O plano astral - parte 3


Algo semelhante são os efeitos produzidos sobre animais que estão intimamente associados com seres humanos. O devotamento de um animal pelo dono que ele ama, e seu esforço mental para compreender-lhe os desejos e agradá-lo, desenvolve enormemente o intelecto do animal e seu poder de devotamento e afeição. Além disso, porém, a atuação constante dos veículos do dono sobre os do animal auxilia grandemente o processo e assim prepara o caminho para que o animal se individualize e se torne uma entidade humana.

É possível, por um esforço da vontade, formar uma concha de matéria astral na periferia da aura astral. Isto pode ser feito com três propósitos:

(l) afastar vibrações emocionais, tais como a cólera, a inveja ou o ódio, intencionalmente dirigidas por outra pessoa;

afastar vibrações casuais de tipo inferior que podem estar flutuando no mundo astral e se introduzem na aura da pessoa;

proteger o corpo astral durante a meditação. Essas conchas não costumam durar muito tempo, mas precisam ser freqüentemente renovadas se forem necessárias mais longamente.

Tal concha, naturalmente, mantém as vibrações tanto "dentro" como "fora". O estudante deveria, portanto, formar a concha apenas do mais grosseiro material astral, se não deseja manter as vibrações afastadas ou evitar que se projetem para fora, para os tipos superiores da matéria astral.

Em termos gerais, pode-se dizer que o uso da concha para a própria pessoa é, de certo modo, uma confissão de fraqueza, porque, se a pessoa é tudo aquilo que deveria ser, nenhuma proteção artificial desse tipo lhe seria necessária. Por outro lado, as conchas podem ser muitas vezes usadas com vantagem para ajudar outras pessoas que precisem de proteção.

Devemos recordar que o corpo astral de um homem consiste não apenas em matéria astral comum, mas também de uma certa quantidade de essência elemental. Durante a vida do homem essa essência elemental é segregada do oceano de matéria similar que o cerca, e torna-se praticamente durante aquele tempo o que se poderia descrever como uma espécie de elemental artificial, isto é, uma espécie de entidade semi-inteligente, separada, conhecida como Elemental-do-Desejo. Esse Elemental-do-Desejo segue o curso de sua própria evolução descendo para a matéria sem nenhuma referência (ou, realmente, sem nenhum conhecimento) da conveniência ou intenção do Ego ao qual lhe acontece estar ligado. Seus interesses são, assim, diametralmente opostos aos do homem, já que trata da busca de vibrações mais fortes e mais grosseiras. Daí a perpétua luta descrita por São Paulo como "a lei dos membros guerreando contra a lei da mente". Além disso, descobrindo aquela associação com que a matéria do corpo mental do homem lhe fornece vibrações mais vívidas, o elemental se empenha em agitar a matéria mental para que se sintonize com ele, induzindo o homem a acreditar que é ele quem deseja as sensações que o elemental deseja.

Conseqüentemente, torna-se uma espécie de tentador. Contudo, o Elemental- do-Desejo não é uma entidade malévola: não é, de fato, uma entidade em evolução, absolutamente, não tem o poder da reencarnação. É apenas a essência da qual se compõe que está evoluindo. Esse ser indefinido não tem más intenções a respeito do homem, do qual temporariamente é parte. Assim, de forma alguma se constitui um inimigo que deve ser encarado com horror, mas é uma parte da vida divina, como o é o próprio homem, embora em estágio diferente de desenvolvimento.

Ê um erro supor que, recusando-se a satisfazer o Elemental-do-Desejo com vibrações grosseiras, o homem estará detendo a evolução dele, pois esse não é o caso. Controlando as paixões e desenvolvendo as qualidades superiores, um homem abandona o inferior e ajuda a desenvolver os mais altos tipos de essência: as qualidades inferiores de vibrações podem ser fornecidas por um animal, em alguma ocasião posterior, ainda melhor do que por um homem, enquanto que apenas um homem pode evoluir o tipo superior de essência.

Através de toda a existência o homem deveria positivamente lutar contra o Elemental-do-Desejo e sua tendência para buscar as vibrações inferiores mais grosseiras, reconhecendo bem claramente que a consciência dele, suas

simpatias e antipatias, não são as suas próprias. Ele próprio o criou e não deve tornar-se escravo dele, mas aprender a controlá-lo e a compreender-se como separado dele.

Esse assunto será tratado extensamente no capítulo XII.

A Vida Mental. — Nosso terceiro e último fator a afetar o corpo astral durante a consciência desperta comum é a vida mental. As atividades mentais têm o efeito de mais amplo alcance sobre o corpo astral, por duas razões: (1) Porque o mental inferior, Manas, está de tal modo intimamente vinculado à matéria astral, Kama, que é quase impossível para a maioria das pessoas utilizar uma sem a outra, isto é, poucas pessoas podem pensar sem ao mesmo tempo sentir, ou sentir sem ao mesmo tempo e até certo ponto pensar.(2) Porque a organização e o controle do corpo estão afetos à mente. Isto é um exemplo do princípio geral de que cada corpo é construído pela consciência trabalhando no plano que está logo acima dela. Sem o poder criativo do pensamento, o corpo astral não pode ser organizado.

Cada impulso enviado pela mente ao corpo físico tem de passar pelo corpo astral e produz efeito também nele. Ainda mais, a matéria astral é muitíssimo mais responsiva a vibrações de pensamento do que a matéria física, e o efeito das vibrações mentais sobre ela é proporcionalmente maior do que sobre o corpo físico. Conseqüentemente, uma mente controlada, treinada e desenvolvida tende também a trazer o corpo astral sob controle e a desenvolvê-lo. Quando, contudo, a mente não está controlando ativamente o corpo astral, este último, sendo peculiarmente suscetível à influência das correntes de pensamento que passam, está perpetuamente recebendo esses estímulos externos e animadamente respondendo a eles.

Até aqui tratamos dos efeitos gerais produzidos sobre o corpo astral durante a existência comum, pela natureza da vida física, emocional e mental. Vamos nos ocupar, agora, mas apenas em linhas gerais, do uso das faculdades especiais do próprio corpo astral durante a consciência desperta.

A natureza dessas faculdades, e sua conexão com os vários Chakras do corpo astral, já descrevemos no capítulo V. Por meio dos poderes da própria matéria astral, desenvolvida através dos Chakras, um homem está capacitado não só a receber vibrações da matéria etérica, transmitida através do corpo astral para a sua mente, mas também a receber impressões diretas vindas da matéria do mundo astral circundante, sendo essas impressões naturalmente da mesma forma transmitidas através do corpo mental ao real homem interno.

Para receber impressões, porém, dessa maneira direta, e vindas do mundo astral, o homem deve aprender a focalizar sua consciência em seu corpo astral, em lugar de, como é habitualmente o caso, focalizá-la no cérebro físico.

Nos homens de tipo inferior, Kama ou desejo ainda é enfaticamente o aspecto mais saliente, embora o desenvolvimento mental também de alguma forma se tenha processado até certo ponto. A consciência desses homens está centralizada na parte inferior do corpo astral, sua vida é governada pelas sensações relacionadas com o plano físico. Essa é a razão pela qual

corpo astral forma a parte mais destacada da aura de um homem não- desenvolvido.

O homem médio comum também ainda está vivendo quase que inteiramente em suas sensações, embora o astral superior esteja começando a atuar: para ele, a questão principal que orienta sua conduta ainda não é o que seria correto e razoável fazer, mas simplesmente o que ele próprio deseja fazer. Os mais cultos e desenvolvidos estão começando a governar o desejo pela razão: quer dizer, o centro da consciência está gradualmente se transferindo do astral superior para o mental inferior. Lentamente, conforme o homem progrida, ela se move ainda mais para diante e o homem começa a ser antes dominado pelos princípios do que pelo interesse e pelo desejo.

O estudante recordará que a humanidade ainda está na Quarta Ronda, que deveria ser devotada naturalmente ao desenvolvimento do desejo e da emoção; contudo estamos empenhados em desenvolver o intelecto, que deverá ser a principal característica da Quinta Ronda. Devemos isso ao imenso estímulo dado à nossa evolução pela descida dos Senhores da Chama, vindos de Vênus, e ao trabalho de Adeptos, que preservaram para nós essa influência e constantemente se sacrificam para que possamos obter melhor progresso.

A despeito do fato de que, na vasta maioria dos casos, a consciência está localizada no corpo astral, a maior parte dos homens está bastante inconsciente desse fato, nada sabendo absolutamente sobre o corpo astral ou seus usos. Têm atrás deles as tradições e costumes de uma longa série de vidas nas quais as faculdades astrais não foram usadas; ainda assim, durante todo esse tempo aquelas faculdades foram gradual e lentamente crescendo dentro de uma casca, mais ou menos como um pinto cresce dentro de um ovo. Daí um grande número de pessoas terem faculdades astrais de que são inteiramente inconscientes, na verdade muito aproximadas da superfície, por assim dizer, e é provável que em futuro próximo, conforme esses assuntos se tornem mais amplamente conhecidos e compreendidos, em grande número de casos essas faculdades surgirão à tona e os poderes astrais se tornarão então muito mais comuns do que são hoje.

A casca de que falamos acima é composta de grande massa de pensamentos autocentralizados, na qual o homem comum está quase que desesperadoramente submerso. Isso se aplica, também, e talvez com maior ênfase, à vida do sono, de que trataremos no próximo capítulo.

Falamos, acima, em focalizar a consciência no corpo astral. A consciência do homem pode ser focalizada apenas em um veículo de cada vez, embora ele possa ter simultaneamente consciência de outros, de uma forma vaga. Analogia simples pode ser tirada da visão física comum. Se um dedo for levantado diante do rosto, os olhos ficam focalizados de forma a ver perfeitamente aquele dedo; ao mesmo tempo o fundo distante também pode ser visto, embora imperfeitamente, pois estará fora de foco. Num momento o foco pode modificar-se, de forma que o fundo é visto perfeitamente, mas
dedo, agora fora de foco, é distinguido apenas enevoada e vagamente.

Precisamente da mesma maneira, se um homem que desenvolveu a consciência astral e mental focalizar-se no cérebro físico, como acontece na vida comum, verá perfeitamente o corpo físico das pessoas e ao mesmo tempo verá seu corpo astral e mental, mas somente de forma enevoada. Em muito menos de um instante ele pode mudar o foco de sua consciência de forma a

ver o astral inteira e perfeitamente, mas neste caso verá também os corpos mental e físico, mas não em completo pormenor. A mesma coisa acontece com a visão mental e com a visão dos planos superiores.

Assim, no caso de um homem grandemente desenvolvido, cuja consciência já evoluiu para além do corpo causal (mental superior), de forma que ele pode funcionar livremente no plano búdico e tem igualmente certa consciência quanto ao plano átmico, o centro da consciência fica entre o mental superior e o plano búdico. O mental superior e o astral superior são nele muito mais desenvolvidos do que as seções inferiores e, embora retenha ainda seu corpo físico, retém-no meramente pela conveniência de nele trabalhar e não porque seus pensamentos e desejos estejam fixados nele. Tal homem transcendeu todo Kama que poderia ligá-lo à encarnação e, portanto, seu corpo físico é conservado a fim de que possa servir de instrumento às forças dos planos superiores, e estas possam descer até o plano físico.


