O Livro dos Sábios - parte 5


XVI
Durante dezoito séculos e meio eles tem-se declarado infalíveis, de uma infalibilidade divina,
milagrosa, indefectível; este poder que só a razão absoluta pode ter, acabam de abdicá-lo
espontaneamente, livremente. Isto foi feito não por revelação; senão depois de deliberações,
discussões e a maioria de votos, como se fazem as leis humanas. Agora, o Papa e infalível pela
infalibilidade deles e não pela de Deus. O milagre cessou; sucedeu-lhe a convenção disciplinaria; não
é este o imenso acontecimento na ordem religiosa, para o qual, segundo José de Maistre, nós
marchamos com acelerada rapidez? Vós vedes que também marcha esta Igreja que se diz
retardatária. Viva, pois, a nova infalibilidade do soberano pontífice! Não esta constituído o dogma?
Podem de novo ser postas em discussão as bases da fé? E não alcança para impor silêncio aos
teologastros disputadores, a voz do pastor supremo? Venha um papa, homem de ciência e de gênio e,
por sua infalibilidade pessoal, poderá regenerar a Igreja, suprimir os abusos, anular o protestantismo,
reunir todos os crentes, abolir todos os anátemas, bendizer ainda aos Budistas e aos Muçulmanos, o
que seria impossível para sempre se tivesse necessidade, para isto, do consentimento de um concílio.
XVII
Todo dogma que se torna necessário, deve, pelo mesmo fato da sua necessidade, ser considerado
como revelado por Deus; porque Deus é a Providência, já que a lei religiosa está feita para o homem e
não o homem para a lei, já que toda revelação vem da inspiração dos homens que crêem e fazem crer
aos outros o que a piedade lhes sugere. Porque é assim que a ciência pode compreender e explicar a
fé.
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XVIII
A turba dos semi-sábios e a vil multidão dos ignorantes incrédulos pensa que se destrói a religião
com a ciência. O contrário é verdadeiro. A religião está na essência mesma da alma humana e a
verdadeira ciência bem o vê. A ciência não tomba senão os ídolos ridículos e ainda guarda-se bem de
quebrá-los, conserva-os para suas coleções e seus museus.
XIX
A arte a flor da árvore da ciência. Pelo gênio estático conserva-se o culto do ideal da beleza. O belo
é o esplendor do verdadeiro, disse Platão, e a ciência também tem suas belezas e seus esplendores.
Toda doutrina que torna pequeno o ideal é uma falsa doutrina. Vós quereis combater minhas crenças:
mostrai-me outras maiores e mais formosas! Vossa matéria trabalhada por forças fatais é espantosa.
Vosso universo, máquina cega, é mais feio que Polifemo que, pelo menos, tinha um olho: vossa
humanidade que se aniquila eternamente é horrível. Vejo o ser, vejo a luz, vejo ordem, vejo beleza,
vejo que tudo isto é verdadeiro e não creio em vossas blasfêmias!
XX
A ciência da religião conduz à síntese dogmática, verdadeira catolicidade do mundo. A unidade das
crenças e dos símbolos aparecerá então radiante em todos os povos e em todas as idades, e a
similitude de todos os dogmas dos povos antigos e modernos levará os sábios e os crentes reunidos a
proclamarem a grande ortodoxia humana. E há de se encontrar um grande pontífice universal que
dirá: é assim. E todas as inteligências do universo responderão: Amém!
XXI
A falsa ciência, como a falsa religião, tem suas superstições e seus fanatismos. Não reconheço por
desejos aqueles que têm medo dos fenômenos quando ainda não os podem explicar e que negam
tudo o que não compreendem; não reconheço por Doutors aos que não ousam falar de outra forma
senão como fazem nas academias oficiais. As ciências ocultas são o protestantismo desta falsa
ortodoxia. São as ciências excomungadas e não julgadas pelos usurpadores de uma falsa
infalibilidade.
XXII
O homem infalível é aquele que afirma o que se lhe está demonstrando, admite a hipótese
necessária, examina as hipóteses prováveis, tolera as hipóteses duvidosas e rejeita as hipóteses
absurdas. Aquele que regula sua crença segundo as leis e não segundo as opiniões, aquele que
consegue extrair o bem do mal, perdoa, consola, não se irrita jamais e não deseja nada com violência;
dele pode-se dizer o que se tem dito do próprio Deus: é paciente porque é eterno.
