A estreita relação evolutiva entre Deus e o homem
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SIQUEIRA NETO, Armando Correa de
O mosaico divino / Armando Correa de Siqueira Neto
Mogi Mirim – São Paulo: 2016.
1. Espiritualidade 2. Autoajuda 3.Filosofia
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Quod est inferius est sicut quod est superius et quod est superius est sicut quod est
inferius, ad perpetranda miracula rei unius.
O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o
que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.
Tábua de Esmeralda (Thoth, Hermes Trismegistos)
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Introdução.................................................................................. 07
Capítulo 1
Uma nova perspectiva sobre Deus no lugar de antigos conceitos 11
As típicas propriedades do Criador.......................................... 12
A origem divina da expansão evolutiva................................... 14
Capítulo 2
A união entre o Criador e o homem........................................ 17
A grandiosidade da troca evolutiva......................................... 18
Capítulo 3
Viver é uma mentira bem contada.......................................... 23
Capítulo 4
O problema do desenvolvimento no mosaico divino.................. 28
O desenvolvimento encarcerado............................................. 30
A dependência familiar e do gênero feminino........................... 34
Destino inconsciente e consciência sobre o destino................... 36
Salto evolutivo no desenvolvimento........................................ 39
A prioridade da fome na pirâmide das necessidades.................. 44
A autorregulação do desenvolvimento evolutivo....................... 46
Capítulo 5
Aprender, voltar e crescer ainda mais..................................... 54
Capítulo 6
Ciência e religião unidas na expansão do mosaico divino........... 58
O poder da arte do simbolismo religioso.................................. 58
A pesquisa bíblica da gênese humana..................................... 60
A linguagem original e sua interpretação................................. 61
6
Antiguidade e modernidade do evolucionismo.......................... 64
O porvir projetado desde o longínquo ontem............................ 65
Capítulo 7
Os objetivos da troca evolutiva e da expansão do mosaico
divino.................................................................................
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Referências................................................................................. 71
O autor....................................................................................... 76
7
Introdução
Este livro pretende ousar, indo além do convencional. Mas não sem a
devida meditação aliada à pesquisa, à experiência pessoal e,
fundamentalmente, à intuição. A obra não se preocupa, entretanto,
em provar a existência de Deus, seu objeto maior em estreita relação
com o ser humano. Tal despreocupação não advém do fato de ser
impossível, ao menos até o momento, provar a existência Dele, vez
que o dilema se inverte em igual peso quando se tenta provar a sua
inexistência, mas de reunir informações variadas sobre o provável
mosaico divino em permanente expansão evolutiva. Com efeito, tal
proposição muda radicalmente a maneira de enxergar o Criador e a
vida humana com seus mais refinados e profundos propósitos.
Recomenda-se, pois, cautela ao ler cada linha aqui registrada,
haja vista o Divino, aqui particularmente compreendido, ser bem
diferente da forma com que comumente muitos o percebem desde
tempos bem longínquos. Porquanto se pede apenas mente aberta
para que ao final da obra o leitor empreenda a séria e oportuna
crítica, a favor ou contra, sem qualquer obrigatoriedade de ter de
acreditar nisso ou naquilo, pois a consciência se encarrega
naturalmente de imprimir no estudante tudo quanto lhe pareça
possível e significativo num momento ou fazer-lhe esquecer
facilmente, qual um sopro de vento, o que não possui sentido na
intimidade reflexiva.
Ainda, não é objetivo desta, mesclar inadvertidamente ciência e
religião, pois seus conteúdos, métodos e técnicas de análise a
respeito do conhecimento se distinguem por caminharem em linhas
claramente distantes. (Mas e se fosse possível aliá-las num dado
8
momento?) O que se propõe é um traçado de pesquisa e reflexão que
se situa ao meio de ambas as propostas, tocando-lhes em
concordância ocasionalmente e também se distanciando de modo
oportuno em sinal de discordância. O pensamento crítico que permeia
tal apreciação é de caráter filosófico. Assim sendo, o leitor não
chegará ao final do livro com a certeza de ter compreendido científica
e conclusivamente o tema em debate, pois, longe de relativizar os
assuntos polêmicos, a exatidão material não alcança integralmente o
conteúdo espiritual. E por outro lado, a bagagem espiritual ainda nos
é longínqua e cara por sua dimensão profunda e ainda bastante
incompreensível, adquirível arduamente através de depurado
exercício intuitivo, distante ainda de ser praticado na enevoada e
ilusória esfera material. Ampliar o conhecimento, refletir, deduzir e
duvidar talvez possa auxiliar na empresa de dar novos passos em
novas direções evolutivas.