CAPÍTULO IX


A Vida no Sono


A verdadeira causa do sono pareceria ser devido ao fato de os corpos chegarem a se cansar mutuamente. No caso do corpo físico, não só os esforços musculares mas também os sentimentos e pensamentos produzem certas e ligeiras modificações químicas. Um corpo saudável está sempre tentando contrabalançar essas modificações, mas nunca chega a conseguí-lo enquanto o corpo está desperto. Conseqüentemente, a cada pensamento, sentimento ou ação, verifica-se uma ligeira perda, quase imperceptível, da qual o efeito acumulado deixa o corpo físico demasiadamente exausto para ser capaz de continuar a pensar ou a trabalhar. Em alguns casos, mesmo alguns momentos de sono serão suficientes para a recuperação, sendo isto feito pelo elemental físico.

No caso do corpo astral, bem depressa começa ele a se sentir fatigado com o pesado trabalho de mover as partículas do cérebro físico e precisa de um período considerável de separação quanto a ele, a fim de reunir forças para reassumir sua cansativa tarefa.

Em seu próprio plano, todavia, o corpo astral é praticamente incapaz de fadiga, pois há casos em que ele trabalhou incessantemente durante vinte e cinco anos sem mostrar sintomas de exaustão.

Embora a emoção excessiva e continuada canse o homem muito rapidamente na vida comum, não é o corpo astral que se torna cansado mas o organismo físico através do qual a emoção é expressa ou sentida.

O mesmo acontece com o corpo mental. Quando falamos de fadiga mental, usamos realmente uma expressão errada, porque é o cérebro e não a mente o que se cansa. Não existe fadiga da mente.

Quando o homem, no sono (ou na morte), deixa seu corpo, a pressão da matéria astral circundante — que realmente é a força de gravidade do plano astral — imediatamente força outra matéria astral a ocupar o espaço astralmente vazio. Essa contraparte astral, no que se refere à distribuição, é uma cópia exata do corpo físico, mas ainda assim não tem conexão real com ele e nunca poderia ser usada como veículo. Trata-se de uma combinação fortuita de partículas apenas, partículas retiradas de matéria astral de uma qualidade apropriada que aconteça estar à mão. Quando o verdadeiro corpo astral retorna, expulsa essa outra matéria astral que não faz a mais ligeira oposição a isso.

Essa é claramente uma das razões pela qual um extremo cuidado deveria ser tomado no que se refere ao lugar onde o homem adormece, porque, se essa localização for má, matéria astral de tipo pouco recomendável pode penetrar no corpo físico enquanto o corpo astral do homem está ausente, e deixar atrás de si influências que só podem influir desagradavelmente sobre o homem verdadeiro, quando de seu retorno.

Quando um homem "vai dormir", seus princípios superiores em seu corpo astral retiram-se do corpo físico, e o corpo denso bem como o corpo etérico permanecem no leito, com o corpo astral flutuando sobre eles. No

sono, então, o homem está usando simplesmente seu corpo astral, em lugar do físico: só o corpo físico está dormindo, não necessariamente o próprio homem.

Habitualmente o corpo astral, assim afastado do físico, retém a forma daquele corpo, de modo que a pessoa é facilmente reconhecida por quem quer que a conheça fisicamente. Isso é devido ao fato de que a atração entre as partículas astrais e físicas, continuada através da vida física, instala um hábito ou impulso na matéria astral, que continua mesmo quando ela é temporariamente afastada do corpo físico adormecido.

Por essa razão, o corpo astral de um homem que está dormindo consistirá numa porção central, correspondente ao corpo físico, relativamente muito densa e de uma aura circundante relativamente muito mais rarefeita.

Um homem muito pouco desenvolvido pode estar quase tão adormecido quanto seu corpo físico o está, porque só é capaz de uma consciência muito pequena em seu corpo astral. Não pode também afastar-se da vizinhança imediata de seu corpo físico adormecido e, se for feita uma tentativa de afastá-lo em seu corpo astral, provavelmente acordaria aterrorizado em seu corpo físico.

O corpo astral de um homem assim é massa informe, espiral nebulosa, flutuante, toscamente ovóide, mas muito irregular e indefinida em seu contorno: as feições e o desenho da forma interior (a contraparte astral densa do corpo físico) também se mostram vagas, toldadas e indistintas, mas sempre reconhecíveis.

Um homem desse tipo primitivo tem usado seu corpo astral durante sua consciência desperta, enviando correntes da mente através do astral ao cérebro físico. Mas quando o cérebro está inativo, durante o sono físico, o corpo astral, não sendo desenvolvido, é incapaz de receber impressões por sua própria iniciativa. Assim, aquele homem está virtualmente inconsciente, incapaz de se expressar claramente através de seu corpo astral de medíocre organização. Os centros de sensação nesse corpo podem ser afetados pela passagem de formas-pensamentos, e o homem talvez responda a estímulos nascidos da natureza inferior. No observador, entretanto, o efeito produzido é de sonolência e incerteza, o corpo astral carecendo inteiramente de atividade definida e flutuando ocioso, incipientemente, sobre a forma física adormecida.

Numa pessoa muito pouco desenvolvida, portanto, os princípios superiores, isto é, o próprio homem, estão quase tão adormecidos quanto o corpo físico.

Em alguns casos o corpo astral é menos letárgico e flutua sonolento pelas várias correntes astrais, reconhecendo ocasionalmente outras pessoas nas mesmas condições e tendo experiências de todo o tipo, agradáveis e desagradáveis, cuja recordação confusa e muitas vezes transformada em grotescas caricaturas do que realmente aconteceu (ver capítulo X, sobre Sonhos) levará o homem a pensar, na manhã seguinte, que teve um sonho notável.

No caso de um homem mais desenvolvido, há uma grande diferença. A forma interior é muito mais clara e definida — reprodução mais aproximada da aparência física do homem. Em lugar da nebulosidade flutuante há uma forma ovóide nitidamente definida, mantendo seu formato intocado entre

todas as várias correntes que estão sempre girando em torno dela no plano astral.

Um homem desse tipo não está de maneira alguma inconsciente em seu corpo astral, porém está pensando muito ativamente. Todavia, pode ocorrer que do ambiente circundante obtenha um conhecimento pouco maior do que o do homem não-desenvolvido. Isto se dá não porque seja incapaz de ver, mas porque está tão envolvido em seu próprio pensamento que não pode ver, embora pudesse fazê-lo se o quisesse. Fossem quais fossem os pensamentos em que se ocupou durante o dia anterior, ele habitualmente continua a mantê-los quando adormece e fica rodeado por uma parede tão densa, de sua própria fabricação, que virtualmente nada observa do que se está passando para além dela. Ocasionalmente, um violento impacto vindo de fora, ou mesmo um forte desejo dele próprio, vindo do interior, podem romper a cortina nebulosa e permitir que ele receba alguma impressão definida.

Mas mesmo então o nevoeiro se fechará quase que imediatamente e ele sonhará sem nada observar, como fazia antes.

No caso de um homem ainda mais desenvolvido, quando o corpo físico adormece, o corpo astral desliza para fora dele e o homem fica então em completa consciência. O corpo astral mostra-se claramente delineado e definidamente organizado, parecendo-se ao homem, e esse homem pode usá-lo como um veículo, um veículo muito mais conveniente do que o corpo físico.

Neste caso a receptividade do corpo astral é maior, e ele pode responder instantaneamente a todas as vibrações de seu plano, tanto as sutis como as grosseiras, mas no corpo astral de uma pessoa muito altamente desenvolvida não haverá naturalmente qualquer matéria ainda capaz de responder às vibrações grosseiras.

Tal homem está inteiramente desperto, trabalha muito mais ativamente, com maior exatidão e com maior poder de compreensão do que quando está confinado ao veículo físico mais denso. Além disso, pode mover-se livremente e com imensa rapidez para qualquer distância, sem causar a menor perturbação ao corpo físico adormecido.

Pode encontrar amigos e com eles trocar idéias, sejam esses amigos encarnados ou desencarnados, os quais acontece estarem igualmente acordados no plano astral. Pode encontrar pessoas mais evoluídas do que ele próprio e receber delas avisos ou instruções; ou pode beneficiar os que sabem menos do que ele. Pode entrar em contato com entidades não- humanas de vários tipos (ver capítulos XX e XXI, sobre Entidades Astrais). Estará sujeito a toda espécie de influências astrais, boas ou más, fortalecedoras ou terrificantes.

Pode ainda travar amizade com pessoas de outras partes do mundo; pode fazer ou ouvir conferências. Se é um estudante, pode conhecer outros estudantes e, com as faculdades adicionais fornecidas pelo mundo astral, torna-se capaz de resolver problemas que apresentavam dificuldades no mundo físico.

Um médico, por exemplo, durante o sono do corpo, pode visitar casos nos quais está particularmente interessado. Adquire, assim, novas informações que podem chegar à sua consciência desperta sob a forma de intuições.

Num homem altamente desenvolvido, o corpo astral, sendo inteiramente organizado e vitalizado, torna-se veículo da consciência no plano astral, tanto quanto o corpo físico o é no plano físico.

Sendo o plano astral o verdadeiro mundo da paixão e da emoção, os que se rendem a uma emoção podem sentí-la com um vigor e uma agudeza misericordiosamente desconhecidas sobre a terra. Enquanto se está no corpo físico, a maior parte da eficiência de uma emoção se exaure na transmissão ao plano físico, mas no mundo astral o todo da força se encontra disponível em seu próprio mundo. Daí ser possível sentir-se mais intensamente afeição ou devoção no plano astral do que no mundo físico; da mesma maneira, a intensidade do sofrimento no mundo astral nem mesmo pode ser imaginada na vida física comum.

Uma vantagem desse estado de coisas está no fato de que toda a dor e sofrimento são voluntários e sob controle no mundo astral, pois a vida ali é muito mais fácil para o homem que compreende. Controlar a dor física através da mente é possível, mas excessivamente difícil; no mundo astral, entretanto, qualquer pessoa pode, num momento, expulsar o sofrimento causado por uma forte emoção. O homem tem apenas de pôr em ação sua vontade, e a paixão imediatamente desaparece. Essa afirmativa pode parecer surpreendente, contudo é verdadeira, sendo tal o poder da vontade e da mente sobre a matéria.

Ter obtido integral consciência no corpo astral é ter feito já um grande progresso: quando um homem também lançou uma ponte sobre o vácuo entre a consciência física e a consciência astral, o dia e a noite já não existem para ele, pois leva uma existência que não tem solução de continuidade. Para um homem assim, mesmo a morte, tal como é comumente concebida, cessou de existir, já que ele leva consigo aquela consciência integral não só através do dia e da noite, mas também através dos portais da própria morte, e até o fim de sua vida no plano astral, tal como veremos mais tarde, quando tratarmos da vida após a morte.

Viajar no corpo astral não é instantâneo, mas é tão veloz essa viagem que o espaço e o tempo podem ser tidos como virtualmente conquistados, porque, embora o homem esteja passando através do espaço, cruza-o com tal rapidez que as divisões do mundo são como se não existissem, já que em dois ou três minutos um homem pode mover-se em torno do mundo.