XXIII
A ciência não vê mais que fenômenos onde a ignorância não vê senão milagres. Estuda as
maravilhas da natureza e as encontra maiores que os pretensos prodígios. Reconhece as leis
supremas e não admite caprichos divinos. Sabe que na união, a matéria obedece a força, a força lei e
que a lei é imutável como Deus.
XXIV
A ciência não pode ensinar nada contrário a fé. Porque, se em nome da fé alguém contradiz a
demonstração da ciência, esse alguém não tem a fé; tem a crença cega e obstinada dos insensatos.
XXV
A Igreja não pode decidir nada que seja contrário a ciência e, por conseguinte, à razão. Porque seu
veredicto seria então o de um tribunal incompetente.
XXVI
As raças humanas sucedem-se, aperfeiçoando-se; porém, cada uma delas tem sua infância, sua
virilidade e sua decadência como os impérios e como os homens. As raças anteriores à nossa
envelheceram, enervaram e morreram; é o que explica o dogma do pecado original e da decadência
adâmica. Deus manifesta-se na natureza, porém jamais nos falou pela boca dos homens, é o que quer
dizer na Índia e no Cristianismo o dogma da Encarnação. Existe solidariedade entre os homens; e, o
rico deve pagar pelos pobres: eis o dogma da Redenção. Concebemos a Deus como poder,
sabedoria e amor: eis aqui o dogma da Trindade. O homem possui seu livre arbítrio; porém este
livre arbítrio está sempre influenciado por uma atração. A atração do mal é a tentação do demônio.
Assim, os méritos do homem vem de Deus e seus vícios de uma debilidade original a qual Deus a
garante. Eis aqui toda a economia da salvação e as garantias da esperança.
XXVII
A fé não pode julgar a ciência, porém, a ciência pode julgar a fé.
XXVIII
Quando a Igreja voltar à ciência e quando a ciência voltar o mundo inteiro será católico.
XXIX
34
A religião do futuro não será o catolicismo, será a catolicidade. Adoração universal de Deus nas
maravilhas da ciência, amor ao Deus vivente na humanidade e síntese de luz explicando, pela
divergência de seus raios, os matizes de todos os cultos.
XXX
A fé separada da ciência não produziu e não poderia produzir se não falsas virtudes e verdadeiros
crimes; o que salvar é o mundo é a ciência justificando a fé.
XXXI
O materialismo moderno não é mais do que uma represália apaixonada contra a fé que nega a
ciência. É o absurdo negativo, oposto ao absurdo afirmativo. Tem sua razão de ser e terá seu tempo.
XXXII
A verdade religiosa surge de todos os símbolos reunidos e corrigidos ou explicados um pelo outro.
O celibato de Cristo purifica os amores de Krishna. Diana Panthea com seu tríplice selo explica a
maternidade da virgem. Da comunhão emana o verdadeiro socialismo, a cruz ansata de Oliveres é
análoga a cruz do redentor. O paraíso de Maomé saiu do cantar dos cantares e a noção mais profunda
de Deus encontra-se no símbolo de Maimônides.
XXXIII
A Bíblia nos diz que aquilo que fez o homem se perder foi a ciência do bem e do mal. Com efeito,
uma ciência semelhante anula-se a si mesma afirmando simultaneamente os dois contrários mais
irreconciliáveis que possa conceber o pensamento humano. É como se dissesse: a ciência do que é e
do que não é, a ciência da verdade e do falso. O nada e o falso podem ser objeto de uma ciência?
Existe uma ciência da torpeza e da necessidade? A ciência do mal é a criação do diabo, é a afirmação
do inferno eterno, é a negação de tudo o que pode afirmar a ciência, é a ignorância erguida no
princípio, é a realeza da inércia.
XXXIV
Os teólogos e os casuístas são os normandos da macieira de Eva; e, semearam suas sementes,
voltaram a plantá-las, enxertaram-nas e multiplicaram-nas, recolheram seus frutos e fizeram sidra que
deixaram envelhecer em tonéis fechados que se chamam tanoas.
XXXV
A verdadeira ciência, que é a ciência do bem, exclui a ignorância que faz cometer o mal. Eis aqui a
macieira do Éden singularmente podada.
XXXVI
A ignorância produz a estupidez e a estupidez transmitida de pai para filho como uma tradição de
prejuízos que se chama totalmente a fé de nossos pais. Eis o pecado original.
