O livro dos espiritos - parte 5


O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
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cooperasse no cumprimento das coisas, até mesmo daquelas a que gostaria
de se opor. Assim, preparais, vós mesmos, freqüentemente sem
desconfiar disso, os acontecimentos que sucederão no curso de vossa
vida.
870 Mas se é útil que o futuro seja oculto, por que Deus permite
algumas vezes sua revelação?
– Permite, quando esse conhecimento prévio deva facilitar o cumprimento
de algo em vez de dificultá-lo, ficando obrigado o homem a agir de
modo diferente do que faria sem esse conhecimento. Além disso, é, freqüentemente,
uma prova. A perspectiva de um acontecimento pode
despertar pensamentos bons ou maus. Se um homem souber, por exemplo,
que receberá uma herança com que não contava, pode ser que essa
revelação desperte nele a cobiça, pela expectativa de aumentar seus prazeres
terrestres, pelo desejo de se apossar de imediato da herança,
desejando, talvez, a morte daquele que lhe deve deixar a fortuna. Ou,
então, essa perspectiva pode despertar-lhe bons sentimentos e pensamentos
generosos. Se a predição não se cumpre, sofrerá uma outra prova:
a decepção. Mas ele não terá, por isso, mérito ou demérito pelos pensamentos
bons ou maus que a expectativa do acontecimento ocasionou.
871 Uma vez que Deus sabe tudo, sabe, igualmente, se um homem
deve fracassar ou não numa prova? Nesse caso, qual é a necessidade
dessa prova, que nada acrescentará ao que Deus já sabe a
respeito desse homem?
– É o mesmo que perguntar por que Deus não criou o homem perfeito
e realizado; (Veja a questão 119.) por que o homem passa pela infância
antes de atingir a idade adulta. (Veja a questão 379.) A prova não tem a
finalidade de esclarecer a Deus sobre o mérito dessa pessoa, visto que
sabe perfeitamente para que a prova lhe serve, mas, sim, para a deixar
com toda a responsabilidade de sua ação, uma vez que é livre para fazer
ou não. Tendo o homem a escolha entre o bem e o mal, a prova tem a
finalidade de colocá-lo em luta com a tentação do mal e lhe deixar todo o
mérito da resistência. Embora saiba muito bem, antecipadamente, se triunfará
ou não, Deus não pode, em Sua justiça, puni-lo nem recompensá-lo
por um ato que ainda não foi praticado. (Veja a questão 258.)
G Assim acontece entre os homens. Por mais capaz que seja um estudante,
qualquer certeza que se tenha de vê-lo triunfar, não se confere a
ele nenhum grau sem exame, ou seja, sem prova; do mesmo modo, o
juiz não condena um acusado senão por um ato consumado e não por
prever que ele possa consumar esse ato.
Quanto mais se examinam as conseqüências que resultariam para
o homem se tivesse o conhecimento do futuro, mais se vê quanto a
Providência foi sábia em ocultá-lo. A certeza de um acontecimento feliz
o mergulharia na inércia; a de um acontecimento infeliz, no desencoraja-
CAPÍTULO 10 – LEI DE LIBERDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
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mento; tanto em um quanto em outro, suas forças estariam paralisadas.
Por isso o futuro é apenas mostrado ao homem como um objetivo que
deve atingir por seus esforços, mas sem conhecer o processo pelo qual
deve passar para atingi-lo. O conhecimento de todos os incidentes do
caminho lhe diminuiria a iniciativa e o uso de seu livre-arbítrio; ele se
deixaria levar pela fatalidade dos acontecimentos, sem exercer suas
aptidões. Quando o sucesso de uma coisa é assegurado, ninguém se
preocupa mais com ela.
RESUMO TEÓRICO DA MOTIVAÇÃO DAS
AÇÕES DO HOMEM
872 A questão de ter a vontade livre, isto é, o livre-arbítrio, pode se
resumir assim: a criatura humana não é fatalmente conduzida ao mal; os
atos que pratica não estavam antecipadamente determinados; os crimes
que comete não resultam de uma sentença do destino. Ele pode, como
prova e expiação, escolher uma existência em que terá a sedução para o
crime, seja pelo meio em que se encontre ou pelos atos em que tomará
parte, mas está constantemente livre para agir ou não. Assim, o livre-arbítrio
existe no estado de Espírito, com a escolha da existência e das provas, e no
estado corporal, na disposição de ceder ou de resistir aos arrastamentos a
que estamos voluntariamente submetidos. Cabe à educação combater essas
más tendências; ela o fará utilmente quando estiver baseada no estudo
aprofundado da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que
regem essa natureza moral será possível modificá-la, como se modifica a
inteligência pela instrução, e como a higiene, que preserva a saúde e previne
as doenças, modifica o temperamento. O Espírito livre da matéria, no
intervalo das encarnações, faz a escolha de suas existências corporais futuras,
de acordo com o grau de perfeição que atingiu, e nisso, como dissemos,
consiste principalmente o seu livre-arbítrio. Essa liberdade não é anulada
pela encarnação. Se cede à influência da matéria é porque fracassa
nas próprias provas que escolheu, e para ajudá-lo a superá-las pode evocar
a assistência de Deus e dos bons Espíritos. (Veja a questão 337.)
Sem o livre-arbítrio o homem não teria nem culpa na prática do mal,
nem mérito no bem; e isso é igualmente reconhecido no mundo, onde
sempre se faz censura ou elogio à intenção, ou seja, à vontade; portanto,
quem diz vontade diz liberdade. Eis por que o homem não pode justificar
ou desculpar suas faltas atribuindo-as ao seu corpo sem abdicar da razão
e da condição de ser humano para se igualar ao irracional. Se o corpo
humano fosse responsável pela ação para o mal, o seria igualmente na
ação para o bem. Entretanto, quando o homem faz o bem, tem grande
cuidado para evidenciar o fato em seu favor, como mérito seu, e não exalta
ou gratifica seus órgãos. Isso prova que, instintivamente, ele não renuncia,
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apesar da opinião de alguns filósofos sistemáticos, ao mais belo dos privilégios
de sua espécie: a liberdade de pensar.
A fatalidade, como se entende geralmente, faz supor que todos os
acontecimentos da vida estão prévia e irrevogavelmente decididos, e estão
na ordem das coisas, seja qual for sua importância. Se assim fosse, o
homem seria uma máquina sem vontade. Para que serviria sua inteligência,
uma vez que em todos os atos seria invariavelmente dominado pelo
poder do destino? Uma doutrina assim, se fosse verdadeira, teria em si a
destruição de toda liberdade moral; não haveria mais responsabilidade
para o homem e, conseqüentemente, nem bem, nem mal, nem crimes,
nem virtudes. Deus, soberanamente justo, não poderia castigar suas criaturas
por faltas que não dependeram delas nem recompensá-las pelas
virtudes das quais não teriam o mérito. Uma lei assim seria, além disso, a
negação da lei do progresso, porque o homem que esperasse tudo do
destino nada tentaria para melhorar sua posição, já que não conseguiria
mudá-la nem para melhor nem para pior.
A fatalidade não é, entretanto, uma idéia vã; ela existe na posição que
o homem ocupa na Terra e nas funções que aí cumpre, por conseqüência
do gênero de existência que seu Espírito escolheu como prova, expiação
ou missão. Ele sofre, fatalmente, todas as alternâncias dessa existência e
todas as tendências, boas ou más, que lhe são próprias; porém, termina aí
a fatalidade, porque depende de sua vontade ceder ou não a essas tendências.
O detalhe dos acontecimentos depende das circunstâncias que
ele mesmo provoca por seus atos e sobre as quais os Espíritos podem
influenciar pelos pensamentos que sugerem. (Veja a questão 459.)
A fatalidade está, portanto, para o homem, nos acontecimentos que
se apresentam, uma vez que são a conseqüência da escolha da existência
que o Espírito fez. Pode deixar de ocorrer a fatalidade no resultado dos
acontecimentos, quando o homem, usando de prudência, modifica-lhes o
curso. Nunca há fatalidade nos atos da vida moral.
É na morte que o homem está submetido, de uma maneira absoluta, à
implacável lei da fatalidade, porque não pode escapar da sentença que fixa
o fim de sua existência, nem do gênero de morte que deve interrompê-la.
De acordo com a opinião geral, o homem possuiria todos os seus
instintos em si mesmo; eles procederiam de seu próprio corpo, pelos quais
não poderia ser responsável, ou de sua própria natureza, na qual pode
encontrar uma desculpa, para si mesmo, dizendo que não é sua culpa,
uma vez que foi criado assim.
A Doutrina Espírita é evidentemente muito mais moral: admite no homem
o livre-arbítrio em toda sua plenitude e, ao lhe dizer que, se faz o mal,
cede a uma má sugestão exterior, deixa-lhe toda a responsabilidade, uma
vez que reconhece seu poder de resistir, o que é evidentemente mais fácil
do que lutar contra sua própria natureza. Assim, de acordo com a Doutrina
CAPÍTULO 10 – LEI DE LIBERDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
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Espírita, não há sedução irresistível: o homem pode sempre fechar os ouvidos
à voz oculta do obsessor que o induz ao mal em seu íntimo, assim
como pode fechá-los quando alguém lhe fala; pode fazer isso por sua
vontade, ao pedir a Deus a força necessária e rogando a assistência dos
bons Espíritos. É o que Jesus nos ensina na sublime prece do Pai Nosso:
“Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
Essa teoria que mostra a causa determinante dos nossos atos ressalta
evidentemente de todo o ensinamento dado pelos Espíritos. Não é apenas
sublime em moralidade, mas acrescentaremos que eleva o homem a seus
próprios olhos. Mostra-o livre para repelir um domínio obsessor, como pode
fechar sua casa aos importunos. Não é mais uma máquina que age por um
impulso independente de sua vontade; é um ser racional, que escuta, julga
e escolhe livremente um entre dois conselhos. Apesar disso, o homem não
está impedido de agir por sua iniciativa, por impulso próprio, já que, definitivamente,
é apenas um Espírito encarnado que conserva, sob o corpo, as
qualidades e os defeitos que tinha como Espírito. As faltas que cometemos
têm, portanto, sua origem na imperfeição de nosso próprio Espírito, que
ainda não atingiu a superioridade moral que terá um dia, mas que nem por
isso tem seu livre-arbítrio limitado. A vida encarnada lhe é dada para se
depurar de suas imperfeições pelas provas que passa, e são precisamente
essas imperfeições que o tornam mais fraco e acessível às sugestões de
outros Espíritos imperfeitos, que aproveitam para se empenhar em fazê-lo
fracassar na luta. Se sai vencedor, eleva-se; se desperdiça a oportunidade e
fracassa, permanece o que era, nem pior, nem melhor: é uma prova que
terá de recomeçar, e isso pode durar muito tempo. Quanto mais se depura,
mais seus pontos fracos diminuem e menos se expõe àqueles que procuram
incitá-lo ao mal; sua força moral cresce em razão de sua elevação e os
maus Espíritos se afastam dele.
A raça humana é constituída tanto de Espíritos bons quanto de maus,
que estão encarnados neste planeta, e como a Terra é um dos mundos
menos avançados, nela se encontram mais Espíritos maus do que bons;
por isso há tanta perversidade aqui.
Façamos, portanto, todos os esforços para não voltarmos aqui após
essa existência e merecermos ser admitidos num mundo melhor, num desses
mundos privilegiados onde o bem reina absoluto, e lembraremos de
nossa passagem pela Terra apenas como um exílio temporário.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
287
873 O sentimento de justiça é natural ou é resultado de idéias
adquiridas?
– É tão natural que vos revoltais com o pensamento de uma injustiça.
O progresso moral desenvolve, sem dúvida, esse sentimento, mas não o
dá: Deus o colocou no coração do homem; por isso encontrareis, muitas
vezes, nos homens simples e primitivos noções mais exatas de justiça do
que naqueles que têm muito conhecimento.
874 Se a justiça é uma lei natural, por que os homens a entendem
de maneiras diferentes, e que um considere justo o que parece
injusto a outro?
– É que à Lei se misturam freqüentemente paixões que alteram esse
sentimento, como acontece com a maior parte dos outros sentimentos
naturais, e fazem o homem ver as coisas sob um falso ponto de vista.
875 Como se pode definir a justiça?
– A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um.
875 a O que determina esses direitos?
– São determinados por duas coisas: a lei humana e a lei natural.
Tendo os homens feito leis apropriadas aos seus costumes e caráter, essas
leis estabeleceram direitos que variaram com o progresso dos
conhecimentos. Observai que as vossas leis atuais, sem serem perfeitas,
já não consagram os mesmos direitos da Idade Média. No entanto, esses
direitos antiquados, que vos parecem monstruosos, pareciam justos e naturais
naquela época. O direito estabelecido pelos homens nem sempre,
portanto, está de acordo com a justiça. Regula apenas algumas relações
sociais, enquanto, na vida particular, há uma imensidão de atos unicamente
inerentes à consciência de cada um.
