O quarto segredo - parte 4


branco e verde. Aspargos tenros, deliciosos. E figos frescos, simplesmente assados no forno, que criarão um fantástico e saboroso contraste.
A seguir, virão os 'entreméts sucrée', entremeios doces, que serão pudim de limão azedo, creme rosa e compotas de frutas – pêssego ao conhaque, morangos, laranjas recheadas, cerejas e uvas ao vinho do Porto.
Finalmente, virá o 'dessert', sobremesa, exclusivamente frutas.
O jantar termina com um conhaque, acompanhado de 'petit-fours', tira-gostos adocicados.
Daí vem o café, depois os licores."
"Mais de um licor?"
"Serão apresentados diversos, mas se deve tomar um.
Misturar licores não faz bem à digestão."
"E o que beberemos durante a refeição?"
"Vinho, é claro!"
"Vinho?

De que tipo?"
"Vinho é um assunto sério.
Com o cardápio imaginado, consultei diversos amigos enólogos, para obter o melhor de minha ampla adega.
Com o 'potage', será servido um Xerez seco, velho e fino, da marca 'Laina'.
É um dos melhores vinhos desse tipo.
O mesmo 'Laina' acompanhará os 'hors d'oeuvre'.  Com o 'relevé', será servido o fabuloso 'Chateau
Montflaubert', que é o melhor dos raros Champanha tintos e não-espumosos; é uma raridade.
Com as entradas, degustaremos um incrível 'Chateau Carbonieux Rouge', que é o melhor dos Bordeaux tintos.
É um 'Clarete', de gosto delicado e fino bouquet.
Sua coloração é vermelha, sendo claro e brilhante como um rubi.
Com nosso assado, saborearemos um 'Gran Vin Romanée Conti', o melhor dos borgonha tinto, muito raro.
Da 'Cotê de Nuits', é um vinho da classe dos aristocratas.
É o maior dos vinhos franceses!
Com os entremeios, experimentaremos um ótimo Tokay italiano, o 'Zamò e Palazzolo'. O Tokay, que se escreve Tokaji, é um vinho branco, típico da Hungria.
Admirado há séculos, é um vinho único, branco  e doce, da cor de ouro velho, com um aroma magnífico de passa de damasco e mel.
É aveludado, envolvente, especial.
Há diversos Tokay húngaros, como os inesquecíveis Szamorodni, Furmint, Hárslevelü, Aszu e Eszencia. Os dois últimos são realmente os melhores, seguidos de perto pelo primeiro. O meu preferido é o Eszencia,

considerado, pelos experts, o 'néctar dos néctares'.
Mas o Tokay italiano, que saborearemos nesta noite, é de um sabor especialíssimo, que vale a pena experimentar.
Não fica nada a dever aos húngaros, além de ter características próprias.
É, sem dúvida, um vinho nobre.
Com os entremeios doces, seremos brindados com o melhor Sauterne não-espumoso, o 'Chateau Yquem'.
Ele é o 'Rei dos Sauternes'; um Bordeaux branco, que é, por sinal, o melhor vinho branco doce do mundo.
Com sua cor ouro-pálido, tem um  sabor  peculiar, seco e doce ao mesmo tempo, forte e delicado simultaneamente, mas não tão intenso como  outros vinhos brancos menos nobres.
Sobre os fascinantes vinhos brancos de Bordeaux, Biarnez dizia:
'un rayon de soleil concentré dans un verre'.
Um raio de sol concentrado numa garrafa... Que bonito!
Eu concordo!
Com os 'dessert', sobremesas, seremos  brindados com o melhor champanha da casa 'Möet & Chandon': o 'Don Pérignon'.
Esse Champanha, especialíssimo, é considerado o melhor elaborado na atualidade.
Que tal?"
"Não entendo nada de vinhos, mas parece impressionante!
Só creio que ficarei bêbado bebendo tanto!"
"Mas só se toma um, no máximo dois cálices de cada bebida.
Não beberemos; regaremos nosso alimento com a

mais perfeita das bebidas!"
"Você gosta mesmo de vinhos, não é?"
"Gostar de vinhos é obrigação de toda pessoa de bom gosto!
Não um bom gourmet que não aprecie grandes vinhos.
Omar Khayyam, grande literato, foi o autor de versos maravilhosos sobre essa bebida igualmente soberba:
'É uma alma delicada, a do vinho!
Oleiro, para esta alma tão fina, Fazei urnas de paredes macias.
Cinzeladores de taças, arredondai-as com amor para que o vinho se sinta docemente acariciado na sua alma voluptuosa'.
Não é lindo?", perguntou-me um Frank entusiasmado, quase comovido.
"Sim, é muito bonito.
Também aprecio a obra do autor de 'Rubaiyat'", disse eu, tentando sair fora desse assunto tão complexo – enologia, o estudo dos vinhos.
Ou, para alguns, enolatria...


"Qual foi o presente seu para a doutora Francis?", perguntei, curioso.
"Dei três presentes a ela:
Uma C-280 todinha branca, por dentro e por fora, um 'Portable Office', escritório portátil, da 'Systems Resource Group', além de uma caneta-tinteiro da marca 'Namiki', modelo 'Yukari'."
"O que é uma C-280?"
um automóvel da marca Mercedes-Benz, um modelo compacto mas maravilhosamente bem acabado."
"Que belo presente!
Mas o que são os outros dois?"
"O 'Portable Office' é um novo conceito em 'escritório':
trata-se de um escritório portátil."
"Algo como um tipo de canivete-suiço, que ao invés de lâminas possúi canetas, lupa e outras coisas, não é?"
"Não é bem isso...
O equipamento de que falo é diferente.
Dentro de uma valise 'Zero Halliburton', em alumínio escovado, está instalado um computador portátil, com tela colorida de matriz ativa em cristal líquido, dotado de um 'chip' 486 de 66 Mhz.
À esse computador estão conectados diversos periféricos, como uma impressora laser colorida, um telefone celular, agenda eletrônica comandada pela voz, modem de alta-velocidade, fax com alta-resolução, drive de CD-ROM, scanner colorido de mão com resolução de quatrocentos pontos por polegada, câmera fotográfica digital, trackball e alarme contra roubos.
É uma verdadeira jóia da tecnologia!"
"Concordo.

Você deu dois presentes fantásticos e valiosíssimos, e também uma simples caneta-tinteiro?"
"Uma 'Namiki' não é uma simples caneta!
É uma obra de arte, elaborada, no Japão, pelos mesmos processos, desde o século VII.
Arte em laca, recobrindo um instrumento de escrita com excepcionais qualidades.
Esse modelo, 'Yukari', é valioso e raro, com todas as suas partes metálicas em ouro 18 kilates.
Sua embalagem é em madeira oriental, de nobres características.
Creio que é tão fantástica quanto os outros dois presentes, apenas representando uma forma distinta de manifestação artística e tecnológica.
Afinal, você não pode assinar seu nome com um automóvel, nem viajar montado numa caneta!
Cada coisa com sua serventia."
"Como sempre, você está certo, Frank."
"Meu amigo, vou acompanhá-lo até o 'jardim de inverno'.
Depois, trocarei de roupa e retorno para o jantar." Frank fez sinal para que eu passasse à sua frente.
Mal cheguei diante da porta de vidro daquela estrutura, no centro de um jardim ornamental, um porteiro abriu-a para que eu entrasse.
"Fique à vontade, Beto.
Eu volto já!", disse Frank, tomando o rumo de sua casa.
Entrei, enquanto o porteiro fechava a porta.