XXXVII
Ofender a Deus é bater contra a razão suprema. Pois bem, a razão suprema quebra sem raiva e
sem piedade, tudo o que se opõe a ela, pois faz a lei e é, ela mesma, a lei.
XXXVIII
A lei eterna não perdoa jamais, há que se observá-la protetora e conservadora ou suportá-la
rigorosa e dando a morte, não ao ser que não pode se aniquilar, senão ao que não deve ser.
XXXIX
A lei da destruição aplica-se somente ao mal, o bem é eterno. A natureza leva os imperfeitos a se
devorar entre si. A guerra é o resultado equilibrante do egoísmo feroz dos amores dos homens e das
nações! Se os maus destroem os bons é por culpa dos bons que não sabem ainda sustentar-se para
reinar.
XL
Se até o presente, no mundo, os maus parecem mais fortes que os bons, porque os maus sabem
fazer o mal e os bons não sabem fazer o bem.
XLI
É que os maus observam e operam, enquanto que os bons contentam acreditar e rogar. São
vítimas que passam por mártires.
XLII
A verdadeira religião é inseparável da verdadeira ciência. Há que saber para crer com razão.
CAPÍTULO X
A AÇÃO
I
A ação é a resultante equilibrada do movimento dirigido pela inteligência.
II
O movimento é a manifestação da vida. A vida é a revelação fenomenal do espírito.
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III
O espírito é a direção da força, a força sem direção não chegaria jamais à harmonia criadora.
IV
A harmonia é a balança genial dos números. É a física da natureza, percebida ou não.
V
As sensações são o resultado das vibrações e as vibrações compõem a harmonia dos sons, das
impressões e dos matizes.
VI
Toda ação é uma força.
VII
A ação harmoniosa repete-se multiplicando, a ação dissonante produz uma reação equilibrante.
VIII
Se quereis que uma ação violenta se produza a direita, operai violentamente à esquerda, dito assim
figuradamente.
IX
A criação eterna é a ação de Deus e da natureza. Pois bem, na natureza toda obra e a inação é
impossível. Se o nadador se cansa de nadar, aciona o rio à submergi-lo.
X
A criação eterna a ação de Deus e da natureza. A morte aparente é ação particular que cessa e
desaparece na ação universal.
XI
A morte é o oceano da vida no qual recaem, uma a uma, as gotas de água que se tornaram mais
pesadas que a nuvem. Logo, o Sol fará subir outra vez uma nova nuvem sobre o mar e as gotas de
água flutuarão no céu ainda que com seus trajes de vapor.
XII
Temos pois, que morrer mil vezes? Não! Nem sequer uma vez, porque a morte é a quimera dos
vivos que a temem. A morte não existe se não que no medo da morte; e esqueceremos este temor
quando vermos que a morte não existe. A Eternidade não lembra senão a vida.
XIII
Operar contra a ação universal é querer quebrar-se. Operar com a ação universal é exercer o poder
divino; nisto acha-se indicado suficientemente o grande arcano da alta magia.
XIV
As ações do homem modificam o homem. Somos todos filhos de nossas obras.
XV
A substância inerte chamada matéria é o ponto de apoio da alavanca moral, ela expande e reflete
de certa forma a ação que recebe, impregna-se da vontade do homem e pode tornar-se, pela
influência magnética, um remédio ou um veneno.
XVI
O vinho derramado pelos sábios alegra e fortifica; o vinho dos insensatos embriaga e dá vertigem.
XVII
A matéria é o que os sábios querem que seja. Assim explica-se o mistério da transubstansiação.
XVIII
A fé que transporta as montanhas não é outra coisa senão a coalizão das vontades ativas para a
realização de um sonho ou de uma utopia.
XIX
A vontade coletiva posta em ação dá sempre um resultado proporcional à potência das forças
reunidas. Porém, quando opera em favor de um sonho, o que produz é sempre uma realidade
contrária à fórmula do sonho. O ideal da redenção pelo sacrifício produziu a inquisição, o ideal da
emancipação dos homens, não produziram, no tempo da maior exaltação de seus crentes, senão o
regime de terror; porque os cristãos e os revolucionários idólatras – uns do sacrifício, outros da
liberdade – acreditavam falsamente que, podia-se impor a aqueles que não são capazes e, sobretudo
não compreendiam que não existe verdadeiro sacrifício sem liberdade nem liberdade verdadeira sem
sacrifícios.
