PLANTAS MEDICINAIS USOS POPULARES TRADICIONAIS - parte 6


O nome comum, morrião-dos-passarinhos, como também seu
nome em espanhol e alemão, por exemplo, lembra uma de suas grandes
utilidades: a de servir de alimento para os pássaros. É uma erva rasteira
de raminhos finos, que se alastram pelo chão com florzinhas brancas, em
forma de estrela (Stellaria) e sementes minúsculas, que os passarinhos,
como por exemplo a rolinha, catam no chão.
Antigamente era esta planta usada para alimento dos pássaros
nas gaiolas. Era e é usada também na alimentação humana. Por isso diz
um autor: em vez de arrancá-la, vale a pena lembrar que ela se recolhia
tradicionalmente como hortaliça. Outro autor diz que esta erva foi muitas
vezes usada como alimento para as aves e, sobretudo no inverno,
constitui uma das poucas fontes de sementes frescas, para estes animais.
Foi utilizada também como alimento para o gado e inclusive para o
homem, e este foi seu emprego mais estudado.
Quanto a seu valor medicinal, diz textualmente o autor de um
livro popular: “Planta daninha que cresce mais durante o inverno. É
interessante observar que o gato, sofrendo de diabete, vai instintivamente
procurá-la para se curar. O chá desta plantinha favorece as vias
respiratórias, cura as inflamações dos brônquios. Externamente, é
adstringente, ajuda a curar inflamações e feridas, cataplasmas favorecem
o amadurecimento de abcessos.” Em 1597 já dizia um autor da época
“em uma palavra, reconforta, ajuda a digerir, protege e faz supera muito
notavelmente”.
Modernamente se diz que se emprega a erva fresca, se é
possível, para fazer uma preparação limpadora e tônica que alivia o
cansaço e a debilidade. É útil nas inflamações das vias urinárias como a
cistite.
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PATA-DE-VACA
Este é um chá genuinamente nosso, tanto por existir espontânea
em nossa região, como por ser muito conhecido e usado pelo povo para
problemas de rins. Existe pata-de-vaca árvore e pata-de-vaca cipó. Patade-
vaca árvore são duas. Uma tem o nome científico Bauhinia candicans
e a outra Bauhinia forficata. Em nossa região existe mais a primeira.
Ambas são da família Leguminosas.
São árvores de porte médio que crescem principalmente em beira
de matas e capoeirões. Se conhecem facilmente pela folha, que é fendida
longitudinalmente até pela metade, donde a semelhança com um casco
bovino. Na base de cada folha há dois espinhos, um pouco curvos. A flor
é grande, de pétalas brancas, um pouco retorcidas. As vagens são
achatadas, muito duras e, quando secam, estalam, jogando as sementes
longe.
A pata-de-vaca cipó se encontra no interior da mata e costuma
subir nas árvores bem altas. Seu nome científico é Bauhinia
langsdorffiana, também das Leguminosas. É chamada também cipóescada-
de-macaco, porque o cipó, principalmente quando mais velho, é
achatado, largo e ondulado, parecendo formar degraus de escada. As
folhas são também fendidas e cobertas com uma penugem finíssima que
lhe dá uma coloração acobreada.
As flores e frutos são pouco conhecidos, porque sempre se
encontram no alto das árvores. A pata-de-vaca cipó não tem espinhos.
Muitas vezes se confunde a árvore pata-de-vaca com outra
árvore ornamental também chamada pata-de-vaca ou mororó, mas que se
distingue da verdadeira pata-de-vaca porque não tem espinhos e as folhas
são maiores e mais arredondadas e as flores são coloridas. Esta não é
medicinal. Os chás da pata-de-vaca, tanto árvore como cipó, são
indicados para os rins. São amplamente usados como diuréticos. Além
disso, em muitos estudos, publicados em vários livros e escritos
científicos, antigos e modernos, são indicados para a diabete.