876 Fora do direito consagrado pela lei humana, qual é a base da
justiça fundada sobre a lei natural?
– O Cristo disse: “Não façais aos outros o que não quereis que vos
façam”. Deus colocou no coração do homem a regra de toda a verdadeira
justiça pelo desejo que cada um tem de ver respeitados os seus direitos.
JUSTIÇA E DIREITOS NATURAIS
CAPÍTULO
11
LEI DE JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE
Justiça e direitos naturais – Direito de propriedade.
Roubo – Caridade e amor ao próximo –
Amor maternal e filial
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
288
Na incerteza do que fazer em relação ao semelhante numa determinada
circunstância, o homem deve perguntar-se como desejaria que se fizesse
com ele na mesma circunstância: Deus não poderia lhe dar um guia mais
seguro do que a própria consciência.
G O critério da verdadeira justiça é, de fato, desejar aos outros o que
se deseja para si mesmo, e não desejar para si o que se desejaria para
os outros, o que não é a mesma coisa. Como não é natural desejar o
mal para si, se tomarmos o desejo pessoal como norma e ponto de
partida, estaremos sempre certos de apenas desejar o bem para o próximo.
Em todos os tempos e todas as crenças, o homem tem sempre
procurado fazer prevalecer seu direito pessoal. A sublimidade da religião
cristã foi tomar o direito pessoal por base do direito do próximo.
877 A necessidade para o homem de viver em sociedade lhe
impõe obrigações particulares?
– Sim, e a primeira de todas é a de respeitar os direitos dos semelhantes.
Aquele que respeitar esses direitos sempre será justo. Em vosso mundo,
onde tantos homens não praticam a lei da justiça, cada um usa de represálias,
e isso gera perturbação e confusão em vossa sociedade. A vida
social dá direitos e impõe deveres recíprocos.
878 Podendo o homem se enganar sobre a extensão de seu direito,
quem pode fazê-lo conhecer esse limite?
– O limite do direito será sempre o de dar aos seus semelhantes o
mesmo que quer para si, em circunstâncias iguais e reciprocamente.
878 a Mas se cada um conceder a si mesmo os direitos de seu
semelhante, em que se torna a subordinação em relação aos superiores?
Não causará a anarquia de todos os poderes?
– Os direitos naturais são os mesmos para todos, desde o menor até
o maior; Deus não fez uns mais puros que outros, e todos são iguais diante
d’Ele. Esses direitos são eternos. Porém, os direitos que o homem
estabeleceu desaparecem com suas instituições. Cada um percebe bem
sua força ou fraqueza e saberá sempre ter uma certa consideração com
aquele que a mereça por sua virtude e sabedoria. É importante destacar
isso, para que os que se julgam superiores conheçam seus deveres e
mereçam essa consideração. A subordinação não será comprometida
quando a autoridade for exercida com sabedoria.
879 Qual deve ser o caráter do homem que praticasse a justiça
em toda a sua pureza?
– Do verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, porque praticaria também
o amor ao próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.
DIREITO DE PROPRIEDADE. ROUBO
880 Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem?
– O de viver. Ninguém tem o direito de atentar contra a vida de seu
semelhante nem fazer o que possa comprometer sua existência física.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
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881 O direito de viver dá ao homem o direito de juntar o necessário
para viver e repousar, quando não puder mais trabalhar?
– Sim, mas deve fazê-lo socialmente, como a abelha, por um trabalho
honesto, e não juntar como um egoísta. Até mesmo certos animais lhe dão
o exemplo do que é previdência.
882 O homem tem o direito de defender o que juntou pelo seu
trabalho?
– A lei de Deus diz: “Não roubarás”; e Jesus: “É preciso dar a César o
que é de César”.
G O que o homem junta por um trabalho honesto é uma propriedade
legítima que tem o direito de defender, porque a propriedade que é fruto
do trabalho e um direito natural tão sagrado quanto o de trabalhar e
viver.
883 O desejo de possuir é natural?
– Sim, mas quando é apenas para si e para satisfação pessoal é
egoísmo.
883 a Será legítimo o desejo de possuir, para não se tornar peso
para ninguém?
– Existem homens insaciáveis que acumulam bens sem proveito para
ninguém, só para satisfazer as paixões. Acreditais que isso seja bem visto
por Deus? Aquele que, ao contrário, junta por seu trabalho para ajudar
seus semelhantes pratica a lei de amor e caridade e seu trabalho é abençoado
por Deus.
884 O que é uma propriedade legítima?
– Só é propriedade legítima a que foi adquirida sem prejudicar ninguém.
(Veja a questão 808.)
G A lei de amor e de justiça, ao ensinar que devemos fazer aos outros
o que quereríamos que nos fizessem, condena, por isso mesmo, todo
meio de ganho contrário a essa lei.
885 O direito de propriedade é ilimitado?
– Sem dúvida, tudo o que é adquirido de forma legítima é uma propriedade.
Porém, como dissemos, a legislação dos homens, sendo
imperfeita, consagra freqüentemente direitos que a justiça natural reprova.
É por essa razão que os homens reformam suas leis à medida que o progresso
se realiza e compreendem melhor a justiça. O que parece perfeito
num século é bárbaro no seguinte. (Veja a questão 795.)
CARIDADE E AMOR AO PRÓXIMO
886 Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade como a
entendia Jesus?
– Benevolência com todos, indulgência com as imperfeições dos
outros, perdão das ofensas.
CAPÍTULO 11 – LEI DE JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
290
G O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, porque
amar ao próximo é fazer todo o bem que está ao nosso alcance e que
gostaríamos que nos fosse feito. Esse é o sentido das palavras de Jesus:
“Amai-vos uns aos outros como irmãos”.
A caridade, para Jesus, não se limita à esmola. Ela abrange todas
as relações com nossos semelhantes, sejam inferiores, iguais ou superiores.
Ensina a indulgência, porque temos necessidade dela, e não nos
permite humilhar os outros, ao contrário do que muitas vezes se faz. Se
uma pessoa rica nos procura, temos por ela mil atenções, mil amabilidades;
se é pobre, parece não haver necessidade de nos incomodar. Porém,
quanto mais lastimável sua posição, mais se deve respeitar, sem
nunca aumentar sua infelicidade pela humilhação. O homem verdadeiramente
bom procura elevar o inferior aos seus próprios olhos, diminuindo
a distância entre ambos.
887 Jesus também disse: “Amai até mesmo os inimigos”. Porém,
o amor aos inimigos não é contrário às nossas tendências naturais? A
inimizade não provém da falta de simpatia entre os Espíritos?
– Sem dúvida, não se pode ter pelos inimigos um amor terno e apaixonado;
não foi o que Jesus quis dizer. Amar aos inimigos é perdoar e
pagar o mal com o bem. Agindo assim nos tornamos superiores a eles;
pela vingança, nos colocamos abaixo deles.
888 O que pensar da esmola?
– O homem reduzido a pedir esmola se degrada moral e fisicamente:
ele se embrutece. Numa sociedade baseada na lei de Deus e na justiça,
deve-se prover a vida do fraco sem humilhação e garantir a existência
daqueles que não podem trabalhar sem deixar sua vida sujeita ao acaso e
à boa vontade.
888 a Vós reprovais a esmola?
– Não; não é a esmola que é reprovável, é muitas vezes a maneira
como é dada. O homem de bem que compreende a caridade, como Jesus,
vai até o infeliz sem esperar que ele estenda a mão.
A verdadeira caridade é sempre boa e benevolente, tanto no ato quanto
na forma. Um serviço que nos é oferecido com delicadeza tem seu valor
aumentado; mas se é feito com ostentação, a necessidade pode fazer
com que seja aceito, porém o coração não se sente tocado.
Lembrai-vos também que a ostentação tira, aos olhos de Deus, o
mérito do benefício. Jesus ensinou: “Que a mão esquerda não saiba o que
faz a direita”, ensinando a não ofuscar a caridade com o orgulho.
É preciso distinguir a esmola propriamente dita da beneficência. O
mais necessitado nem sempre é aquele que pede; o temor da humilhação
tolhe o verdadeiro pobre, que sofre sem se lamentar; é a esse que o homem
verdadeiramente humano deve procurar sem ostentação.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
291
Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei. Lei divina pela qual Deus
governa os mundos. O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados;
a atração é a lei de amor para a matéria inorgânica.
Nunca vos esqueçais de que o Espírito, seja qual for seu grau de
adiantamento, sua situação como reencarnado ou no mundo espiritual,
está sempre colocado entre um superior que o guia e aperfeiçoa e um
inferior diante do qual tem esses mesmos deveres a cumprir.
Sede caridosos, praticando não apenas a caridade que tira do bolso
a esmola que dais friamente àquele que ousa pedir, mas a que vos leve ao
encontro das misérias ocultas. Sede indulgentes para com os defeitos de
vossos semelhantes. Em vez de desprezar a ignorância e o vício, instruí-os
e moralizai-os. Sede doces e benevolentes para todos que são inferiores;
sede doces e benevolentes mesmo em relação aos seres mais insignificantes
da criação e tereis obedecido à lei de Deus.
São Vicente de Paulo
889 Não existem homens reduzidos a mendigos por sua própria
culpa?
– Sem dúvida; mas se uma boa educação moral lhes ensinasse a
praticar a lei de Deus, não cairiam nos excessos que causam sua perdição;
é daí, especialmente, que depende o melhoramento de vosso globo.
(Veja a questão 707.)
AMOR MATERNO E FILIAL
890 O amor materno é uma virtude ou um sentimento instintivo
comum aos humanos e animais?
– Tanto um quanto outro. A natureza deu à mãe o amor pelos filhos no
interesse de sua conservação; mas no animal esse amor está limitado às
necessidades materiais e termina quando os cuidados tornam-se inúteis.
No homem, ele persiste por toda a vida e comporta um devotamento e um
desinteresse que são virtudes. Sobrevive até mesmo à morte e prossegue
no mundo espiritual. Observai bem que há nele outra coisa a mais que no
animal. (Veja as questões 205 e 385.)
891 Uma vez que o amor materno está na natureza, por que há
mães que odeiam seus filhos desde o nascimento?
– É algumas vezes uma prova escolhida pelo Espírito da criança, ou
uma expiação, se ele mesmo foi um mau pai, mãe ou um mau filho em
uma outra existência. (Veja a questão 392.) Em todos os casos, a mãe ruim
só pode ser animada por um mau Espírito que se empenha em dificultar a
existência do filho para que ele fracasse nas provas que aceitou. Mas essa
violação das leis da natureza não ficará impune e o Espírito da criança será
recompensado pelos obstáculos que tenha superado.
CAPÍTULO 11 – LEI DE JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
292
892 Quando os pais têm filhos que causam desgostos, não são
perdoáveis por não terem a mesma ternura que teriam em caso
contrário?
– Não, porque é um encargo a eles confiado e é sua missão fazer
todos os esforços para reconduzi-los ao bem (Veja as questões 582 e 583.)
Além disso, esses desgostos são freqüentemente o resultado dos maus
costumes que foram dados desde o berço: eles então colhem o que
semearam.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
293
893 Qual a mais meritória de todas as virtudes?
– Todas as virtudes têm seu mérito, porque indicam progresso no
caminho do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento
das más tendências; mas a sublimidade da virtude é o sacrifício
do interesse pessoal pelo bem de seu próximo, sem segundas intenções.
A mais merecedora das virtudes nasce da mais desinteressada caridade.
894 Há pessoas que fazem o bem de maneira espontânea, sem
precisar vencer nenhum sentimento contrário; têm tanto mérito quanto
as que têm de lutar contra sua própria natureza e que a superam?
– As que não têm de lutar é porque nelas o progresso está realizado.
Lutaram antes e venceram. Para estas os bons sentimentos não custam
nenhum esforço e suas ações parecem todas naturais: para elas o bem
tornou-se um hábito. Deve-se honrá-las como a velhos guerreiros que
conquistaram respeito.
Como ainda estais bem longe da perfeição, esses exemplos espantam
pelo contraste e são mais admirados por serem raros; mas sabei que,
nos mundos mais avançados, o que aqui é exceção lá é a regra. O sentimento
do bem é espontâneo por toda parte, porque são habitados só por
bons Espíritos, e uma única má intenção seria para eles uma exceção
monstruosa. Por isso nesses mundos os homens são felizes. E assim será
na Terra quando a humanidade se transformar, compreender e praticar a
caridade em seu verdadeiro sentido.
895 Além dos defeitos e vícios sobre os quais ninguém se enganaria,
qual o sinal mais característico da imperfeição?