Qualquer pessoa adiantada e culta já tem a consciência integralmente desperta no corpo astral e é perfeitamente capaz de empregá-lo como veículo, embora em muitos casos não faça isso, de vez que não realizou o esforço decisivo inicialmente necessário, até que o hábito se estabeleça.

A dificuldade com a pessoa comum não está no fato de o corpo astral não poder agir, mas no fato de que durante milhares de anos aquele corpo esteve habituado a movimentar-se apenas pelas impressões recebidas através do veículo físico. Assim, aquelas pessoas não compreendem que o corpo astral pode trabalhar em seu próprio plano, por sua própria iniciativa, e que a vontade pode agir sobre ele diretamente.

As pessoas permanecem "adormecidas" astralmente porque adquiriram o hábito de esperar pelas vibrações físicas familiares convocando-as às atividades astrais. Daí falar-se em estar acordado no plano astral, mas de forma alguma para o plano astral. Conseqüentemente, elas são apenas vagamente conscientes do que as cerca, quando chegam a sê-lo.


Quando um homem se torna discípulo de um dos Mestres, é habitualmente sacudido para fora daquela condição sonolenta no plano astral, acordando inteiramente para as realidades que o cercam e para o trabalho entre essas realidades, de forma que as horas de sono já não ficam em branco, mas são preenchidas com ocupações ativas e úteis, sem que isso interfira de forma alguma no saudável repouso do corpo físico cansado.

No capítulo XXVIII, que trata de Auxiliares Invisíveis, cuidaremos mais detalhadamente do trabalho cuidadosamente planejado e organizado no corpo astral: aqui podemos dizer que, mesmo antes que esse estágio seja alcançado, grande quantidade de trabalho útil pode ser, e é, constantemente realizada. Um homem que adormece com a intenção definida em sua mente de fazer algum trabalho tentará, sem dúvida alguma, levar a cabo o que pretende, assim que se liberte do seu corpo físico adormecido. Mas, quando o trabalho é completado, é provável que o nevoeiro de seus próprios pensamentos autocentralizados se feche em torno dele mais uma vez, a não ser que se haja habituado a iniciar novas linhas de ação quando funciona fora do cérebro físico. Em alguns casos, naturalmente, o trabalho escolhido é de porte a ocupar todo o tempo usado para o sono, de forma que tal homem se está esforçando, ao máximo que lhe é possível, até o ponto permitido pelo seu desenvolvimento astral.

Cada qual deveria determinar, a cada noite, para si próprio, fazer algo útil no plano astral: confortar alguém que esteja perturbado, usar a vontade para insuflar forças em quem está fraco ou doente, acalmar alguém que esteja excitado ou histérico, ou qualquer serviço dessa natureza.

Certa medida de sucesso é absolutamente certa e se aquele que deseja ajudar fizer uma observação atenta, receberá com freqüência indicação dos resultados definidos que obteve no mundo físico.

Há quatro formas pelas quais o homem pode ser "acordado" para a atividade autoconsciente em seu corpo astral:

Pelo curso comum da evolução que, embora lenta, é segura.

Pelo próprio homem que, tendo tomado conhecimento do caso, faz o esforço contínuo e persistente necessário para dissipar o nevoeiro interior e aos poucos suplantar a inércia a que se habituou. A fim de realizar isso, esse homem deveria resolver, antes de dormir, fazer a tentativa, quando deixar o corpo, de acordar e ver algo, ou fazer algum trabalho útil. Isso naturalmente irá apenas apressar o natural processo de evolução. Seria desejável que um homem desenvolvesse primeiro o senso comum e as qualidade morais; isto por duas razões: primeira, para que não usasse mal os poderes que pudesse adquirir; segunda, para que não se deixasse dominar pelo medo em presença de forças que não pode compreender nem controlar.

Por acidente ou por uso ilegal de cerimônias mágicas, ele pode romper o véu, de tal forma que ele nunca mais pode fechar-se inteiramente. Exemplos disso são encontrados em Uma Vida Encantada, de H. P. Blavatsky, e em Zanoni, de Lord Lytton.

Um amigo pode atuar do lado de fora, sobre a casca fechada que rodeia o homem, e aos poucos elevá-lo às mais altas possibilidades. Isso, contudo, jamais deveria ser feito, a não ser que o amigo tenha muita

certeza de que tal homem que vai ser acordado possui a coragem, o devotamento e outras qualificações necessárias para o trabalho útil.

A necessidade de auxiliares para o plano astral é tão grande que todo o aspirante pode estar certo de que não haverá um dia de espera no despertá-lo, assim que se revele pronto para tanto.

Pode acrescentar-se que, quando uma criança foi acordada no plano astral, o desenvolvimento do corpo astral se processa tão rapidamente que depressa ela estará, naquele plano, em posição pouco menos inferior da que tem o adulto acordado, e ficará naturalmente muito adiantada no que se refere a se fazer mais útil em relação ao mais sábio dos homens que ainda não esteja desperto.

A não ser, contudo, que o ego que se expressa através do corpo da criança possua as qualificações necessárias para uma disposição firme, mas amorosa, e -.tenha manifestado claramente em suas vidas precedentes essa disposição, ocultista algum tomaria a responsabilidade muito séria de acordá-la no plano astral. Quando é possível acordar crianças dessa maneira, elas provam ser os mais eficientes trabalhadores do plano astral e se atiram ao trabalho com um devotamento entusiasta que é bonito de ver.

Embora seja relativamente fácil acordar um homem no plano astral, isto é praticamente impossível, a não ser por influência mesmérica altamente indesejável, levá-lo a adormecer novamente.

A vida adormecida e a acordada são, assim, em realidade apenas uma: durante o sono estamos conscientes desse fato e temos memória continuada das duas, isto é, a memória astral inclui a física, embora naturalmente a memória física de forma alguma inclua a memória das experiências astrais.

O fenômeno de caminhar dormindo (sonambulismo) pode ser produzido, aparentemente, de várias e diferentes maneiras.

O ego pode ser capaz de agir mais diretamente sobre o corpo físico durante a ausência dos veículos astral e mental: em casos dessa natureza, um homem pode ser capaz, por exemplo, de escrever poesia, pintar quadros etc., o que estaria bem longe de sua capacidade habitual quando acordado.


O corpo físico pode estar trabalhando automaticamente e pela força do hábito, não controlado pelo próprio homem. Exemplos disso ocorrem quando criados acordam no meio da noite e acendem o fogo ou atendem a outros deveres domésticos com os quais estão acostumados; ou quando o corpo físico adormecido leva a cabo uma idéia dominante da mente antes de adormecer.

Uma entidade externa, encarnada ou desencarnada, pode apoderar-se do corpo de um homem adormecido e usá-lo para seus próprios fins. Isto aconteceria, provavelmente, com uma pessoa mediúnica, isto é, pessoa cujos corpos estão frouxamente unidos e, portanto, são facilmente separáveis.

Com pessoas normais, todavia, o fato de o corpo astral deixar o corpo físico durante o sono não abre caminho para a obsessão, porque o ego

sempre mantém íntima conexão com seu corpo e seria prontamente chamado de volta a ele se qualquer tentativa pudesse ser feita em relação a esse corpo.

Uma condição diretamente oposta também pode produzir resultado semelhante. Quando os princípios ou corpos encaixam-se mais apertadamente do que de costume, o homem, em lugar de visitar um ponto distante em seu corpo astral, levaria também seu corpo físico, porque não está de todo dissociado dele.

O sonambulismo está, provavelmente, conectado também com o complexo problema de várias camadas de consciência no homem e que, sob circunstâncias normais, não podem se manifestar.

Muito ligada à vida no sono é a condição de transe, que não é senão um estado de sono, artificial ou anormalmente induzido. Médiuns e sensitivos passam facilmente para fora do corpo físico, indo para o corpo astral, quase sempre inconscientemente. O corpo astral pode, então, executar suas funções, tal como viajar para um lugar distante, recolhendo impressões, ali, dos objetos circundantes e trazendo essas impressões de volta para o corpo físico. No caso do médium, o corpo astral pode descrever essas impressões por meio do corpo físico em transe, mas, como regra, quando o médium sai do transe, o cérebro não retém as impressões assim feitas nele e não lhe fica traço algum das experiências adquiridas na memória física. Ocasionalmente, mas isto é muito raro, o corpo astral pode fazer uma impressão duradoura no cérebro, de forma que o médium consiga recordar o conhecimento adquirido durante o transe.


CAPÍTULO X


Os Sonhos


Consciência e atividade no corpo astral são uma coisa; a lembrança, rio cérebro, da consciência e da atividade astrais, são algo inteiramente diferentes. A existência ou a ausência da memória física de forma alguma afeta a consciência no plano astral, nem a capacidade de funcionar no corpo astral com facilidade e liberdade perfeitas. Realmente não só é possível, mas também de forma alguma pouco comum, para um homem, funcionar livre e utilmente em seu corpo astral durante o sono do corpo físico, e ainda assim voltar ao corpo físico sem a mais leve recordação do trabalho astral em que esteve empenhado.

A falta de continuidade entre a vida astral e a vida física é devido à carência de desenvolvimento do corpo astral ou à falta de uma ponte etérica adequada entre a matéria astral e a densa matéria física.

Essa ponte consiste numa teia bem entretecida de matéria atômica, através da qual as vibrações têm de passar, o que produz um momento de inconsciência, como um véu, entre o dormir e o acordar.

A única forma através da qual a lembrança da vida astral pode ser levada ao cérebro físico está no desenvolvimento suficiente do corpo astral e no despertar dos Chakras etéricos, que têm, como uma de suas funções, a de levar forças do astral para o etérico. Ademais, deve haver funcionamento ativo do corpo pituitário, que focaliza as vibrações astrais.

Às vezes, ao acordar, surge uma sensação de que algo aconteceu, sem que disso ficasse a lembrança. A sensação indica que houve consciência astral, embora o cérebro se mostre insuficientemente receptivo para fazer o registro. Em outras ocasiões, o homem, em seu corpo astral, pode conseguir fazer uma impressão momentânea sobre o duplo etérico e o corpo denso, daí resultando memória vívida da existência astral. Isso é às vezes feito deliberadamente, quando algo ocorre e o homem sente que deve lembrar-se no plano físico. Tal lembrança habitualmente depressa se desvanece, e não pode ser recuperada; esforços para recobrar a memória, enviando intensas vibrações ao cérebro físico, sobrepõem-se às vibrações mais delicadas do astral e conseqüentemente tornam o êxito mais impossível.

Há certos acontecimentos também que fazem uma impressão tão viva sobre o corpo astral que chegam a imprimir-se no cérebro físico por uma espécie de repercussão.

Em outros casos, um homem pode conseguir a impressão de conhecimentos novos no cérebro físico, sem poder recordar onde e como tal conhecimento foi obtido. Exemplos disso, comum à maioria das pessoas, ocorrem quando soluções de problemas, antes insolúveis, subitamente surgem à consciência, ou quando uma luz é de repente lançada sobre questões previamente obscuras. Tais casos podem indicar que foi feito progresso com a organização e funcionamento do corpo astral, embora o corpo físico seja ainda apenas parcialmente receptivo.

Nos casos em que o cérebro físico responde, há sonhos vívidos, racionais e coerentes, tal como ocorre com muita gente de vez em quando.

