o mal é perturbador e destruidor.
XXXVI
O magnetismo é a serpente astral que promete a mulher um poder divino e que a arrasta à morte.
É também a dupla serpente que se enrola ao redor do caduceu de Hermes.
XXXVII
O caduceu é o centro do equilíbrio. Sejais donos de vós mesmos e sereis senhores dos outros.
Sejais equilibrados e sereis equilibrantes. A vara de Moisés é a mesma de Hermes. Quando a lança
transforma-se em serpente; quando se torna a pegá-la, transforma-se outra vez em vara. Nesta
alegoria tem-se que ver o grande segredo da direção do magnetismo.
XXXVIII
O que se irradia de nós sob o império da nossa vontade, volta a nós sob o império da fatalidade. Se
é luz de vida, nos imortalizará; se é o fósforo da morte, nos fará morrer... talvez para sempre.
CAPÍTULO V
A MORTE
I
A morte é a dissolução necessária das formações imperfeitas; é a reabsorção dos esboços da vida
particular no grande trabalho da vida universal. Não é imortal mais que o perfeito.
II
É um banho de esquecimento. É a fonte da juventude onde submergem-se por um lado os anciãos
e de onde saem da sombra as crianças.
III
A morte é a transformação dos vivos. Os cadáveres são as folhas mortas da árvore da vida que, na
Primavera, terá ainda todas as suas folhas. A ressurreição dos homens assemelha-se eternamente a
das folhas.
IV
As formas perecedouras estão determinadas pelos tipos imortais.
V
Todos os que viverem sobre a terra vivem nela ainda nos moldes novos de seus tipos; porém, as
almas que depuseram seu tipo, recebem em outra parte uma nova forma determinada por um tipo
mais perfeito, elevando-se sempre na escala dos mundos. Os maus e vazios são quebrados e sua
matéria retorna à massa comum.
VI
Nossas almas são como uma música da qual nossos corpos são os instrumentos; a música
subsiste sem o instrumento; porém, não pode se fazer ouvir. Sem um mediador material, o material é
inconcebível e inapreensível.
VII
O homem não guarda das suas existências passadas senão predisposições particulares na
existência presente.
VIII
O pecado original pelo qual Jesus Cristo responde, é a inocência devolvida a todos os homens. A
responsabilidade ante Deus supõe a perfeição e o homem perfeito é impecável.
IX
As evocações são as condenações das lembranças; e a colocação mediante imagens, das
sombras. Evocar aqui embaixo aos que não estão mais, é fazer surgir seu tipo da imaginação da
natureza.
X
Para estar em comunicação direta com a imaginação da natureza têm-se que estar no sonho, na
embriagues, no êxtase, na catalepsia ou na loucura.
XI
A lembrança eterna não conserva mais que as coisas imperecíveis. Tudo o que acontece no tempo
pertence de direito ao esquecimento.
XII
A conservação dos cadáveres é uma resistência às leis da natureza. É um ultraje ao pudor da
morte que oculta suas obras de destruição como nós devemos ocultar as da geração. Conservar os
cadáveres e criar fantasmas na imaginação da terra. Os espectros do pesadelo, da alucinação e do
medo não são senão as fotografias errantes dos cadáveres conservados.
XIII
São os cadáveres conservados ou mal destruídos os que espargem sobre os vivos a cólera, a
26
peste, as doenças contagiosas, a tristeza, O ceticismo e o tédio para a vida. A morte exala-se da
morte. Os cemitérios envenenam a atmosfera das cidades e as mesmas dos cadáveres voltam
raquíticas às crianças até ao seio de suas mães.
XIV
Perto de Jerusalém no vale do Gehenna, alimentava-se um fogo perpétuo para consumir as
sujeiras e os cadáveres dos animais, e é a esse fogo eterno que Jesus faz alusão quando diz que os
malvados serão lançados na Gehenna, para fazer entender que suas almas mortas serão tratadas
como cadáveres.