Dentro do 'jardim de inverno', sentí-me como se estivesse em outro mundo.
O contato com a natureza era total, tanto direto, com as plantas em vasos, quanto visual, com toda aquela maravilhosa paisagem do lado de fora.
Mas bom mesmo era que, lá dentro, a temperatura  era agradável, amena. Um friosinho gostoso.
Bem depois da entrada o caminho era delineado por plantas em vasos, cada um mais lindo do que o outro.
Alguns metros à frente, um belo bar, todo em mármore negro, contrastando com o mármore branco do chão.
A estrutura dessa construção era toda em metal, pintada de branco, envidraçada do chão ao teto. Era como uma grande estufa, porém alta, larga e espaçosa.
Um mâítre elegantemente trajado veio ao meu encontro, pedindo que eu o acompanhasse até  o  bar, para que me juntasse aos outros.
Eu o seguí, por entre rosas, antúrios e tulipas.
Chegando ao bar, fui logo abordado por Virgínia, uma das filhas de Frank.
"Olá, Beto!
Venha conhecer mais alguns amigos!", disse-me ela, animada.
"Está bem, Virgínia", respondí, observando seu olhar interessado, daqueles que não nos deixam dúvidas sobre as intenções de quem os lança.
"Amigos, este é o Beto, amigo de papai.
Este é o Maurício Rodrigues, nosso amigo de muitos anos."
"Muito prazer, Beto!", disse aquele senhor moreno, bronzeado e de porte atlético.

"Muito prazer!", respondí.
"Beto, este é o Arsênio Hypolito Júnior, e esta é  sua esposa, Zelinda.
Eles são os diretores do 'Imagick', um grupo de estudos mágicos avançados.
São ocultistas do mais elevado gabarito.
Tem um interesse em comum comigo e com você: Raul Seixas, sua obra e filosofia.
Zelinda é, inclusive, autora de um livro sobre ele."
"Muito prazer!", falou aquele simpático senhor, dono de um ar decididamente intelectual.
"O prazer é meu!", disse.
"Prazer em conhecê-lo!", cumprimentou-me sua sorridente esposa.
um grande prazer conhecer admiradores da obra de Raul Seixas.
Virgínia, eu não sabia que você também gostava de Raul Seixas!"
"Adoro!
Tenho todos os seus discos." Mas que coisa interessante...
A garota, além de fã de Raul Seixas... Também é bem bonitinha!
Virgínia interrompeu meus pensamentos:
"Este é o António Rodrigues. Toninho, este é Beto, amigo de papai."
"Prazer", disse laconicamente aquele senhor magro, de sotaque e aparência nitidamente lusitanos.
"Muito prazer!
Vi algumas das máquinas radiônicas de sua fabricação.
Fiquei muito impressionado!"
"Eis meu cartão.

Quando quiser, apareça, que lhe mostrarei alguns de nossos produtos.
Orgulho-me de produzir esses equipamentos por aqui.
Além disso, produzo gráficos compensadores e emissores de ondas-de-forma, assim como apostilas sobre radiestesia e geobiologia.
Faça-me uma visita, quando quiser."
"Irei sim.
Obrigado pelo convite."
"Este é o Ademar, Beto", disse Virgínia.
"Já o conheço, Ademar. Está lembrado?"
"É claro!
Na casa do Panisha! Prazer em revê-lo!"
"É bom vê-lo novamente!
Tem visto o Panisha?", perguntei-lhe.
"Ele está ali"; Ademar apontou para um pequeno grupo, formado em torno de um imenso relógio 'cuco' do tamanho de um carrilhão.
"Lá, perto do 'cuco'?"
"Sim."
"Vou lá!"
"Você gosta de 'cucos', Beto?", perguntou-me Virgínia, puxando assunto.
"Acho bonitos."
"Esse 'cuco' é da marca 'Dold', todo feito artesanalmente, e é conhecido como 'relógio cuco  musical do vovô'.
O som dele é muito bonito!", falou Virgínia.
"Mais bonito do que sua voz? Duvido..."

Quem diria... Eu, fazendo galanteios...
"Olá, Panisha! Há quanto tempo!"
"Oh!
Prazer em revê-lo!"
Panisha não mudara nada nesses anos. Continuava rijo, corado e sorridente.
Ele era o centro do grupo formado pelos familiares de Frank e pelo Flávio.
Perguntei ao médico e ufólogo:
"Aonde estão seus filhos, Flávio?"
"Já jantaram, junto com os netos do Frank.
Agora estão todos no 'home theater' do Frank, assistindo uma 'sessão' com dois desenhos animados clássicos: 'Mowgli, o menino lobo' e 'Fantasia', ambos  dos estúdios Walt Disney.
Não sentem a menor falta de nossa companhia!" Panisha dissertava sobre a filosofia que embasa 'seu'
sistema de astrologia.
Ele era o centro das atenções, e eu resolví ficar calado, escutando o que esse homem brilhante dizia.
Mas, fomos interrompidos pela entrada de Frank e Francis.
Ambos estavam vestidos informalmente, mas de forma muito elegante.
Não entendo muito de roupas, mas os sapatos de Frank, mocassins da marca 'Bally', da Suíça,  eu conheço. Isso é que é bom gosto!
"Parabéns p'rá você, nesta data querida..."
Começaram a cantar o 'parabéns' assim que Francis entrou no 'jardim de inverno'.
"Obrigada, obrigada!", Francis dizia, alegre e comovida.

"Vamos jantar, meus amigos!
Hoje, festejaremos a vida, nossa amizade, e o aniversário desta grande mulher!", disse Frank, com alegria.
O mâítre conduziu-nos, todos, aos nossos lugares. Frank sentado numa das cabeceiras da mesa;
Francis sentou-se na outra.
Sentei-me, ladeado por Flávio e Virgínia, tendo Panisha à minha frente.
Os pratos, copos e talheres, todos belíssimos, já estavam colocados à nossa frente.
Esses pratos... Eu já vira igual num antiquário famoso...
Eram 'Nevada Sol', de 'J. & G. Meakin', ingleses.
Pratos com o centro branco, as bordas em diversos tons de rosa, com delicados filetes de ouro.
Deviam ter bem mais de cem anos! Que beleza!
A toalha, branca, de um linho legítimo, adamascado, ressaltava o belo serviço de mesa, a coberta.
No centro da mesa, um artístico arranjo de flores.
Eram anêmonas, colocadas flutuando dentro de uma enorme taça de cristal, incolor e reluzente.
Anêmonas cor-de-rosa, anêmonas violeta, anêmonas beges, entremeadas por pequenos buquês de 'Viburnum tinus'.
Ladeando esse arranjo genial, dois belíssimos candelabros de prata e cristal, cada um com sua vela branca, torcida, tal qual se fora trabalhada por um torneiro caprichoso.
Os candelabros, em prata maciça e cristal, eram finamente trabalhados, embora demonstrando leveza em suas linhas, mostrando serem fruto do trabalho de