XX
As grandes religiões produzem grandes povos porque formam grandes forças coletivas e inspiram
grandes ações.
XXI
Não existem heróis na solidão; os atos sublimes estão determinados sempre pelo entusiasmo de
muitos. Os grandes crimes são igualmente o resultado de uma perversidade coletiva. O diabo na
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Escritura chama-se legião e o bem triunfante chama-se o Deus dos exércitos.
XXII
O fogo do inferno é a atividade devoradora do bem que consome eternamente o mal.
XXIII
Jesus Cristo disse em uma dessas passagens do Evangelho, que a Igreja não pode jamais explicar
ao comum dos fiéis. Fala dos reprovados e acrescenta: "O fogo os salgará como se põe sal sobre a
cabeça das vítimas. O sal é o bem. Se chegasse perder sua força, com que se lhe salgaria? Guardai o
sal em vós mesmos." Desta passagem dá-se ao vulgo esta explicação abominável: que o fogo
conservará aos condenados na eternidade de seu suplício como o sal conservará as carnes mortas. É
necessário intimidar aos incrédulos e aos perversos.
XXIII
Os débeis falam e não acionam, os fortes acionam e se calam.
XXIV
Tem-se falado de uma espada cuja empunhadura está em Roma e cuja ponta faz-se sentir em toda
parte. Se esta espada existe, o que a forjou seria um hábil armeiro; tratai de fazer uma semelhante.
XXV
Weishaupt intentou-o, porém sua obra não foi duradoura, porque seus discípulos não diziam nem a
missa nem o breviário, nem o rosário todos os dias.
XXVI
A magia e a religião são uma só e mesma coisa. Chama-se religião magia autorizada e magia a
uma religião proibida.
XXVII
Se um cristão cessa de praticar não crerá por muito tempo, porém se um incrédulo começa a
praticar, logo acreditará, porque a vontade não pode estar por muito tempo separada dos atos.
XXVIIII
A religião e a magia fazem igualmente milagres, porém o Deus da primeira é o diabo da outra e
reciprocamente.
XXIX
Colocai o branco sobre o preto e o branco tornasse-a esplendor, colocai o preto sobre o branco e o
preto tornasse-a profundidade. Mesclai o branco e o preto e obtereis um matiz fosco e desagradável
que se chama cinza.
XXX
No mundo divino existem anjos brancos e anjos pretos, porém não existem anjos cinzas.
No mundo intelectual existe o absoluto afirmativo e o absoluto negativo, porém a dúvida não existe.
No mundo moral existe o bem e o mal, porém não existe meio.
No mundo da ação toda atividade e a vida, porém a inação e a morte. Jesus aceita o quente e o
frio, porém rejeita o que é morno.
CAPÍTULO XI
A FORÇA E SEUS AUXILIARES
I
Toda força requer um impulso; necessita uma ação e se apoia sobre uma resistência.
II
Toda força domina a inércia, toda inércia suporta a força.
III
Toda ação repetida determina uma força, a força contínua, por mínima que seja, triunfa sobre toda
inércia.
IV
Os atos mais indiferentes em aparência, dirigidos por uma intenção e repetidos com persistência
fazem triunfar esta intenção. É por isso que todas as grandes religiões tem multiplicado suas práticas e
atribuem grande importância a estas práticas. Um machado atirado por Hércules não furaria a massa
de uma rocha, mas uma gota de água que cai no mesmo lugar, hora após hora, termina por escavar
uma abóbada imensa de pedra.
V
As práticas supersticiosas são tão eficazes como as práticas religiosas, mas apresentam maior
perigo porque não estão reguladas pela autoridade legítima.
VI
Fazendo regularmente o que ele mesmo chamava seus exercícios, Santo Inácio terminou por ver
distintamente a Virgem. Na "cova" de Mauresa, praticando os ritos do tauróbolo, o imperador Juliano
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viu pessoalmente os deuses do antigo Olimpo e, sujeitando-se as cerimônias do Crimório, os
feiticeiros obstinados terminam necessariamente por ver ao diabo.
VII
Toda força necessita uma debilidade; se exerce sobre uma debilidade e triunfa por uma debilidade.
VllI
A maior das debilidades humanas é o amor, mas é com sua mediação que a força humana tem
realizado os maiores milagres.
IX
O entusiasmo multiplica as forças da alma e o entusiasmo é excitado quase sempre por uma
quimera.