XV
O Talmud diz que as almas dos que não acreditaram na imortalidade, não serão imortais. Só a fé
dá a imortalidade pessoal; a ciência é a razão não afirmam senão a imortalidade coletiva.
XVI
No catecismo dos israelitas lê-se: "Nós cremos nas recompensas e nos castigos após a morte;
porém, não sabemos de que natureza são estes castigos e estas recompensas". Positivamente, sobre
isto, podemos conjeturar ou aceitar crenças, porém, não sabemos absolutamente nada, e os cristãos
razoáveis devem pensar como os israelitas. Pois bem, se sobre isto não sabemos nada, não é
necessário que o saibamos. Façamos, pois, este livro e vivamos em paz.
XVII
O pecado mortal é o suicídio da alma. Este suicídio teria lugar se o homem se entregasse ao mal
com toda a plenitude da sua razão com conhecimento perfeito do bem e do mal e com inteira
liberdade; o qual parece impossível de fato, porém é possível de direito, já que a essência da
personalidade independente é uma liberdade ilimitada: Deus não impõe nada ao homem, nem sequer
o ser. O homem tem, o direito de se subtrair até à bondade de Deus e o Dogma do inferno eterno não
é mais que a afirmação de liberdade eterna.
XVIII
Deus não precipita ninguém ao inferno. São os homens que podem ir livremente a ele,
definitivamente e a sua eleição.
XIX
Os que estão no inferno, ou seja, nas trevas do mal e nos suplícios do castigo necessário, sem ter
desejado absolutamente, são chamados a sair, e este inferno não é para eles mais que o purgatório.
XX
O réprobo completo, absoluto e sem retorno é Satã que é um ser sem razão, porém uma hipótese
necessária.
XXI
Satã é a última palavra da criação. É o finito, infinitamente emancipado. Quis ser semelhante a
Deus do qual é o oposto. Deus é a hipótese necessária da razão, Satã é a hipótese necessária do
sem razão afirmando-se como liberdade.
XXII
Para ser imortal no bem, há que identificar-se com Deus. Para ser imortal no mal, há que
identificar-se com Satã. Tais são os dois pólos do mundo das almas; entre estes dois pólos vegetam e
morrem sem lembrança os animais e os homens inúteis.
CAPÍTULO VI
SATÃ
I
Satã é um tipo, não é uma pessoa real.
II
É o tipo oposto ao tipo divino e é em nossa imaginação o contraste necessário. É a sombra fictícia
que nos torna visíveis à Luz infinita de Deus.
III
Se Satã fosse uma pessoa real, haveria dois deuses e a crença dos maniqueus seria uma verdade.
IV
Satã é a ficção do absoluto no mal. Ficção necessária para a afirmação integral de liberdade
humana que, por meio deste absoluto fictício, parece equilibrar a mesma onipotência de Deus. É o
mais atrevido e, talvez, o mais sublime dos sonhos do orgulho humano.
V
Sereis como OS DEUSES, conhecendo o bem e o mal, diz a serpente alegórica da Bíblia. Com
efeito, erigir o mal na ciência é criar um Deus do mal e se um espírito pode resistir eternamente a
Deus, aí não há um Deus, senão deuses.
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VI
Para resistir ao infinito, é necessário uma força infinita. Pois bem, duas forças infinitas opostas uma
à outra, se anulariam reciprocamente. Se a resistência de Satã é possível, o poder de Deus não o é
mais. Deus e o diabo destrõem-se mutuamente e o homem fica só.
VII
Fica só com o fantasma de seus deuses, a esfinge híbrida, o touro alado que balança na sua mão
de homem uma espada cujos relâmpagos alternados levam a imaginação humana de um erro a outro
e do despotismo da luz ao despotismo das trevas.
VIII
A história das desgraças do mundo é a época da luta dos deuses, luta que não acabou, porque o
mundo cristão adora ainda um. Deus do diabo e teme um diabo de Deus!