artesãos geniais.
Distanciados desse arranjo central, colocados de forma diametralmente oposta, dois outros arranjos idênticos, mas de menores dimensões, completavam o enfeite da mesa.
Bem à minha frente havia um prato raso tendo, sobre o mesmo, um guardanapo, em tecido idêntico ao da toalha, dobrado com simplicidade.
À direita desse prato, uma faca, de dimensões normais, com o fio cortante virado para o prato.
À direita dessa faca, uma colher das de sôpa.
Curiosamente, ela estava colocada apoiada sobre um porta-talheres, com sua parte côncava para baixo.
À esquerda do prato, um garfo comum.
De comum, aliás, esse faqueiro não tinha nada, pois os talheres eram de prata finíssima, apurados, de aparência clássica e maciça.
Mais à esquerda desse garfo, um outro garfo.
Não era, certamente, um garfo para peixes, pois era idêntico ao outro.
À frente do prato, dispostos horizontalmente, três talheres:
primeiro, um garfo pequeno, com a ponta virada  para a direita; acima dele, uma colher de tamanho similar, mas com a ponta na direção oposta. Essa colher também estava apoiada num porta-talheres, tendo sua parte côncava voltada para baixo.
Sobre os dois primeiros, uma faca pequena, com o gume cortante voltado em direção do prato, apontando para a esquerda, como a colher.
À esquerda desses pequenos talheres, nitidamente de sobremesa, havia uma manteigueira individual, contendo duas 'conchas' de manteiga – provavelmente,

uma com sal, outra sem –, com uma pequenina faca sobre o mesmo. Deve ser a faquinha para passar manteiga no pão, pensei.
À direita daqueles talheres de sobremesa, um copo de cristal incolor, muito brilhante, dotado de razoável capacidade.
Bem ao seu lado direito, havia um copo, com pé, do mesmo fino cristal do copo anterior.
Mais à sua direita um outro copo, quase idêntico ao anterior, somente ligeiramente menor.
À direta desse, mais um copo, com pé, também, mas bem menor.
Terminando essa fila de copos, um bem pequenino, que identifiquei como sendo para licor, seguindo  o mesmo estilo e confeccionado com o mesmo material dos outros.
Àcima deles, uma taça típica das de champanha, rasa e larga, do mesmo material dos copos.
Barbaridade, como é que eu vou fazer para utilizar todas essas 'tralhas', sem cometer nenhuma gafe?
Eu quase nunca bebo; só tomo alguma coisa raramente, em alguma festa... Sei não, acho que vou ficar bêbado...
Como agir? Quanto deverei tomar da cada bebida? Já sei, vou observar a Virgínia.
Afinal, assim, unirei o útil ao agradável...
"Que aperitivo o senhor deseja?", perguntou-me um garçom.
"Tem suco de tomates?"
"Tudo o que o senhor desejar!"
"Suco de tomates temperado, com duas pedrinhas  de gelo."
"Sim senhor", disse o garçom.

"O que você vai tomar, Virgínia?"
"Um 'Bloody Mary'."
"Legal."
"E você, Flávio?"
"Um 'Daiquiri'."
"E você, Panisha?"
"Não bebo álcool, nunca.
Vou tomar um suco de laranjas, natural."
À esquerda de Panisha, Maurício Rodrigues havia pedido um 'Whiskey Cowboy', 'Chivas Regal'.
Como será esse tal?
Imaginei um copo com chapéu de abas largas... Nossos aperitivos chegaram
O do Maurício Rodrigues, que decepção, era só um copo de Whiskey sem gelo...
O tal 'Bloody Mary', de Virgínia, era tão somente um suco de tomates com a adição de alguma bebida alcoólica. Wódka, se não me engano.
Meu suco de tomates veio num copo baixo e largo, enfeitado com um talinho de salsão.
Humm, está muito bom, pensei.
Enquanto eu me distraía com a chegada dos coquetéis, eram colocadas várias porções de patês, os mais variados. Cada uma dessas porções eram servidas sobre uma folha de alface lisa, bem verdinha e livre de manchas ou imperfeições.
Junto, os pãezinhos.
Foi colocado, ao lado de cada manteigueira, um pratinho para os pães, sendo dispostos, sobre o mesmo, um pequeno 'croissant', quatro 'grissinis' bem fininhos, quatro pequeninas torradas de formato quadrado, além  de um pãozinho de queijo, fumegante.
Atenção, Beto.

É hora de observar os outros, para não fazer uma 'batatada'...
Como o espaço entre cada um de nós era de mais de meio metro, dava para ver bem o que os outros faziam.
Estavam todos aguardando. Mas, aguardando o quê?
Ah, o Frank estava sendo o último a ser servido. Deviam estar esperando o nosso anfitrião ser servido,
para começarmos todos a comer.
Curioso, a primeira pessoa a ser servida foi Francis, depois dela, todas as mulheres, daí os homens, e o dono da casa por último.
Apesar de Francis estar ladeada pelos dois filhos, e Frank pelas duas noras, não havia outro sinal de 'ordem' nessa mesa.
Apesar de não haverem esses sinais, sentia que tudo ali havia sido estudado com minúcias.
Talvez até o fato de me terem colocado ao lado de Virgínia...
Interessante essa tal de 'etiqueta'. Gente fina é outra coisa, pensei.


Após degustarmos deliciosos pãezinhos com os mais variados patês e a manteiga fresquinha, acompanhados de excelente aperitivo, serviram-nos o consommé de agrião, que veio servido numa daquelas xícaras enormes, de duas asas, uma de cada lado.
Pelo meu lado direito, o garçom colocou essa sopa rala sobre o meu prato.
Apesar de ralinha, era uma sopa de belo colorido.
Da cor do Sol no fim da tarde, era de um tom alaranjado forte, enfeitada com algumas folhas de agrião, flutuando em sua superfície.
Com um sabor pronunciado de agrião, o consommé estava bem quente.
Saboroso.
O jantar havia começado bem!
Quase que simultaneamente, fomos servidos com o vinho 'Xerez Laina', num dos muitos copos.
Que vinho perfumado!
Assim que todos terminaram o consommé de agrião, uma sopa cremosa foi servida num prato fundo.
Sopa creme de queijo.
Sua cor, amarelo-ouro, lembrava mesmo aqueles queijos saborosos.
Em sua superfície, boiavam alguns croutons cobertos com salsinha picada.
Apetitosa, com um gosto que lembrava o queijo Camembert e coalhada fresca. Uma sopa amanteigada. Fabulosa!
Nossos copos foram, uma vez mais, completados com o 'Laina'.
Fiquei fã desse vinho!
Assim que tomamos esse prato de sopa cremosa,