Poucas pessoas, quando em corpo astral, se importam quanto ao cérebro físico recordar ou não, e nove entre dez não gostam nada de retornar ao corpo. Voltar ao corpo físico, vindo do mundo astral, traz uma sensação de grande constrangimento, como se a pessoa se visse envolvida por uma capa espessa e pesada. A alegria da vida no plano astral é tão grande que a vida física, em comparação, nem mesmo parece vida. Muitos vêem o retorno diário ao corpo físico como os homens muitas vezes encaram seu dia de trabalho no escritório. Não chegam a detestar tal trabalho, mas não o fariam se a isso não fossem compelidos.

Eventualmente, no caso de pessoas altamente desenvolvidas e adiantadas, a ponte etérica entre o mundo astral e o mundo físico é construída, e então há perfeita continuidade de consciência entre a vida física e a vida astral. Para tais pessoas a vida deixa de ser composta de dias de recordações e noites de esquecimento e torna-se, em vez disso, um todo contínuo, ano após ano, de ininterrupta consciência.

Ocasionalmente, um homem que não tenha lembrança da sua vida astral pode, sem ter tido essa intenção, através de um acidente ou de doença ou intencionalmente, através de práticas definidas, armar a ponte sobre o vazio entre a consciência astral e a consciência física, de forma que daí por diante sua consciência astral será contínua e sua lembrança da vida durante o sono se mostrará portanto perfeita. Mas, naturalmente, antes que isso possa acontecer, ele já deve ter desenvolvido consciência integral no corpo astral. Apenas o rasgar do véu entre o astral e o físico é que se dá subitamente, e não o desenvolvimento do corpo astral.

A vida durante o sonho pode ser consideravelmente modificada, como resultado direto do crescimento mental. Cada impulso enviado pela mente ao cérebro físico tem de passar através do corpo astral e, sendo a matéria astral muito mais responsiva às vibrações-pensamentos do que a matéria física, segue-se que o efeito produzido no corpo astral é, em correspondência, maior. Assim, quando um homem adquire controle mental, isto é, quando aprende a dominar o cérebro, a se concentrar, a pensar como e quando bem queira, uma mudança correspondente terá lugar em sua vida astral. E, se trouxer a lembrança daquela vida através do cérebro físico, seus sonhos se farão vívidos, bem sustentados, racionais, mesmo instrutivos.

Em geral, quanto mais o cérebro físico é treinado para responder às vibrações do corpo mental, maior é a facilidade de construir a ponte entre a consciência desperta e a adormecida. O cérebro deve tornar-se um instrumento cada vez mais obediente ao homem, agindo sob impulsos da sua vontade.

O sonho sobre assuntos comuns não interfere no trabalho astral, porque o sonho tem lugar no cérebro físico, enquanto o homem real está fora, atendendo a outros assuntos. Não importa realmente o que faz o cérebro físico, desde que se mantenha livre de pensamentos indesejáveis.

Desde que um sonho teve início, seu curso habitualmente não pode ser modificado; mas a vida-sonho pode ser controlada indiretamente em considerável extensão. É especialmente importante que o último pensa- mento, quando se mergulha no sono, seja nobre, elevado, pois isso dá a

tônica que determina amplamente a natureza do sonho que se segue. Um pensamento mau ou impuro atrai influências e criaturas más e impuras, que reagem sobre a mente e sobre o corpo astral, e tendem a despertar desejos baixos e terrenos.

Por outro lado, se um homem adormece com seus pensamentos fixados em coisas altas e santas, atrairá a si, automaticamente, elementais criados por esforços semelhantes de outros e, conseqüentemente, seus sonhos serão elevados e puros.

Já que neste livro consideramos principalmente o corpo astral e os fenômenos a ele associados, não há necessidade de tratarmos exaustivamente do assunto referente à consciência do sonho, que é amplo. Todavia, a fim de mostrar o ambiente exato que o corpo astral usa na vida do sonho, será útil delinear muito brevemente os principais fatores que operam na produção dos sonhos. Para um estudo pormenorizado de todo o assunto, os estudantes são remetidos ao excelente compêndio, Sonhos, de
W. Leadbeater, do qual os fatos que se seguem foram extraídos.

Os fatores concernentes à produção dos sonhos são os seguintes:

O cérebro físico inferior, com sua semiconsciência infantil, e seu hábito de expressar todos os estímulos de uma forma pictórica.

A parte etérica do cérebro, através da qual corre uma procissão incessante de quadros desconexos.

O corpo astral, palpitando com os tempestuosos vagalhões do desejo e da emoção.


O ego (no corpo causal), que pode estar em qualquer estado de consciência, da completa insensibilidade ao perfeito comando das suas faculdades.


Quando um homem adormece, seu ego recua ainda mais para dentro de si próprio e deixa seus vários corpos mais livres do que de costume, para seguirem seu próprio caminho. Esses corpos separados são (l) muito mais suscetíveis a impressões vindas de fora do que em outras ocasiões, e (2) têm uma consciência própria muito rudimentar. Conseqüentemente, há ampla razão para que produzam sonhos, bem como para que haja recordação confusa, no cérebro físico, das experiências dos demais corpos durante o sono.

Tais sonhos confusos podem ser devidos a: (l) uma série de quadros desconexos e de transformações impossíveis produzidos pela ação automática, e sem sentido, do cérebro físico inferior; (2) um fluxo de pensamento casual que tem estado a percorrer a parte etérica do cérebro;
(3) a sempre inquieta maré de desejos terrenos, influindo através do corpo astral, e provavelmente estimulada por influências astrais; (4) tendência imperfeita de dramatização por parte de um ego não- desenvolvido; (5) mistura de várias dessas influências.

Vamos descrever brevemente os elementos principais em cada um desses tipos de sonho.

l. Sonhos do cérebro físico. — Quando dorme, o ego entrega o controle ao cérebro, e o corpo físico ainda tem certa enevoada consciência de si próprio. Além disso há também a consciência agregada das células individuais do corpo físico. O domínio da consciência física sobre o cérebro é muito mais fraco do que o do ego sobre esse mesmo cérebro e, conseqüentemente, modificações puramente físicas podem afetar o cérebro numa extensão muitíssimo maior. Exemplos de tais modificações físicas são: irregularidade na circulação do sangue, indigestão, calor ou frio etc. A enevoada consciência física possui certas peculiaridades:

é, em grande parte, automática;

parece incapaz de captar uma idéia, exceto na forma na qual é ela própria que atua: conseqüentemente, todos os estímulos, sejam internos ou externos, são imediatamente trasladados para imagens perceptíveis;

É incapaz de dominar idéias ou lembranças abstraias como tais, e passa a transformá-las imediatamente em percepções imaginárias;

Toda direção local de pensamento torna-se, para ela, verdadeiro transporte espacial, isto é: um pensamento passageiro sobre a China transporta a consciência instantaneamente para a China;

Não tem o poder de julgar a seqüência, valor ou verdade objetiva dos quadros que lhe aparecem à frente; toma-os todos qual os vê, e jamais se surpreende com o que possa acontecer, por muito incongruente e absurdo que o fato seja;

Está sujeita ao princípio de associação de idéias e por isso imagens sem outra conexão exceto o fato de representarem acontecimentos que se passaram em outra ocasião podem surgir misturadas, em inextricável confusão;

É singularmente sensível à mais leve influência externa, tal como sons ou toques;

Exagera e distorce essas influências num grau quase incrível.


Assim, o cérebro físico é capaz de criar exagero e confusão suficientes para que lhe sejam atribuídos muitos, mas de forma alguma todos os fenômenos do sonho.

Sonhos do cérebro etérico. — O cérebro etérico ainda é mais sensível às influências externas durante o sono do corpo do que durante o período de consciência desperta. Enquanto a mente está ativamente empenhada, o que, em consequência, traz o cérebro inteiramente empregado, ela se faz virtualmente impermeável à contínua pressão dos pensamentos externos. Mas, no momento em que o cérebro fica ocioso, o fluxo do caos inconseqüente começa a derramar-se nele. Na grande maioria das pessoas, os pensamentos que fluem através de seus cérebros não são em realidade seus próprios pensamentos, mas fragmentos lançados por outras pessoas. Em consequência, na vida do período de sono especialmente, qualquer

pensamento itinerante que encontrar algo que tenha afinidade com ele, no cérebro da pessoa adormecida, é captado por esse cérebro, que dele se apropria, iniciando-se assim todo um curso de idéias: tais idéias, eventualmente, vão-se apagando e desaparecem, e o fluxo desconexo, indefinido, começa de novo a agir através do cérebro.

Um ponto a considerar é que, já que no presente estado de evolução do mundo é provável que exista quantidade maior de maus do que de bons pensamentos flutuando por aí, um homem cujo cérebro não é controlado está aberto para toda sorte de tentações que lhe teriam sido poupadas se a mente e o cérebro tivessem controle.

Mesmo quando tais correntes de pensamentos são expulsas do cérebro etérico do indivíduo adormecido, pelo deliberado esforço de outra pessoa, aquele cérebro não permanece inteiramente passivo, mas começa lenta e sonhadoramente a desenvolver quadros para si próprio, retirando-os dos que foram acumulados pelas suas lembranças do passado.

Sonhos astrais. — São simples recordações, no cérebro físico, da vida e da atividade do corpo astral durante o sono do corpo físico, e a isso já nos referimos nas páginas precedentes. No caso de pessoa razoavelmente desenvolvida, o corpo astral pode movimentar-se, sem desconforto, para distâncias consideráveis de seu corpo físico e pode trazer de volta impressões mais ou menos definidas dos lugares que visitou ou das pessoas com as quais se encontrou. Em todos os casos, como já dissemos, o corpo astral é sempre intensamente impressionado por qualquer pensamento ou sugestão que envolva desejo ou emoção, embora a natureza dos desejos que mais rapidamente despertam uma resposta dependa naturalmente do desenvolvimento da pessoa e da pureza ou da rusticidade de seu corpo astral.

O corpo astral, em todos os tempos, mostra-se suscetível às influências das correntes de pensamento que passam e, quando a mente não está controlando-o ativamente, vai recebendo perpetuamente esses estímulos externos e respondendo a eles animadamente. Durante o sono, ele ainda é mais facilmente influenciado. Em consequência, um homem que, por exemplo, destruiu inteiramente um desejo físico que podia ter anteriormente, no que se refere ao álcool, de modo que, quando acordado, tem até mesmo uma repulsa definitiva por ele, pode ainda assim, e freqüentemente, sonhar que está bebendo, e nesse sonho experimentar o prazer da sua influência. Durante o dia, o desejo do corpo astral estará sob controle da vontade, mas quando esse corpo astral é liberado pelo sono, escapa, de certa forma, ao domínio do ego e, respondendo provavelmente a influências astrais externas, retomba em seu velho hábito. Essa classe de sonhos é, com certeza, comum a muitos que estão fazendo esforços positivos para levar sua natureza de desejo a aceitar o controle da vontade.