– O interesse pessoal. As qualidades morais são, freqüentemente,
como banho de ouro sobre um objeto de cobre que não resiste à pedra de
toque1. Um homem pode ter qualidades reais que fazem dele, diante de
todos, um homem de bem. Mas essas qualidades, ainda que sejam um
progresso, nem sempre resistem a certas provas, e basta tocar no interes-
AS VIRTUDES E OS VÍCIOS
CAPÍTULO
12
PERFEIÇÃO MORAL
As virtudes e os vícios – Paixões – Egoísmo –
Características do homem de bem –
Conhecimento de si mesmo
1 - Pedra de toque: cristal duro que serve para os ourives verificarem a pureza de um metal
(N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
294
se pessoal para colocar o fundo a descoberto. O verdadeiro desinteresse
é coisa tão rara na Terra que é admirado como um fenômeno quando se
apresenta.
O apego às coisas materiais é um sinal notório de inferioridade, porque
quanto mais o homem se prende aos bens deste mundo menos
compreende sua destinação. Pelo desinteresse, ao contrário, prova que
vê o futuro sob um ponto de vista mais elevado.
896 Existem pessoas desinteressadas e sem discernimento, que
esbanjam seus bens sem proveito real por falta de um uso criterioso.
Terão, por isso, algum mérito?
– Elas têm o mérito do desinteresse, mas não do bem que poderiam
fazer. Se o desinteresse é uma virtude, a extravagância é sempre, pelo
menos, falta de senso. A riqueza não é dada a alguns para ser jogada ao
vento, nem a outros para ser trancada numa caixa-forte. É um depósito ou
um empréstimo de que deverão prestar contas, porque terão de responder
por todo bem que poderiam ter feito e não fizeram, e por todas as
lágrimas que poderiam secar com o dinheiro que deram aos que não
tinham necessidade.
897 É repreensível aquele que faz o bem, sem visar recompensa
na Terra, mas na esperança de ser recompensado na outra vida, para
que lá sua posição seja melhor? Esse pensamento prejudica seu progresso?
– É preciso fazer o bem pela caridade, com desinteresse.
897 a Entretanto, cada um tem o desejo natural de progredir,
para sair do estado aflitivo desta vida; os próprios Espíritos nos ensinam
a praticar o bem com esse objetivo; será, então, um mal ao pensar
que fazendo o bem podemos esperar mais do que na Terra?
– Certamente que não; mas aquele que faz o bem sem segundas
intenções e pelo único prazer de ser agradável a Deus e ao próximo já está
num certo grau de adiantamento que lhe permitirá atingir muito mais cedo
a felicidade do que seu irmão que, mais positivo, faz o bem calculadamente
e não por uma ação espontânea e natural de seu coração. (Veja a
questão 894.)
897 b Não há aqui uma distinção a fazer entre o bem que se
pode fazer ao próximo e o esforço que se faz para corrigir as próprias
faltas? Concebemos que fazer o bem com o pensamento de que será
levado em conta em outra vida é pouco meritório. Mas corrigir-se, vencer
as paixões, melhorar o caráter para se aproximar dos bons Espíritos
e se elevar será igualmente um sinal de inferioridade?
– Não, não. Quando dizemos fazer o bem, queremos dizer ser caridoso.
Aquele que calcula o que cada boa ação pode lhe render na vida
futura, assim como na terrestre, age como egoísta. Porém, não há nenhum
egoísmo em desejar se melhorar para se aproximar de Deus, porque
esse deve ser o objetivo para o qual cada um de nós deve se dirigir.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
295
898 Uma vez que a vida no corpo é temporária e que nosso futuro
deve ser a principal preocupação, é útil o esforço para adquirir conhecimentos
científicos referentes apenas às coisas e às necessidades
materiais?
– Sem dúvida. Inicialmente isso fará aliviar vossos irmãos; depois, vosso
Espírito se elevará mais rápido se já progrediu em inteligência; no intervalo
das encarnações, aprendereis em uma hora o que levaria anos na Terra.
Todo conhecimento é útil; todos contribuem para o progresso, porque o
Espírito para chegar à perfeição deve saber de tudo. Como o progresso
tem de se realizar em todos os sentidos, todas as idéias adquiridas contribuem
para o desenvolvimento do Espírito.
899 Dois homens são ricos: um nasceu na riqueza e nunca conheceu
a necessidade; o outro deve sua riqueza ao trabalho. Tanto um quanto
outro a empregam para satisfação pessoal. Qual o mais culpável?
– Aquele que conheceu os sofrimentos. Ele sabe o que é sofrer. Conhece
a dor mas não a alivia nos outros porque muito freqüentemente nem se
lembra dela.
900 Para quem acumula sem cessar e sem fazer o bem a ninguém
será válida como desculpa a idéia de que acumula para deixar
mais aos herdeiros?
– É um compromisso de má consciência.
901 Há dois avarentos: o primeiro priva-se do necessário e morre
sobre seu tesouro; o segundo é somente avarento para os outros;
mas pródigo para si mesmo, enquanto recua diante do mais breve
sacrifício para prestar um serviço ou fazer uma coisa útil, nenhum
custo é bastante para satisfazer seus gostos e paixões. Peça-lhe um
favor, e ele sempre é difícil; mas quando quer realizar uma fantasia,
tem sempre o bastante. Qual é o mais culpável e qual deles ficará em
pior situação no mundo dos Espíritos?
– Aquele que desfruta das coisas; ele é mais egoísta do que avarento:
o outro já vive uma parte de sua punição.
902 É errado desejar a riqueza para fazer o bem?
– O sentimento é louvável, sem dúvida, quando é puro; mas será
esse desejo desinteressado e não esconderá nenhuma segunda intenção
pessoal? A primeira pessoa à qual se deseja fazer o bem não é freqüentemente
a si mesmo?
903 É errado estudar os defeitos dos outros?
– Se é para divulgação e crítica há grande erro, porque é faltar com a
caridade. Porém, se a análise resultar em seu proveito pessoal evitandoos
para si mesmo, isso pode algumas vezes ser útil. Mas é preciso não
esquecer que a indulgência com os defeitos dos outros é uma das virtudes
contidas na caridade. Antes de censurar os outros pelas imperfeições,
vede se não se pode dizer o mesmo de vós. Empenhai-vos em ter as
CAPÍTULO 12 – PERFEIÇÃO MORAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
296
qualidades opostas aos defeitos que criticais nos outros, esse é o meio de
vos tornardes superiores; se os censurais por serem mesquinhos, sede
generosos; por serem orgulhosos, sede humildes e modestos; por serem
duros, sede dóceis; por agirem com baixeza, sede grandes em todas as
ações. Em uma palavra, fazei de maneira que não se possa aplicar a vós
estas palavras de Jesus: “Vê um cisco no olho de seu vizinho e não vê
uma trave no seu”.
904 É errado investigar e revelar os males da sociedade?
– Depende do sentimento com que se faz; se o escritor quer apenas
produzir escândalo, é um prazer pessoal que procura, apresentando quadros
que mostram antes um mau do que bom exemplo. Apesar de ter feito
uma avaliação, como Espírito, pode ser punido por essa espécie de prazer
que tem em revelar o mal.
904 a Como, nesse caso, julgar a pureza das intenções e a sinceridade
do escritor?
– Isso nem sempre é útil mas,se escreve coisas boas, aproveitai-as.
Se forem más, ignorai-as. É uma questão de consciência dele. Afinal, se
deseja provar sua sinceridade, deve apoiar o que escreve com seu próprio
exemplo.
905 Certos autores publicaram obras belíssimas, de elevada
moral, que ajudam o progresso da humanidade, mas eles mesmos
não tiram delas nenhum proveito; como Espíritos, será levado em conta
o bem que fizeram com essas obras?
– A moral sem as ações é a semente sem trabalho. De que serve a
semente se não é multiplicada para vos alimentar? Esses homens são
mais culpáveis, porque tiveram a inteligência para compreender. Não praticando
os ensinamentos que deram aos outros, renunciaram a colher seus
próprios frutos.
906 É errado, ao fazer o bem, ter consciência disso e reconhecê-lo?
– Tendo consciência do mal que faz, deve o homem também ter consciência
do bem e saber se age bem ou mal. Ponderando suas ações
diante das leis divinas, e principalmente na lei de justiça, amor e caridade,
é que poderá dizer se elas são boas ou más, aprová-las ou não. Ele não
estará errado quando reconhecer que venceu suas más tendências e fica
satisfeito, desde que não se envaideça, porque então cairá em outra falta.
(Veja a questão 919.)
PAIXÕES
907 O princípio das paixões, sendo natural, é mau em si mesmo?
– Não. A paixão está no excesso acrescentado à vontade, já que o
princípio foi dado ao homem para o bem, e as paixões podem levá-lo a
realizar grandes coisas. É no seu abuso que está a causa do mal.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
297
908 Como definir o limite em que as paixões deixam de ser boas
ou más?
– As paixões são semelhantes a um cavalo, que é útil quando é dominado
e perigoso quando domina. Reconhecei que uma paixão torna-se
perigosa no momento em que deixais de governá-la e resultar qualquer
prejuízo para vós ou para os outros.
G As paixões são como alavancas que aumentam dez vezes mais as
forças do homem e o ajudam na realização dos objetivos da Providência;
mas se ao invés de dirigi-las o homem se deixa dirigir por elas, cai no
excesso e até mesmo a força que em sua mão poderia fazer o bem
volta-se sobre ele e o esmaga.
Todas as paixões têm seu princípio num sentimento ou necessidade
natural. O princípio das paixões não é, portanto, um mal, uma vez
que repousa sobre uma das condições providenciais de nossa existência.
A paixão, propriamente dita, conforme habitualmente se entende, é
o exagero de uma necessidade ou de um sentimento. Está no excesso
e não na causa; e esse excesso torna-se mau quando tem por conseqüência
um mal qualquer.
Toda paixão que aproxima a pessoa da natureza primitiva a afasta
de sua natureza espiritual.
Todo sentimento que eleva a pessoa acima da natureza primitiva revela
a predominância do Espírito sobre a matéria e a aproxima da perfeição.
909 O homem poderia sempre vencer suas más tendências pelos
seus esforços?
– Sim, e algumas vezes com pouco esforço; é a vontade que lhe falta.
Como são poucos dentre vós os que se esforçam!
910 O homem pode encontrar nos Espíritos uma assistência eficaz
para superar suas paixões?
– Se ele orar a Deus e a seu protetor com sinceridade, os bons Espíritos
certamente virão em sua ajuda, porque é missão deles. (Veja a
questão 459.)
911 Não existem paixões tão vivas e irresistíveis que a vontade
não tenha o poder de superá-las?
– Há muitas pessoas que dizem: Eu quero, mas a vontade está apenas
nos lábios. Querem, mas estão bem satisfeitas que assim não seja.
Quando o homem não acredita poder vencer suas paixões, é que seu
Espírito se satisfaz nisso por conseqüência de sua inferioridade. Aquele
que procura reprimi-las compreende sua natureza espiritual; vencê-las é,
para ele, uma vitória do Espírito sobre a matéria.
912 Qual o meio mais eficaz de combater a predominância da
natureza corporal?
– Praticar o desprendimento.
CAPÍTULO 12 – PERFEIÇÃO MORAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
298
EGOÍSMO
913 Entre os vícios, qual se pode considerar o pior?
– Já dissemos várias vezes: é o egoísmo; dele deriva todo mal. Estudai
todos os vícios e vereis que no fundo de todos existe egoísmo. Vós os
combatereis inutilmente e não conseguireis arrancá-los enquanto não
tiverdes atacado o mal pela raiz, enquanto não tiverdes destruído a causa.
Que todos os vossos esforços tendam para esse objetivo, porque aí está
a verdadeira chaga da sociedade. Aquele que deseja se aproximar, já nesta
vida, da perfeição moral, deve arrancar de seu coração todo sentimento
de egoísmo, por ser incompatível com a justiça, o amor e a caridade: ele
neutraliza todas as outras qualidades.
914 Parece bem difícil extinguir inteiramente o egoísmo do coração
do homem se ele estiver baseado no interesse pessoal; pode-se
conseguir isso?
– À medida que os homens se esclarecem sobre as coisas espirituais,
dão menos valor às materiais. É preciso reformar as instituições humanas
que estimulam e mantêm o egoísmo. Isso depende da educação.
915 O egoísmo, sendo próprio da espécie humana, não será sempre
um obstáculo para que reine o bem absoluto na Terra?
– É certo que o egoísmo é o maior mal, mas ele se prende à inferioridade
dos Espíritos encarnados na Terra, e não à humanidade em si mesma;
os Espíritos, ao se depurarem nas sucessivas encarnações, perdem o
egoísmo como perdem outras impurezas. Não tendes na Terra algum homem
desprovido de egoísmo e praticando a caridade? Há mais do que
imaginais, porém pouco os conheceis, porque a virtude não se põe em
evidência; se há um, por que não haveria dez? Se há dez, por que não
haveria mil e assim por diante?