IX
O antagonismo das potências é a anarquia no dogma. Por isso, a igreja que diz: "O diabo é o
mundo", responde com uma lógica horrível: "Deus não é". E seria em vão que para escapar à razão,
se inventasse a supremacia de um Deus que permitisse ao diabo perder aos homens; uma tal
tolerância seria uma monstruosa cumplicidade e o Deus cúmplice do diabo não pode existir.
X
O diabo dogmático é o ateísmo personificado. O diabo filósofo é o ideal exagerado da liberdade
humana. O diabo real ou físico é o magnetismo do mal. O diabo vulgar é o compadre de
Polichinelo.
XI
Evocar ao diabo é realizar durante um instante sua personalidade fictícia. Para isto, é necessário
exagerar em si mesmo, além de toda medida, a perversidade e a demência, pelos atos mais criminais
e insensatos.
XIII
O resultado desta operação é a morte da alma pela loucura e freqüentemente a mesma morte do
corpo fulminado por uma congestão cerebral.
XIV
O diabo pede sempre e não dá nunca.
XV
São João chama-o a besta, porque sua essência é a imbecilidade humana.
CAPÍTULO VII
OCULTISMO
I
Liberdade, igualdade, fraternidade!, diz a democracia moderna. Sim, liberdade para os sábios,
igualdade entre os homens elevados ao mesmo grau da hierarquia humana e fraternidade para a
gente de bem. Porém servidão necessária para os insensatos, hierarquia para a humanidade inteira
e guerra entre os egoístas e os malvados. Eis aí as leis da natureza.
II
A humanidade está colocada sobre uma escada imensa cujo pé submerge-se nas trevas e cujo
cume oculta-se na luz. Entre estas duas extremidades, existem inúmeros degraus.
III
Aos homens da luz, as palavras claras, aos homens das trevas as palavras escuras e aos
intermediários, a discussão eterna das palavras duvidosas.
IV
Os homens que estão acima são os videntes; os homens que estão abaixo são os crentes; os
homens do meio são os sistemáticos e os que duvidam.
V
Os videntes são os sábios, os crentes cegos são os loucos e os que duvidam não são nada, porém
oscilam entre a sabedoria e a loucura, subindo às vezes, descendo outras e não se achando bem em
nenhuma parte.
VI
É necessário a verdade para os sábios, é necessária a dúvida para os arrazoadores, é necessária
a fábula para os loucos e as crianças. Conta uma fábula a um sábio e verá nela uma verdade. Dizei
uma verdade a um raciocinador e a revogará como dúvida; dizei uma verdade a um louco e a tornará
como uma fábula.
VII
Não se tem, pois, que falar a todos os homens da mesma forma.
28
VIII
Eis aqui porque os dogmas religiosos devem ser obscuros e até absurdos em aparência. A
religião dos sábios é a alta filosofia e a religião propriamente dita substitui, para os loucos, a filosofia
da qual são incapazes. Enquanto os que duvidam, não têm nem filosofia nem religião. Uma religião
cujas fórmulas foram razoáveis, seria inútil para os sábios e desprezada pelos loucos. A melhor
religião, ou seja, a mais apropriada às necessidades da estupidez humana, deve ser, pois, a mais
obscura e a mais absurda de todas e é isto que faz a superior idade incontestável do Catolicismo
Romano.
IX
Para os sábios, esta religião sublime é uma irmã de Caridade. Para os loucos, é a infalibilidade
pessoal do Papa. Para os arrazoadores, é uma estupidez... mais forte, porém, e mais vitoriosa que a
sua pretendida razão.
