode-se utilizar o Índice de qualidade de vida (QUALIDADE DE VIDA), criado pelo jornal A Folha de São Paulo, e o WHOQOL-100, desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
O primeiro “inclui um conjunto de nove fatores (trabalho, segurança, moradia, transporte, serviços de saúde, dinheiro, estudo, qualidade do ar e lazer)” (MINAYO et al., 2000, p. 15). Esses elementos são analisados a partir do ponto de vista da população, que é dividida por faixa de renda, escolaridade, categoria social, sexo e faixa etária. A pergunta chave é o grau de satisfação dos sujeitos, classificando em satisfatório, insatisfatório e péssimo, em um intervalo de 0 a 10.
Nota-se, nesse primeiro exemplo, que embora sejam avaliados alguns elementos ligados a bens materiais como moradia, transporte, dinheiro, o que se analisa nessa perspectiva não é a existência ou não desses fatores, muito menos se estabelece uma quantificação sobre eles. O processo se faz sobre a percepção individual dos sujeitos em relação a sua condição de vida. Esse exemplo expressa a diferença conceitual entre instrumentos indicadores objetivos e subjetivos; o primeiro busca elementos relacionados a índices quantitativos gerais da população, enquanto o segundo busca a percepção da população frente aos itens selecionados.
Outro exemplo é o questionário WHOQOL-100, desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde. Ele busca uma avaliação conceitual sobre aspectos do estado funcional, de bem-estar e da condição geral de saúde dos sujeitos (GONÇALVES e VILARTA, 2004). Esse instrumento parte da premissa de que qualidade de vida é uma construção subjetiva, multidimensional e composta por elementos positivos (mobilidade) e negativos (dor) (MINAYO et al., 2000). Foi desenvolvido por órgãos de saúde de diversos países, buscando se adequar à transculturalidade do planeta (FLECK, 2000). Esse processo se deu em dois passos: o primeiro,
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de desenvolvimento das questões, e o segundo, de tradução, visando adaptar o instrumento aos termos culturalmente equivalentes de cada idioma.
O WHOQOL-100 é composto por cem perguntas referentes a seis domínios: físico, psicológico, nível de independência, relações sociais, meio ambiente e espiritualidade/religiosidade/crenças pessoais. Esses domínios são divididos em 24 facetas, compostas por quatro perguntas cada. Além disso, existe uma 25a faceta, com questões gerais sobre qualidade de vida (FLECK, 2000):
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Quadro 1: Domínios e facetas do WHOQOL-100
DOMÍNIOS E FACETAS DO WHOQOL-100
DOMÍNIO 1 – Domínio físico
1. Dor / 2. Energia e fadiga
3. Sono e repouso
DOMÍNIO 4 – Relações sociais
13. Relações pessoais / 14. Suporte (apoio) social / 15. Atividade sexual
DOMÍNIO 2 – Domínio psicológico
4. Sentimentos positivos / 5. Pensar, aprender, memória e concentração / 6. Autoestima / 7. Imagem corporal e aparência / 8. Sentimentos negativos
DOMÍNIO 5 – Meio ambiente
16. Segurança física e proteção / 17. Ambiente do lar / 18. Recursos financeiros / 19. Cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade / 20. Oportunidades de adquirir novas informações e habilidades / 21. Participação em e oportunidades de recreação e lazer / 22. Ambiente físico: (poluição, ruído, trânsito, clima) / 23. Transporte
DOMÍNIO 3 – Nível de independência
9. Mobilidade / 10. Atividades da vida cotidiana / 11. Dependência de medicação ou de tratamentos / 12. Capacidade para o trabalho
DOMÍNIO 6 – Aspectos espirituais, religião, crenças pessoais
24. Espiritualidade / religiosidade / crenças pessoais.
(FLECK, 2000, p.35)
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O WHOQOL-100 tem escalas de respostas referentes a quatro tipos básicos de questões: intensidade, capacidade, frequência e avaliação (FLECK et al. 1999). Também existe uma versão simplificada desse instrumento, o WHOQOL-Brief, composto por 26 questões, sendo duas gerais sobre qualidade de vida e uma por cada faceta da versão em maior escala.
Embora se constitua numa esfera própria de percepção, o olhar subjetivo se caracteriza como a interpretação dos sujeitos de sua realidade histórica, social, econômica e de saúde. Por isso, é relativa a cada indivíduo e sua carga cultural, porém, deriva das relações do homem com os bens materiais que exercem interferência sobre sua vida. Logo, essa perspectiva subjetiva é válida e interessante para a discussão sobre qualidade de vida se atrelada a análises concretas e objetivas das condições de vida das populações.