foram servidos os 'hors d'oeuvre', em bandejas diferentes: as tais de 'raviers'.
São iguarias como tâmaras frescas recheadas com gengibre, figos secos recheados com queijo Camembert, ameixas recheadas com nozes, triângulos de queijo Camembert fritos e cobertos com sementes de gergelim, biscoitinhos assados de queijos Roquefort  e  Cheddar seco também salpicados com sementes de gergelim, bolinhos fritos de ricota, rolinhos fritos de filé de peito de frango sem pele com alho-poró.
Provei ao menos um de cada. Inolvidáveis, para dizer o mínimo.
Nossos copos eram, ininterruptamente, mantidos cheios com esse marcante 'Laina'.
Nesse momento, passou uma idéia pela minha cabeça:
Frank havia me revelado o segredo da Eucaristia... E se começasse agora meus 'trabalhos mágicos'?
Preciso de 'sucesso'.
Sim, vou impregnar todo o vinho que me for servido com esse desejo – 'sucesso'!
Comecei meu trabalho.
Segurei o copo com a minha mão direita, olhando fixamente o vinho em seu interior.
Com o pensamento, permeei o líquido com meu desejo – 'sucesso'!
O vinho, uma bebida viva, passou a ser a encarnação do 'sucesso', especialmente para mim.
Consumí o vinho desse copo, lentamente, concentrado no meu desejo.
Incrível, seu gosto estava diferente. Para melhor.
Assim que terminei essa dose de vinho, recoloquei

meu copo sobre a mesa.
Vi que Frank me observava, atentamente. Será que me precipitei?
Qual a reação de Frank à minha ousadia? Bem, agora, o negócio é ir em frente.
Se ele não aprovar, terá de me dizer.
O garçom encheu, novamente, meu copo. Ora, já comecei, então vou em frente!
Repetí, passo a passo, o que havia feito com a dose anterior de vinho.
Procurei não me deixar perturbar por Frank, desejando não imaginar o que se passava em sua mente.
O vinho parecia, cada vez, mais saboroso.
Era como se eu estivesse absorvendo algo que havia sido elaborado especialmente para mim.
Após alguns minutos, chegaram os 'relevé'.
Eram delicados bifes de cordeiro, fatiados, tostados por fora e levemente rosados por dentro, com um especial molho de tamarindos, guarnecidos por fatias de laranja e finíssimas tirinhas da mesma fruta.
Em cada prato, um enfeite – uma 'rosa', elaborada com gengibre, creio.
Esplendoroso!
Ao mesmo tempo, serviram nossas taças com o tal 'Chateau Montflaubert'.
Tinto e não-espumoso mas, ainda assim, com gosto de Champanha.
Repetí, com esse Champanha peculiar, o 'ritual' da Eucaristia.
Foram, também, servidas as entradas, 'entrée'.
Optei pelos 'rins de carneiro sautés', fritos na manteiga e perfumados com vinho Marsala, seguindo a sugestão de Frank. Boa escolha. Uma delicadeza, esse

prato!
Panisha preferiu o 'mousse de abacate', assim como Flávio e Virgínia.
Maurício Rodrigues acompanhou minha sugestão.
A aniversariante preferiu o macarrão, o prato menos solicitado.
Arsênio optou pelo omelete, assim como Jamil e Marcia.
Veio, então, o 'Chateau Carbonnieux Rouge'. Desta feita, noutro copo.
Que complicada essa tal de 'etiqueta', pensei. Novamente fiz minha 'Magia'.
Sentía-me cada vez mais confiante.
A insegurança já não mais habitava meu ser. Um milagre!
Sim, decididamente, um milagre. Ou seria somente efeito do vinho? Melhor que não...


Intrigante; após comermos o 'relevé', o prato foi trocado para que comessemos o 'entrée'.
Após saborearmos essas iguarias sem par, novamente retiraram nossos pratos...
Puxa, quanta frescura!
E que trabalho deve dar para lavar toda a louça!


O grande momento do jantar havia chegado:
Era hora do 'rôti', do assado, o tal 'peito de pato marinado e confit de coxa e sobrecoxa de pato'.
Que coisa linda! Que aroma!
Fatias grossas, bastante tostadas por fora, claramente róseas dentro, abertas como um leque  quando montadas no prato.
O 'confit' é algo deliciosamente saboroso, assim como o peito fatiado.
No prato, duas vagens de ervilha, preparadas na manteiga; um pouco de cenouras, raladas e carameladas. E um figo, assado no forno, partido em dois. Uma festa para os olhos!
Para acompanhar esse prato, que é uma festa por si só, foi temperada e servida, na hora, uma salada preparada com todos os verdes, representados por folhas tenras e mimosas.

Temperada com especiarias raras, seu gosto era acentuadamente de alho.
Ainda assim, muito agradável.
Após servida no prato, outro garçom vinha, munido de uma garrafa de 'aceto balsamico', pingando algumas poucas gotas por sobre a salada.
Manjar dos Deuses! E o vinho?
Estávamos sendo servidos com o ansiosamente aguardado 'Gran Vin Romanée Conti'.
Alguns dos presentes diziam ser esse o 'melhor vinho do mundo'!
Bem, se é assim, infundirei nele meu desejo, para

comungar do sucesso 'dele'.
Além de ser um vinho realmente especialíssimo, meu desejo estava, também, fortalecido.
Ao consumir tão nobre vinho, encarnando meu  desejo de 'sucesso', entrei quase que em 'estado de graça'!
Como me sinto bem, assim!
Há quanto tempo não me sentia assim – imagem e semelhança do Criador!
Todos nos deliciamos com esse par sem igual de maravilhas da boa mesa – a comida e a bebida, especiais!
Assim que nos saciamos com nosso assado, nossos pratos foram substituídos por outros, levemente menores.
Hora dos 'entreméts'.
Chegou o 'panaché' de legumes. Legumes na manteiga.
Mas, que delícia!
Desta vez, resolví impregnar também minha comida com meu desejo.
Fixei meus olhos em cada vegetal que estava em meu prato.
Olhei com firmeza cada ervilha, cada cubinho de batata.
Nada escapou de minha observação.
Fiz o mesmo que estava fazendo com todas as bebidas.
Assim que terminei essa impregnação, veio  o  tal vinho Tokaji italiano: 'Zamò e Palazzolo'.
Vou impregnar o vinho, também. Não vou mais dar bobeira.
Aproveitarei todas as oportunidades para mudar

minha vida, resgatar minh'alma do abismo.
Repetí o ritual com o vinho.
Fui, então, comendo e bebendo, comungando, com a comida e a bebida, o sucesso que tanto desejava e procurava.