X
Não se dá a religião aos loucos com razões e virtudes; eles precisam de fórmulas ininteligíveis e
práticas minuciosas que os ocupem sem que tenham necessidade de pensar. E não se pode nem
sequer fazer-lhes aceitar a razão senão sob a máscara do mistério e da loucura. Se Moisés tivesse
demonstrado sabiamente aos judeus que a higiene é necessária para a saúde, os judeus teriam ficado
cheios de parasitas e de lepra. Em lugar de fazê-lo, ele prescreveu-lhes abluções legais em certas
horas e com certas cerimônias. Deixou-lhes crer que Deus ocupava-se de suas vestimentas e de suas
vasilhas. É necessário purificar os vasos, quebrar os recipientes que se tem impregnado de ar viciado
ou que tem servido durante muito tempo, não ter relações com uma mulher durante seus períodos,
etc., etc. Tudo isto unicamente porque Deus o ordena e tais devem ser as práticas de seu povo
privilegiado. Os rabinos tem sobrepujado a Moisés e têm dado às observações legais um caráter de
tirania e de absurdidade que é a própria força do Judaísmo e que o tem feito se conservar através das
idades, apesar das perseguições do fanatismo e os progressos da filosofia. Eis aqui o que deveriam
compreender os livres pensadores.
XI
Quando o Papa Pio IX, por haver ensaiado conciliar a fé e o progresso, a religião e a liberdade, viuse
expulso da sua cidade e da sua cadeira pelos companheiros de Garibaldi e os agitadores de
Mazzini, viu que tinha percorrido um caminho falso. Compreendeu do absolutismo, que se a fé
relaxava-se, é porque tinha necessidade que se a autoridade eclesiástica debilitava-se é porque
carecia de mais profundos mistérios e de mais inexplicáveis absurdidades. Então canonizou a São
Labre, proclamou a Imaculada Conceição e publicou a Syllabus. O gênio sacerdotal reconheceu então
nele seu verdadeiro mestre e os bispos reunidos em Roma estiveram dispostos a proclamá-lo infalível.
XII
O que a Igreja precisa não são homens de gênio: são diretores hábeis e sobretudo Santos; ou seja,
magnetizadores entusiastas e observadores. Os homens de gênio jamais foram católicos, pois
Bossuet era anglicano, Fenélon quistista, Pascal jansenista, Chateaubriand romântico, Lamennais
socialista; e, ainda agora os que perturbam a Igreja São os homens de talento: Monsenhor Dupanloup,
o bispo Strossmayer, o padre Cratry, o padre Jacinto; todos esses homens notáveis que possuem o
gênio do século e não têm o do sacerdócio.
XIII
As opiniões humanas buscam em vão aniquilar o que a natureza conserva.
XIV
Fala-se de religião natural; porém, a mais natural das religiões a mais absurda, já que é muito
natural que os homens caiam no absurdo quando querem formular o desconhecido.
XV
Falai de sabedoria às crianças e farão caretas e pensarão em Croquemitaine; porém, contai-lhes
"Pele de Asno" e vereis como o escutarão.
XVI
Vós dizeis que as crianças cresceram. Sem dúvida; porém, haverá sempre outras crianças.
XVII Não arrazoeis sobre cores com os cegos, senão conduzi-os; e, não fecheis os olhos para deixar
conduzir-vos por eles. Os oráculos que se recebem de olhos fechados são aqueles dos sonhos ou
da mentira. Entre os hebreus, quando se queria fazer falar a Deus tirava-se a sorte; procedimento
simples, porém ingênuo. Entre os cristãos têm-se colocado primeiro, as respostas de Deus maioria
de votos nos concílios, sem refletir muito no pequeno número de eleitos e no grande número de
loucos. Depois, têm-se chegado a fazer depender o oráculo de Deus do desejo do Papa. O concílio
de Nicéia decidiu que o filho de Deus é consubstancial com seu pai; o qual é, segundo a expressão do
29
Evangelho, supersubstancial, ou seja por cima de toda substância. O concílio de Éfeso declarou que
Deus tem uma mulher por mãe. O Papa Pio IX quis que esta mulher tivesse sido concebida sem
pecado, o que faz depender o pecado original do capricho de Deus; já que pode executar àquele que
melhor lhe parecer. Colocar em votação uma fórmula obscura ou contraditória, não é o mesmo que
tirar sorte para obter um oráculo? Tanto vale a decisão do Papa como a de um concílio, quando
trata-se da substância de Deus ou da imaculada Virgem. E, se trata de saber UTRUM CHIMDERA
IN VACUM BOMBINANS POSSIT COMEDER SECUNDAS INTENTIONES, se o Papa diz, "sim", eu
não terei força de dizer "não", e se ele diz "não", nada me provará que seja "sim" o que devia-se
dizer. Porém, que por semelhantes questões os príncipes e os povos possam armar-se uns contra
os outros é o que não se poderá suportar mais, uma vez que os homens chegaram a ter um pouco de
razão.