X
Eu que escrevo estas linhas, me sacrifício há quarenta anos em trabalhos ingratos porque creio em
sua utilidade, como se tudo o que penso e tudo o que escrevo não houvesse sido pensado e escrito
inutilmente por outros.
XI
Se o homem não tivesse um grão de loucura, não faria uso de sua razão senão para livrar-se de
todas as penas e desconfiar de todos os prazeres; mas então, não viveria; vegetaria encerrado em sua
concha como um molusco.
XII
A maior sabedoria do homem é escolher bem sua loucura.
XIII
Salomão disse: entre todas as mulheres eu não encontrei nenhuma. A isto a fria razão contestaria:
tomemo-las todas pelo que valem. Mas a suave loucura do amor protesta e diz: se temos escolhido
mal, escolhamos novamente; depois a sabedoria agrega: vivamos de nossos sonhos, não morramos
deles.
XIV
É o que ocorre com as religiões. Entre todas, nenhuma é razoável, dizia Voltaire. Eu bem o creio.
São razoáveis as mulheres? A religião e a mulher do nosso espírito. Não se pode ser, por sua vez, de
todas as religiões; e nossa alma tem necessidade de praticar uma.
XV
Então, se se deseja um culto eficaz, tem-se que ser um mago ou católico, o que é no fundo a
mesma coisa, porque a religião católica é a magia regularizada e vulgarizada.
XVI
Qual é a força que nos faz desejar a uma mulher? A paixão. Bem, a religião católica só é uma
religião apaixonada; é insensata e, por isso mesmo, invencível pela razão, zelosa, exclusiva e, por isso
mesmo, fascinadora. Só ela faz milagres e nos faz tocar a Deus!
XVII
Mas a religião e a mulher preferida são como a esfinge: tem-se que adivinhar seu enigma ou
perecer; tem-se que possuí-las e não ser seus escravos; tem-se que compreender e não suportar seus
mistérios. Há que ser seu senhor, no fim, como Ulisses se tornou senhor de Circe. QUI HABET
AURES AUDIENDI AUDIAT.
XVIII
Para o sábio, os sacerdotes são os ministros; quer dizer, os servidores da religião; não são nem
seus árbitros nem seus senhores.
XIX
Nossa consciência pode ter necessidade de ser esclarecida, mas não deve dirigida senão pela
razão unida à fé.
XX
Há que se tomar conselho de um homem esclarecido e desinteressado, de um homem livre e
prudente, o qual, tendo em vista a organização atual do clero, não se encontra nem sequer entre os
sacerdotes. Não há coisa mais insensata, quando se vê mal, que tomar por guia um cego, unicamente
porque está tonsurado e leva uma túnica branca sobre um traje negro.
XXI
A religião sanciona o dever. Mas ela já não é um dever como o amor. É um socorro oferecido a
nossa debilidade. É uma necessidade da alma. É um arrebato do coração ou não é nada.
XXII
Pode-se ir mais além da razão, mas nunca contra a razão; mais distante que ciência, mas nunca
apesar da ciência. Desta maneira se destrui a si mesma provando-se evidentemente falsa. Então, já
não é um auxiliar da força; transforma-se em uma enfermidade do espírito e uma debilidade da alma.
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XXIII
Para que os contrários se afirmem, seja simultânea, seja separada e alternativamente, é
absolutamente necessário que não sejam contraditórios.
XXIV
Quando o entusiasmo nos empurra além da razão, parece negar a razão, mas quando a razão vem
por sua vez corrigir os erros da fé , parece rechaçar a fé. Uma e outra, no entanto, nos conduzem por
sua vez ao progresso; como na marcha nos apoiamos alternativamente nas duas pernas.
XXV
O homem que caminha não se apoia nunca senão sobre um pé de cada vez. Aquele que apoia ao
mesmo tempo os dois pés no chão não caminha. Mas o erro de muitos homens é querer servir-se
exclusivamente de razão ou da fé e assemelhar-se assim a um menino que não quisesse caminhar
senão sobre um pé somente.
XXVI
Quando se ama não se raciocina. Quando se raciocina parece que não se ama. Quando se
raciocina depois de haver amado, compreende-se porque se amava. Quando se ama depois de haver
raciocinado, se ama melhor. Eis aqui o sendeiro do progresso das almas.