Cumpre, ainda, alertar para os muitos obstáculos contra os
quais é devido empreender a correspondente ultrapassagem em prol
de se alcançar novas alturas. Há uma relação considerável deles em
capítulo específico. O confronto é uma luta sem precedentes, mas a
vitória promete algo nunca antes visto. Força, sabedoria, intuição e
resistência são as armas necessárias.
Portanto, prossigamos, procurando refletir acerca de algumas
questões.
Se todos nós somos criaturas advindas de Deus (“Façamos o
homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, Gênesis
1:26), e, portanto, Dele fazemos parte por tal sagrada e poderosa
origem, fruto do seu poder para criar vida -- nós igualmente também
criamos, cujo poder dá origem aos nossos descendentes --, que
respostas são possíveis: Por sermos incompletos, ainda que trilhemos
a estrada do aperfeiçoamento constante -- as partes afetam o todo --
, como será este Deus do qual somos parte criada? Se Deus carrega
em si tal condição, qual é, afinal, o seu papel e o das suas criaturas?
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Se as criaturas progridem evolutivamente, Deus se amplia,
consequentemente, na sua magnitude? Considerando-se a
possibilidade de o Criador evoluir através das suas criaturas, não
serão por ventura estas mesmas criaturas as partes divinas que em
razão do estágio atual em que se encontram ainda não se percebem
devidamente como pequenos deuses unidos pela fonte maior? Se o
Pai já é imenso em poder, é possível crer que há outras tantas
criaturas que muito avançaram anteriormente para torná-lo tão
grandioso, e que nós estamos atrás na escalada do desenvolvimento
do qual fazemos fundamental parte? Somos seres individuais
interconectados a serviço do seu crescimento, e ainda, do nosso
próprio, cujos benefícios extraídos das evoluções encontram-se à
disposição de qualquer um que se exercite e alcance-os? Viver é,
então, ainda que não se perceba, um exercício permanente para se
crescer evolutivamente, levando todos a novas condições de
sabedoria e grandeza? É prudente, pois, trabalhar altruisticamente
em prol do desenvolvimento de tantos quantos queiram, ou
despertem para tal, haja vista nos beneficiarmos mutuamente das
interconexões existentes, pois do contrário nós perderemos com o
egoísmo que apenas separa e faz patinar o projeto evolutivo? O que
dizer da passagem bíblica em ‘Um salmo de Assafe’, (Salmos 82:6-
7): “Eu disse: Vós sois deuses; vós sois todos filhos do Altíssimo.
Todavia, morrereis como homens; caireis como qualquer dos
príncipes.”? O que quis revelar Jesus, em João 10:30, ao afirmar “Eu
e o Pai somos um”. Será, portanto, que nós e o Pai somos um? Ainda,
o que quis dizer Jesus, na passagem do Evangelho Apócrifo de Judas?
“Uma vez ele estava com seus discípulos na Judéia, ele os encontrou
reunidos, quando ele se aproximou dos discípulos que faziam uma
oração de agradecimento pelo pão, Jesus riu. Os discípulos
pensarampor que causa Jesus estava rindo, Jesus viu que os
discípulos pensavam que estavam adorando o Deus verdadeiro, mas
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na verdade eles estavam errados,estavam adorando apenas o Deus
criador deste mundo, mas o único que entendia isto era Judas.”
O que a Bíblia Sagrada tem a dizer a esse respeito, e o
evolucionismo?
11
Capítulo 1
Uma nova perspectiva sobre Deus no lugar de antigos
conceitos
Desfazer-se da imagem do Deus completo, absoluto e,
decorrentemente, tão distante das suas criaturas incompletas e
ignorantes é um trabalho e tanto, e requer não apenas coragem para
ultrapassar antigos obstáculos impostos para o controle das
incivilizadas populações ancestrais -- não que as modernas sejam um
primor de civilidade --, mas autoconhecimento suficiente para
perceber em si mesmo um pouco da essência desse Criador, e, ao
fazê-lo, compreender que tal conexão permanente une, ao invés de
separar, e que, ao conectar revela certa similaridade entre as partes,
cada qual com o seu grau de incompletude em busca da metamorfose
evolutiva no mosaico divino.