Todos elogiaram o vinho Tokaji italiano, comparando- o aos melhores vinhos Húngaros desse tipo.
Foram retirados os pratos e os copos usados, ficando somente um copo limpo.
Foi colocada uma nova taça de Champanha, bem como um prato de sobremesa.
Os 'hors d'oeuvre' que sobraram foram retirados da mesa.
Chegou a hora dos 'entreméts sucrée'. Eu preferí o pudim de limão azedo.
Flávio, Virgínia e Panisha quiseram compotas; só Frank pediu o mesmo que eu.
O pudinzinho era lindo, branquinho, banhado com uma calda translúcida, dourada, de limão.
No prato, enfeitando esse doce tão bonitinho, uma finíssima rodela de limão, torcida.
O vinho, servido no copo que sobrara, era o 'Chateau Yquem'.
Realizei meu trabalho de impregnação, tanto na bebida como na comida.
Consumí corpo e espírito dessas duas expressões magníficas da gastronomia.
Sentía-me forte, reconstituído.
Finda essa etapa, pratos trocados para o 'dessert', sobremesa.
Só frutas para a sobremesa:
Kiwí, lichía, manga-Aden, figo-da-Índia, nectarina, figo e caquí-chocolate.
Escolhí o tal 'figo da Índia', pois nunca tinha provado tal fruta.
O garçom descascou-a, colocando-a num pratinho, que veio para substituir o meu.

Puxa, pensei, p'rá que tirar um prato limpo? Frescura, com certeza...
Após ter sido servido com essa frutinha, de casca verde e interior dourado, encheram minha taça com o tal 'melhor Champanha do mundo':
'Don Pérignon'.
Lá vou eu, de novo, infundindo meu desejo no que consumirei.
Fiz tudo como da primeira vez, mas estava ficando cada vez mais fácil.
Fruta deliciosa; Champanha soberba.
Após a sobremesa, todos os copos foram retirados, assim como as taças, os pratos e os talheres.
Foram servidos, em pratos de prata colocados à frente de cada dois convidados, os 'petit-fours', docinhos pequeninos e delicados.
Eram folhas de hortelã e tirinhas de cascas de laranja cobertas com chocolate, pedacinhos de casca de grapefruit cristalizadas, trufas de gengibre e laranja, trufas brancas, palitos de avelãs, minúsculos docinhos de côco, waffers de gengibre e de pistache, orelhinhas minúsculas de massa folhada, além de frutas carameladas – morangos, uvas, cerejas, uvas, gomos de mandarina, nozes.
Para acompanhar, Conhaque 'Remy Martin'.
Novamente, vou impregnar, com meu desejo de sucesso, tudo quanto for consumir.
Forte esse Conhaque! Mas, muito bom.
Ah! Que docinhos!
Adorei os waffers de gengibre.
Bem que poderiam sobrar alguns, para que eu pudesse levar aos meus pais... Eles não iriam acreditar!

Aliás, eles não vão acreditar quando eu lhes contar sobre o jantar!
Assim que terminamos o Conhaque, um aromático café foi trazido.
Café à moda árabe, com certeza. Forte, aromático.
Junto de cada xícara havia um pratinho com 4 torrões de açúcar.
Será que devo impregnar o café com meu desejo? Olhei para Frank, que me acenou com a cabeça,
como a dizer que 'sim'.
Fui em frente, 'tratando' do café da mesma maneira que fizera com as outras bebidas no jantar.
Após o café, um garçom um carrinho repleto de garrafas de licor.
Bénédictine, Drambuie, Grand Marnier, Peach Tree, Creme de Menta, Frangelico, Mandarinetto, Cheri- Suisse, e vários outros.
'Peach tree – Árvore de Pêssego' – esse deve ser bom, pensei.
"Peach Tree, por favor", eu pedí.
"Pois não, doutor."
Com o licor no copinho menor que ficara na mesa, resolví realizar, uma vez mais, meu 'trabalho'.
Que licor delicioso! Bem, terminei.
Terminei meu primeiro 'trabalho mágico' em minha nova fase.
Espero alcançar meus intentos.


Assim que todos terminamos o jantar, alguns dos convidados resolveram que já era hora de se despedirem.
O primeiro foi Panisha.
Assim que manifestou sua intenção, Ademar disse que iria levá-lo.
Flávio disse que também precisava ir, pois tinha compromissos no dia seguinte.
Afinal, já eram quase onze e meia da noite.
Frank insistiu para que ficassem mais um pouco, para que todos pudessem conversar mais alguns minutos.
Todos nos levantamos, dirigindo-nos para um grupo de muitas cadeiras, em meio a arranjos belíssimos de plantas com um colorido notável.
Todos sentaram-se nessas cadeiras de ferro, pintadas de branco, formando um magnífico contraste com o mármore negro do chão e com o colorido das flores.
"Amigos, estou desenvolvendo um projeto inovador, que desejo mostrar a todos", disse Frank, com um brilho nos olhos.
Herbert, seu secretário, trouxe uma caixa de madeira de lei, extremamente polida, com as partes metálicas em prata, muito trabalhada. Objeto antigo, com certeza.
"Esta é a primeira arma de defesa não letal, porém eficiente.
Na verdade, é muito mais eficiente que qualquer arma portátil."
Todos, creio, ficaram espantados com as afirmações de Frank.
Afinal, Frank não era o tipo de pessoa capaz de se preocupar com um assunto desses.
"Como funciona, Frank?", perguntou Flávio.

"Sua alimentação é feita por meio de baterias recarregáveis.
Ao premer-se o gatilho, atinge-se o agressor com um choque de ondas sônicas, ao mesmo tempo em que se projeta sobre o indivíduo uma poderosa luz.
Outra versão conjuga os dois princípios anteriores com a projeção de um agente químico agressivo.
Eu financiei esse projeto, de um amigo.
Foram construídos cerca de uma dúzia de protótipos, em versões e de dimensões variadas.
Na próxima semana, poderei demonstrar-lhes como essas armas funcionam."
"Mas, para que mais uma arma no mundo, Frank?
Não bastam os revólveres e pistolas que tantos males causam?
Quantos inocentes mortos e feridos, gente aleijada, cega, inutilizada, tanta desgraça!", disse Panisha.
"Meu estimado colega e amigo, esta arma é a solução para esse problema!
Nunca mais alguém precisará de um objeto tão perigoso como uma arma convencional, de fogo ou de outro tipo, letal, para se defender!
Com esta arma, qualquer pessoa poderá neutralizar, instantânea e imediatamente, um atacante, homem ou fera.
Instantaneamente, é algo que com arma convencional alguma se consegue.
Mas, muito importante:
seus efeitos, embora terríveis, são passageiros, não deixando seqüelas.
Eu acredito, firmemente, no direito de nos defendermos contra qualquer agressão.
Também não creio que qualquer ferramenta,

inclusive uma arma, seja responsável por qualquer mal; revólveres, pistolas ou facas não são capazes de causar mal algum por conta própria.
São as pessoas que causam esses males.
Hoje há uma tendência, em alguns países, para banir determinado tipo de armas, quiçá todas –  isso,  para mim, é pura balela!
É como proibir que tenhamos carros, pois pessoas são atropeladas por esse tipo de veículo!
Não posso admitir uma sociedade livre, sem que seus cidadãos tenham o direito de se defenderem, inclusive com o uso de armas de qualquer tipo.
Num Estado aonde só o governo tenha acesso às armas, têm-se um Estado Policial!
Como podem pretensos democratas proporem o banimento das armas das mãos de cidadãos comuns?
Portanto, creio que todos temos o direito e o dever de nos defendermos, bem como aos nossos entes queridos e aos nossos bens.
Aliás, a própria Igreja Católica têm esse mesmo ponto de vista, divulgado durante o ano de 1994.
Portanto, ter um meio de se defender, não representa estar predisposto a cometer atos violentos; muito ao contrário, aliás, pois mostra a disposição firme de impedir que a violência se perpetue!
Assim, só nos resta estar preparados para evitar que atos violentos sejam perpetrados contra nós, de qualquer maneira!
E, se o único meio de se conseguir isso é estando armado, que seja assim!
Mas, com esta arma, o indivíduo poderá até errar no seu julgamento. E pedir desculpas, depois, à uma vítima atordoada, porém viva e saudável.