Também pode acontecer que o homem tenha sido um ébrio em uma vida anterior e ainda possua, em seu corpo astral, um pouco da matéria absorvida pelas vibrações causadas no átomo permanente pelo alcoolismo. Embora essa matéria não seja vivificada em sua vida, nos sonhos, contudo, sendo fraco o controle do ego, a matéria pode responder às vibrações da bebida, vindas de fora, é o homem sonha que está bebendo. Tais sonhos, uma vez compreendidos, não devem causar angústia: apesar disso devem ser vistos como uma advertência de que ainda está presente a possibilidade de que a paixão do álcool seja reativada.

Sonhos do Ego. — Por muito que a natureza do corpo astral se modifique à proporção que se desenvolve, ainda maior é a modificação do ego, do homem real, que nele habita. Enquanto o corpo astral nada mais é que uma forma nebulosa, flutuante, o ego está quase tão adormecido quanto o seu corpo físico, sendo cego para as influências de seu próprio plano superior: mesmo quando uma idéia daquele plano consegue alcançá-lo, já que não há nele controle para seus corpos inferiores, ou o há pequeno, não lhe será possível imprimir a experiência em seu cérebro físico.

As pessoas adormecidas podem estar em qualquer estágio, desde o de esquecimento completo até o de completa consciência astral. E devemos recordar, conforme foi dito anteriormente, que, embora possa haver muitas experiências importantes nos planos superiores, o ego, apesar disso, pode ser incapaz de imprimi-las no cérebro, de forma que não haverá lembrança física, de forma alguma, mas apenas uma recordação das mais confusas.

As principais características da consciência e das experiências do ego, sejam ou não recordadas pelo cérebro, são as seguintes:


As medidas de tempo e espaço do ego são de tal modo diferentes das que ele usa em sua vida desperta que isso é quase como se nem tempo nem espaço existissem para ele. Muitos exemplos são conhecidos em que, em poucos momentos de tempo, tal como nós o medimos, o ego pode ter experiências que parecem durar muitos anos, acontecimento após acontecimento acontecendo em completos pormenores circunstanciais.

O ego possui a faculdade ou o hábito da dramatização instantânea. Assim, um som ou um toque físico pode alcançar o ego, não através do habitual mecanismo dos nervos, mas diretamente, uma fração de segundo antes que atinja o cérebro físico. Essa fração de segundo é suficiente para o ego construir uma espécie de drama, ou série de cenas que culminam no acontecimento que acorda o corpo físico. O cérebro confunde o sonho subjetivo e o acontecimento objetivo e, assim, imagina-se como tendo realmente vivido através dos fatos do sonho.

Esse hábito, contudo, parece ser peculiar ao ego que, no que se refere à espiritualidade, ainda é relativamente pouco desenvolvido. À proporção que o ego se desenvolve espiritualmente, eleva-se acima dessas graciosas brincadeiras da infância. O homem que obteve continuidade de consciência está de tal modo integralmente ocupado no trabalho de planos superiores que não devota energia a essa dramatização e, por isso, tal classe de sonho cessa para ele.

O ego possui também, e até certo ponto, a faculdade de previsão, sendo capaz às vezes de ver com antecipação acontecimentos que se vão dar, ou antes, que se dariam a não ser que algo fosse feito para evitá- los. E imprime essa previsão em seu cérebro físico. Registram-se muitos exemplos desses sonhos proféticos ou alertadores. Em alguns casos o aviso pode ser aceito, os passos necessários são dados e o resultado previsto é modificado ou inteiramente evitado.

O ego, quando fora do corpo durante o sono, parece pensar em símbolos: uma idéia, que aqui precisaria de muitas palavras para ser expressa, lhe é perfeitamente transmitida através de uma só imagem simbólica. Se tal pensamento simbólico é impresso no cérebro, e recordado quando desperta a consciência, a mente pode traduzi-la em palavras; por

outro lado, aquilo pode passar apenas como um símbolo, introduzido, e assim causar confusão. Em sonhos dessa natureza, ao que parece, cada pessoa tem um sistema simbológico próprio: assim, água significa aproximação de transtornos, pérolas podem significar lágrimas, e assim por diante.

Se um homem quiser ter sonhos úteis, isto é, colher, em sua consciência acordada, os benefícios daquilo que o ego possa ter aprendido durante o sono, há certos passos que devem ser dados para obter tal “resultado”.

Primeiro: é essencial que ele forme o hábito do pensamento mantido e concentrado durante a vida comum, quando desperto. Um homem que tem o controle absoluto de seus pensamentos saberá, sempre, exatamente em que está pensando e por quê. Descobrirá também que o cérebro, assim treinado para ouvir as sugestões do ego, permanecerá quieto quando não está sendo usado, e recusará receber e responder ao fluxo casual vindo do oceano de pensamentos circundante. Tal homem, assim, provavelmente receberá influências de planos superiores, onde a intuição é mais aguda, o julgamento mais verdadeiro do que jamais podem ser no plano físico.

Será bastante desnecessário acrescentar que o homem deverá também ter o domínio completo de, pelo menos, suas mais baixas paixões.

Por um ato muito elementar de magia, um homem pode expulsar de seu cérebro etérico a corrente de pensamentos que o pressionam, vindos de fora. Para tal fim ele deve, quando se deita para dormir, imaginar sua aura e desejar fortemente que sua superfície externa se torne uma concha que o proteja de influências exteriores. A matéria áurica obedecerá ao seu pensamento e formará a concha. Essa providência é de apreciável valor para o fim desejado.

A grande importância de fixar o último pensamento em coisas nobres e elevadas, antes de adormecer, já foi mencionada e deve ser regularmente praticada por aqueles que queiram manter seus sonhos sob controle.

Talvez seja útil acrescentar aqui os termos hindus para os quatro estados de consciência:

Jagrai é a consciência desperta comum.

Svapna é a consciência do sonho funcionando no corpo astral e capaz de imprimir suas experiências no cérebro.

Sushupti é a consciência funcionando no corpo mental e incapaz de imprimir suas experiências no cérebro.

Turiya é um estado de transe, a consciência funcionando no veículo búdico e tão separada do cérebro que não pode ser facilmente chamada por meios externos.

Esses termos, contudo, são usados relativamente e variam de acordo com o contexto. Assim, em uma interpretação de jagrat, estão combinados os planos físico e astral, as sete subdivisões correspondentes às quatro condições da matéria física e as três amplas divisões da matéria astral mencionadas nas páginas 129/30.

Para elucidação adicional, o estudante é remetido ao livro Uma Introdução à Ioga, de A. Besant, e também a Um Estudo da Consciência, em que a consciência desperta é definida como a parte da consciência total que está trabalhando através do veículo mais externo.


CAPÍTULO XI


Continuidade de Consciência

Como vimos, para um homem passar, na consciência contínua, de um veículo para outro, isto é, do físico para o astral ou vice-versa, o requisito está em que os elos entre os corpos sejam desenvolvidos. A maioria dos homens não está consciente desses elos, e estes não se mostram ativamente vivificados, assemelhando-se sua condição à dos órgãos rudimentares do corpo físico. Tais elos têm de ser desenvolvidos pelo uso e levados a funcionar com o homem fixando neles sua atenção e usando sua vontade. A vontade liberta e guia Kundalini, mas, a não ser que uma purificação preliminar dos veículos seja integralmente realizada, Kundalini é antes uma energia destrutiva do que vivificante. Daí a insistência, por parte de todos os instrutores do oculto, sobre a necessidade da purificação antes que se possa praticar a verdadeira ioga.

Quando um homem se preparou para ser ajudado na vivificação dos elos, tal assistência inevitavelmente lhe virá como coisa normal, da parte daqueles que estão sempre procurando oportunidades de ajudar o aspirante sincero e destituído de egoísmo. Então, um dia, o homem se vara deslizando para fora de seu corpo físico enquanto acordado e, sem qualquer solução de continuidade de sua consciência, descobre que está livre. Com a prática, a passagem de um veículo para outro torna-se familiar e fácil. O desenvolvimento dos elos estabelece uma ponte entre a consciência física e a astral, de forma que há perfeita continuidade de consciência.

Assim, o estudante não só tem que aprender a ver corretamente no plano astral, mas também a transportar exatamente a lembrança do que foi visto no astral ao cérebro físico; e, para ajudá-lo nisso, ele é treinado a levar sua consciência ininterrupta do plano físico para o astral e o mental, e deles retornar, porque até que isso possa ser feito há sempre a possibilidade de que suas recordações sejam parcialmente perdidas ou

92deformadas, durante os intervalos em branco que separam seus períodos de consciência nos vários planos. Quando o poder de transportar a consciência for perfeitamente adquirido, o discípulo terá a vantagem de usar todas as faculdades astrais, não só enquanto está fora de seu corpo, no sono ou em transe, mas também quando está inteiramente desperto na vida física habitual.

A fim de que o acordar da consciência física inclua a consciência astral, é necessário que o corpo pituitário evolua mais, e que se aperfeiçoe a quarta espirília dos átomos.

Além do método de mover a consciência de um subplano para outro do mesmo plano, isto é, o atômico astral para o subplano mental mais baixo, há outra linha de conexão que pode ser chamada de o atalho atômico.
Se imaginarmos os subplanos atômicos do astral, mental etc., como estando lado a lado ao longo de uma vara, os outros subplanos podem ser imaginados como suspensos da vara, em laços, como se um pedaço de barbante tivesse sido frouxamente amarrado em torno dela. Obviamente, então, para passar de um subplano atômico para outro, a pessoa poderia mover-se por um atalho ao longo da vara, "ou para cima e para baixo,

novamente, através dos laços suspensos que simbolizam os subplanos mais baixos.

Os processos normais do nosso pensamento descem com firmeza através dos subplanos; mas os clarões do gênio, as idéias iluminadoras, vêm apenas através dos subplanos atômicos.

Há, ainda, uma terceira possibilidade vinculada ao relacionamento dos nossos planos com os planos cósmicos, mas isso é demasiado abstruso para ser abordado num trabalho que se propõe considerar apenas o plano astral e seus fenômenos.

O fato de se obter continuidade de consciência entre os planos físico e astral é naturalmente bastante insuficiente, em si próprio, para reavivar lembranças de vidas passadas. Para tanto se requer um desenvolvimento muito mais elevado, em cuja natureza não é necessário entrar aqui.

O homem que assim adquiriu completo domínio do corpo astral pode naturalmente deixar o corpo físico não só durante o sono, mas a qualquer momento que o deseje, e ir a lugares distantes etc.

Médiuns e sensitivos projetam seus corpos astrais inconscientemente, quando entram em transe, mas habitualmente, ao saírem do transe, não apresentam memória cerebral das experiências adquiridas. Estudantes treinados podem projetar conscientemente seu corpo astral e viajar até grandes distâncias do corpo físico, trazendo de volta com eles completa e pormenorizada lembrança de todas as impressões ganhas.

Um corpo astral assim projetado pode ser visto por pessoas sensitivas ou que estejam temporariamente em condições nervosas anormais. Há um registro de tais casos de visitação astral feita por um moribundo em momento próximo de sua morte, tendo a proximidade da dissolução afrouxado os princípios, de forma a tornar o fenômeno possível para pessoas que seriam incapazes dele em qualquer outra ocasião. O corpo astral também é libertado em muitos casos de doença. A inatividade do corpo físico é uma condição para essas viagens astrais.