“É o fim!” Muitos diriam escandalizados. “Heresia! Pecado!” E
muitas outras expressões, na tentativa de criar oposição ao simples
fato de apenas levantar hipóteses que requerem do estudioso a sua
análise mais profunda, criteriosa e persistente. Entretanto, fechar-se
antes mesmo que se compreenda essencialmente o questionamento
em mira é impedir-se de fazer uso de um dos mais consideráveis
atributos em nós existente: a capacidade de refletir.
Não é o fim! É outro começo? Ou melhor, recomeço? Acaso não
nos sentiríamos mais íntimos do Pai em razão de percebê-lo
incompleto e, portanto, mais perto, acessível? O Deus completo e
longínquo pode dar lugar ao Pai mais próximo que depende dos seus
filhos para que ele próprio exista e se amplie em gradações
inimagináveis? Pondere, sem a presença das criaturas, impossível
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seria de o Criador ser percebido como algo existente, não é? Tal fato
permitiria que houvesse somente a autopercepção Dele. Nada além.
No entanto, além de Ele ser percebido pelas suas criaturas, não pode
ser também alimentado por elas a cada avanço que cada uma lhe
oferece ao evoluir? Note-se que a relação é mais ampla, e com tal
crescimento originado de pontos diferentes, determinando o todo,
Dele mesmo o homem pode compartilhar tal sabedoria e poder,
bastando, evidentemente, se desenvolver a ponto de enxergar e
experimentar aquilo de que se dispõe. Há potenciais em larga escala
à espera daquele que ousa conhecer-se melhor e avança na direção
evolutiva. É ganho sobre ganho.
Todavia, enxergar é a questão mais delicada, pois o que ainda
não se percebe mais claramente é a grande fonte disponível, e que
para alcançar tal manancial sagrado requer-se empenho e
desprendimento gradativo das questões materiais que, como é de se
esperar, turvam a trajetória da consciência. O texto religioso hindu
Bhagavad-Gita (A Sublime Canção) destaca com primor: “A autorealização
-- a real meta da vida -- não é possível para aqueles que
estão apegados ao prazer e poder, e para quem o juízo está
obscurecido pelos rituais e atividades para a satisfação dos desejos
egoístas. A auto-realização é para que se conheça o relacionamento
com o Senhor Supremo e Sua verdadeira natureza transcedental.
(2.44)” Logo, há de se compreender que uma coisa é viver
materialmente e extrair o que tanto se precisa para sobreviver e
evoluir, outra, é afundar-se na matéria sem ao menos olhar de
soslaio diferentes possibilidades existentes aqui e agora. Não
amanhã. Já!
As típicas propriedades do Criador
E quanto às propriedades divinas do Senhor? Ele as perde com a
nova perspectiva? Cumpre-se destacar que o homem não é o Deus
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em si, mas parte desse mesmo Deus, e, portanto (além da Sua
essência presente), a substância que o compõe difere da do Criador,
mas tão somente nas formas que se graduam desde a mais sutil
forma de energia até a mais densa combinação energética que faz
modelar o ser físico -- algumas das proposições da física quântica
referem-se à matéria como sendo energia da qual todo ser é
constituído. Diferentemente daquilo que afirmou Santo Anselmo
(1033-1109), ao defender a tese de que Deus não é uma semelhança
das coisas que mudam, pois, desta forma, não Lhe caberia a suprema
imutabilidade: “Que esse mesmo verbo não é uma semelhança das
coisas criadas, mas a verdade da essência; e que as coisas criadas
são uma certa imitação da verdade”.