916 O egoísmo, longe de diminuir, aumenta com a civilização, que
parece excitá-lo e mantê-lo; como a causa poderá destruir o efeito?
– Quanto maior o mal, mais se torna horrível. Será preciso que o egoísmo
cause muito mal para fazer compreender a necessidade de extingui-lo.
Quando os homens tiverem se libertado do egoísmo que os domina, viverão
como irmãos, não se fazendo nenhum mal, ajudando-se mutuamente
pelo sentimento natural da solidariedade; então o forte será o apoio e não
opressor do fraco, e não se verão mais homens desprovidos do indispensável
para viver, porque todos praticarão a lei da justiça. É o reino do bem
que os Espíritos estão encarregados de preparar. (Veja a questão 784.)
917 Qual o meio de destruir o egoísmo?
– De todas as imperfeições humanas, a mais difícil de extinguir é o
egoísmo, porque se liga à influência da matéria da qual o homem, ainda
muito próximo de sua origem, não se pode libertar. Tudo concorre para
manter essa influência: suas leis, sua organização social, sua educação.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
299
O egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a
material, e principalmente com a compreensão que o Espiritismo vos dá
do futuro real, e não desnaturado pelas ficções alegóricas. O Espiritismo
bem compreendido, quando estiver identificado com os costumes e as
crenças, transformará os hábitos, os usos, as relações sociais. O egoísmo
está fundado sobre a importância da personalidade; portanto, o Espiritismo
bem compreendido, repito, mostra as coisas de tão alto que o
sentimento da personalidade desaparece, de alguma forma, perante a imensidão.
Ao destruir essa importância, ou pelo menos ao fazer vê-la como é,
combate necessariamente o egoísmo.
É o choque que o homem experimenta do egoísmo dos outros que o
torna freqüentemente egoísta por si mesmo, porque ele sente a necessidade
de se colocar na defensiva. Ao ver que os outros pensam só em si
mesmos e não nos demais, é conduzido a se ocupar de si mais do que
dos outros. Que o princípio da caridade e da fraternidade seja a base das
instituições sociais, das relações legais de povo para povo e de homem
para homem, e o homem pensará menos em sua pessoa quando vir que
outros pensam nisso; ele sofrerá a influência moralizadora do exemplo e
do contato. Em face da atual intensidade do egoísmo humano, é preciso
uma verdadeira virtude para se desprender de sua personalidade em favor
dos outros, que freqüentemente não sabem agradecer. É principalmente
para os que possuem essa virtude que o reino dos céus está aberto; é
especialmente para eles que está reservada a felicidade dos eleitos, porque
eu vos digo em verdade que, no dia da justiça, quem tiver apenas
pensado em si mesmo será colocado de lado e sofrerá no seu abandono.
(Veja a questão 785.)
Fénelon
G Sem dúvida, louváveis esforços são feitos para que a humanidade
avance; encorajam-se, estimulam-se, honram-se os bons sentimentos
mais do que em qualquer outra época e, entretanto, o verme roedor do
egoísmo continua sendo sempre a chaga social. É um mal real que recai
sobre todo o mundo, do qual cada um é mais ou menos vítima. É preciso
combatê-lo como se combate uma doença epidêmica. Para isso, devese
proceder à maneira dos médicos: ir à origem. Que se procurem, então,
em todas as partes da organização social, desde a família até os povos,
desde a cabana até os palácios, todas as causas, todas as influências
evidentes ou escondidas que excitam, mantêm e desenvolvem o sentimento
do egoísmo; uma vez conhecidas as causas, o remédio se mostrará
por si mesmo. Restará somente combatê-las, senão todas de uma
vez, pelo menos parcialmente e, pouco a pouco, o veneno será eliminado.
A cura poderá ser demorada, porque as causas são numerosas,
mas não é impossível. Isso só acontecerá se o mal for atacado pela raiz,
ou seja, pela educação; não pela educação que tende a fazer homens
CAPÍTULO 12 – PERFEIÇÃO MORAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
300
instruídos, mas a que tende a fazer homens de bem. A educação, bem
entendida, é a chave do progresso moral; quando se conhecerem a arte
de manejar os caracteres, o conjunto de qualidades do homem, como se
conhece a de manejar as inteligências, será possível endireitá-los, como
se endireitam plantas novas; mas essa arte exige muito tato, muita experiência
e uma profunda observação. É um grave erro acreditar que
basta ter o conhecimento da ciência para exercê-la com proveito. Todo
aquele que acompanha o filho do rico ou do pobre, desde o nascimento
e observa todas as influências más que atuam sobre eles por conseqüência
da fraqueza, do desleixo e da ignorância daqueles que os dirigem,
quando, freqüentemente, os meios que se utilizam para moralizá-lo
falham, não se pode espantar em encontrar no mundo tantos defeitos.
Que se faça pela moral tanto quanto se faz pela inteligência e se verá
que, se existem naturezas refratárias, que se recusam a aceitá-las, há,
mais do que se pensa, as que exigem apenas uma boa cultura para
produzir bons frutos. (Veja a questão 872.)
O homem deseja ser feliz e esse sentimento é natural; por isso trabalha
sem parar para melhorar sua posição na Terra; ele procura a causa de
seus males a fim de remediá-los. Quando compreender que o egoísmo é
uma dessas causas, responsável pelo orgulho, ambição, cobiça, inveja,
ódio, ciúme, que o magoam a cada instante, que provoca a perturbação
e as desavenças em todas as relações sociais e destrói a confiança, que
o obriga a se manter constantemente na defensiva, e que, enfim, do amigo
faz um inimigo, então compreenderá também que esse vício é incompatível
com sua própria felicidade e até mesmo com sua própria segurança. E
quanto mais sofre com isso, mais sentirá a necessidade de combatê-lo,
assim como combate a peste, os animais nocivos e os outros flagelos; ele
será levado a agir assim por seu próprio interesse. (Veja a questão 784.)
O egoísmo é a fonte de todos os vícios, assim como a caridade é
de todas as virtudes; destruir um, desenvolver o outro, esse deve ser o
objetivo de todos os esforços do homem, se quiser assegurar sua felicidade
aqui na Terra e, futuramente, no mundo espiritual.
CARACTERÍSTICAS DO HOMEM DE BEM
918 Por que sinais pode-se reconhecer num homem o progresso
real que deve elevar seu Espírito na hierarquia espírita?
– O Espírito prova sua elevação quando todos os atos de sua vida são
a prática da lei de Deus e quando compreende por antecipação a vida
espiritual.
G O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça,
amor e caridade em sua maior pureza. Se interroga sua consciência
sobre os atos realizados, perguntará se não violou essa lei, se não pra-
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
301
ticou o mal, se fez todo o bem que pôde, se ninguém tem nada a se
queixar dele, enfim, se fez aos outros o que gostaria que os outros fizessem
por ele.
O homem cheio do sentimento de caridade e amor ao próximo faz o
bem pelo bem, sem esperar retorno, e sacrifica seu interesse à justiça. É
bom, humano e benevolente para com todos, porque vê irmãos em
todos os homens, sem exceção de raças nem de crenças.
Se Deus lhe deu poder e riqueza, vê essas coisas como um depósito
do qual deve fazer uso para o bem. Não tira disso nenhuma vantagem,
porque sabe que Deus, que os deu, pode tirá-los. Se a ordem
social colocou homens sob sua dependência, trata-os com bondade e
benevolência, por serem seus iguais diante de Deus; usa de sua autoridade
para elevar-lhes o moral , e não para esmagá-los com seu orgulho.
É indulgente para com as fraquezas dos outros, por saber que ele
mesmo tem necessidade de indulgência, e se lembra dessas palavras
do Cristo: “Que aquele que não tiver pecado atire a primeira pedra”.
Não é vingativo. A exemplo de Jesus, perdoa as ofensas para se
lembrar apenas dos benefícios, porque sabe que será perdoado como
ele próprio tiver perdoado.
Respeita em seus semelhantes todos os direitos que as leis da natureza
lhes concedem, assim como gosta que respeitem os seus.
CONHECIMENTO DE SI MESMO
919 Qual o meio prático mais eficaz para se melhorar nesta vida
e resistir aos arrastamentos do mal?
– Um sábio da Antiguidade vos disse: “Conhece-te a ti mesmo”.
919 a Concebemos toda sabedoria desse ensinamento, mas a
dificuldade está precisamente em conhecer-se a si mesmo; qual é o
meio de conseguir isso?
– Fazei o que eu fazia quando estava na Terra: no fim do dia, interrogava
minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava
se não havia faltado com o dever, se ninguém tinha do que se queixar de
mim. Foi assim que consegui me conhecer e ver o que havia reformado
em mim. Aquele que, a cada noite, se lembrasse de todas as suas ações
do dia e se perguntasse o que fez de bom ou de mau, orando a Deus e ao
seu anjo de guarda para esclarecê-lo, adquiriria uma grande força para se
aperfeiçoar porque, acreditai em mim, Deus o assistiria. Interrogai-vos sobre
essas questões e perguntai o que fizestes e com que objetivo agistes
em determinada circunstância, se fizestes qualquer coisa que censuraríeis
em outras pessoas, se fizestes uma ação que não ousaríeis confessar.
Perguntai-vos ainda isso: se agradasse a Deus me chamar nesse momento,
teria eu, ao entrar no mundo dos Espíritos, onde nada é oculto, o que
temer diante de alguém? Examinai o que podeis ter feito contra Deus,
CAPÍTULO 12 – PERFEIÇÃO MORAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
302
depois contra vosso próximo e, por fim, contra vós mesmos. As respostas
serão um repouso para vossa consciência ou a indicação de um mal que
é preciso curar.
O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do melhoramento
individual. Mas, direis, como proceder a esse julgamento? Não se tem a
ilusão do amor-próprio que ameniza as faltas e as desculpa? O avaro acredita
ser simplesmente econômico e previdente; o orgulhoso acredita
somente ter dignidade. Isso não deixa de ser verdade, mas tendes um
meio de controle que não pode vos enganar. Quando estiverdes indecisos
sobre o valor de uma de vossas ações, perguntai-vos como a qualificaríeis
se fosse feita por outra pessoa; se a censurais nos outros, não poderá ser
mais legítima em vós, porque Deus não tem duas medidas para a justiça.
Procurai, assim, saber o que os outros pensam, e não negligencieis a
opinião dos opositores, porque estes não têm nenhum interesse em dissimular
a verdade e, muitas vezes, Deus os coloca ao vosso lado como um
espelho, para vos advertir com mais franqueza do que faria um amigo.
Que aquele que tem a vontade séria de se melhorar sonde sua consciência,
a fim de arrancar de si as más tendências, como arranca as más ervas
de seu jardim. Que faça o balanço de sua jornada moral, como o mercador
faz a de suas perdas e lucros, e eu vos asseguro que isso resultará em
seu benefício. Se puder dizer a si mesmo que seu dia foi bom, pode dormir
em paz e esperar sem temor o despertar na outra vida.
Submetei à análise questões claras e precisas e não temeis multiplicá-
las: pode-se muito bem dedicar alguns minutos para conquistar uma
felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias visando a juntar o que vos
dê repouso na velhice? Esse repouso não é objeto de todos os vossos
desejos, o objetivo que vos faz suportar fadigas e privações momentâneas?
Pois bem! O que é esse repouso de alguns dias, perturbado pelas
enfermidades do corpo, ao lado daquele que espera o homem de bem?
Não vale a pena fazer algum esforço? Sei que muitos dizem que o presente
é positivo e o futuro incerto; portanto, eis aí, precisamente, o pensamento
de que estamos encarregados de destruir em vós, porque desejamos que
compreendais esse futuro de maneira que não possa deixar nenhuma dúvida
na vossa alma. Eis por que chamamos inicialmente vossa atenção
para os fenômenos que impressionavam os vossos sentidos e depois vos
demos as instruções que cada um está encarregado de divulgar. Foi com
esse objetivo que ditamosO Livro dos Espíritos.
Santo Agostinho
G Muitas faltas que cometemos passam despercebidas por nós; se,
de fato, seguindo o conselho de Santo Agostinho, interrogarmos mais
freqüentemente nossa consciência, veremos quantas vezes falhamos
sem perceber, por não examinar a natureza e a motivação de nossos
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE TERCEIRA
303
atos. A forma interrogativa tem alguma coisa de mais preciso do que o
ensinamento do “conhece-te a ti mesmo”, que freqüentemente não se
aplica a nós mesmos. Ela exige respostas categóricas, por um sim ou
um não, que não deixam alternativa; são igualmente argumentos pessoais,
e pela soma das respostas pode-se calcular a soma do bem e do
mal que está em nós.