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PICÃO-PRETO
Planta das mais conhecidas e mais importunas para quem vive
no campo, onde se reproduz abundantemente em lavouras e qualquer
espaço livre. Importuna por causa das sementes que com seus
minúsculos ganchos se prendem à roupa das pessoas e ao pêlo dos
animais, favorecendo sua disseminação. Seu nome científico é Bidens
pilosa, da família Compositae (Asteraceae). É planta típica da América
tropical, abundante em todo o Brasil. Na literatura estrangeira só se
encontra referência a uma outra espécie, Bidens tripartita.
Um livro de 1910 diz textualmente, na ortografia de então: “Tem
princípio acre e mucilaginoso. Usa-se o decocto dos ramos e das folhas,
assim como o succo. Externamente, o decocto é empregado como
vulnerareo e cicatriciante, e, em gargarejos nas anginas simples,
amygdalites, etc. Cataplasmas são tambem empregados como
revolutivos das glandulas engurgitadas. O succo é empregado
internamente contra as manifestações de ictericia. Acreditamos que, o
infuso dos ramos e folhas tenha propriedades agindo sobre o canal
aéreo.”
Citações de livros atuais apresentam, entre outras, as seguintes
indicações. É freqüente o uso do chá para combater icterícia e,
principalmente, empregado para combater hepatites. Regenera o tecido
lesionado por ferimentos ou feridas, cicatrizando-o. Tem atuação
comprovada na diminuição da glicose no sangue, ativando o pâncreas na
distribuição da insulina. Normaliza o distúrbio orgânico caracterizado
pelo aumento da bilirrubina no sangue das pessoas que estão com
icterícia.
Certamente a indicação que mais interessa hoje é a relativa à
diminuição da glicose no sangue. Esta mesma indicação se encontra
também em livro recente de Cuba, onde se diz textualmente que “en
otros países se usa como hipoglicemiante, actividad verificada en
Colombia en animales de experimentación”.
Além do picão-preto é conhecido entre nós o picão-branco, ao
qual se atribuem as mesmas propriedades.
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POEJO
O poejo é uma planta medicinal bem familiar, principalmente
entre o povo do interior, onde qualquer mãe sabe que um chazinho de
poejo é um santo remédio para as cólicas das crianças. O conhecimento e
o uso do poejo vem desde a Antiguidade. Assim diz, por exemplo,
textualmente um livro antigo, em espanhol, falando das virtudes do
poejo: “Son parecidas a las de la menta. En general, el poleo (poejo) se
considera un buen tónico estomacal, digestivo y carminativo; la gente del
campo lo emplea con predilección contra los dolores de tripas. También
sirve para ahuyentar las pulgas, como la albahaca (alfavaca) los
mosquitos, por lo menos así viene diciendose desde la Antigüedad.”
Um livro moderno diz que pode ser usado em transtornos
gástricos leves, flatulência, naúseas, dor de cabeça e dores menstruais.
Em combinação com outros remédios é benéfico nas primeiras fases do
resfriado comum. As folhas frescas podem ser aplicadas externamente
para aliviar as irritações cutâneas e as picadas de insetos.
Existem por aqui dois tipos de poejo, que correspondem a duas
espécies diferentes. Uma espécie é originária da Europa e seu nome
científico é Mentha pulegium. A outra espécie é originária da América
do Sul e se chama Cunila microcephala, ambas da família Labiatae.
Cunila microcephala, o poejo nativo, é o mais comum, de folhas bem
pequenas, caules finos e longos, que se estendem pelo solo. É o que todo
mundo usa e é o mais cultivado. O outro, chamado Mentha pulegium, é
mais raro, de folhas maiores e mais claras. O aroma deste é também forte
e agradável, como o do outro. As propriedades de ambos são as mesmas,
sendo, portanto, também os mesmos os seus usos. Nos livros as
referências são quase todas para Mentha pulegium, o de origem européia,
conhecido e usado no mundo inteiro. Poucas referências se encontram
para o nosso poejo nativo.