XVIII
Sendo o infinito um absurdo que se afirma invencível frente à ciência, precisam-se fórmulas
absurdas para manter no homem que não arrazoa, o grande sonho do infinito.
XIX
Dada uma quantidade de homens sérios aos quais interessa absolutamente saber se há que
chamar branco ou preto, redonda ou quadrada uma entidade abstrata, impalpável e invisível; que é
melhor, tirar a sorte, pôr a coisa em votação ou aceitar o que resolve o presidente da assembléia,
supondo que o que ele diga seja incontestável? Os três procedimentos são insensatos; porém o
ú1timo é ainda o menos irracional; porque podem-se preparar os dados, podem-se comprar os votos,
no entanto se está seguro que o Papa operará sempre em seu interesse, que é o do Catolicismo
Romano.
XX
Buscando a Deus no absurdo encontra-se ao diabo; porém, procurando ao diabo não se encontra a
razão. Analisai a Deus e ao diabo do vulgo; encontrareis no Deus o ideal poetizado do diabo e no
diabo a caricatura de Deus.
CAPÍTULO VIII
A FÉ
I
Certo dia uma mulher apareceu em uma praça de Alexandria. Em uma mão portava uma tocha
acesa e na outra uma vasilha com água. "Com esta tocha", exclamou, "quero incendiar o céu; com
esta água quero extinguir o inferno para dissipar todos os fantasmas que ocultam meu Deus e não crer
mais do que nele só".
II
Nós não podemos compreender o Deus. Podemos apenas saber o que dizemos quando
sussurramos seu nome; porém, sentimos em nós uma necessidade imperiosa, invencível, absoluta de
crer e de amá-lo.
III
Pode-se amar seriamente, pode-se amar por muito tempo aquilo que não existe? Pois bem, o amor
de Deus é o único que dura tanto como a vida e que se sente bastante poderoso e bastante crente
para acreditar na vida eterna!
IV
Oh, sim! Ele muito mais do que somos nós, porque o amamos mais que a vida. É melhor que todas
as bondades humanas, porque o amamos mais que a nossos pais e a nossas mães. E mais belo que
todas as belezas mortais porque o amamos mais que a nossas mulheres e a nossas filhas.
V
Nossas almas tem fome da divindade, têm sede do infinito e sentimos nossos corações crescerem
até a imensidão no sonho do sacrifício eterno.
VI
Tudo é de seu ser, tudo vive da sua vida. Tudo irradia da sua luz; tudo ri e canta da sua alegria. Ele
está em nós, está ao redor de nós, nos toca, nos fala, chora em nossas lágrimas, fortifica-nos em,
nossa dor; esquece-se dos nossos erros e lembram-se dos nossos bons desejos; tudo o que se ama
de belo, tudo o que se deseja de bem, tudo o que se admira de grande, tudo o que se exalta de
sublime, é ele, é ele, é ele. Ele está em tudo; todo inteiro em toda parte sem que possa ser dividido
ou contido. Não é nada do que podemos ver, tocar, mostrar, medir, definir. É tudo o que podemos
desejar, admirar, venerar, amar. Ele não é o ser, o princípio do ser; não é a vida, é o pai da vida; é
mais verdadeiro que a verdade, mais imenso que a imensidade, melhor que a bondade, mais belo que
a beleza. Toda substância vem dele, porém ele mesmo não tem substância. Nele tudo é lei sem ser
30
constrição, tudo é liberdade sem antinomia e sem antagonismo; sua vontade é imutável e não está
acorrentada, pode tudo o que quer e não pode querer se não o bem. Na afirmação eterna do
verdadeiro, do belo, do bem e do justo. É a inalterável serenidade de um sol sem declinação. Jamais
interrompe o curso das suas leis, não opera sobre o homem senão pela natureza, não se irrita nem se
acalma e nós não lhe rogamos para aprender e para nos exercitarmos em desejar o bem!