Mas o que não se observa, no entanto, é o fato de que, apesar
da imitação, o resultado encontrado na obra Dele, ou seja, sua
criatura, provém do que é o fator determinante e aquilo que faz Um
ligar-se intimamente ao outro: Sua essência. Que tipo de cópia é
capaz de portar a essência do seu autor e dela se valer para o próprio
desenvolvimento e ainda ser considerada uma imitação nos termos
propostos pelo religioso Anselmo no período medieval? Ou se
considera a essência nas suas possibilidades típicas ou se lhe reduz à
meia carga convenientemente. Trocando em miúdos, ou o homem
carrega em si a essência divina ou tal criatura se encontra destituída
da semelhança do Criador – talvez o criador observado no Evangelho
Apócrifo de Judas?; Este figuraria apenas como um artista
intermediário entre os elementos que compõem a criatura e a obra
resultante. Não é de admirar, por conseguinte, que as pessoas
retratem simbolicamente esse Deus imutável através de estátuas de
pedra ou madeira (igualmente imutáveis se bem conservadas); elas
revelam concretamente, ainda, os limites que tal finitude encerra no
Criador. Não se trata somente de algo concreto para ativar a
abstração relativa à fé, portanto. A fé é ainda hoje estimulada pela
crença do Senhor pronto e invariável. Então é relevante perguntar:
14
que níveis de fé podem ser provocados ante os dois modelos de
Deus: o completo, mas finito e o incompleto, porém infinito?
Mais: como restaria, então, a Sua onisciência, por exemplo?
Ora, Deus, tendo alcançado as alturas do desenvolvimento tão
superior que conquistou, faz uso dos muitos recursos -- incluam-se
uma maior conexão e gigantesca percepção em relação às partes
criadas --, por nós não identificados e distantes pela grosseira
ignorância que nos reveste a visão que oportunamente poderá se
abrir conforme avancemos na senda da evolução. Mais: ao servir aos
seus filhos os atributos disponíveis em si, ele os encoraja e os
municia a fim de que cresçam e deles também possa se servir
conforme os avanços através de uma espécie de oferta e ganho
permanentes. Percebe o profundo senso de humildade, justiça e
sabedoria em tal Ser criador?
A origem divina da expansão evolutiva
Não obstante, emerge uma questão tão ardilosa quanto inevitável: se
o Pai é inacabado e cresce evolutivamente sem cessar através do
desenvolvimento dos seus filhos, como situar-Lhe no início do
universo material, anterior ao surgimento das criaturas? Como seria,
então, tal Deus desprovido da sua preciosa fonte de alimentação? A
resposta deve embasar-se na descrição científica que teoriza o
começo a partir do Big Bang -- o qual, segundo o físico russo George
Gamow (1904-1968), na expansão do universo, no estado inicial de
alta compressão que se encontrava, com uma explosão momentânea
obteve-se uma colossal redução de densidade e temperatura, e,
posteriormente, a matéria passou a predominar sobre a antimatéria.
A antimatéria, ou o contrário da matéria, com massa igual e carga
elétrica oposta, é uma teoria desenvolvida pelos físicos Paul Dirac
(1902-1984), inglês, e o estadunidense Richard Feynman (1918-
1988), Nobel de Física em 1965.
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Ainda, nas reflexões de Gamow, se o universo expande, supõese
que fora bem menor no seu estado inicial: o ovo cósmico. Tal Big
Bang, ao prazo de 13.7 bilhões de anos aproximadamente, culminou
nas atuais condições de avanço, considerando-se, para tanto, o fato
de que, inicialmente, tudo ocorreu de modo bastante primitivo,
alicerçando a coerência de se estabelecer o paralelo entre tal
primitivismo com as condições igualmente rudimentares presentes no
Criador. A expansão parece ser uma condição natural e crucial ao
desenvolvimento, tendo em vista a história universal? Mais: Se o
universo surgiu nas condições aqui descritas, e ganha em dimensão -
- apesar de a nossa posição cósmica ser exageradamente distante em
relação às tantas galáxias existentes --, é aceitável questionar o fato
de que este mesmo universo seja finito, ou seja, ele possui as suas
respectivas bordas em razão da limitação imposta através do seu
minúsculo nascimento e do crescimento a que se submete?