Imagine quanto mal poderá ser evitado no mundo todo!"
"Mas, funciona mesmo, Frank?", indagou Flávio.
"Muito mais do que imagina, querido colega.
Além disso, estão sendo desenvolvidos modelos que dão um choque elétrico à distância, sem o contato da arma com o sujeito.
Armas capazes de narcotizar de chofre, fazendo até a maior das bestas adormecer prontamente.
Muitas idéias magníficas foram captadas por esse meu amigo, que recebeu, certamente, inspiração Divina em suas invenções."
"Quem é ele, Frank?", perguntou Zelinda.
"Vocês vão conhecê-lo, muito em breve. O Beto já o conhece."
"Eu conheço, Frank?"
"Sim, conhece, mas não vê há algum tempo."
"Quem é?"
"Você vai saber em alguns dias!" Quanto mistério!
Mas que essas armas são uma  grande invenção, isso é verdade.


Todos manusearam os protótipos das armas, conversando muito sobre esse interessante conceito.
Já era quase uma da madrugada quando Panisha levantou-se, dizendo que, apesar da conversa estar ótima, desejava ir para sua casa.

Ele havia se levantado, como todos os dias, às cinco horas da manhã e, a essa hora, já deveria estar dormindo.
Frank concordou, lamentando que o amigo não pudesse ficar mais tempo.
Ademar levaria Panisha à sua casa, rumando, posteriormente, para a própria residência.
"Frank, vou deixar os meus filhos dormirem aqui hoje.
Amanhã à noite virei buscá-los", disse Flávio.
"Será um prazer hospedá-los, Flávio! Meus netinhos gostam muito de seus filhos."
"António, quer carona?", perguntou Flávio ao António Rodrigues.
"Eu aceito. Muito obrigado."
"Maurício, meu motorista vai levá-lo à sua casa", disse Frank ao Maurício Rodrigues.
"Muito obrigado, Frank!" Dancei!
Se o motorista vai levar o Maurício Rodrigues, como é que eu vou sair deste fim-de-mundo?
Acho que o negócio é ver se consigo uma carona com
Arsênio e a Zelinda – eles também gostam de Raul Seixas, quem sabe a gente vai conversando sobre o assunto no caminho...

"Vou mandar levá-lo também, Beto, quando você desejar ir!"
Frank interrompeu meus pensamentos. Será que ele os estava lendo?
É bem provável!
"Eu vou agora, Frank", disse.
"Está bem, meu amigo.
Herbert vai acompanhá-lo até o carro.
Aguardo sua visita no próximo sábado, às quinze horas.
De acordo?"
"Certamente!
Estarei aqui no próximo sábado. Adeus!"
"Adeus!", disse ele, despedindo-se.
Despedí-me de todos, dando, mais uma vez, meus parabéns à Francis.
Ela agradeceu minha presença, dizendo que deseja ver-me novamente em sua casa.
Todos foram muito gentis comigo. Creio que fiz novos amigos.
Herbert me acompanhou até o carro, um Opala Diplomata, cinza-chumbo, de quatro portas.
O motorista abriu a porta de trás para que eu entrasse.
Entrei e ele fechou a porta.
Abrí o vidro, com comando elétrico, e despedí-me de Herbert.
"Doutor, há uma caixinha no banco, ao seu lado.
Nela tem alguns 'petit-fours' para os senhores seus pais.
Tenha uma boa noite!"
"Muito obrigado, Herbert!

Boa noite!"
Levantei o vidro, acomodando-me no banco. O motorista deu a partida no carro, dizendo:
"Podemos ir, doutor?"
"Sim.
O senhor conhece o bairro de..."
Sem me deixar terminar, o motorista foi logo dizendo:
"Sei o endereço e o trajeto, doutor.
Meu patrão já me deu todas as instruções."
"Se é assim, vamos embora, então!" Saímos pelo mesmo portão da entrada.
Fora da residência de Frank, o lugar era lúgubre. A noite estava escura como breu.
Tenebrosa.
O motorista perguntou se eu gostava de música.
"Sim, de qualquer tipo", respondí.
Ele colocou uma fita K-7 dentro do toca-fitas. Era uma gravação de músicas de Verdi.
Resolví relaxar e curtir a música, já que o motorista não era de muito papo.


Enquanto isso, os últimos convivas retiravam-se da festa.
Os filhos, as noras, as filhas e o genro de Frank ficaram, ainda, conversando por mais alguns minutos.
Um a um, foram todos se levantando, expressando o desejo de se recolherem.

No final, ficaram somente Frank, Francis e Virgínia, que ainda morava na mesma casa dos pais.
"O Beto é muito simpático, Papai!
Posso convidá-lo para alguma coisa?", perguntou Virgínia.
"Filha, você tem idade para escolher o que deseja.
Faça o que achar bom. Afinal, Beto é um bom rapaz." Virgínia sorriu.
Deu um beijo na mãe e outro no pai.
"Bem, eu vou dormir", disse Virgínia.
Ela caminhou para fora do 'jardim de inverno', não sem antes, sorrindo, dar uma olhada para os pais.
Frank olhou para Francis e disse:
"Querida, acho que Virgínia encontrou quem ela procurava."
"Espero que sim.
Será um sossego para nós se ela se der bem com seu amigo."
Frank se levantou, apanhando uma garrafa de 'Don Pérignon'.
Pegou, também duas taças, dando uma delas à Francis.
"Vamos?", perguntou Frank.

"Vamos!", respondeu Francis.
Saíram, ambos, de braços dados, pela porta do 'jardim de inverno'.
Caminharam rumo à alameda que os levaria de volta ao 'lar'.
Numa propriedade tão grande, as pessoas se sentem em casa quando estão dentro de seus aposentos. Enquanto caminhavam, Frank abriu o Champanha,
enchendo sua taça e a de Francis.
Chegando em casa, Frank abriu a porta para que Francis entrasse.
Ela entrou, acendeu a luz do corredor e subiu a escada.
Frank foi até seu escritório.
Lá, ligou os circuitos de alarme.
Pelo interfone, falou com um dos seguranças, confirmando que estava tudo certo.
Mandou, então, que soltassem os cães.
Saiu do escritório, apagou a luz e dirigiu-se ao seu dormitório.
Francis já estava deitada.
"Querido, eu estou com muito sono.
Acho que bebí um pouco demais; devo ter passado da conta!
Obrigada pela noite maravilhosa que você me proporcionou!"
"Obrigado você, pela vida maravilhosa que tem me proporcionado!"
Frank trocou-se, colocando um pijama comprido, em flanela.
No quarto do casal, uma televisão Mitsubishi de setenta polegadas.
Frank inseriu uma fita de vídeo no vídeo-cassete.