VII
Que se pode dizer quando tentamos falar dele, senão incoerências e absurdos? Não é ele o infinito
indivisível, o todo sem partes, o existente sem substância?... Dogmas humanos, palavras de delírio,
sejam esquecidas! Deus seria finito se pudesse ser definido; não falemos mais dele, vivamos para
sempre em seu amor! Símbolos, imagens, alegorias, lendas, são os sonhos da sua sombra... o amor é
a realidade da sua luz.
VIII
Amemos a verdade, amemos a razão, amemos a justiça e amaremos a Deus e lhe renderemos o
verdadeiro culto que pede! Amemos tudo o que foi criado, tudo o que anima, tudo o que ama e o
sentiremos viver em nós!
IX
Comunguemos com ele, comunguemos uns com os outros, comunguemos! Eis aqui a ú1tima
palavra da f é universal! Comunhões, digo; e não mais excomunhões!
X
Aquele que excomunga, se excomunga. Aquele que maldiz, se maldiz. O que reprova, se reprova.
A condenação só é condenada.
XI
"Nós temos o Alcorão", dizem os partidários do Islamismo; "Para que serve o Alcorão", dizem os
cristãos, "se temos o Evangelho?". "Para que o Evangelho" dizem os hebreus: "nós temos o Sepher
Torah". E eu digo: para que o Sepher Torah se temos a Deus? Porém estes livros sagrados são como
os véus de diferentes cores que estavam superpostos sobre o Tabernáculo. Viva Deus no Alcorão!
Viva Deus no Evangelho! Viva Deus no Sepher Torah! Porém, por cima de tudo, vive Deus no coração
dos justos! Viva Deus na justiça e na caridade! Viva Deus na solidariedade e na fraternidade universal!
XII
Amar a Deus é ver a Deus. Deus não é visível senão pelo amor, e este amor é a recompensa dos
corações puros. Sente-o eterno, sente-o infinito. Não se define nada, não se procura nada, não se
duvida de nada, não se teme nada, não se desejada nada se o ama!
XIII
A aquiescência perfeita da lei, a calma inalterável na contemplação do que é, a esperança
desinteressada do que deve ser, a certeza do bem e o repouso no absoluto, eis aí o Nirvana de Cakia-
Muni tão mal interpretado pelos que querem ver nele o aniquilamento da iniciativa Humana; eis aí a
perfeição do homem.
XIV
O amor divino é o pai dos verdadeiros milagres; ele transforma a natureza, dá à dor uma atração
maior que a do prazer; sobe e cresce sobre os obstáculos; cria um mundo fechado à ciência e à
filosofia; é o esplendor através do véu; é a real idade que os invade de repente e que os fixa numa
convicção mais inquebrantável que todas as certezas humanas.
XV
Sem, o amor divino não se pode amar aos homens: os homens sem pai não têm irmãos. O homem
é um monstro para o homem sem Deus.
XVI
A eternidade bem-aventurada começa com o amor divino; estamos na glória, estamos no céu,
moramos no infinito!
XVII
Que me cubra com purpura de Salomão com as ú1ceras de Job, eu direi: "Te amo". Se me diz: "Te
expulso da minha presença", responderei. "Te amo e tua presença me seguirá". Se me diz: "Te
reprovo", responderei: "Te escolho", e se ele quer me torturar, meu amor tomará asas para se elevar
mais alto que as nuvens, e caminhará sobre a tempestade.