Aliás, não foi justamente a vontade de expandir do Pai, que Lhe
proporcionou a ultrapassagem do limite que divisa a potência do ato
criando tudo quanto criou nas condições mais elementares de que
dispunha na aurora da existência material -- o átomo inicial? Se Ele
se desenvolve indefinidamente, não há contradição ao afirmar que o
seu início foi marcado pela rudeza inerente aos primeiros passos que
buscam o aperfeiçoamento. Cumpre-se, ainda, esclarecer que tais
movimentos se sujeitam ao tempo existente no plano material, onde
Ele se expressa por meio da matéria criada na explosão ocorrida a
partir da hora primordial. Ele, pois, não era pronto no início. O
“tempo” Lhe permite crescer. E antes disso?
Se já é dificílimo refletir sobre as imensas incógnitas tais como
a formação do mosaico divino material e seu aperfeiçoamento, não
seria ainda mais obscuro tratar acerca do suposto lado de lá espiritual
com suas respectivas leis? Não se trata de uma saída elegante para o
insolúvel (ao menos por enquanto), mas de reconhecer a vastidão
impenetrável de tema tão obscuro. Então é prudente reconhecer que
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se esbarra no limite do entendimento tentar compreender
plenamente como tal Deus surgiu e era antes de se fazer verbo e
materializar o universo como o conhecemos e supomos ter-se
originado. Segue-se que, por hora, é possível imaginá-lo qual uma
energia inteligente apenas, capaz de desejar e causar. Requer-se,
ainda, pesado trabalho em prol de se avançar a muitos passos
evolutivos para, quem sabe, tomar contato com novos bastidores do
ainda inexplicável.
17
Capítulo 2
A união entre o Criador e o homem
“Mas, só pelo fato de que Deus me criou”, descreve o filósofo francês
René Descartes (1596-1650), “é muito crível que ele me tenha de
alguma forma produzido à sua imagem e semelhança (na qual a idéia
de Deus se acha contida) pela mesma faculdade com a qual concebo
a mim mesmo; quer dizer que, quando faço reflexão sobre mim, não
somente conheço que sou uma coisa imperfeita, incompleta e
dependente de outrem, que tende e aspira incessantemente a algo
melhor e maior do que sou, mas que conheço também, ao mesmo
tempo, que aquele de quem dependo possui em si todas essas
grandes coisas a que aspiro, e cujas idéias encontro em mim, não
indefinidamente e apenas em potência, mas que ele as usufrui de
fato, atual e infinitamente, e, assim, que é Deus.”
Na mesma obra cartesiana, Meditações metafísicas, publicada
em latim pela primeira vez, em 1641, Descartes apresenta as suas
conclusões acerca da existência de Deus e da sua relação com os
homens, a sua perspectiva sobre a presença do Criador nas criaturas,
embora sua concepção tenha sido a de um Deus completo, qual o
filósofo religioso Tomás de Aquino (1225-1274), que também inferiu
ideias relacionadas à presença de Deus nos seus, porquanto, alegava,
se Deus é justo, por exemplo, a justiça é parte da natureza humana,
inseparável, eliminando-se a arbitrariedade do uso dessa justiça por
parte do Todo-Poderoso.
E nas indagações de Santo Agostinho (354-430), “Deus está no
homem; o homem está em Deus”: “É verdade que o céu e a terra
que criastes e no meio dos quais me criastes Vos encerram? Será,
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talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que
todas as coisas Vos contêm? E assim, se existo, que motivo pode
haver para Vos pedir que venhais a mim, já que não existiria se em
mim não habitásseis? [...] Por conseguinte, não existiria, meu Deus,
de modo nenhum existiria, se não estivésseis em mim. Ou antes,
existiria eu se não estivesse em Vós, “de quem, por quem e em quem
todas as coisas subsistem”?
Segue-se, ainda, a observação feita pela notável filósofa,
teóloga, escritora e ocultista russa, Helena Petrovna Blavatsky (1831-
1891), em seu livro Ísis sem véu: uma chave-mestra para os
mistérios da ciência e teologia antiga e moderna: “Não sabeis que
sois deuses? [...] Platão descreve admiravelmente no Fedro o estado
anterior do homem, e aquele ao qual ele há de retornar: antes e
depois da "perda das asas"; quando "ele vivia entre os deuses, e ele
próprio era um deus no mundo aéreo". Alguns pensadores do
passado já percebiam a união entre Ele e sua prole. “Eu e o Pai
somos um”, pois, não se encontrava tão distante da percepção
humana. Porém, sempre foi condição sine qua non ter de se dirigir a
tal fim para atingi-lo através de profundos mergulhos íntimos,
seguidos de reflexões por vezes dilacerantes (tocar a verdade é ao
mesmo tempo divino e profano), na colossal tarefa de combater os
estados entorpecido e letárgico comumente presentes no ser
humano, o qual, abençoadamente, dispõe de inúmeras e divinas
possibilidades de crescimento disponíveis.