Por causa do seu uso popular, o poejo parece em tudo com uma
erva inocente e inofensiva. Mas é preciso ter cuidado com o óleo,
principalmente o extraído do poejo europeu. Este óleo é altamente tóxico
e seu uso não controlado provoca lesões renais irreversíveis. Usado em
doses elevadas como abortivo já causou mortes.
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QUEBRA-PEDRA
Existem várias plantas medicinais com o nome popular quebrapedra,
arrebenta-pedra ou também erva-pombinha. Chama-se assim, em
primeiro lugar, porque são usadas para dissolver pedras dos rins, no que
são realmente eficientes. Mas algumas delas costumam crescer no meio
das pedras, o que justifica seu nome. Algumas são rasteiras e outras
pequenas ervas. São de origem das Américas, do Texas à Argentina.
Muito conhecidas entre a população, as ervas medicinais
chamadas quebra-pedra são também muito comuns e frequentes. O uso
mais comum é para os problemas de pedras nos rins, mas os livros
indicam também outras propriedades. Um exemplo: “Elimina catarros
vesicais, cálculos do fígado, areia dos rins e da bexiga, alivia as dores de
cadeira e das juntas e a hidropisia. Combate dor de barriga, azia,
prostatites. Chá das folhas e das sementes é indicado contra diabetes.”
Para confirmar, a citação de outro livro: “Esta planta dissolve as areias e
cálculos. É diurética, fortificante do estômago, aperiente. Usada para
combater as cólicas renais, cistites, enfermidades crônicas da bexiga,
hidropisia, distúrbios da próstata. Em alguns lugares, as folhas e
sementes são usadas como remédio específico contra a diabete. Usa-se
toda a planta.”
Há várias quebra-pedras, todas da família Euphorbiaceae.
Aquela bem rasteira, formando pequenas manchas compridas contra o
solo, é a Euphorbia prostata, também chamada quebra-pedra-rasteira. As
quebra-pedras eretas são de duas espécies, Phyllanthus niruri e
Phyllanthus corcovadensis. Estas duas são muito parecidas. A primeira é
menos ramificada, de um colorido geral meio avermelhado. A Segunda é
mais ramificada, toda verde. Ambas têm em geral 20 a 50 cm de altura.
Há ainda outra quebra-pedra, conhecida entre nós como sarandi,
que os espanhóis chamam sarandí blanco. É o Phyllantus sellowianus,
que cresce na beira dos rios ou mesmo entre as pedras no meio da água.
Diz um autor: “Las hojas del sarandí blanco se amplean especialmente
como diuréticas y antidiabéticas.” Outro autor dá outras indicações:
“Esta espécie es muy utilizada contra diabetes, el asma y la alta presión.”
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QUEBRA-TUDO
Esta planta medicinal, apesar de muito útil, é muito pouco
conhecida. Por isso a apresento aqui. Não confundir com quebra-pedra,
que é bem outra coisa. Tem outros nomes populares, como erva-delagarto,
jasmim-do-mato, e outros. Seu nome científico é Calea
pinnatifida, da família das Compositae. É planta nativa que ocorre muito
no sul do Brasil. Encontra-se principalmente em beiras de mato e
clareiras, sempre onde há bastante luz. É uma planta chamada
escandente, porque sobe por cima e por entre os ramos e galhos de outras
árvores e arbustos, apoiando-se neles, mas sem se enrolar. Dos ramos
principais partem ramificações, sempre duas do mesmo ponto e em
ângulo reto; é principalmente isto que faz que a planta se fixe na
vegetação ao redor, formando grandes emaranhados. Os ramos novos
parecem quadrados, mas, melhor observados, são sextavados, isto é, de
seis lados. Os ramos velhos ficam arredondados. As folhas são pequenas,
triangulares, com o lado da base mais curto. As flores nascem nas
extremidades, formando cachos amarelos, que cobrem todo o
emaranhado no começo da primavera.
Sobre o valor medicinal do quebra-tudo não se encontra quase
nada nos livros, mas as informações orais populares são muito ricas.
Segundo a tradição popular o quebra-tudo é muito usado em rituais para
banhos de descarga, o que dá uma idéia certa do seu valor
desintoxicante.