XVIII
É que eu não creio no Deus dos homens, eu creio no Deus de Deus mesmo!... eu creio neste amor
sobrenatural que é a onipotência de Deus vivo para sempre em meu coração.
XIX
Bendirei nas cidades e nos campos, nos desertos e sobre os mares! Rogar-lhe-ei nas Igrejas, ao
ruído misterioso dos órgãos, proclamá-lo-ei nas sinagogas, aos esplendores do Buccin, prosternar-me31
ei ante ele nas mesquitas, ao chamado monótono do Muezzin... Porém melhor que tudo isto e
seguindo a palavra do grande mestre, retirar-me-ei a meu quarto e rogar-lhe-ei em meu coração!
XX
Retirar-me-ei na solidão, porém não ficarei fechado nela. Está por acaso Deus comigo só? Não
está vivente na natureza inteira? Não se expande a sua beleza nas flores, nas crianças e nas
mulheres? Não se sente no meio das debilidades e das agitações dos homens a força que os domina
e que os conduz? Não fugirei, pois, dos homens porque suas vaidades me enojam: seria egoísta e
enganar-me-ia se dissesse que amo a Deus. Amarei a teus filhos, o, meu pai! Sobretudo quando
estiverem doentes e parecerem abandonados por ti; porque então pensarei que os confias a mim.
Chorarei com os que choram, rirei com os que riem, cantarei com os que cantam. As carícias de uma
criança far-me-ão estremecer de alegria e a lembrança de uma mulher me fará sonhar em teu amor.
Porque não há nem malditos nem bastardos na tua família Criaste tudo em tua sabedoria e conduziste
tudo ao bem pela tua bondade. Todo amor vem de ti e volta a ti. A mulher a medianeira da tua graça;
e, o vinho que revigora o coração do homem o auxiliar do teu espírito. Longe de mim os que te
caluniam e dão teu nome a execráveis imagens. Que se esqueça para sempre esse pesadelo da
antiga barbárie, esse verdugo das suas criaturas a quem acumula em uma imensa podridão onde
conserva-as vivas salvando-as com fogo! Que se despreza para sempre a esse amo caprichoso como
a uma cortesã romana que escolhe a uns e rejeita a outros, que se irrita definitivamente por um
esquecimento, que sacrifica para si a seu próprio filho em favor daqueles contra quem não lhe apraz
irritar-se, tornando-se cada vez mais implacável para com todos os demais! Velhos ídolos, velhos
erros, nuvens disformes da noite, das antigas idades, o sol se levanta, seus raios atravessam de todos
os lados, como flechas de ouro. Retira-os para a noite, nuvem de inverno, a primavera sopra, dissipaos,
passai, passai!
XXI
O homem não é, não foi nunca e jamais será infalível, quaisquer que sejam as suas pretensões e
suas dignidades sacerdotais. Não há outra infalibilidade que o amor supremo unido a absoluta razão.
XXII
A razão sem amor carece de exatidão na ordem moral, porque carece de justiça. O amor sem
razão conduz fatalmente à loucura. Tenhamos pois, fé no amor inseparável da razão.
XXIII
Com esta fé, se sabeis, se quereis, se ousais e se tens a arte de calar-vos, sereis mais forte que o
mundo; e, o céu e a terra, cumprirão vossas vontades. Fareis, seguindo a promessa de Cristo, todos
os milagres que ele fez e até maiores ainda. O Mal desaparecerá ante vós e a dor será trocada por
consolações divinas. Sentireis em vós a vida eterna e não temereis mais a morte. Nada vos
faltará e não tereis mais decepções na vida. Os que queiram prejudicar-vos, danar-se-ão a si
mesmos e vos farão o bem.Tereis a riqueza como auxiliar, a pobreza por salvaguarda e por amiga;
porém a horrorosa miséria não vos acercar-se-á jamais. Os espíritos do céu vos acompanharão e vos
servirão. A providência cumprirá e proverá todos os vossos desejos. Vosso alento purificará o ar,
vossa palavra espargirá a alegria nas almas; vosso contato devolverá a saúde aos doentes; se cairdes
não vos ferireis e se querem fazer-vos mal, este retornará sobre quem o tenha querido.