A grandiosidade da troca evolutiva
É possível comparar alegoricamente as relações e atividades
existentes na união entre Deus e suas criaturas, qual um centro de
pesquisas que envia seus pesquisadores a cantos distantes das terras
em que vivem a fim de que estes últimos extraiam, conforme a sua
dedicação e conhecimento, o máximo de sabedoria, e, enviem tais
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descobertas ao mesmo centro original. Os pesquisadores ganham
com o que apreenderam, o centro também. Todavia, tal centro
recebe todas as informações oriundas de cada um dos pesquisadores,
centralizando-as. Nem sempre o mesmo se encontra acessível aos
seus membros. Há limitações, inclusive da ordem física, no fluxo de
informações.
Em Deus, a questão parece funcionar de modo mais amplo e
compartilhado simultaneamente, pois os avanços encontram-se
disponíveis a quem a eles se dirigir com determinação, podendo
adquirir, cada vez mais, novos saberes. A limitação, neste caso, diz
respeito ao estágio em que se encontra o explorador. Por tal razão, é
preciso pagar o preço de se autoconhecer em doses maiores, e esta
tarefa não é simples, podendo levar o estudioso a fincar os pés em
determinada altura, acaso ele não esteja aberto às dolorosas
percepções que inevitavelmente terá de si mesmo (somos bem mais
atrasados do que tentamos nos convencer autoenganadamente),
fazendo disparar imediatamente os mecanismos de defesa psíquica,
além de existirem enormes chances de tropeçar na perna da vaidade,
resultando-lhe a falsa sensação de que se atingiu os picos das
imensas montanhas da sabedoria, fato inverídico, pois se Deus que é
Deus é um ser imenso em constante expansão, que dirá seus filhos?
Diante das muitas situações dinâmicas presentes no Pai, como
Ele pode ser encarado como algo absoluto, acabado? Como ser
coerente ao pretender crer num Criador que se encerra em si mesmo
ao findar tudo quanto teve de empreender? De que modo é possível
associar um Deus pronto, estável e imutável às suas obras tão
amplamente passíveis de mudança, a exemplo da própria expansão
permanente do universo? E o que dizer da instabilidade existente no
mundo subatômico? E as constantes combinações e recombinações
químicas entre os elementos que compõe a matéria? E quanto às
alterações geológicas que modificam o cenário terrestre, moldando-o
em novas pinceladas geográficas de tempos em tempos? O que se
20
poderá dizer a respeito das alterações genéticas que sofrem a
pressão do meio e geram adaptação evolutiva de modo normalmente
eficaz e incansável? Afinal, que tipo de relação se pode estabelecer
entre algo aparentemente terminado com tudo o mais em plena
transformação e crescimento? Se Deus é de fato imutável, Ele pouco
ou nada tem a ver com o fervilhante dinamismo existente nas suas
supostas criaturas -- as daqui e as de fora provavelmente.
Ou ainda, e se analisássemos a troca evolutiva por meio do
Potencial de aprendizagem e autossuperação – uma ideia já publicada
que propus há algum tempo?
É prudente compreender a dinâmica evolutiva do potencial que
regula o acesso a cada nova aprendizagem a que se destina o
aprendiz. Por potencial, entende-se aquilo que é possível – por vezes,
o “impossível” também. Algo anteriormente disponível, mas que
necessita de certo exercício para tornar-se manifesto. Potência e ato.
Qual a geração de um ser e o seu respectivo parto. É por tal
exigência prática que se obtém um determinado tipo de resultado
para o que se pretende enquanto manifestação da aprendizagem.