Um chazinho após as refeições é remédio certo para uma
digestão difícil. Ainda com a vantagem de ajudar a emagrecer, segundo
depoimento fidedigno de usuários com experiência própria. É esta uma
das razões porque é muito procurado.
Afirma-se também que é uma solução certa para uma ressaca.
Mas cuidado: quando fizer seu chá de quebra-tudo não exagere
na dose, ele é extremamente amargo. Constate isso mastigando um
pedacinho de uma folhinha. Não conheço nada mais amargo.
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QUITOCO
Por muitos esta planta medicinal é chamada arnica. Mas há
muitas plantas que são chamadas arnica, as que são usadas para
massagear contusões ou afomentar. O quitoco de que aqui se fala é
identificado pelo nome científico Pluchea sagittalis, da família
Compositae. Em outras regiões do Brasil recebe nomes esquisitos como
caculucage, madrecravo e tabacarana. Em espanhol é chamado lucera ou
hierba del lucero. É planta do continente sul-americano. Na literatura
européia nada se encontra sobre ele. É uma erva que gosta de crescer em
terrenos úmidos. As folhas são bem ligadas aos caules e correm ao longo
deles. São mais peludas e pegajosas e quando esmagadas soltam um
perfume muito bom. As flores formam conjunto de cabecinhas, brancas
no início e depois castanhas.
É estranho, mas sobre o uso popular do quitoco para
afomentação não se encontra nada em nossos livros.
Seu valor medicinal é bem variado. Segundo um livro, empregase
o cozimento das folhas e raízes nas digestões difíceis, gases
intestinais, inapetência, inflamações do útero, reumatismo, artritismo,
resfriados, tosses e bronquites. Semelhantemente diz um outro que é
digestivo, para diarréia, pressão alta, contém essências aromáticas, é
estomacal e para fígado e gases, apendicite, antiinflamatório, para cólicas
do útero, reumatismo, bronquite e tosse, regulador da menstruação. Uma
publicação argentina diz: "La infusión de hojas y tallos es muy utilizada
contra dolores de estómago, náuseas, vómitos, para facilitar la acción del
intestino, del hígado, como digestivo y contra las indigestiones o
empachos en general." Estas indicações são confirmadas por outro
autor:"Las hojitas y el extremo de las ramas pequeñas se emplean mucho
en infusión para combatir trastornos estomacales y sobretodo hepáticos."
Na Argentina se vende um licor aperitivo muito conhecido, chamado
"lucera", para fígado e bilis.
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SÁLVIA
No século X se dizia à respeito da sálvia: “Por que haveria de
morrer o homem de uma enfermidade podendo ter sálvia em seu
jardim?” Apreciada desde antigas civilizações, seu valor já aparece no
próprio nome científico, Salvia officinalis, e em grande parte dos nomes
populares. Salvia deriva do verbo latino salvere, que significa ter saúde,
passar bem. Associada tradicionalmente à longevidade, a sálvia tem
fama de devolver a memória aos idosos. Quando países da Europa, como
Inglaterra e Holanda, começaram a importar chá da China, os chineses
davam tal valor à erva que ofereciam duas caixas de chá por uma de
sálvia.
Há muitas variedades de sálvias. Muito usada entre nós é a
chamada sálvia-tempero, com folhas de cor um pouco arroxeada. As
folhas frescas são um estimulante digestivo amargo. São antissépticas,
reduzem a transpiração, a salivação e a produção de leite; são
antibióticas, reduzem os níveis de açúcar do sangue e favorecem o fluxo
biliar. São amplamente usadas na culinária. São ainda úteis em
enfermidades hepáticas, em infecções do trato respiratório e transtornos
nervosos, como ansiedade e depressão. Foram empregadas
tradicionalmente na esterilidade feminina. Um gargarejo com sálvia com
um pouco de vinagre e mel é considerado particularmente eficiente para
gengivas irritadas, aftas, dores de garganta e problemas de mucosas.