Um homem pode, se souber como se haver, densificar ligeiramente seu corpo astral, atraindo para ele da atmosfera circundante partículas de matéria física e assim "materializar-se suficientemente para se tornar fisicamente visível. Essa é a explicação para muitos casos de "aparições", quando uma pessoa, fisicamente ausente, foi vista por amigos através de sua visão comum.


CAPÍTULO XII


A Morte e o Elemental do Desejo


Por ocasião da morte, a consciência retira-se do corpo físico denso para o duplo etérico por um curto tempo, quase sempre por poucas horas, e depois passa para o corpo astral.

A morte consiste, assim, num processo de desnudamento ou de descarte de envoltórios. O ego, a parte imortal do homem, atira para fora de si, um após o outro, seus revestimentos externos, primeiro o físico denso, a seguir o duplo etérico e, então, mesmo o corpo astral, como veremos mais adiante.

Em quase todos os casos, a passagem parece ser perfeitamente indolor, mesmo depois de longa doença envolvendo sofrimentos terríveis. O aspecto pacífico do rosto dos mortos é forte evidência em favor dessa afirmação, que também se confirma pelo testemunho direto de maioria daqueles que foram interrogados quanto a esse ponto, imediatamente depois da morte.

No real momento da morte, mesmo quando se trata de morte súbita, o homem vê toda sua vida passada desfilando diante de si, em seus mínimos detalhes. Em um momento ele vê toda a cadeia de causas que estiveram agindo durante a sua vida. Vê, e agora ele se compreende tal como realmente é, despido de lisonjas ou de auto-ilusão. Lê sua vida, permanece como espectador, observando a arena que está abandonando.

A condição da consciência imediatamente depois do momento da morte é, quase sempre, sonolenta e cheia de paz. Haverá, também, um período de inconsciência que pode durar apenas um momento, embora com freqüência se mantenha por alguns minutos, ou várias horas, e às vezes mesmo dias ou semanas.

A atração natural entre a contraparte astral e o corpo físico é tal que, depois da morte, a contraparte astral, pela força do hábito, retém sua forma habitual; conseqüentemente, a aparência física de um homem será preservada quase sem modificações, após a morte. Dado o fato de que a matéria astral é rapidamente modelada pelo pensamento, um homem que habitualmente pensa em si próprio, depois da morte, como mais jovem do que o era na hora, provavelmente assumirá uma aparência algo mais jovem.


Muito depressa, após a morte, na maioria dos casos, uma importante    
modificação tem lugar na estrutura do corpo astral, devido à ação do    
elemental de desejo.

Muito da matéria do corpo astral

é composta de essência

elemental,  
conforme foi dito antes: essa essência é viva, embora não inteligente, e, na ocasião, está separada da massa geral da essência astral. Cega e instintivamente, e sem razão, ela busca seus próprios fins e mostra grande engenhosidade na obtenção de seus desejos e em favorecer sua evolução.

Em seu caso, evolução é descida na matéria, e sua meta é tornar-se uma mônada mineral. Seu objetivo na vida, portanto, é aproximar-se do plano físico tanto quanto lhe for possível e receber todas as vibrações mais grosseiras que puder obter. Não sabe, nem pode saber, coisa alguma sobre o homem em cujo corpo astral está vivendo naquela ocasião.

Deseja preservar sua vida separada, e sente que só pode fazê-lo em conexão com o homem; está consciente da mente inferior do homem e compreende que, quanto mais matéria mental puder apanhar para si, mais longa será sua vida astral.

Quando da morte do corpo físico, sabendo que o período de sua vida separada é limitado e que a morte astral do homem se seguirá, em menor ou maior prazo, a fim de fazer com que o corpo astral do homem dure por mais tempo possível, ela arranja sua matéria em anéis concêntricos, ou conchas, as mais grosseiras formando uma crosta. Do ponto de vista do elemental do desejo, essa é uma boa política, porque a matéria mais grosseira pode manter-se unida por mais tempo e suportar melhor a fricção.

O corpo astral então em novo arranjo é chamado Yâtanâ, ou corpo sofredor; no caso de um homem muito mau, em cujo corpo astral exista preponderância da matéria mais grosseira, é chamado Dhruvam, ou corpo forte.

O novo arranjo do corpo astral tem lugar acima da superfície da contraparte do corpo físico, não acima da superfície do ovóide que o rodeia.

O efeito é evitar a livre e plena circulação de matéria astral que habitualmente tem lugar no corpo astral. Ademais, o homem só pode responder às vibrações recebidas pela camada mais externa do seu corpo astral. Assim, fica o homem encerrado, por assim dizer, numa caixa de matéria astral, podendo ver e ouvir apenas as coisas do plano mais baixo e mais grosseiro.

Embora vivendo em meio a altas influências e belas formas-pensamentos, ele estaria quase que de todo inconsciente da existência de tais coisas, porque as partículas de seu corpo astral que poderiam responder a essas vibrações estão fechadas em lugar onde não podem ser alcançadas.

Conseqüentemente, também, podendo perceber apenas a matéria grosseira nos corpos de outras pessoas e sendo inteiramente inconsciente de suas limitações, acreditará que a pessoa para a qual está olhando possui apenas as pouco satisfatórias características que ele consegue perceber.

Já que só pode ver e sentir o que é mais baixo e mais grosseiro, os homens que o rodeiam parecem-lhe monstros cheios de vícios. Sob essas circunstâncias, é pouco de se admirar que ele considere um inferno o mundo astral.

O novo arranjo do corpo astral pelo elemental do desejo de modo algum afeta a forma reconhecível dentro do ovóide, embora as modificações naturais que ocorrem se inclinem no conjunto a tornar a forma algo mais apagada e de aparência mais espiritual conforme o tempo corre, por motivos que agora ficarão esclarecidos.

No correr do tempo, a concha mais externa do anel se desintegra: o homem se torna então capaz de responder às vibrações do próximo nível mais alto do plano astral e assim "subir para o próximo subplano" e, daí por diante, passar de um subplano para outro. Seu estágio em cada subplano corresponderá naturalmente à quantidade de atividade da matéria em seu corpo astral pertencente àquele subplano.

Quando falamos de um homem "subindo" de um subplano para outro, não queremos dizer que ele precise necessariamente mover-se no espaço: trata- se, antes, da transferência de sua consciência de um nível para outro. No caso de um homem com um corpo astral arranjado de novo, o foco de sua consciência se desloca da concha mais externa de matéria para a que lhe vem após. O homem se torna assim, gradualmente, incapaz de responder a vibrações de uma ordem de matéria e passa a responder às de ordem superior. Assim, um mundo com seus cenários e seus habitantes parecerá ir-se apagando lentamente diante de seus olhos, enquanto a aurora de um novo mundo surge sobre ele.

Já que a concha habitualmente se desintegra lentamente, o homem vê a contraparte dos objetos físicos tornando-se cada vez mais apagada, enquanto as formas-pensamentos se lhe tornam cada vez mais nítidas. Se durante este processo ele se encontra de vez em quando com outro homem, imaginará que o caráter desse homem está melhorando constantemente, "apenas porque ele próprio está se tornando capaz de apreciar as vibrações mais elevadas daquele caráter. O novo arranjo do corpo astral interfere constantemente, de fato, com a verdadeira e completa visão de seus amigos, em todos os estágios de sua vida astral.

Este processo de arranjos novos do corpo astral, que tem lugar na maioria das pessoas, pode ser evitado pelo homem que puser sua vontade contra isso. Na verdade, quem quer que compreenda as condições do plano astral deveria negar-se inteiramente a permitir a redistribuição do corpo astral pelo elemental do desejo. As partículas do corpo astral se manteriam, então, interligadas como na vida e, em consequência, em lugar de ficar confinado a um subplano de cada vez, o homem estaria livre em todos os subplanos, de acordo com a constituição do seu corpo astral.

O elemental, sendo medroso em sua curiosa maneira semiconsciente, tentará transferir seu medo para o homem que o está expulsando da redistribuição, a fim de evitar que ele consiga isso. Por isso é que se torna muito útil conhecer esses fatos antes da morte.

Se o arranjo novo, a redistribuição ou enconchamento já ocorreu, ainda é possível romper tal condição, se houver alguém que deseje ajudar esse homem, que então ficará livre para trabalhar em todo o plano astral, ao invés de ficar confinado a um só nível.


CAPÍTULO XIII


A Vida depois da Morte: Princípios


Nunca se insistirá demais no fato de que não ocorre nenhuma mudança no homem, ao morrer; ao contrário, ele permanece depois da morte exatamente o que era antes, a não ser que já não possua corpo físico. Tem o mesmo intelecto, a mesma disposição, as mesmas virtudes e os mesmos vícios; a perda do corpo físico não faz dele um homem diferente do que o faria a remoção de um sobretudo. Ademais, as condições em que ele se encontra são aquelas que seus próprios pensamentos e desejos criaram para ele. Não há recompensa nem castigo vindos do exterior, mas somente o resultado real do que ele próprio fez e disse e pensou enquanto viveu no mundo físico.

À proporção que seguirmos com a nossa descrição da vida astral depois da morte, será observado que os fatos verdadeiros correspondem, com exatidão considerável, à concepção católica do purgatório, e do Hades ou inferno dos gregos.

A idéia poética da morte como um nivelador universal é um simples absurdo nascido da ignorância, porque na realidade na vasta maioria dos casos a perda do corpo físico não faz qualquer diferença no caráter ou intelecto da pessoa e há portanto tantas variedades de inteligência entre os chamados mortos como entre os vivos.

Esse é o primeiro e mais notável fato a observar: depois da morte não há uma estranha vida nova, mas uma continuação, sob certas condições modificadas, da vida presente no plano físico.

Tanto é esse o caso que um homem, ao chegar ao plano astral após a morte física, de forma alguma sabe que está morto; e mesmo quando compreende o que lhe aconteceu, nem sempre, de início, compreende em que o mundo astral difere do físico.

Há casos em que as pessoas consideram o próprio fato de ainda estarem conscientes, como prova absoluta de que não morreram; isto dá, a despeito da muita exaltada crença na imortalidade da alma.

Se um homem jamais tinha ouvido algo sobre o plano astral em sua vida, provavelmente irá sentir-se mais ou menos perturbado pelas condições totalmente inesperadas em que se encontra. Finalmente, aceita essas condições, que não compreende, pensando que são necessárias e inevitáveis.

Observando os novos mundos, ao primeiro olhar ele provavelmente vê muito pouca diferença e supõe estar contemplando o mesmo mundo de antes. Conforme vimos, cada grau de matéria astral é atraído pelo grau correspondente de matéria física. Se, portanto, imaginássemos que o mundo físico deixou de existir sem que qualquer outra modificação fosse feita, ainda teríamos uma perfeita réplica daquele mundo na matéria astral. Conseqüentemente, um homem no plano astral ainda vê paredes, mobiliário, pessoas etc., com os quais estava habituado, delineados tão claramente como sempre pelos tipos mais densos de matéria astral. Se, contudo, examinar bem de perto esses objetos, perceberá que todas as partículas

são visíveis, em rápido movimento e não apenas invisíveis como no plano físico. Mas, como poucos são os homens que observam de perto, um homem que morre muitas vezes não sabe, de início, que houve nele alguma modificação. Assim, muitos deles, especialmente os dos países ocidentais, acham difícil acreditar que estão mortos, simplesmente porque ainda vêem, ouvem, sentem e pensam. A compreensão do que aconteceu provavelmente se irá esclarecendo aos poucos, conforme o homem descobre que, embora possa ver seus amigos, nem sempre pode comunicar-se com eles. Às vezes dirige- lhes a palavra, mas eles não parecem ouvir; tenta tocá-los e percebe que não fez impressão neles. Mesmo então, durante algum tempo, pode persuadir-se de que está sonhando, porque em outras ocasiões, quando seus amigos estão adormecidos, mostram-se perfeitamente conscientes dele e com ele falam como outrora.