É sobre essa relação que trata o próximo item desse texto, refletindo sobre as influências socioeconômicas perante a qualidade de vida dos sujeitos e suas possibilidades de ação individuais frente às decisões relativas à própria vida.
1.4 Estilo, modo e condição de vida como constituintes da qualidade de vida. As relações entre as esferas objetivas e subjetivas de percepção
Por se tratar de um campo de conhecimento multidisciplinar, o estudo em qualidade de vida engloba diversos modos e conceitos científicos, assim como inúmeras linhas de abordagem. Isso, atrelado ao tratamento do senso comum e mercadológico, faz com que diferentes autores ou sujeitos, fora das margens científicas, abordem esse tema sob perspectivas diferentes, e, mesmo que involuntariamente, utilizem ou não conceitos ou esferas de entendimento diversas. Portanto, a diferenciação entre padrões de entendimento e percepção se faz necessária para nortear as análises e organizar os conteúdos e abordagens. Isso não pode ser confundido com um paradigma determinista e reducionista. O fato de existirem percepções mais voltadas à análise subjetiva e outras ligadas à objetiva são tendências que se complementam e, associadas, configuram o atual campo de conhecimento em qualidade de vida.
34 Qualidade de Vida
É preciso salientar que as esferas de percepção sobre qualidade de vida (objetiva e subjetiva) têm suas fronteiras muito tênues. Observa-se que autores que adotam definições sobre este termo tendendo a adotar uma dessas formas de compreensão, por vezes, ainda utilizam conceitos e princípios de outra. Isso não se caracteriza por um equívoco metodológico. O fato é que lidar com qualidade de vida implica em considerar inúmeras variáveis que a compõem e as relações entre elas.
Isso justifica o fato de que, em alguns momentos, ao procurar ater-se a uma das esferas, existe uma certa dificuldade em não utilizar elementos de outra. Dessa forma, as relações entre uma esfera objetiva (melhor expressa pela análise de indicadores sobre as condições de vida) e subjetiva (ações próprias do estilo de vida do sujeito) são inevitáveis, pois exercem influência mútua.
Uma explicação para esse fato se dá no conceito de Qualidade Ambiental, que se constitui pelos juízos de valor relacionados ao estado ou condições do ambiente (BARBOSA, 1998). Essa perspectiva lida com as influências do ambiente sobre a qualidade de vida dos sujeitos. Esse universo pode se expressar tanto física como socialmente. Independente dessa diferenciação, o meio em que se coloca o indivíduo delimita suas possibilidades de desejo, necessidade e realização.
Busca-se, então, uma reflexão sobre essa relação. Os hábitos e as formas de se comportar dos sujeitos dependem de sua posição na hierarquia social. Ou seja, o consumo simbólico define a diferença entre estruturas sociais distintas, não através da quantidade de bens de determinada classe, mas na forma como o grupo consome e utiliza esses bens (BOURDIEU, 1992). Para adquirir as características simbólicas de determinado grupo, o indivíduo precisa ter um estilo de vida que permita tal realização.
A diferenciação entre estruturas sociais diferentes exprime a relatividade entre as diversas expectativas e possibilidades de realização em relação ao bem-estar e conforto numa sociedade. As classes sociais têm gostos e preferências diferentes entre si e o estilo de vida seria uma forma de expressão construída por vivências histórico-culturais do sujeito, que exercem influência sobre seus hábitos (BOURDIEU, 1983b). Segundo o mesmo autor, os gostos de liberdade (o que o sujeito escolhe para sua vida para saciedade de prazer) só têm lógica se os gostos de necessidade
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(realizações para garantia da sobrevivência) forem garantidos.
Segundo Freitas (2005), através de pesquisa empírica, é possível perceber diferenças entre a percepção, o sentido e o significado que diferentes classes dão aos mesmos fenômenos. Essa autora dá o exemplo do futebol que, ainda que seja um fator de aproximação social e que produz excitação em todas as esferas sociais, se expressa com significados diferentes entre elas, e se caracteriza como uma forma de encobrir problemas sociais; é uma opção de trabalho para classes menos privilegiadas e apenas lazer e distração para classes mais privilegiadas.
Estilo de vida é o conjunto de ações habituais que refletem as atitudes, os valores e as oportunidades na vida dos sujeitos (NAHAS, 2001). Acrescentando a contribuição de Bourdieu (1983b) a essa afirmação, pode-se compreender que se trata das ações individuais que refletem os hábitos e a carga cultural do sujeito e que interferem diretamente em sua vida. Essas ações são permeadas pela possibilidade de escolha do indivíduo e de adoção ou não de práticas no seu cotidiano.


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