Os antigos recomendavam não usar as folhas de sálvia sem laválas
bem, pois diziam que os sapos se abrigavam embaixo delas,
envenenando-as com seu hálito e saliva. Recomendavam também plantar
junto à sálvia arruda, para afastar os sapos. Daí o dito popular em latim
“Salvia cum ruta faciunt tibi pocula tuta”, o que significa que sálvia com
arruda tornam tuas bebidas seguras.
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SÁLVIA-DA-GRIPE
O nome científico desta planta medicinal é Lippia alba, da
família Verbenaceae. Popularmente é conhecida por uma porção de
nomes, que variam conforme a região: erva-cidreira-de-campo, alecrimdo-
campo, salsa-brava, salvia e sálvia-do-Rio Grande do Sul, salva,
salva-limão e lípia. Os argentinos a chamam de salvia-maestra e salviade-
jardin. Geralmente forma touceiras baixas de ramos finos e longos
que se dobram para o chão. As folhas, bem verdes, simples, e ásperas,
crescem aos pares, opostas; na base delas aparecem os tufos de flores
lilases. Tem a propriedade de produzir raízes nos ramos, quando estes
tocam no solo.
Suas propriedades medicinais são indicadas de várias maneiras
em regiões diferentes da América Latina. O chá ou xarope das folhas
com mel é utilizado contra gripes e tosse. O chá das folhas é útil para
acalmar crianças e dar sono. Outras indicações dizem que o chá das
folhas é gostoso, gosto de limão, e serve para fortalecer o cérebro e os
nervos, a memória e contra o histerismo. Além disso se diz que é planta
antiespasmódica, estomáquica, sucedânea da sálvia e da melissa em
quase todo o nosso país. Contém saponina e nas folhas frescas um óleo
essencial.
Indicações interessantes vem da Argentina. Para suprimir as
cólicas menstruais e cortar as regras excessivas, se prepara um
cozimento com um punhado de folhas em meio litro de água, o qual deve
beber-se três vezes ao dia a modo de chá. Esta receita goza de grande
aceitação popular e algumas sustentam que às vezes basta tomá-la uma
só vez. Segundo algumas curandeiras, um remédio eficaz para a falta de
memória consiste em colocar um ramo de sálvia-da-gripe debaixo do
travesseiro.
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SERRALHA
A serralha é uma planta muito conhecida no meio rural. É muito
frequente como invasora nas culturas e por isso é considerada erva
daninha. Mas também é muito usada para pasto dos animais. “Como o
caule é lactescente, diz um autor, imaginou-se no passado que a planta
poderia estimular a lactação, em mulheres e fêmeas de animais. Cabras e
bovinos apreciam as folhas e ainda hoje se diz que sua ingestão aumenta
a produção de leite.”
A serralha de que aqui se trata, chamada também serralha-lisa, é
a mais comum e tem o nome científico Sonchus oleraceus, da família
Compositae. Distingue-se de outra que é chamada serralha-áspera ou
serralha-espinhenta, de folhas realmente espinhentas. A serralha-lisa
chega a cerca de 1 m de altura. Tem o caule oco e bastante mole, as
folhas são recortadas. Tem flores amarelas, as sementes formam uma
bola branca e são carregadas pelo vento.
A serralha-lisa é um saudável alimento também para os homens.
É consumida geralmente como salada, apesar do seu gosto amarguento.
As folhas contêm alto teor de vitamina C e de sais minerais. Já os
romanos usavam a planta como salada e era recomendada por suas
propriedades nutritivas e curativas. Estas propriedades curativas são
várias, indicadas por vários e de várias maneiras. É utilizada no
tratamento de hepatites crônicas e como depurativo. O líquido que sai de
suas folhas, conhecido como látex, é ótimo remédio contra o terçol.
Já em 1910 um médico gaúcho escrevia, na ortografia de então:
“O suco da herva póde ser empregado como emoliente, aperitivo e
lithotríptico. Toda a planta é galactagoga das cabras e das vacas que a
comem. Deveria ser experimentada em Gynecologia”.