CAPÍTULO 12 – PERFEIÇÃO MORAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
304
920 O homem pode desfrutar na Terra de uma felicidade completa?
– Não, uma vez que a vida lhe foi dada como prova ou expiação; mas
depende dele amenizar esses males e ser tão feliz quanto se pode ser na
Terra.
921 Concebe-se que o homem será feliz na Terra quando a humanidade
estiver transformada. Mas, enquanto isso, cada um pode
garantir para si uma felicidade relativa?
– O homem é quase sempre o agente de sua própria infelicidade. Ao
praticar a lei de Deus, se pouparia dos males e desfrutaria de uma felicidade
tão grande quanto o comporta sua existência grosseira.
G O homem bem compenetrado de sua destinação futura vê na vida
corporal apenas uma estação temporária. É como uma estada passageira
numa hospedaria; ele se consola facilmente de alguns desgostos
passageiros de uma viagem que deve conduzi-lo a uma posição tanto
melhor quanto melhor tenha se preparado.
Somos punidos, já nesta vida, pelas infrações às leis da existência
corporal, pelos males que são a conseqüência dessa infração e de nosso
próprio excesso. Se voltarmos gradativamente à origem do que chamamos
de nossas infelicidades terrenas, as veremos, na maioria das
vezes, como conseqüência de um primeiro desvio do caminho reto. Por
esse desvio, entramos no mau caminho e, de conseqüência em conseqüência,
caímos na infelicidade.
922 A felicidade terrena é relativa à posição de cada um; o que
basta à felicidade de um faz a infelicidade de outro. Existe, entretanto,
uma medida de felicidade comum a todos os homens?
– Para a vida material, é a posse do necessário; para a vida moral, a
pureza da consciência e a fé no futuro.
FELICIDADE E INFELICIDADE RELATIVAS
CAPÍTULO
PARTE QUARTA
ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES
1
PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS
Felicidade e infelicidade relativas – Perda de
pessoas amadas – Decepção. Ingratidão. Afeições
destruídas – Uniões antipáticas – Medo da morte –
Desgosto da vida. Suicídio
305
923 O que é supérfluo para uns não se torna necessário para
outros e, reciprocamente, conforme suas posições na sociedade?
– Sim, de acordo com vossas idéias materiais, preconceitos e ambição,
e todos os caprichos ridículos aos quais o futuro fará justiça quando
compreenderdes a verdade. Sem dúvida, aquele que tinha um valor de
cinqüenta mil de renda e que agora só tem dez acredita ser bem infeliz,
porque não pode mais ter uma grande soma, ter o que chama de sua
posição, seus cavalos, criados, satisfazer todas as suas paixões, etc. Acredita
não ter o necessário; mas, francamente, achais que ele tem direito de
se lamentar, quando ao seu lado há quem morre de fome e frio e não tem
um abrigo para repousar a cabeça? O homem sábio, para ser feliz, olha
abaixo de si e nunca acima, a não ser para elevar sua alma ao infinito. (Veja
a questão 715.)
924 Existem males que independem da maneira de agir e que
atingem até o homem mais justo; tem ele algum meio de se preservar
deles?
– Ele deve se resignar e suportá-los sem lamentações, se quiser progredir;
mas sempre possui uma consolação na sua consciência que lhe
dá a esperança de um futuro melhor, se faz o que é preciso para obtê-lo.
925 Por que Deus favorece com os dons da riqueza certos homens
que não parecem merecê-los?
– É um favor que se apresenta aos olhos daqueles que vêem apenas
o presente; mas, sabei bem, a riqueza é uma prova freqüentemente mais
perigosa do que a pobreza. (Veja a questão 814 e seguintes)
926 A civilização, ao criar novas necessidades, não é a fonte de
novas aflições?
– Os males desse mundo ocorrem em razão das necessidades falsas
que criais. Aquele que sabe limitar seus desejos e vê sem inveja o que
está acima de si poupa-se das decepções nessa vida. O mais rico dos
homens é aquele que tem menos necessidades.
Invejais os prazeres daqueles que parecem os mais felizes do mundo;
mas sabeis o que lhes está reservado? Se desfrutam desses prazeres
somente para si, são egoístas, então virá o reverso. De preferência, lastimai-
os. Deus permite algumas vezes que o mau prospere, mas essa
felicidade não é para ser invejada, porque a pagará com lágrimas amargas.
Se o justo é infeliz, é uma prova que lhe será levada em conta, se a
suporta com coragem; lembrai-vos dessas palavras de Jesus: “Felizes os
que sofrem pois serão consolados”.
927 O supérfluo não é certamente indispensável à felicidade, mas
o mesmo não acontece com o necessário. Não é real a infelicidade
daqueles que não têm o necessário?
– O homem só é verdadeiramente infeliz quando sofre com a falta do
que é necessário à vida e à saúde do corpo. Essa carência talvez ocorra
CAPÍTULO 1 – PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
306
por sua própria culpa; então, deve queixar-se somente de si mesmo. Se for
causada por outros, a responsabilidade recai sobre aquele que a causar.
928 Pela especialidade das aptidões naturais, Deus indica evidentemente
nossa vocação neste mundo. Muitos males não surgem
por não seguirmos essa vocação?
– É verdade, e são freqüentemente os pais que, por orgulho ou vaidade,
fazem seus filhos saírem do caminho traçado pela natureza e, por causa
desse deslocamento, comprometem sua felicidade. Serão responsabilizados
por isso.
928 a Assim, acharíeis justo que um filho de um homem bem
posicionado na sociedade fizesse tamancos, por exemplo, se for essa
sua aptidão?
– Não é preciso cair no absurdo nem exagerar. A civilização tem suas
necessidades. Por que o filho de um homem bem posicionado, como
dizeis, faria tamancos, se pode fazer outra coisa? Ele poderá sempre se
tornar útil na medida de suas aptidões, se não as contrariar. Assim, por
exemplo, em vez de ser um mau advogado, poderia talvez tornar-se um
bom mecânico, etc.
G O deslocamento dos homens para fora de sua esfera intelectual é
certamente uma das causas mais freqüentes de suas decepções. A falta
de aptidão à carreira abraçada é uma fonte perene de reveses; depois,
o amor-próprio, vindo juntar-se a isso, impede o homem fracassado
de procurar recursos numa profissão mais humilde e lhe mostra o
suicídio como remédio para escapar do que acredita ser uma humilhação.
Se uma educação moral o tivesse elevado acima dos tolos preconceitos
do orgulho, ele nunca seria apanhado de surpresa.
929 Existem pessoas que, sentindo-se carentes de todos os recursos,
mesmo que a abundância reine ao seu redor, têm somente a
morte como perspectiva; nesse caso o que devem fazer? Devem se
deixar morrer de fome?
– Não se deve nunca ter a idéia de se deixar morrer de fome porque
sempre encontrará um meio de se alimentar, se o orgulho não se colocar
entre a necessidade e o trabalho. Diz-se freqüentemente: não há nenhuma
profissão humilhante, nenhum trabalho desonra; diz-se para os outros
e não para si.
930 É evidente que, isento dos preconceitos sociais pelos quais
se deixa dominar, o homem sempre encontrará um trabalho qualquer
que o ajude a viver, mesmo deslocado de sua posição; mas entre as
pessoas que não têm preconceitos ou que os colocam de lado não
existem aquelas que estão na impossibilidade de prover às suas necessidades
em conseqüência de doenças ou outras causas independentes
de sua vontade?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
307
– Numa sociedade organizada de acordo com a lei do Cristo ninguém
deve morrer de fome.
G Com uma organização social sábia e previdente, o homem pode
carecer do necessário apenas por sua culpa, mas mesmo essas suas
faltas são geralmente o resultado do meio onde vive. Quando o homem
praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na
solidariedade, e ele mesmo também será melhor. (Veja a questão 793.)
931 Por que, na sociedade, as classes sofredoras são mais numerosas
do que as felizes?
– Nenhuma é perfeitamente feliz, e o que se acredita ser felicidade
esconde freqüentemente grandes aflições. O sofrimento está por toda parte.
Entretanto, para responder ao vosso pensamento, direi que as classes
que chamais de sofredoras são mais numerosas, porque a Terra é um
lugar de expiação. Quando o homem fizer dela sua morada do bem e dos
bons Espíritos, não mais será infeliz e viverá no paraíso terrestre.
932 Por que, no mundo, os maus têm geralmente maior influência
sobre os bons?
– É pela fraqueza dos bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os
bons são tímidos; quando estes últimos quiserem, dominarão.
933 Se muitas vezes o homem é o causador de seus sofrimentos
materiais, também será dos morais?
– Mais ainda, porque os sofrimentos materiais são algumas vezes independentes
da vontade; mas o orgulho ferido, a ambição frustrada, a
ansiedade da avareza, a inveja, o ciúme, todas as paixões, enfim, são
torturas da alma.
A inveja e o ciúme! Felizes aqueles que não conhecem esses dois
vermes roedores! Com a inveja e o ciúme não há calma nem repouso
possível para aquele que está atacado desses males: os objetos de sua
cobiça, seu ódio, seu despeito se dirigem a ele como fantasmas que não
lhes dão nenhuma trégua e o perseguem até durante o sono. O invejoso
e o ciumento vivem num estado de febre contínua. Será essa uma situação
desejável, e não compreendeis que com suas paixões o homem criou
para si suplícios voluntários, e que a Terra torna-se para ele um verdadeiro
inferno?
G Várias expressões refletem energicamente os efeitos de certas paixões;
diz-se: estar inchado de orgulho, morrer de inveja, secar de ciúme ou
de despeito, por ciúmes perder o apetite, etc.; esse quadro não deixa de
ser verdadeiro. Algumas vezes o próprio ciúme não tem objetivo determinado.
Existem pessoas naturalmente ciumentas de tudo que se eleva e sai do
comum, mesmo que não tenham nenhum interesse direto nisso, mas unicamente
porque não o podem atingir. Tudo o que parece estar acima do
horizonte as ofusca, e se estivessem em maioria na sociedade desejariam
reconduzir tudo a seu nível. É o ciúme aliado à mediocridade.
CAPÍTULO 1 – PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
308
O homem é, muitas vezes, infeliz apenas pela importância que dá às
coisas deste mundo; é a vaidade, a ambição e a cobiça frustradas que
fazem sua infelicidade. Se ele se coloca acima do círculo estreito da vida
material, se eleva seus pensamentos ao infinito, que é a sua destinação,
as contingências da humanidade lhe parecem, então, mesquinhas e fúteis,
como as tristezas de uma criança que se aflige com a perda de um
brinquedo que representava sua felicidade suprema.
Aquele que vê felicidade apenas na satisfação do orgulho e dos
apetites grosseiros fica infeliz quando não pode satisfazê-los; no entanto,
aquele que não se interessa pelo supérfluo fica feliz com o que tem e
que os outros considerariam uma grande desgraça, uma insignificância.
Falamos do homem civilizado porque o selvagem, por ter necessidades
mais limitadas, não tem os mesmos motivos de cobiça e de
angústias: sua maneira de ver as coisas é completamente diferente. Civilizado,
o homem raciocina sobre sua infelicidade e a analisa; é por isso
que se sente mais afetado por ela; mas também pode raciocinar e
analisar os meios de consolação. Essa consolação está no sentimento
cristão, que dá a esperança de um futuro melhor, e no Espiritismo, que
dá a certeza desse futuro.
PERDA DE PESSOAS AMADAS
934 Por que a perda das pessoas queridas nos causa um desgosto
tanto mais legítimo quanto irreparável e independente de nossa
vontade?
– Esse motivo de desgosto atinge tanto o rico quanto o pobre: é uma
prova ou uma expiação, é a lei comum. Mas é uma consolação poder se
comunicar com os amigos pelos meios que tendes, enquanto esperais
outros mais diretos e mais acessíveis aos vossos sentidos.
935 O que pensar das pessoas que vêem as comunicações dos
Espíritos como uma profanação?
– Não pode haver nisso profanação quando há recolhimento e quando
a evocação é feita com respeito e dignidade. O que prova isso é que
os Espíritos que se afeiçoam a vós vêm com prazer, ficam felizes com
vossa lembrança e por se comunicarem convosco. Haveria profanação se
fizessem disso uma leviandade.
G A possibilidade de entrar em comunicação com os Espíritos é uma
consolação bem doce, uma vez que nos proporciona o meio de conversarmos
com nossos parentes e amigos que deixaram a Terra antes de
nós. Pela evocação, os aproximamos de nós, e eles ficam do nosso
lado, nos ouvem e respondem; não há, por assim dizer, mais separação
entre eles e nós.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
309
Ajudam-nos com seus conselhos, demonstrando sua afeição e o
contentamento que têm por nossa lembrança. É para nós uma satisfação
saber que estão felizes, aprender com eles mesmos os detalhes de
sua nova existência e adquirir a certeza de que, por nossa vez, nos reuniremos
a eles.