CAPÍTULO IX
A CIÊNCIA
I
O absoluto indefinido é o ser e o absoluto definido é o saber. O ser inconsciente não se escora; é
escorado pela ciência de outro ser. O ser que se escora é o ser que sabe. O saber absoluto é idêntico
a absoluta entidade do ser. O ser moral é proporcional ao saber. Quanto mais se sabe mais se é
quanto mais se é, mais se merece e mais se deve.
II
A ciência é o ponto fixo ao redor do qual o amor, ou seja, a fé, deve fazer circular a razão.
III
A ciência é o princípio da sabedoria; ela se eleva do fato lei e não conhece nada mais alto; porém
inclina-se então ante a fé que, vendo quanto a lei é boa, concluí que ela é querida por uma vontade
sábia.
IV
A fé que precede a ciência não pode ser mais que provisória, a menos que não seja insensata.
V
Há que ter fé na ciência para chegar à ciência da fé.
VI
32
Fala-se de moral independente. Este epíteto não é exato. A moral depende da lei. Então, é a
ciência que nos faz conhecer a lei que nos da razões para acreditar no princípio vivente e vivificante
da lei.
VII
A ciência afirma o infinito, quebra todas as correntes e rompe todas as prisões do pensamento. Ela
faz descer o céu até nós e abre à nossa alma horizontes ilimitados; analisa os sóis, se vê por todos os
lados formigar astros sobre nossas cabeças, ao nosso lado e sob os nossos pés, esparge por toda
parte a luz e a vida e não deixa lugar nem para a morte nem para o inferno.
VIII
A ciência dissipa os terrores do desconhecido, libera-nos dos nossos preconceitos, dá uma regra
certa aos nossos desejos e uma carreira infinita a nossa atividade estimulada por legítimas
esperanças.
IX
Afundar a ciência é aprofundar o desespero, dizem-nos os crentes cegos e os cépticos
desalentados, e eu contesto-lhes aprofundando a ciência, descobre-se a mina de ouro das esperanças
legítimas.
X
A ciência é o instrumento do progresso é o progresso é a conquista da vida e da felicidade.
XI
Que me importa o desacorçoamento de Salomão e Agrippa? Do ponto em que eles se detiveram
voltarei a marchar; de onde se sentaram com a cabeça entre as mãos, na beira de uma fossa
entreaberta, levantar-me-ei cheio de entusiasmo e franquearei a tumba.
XII
A tumba! Essa porta que entreabrindo-se ao nosso lado, não nos deixa ver nada do que existe
além; essa porta atrai meu desejo pelo desconhecido. La, a ciência não se detém, e o umbral do
santuário onde se oculta o absoluto, é a entrada de uma nova ciência.
XIII
Saber é ter, saber é ser. saber é viver! Crer, esperar, amar; que é tudo isto se não se sabe nem o
que se crê, nem o que se espera, nem o que se ama?
XIV
Se o objeto da fé não é o postulado supremo da ciência, não é nada.
XV
A ciência quer a religião porque sabe que a religião é necessária. Quer uma religião eficaz, ou
seja, criadora e realizadora da fé. Quer uma religião hierárquica, porque a hierarquia é a lei natural
da natureza. Quer uma religião monárquica, porque não pode haver mais do que um Deus e porque
a monarquia regulamentada pelas leis é o governo mais simples, mais forte e mais perfeito. A
ciência quer, pois, a religião tal qual está preparada na Igreja católica, apostólica e até o presente,
romana. Os pastores ignorantes desta Igreja, podem muito bem querer marchar retrocedendo; a terra
gira apesar do que tenham dito os juizes de Galileu, e ela arrasta-os para frente.
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