Na Argentina é chamada cerraja. De lá vem esta receita: “De
acuerdo con la indicación de una ‘medica’, para prepararse una poción
contra la tos, se pone a hervir un litro de água y cuando rompe el hervor,
se añaden una planta entera de cerraja y una cucharada de miel de abeja,
dejando-se hervir unos cinco minutos, hasta que adquiere consistencia de
jarabe. Puede tomarse caliente o frio”.
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TANACETO
Tanaceto é o nome popular de uma planta medicinal que tem o
nome mais popular ainda de catinga-de-mulata, além de se chamar
também tanásia, atanásia, erva-dos-vermes, erva-das-moscas. O
amazonense Sacaca, ervateiro e também mulato, prefere que se chame
cheiro-de-mulata. Seu nome científico é Tanacetum vulgare, da família
Compositae. No seu nome científico e em alguns populares aparece a
idéia de imortalidade, que talvez venha de suas flores que são muito
duradouras. Ela é de fato uma planta ornamental e diz um autor inglês
que é cultivada frequentemente nos jardins de ervas por suas atrativas e
duradouras inflorescências amarelas, que se empregam além disso nos
pot-pourris e outros artigos perfumados destinados a repelir insetos. Por
causa do seu cheiro forte e suas propriedades inseticidas era muito usada
nos tempos pouco higiênicos da Idade Média para se espalhar no chão
das casas e nos locais públicos para mascarar o mau cheiro e afugentar
as moscas. Era espalhada por toda casa: nos tetos, onde afastava moscas,
nos guarda-roupas e armários, que protegia das traças, sob os colchões e
na casa do cão, que defendia das pulgas e na cozinha, entre as
especiarias, pois uma pitada confere ótimo sabor a omeletes e pudins.
Em relação ao seu uso medicinal é preciso observar, antes de
mais nada, que se trata de uma erva forte e não deve ser consumida em
grandes doses e nunca por gestantes, pois é abortiva. Remédio muito
popular contra vermes, o tanaceto costuma ser administrado sob forma
de chá à noite e pela manhã, com o estômago vazio. Em doses pequenas
é estomáquico, antiflatulento e revigorante.
Há também o folclore. Uma curandeira argentina traz esta receita
interessante para estudantes e velhos: "Cuando hay debilidad de
memoria, se estruja una planta dentro de un recipiente que contenga un
litro de água y se pone al sol por algunas horas; con este macerado hay
que lavar-se la cabeza e inmediatamente envolverla con uma toalla.
Segun la curandera que transmitió esta información, se trata de un
remedio infalible para fortalecer dicha actividad mental.”
Por último, uma grande virtude do tanaceto: uma simples folha,
colocada entre a sola do pé e a meia, evita a fadiga. Esta está num livro
inglês de 1991.
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TANCHAGEM
A tanchagem, também chamada tansagem, transagem ou
plantagem, é uma planta invasora muito mal vista em hortas e jardins.
Ao longo de uma haste, que sai de uma roseta de folhas, se forma uma
quantidade muito grande de sementes muito pequenas, e estas garantem
sua dispersão eficiente e consequente infestação. Encontram-se espécies
diferentes de tanchagem entre nós.
A mais comum tem o nome científico Plantago tomentosa. É a
que se encontra nos gramados, beira de caminhos, lavouras abandonadas.
Uma outra, Plantago lanceolata, tem as folhas estreitas e compridas, e as
sementes se formam só num tufo na ponta da haste. Uma terceira é a
Plantago major, que, como seu nome diz, é a maior de todas. Tem as
folhas estreitas na base e muito alongadas e arredondadas para a ponta.
Estas três são as mais conhecidas e usadas. Podem ser usadas primeiro
como salada. Não são grande coisa quanto ao gosto, mas, quando novas,
servem muito bem para misturar com outras saladas. Seu uso principal é
medicinal, e neste caso suas propriedades são extraordinárias.
Provavelmente o uso mais comum é como antiinflamatório.