XXVII
Quando se tem um pé sobre o qual não se pode apoiar-se sem cair, há que cortá-lo, disse Jesus
Cristo. O remédio é violento e Jesus Cristo dizia isto, sem dúvida, porque em seu tempo não se havia
inventado a ortopedia. Mas tem-se seguido demasiado seu conselho e é por isso que a Igreja coxeia
do lado da razão e a filosofia coxeia do lado da fé.
XXVIII
Atar, juntas, as duas pernas seria como torná-las uma; e, isto tornaria impossível o caminhar. Para
que as duas pernas prestem mútuo socorro, é preciso que estejam separadas e absolutamente livres
uma da outra. É o mesmo para a razão e para a fé. Impor crenças à razão é pedir a fé demonstrações
científicas é paralisar uma pela outra. Quando se tem uma perna que atrapalha a outra, se é coxo; e, o
grande problema atual é encontrar a ortopedia das almas. Aqueles que compreenderam nossos livros
eu tenho, quiçá, o direito de dizer-lhes: EUREKA! Estabelecer que a solução de um problema é
necessária é provar que ela é possível, e provar que é possível é dá-la.
XXIX
Conciliar a fé e a razão é crer que o dogma universal, sob suas formas diversas, é a expressão
progressiva das aspirações humanas em direção é Divindade; aspirações que não são nem fictícias
em suas fontes nem arbitrárias em suas formas; aspirações que provém de Deus como todas as
formas da natureza; que assim o dogma esta revelado e se revela sempre; porém que os símbolos
não são definições científicas, as alegorias históricas, os sacramentos, operações físicas e que os
evidentes absurdos de forma, frente as apreciações racionais, provam que tem-se que buscar em
outra parte e mais acima, as realidades ocultas sob este misterioso ensinamento.
XXX
A conseqüência desta crença razoável é a catolicidade verdadeiramente universal, porque não há
mais que uma revelação como não há mais que um Deus. Somente os cultos diferem como os
símbolos e como os homens, mas a graça de Deus habita, para o justo, tanto a sinagoga como na
religião, ainda que exterior, e será, tarde ou cedo, uma conseqüência da unidade na civilização. Pois
bem, ninguém nega a beleza, a simplicidade, a majestade e a influência profunda nas almas, do culto
católico, em outro tempo romano; é pois, ele, que prevalecerá porque oferece à força do mundo os
mais poderosos auxiliares. Mas, como dizia seu fundador, é preciso que morra sob sua forma
humana, quer dizer temporal, para ressuscitar em seu poder espiritual e divino. E, Lictor expedi
crucem!
CAPÍTULO XII
A PAZ PROFUNDA
I
Todos os sofrimentos de nossa alma provém do extravio de nossos desejos e de nossa obstinação
em realizar mentiras.
II
Todos os sofrimentos de nosso coração provém de que amamos para receber e não para dar, para
possuir e não para melhorar, para absorver e não para imortalizar.
III
Para ser feliz não se deve cobiçar nada, desejar nada com obstinação; mas é necessário obedecer
a lei, querer o bem e esperar a justiça.
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IV
Não há que identificar-se com nada corruptível, atar-se a nada do que é passageiro, deixar
absorver sua vida por nada do que é mortal.
V
Deve-se amar a beleza, a bondade e o amor que são eternos.
VI
Deve-se amar a amizade em nosso amigo, a juventude e a graça em nossa amiga. Há que se
admirar nas flores a primavera que as renova; não se surpreender ao ver flores que murcham e
mortais que se transformam.
VII
Há que se beber o vinho quente quando é bom e rejeitá-lo quando está azedo.
VllI
Não se deve chorar o formoso cordeiro que se tenha comido.
IX
Deve-se dar de bom coração a quem achou a moeda de ouro que se tenha perdido.
X
Se vemos morrer a árvore que plantamos, contentemo-nos com a madeira morta e plantemos
outra.
XI
Não murmuremos jamais se possuímos o que temos escolhido.
XII
Quando nossa sorte não surge de nossa eleição, tiremos dela o melhor partido e esperemos
trabalhando.
XIII
Busquemos a verdade com simplicidade sem nos apaixonar por uma idéia ou por uma crença.
XIV
Não discutamos jamais com ninguém. Sobreexcitando o amor próprio, a discussão produz a
obstinação, inimiga da verdade e da paz.
XV
Não nos indignemos jamais; nada merece nossa indignação e nada nos dá o direito de nos
indignarmos. Os crimes são catástrofes e os malvados, enfermos que se deve evitar sem odiar.