'Napoleon', de Abel Gance, filme francês da década de 1920.
Frank apanhou o controle remoto, deitando-se a seguir.
O frio estava forte, levando-o a cobrir-se logo. Francis estava acordada, porém sonolenta.
Ele ligou o vídeo, aconchegando-se no leito.
Enquanto a fita avançava até o início do filme, Frank pensava nos acontecimentos relacionados com Beto.
Questionava-se com respeito à sua maneira de agir. Estaria atuando de forma adequada?
Nesse momento, uma luz intensa brilhou sobre a tela da TV, eclipsando-a.
Frank despertou de seus pensamentos.
Da luz branca, brotou a imagem de uma Inteligência extremamente poderosa, da Esfera Planetária da Terra.
Era ASCHMUNADAI, verdadeiro monarca da Esfera.
"Frank, Urgaia está muito satisfeito com seu trabalho.
A Providência Divina, manifestada naquele Mestre dos Iluminados, manda dizer-lhe que continue da maneira como vem agindo.
Possa, a Providência Divina, cobrí-lo, cada vez mais, com o Manto da Elevação Espiritual!"
A poderosa Inteligência sumiu, rapidamente.
Não é comum uma Entidade de tal importância e envergadura de poder manifestar-se neste planeta, fisicamente.
Frank ficou surpreso e satisfeito com tal deferência, extremamente singular.
Olhou para o lado e percebeu que Francis nada vira. O filme estava começando.
Frank, contente, relaxou e se acomodou na cama.

Seu trabalho estava sendo observado e assistido pelo que de mais elevado pudesse existir no Universo.


O carro que transportava Beto acabara de dobrar a esquina da quadra de sua residência.
Mais alguns metros e chegaram em sua residência. O carro parou bem na porta.
O motorista saltou do carro, dando a volta para abrir a porta, a fim de que Beto descesse.
Beto apanhou a caixa com os docinhos, saindo do carro.
Pegou alguns trocados para dar ao motorista; este sorriu, mas não aceitou.
Agradeceu a gentileza, dizendo que iria esperar Beto entrar em sua moradia.
Beto despediu-se do motorista, entrando pelo jardim.
Abriu a porta de casa, acenando para  o  motorista  que, rapidamente, deixou o local.
Beto trancou a porta, fazendo o mínimo possível de barulho.
A essa hora, seus pais já estariam, certamente, dormindo.
Foi até a cozinha, para verificar qual o tipo de docinhos que Frank havia mandado, visando saber se esses deveriam ser colocados em geladeira para se conservarem.
Abriu a caixa e verificou que, na parte de dentro da tampa, havia um envelope, grudado na tampa com fita adesiva.
Destacou o envelope da caixa, retirando a fita adesiva, deitando-a fora.
No envelope estava escrito: 'PARA O BETO – DO FRANK'

Beto abriu o envelope, retirando dele um cartão de

dimensões aproximadas de um cartão postal.
Nele estava manuscrita uma mensagem:
'Beto, cada Mestre recorre a determinado ritual iniciático.
Eu faço uso de jantares, como o de hoje. Parabéns, você foi aceito.
Seja bem vindo!'
Estava assinado 'Frank Kaiser'.
No anverso desse cartão, havia a ilustração de um Arcano do Tarô – o Quarto Arcano, o Imperador.
Ao redor da figura da carta, que era uma linda ilustração em estilo parecido com o dos vitrais das igrejas, o nome desse Arcano estava inscrito, em quatro idiomas:
inglês, francês, italiano e alemão.
À saber: Emperor, Empereur, Imperatore, Kaiser. Kaiser.
KAISER.
KAISER... O IMPERADOR! O QUARTO ARCANO!

Por isso, Frank havia dito chamar-se Frank KAISER! Kaiser é Imperador, em alemão!
Frank é O Imperador!
Ele é a encarnação do Arcano IV do Tarô!
Beto ficou atônito ao se dar conta de que  tantas coisas pequenas e aparentemente sem importância se encaixavam com tal perfeição.
Fechou a caixinha, colocando-a na geladeira, sem nem mesmo ter visto quais docinhos haviam vindo.
Foi, em silêncio, para seu quarto.
Leu, uma vez mais, a mensagem contida no cartão. Finalmente, havia encontrado o caminho.
Nessa noite Beto poderia dormir tranqüilo.

Já deitado e enrolado nas cobertas, Beto deu-se conta de que, de alguma forma, seu 'trabalho' de impregnação de desejo em alimentos, a 'Eucaristia', estava funcionando.
Daqui para frente, pensou: só sucesso. O passado é página virada.
O que Beto não via, nem percebia, era que estava sendo observado pela mesma poderosa Entidade que fizera contato com Frank.
Sim, os desejos de Beto se tornariam realidade.
Num dia longínquo, Beto desejara tornar-se um Grande Iniciado.
O caminho a percorrer ainda seria longo, mas o destino já estava traçado:
Beto será um Grande Iniciado.
Escolhera seu destino, e o destino o escolhera.
FIM DA PRIMEIRA PARTE







SEGUNDA PARTE


Beto quase não dormiu naquela noite.
Estava tão agitado com os acontecimentos, absorto em pensamentos de recordação de sua trajetória pelo esoterismo, que cochilou apenas poucos instantes pela madrugada inteira.
Mal percebeu o raiar do dia.
Ao dar-se conta de que já eram quase sete horas da manhã, resolveu levantar-se.
Pouco importava não ter repousado o necessário. Ele estava contente.
Consigo mesmo. E com o mundo.
Sim, Beto voltava a ter confiança, alegria e esperança.
Confiança em si mesmo e no ser humano. Alegria de estar vivo e são.
Esperança por dias melhores. O túnel havia sido atravessado.
Beto levantou-se da cama, deu uma espreguiçada felina, abrindo a janela, em seguida.
Respirou, profundamente, o ar da manhã.
"Bom dia, dia!"
Beto havia retornado ao lugar de onde jamais deveria ter saído.
Ele retomara a trilha a partir do mesmo ponto de onde houvera se desviado.
Um homem renovado havia despertado naquela manhã.