936 Como as dores inconsoláveis dos encarnados afetam os Espíritos
que partiram?
– O Espírito é sensível à lembrança e aos lamentos daqueles que
amou, mas uma dor incessante e irracional o afeta dolorosamente, porque
vê nessa dor excessiva uma falta de fé no futuro e de confiança em Deus
e um obstáculo ao adiantamento dos que choram e, talvez, ao reencontro
entre todos.
G Estando o Espírito mais feliz no espaço do que na Terra, lamentar
que tenha deixado esta vida é lamentar que seja feliz. Dois amigos são
prisioneiros e estão encerrados na mesma cela; tanto um quanto o outro
devem obter um dia a liberdade, mas um deles a obtém antes. Seria
caridoso, para aquele que fica, sentir-se infeliz por seu amigo ter sido
libertado antes dele? Não seria mais egoísmo do que afeição de sua
parte querer que o outro compartilhasse do seu cativeiro e sofrimentos
por tanto tempo quanto ele? O mesmo acontece com dois seres que se
amam na Terra; aquele que parte primeiro é o primeiro a se libertar, e
nós devemos felicitá-lo por isso, aguardando com paciência o momento
em que lá estaremos por nossa vez.
Faremos, sobre este assunto, uma outra comparação. Tendes um
amigo numa situação muito lastimável, sua saúde ou seu interesse exige
que vá a um outro país onde ficará melhor sob todos os aspectos. Não
estará mais perto de vós momentaneamente, mas sempre estareis em
comunicação com ele: a separação será apenas material. Ficaríeis descontentes
com seu afastamento, ainda que seja para seu bem?
Pelas provas evidentes que apresenta da vida futura, da presença
ao nosso redor daqueles que amamos e da continuidade de sua afeição
e dedicação por nós, pelas relações que nos permitem ter com eles, a
Doutrina Espírita nos oferece uma suprema consolação para uma das
causas mais legítimas da dor. Com o Espiritismo não há mais solidão,
não há mais abandono; o homem mais isolado tem sempre amigos
perto de si com os quais pode se comunicar.
Suportamos impacientemente as aflições da vida, e elas nos parecem
tão intoleráveis que julgamos não poder suportá-las; entretanto, se
as suportarmos com coragem, se soubermos silenciar nossos lamentos,
ficaremos felizes com isso quando estivermos fora desta prisão terrestre,
como o paciente que sofre fica feliz quando é curado, por ter se
submetido a um tratamento doloroso.
CAPÍTULO 1 – PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
310
DECEPÇÃO. INGRATIDÃO. AFEIÇÕES DESTRUÍDAS
937 As decepções causadas pela ingratidão e a fragilidade da
amizade também não são para o homem de coração uma fonte de
amargura?
– Sim; mas já vos ensinamos a lastimar os ingratos e amigos infiéis: eles
serão mais infelizes que vós. A ingratidão é filha do egoísmo, e o egoísmo
encontrará mais tarde corações insensíveis, como ele mesmo foi. Pensai
em todos que fizeram mais o bem do que vós, que valeram muito mais do
que vós, e que foram pagos com ingratidão. Pensai que o próprio Jesus foi
zombado e desprezado quando na Terra, tratado de velhaco e de impostor,
e não vos espanteis que o mesmo possa acontecer convosco. Que o bem
que fizestes seja vossa recompensa neste mundo, e não vos preocupeis
com o que dizem aqueles que o receberam. A ingratidão é uma prova para
vossa persistência em fazer o bem e será levada em conta. Os ingratos
serão tanto mais punidos quanto maior tiver sido a sua ingratidão.
938 As decepções causadas pela ingratidão não predispõe a
endurecer o coração e fechá-lo à sensibilidade?
– Isso seria um erro, porque o homem de coração, como dizeis, está
sempre feliz com o bem que faz. Ele sabe que se pelo bem que faz não o
reconhecerem nesta vida, na outra o farão, e que ao ingrato restará a
vergonha e o remorso.
938 a Esse pensamento não impede seu coração de ser magoado;
portanto, isso não poderia originar a idéia de que seria mais feliz
se fosse menos sensível?
– Sim, se preferir a felicidade do egoísta, que é muito triste! Que ele
saiba que os amigos ingratos que o abandonam não são dignos de sua
amizade e que se enganou sobre eles; portanto, não deve lamentar sua
perda. Mais tarde, encontrará outros que o compreenderão melhor. Lamentai
aqueles que têm para convosco um comportamento ingrato que
não merecestes, porque terão amarga recompensa, um triste retorno; e
também não vos aflijais com isso: é o meio de vos colocar acima deles.
G A natureza deu ao homem a necessidade de amar e de ser amado.
Um dos maiores prazeres concedidos na Terra é o de encontrar corações
que simpatizam com o seu, o que é indício de uma felicidade que
lhe está reservada no mundo dos Espíritos perfeitos, onde tudo é amor
e benevolência; é um prazer recusado ao egoísta.
UNIÕES ANTIPÁTICAS
939 Se os Espíritos simpáticos são levados a se unir, como é
que, entre os encarnados, a afeição seja freqüente apenas de um
lado, e que o amor mais sincero seja muitas vezes acolhido com indiferença
e até mesmo com repulsa? Como, além disso, a mais viva
afeição de dois seres pode se transformar em antipatia e ódio?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
311
– Vós não compreendeis, porque é uma punição passageira. Aliás,
quantos não há que acreditam amar perdidamente, porque julgam apenas
pelas aparências, e quando são obrigados a viver com as pessoas amadas,
não tardam a reconhecer que é apenas uma atração física! Não basta
estar apaixonado por uma pessoa que vos agrada e que tem muitas qualidades;
é na convivência real que podereis apreciá-la. Quantas uniões há
que, de início, parecem não ser simpáticas; porém, depois de um e outro
se conhecerem e se estudarem bem terminam por se amar com um amor
terno e durável, porque se baseia na estima! Não se pode esquecer que é
o Espírito que ama, e não o corpo, e quando a ilusão material se dissipa, o
Espírito vê a realidade.
Há duas espécies de afeição: a do corpo e da alma, e toma-se freqüentemente
uma pela outra. A afeição da alma, quando é pura e simpática,
é durável; a do corpo é passageira. Eis por que muitas vezes os
que pensavam se amar com um amor eterno se odeiam quando acaba a
ilusão.
940 A falta de simpatia entre os seres que têm de viver juntos
não é igualmente uma fonte de desgostos amarga e que envenena
toda a existência?
– Muito amarga, de fato; mas é uma dessas infelicidades de que,
freqüentemente, sois os principais responsáveis. Primeiro, são vossas leis
que estão erradas. Por que acreditais que Deus obriga a ficar com aqueles
que vos desagradam? E depois, nessas uniões, procurais muitas vezes
mais a satisfação do orgulho e da ambição do que a felicidade de uma
afeição mútua. Então suportais a conseqüência de vossos preconceitos.
940 a Mas, nesse caso, não existe quase sempre uma vítima
inocente?
– Sim, e é para ela uma dura expiação. Mas a responsabilidade de
sua infelicidade recairá sobre quem a causou. Se a luz da verdade já penetrou
sua alma, terá consolação em sua fé no futuro; além disso, à medida
que os preconceitos forem enfraquecendo, as causas dessas infelicidades
íntimas também desaparecerão.
MEDO DA MORTE
941 O medo da morte é para muitas pessoas um motivo de perplexidade;
de onde vem esse medo, se têm o futuro diante de si?
– É um erro terem esse medo. Mas o que quereis! Procura-se convencê-
las desde crianças de que existe um inferno e um paraíso, e que é
mais certo irem para o inferno, porque lhe dizem que ao agirem de acordo
com a natureza cometem um pecado mortal para a alma: então, quando
se tornam adultas, se têm algum discernimento, não podem admitir isso, e
tornam-se ateus ou materialistas. É assim que se conduzem as pessoas a
CAPÍTULO 1 – PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
312
crer que além da vida presente não há mais nada, e as que persistiram em
suas crenças de infância temem esse fogo eterno que deve queimá-las
sem destruí-las.
A morte, entretanto, não inspira ao justo nenhum temor, porque, com
a fé, tem a certeza do futuro; a esperança lhe faz esperar uma vida melhor,
e a caridade que praticou dá-lhe a certeza de que não encontrará no mundo
para onde vai nenhum ser do qual deva temer o olhar. (Veja a questão
730.)
G Aquele que é mais ligado à vida material do que à espiritual tem,
na Terra, penalidades e prazeres materiais; sua felicidade resume-se à
satisfação ilusória de todos os desejos. Sua alma, constantemente
preocupada e afetada pelas contingências da vida, permanece numa
ansiedade e numa tortura perpétuas. A morte o assusta, por duvidar
do seu futuro e acreditar que deixa na Terra todas as suas afeições e
esperanças.
Aquele que se eleva acima das necessidades artificiais criadas
pelas paixões tem, já aqui na Terra, prazeres desconhecidos ao materialista.
A moderação de seus desejos dá ao Espírito calma e serenidade.
Feliz pelo bem que faz, não há para ele decepções, e as contrariedades
deslizam sobre sua alma sem causar nenhuma impressão dolorosa.
942 Certas pessoas não acharão esses conselhos banais para
serem felizes na Terra? Não verão o que chamam de lugares-comuns,
verdades repetidas? E não dirão que, definitivamente, o segredo para
ser feliz é saber suportar sua infelicidade?
– Há os que dirão isso, e serão muitos. Mas ocorre o mesmo com
certos doentes a quem o médico prescreve a dieta: gostariam de ser
curados sem remédios e continuar a se predispor às indigestões.
DESGOSTO DA VIDA. SUICÍDIO
943 De onde vem o desgosto pela vida que se apodera de certos
indivíduos sem motivos razoáveis?
– Efeito da ociosidade, da falta de fé e freqüentemente da satisfação
plena de seus apetites e vontades, do tédio. Para aquele que exerce suas
atividades com um objetivo útil e de acordo com suas aptidões naturais, o
trabalho não tem nada de árido, e a vida escoa mais rapidamente. Suporta
as contingências da vida com mais paciência e resignação quanto age tendo
em vista uma felicidade mais sólida e mais durável que o espera.
944 O homem tem o direito de dispor de sua própria vida?
– Não, apenas Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma
transgressão dessa lei.
944 a O suicídio não é sempre voluntário?
– O louco que se mata não sabe o que faz.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
313
945 O que pensar do suicídio que tem como causa o desgosto da
vida?
– Insensatos! Por que não trabalhavam? A existência não lhes teria
sido pesada!
946 O que pensar do suicida que tem por objetivo escapar das
misérias e decepções deste mundo?
– Pobres Espíritos, que não têm coragem de suportar as misérias da
existência! Deus ajuda aqueles que sofrem, e não aos que não têm força
nem coragem. As aflições da vida são provas ou expiações; felizes aqueles
que as suportam sem queixas, porque serão recompensados! Infelizes,
ao contrário, os que esperam sua salvação do que, na incredulidade deles,
chamam de acaso ou sorte! O acaso ou a sorte, para me servir da
vossa linguagem, podem, de fato, favorecê-los transitoriamente, mas é
para fazê-los sentir mais tarde e mais cruelmente o vazio dessas palavras.
946 a Aqueles que conduziram um infeliz a esse ato de desespero
sofrerão as conseqüências disso?
– Como são infelizes! Pois responderão por homicídio.
947 O homem que na necessidade se deixa morrer de desespero
pode ser considerado um suicida?
– É um suicida; mas os que o levaram a isso ou que poderiam impedilo
são mais culpados que ele, e a indulgência o espera. Entretanto, não
acrediteis que seja inteiramente absolvido se lhe faltaram firmeza e perseverança
e se não usou sua inteligência para superar as dificuldades. Infeliz
dele, principalmente se seu desespero se originou do orgulho; quero dizer,
se é desses homens a quem o orgulho paralisa os recursos da inteligência,
que se envergonham por depender do trabalho de suas mãos e que
preferem morrer de fome a renunciar ao que eles chamam de posição
social! Não haverá cem vezes mais grandeza e dignidade em lutar contra a
adversidade do que enfrentar a crítica de um mundo fútil e egoísta, que
tem boa vontade apenas para com aqueles a quem nada falta, e vos dá as
costas quando tendes necessidade dele? Sacrificar a vida em consideração
a esse mundo é uma coisa estúpida, porque para esse mundo isso
não tem valor.
948 O suicídio que tem por objetivo escapar da vergonha de uma
má ação é tão condenável quanto aquele que é causado por desespero?
– O suicídio nesse caso não apaga o erro; pelo contrário, haverá dois
em vez de um. Quando se teve a coragem de fazer o mal, é preciso ter a
coragem de suportar as conseqüências. A Providência a tudo julga e, de
acordo com a causa, pode, algumas vezes, diminuir seus rigores.