Aos poucos o homem começa a compreender as diferenças entre sua vida presente e a que viveu no mundo físico. Por exemplo, depressa compreende que para ele já não existem dor nem cansaço. Descobre também que no plano astral os desejos e os pensamentos expressam-se em formas visíveis, embora essas formas sejam compostas, em sua maior parte, da matéria mais fina daquele plano. E, conforme sua vida continua, tais condições se fazem cada vez mais pronunciadas.

Ademais, embora um homem que está no plano astral não possa, habitualmente, ver o corpo físico de seus amigos, ainda assim pode ver e vê seus corpos astrais e, Conseqüentemente, sabe quais são seus senti- mentos e emoções. Não será capaz, necessariamente, de seguir em pormenores os acontecimentos de sua vida física; mas terá imediata percepção quanto a sentimentos tais como amor ou ódio, ciúme ou inveja, porque eles se expressarão através dos corpos astrais de seus amigos. Assim, embora os vivos muitas vezes pensem ter "perdido" o morto, os mortos nem por um só momento estão sob a impressão de que perderam os vivos.

Um homem, de fato, vivendo em seu corpo astral após a morte, é mais fácil e profundamente influenciado pelos sentimentos de seus amigos que estão no mundo físico do que quando estava na terra, porque não tem o corpo físico para abafar suas percepções.

Um homem no plano astral não vê habitualmente toda a contraparte astral de um objeto, mas a porção que pertence ao subplano particular no qual ele se acha em tal momento.

Ademais, um homem de forma alguma reconhece sempre a contraparte astral de um corpo físico, mesmo quando o vê. Habitualmente, precisa de considerável experiência antes de poder identificar com clareza objetos, e qualquer tentativa que faça para tratar com eles tende a ser vaga e imprecisa. Exemplos disso são muitas vezes vistos em casas "assombradas", onde pedras são atiradas, ou movimentos vagos, incômodos, de matéria física têm lugar.

Freqüentemente, sem compreender que não tem necessidade de trabalhar para viver, comer, dormir etc., um homem, após a morte, continua a preparar e consumir refeições, criadas inteiramente pela sua imaginação, ou chega mesmo a construir uma casa na qual possa viver. Registrou-se um caso em que um homem construiu para si próprio uma casa, pedra por pedra, cada pedra sendo criada, separadamente, pelo seu próprio pensamento. Ele poderia naturalmente, com o mesmo esforço, ter criado toda a casa de uma

vez. Eventualmente foi levado a ver que, já que as pedras não tinham peso, as condições eram diferentes das que prevaleciam na vida física, e assim foi induzido a investigar um pouco mais.

Da mesma forma, um homem, novo nas condições da vida astral, continua a entrar e sair de um aposento por uma porta ou uma janela, não compreendendo que pode passar com a mesma facilidade através das paredes. Pela mesma razão, ele caminha sobre a terra, quando poderia muito bem flutuar através do ar.

O homem que durante sua vida terrena tomou conhecimento, pela leitura ou outra forma qualquer, das condições gerais da vida astral. encontra-se, depois da morte, naturalmente em terreno mais ou menos familiar e conseqüentemente não se sente perdido sem saber o que fazer de si mesmo.

Mesmo uma apreciação inteligente do ensinamento oculto sobre o assunto, como a experiência tem indicado, é de grande vantagem para um homem após a morte e chega a ser vantagem para o homem que apenas tenha ouvido falar nas condições da vida astral, mesmo quando tenha considerado tais ensinamentos como uma das muitas hipóteses e não tenha avançado no estudo deles. No caso de outros que não tiveram a fortuna do conhecimento do mundo astral, seu plano melhor é avaliar a sua situação, empenhar-se em ver a natureza da vida que tem diante de si e tratar de fazer dela o melhor uso possível. Além disso fariam bem se consultassem um amigo mais experiente.

As condições de vida a que nos referimos acima constituem o "Kamaloka", literalmente o lugar ou o mundo de Kama, ou desejo: o Limbo da teoria escolástica. Em termos gerais, Kamaloka ê uma região povoada por entidades inteligentes e semi-inteligentes. Está repleta de formas de coisas vivas, tão diferentes umas das outras como um fio de capim difere de um tigre e um tigre difere de um homem, existindo naturalmente muitas outras entidades que ali vivem, além dos seres humanos mortos (ver capítulos XIX e XXI). Essa região interpenetra o mundo físico e é interpenetrada por ele, mas os estados da matéria dos dois mundos, sendo diferentes, eles coexistem sem que as entidades de cada qual sejam conscientes umas das outras. Somente sob circunstâncias anormais a consciência da mútua presença pode surgir entre os habitantes daqueles dois mundos.
Kamaloka divide-se, assim, como localidade distinta, mas é separada do resto do plano astral pelas condições de consciência das entidades que lhe pertencem, sendo essas entidades seres humanos que descartaram seus corpos denso e etérico, mas ainda não se desvencilharam de Kama, isto é, da natureza passional e emocional. Esse estado também é chamado Pretaloka, sendo uma preta um ser humano que perdeu seu corpo físico, mas ainda está oprimido pela vestidura de sua natureza animal.

A condição Kamaloka é encontrada em cada subdivisão do plano astral.

Muitos dos que morrem começam por ficar num estado de considerável inquietação e há outros que sentem um verdadeiro terror. Quando encontram as formas-pensamentos que eles e os seus iguais têm estado a criar durante séculos — pensamentos sobre um demônio pessoal, uma entidade colérica e cruel, e castigo eterno — ficam, com freqüência, reduzidos a um lamentável estado de medo e podem passar longos períodos de agudo sofrimento mental antes que se possam libertar da influência fatal de tão tolas e supremamente falsas concepções.


Deve-se, contudo, com franqueza, dizer que é apenas entre as chamadas comunidades protestantes que esse terrível mal assume sua mais grave forma. A grande Igreja Católica Romana, com a sua doutrina do purgatório, aproxima-se muito mais da verdadeira concepção do plano astral e os seus membros; em todo o caso, compreendem que o estado em que se encontram logo depois da morte é apenas temporário e que a eles compete sair desse estado o mais depressa possível, através de intensa aspiração espiritual. Ao mesmo tempo, aceitam o sofrimento com que possam deparar como necessário para apagar as imperfeições de seu caráter, antes de poderem passar para mais altas e brilhantes esferas.

Vemos assim que, embora o homem possa ter sido ensinado, pela sua religião, sobre o que deve esperar e como viver no plano astral, na maioria dos casos tal coisa não foi feita. Conseqüentemente, uma grande quantidade de explicações se faz necessária em relação ao novo mundo em que se encontram. Mas, depois da morte, exatamente como antes dela, há alguns que atingem uma apreciação inteligente do fato da evolução e que, compreendendo algo sobre a sua posição, sabem como tirar proveito dela. Hoje, muitas são as pessoas, "vivas" e "mortas", que estão empenhadas em cuidar e ajudar os que morreram ignorantes da verdadeira natureza da vida após a morte (ver capítulo XXVIII, sobre Auxiliares Invisíveis). Infelizmente, contudo, no plano astral como no plano físico, os ignorantes raramente estão dispostos a aproveitar o conselho e o exemplo dos que sabem.

Para o homem que antes de morrer fisicamente já se relacionou com as verdadeiras condições da vida no plano astral, uma das mais agradáveis características daquela vida é a sua tranqüilidade e completa libertação das necessidades imperiosas, tais como comer e beber, que tornam pesada a vida física. No plano astral o homem é realmente livre, livre para fazer o que quiser e passar seu tempo como escolher.

Como já dissemos, um homem que morreu fisicamente está continuamente recolhendo-se em si próprio. Todo o ciclo de vida e morte pode ser comparado a uma elipse, da qual apenas a porção mais baixa passa para o mundo físico. Durante a primeira parte desse ciclo, o ego se está adiantando para a matéria; o ponto central da curva deve ser o ponto médio na vida física, quando a força do ego alcançou o máximo de sua expansão e se volta para começar o longo processo de recolhimento.

Assim cada encarnação física pode ser vista como uma projeção do ego cujo habitat é a parte mais alta do plano mental, dirigida para planos inferiores. O ego põe fora a alma, como se ela fosse um investimento e espera que esse investimento traga de volta um acréscimo de experiência, que deverá desenvolver nele novas qualidades.

O trecho da vida após a morte, passada no plano astral, é portanto o do período de recolhimento para a volta ao ego. Durante a última parte da vida física do homem, seus pensamentos e interesses são cada vez menos dirigidos para os assuntos meramente físicos: da mesma forma, durante a vida astral, ele dá menos atenção à matéria astral inferior, da qual são compostas as contrapartes dos objetos físicos e ocupa-se com matéria superior, da qual são feitas as formas-pensamentos e as formas-desejos. Não se trata de ter ele mudado sua localização no espaço (embora isso seja, parcialmente, uma verdade, conforme se vê no capítulo XIV), mas de ter mudado o centro de seus interesses. Por isso, a contraparte do mundo

físico que ele deixou vai aos poucos se apagando de sua visão, e sua vida se torna, cada vez mais, uma vida no mundo do pensamento. Seus desejos e emoções ainda persistem e, conseqüentemente, devido à facilidade com que a matéria astral obedece aos seus desejos e pensamentos, as formas que o rodeiam serão, e muito amplamente, a expressão de seus próprios sentimentos, cuja natureza determina principalmente a felicidade ou o desconforto de sua vida.

Embora não estejamos tratando, neste livro, do trecho da vida após a morte, que é passado no "mundo celestial", isto é, no plano mental, ainda assim, a fim de que se compreenda inteiramente o que está acontecendo ao corpo astral no plano astral, é aconselhável lembrar que a vida astral é, em grande extensão, um estágio intermediário no ciclo completo da vida e da morte, uma preparação para a vida no plano mental.

Conforme vimos, logo depois da morte física o corpo astral se liberta: se o dissermos do ponto de vista da consciência, diremos que Kama-Manas foi libertada. Dela, aquela porção de manas-inferior, que não está intimamente entretecida com Kama, aos poucos se liberta, levando consigo as experiências apropriadas a serem assimiladas pelo corpo mental superior.

Entrementes, aquela porção de manas inferior que ainda permanece entretecida com Kama dá ao corpo astral uma consciência mais ou menos confusa, memória fragmentada dos acontecimentos da vida que acaba de se encerrar. Se as emoções e paixões foram fortes e o elemento mental fraco, então o corpo astral será fortemente energizado e persistirá por muito tempo no plano astral. Mostrará, também, bastante consciência, por causa da matéria mental que está entretecida nele. Se, por outro lado, a vida terrena que acaba de findar foi antes caracterizada pela mentalidade e pureza do que pela paixão, o corpo astral ficará pouco energizado, não passará de um pálido simulacro do homem e se desintegrará, perecendo com relativa rapidez.