Beto foi até seu guarda-roupa, escolhendo o que iria colocar naquele dia.
Nada mais de ficar o dia inteiro de pijamas. Não deixaria de trocar de roupa todos os dias.
Desse dia em diante, pensou, passaria a fazer a barba todas as manhãs, tomar banho, lavar os cabelos.
Decidiu-se a engraxar os calçados, manter as roupas bem dobradas, manter-se asseado.
Após o banho, barbeado e penteado, Beto revirou seu armário em busca de um vidro de perfume, que jazia esquecido em algum canto.
Achou o tal perfume, 'Drakar Noir', além de um tubo de spray-desodorante e uma loção pós-barba, todos da mesma marca.
Alinhou-os todos num cantinho do armário do banheiro, junto de outros produtos de higiene pessoal.
Ele fez uso do desodorante, depois colocou perfume. Quando chegou na copa, para tomar seu desjejum,
seus pais se surpreenderam.
Eles já haviam se resignado a ter um filho 'de mal com a vida'.
Quando viram Beto chegar, sorridente e arrumado, perceberam que algo de bom estava acontecendo.
"Bom dia, papai! Bom dia, mamãe!"
Ambos responderam com entusiasmo à saudação do filho.
"Trouxe uns docinhos para vocês.
Foi o Frank quem os enviou, por meu intermédio. Estão numa caixa de papel, na geladeira."
Sua mãe apanhou a dita caixa, levando-a para a mesa.

Ao abrí-la, sua genitora se surpreendeu: nunca havia visto aquele tipo de docinhos.
"Mas que bonitos, filho!
Foi a esposa do seu amigo quem fez?", indagou sua mãe.
"Não sei, mamãe. Acho que sim."
Pois sim, se eu contar como foi a noite, e o fausto em que vivem Frank e os seus, meus  pais  pensarão  que estou mentindo.
Melhor preservar a inocência dos 'velhos'...


"Como foi o dia de ontem, filho?", perguntou papai.
"Foi muito interessante.
Conhecí a família do Frank, além de alguns de seus amigos.
Jantei com eles, depois Frank mandou seu motorista me trazer."
"Então esse Frank é rico?
Bem que ele poderia lhe arrumar um bom emprego!"
"Frank é médico, mamãe. Médico psiquiatra.
Sabe o que um médico psiquiatra faz? Ele trata de loucos!
Loucos são aquelas pessoas que vem gritando palavrões, babando nas pessoas, esperneando dentro de uma camisa de força.
Você sabe que emprego ele poderia me dar? Num hospício, imagine que emprego:
'babá de malucos'!
É isso que você quer que eu faça?"
"Não, filho. Deus me livre!"
"Então, por favor, pare de ficar imaginando que alguém, só por ter dinheiro, tem que ficar arrumando emprego para todo mundo que precisa.
Assim não poderei trazer o Frank aqui, pois vocês vão ficar 'enchendo o saco' dele para que me arrume um emprego, e aí eu perco outro amigo!"
"Não, Beto!
Pode trazer seu amigo, que não tocaremos nesse assunto!
Eu prometo!", disse meu pai, olhando 'de esguelha' para mamãe.

"Além disso, eu sou um advogado.
Acho que preciso trabalhar como advogado, não como 'quebra-galhos' para qualquer firminha de fundo-de- quintal."
Putz, eu não devia ser tão grosseiro com meus pais. Mas eles são fogo...
Qualquer amigo que eu traga em casa, começa uma verdadeira 'inquisição':
quem é seu pai, sua mãe, é casado, tem filhos, faz o quê, quanto ganha, tem carro, casa própria, uma aporrinhação!
Depois, o veredicto:
'É paupérrimo, não serve para ser seu amigo, vai ter inveja do que nós temos', ou 'é um vagabundo, tem a faca e o queijo na mão, mas não come nem deixa ninguém comer, tal qual o cachorro do açougueiro'; raras vezes, a terceira alternativa é a que vale: 'é podre- de-rico, filho! Aproveite o que puder! Vê se ele te arruma uma emprego!'.
É mole?


Resolví quebrar o gelo, contando sobre as pessoas que conhecí.
Falei de todos, menos da Virgínia...
Vai que meus 'velhos' botam 'olho gordo' e 'secam' uma florzinha que estava nascendo!
Melhor me cuidar!
Afinal, a mentalidade deles é pequenininha... Parece que eles tem, na cabeça, 'miolo de pardal'.
"O que vocês jantaram?", perguntou minha mãe.
"Pato assado.
Para acompanhar, salada."
"E de sobremesa?"
"Figo-da-Índia."
"Você conseguiu tirar os espinhos? São tantos!
Se aquilo entra na mão, é terrível!", disse papai.
"Nem sabia que tinha espinhos! Foram servidos já descascados."
"E a mulher desse 'seu' Frank, cozinha bem?"
"Sim, mãe. Cozinha direitinho.
Mas não como a minha mamãe querida!" Minha mãe ficou alegre e encabulada.
Como sou mentiroso!
Imagine se a doutora Francis iria fazer aquele banquete!
A mulher é médica, pô. O negócio dela é outro! Mas deixa p'rá lá...
Com essa mentirinha, mamãe fica contente, e tudo está bem.


Depois do nosso café, 'exterminamos' os docinhos. Meus pais elogiaram demais.
Levantei-me, dizendo:
"Vou dar uma arrumada no meu quarto!" Meus pais se entreolharam.
Creio que estavam pensando ser brincadeira minha.
"Você vai querer ajuda?"
"Obrigado, pai. Não."
Fui para o meu quarto, misto de brechó e moquifo, decidido a 'por um fim' na bagunça que armei durante mais de uma década.


Meu armário. Quantos mistérios.
Aliás, quanta quinquilharia.
Bugigangas, porcarias, tem de tudo misturado com alguma coisa valiosa.
Munido de alguns sacos para lixo, resolví jogar fora tudo quanto não tivesse serventia.
Cadernos velhos, até dos tempos do cursinho... Lixo! 'Códigos' legais, repletos de 'colas'... Lixo!
E assim por diante.
Pilhas velhas, todas babando ácido... Quanta sujeira!
Encontrei chicletes melados, balas mofadas... O que será que tem dentro deste saquinho de papel?
Um revólver!
Mas que coisa, nem me lembrava de ter esse revólver! Eu pensei que alguém o havia roubado!
Puxa, esse revólver eu comprei assim que completei vinte e um anos de idade!
É um revólver Rossi, calibre .38 Special, cano de duas polegadas, capacidade para cinco cartuchos, oxidado, enferrujado...
Preciso levá-lo num armeiro, antes que a ferrugem o coma vivo!
Lembro que ele era pretinho, pretinho.
Agora está todo amarronzado, feio, apesar de ser novinho!
Quanto desleixo!
Ah! O registro dele está aqui, junto. E as balas?
Será que ainda tenho balas? Vou achar.
Mas, que desordem!

Há uns cinco ou seis anos pensei que alguém havia me roubado essa arma.
Não a achava de jeito nenhum.
Resolví, então, comprar uma pistolinha, uma Taurus calibre 6,35mm. Browning.
Eu a comprei, pois sempre achei necessário a gente ter meios de se defender.
Desde que adquirí a pistola, com dois carregadores e uma caixa com vinte e cinco cartuchos da CBC, mantive a mesma na gaveta do criado-mudo.
A pistolinha continua lá, municiada, acompanhada  de outro magazine 'cheinho'. Em cada 'pente' cabem oito cartuchos... Dezesseis cartuchos e uma arma, ao meu lado, sempre me ajudaram a dormir sossegado.
Cheguei até a tirar 'porte' da pistolinha, mas percebí que não sou o tipo de pessoa capaz de reagir satisfatoriamente numa situação de perigo.



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