949 O suicídio pode ser desculpável quando tem por objetivo
impedir que a vergonha recaia sobre filhos ou sobre a família?
CAPÍTULO 1 – PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
314
– Aquele que age desse modo não procede bem, embora acredite
que o faça. A Providência leva isso em conta, porque é uma expiação que
se impõe a si mesmo. Ele atenua seu erro pela intenção, mas não deixa de
cometer um erro. Portanto, eliminai os abusos da sociedade e os vossos
preconceitos e não tereis mais suicídios.
G Aquele que tira a própria vida para escapar da vergonha de uma má
ação prova que tem mais estima aos homens do que a Deus, porque vai
entrar na vida espiritual carregado de suas maldades, tendo-se privado
dos meios de repará-las durante a vida. Porém, sendo a Providência
divina mais benévola do que os homens na sua justiça, perdoa pelo
arrependimento sincero e leva em conta nossa reparação. Mas o suicídio
nada repara.
950 O que pensar daquele que tira a própria vida na esperança
de atingir mais cedo uma vida melhor?
– Outra loucura! Se fizer o bem a atingirá mais cedo. Pelo suicídio
retarda sua entrada num mundo melhor, e ele mesmo pedirá para vir terminar
essa vida que encurtou por uma falsa idéia. Um erro, seja qual for,
nunca abre o santuário dos eleitos.
951 O sacrifício da vida não é algumas vezes meritório, quando
tem por objetivo salvar a de outras pessoas ou ser útil aos seus semelhantes?
– Isso é sublime, de acordo com a intenção, e nesse caso o sacrifício
da vida não é um suicídio, mas um sacrifício inútil. Porém, está fora dos
desígnios divinos se é ofuscado pelo orgulho. Um sacrifício é apenas meritório
pelo desinteresse. Algumas vezes, esse sacrifício esconde uma
segunda intenção, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus.
G Todo sacrifício do homem à custa de sua própria felicidade é um ato
soberanamente meritório perante Deus, porque é a prática da lei de
caridade. Portanto, sendo a vida o bem terreno ao qual o homem atribui
maior apreço, aquele que renuncia a isso pelo bem de seus semelhantes
não comete nenhum atentado: é um sacrifício que realiza. Mas, antes de
realizá-lo, deve refletir se sua vida não será mais útil que sua morte.
952 O homem que morre vitimado pelo abuso de paixões que
sabia apressariam o seu fim, mas às quais não tem mais o poder de
resistir por ter se habituado a fazer delas verdadeiras necessidades
físicas, comete suicídio?
– É um suicídio moral. Deveis compreender que o homem é duplamente
culpado nesse caso. Nele há, além da falta de coragem, a ignorância
e, acima de tudo, o esquecimento de Deus.
952 a Ele é mais ou menos culpado do que aquele que tira a
própria vida por desespero?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
315
– É mais culpado, por ter tido tempo de reconhecer seu suicídio. Naquele
que o comete de súbito existe algumas vezes uma espécie de
alucinação obsessiva próxima à loucura; o outro será punido com mais
rigor, porque as penalidades são sempre proporcionais à consciência que
se tem dos erros cometidos.
953 Quando uma pessoa vê diante de si uma morte inevitável e
terrível, é culpada por abreviar em alguns instantes seus sofrimentos
por uma morte voluntária?
– Sempre se é culpado por não aguardar o termo fixado por Deus.
Quem poderá assegurar, aliás, se o fim chegou, apesar das aparências, e
que não se pode receber um socorro inesperado no último momento?
953 a Concebe-se que em circunstâncias comuns o suicídio seja
condenável, mas suponhamos o caso em que a morte é inevitável e a
vida seja abreviada apenas por alguns instantes.
– É sempre uma falta de resignação e submissão à vontade do
Criador.
953 b Quais são, nesse caso, as conseqüências dessa ação?
– Uma expiação proporcional à gravidade do erro, de acordo com as
circunstâncias, como sempre.
954 Uma imprudência que compromete a vida sem necessidade
é repreensível?
– Não existe culpabilidade se não há intenção ou consciência positiva
de fazer o mal.
955 As mulheres que, em certos países, se fazem queimar nas
piras cinerárias1 voluntariamente junto com o cadáver do marido podem
ser consideradas suicidas, e sofrem as conseqüências disso?
– Elas obedecem a um preconceito e muitas vezes mais pela força do
que por vontade própria. Acreditam cumprir um dever, e aí não se caracteriza
o suicídio. São desculpáveis pelo pouco desenvolvimento moral da
maioria delas e pela ignorância. Esses costumes bárbaros e estúpidos
desaparecem com a civilização.
956 Aqueles que, não podendo suportar a perda das pessoas
queridas, se matam na esperança de reencontrá-las, atingem seu
objetivo?
– O resultado é completamente diferente do que esperam: em vez de
se unirem às pessoas de sua afeição, afastam-se delas por mais tempo,
porque Deus não pode recompensar um ato de covardia e o insulto que é
feito ao duvidarem de Sua Providência. Eles pagarão esse instante de
loucura com desgostos maiores que os que acreditam abreviar e não terão
mais para recompensá-los a satisfação que esperavam. (Veja a questão
934 e seguintes)
CAPÍTULO 1 – PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS
1 - Pira cinerária: fogueira onde se queimavam cadáveres (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
316
957 Quais são, em geral, as conseqüências do suicídio sobre o
Espírito?
– As conseqüências do suicídio são muito diversas: não existem penalidades
fixas e, em todos os casos, são sempre relativas às causas que
o provocaram; mas uma conseqüência da qual o suicida não pode escapar
é o desapontamento. Além disso, a sorte não é a mesma para todos:
depende das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente; outros,
em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.
G A observação mostra, de fato, que as conseqüências do suicídio
nem sempre são as mesmas; mas existem as que são comuns a todos
os casos de morte violenta, pela interrupção brusca da vida. Primeiramente
há a persistência mais prolongada e insistente do laço que une o
Espírito ao corpo, porque esse laço está quase sempre na plenitude de
sua força no momento em que é quebrado, enquanto na morte natural
ele se enfraqueceu gradualmente, e muitas vezes se rompe antes que a
vida seja completamente extinta. As conseqüências dessa situação são
o prolongamento da perturbação espiritual e a ilusão que, durante um
certo tempo mais ou menos longo, faz o Espírito acreditar que ainda
está entre os vivos. (Veja as questões 155 e 165.)
A afinidade que persiste entre o Espírito e o corpo produz, em
alguns suicidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo sobre
o Espírito, que sente, assim, o desprazer dos efeitos da decomposição
do corpo e passa por uma sensação cheia de angústias e de horror, e
esse estado pode persistir tanto tempo quanto devia durar a vida que
eles interromperam. Esse efeito não é geral; mas, em nenhum caso, o
suicida está livre das conseqüências de sua falta de coragem e, cedo
ou tarde, reparará sua falta de uma maneira ou de outra. É assim que
alguns Espíritos, que haviam sido infelizes na Terra, disseram ser suicidas
na existência anterior e se submeteram, voluntariamente, a novas
provas para tentar suportá-las com mais resignação. Em outros há uma
espécie de ligação à matéria da qual procuram em vão se desapegar,
para atingir mundos melhores, mas cujo acesso lhes é proibido. Na
maioria, é o remorso por terem feito uma coisa inútil, uma vez que só
colheram decepção. A religião, a moral, todas as filosofias condenam o
suicídio como algo contrário à lei da natureza; todos nos dizem, em princípio,
que ninguém tem o direito de abreviar voluntariamente sua vida;
mas por que não se tem esse direito? Por que não se é livre para colocar
um fim aos seus sofrimentos? Estava reservado ao Espiritismo demonstrar,
pelo exemplo daqueles que o praticaram, que não é apenas um
erro como infração a uma lei moral, consideração que pouco importa
para certos indivíduos, mas que também é um ato estúpido, uma vez
que, ao contrário do que pensam, nada ganha quem o pratica. O Espiritismo
nos ensina isso não de forma teórica, mas pelos fatos que coloca
diante de nossos olhos.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
317
958 Por que o homem tem instintivamente horror ao nada?
– Porque o nada não existe.
959 De onde vem para o homem o sentimento instintivo da vida
futura?
– Já dissemos: antes de sua encarnação, o Espírito conhecia todas
as coisas, e a alma guarda uma vaga lembrança do que sabia e do que viu
em seu estado espiritual. (Veja a questão 393.)
G Em todos os tempos, o homem se preocupou com seu futuro após
a morte, e isso é bastante natural. Qualquer que seja a importância que
dê à vida presente, não pode deixar de considerar quanto a vida é curta
e, acima de tudo, precária, porque pode ser cortada a qualquer instante,
e o homem nunca está seguro do dia de amanhã. Que será dele
após o instante fatal? A questão é grave, porque não se trata de alguns
anos, e sim da eternidade. Uma pessoa que deve passar longos anos
num país estrangeiro se preocupa com a situação com que se defrontará.
Portanto, como não nos devemos preocupar com a vida que teremos
ao deixar este mundo, uma vez que é para sempre?
A idéia do nada tem algo contrário à razão. O homem que foi o mais
despreocupado durante a vida, quando chega o momento supremo, pergunta-
se em que vai se tornar e, involuntariamente, fica esperançoso.
Acreditar em Deus sem admitir a vida futura seria um contra-senso.
O sentimento de uma existência melhor está no íntimo de cada homem;
Deus não o colocou aí em vão.
A vida futura significa a conservação de nossa individualidade após
a morte; o que nos importaria, de fato, sobreviver ao nosso corpo, se
nossa essência moral tivesse de se perder no oceano do infinito? As
conseqüências para nós seriam as mesmas que sumir no nada.
O NADA. VIDA FUTURA
CAPÍTULO
2
PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O nada. Vida futura – Intuição das penalidades e prazeres
futuros – Intervenção de Deus nas penalidades e
recompensas – Natureza das penalidades e prazeres
futuros – Penalidades temporais – Expiação e
arrependimento – Duração das penalidades futuras –
Ressurreição da carne – Paraíso, inferno e purgatório
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
318
INTUIÇÃO DAS PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
960 De onde vem a crença que se encontra em todos os povos
das penalidades e recompensas futuras?
– É sempre a mesma coisa: pressentimento da realidade trazida ao
homem pelo Espírito nele encarnado. Porque, sabei-o, não é em vão que
uma voz interior vos fala; o erro está em não escutá-la com bastante atenção.
Se pensásseis bem nisso e mais freqüentemente, melhores vos
tornaríeis.
961 No momento da morte, qual é o sentimento que domina a
maioria dos homens? A dúvida, o medo ou a esperança?
– A dúvida para os descrentes endurecidos, o medo para os culpados,
a esperança para os homens de bem.
962 Por que existem descrentes, uma vez que a alma traz ao
homem o sentimento das coisas espirituais?
– Existem menos do que se acredita; muitos se fazem espíritos fortes
durante a vida por orgulho, mas no momento da morte não são tão fanfarrões.
G A conseqüência da vida futura decorre da responsabilidade de
nossos atos. A razão e a justiça nos dizem que, na partilha da felicidade
a que todo homem aspira, os bons e os maus não podem ser confundidos.
Deus não pode querer que uns, sem esforço, desfrutem dos bens
que outros alcançam com esforço e perseverança.
A idéia que Deus nos dá de sua justiça e bondade pela sabedoria
de suas leis não nos permite acreditar que o justo e o mau estejam no
mesmo plano aos seus olhos, nem duvidar que receberão um dia a
recompensa ou a punição pelo bem ou mal que fizeram. É por isso que
o sentimento natural que temos da justiça nos dá a intuição das penalidades
e das recompensas futuras.
INTERVENÇÃO DE DEUS NAS
PENALIDADES E RECOMPENSAS
963 Deus se ocupa pessoalmente de cada homem? Ele não é
muito grande e nós muito pequenos para que cada indivíduo em particular
tenha alguma importância aos seus olhos?
– Deus se ocupa de todos os seres que criou, por menores que sejam;
nada é muito pequeno para sua bondade.
964 Deus tem necessidade de se ocupar de cada um de nossos
atos para nos recompensar ou punir, e a maioria desses atos não são
insignificantes para ele?
– Deus tem Suas leis que regem todas as vossas ações. Quando há
violação da lei, a falta é vossa. Sem dúvida, quando um homem comete
um excesso, Deus não pronuncia um julgamento contra ele, para dizer,
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
319
por exemplo: “Foste guloso, vou te punir”. Porém, traçou um limite; as
doenças e, freqüentemente, a morte, são conseqüências dos excessos:
eis a punição; ela é o resultado da infração à lei. O mesmo acontece com
todas as coisas.