XVI
Não odiemos a ninguém nem tenhamos jamais ressentimentos. Os que nos fazem mal não sabem
o que fazem, ou cedem a arrebatamentos que os fazem mais desgraçados que nós.
XVII
Amemos sempre. Sendo o amor imortal, seu objeto não poderia morrer; mas os amores da terra
não continuam mais que sobre a terra. O ser amado que morre para a vida individual, vive todavia e
mais do que nunca na vida coletiva e é certamente a ele, a quem amamos no objeto de um novo amor.
XVIII
Pobre marido que chora e que crê que sua mulher esteja morta! Ela voltará, espere-a: se foi para
mudar de traje.
XIX
Nós somos os outros e os outros são, todavia, nós.
XX
Passados vinte anos, há muito poucos homens e mulheres que se lembrem ainda e que queiram
ressuscitar para voltar a possuir-se.
XXI
Também é raro que, quando se teve na juventude uma paixão infeliz, depois de vinte anos se sinta
não haver desposado a pessoa que se desejava então com tanto ardor.
XXIIA
s eternidades do amor sexual são eternidades de sete a dez anos.
XXIII
Tudo isto será esquecido na outra vida e voltaremos a encontrar a frescura de uma vida nova e a
casta ignorância da infância.
XXIV
A eminência eterna é o esquecimento, porque a recordação seria quase sempre, o desgosto, ou o
remorso.
XXV
Não teria jamais penas morais o que possuísse poder de esquecer.
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XXVI
O único a quem não se pode nem se deve esquecer jamais é a Deus; porque, está necessária e
absolutamente presente em todas nossas existências sucessivas.
XXVII
É em tudo o que amamos, buscamos unicamente um encanto que vem de Ele, que permanece em
Ele, e que sempre voltaremos a encontrar.
XXVIII
Há sobre os seres que nos são simpáticos um certo sinal que reconhecemos como sinal de família
e em todas suas transformações voltaremos a encontrar sempre aos nossos.
XXIX
Mas este sinal pode afirmar-se sobre tal ou qual, e depois de uma revolução de existência, não nos
lembramos mais daquele ou daquela como se nunca houvesse existido para nós.
XXX
Não choremos, pois, nunca a ninguém. Voltaremos a encontrar sempre aos que sempre devemos
amar.
XXXI
Os verdadeiros amigos não estão nunca separados realmente. Deus preenche todas as distâncias
e não deixa vazio entre os corações.
XXXII
Suportemos valentemente o castigo de nossas faltas e deixemos de nos envergonhar por eles uma
vez que já a tenhamos reparado.
XXXIII
Diz um provérbio vulgar que o inferno está pavimentado com boas intenções. Isto não é verdade.
Brilham no céu as boas intenções que produziram sobre a terra as ações ineptas, e o inferno esta
pavimentado com as más intenções que queriam encher o céu de falsas virtudes.
XXXIV
O retorno ao bem é preferido à inocência no Evangelho, o que é justo, porque a vida e um combate
e a inocência não é uma vitória.
XXXV
A cada um nesta vida, Deus dá um animal para domar. Os mais favorecidos são aqueles que lutam
contra um leão! Que glória possuem os que não tenham que domar mais quem um cordeiro?
XXXVI
Não sejas estranho a nada do humano e alternai prudentemente o emprego de tuas forças. O
estudo te absorve demasiado, busca distrações. Temperes a sabedoria com alguma loucura
voluntária. Se as coisas da inteligência te desgostam da vida material, imponhas-te por penitência,
partidas de prazer e entretenimentos alegres. Como o bom La Fontaine; ponde nos pratos da mesma
balança, Santo Agostinho e Rabelais. Poderás então admitir à Buruch sem perigo para tua razão.
XXXVII
Disse Salomão que o temor de Deus é o começo da sabedoria. Jesus invocou o amor de Deus que,
Segundo São Paulo, pode substituir a sabedoria; e, a alta iniciação ensina a identificação do homem
com Deus, que é a consumação eterna da sabedoria e do amor.
XXXVIII
"Paz profunda, irmão, disse um padre, Crê? Quando, ao saudar a outro, esse responde:
"Emanuel!", quer dizer: "Deus está conosco!".