Externamente seu cozimento, seu suco ou a própria folha amolecida na
fervura, são usados para todo tipo de lesões, feridas. Internamente o chá
ou a tintura são realmente eficientes contra todos os tipos de
inflamações. Muito usada nos problemas do aparelho respiratório. Para
as crianças se recomenda contra a tosse um xarope de tanchagem: o suco
espessado adoçado com mel ou açúcar. As sementes são levemente
laxantes.
Por fim uma boa notícia para eles e para nós, isto é, para os
fumantes e os não fumantes.
Segundo vários autores, na expressão de um deles, "o uso da
tisana (= chá) de tanchagem origina repugnância ao desejo de fumar,
como diz a experiência dos antigos".
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TOMILHO
O tomilho não é em nossos dias muito conhecido popularmente.
Mais conhecidas são outras espécies da mesma família, pertencentes ao
mesmo grupo, como manjerona, hortelã, alecrim e manjericão. Seu nome
científico é Thymus vulgaris, da família Lamiaceae (Labiatae). É uma
planta ao mesmo tempo condimentar, aromática e medicinal. Devido a
esta soma de qualidades não admira que tenha sido usada desde a
antigüidade até nossos dias, e hoje continua em uso em muitas regiões e
para diversas finalidades.
Na culinária usam-se as folhas e os brotos frescos ou secos e
pulverizados. Vai bem com molhos que acompanham raízes (cenoura,
beterraba, nabo), nas sopas, recheios para pepinos, tomates e nos pratos
de repolho e leguminosas. Ajuda a fazer a digestão das comidas com
gordura. Para alguns o uso preferido é nos vinagres e nos óleos, que
depois de prontos vão perfumar saladas e massas. O tomilho é ainda um
dos segredos do perfume do famoso licor Benedictine.
São variadas suas propriedades medicinais. O princípio ativo
mais importante é o óleo essencial que confere à planta sua ação
espasmolítica e desinfetante. Os pulmões e os brônquios, o estômago e o
intestino são órgãos aos que mais ajuda o tomilho. O chá ou os extratos
em forma de gotas e sucos acalmam a tosse convulsiva, as bronquites
crônicas e agudas e os ataques de asma. O tomilho atua como tonificante
no trato digestivo. Estimula o apetite e melhora a digestão dos alimentos.
Estas propriedades do tomilho não passaram despercebidas dos
antigos. Desde o 3° século antes de Cristo se experimentavam as
propriedades medicinais desta planta. Galeno, Teofrasto e Discórides já
explicavam as aplicações antissépticas e higiênicas, emenagogas e
abortivas, assim como suas propriedades antiinflamatórias e
antiespasmódicas.
E não podiam faltar as propriedades mágicas do tomilho. Um
travesseiro recheado de tomilho evita os pesadelos, e usar um raminho
no bolso ou na bolsa afasta os fluídos negativos de certos ambientes
carregados.
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URTIGA
Na opinião da maioria absoluta das pessoas de hoje, a urtiga é
uma planta pelo menos inútil ou um inço, mais provavelmente, uma
praga, por causa da coceira ou da ardência que o ácido contido em suas
minúsculas agulhas provoca na pele ao ser tocada. Entretanto ela foi e
continua sendo uma planta útil sob vários aspectos. São conhecidas entre
nós três espécies de urtiga: a urtiga nativa, planta comum nas lavouras,
que é a Urtica urens, dos botânicos; uma urtiga européia, Urtica dioica,
parecida com a nossa; e o urtigão, que se encontra nas capoeiras e matas
e chega a dar uma árvore, que é a Urera baccifera, que dá uns cachos
vermelhos de frutinhas brancas, comestíveis. Todas são da família
Urticaceae.
A urtiga foi usada antigamente como planta têxtil. Com suas
fibras se fabricavam tecidos finos e grosseiros e também cordas. Estas
fibras são consideradas de ótima qualidade e comparadas ao melhor
algodão egípcio. Por estranho que pareça, a urtiga é também uma planta
comestível. Com o calor a substância urticante perde suas propriedades,
de maneira que pode ser consumida tranqüilamente. Por isso se
encontram nos livros receitas de sopa de urtiga, salada e mesmo vinho e
cerveja de urtiga. Era usada também para coalhar o leite, do qual
resultava um queijo apreciado.