CAPÍTULO XIV


A Vida depois da Morte: Peculiaridades


Se considerarmos as condições da vida astral de um homem, haverá dois fatores importantes a serem levados em conta:

(l) a extensão do tempo que ele passa em qualquer subplano particular;

(2) o grau de sua conscientização.

A extensão do tempo depende da quantidade de matéria pertencente àquele determinado subplano, a qual ele incorporou ao seu corpo astral durante a vida física. Terá que ficar, necessariamente, no referido subplano, até que a matéria a ele correspondente se tenha desprendido de seu corpo astral.

Durante a vida física, conforme vimos anteriormente, a qualidade do corpo astral que o homem constrói para si próprio é determinada diretamente pelas suas paixões, desejos e emoções e, indiretamente, pelos seus pensamentos, bem como pelos seus hábitos físicos — alimento, bebida, higiene, continência etc. Um corpo astral vulgar e grosseiro, resultando de uma vida vulgar e grosseira, levará o homem a responder apenas às vibrações astrais inferiores, de forma que depois da morte ele se encontrará sujeito ao plano astral durante o longo e lento processo de desintegração do corpo astral.

Por outro lado, um corpo astral aprimorado, criado por uma vida pura e aprimorada, levará o homem a ser insensível às vibrações grosseiras e baixas do mundo astral e responsivo apenas às suas influências superiores: conseqüentemente, ele terá muito menor transtorno em sua vida após a morte e sua evolução se processará rápida e facilmente.

O grau de conscientização depende do grau até o qual ele vivificou e usou a matéria do subplano particular em sua vida física.

Se durante a vida terrena a natureza animal foi afagada e teve permissão para fazer excessos, se o aspecto intelectual e o espiritual

106foram negligenciados ou sufocados, então o corpo astral, ou de desejo, persistirá por um longo tempo após a morte física.

Por outro lado, se o desejo foi dominado e cerceado durante a vida terrena, se foi purificado e treinado para obedecer à natureza superior, pouco haverá então para energizar o corpo astral e ele rapidamente se dissolverá, desintegrando-se.

O homem médio, contudo, de forma alguma libertou-se de todos os seus desejos inferiores antes da morte e, conseqüentemente, é necessário que tenha um longo período nos vários subplanos do plano astral para que as forças por ele geradas se exaurem e libertem assim o ego superior.

O princípio geral é que, quando o corpo astral exauriu suas atrações em um nível, a parte maior de suas partículas mais grosseiras tomba e ele se

encontra em afinidade com um estado de certa forma superior de existência. Sua gravidade específica, por assim dizer, está constantemente diminuindo e, assim, vai continuamente subindo da camada densa para as mais leves, detendo-se apenas quando fica exatamente equilibrada, a cada tempo.

Estar em dado subplano no mundo astral é ter desenvolvido sensibilidade das partículas do corpo astral que pertencem àquele subplano. Ter perfeita visão do plano astral significa ter desenvolvido sensibilidade em todas as partículas do corpo astral, de forma que todos os subplanos ficam simultaneamente visíveis.

Um homem que levou uma vida boa e pura, cujos sentimentos e aspirações foram espirituais e destituídos de egoísmo, não se sentirá atraído pelo plano astral e, se for deixado inteiramente a sós, pouco encontrará que o mantenha ali ou que desperte nele uma atividade, mesmo pelo período relativamente curto de seu estágio. Suas paixões terrenas tendo sido dominadas durante a vida física e sua força de vontade tendo sido dirigida para canais superiores, há pouca energia de desejo inferior para ser descartada no plano astral. Assim, seu estágio ali será muito curto e é mais provável que tenha pouco mais do que uma sonolenta semiconsciência até que mergulhe no sono durante o qual seus princípios mais altos finalmente se libertem do corpo astral e ingressem na vida de beatitude do mundo celestial.

Se nos expressarmos mais tecnicamente, diremos que durante a vida física Manas purificou Kama com o qual estava entretecida, de forma que depois da morte tudo quanto restou de Kama foi um simples resíduo, facilmente descartável pelo ego que se está retirando. Um homem assim teria pouca consciência no plano astral.

É bastante possível que um homem possa, como resultado de suas encarnações anteriores, ter grande quantidade de matéria astral grosseira em seu corpo astral. Mesmo que tenha sido educado, e tenha conduzido sua vida de forma a não vivificar aquela matéria grosseira, e embora muita dessa matéria possa ter sido descartada e substituída por matéria mais refinada, ainda assim bastante dela ficou. Conseqüentemente, o homem terá de permanecer em um plano astral inferior durante algum tempo, até que realmente a matéria grosseira seja descartada. Porém, já que tal matéria não foi vivificada, ele terá pouca consciência e dormirá praticamente durante o período em que ali permanecer.

Há um ponto conhecido como ponto crítico entre cada par de subestados de matéria: o gelo pode ser levado a um ponto em que o menor acréscimo de calor o tornará liqüefeito; a água pode ser levada a um ponto em que o menor acréscimo de calor pode transformá-la em vapor. E assim, cada subestado de matéria astral pode ser levado a um ponto de finura no qual qualquer refinamento adicional o transformaria no subestado próximo mais alto. Se um homem fez isso para cada subestado da matéria de seu corpo astral, de forma que ele foi purificado até o último grau possível de delicadeza, então o primeiro toque da força desintegradora despedaça sua coesão e leva-a à condição original, deixando-o imediatamente livre para passar ao subplano seguinte. Sua passagem através do plano astral será, assim, de uma rapidez inconcebível, e ele atravessará o plano de uma forma virtualmente instantânea, seguindo para o estado mais alto do mundo celestial.

Todas as pessoas, depois da morte, têm de passar por todos os subplanos do plano astral, em seu caminho para o mundo celestial. Mas o serem ou não conscientes de todos eles, e em que extensão o seriam, dependerá dos fatores citados.

Por essas razões, é claro que a soma de consciência que um homem possa ter no plano astral, e o tempo que ali irá passar em seu caminho para o mundo celestial, pode variar dentro de limites muito amplos. Há alguns que passam ali apenas algumas horas ou dias, outros permanecem por muitos anos, até mesmo durante séculos.

Para uma pessoa comum, 20 ou 30 anos no plano astral, depois da morte, é uma razoável média. Caso excepcional é o da Rainha Elizabeth, que tinha um amor tão intenso pelo seu país que só recentemente passou para o mundo celestial, tendo usado o tempo, desde a sua morte, empenhando-se, e até pouco tempo sem sucesso, em incutir em seus sucessores as idéias que tinha do que devia ser feito pela Inglaterra.

Outro exemplo notável foi o da Rainha Victoria, que passou muito rapidamente pelo plano astral, seguindo para o mundo celestial, sua rápida passagem sendo devida indubitavelmente pelos milhões de amorosas e gratas formas-pensamentos que lhe foram enviadas, bem como à sua bondade inata.

A questão geral do intervalo entre vidas terrenas é complicada. Aqui só poderemos tocar brevemente na porção astral desses intervalos. Para maiores detalhes, o estudante é remetido ao livro A Vida Interior, de C.
W. Leadbeater.

Três fatores principais têm de ser levados em conta:

A classe do ego.

A forma da sua individualização.

A extensão e a natureza de sua última vida terrena.


Geralmente falando, um homem que morre jovem terá um intervalo menor do que um que morra em idade avançada, mas é provável que tenha uma vida astral proporcionalmente mais longa, porque muitas das fortes emoções que se exaurem na vida astral são geradas na parte inicial da vida física.

Devemos recordar que no mundo astral nossos métodos comuns de medir o tempo mal podem ser aplicados; mesmo na vida física a ansiedade e a dor se estendem por horas que parecem infinitas, e no plano astral essas características se exageram ao cêntuplo.

No plano astral um homem só pode medir o tempo pelas suas sensações. A falsa idéia da danação eterna veio da distorção desses fatos.

Vimos, assim, que tanto o tempo de permanência como a soma de consciência mantida em cada nível do plano astral dependem muitíssimo do tipo de vida que o homem teve no mundo físico. Outro fator de grande importância é a atitude mental do homem depois da morte física.

A vida astral pode ser dirigida pela vontade, tal como pode sê-lo a vida física. Um homem com pouca força de vontade e iniciativa é, tanto no mundo astral como no mundo físico, e muito, a criatura do ambiente que criou para si. Um homem determinado, por outro lado, pode sempre fazer o melhor das suas condições e viver sua própria vida, apesar delas.

Um homem, portanto, não se livra de suas más tendências no mundo astral, a não ser que trabalhe positivamente para esse fim. Se não fizer esforços definidos, terá de sofrer necessariamente as conseqüências dessa sua incapacidade de satisfazer os desejos que só podem ser atendidos por intermédio do corpo físico. Com o correr do tempo esses desejos diminuem e morrem, simplesmente por causa da impossibilidade de satisfazê-los.

O processo, contudo, pode ser muitíssimo acelerado, assim que o homem compreenda a necessidade de livrar-se dos maus desejos que o retêm e faça o esforço necessário para isso. Um homem ignorante do verdadeiro estado das coisas, habitualmente fica a remoer seus desejos, encompridando assim a vida desses desejos e, com isso, agarra-se desesperadamente às partículas grosseiras da matéria astral por tanto tempo quanto puder, porque as sensações, relacionadas com ela parecem mais aproximadas daquelas que dá a vida física, e pelas quais ele ainda anseia. O procedimento certo para ele, naturalmente, é matar os desejos terrenos e recolher-se em si mesmo o mais depressa possível.

Mesmo o conhecimento meramente intelectual das condições da vida astral e, afinal, das verdades teosóficas em geral, é de inestimável valor para um homem, em sua vida após a morte.

É da mais alta importância que depois da morte física um homem possa reconhecer claramente que ele se está recolhendo continuamente em direção do ego e, conseqüentemente, que deve libertar seus pensamentos, tanto quanto possível, das coisas físicas, fixando sua atenção nas coisas espirituais com as quais se ocupará, quando, em devido tempo, passar do plano astral para o plano mental ou mundo celestial.

Muitas pessoas, infelizmente, recusam voltar seus pensamentos para o alto e se agarram aos assuntos terrenos com desesperada tenacidade. Com a passagem do tempo, paulatinamente e no curso normal da evolução, elas perdem contato com os mundos inferiores. Contudo, lutando a cada passo do caminho, causam a si próprias muito sofrimento desnecessário e adiam seriamente seu progresso.

Nessa oposição ignorante ao curso natural das coisas, a posse de um cadáver físico dá assistência a um homem, tal cadáver servindo como uma espécie de sustentáculo no plano físico.

Alguns exemplos típicos da vida astral após a morte ilustrarão melhor a natureza e a base lógica daquela vida.

Um homem comum, sem destaque algum, nem especialmente bom nem especialmente mau, de forma alguma é transformado pela morte, mas permanece descolorido como antes. Conseqüentemente, não terá sofrimento especial nem especial alegria: na verdade, pode achar aquela vida bem monótona, porque, não tendo cultivado interesses particulares durante a vida física, nenhum interesse tem em sua vida astral.



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