XXXIX
Deus está com os justos e nos justos, nos sábios e com os sábios. A religião é a escada de Ouro
que Jacob viu em sonhos e que comunica o céu com a terra; mas os bonzos, os marabutos, os
brahmame, os faquires, os rabinos, os ulemas e os monges querem transformá-la na torre de Babel
que introduz a confusão nas idéias, faz ininteligíveis as palavras e divide as nações. O sacerdócio é
o verdadeiro bicho roedor da árvore das crenças universais. Assim, o Cristo propôs a si a missão de
destruir o sacerdócio e de substitui-lo pelo presbiteriado; quer dizer, pela liberdade organizada sob a
presidência dos anciãos. O sacerdócio como casta, o sacerdócio como profissão lucrativa, o
sacerdócio autocrata das consciências, o sacerdócio usurpador das coisas temporais, eis o que o
cristianismo devia destruir; e eis aqui o que os homens tem restabelecido descaradamente em seu
nome. Por ele o socialismo teria substituído ao Cristianismo. É um nome novo representando a mesma
idéia. Então, o socialismo realizado será o Messianismo, mas este nome ininteligível para o vulgo é
sagrado para os eleitos, quer dizer, para os iniciados. O exclusivismo religioso é da competência dos
impérios sacerdotais. Dizem: "Tomai meu unguento, que o do meu concorrente é
veneno". Comerciantes de água de Colônia, eu sou o verdadeiro João Maria Farina. Inutilmente
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tentou Jesus expulsar os mercadores do Templo; não teve êxito. Ilegal e imprudentemente os
transformou um dia, mas a justiça foi feita: crucificou-se o perturbador e a ordem se
restabeleceu. Enquanto a religião for pretexto de um comércio qualquer, não haverá religião
séria. A liberdade comercial é um princípio e esta liberdade tem autorizado, até agora, a exploração
da credulidade dos imbecis. Todos os que se fazem pagar por algo, vendem algo, e todos os que
vendem algo, são mercadores. O sacerdócio é um comércio; o presbiteriano seria uma função
respeitável porque não poderia ser retribuída. Quando São Paulo disse: "E preciso que o Sacerdote
viva do altar", confundiu o presbiteriano com o sacerdócio. O sacerdócio antigo matava para comer;
o presbiteriano de Jesus Cristo deixa-se matar para que os outros comam. Todo Sacerdote que vive
do altar come a carne dos pobres e bebe o sangue do povo. Mas Jesus deu aos pobres e ao povo
sua própria carne para comer o seu sangue para beber. É por isto que o reinado temporal de Roma
terminou e que seu reinado espiritual deverá terminar pela usurpação da divindade e o ridículo, mais
insuportável que a morte.
XL
No entanto, as magnificências do culto católico não devem terminar, como tampouco a mitologia
antiga e os esplendores do Panteão de Fídias. Maria é tão imortal como a Vênus Urânia, cuja imagem,
encontrada em Milo, indica com seus dois braços uma lira que Ihe falta. Achamos a lira de Vênus
eterna e devolveremos à Igreja Católica a ciência de seu dogma e as harmonias de seu culto. Pude
julgar a arquitetura do templo e admirar seu conjunto porque é do próprio templo... Eu sou livre e vou
aonde quero ir, mas, como o eterno me tem conservado o uso da razão, não posso ir nem é fealdade
nem é mentira. Amo tudo o que é, porque para minha vista não existe o mal. Digo a verdade sem
buscar aplausos e sem temer as injúrias. Vivi pobre e morrerei pobre, segundo o mundo; e, não
obstante, sinto que estou rico de verdades, de independência e de razão. Tenho formulado coisas que
Moisés e o Cristo haviam deixado adivinhar e nem por isso deixo de ser um homem hábil e tímido
como um menino. A verdade não me pertence, e dou como a recebi; passou por meu espírito quase
sem deixar vestígios nele, e se pudesse fazê-lo haveria preferido uma mentira que me desse
admiradores e evitado as mais terríveis lutas de minha vida. Mas é preciso que cada um cumpra com
seu destino. Piedade para aquele que se orgulha de algo! Tudo o que sobra ao homem do que amou é
a retidão de suas intenções e a esperança de um destino melhor em seu futuro que ninguém pode
prever e ao qual ninguém pode subtrair-se ou escapar.
ELIPHAS LEVI
20 de dezembro de 1870.
S.C.A. SOCIEDADE DAS CIÊNCIAS ANTIGAS
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Abril 2000

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