No entanto, emerge uma intrigante lista de perguntas: por que
uns enxergam mais potencial de aprendizagem do que outros? Que
razões levam alguns a avançar bem mais, mesmo em condições de
igual estímulo recebido pelo meio de convivência? Ainda: E aqueles
que, apesar da miséria a que foram submetidos desde a sua infância,
extraíram de si muito mais do que se acreditou ser possível? Que
limitação encarcera a pessoa à escuridão da ignorância, tendo em
vista a ampla possibilidade de libertação existente na luz do saber?
Dentre as possíveis hipóteses (considere-se a combinação delas
também), destaque-se o avanço e as restrições do próprio potencial
de aprendizagem. Refiro-me à capacidade de expansão do potencial,
cuja elasticidade, resultante da aprendizagem e seus progressos, é
capaz de determinar maior ou menor perspectiva a respeito das
21
possibilidades de se investir na busca por mais conhecimento. Quanto
menos ocorre tal desenvolvimento, tanto menor é a dilatação do
potencial, e reduzida é a visão que se tem de maiores possibilidades.
Por outro lado, mais crescimento é sinônimo de maior dimensão
potencial e correspondente expectativa.
O potencial, portanto, não se encontra totalmente disponível
àquele que investe na sua aprendizagem. Ele oferece apenas uma
parte de si à transformação que culminará no ato. Assim, sugiro a
existência do que denomino de “Potencial Primário de Aprendizagem”
(PPA), ou potencial total, que é disforme, e assume uma posição prépotencial,
que, à medida que é bombardeado por investidas do
aprendizado, produz dois resultados distintos: 1) parte dele
transforma-se em produto acabado para o que se potencializou
inicialmente e; 2) a outra parte se modifica em produto semiacabado,
ou “Potencial Secundário de Aprendizagem” (PSA), à
disposição de novos estímulos e mudanças.
Acaba por se desenvolver, permanentemente, uma estrutura de
conhecimento cujos avanços podem, a seu turno, estarem até em
sintonia, advindos de construções separadas, quer seja, de mentes
independentes, tal como uma coincidência de teorias que nascem
com essências semelhantes de dois autores; ideias que se formam
em pessoas que pouco ou nada tem de convivência (ou até que
tenham), assombrando ambas as partes envolvidas quando colocadas
em comparação na oportunidade surgida. Não foi assim que Charles
Darwin (1809-1882) se surpreendeu com o artigo “Sobre a tendência
das variedades a afastarem-se indefinidamente do tipo original”,
cunhada por Alfred Russel Wallace (1823-1913), levando-o a dizer ao
amigo e notável geólogo Charles Lyell (1797-1875): “Ele não poderia
ter feito um pequeno resumo melhor! Até os seus termos constam
agora nos títulos dos meus capítulos!". Naturamente, os assuntos de
certas entidades, sejam elas científicas sobretudo, acabam por se
22
“espalhar” e abastecer outrem em dados momentos, no entanto,
trata-se de partes, e não do todo; são traços cartográficos e não o
mapa completo, com a famosa marca do x sobre o cobiçado tesouro.
E o Cálculo Diferencial e Integral, ramo desenvolvido
simultaneamente pelos matemáticos Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-
1716) e Isaac Newton (1643-1727), rendendo uma ferrenha disputa
acerca da prioridade da invenção? E tantas outras teorias, das
simples às sofisticadas, que sequer se soube terem se originado aqui
e acolá, ou em mais de dois lugares?
A disponibilidade da aprendizagem, pois, encontra-se na
condição imediata, através do PSA, o qual pode, conforme o grau de
desenvolvimento atingido, estimular a transformação do PPA, levando
o aprendiz a perceber maior terreno a ser percorrido, com crescente
motivação, na aquisição do saber.
Porquanto, muito pouco percebe acerca do quanto se pode
avançar, aquele que se estimula empobrecidamente, limitando-se a
uma pequena predisposição relacionada à expansão do potencial de
aprendizagem. Todavia, felizmente, enxerga bem mais quem investe
em maior grau na própria aprendizagem, fazendo crescer os limites
do PSA e, sobretudo, do PPA e da expectativa de ainda maior
investimento. Quem vê menos, pouco acredita que pode ir longe,
limitando-se. Quem vê mais, não só acredita como avança pela trilha
dos próprios esforços evolutivos, superando-se. Não acaba por
cooperar, de modo altamente favorável no projeto do mosaico divino?
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