O valor medicinal da urtiga é bem variado. Assim diz um livro:
“Na Europa, no século passado, a sopa de urtigas era um dos principais
alimentos para curar as crianças anêmicas”. Outro livro, canadense, diz:
“Todas as partes da urtiga, caule, folhas, flores e raízes, possuem
propriedades medicinais. A urtiga é rica em ferro e magnésio; é por isso
que ela ajuda a combater a anemia e eleva a taxa de hemoglobina no
sangue”. O mesmo livro faz referência também à flagelação terapêutica
com urtigas, considerada benéfica desde a antiguidade e remédio sem
precedentes contra o reumatismo, mas pouco apreciado pelos pacientes
de hoje. Mais fáceis de utilizar, a decocção da raiz e as compressas
quentes das folhas trituradas se empregam igualmente para banhar as
partes afetadas pelas dores reumáticas e artríticas. Ainda uma indicação
muito prática: uma infusão forte, embebida em algodão, aplicada no
interior da boca, é um remédio milagroso para aftas. E, entre muitas
outras, ainda esta receita, que aparece num livro argentino: “La
decocción de la planta suele ser utilizada como pócima para adelgazar
especialmente por las mujeres, debiendo beberse en pequeña cantidad.”
Note-se que “aldegazar” significa emagrecer.
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VIOLETA
A violeta de que aqui falamos é aquela plantinha rasteira, de
folhas arredondadas, por entre as quais aparece, na ponta de uma haste
longa, uma flor azul, perfumada. É também chamada violeta-de-cheiro,
violeta-perfumada, violeta-européia, e violeta-de-jardim. Seu nome
científico é Viola odorata, da família Violaceae. Muito cultivada
antigamente, é mais rara hoje e não deve ser confundida com a violetaafricana,
introduzida mais recentemente e amplamente cultivada em
vasinhos.
Tão antigo como a violeta, é o seu valor medicinal. Homero,
poeta grego, conta que os atenienses usavam violetas para moderar a
raiva. Plínio, historiador romano, recomendava usar uma grinalda de
violetas para prevenir dores de cabeça e vertigens. Os romanos ainda
bebiam vinho aromatizado com violetas, e foram criticados pelo poeta
Horácio por passarem mais tempo cultivando violetas que oliveiras. Os
muçulmanos elogiavam as violetas quando diziam que a “excelência das
violetas é como a excelência do Islam acima de todas as outras
religiões”.
Modernamente, segundo um autor atual, as violetas se usam
fundamentalmente para a tosse, a bronquite e o catarro. Nos anos trinta
se empregavam muito para o câncer de mama e o pulmão. Figuram em
terapias alternativas para o câncer, especialmente após a cirurgia, para
impedir o desenvolvimento de tumores secundários. Outro autor atual diz
o seguinte: Herbalistas modernos valorizam as propriedades
expectorantes das folhas e flores, e as receitam para tosses, bronquite e
catarro. Uma série de testes realizados nos anos 60 mostrou que um
extrato de folhas de violeta inibiu o crescimento de tumores em ratos.
Confirmando propriedades conhecidas e outras insuspeitas, diz outro
autor, também atual: Uso interno: bronquite, catarro respiratório, tosse,
asma e câncer de mama, pulmões ou tubo digestivo. E um outro autor
completa: As folhas e as flores se empregam principalmente no
tratamento dos transtornos respiratórios, em especial do catarro nasofaríngeo
crônico e da bronquite. Empregadas em xaropes para tosse; se
empregam também no tratamento de reumatismo. Utilizam-se como
gargarejos em casos de inflamação da mucosa bucal.
Em relação ao uso interno, apenas uma restrição; em doses
elevadas, as violetas provocam náuseas e vômitos, por causa dos efeitos
irritantes das suas saponinas no sistema digestivo.

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