G Todas as nossas ações estão submetidas às leis de Deus; não há
nenhuma, por mais insignificante que pareça, que não possa ser uma
violação. Ao sofrermos as conseqüências dessa violação, não devemos
nos queixar senão de nós mesmos, que nos fazemos, assim, os próprios
autores de nossa felicidade ou infelicidade futura.
Essa verdade torna-se clara pelo seguinte exemplo:
“Um pai dá a seu filho educação e instrução, ou seja, os meios
de saber se conduzir. Dá-lhe também um campo para cultivar e diz: ‘Eis
a regra a seguir e todos os instrumentos necessários para tornar este
campo fértil e assegurar tua existência. Eu te dei a instrução para
compreender esta regra; se a seguires, teu campo produzirá muito e te
proporcionará o repouso para teus dias de velhice; caso contrário, não
produzirá nada e morrerás de fome’. Dito isso, deixa-o agir por sua
vontade, livremente.”
Não é verdade que esse campo produzirá de acordo com os cuidados
dados à cultura e toda negligência será em prejuízo da colheita?
O filho será, portanto, em sua velhice, feliz ou infeliz conforme tenha
seguido ou não a regra traçada por seu pai. Deus é ainda mais previdente,
porque nos adverte a cada instante se fazemos o bem ou o mal.
Envia os Espíritos para nos inspirar, mas nós não os escutamos. Existe
ainda a diferença de que Deus sempre dá ao homem um recurso nas
suas novas existências para reparar seus erros passados, enquanto o
filho de quem falamos não conta mais com isso se empregou mal seu
tempo.
NATUREZA DAS PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
965 As penalidades e os prazeres da alma após a morte têm
algo de material?
– Elas não podem ser materiais, porque a alma não é matéria: o bom
senso o diz. Essas penalidades e prazeres nada têm de carnal e, entretanto,
são mil vezes mais intensos que aqueles que experimentais na Terra,
porque o Espírito, uma vez liberto do corpo, é mais impressionável; a matéria
não enfraquece mais suas sensações. (Veja as questões 237 e 257).
966 Por que o homem faz das penalidades e dos prazeres da
vida futura uma idéia freqüentemente tão grosseira e absurda?
– É porque sua inteligência ainda não se desenvolveu bastante. A
criança compreende como o adulto? Aliás, também depende daquilo que
lhe ensinaram: eis aí por que há a necessidade de uma reforma.
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
320
– Vossa linguagem é muito incompleta para exprimir o que existe além
do vosso entendimento; por isso, foi necessário fazer comparações, e são
essas imagens e figuras que tomastes pela realidade; mas, à medida que
o homem se esclarece, seu pensamento compreende as coisas que sua
linguagem não pode exprimir.
967 Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?
– Consiste em conhecer todas as coisas; não ter ódio, ciúme, inveja,
ambição e nenhuma das paixões que fazem a infelicidade dos homens. O
amor que os une é a fonte de uma suprema felicidade. Eles não experimentam
as necessidades e sofrimentos nem as angústias da vida material;
ficam felizes com o bem que fazem. Porém, a felicidade dos Espíritos é
sempre proporcional à sua elevação. Só os Espíritos puros desfrutam, é
bem verdade, da felicidade suprema, mas todos os outros são também
felizes. Entre os maus e os perfeitos existe uma infinidade de graus em que
os prazeres são relativos à condição moral. Aqueles que estão bastante
adiantados compreendem a felicidade dos mais avançados e desejam
igualmente alcançá-la, o que é para eles um motivo de estímulo e não de
ciúme. Sabem que depende deles consegui-la e trabalham para esse fim,
mas com a calma da boa consciência, e são felizes por não sofrerem
como os maus.
968 Colocais a ausência das necessidades materiais entre as
condições de felicidade para os bons Espíritos; mas a satisfação dessas
necessidades não é, para o homem, uma fonte de prazeres?
– Sim, de prazeres selvagens; e quando não podeis satisfazer essas
necessidades, é uma tortura.
969 O que devemos entender quando se diz que os Espíritos puros
estão reunidos no seio de Deus e ocupados em cantar louvores?
– É um modo de dizer, uma simbologia, para fazer entender o que eles
têm das perfeições de Deus, já que O vêem e O compreendem, mas não
a deveis tomar ao pé da letra como fazeis com muitas outras. Tudo na
natureza, desde o grão de areia, canta, ou seja, proclama o poder, a sabedoria
e a bondade de Deus. Não acrediteis que os Espíritos bem-aventurados
vivam em contemplação por toda a eternidade; seria uma felicidade
estúpida e monótona e seria ainda mais, uma felicidade egoísta, uma
vez que sua existência seria uma inutilidade sem fim. Eles não têm mais as
aflições da existência corporal: isso já é um prazer. Aliás, como já dissemos,
conhecem e sabem todas as coisas; empregam útil e proveitosamente
a inteligência que adquiriram para ajudar no progresso dos outros Espíritos:
é sua ocupação e ao mesmo tempo um prazer.
970 Como são os sofrimentos dos Espíritos inferiores?
– São tão variados quanto as causas que os produziram e proporcionais
ao grau de inferioridade, como os prazeres o são para os graus de
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
321
superioridade. Podem resumir-se assim: invejar tudo o que lhes falta para
serem felizes e não poderem obtê-lo; ver a felicidade e não poder atingi-la;
desgosto, ciúme, raiva, desespero daquilo que os impede de ser felizes;
remorso, ansiedade moral indefinível. Têm o desejo de todos os prazeres
e não podem satisfazê-los, é o que os tortura.
971 A influência que os Espíritos exercem uns sobre os outros é
sempre boa?
– Sempre boa da parte dos Espíritos bons, sem dúvida. Mas os Espíritos
perversos procuram desviar do caminho do bem e do arrependimento
aqueles que observam ser mais sujeitos de se deixar influenciar e que,
muitas vezes, eles mesmos desviaram para o mal durante a vida corpórea.
971 a Assim, a morte não nos livra da tentação?
– Não; mas a ação que os maus Espíritos exercem sobre os outros
Espíritos é muito menor do que sobre os homens, porque eles não têm
mais o incentivo das paixões materiais. (Veja a questão 996.)
972 Como os maus Espíritos fazem para tentar outros Espíritos,
uma vez que não possuem o auxílio das paixões?
– Se as paixões não existem materialmente, existem no pensamento
dos Espíritos atrasados. Os maus alimentam os pensamentos deles arrastando
suas vítimas para os lugares onde têm o espetáculo dessas paixões
e tudo que pode excitá-las.
972 a Mas por que estimulam essas paixões, uma vez que não
têm mais objetivo real?
– É precisamente para provocar o suplício: o avaro vê o ouro que não
pode possuir; o libertino, orgias das quais não pode fazer parte; o orgulhoso,
honras que inveja e de que não pode desfrutar.
973 Quais são os maiores sofrimentos que podem suportar os
maus Espíritos?
– Não existe descrição possível das torturas morais que são a punição
de certos crimes. Mesmo os que as sofrem teriam dificuldades para
dar uma idéia delas; mas, certamente, a mais horrível é o fato de pensarem
estar condenados para sempre. (Veja a questão 101.)
G O homem faz, dos desgostos e dos prazeres da alma após a morte,
uma idéia mais ou menos elevada, de acordo com sua inteligência,
que, quanto mais desenvolvida for, mais essa idéia se depura e mais se
desprende da matéria; compreende as coisas sob um ponto de vista
mais racional, em vez de tomar ao pé da letra imagens de uma linguagem
figurada. A razão mais esclarecida, ao nos ensinar que a alma é
um ser todo espiritual, nos diz, por isso mesmo, que ela não pode ser
afetada pelas impressões que agem sobre a matéria, embora não esteja
livre de sofrimentos nem de receber a punição de suas faltas. (Veja a
questão 237.)
As comunicações espíritas têm o propósito de nos mostrar o estado
futuro da alma, não como uma teoria, mas como uma realidade, ao
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
322
colocar sob nossos olhos todas as ocorrências da vida após a morte,
mostrando-as ao mesmo tempo como conseqüências perfeitamente lógicas
da vida terrestre. E embora livre das idéias fantasiosas criadas
pela imaginação dos homens, essas conseqüências não são menos angustiantes
para aqueles que fizeram um mau uso de suas vontades e
aptidões. A diversidade dessas conseqüências é infinita, mas pode-se
dizer, de modo geral: cada um é corrigido pelas faltas que cometeu. É
assim que uns são punidos pela visão incessante do mal que fizeram;
outros, pelos desgostos, o medo, a vergonha, a dúvida, o isolamento,
as trevas e pela separação dos seres que lhe são queridos, etc.
974 De onde vem a doutrina do fogo eterno?
– É uma imagem, assim como tantas outras tomadas como realidade.
974 a Esse medo não pode resultar em algo bom?
– Reparai que ele não serve de freio nem mesmo para aqueles que o
ensinam. Se ensinais coisas que a razão rejeita mais tarde, fareis surgir
uma situação que não será nem durável nem salutar.
G O homem, não podendo exprimir por sua linguagem a natureza
daqueles sofrimentos, não encontrou comparação mais enérgica que
a do fogo, porque, para ele, o fogo é a espécie de suplício mais cruel e
o símbolo da ação mais enérgica; por isso a crença no fogo eterno
remonta à mais alta Antiguidade, e os povos modernos a herdaram dos
povos antigos. É por isso que, em sua linguagem figurada, diz: o fogo
das paixões; arder de amor, de ciúme, etc.
975 Os Espíritos inferiores compreendem a felicidade do justo?
– Sim, é o que faz seu suplício; porque compreendem que são privados
dela por sua culpa e por essa razão o Espírito, livre da matéria, deseja
ardentemente uma nova existência corporal, porque cada existência pode
abreviar a duração desse suplício, se for bem empregada. É então que faz
a escolha das provas pelas quais poderá reparar suas faltas; porque, sabei,
o Espírito sofre por todo mal que praticou ou de que foi causa voluntária,
por todo bem que poderia ter feito e não fez e pelo mal que resulta do bem
que deixou de fazer. O Espírito no mundo espiritual não tem mais o véu da
matéria. Como se tivesse saído do nevoeiro, ele vê o que causa o seu
afastamento da felicidade; então, sofre mais, porque compreende quanto
foi culpado. Não há mais ilusão: ele vê a realidade das coisas.
G O Espírito, no mundo espiritual, toma conhecimento, por um lado,
de todas as suas existências passadas e, por outro, vê o futuro prometido
e avalia o que falta para o atingir. Como um viajante que chega ao
alto de uma montanha, vê o caminho já percorrido e o que falta percorrer
para atingir seu objetivo.
976 Os bons Espíritos se afligem e sofrem ao ver a situação dos
maus e, nesse caso, como fica sua felicidade se for perturbada?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
323
– Não sentem nenhuma aflição, uma vez que sabem que o mal terá
fim. Eles auxiliam os maus a se melhorarem e estendem-lhes a mão: aí
está sua ocupação e o seu prazer, quando têm êxito.
976 a Isso acontece em relação a Espíritos estranhos ou indiferentes;
mas a visão dos pesares e sofrimentos daqueles a quem amaram
na Terra não perturba sua felicidade?
– Como já dissemos, os Espíritos vêem o que querem, e porque não
lhes sois estranhos é que vêem e se importam com os vossos sofrimentos
depois da morte. Porém, consideram essas aflições sob um outro ponto de
vista, porque sabem que esse sofrimento é útil ao vosso adiantamento se o
suportardes sem lamentações. Mas se afligem muito mais com a falta de
coragem do que com os sofrimentos que sabem ser apenas passageiros.
977 Os Espíritos, não podendo esconder os pensamentos uns
dos outros e sendo todos os atos da vida conhecidos, significa que o
culpado esteja na presença perpétua de sua vítima?
– Isso não pode ser de outro modo, o bom senso o diz.
977 a Essa divulgação de todos os nossos atos condenáveis e a
presença constante das vítimas são um castigo para o culpado?
– Maior do que se pensa; mas apenas até que tenha reparado suas
faltas, como Espírito ou como homem em novas existências corporais.
G Quando estivermos no mundo dos Espíritos e nosso passado se
mostrar a descoberto, o bem e o mal que fizemos serão igualmente
conhecidos. Em vão aquele que fez o mal tentará escapar à visão de
suas vítimas: sua presença inevitável será um castigo e um remorso
incessante até que tenha reparado seus erros, enquanto o homem de
bem, pelo contrário, só encontrará em toda parte olhares amigos e benevolentes.
Para o mau não existe maior tormento na Terra do que a
presença de suas vítimas; é por isso que as evita sem cessar. O que
será dele quando, dissipada a ilusão das paixões e tendo compreendido
o mal que fez, vir seus atos mais secretos revelados, sua hipocrisia
desmascarada e não puder fugir à visão desses fatos?
Enquanto a alma do homem perverso está atormentada pela vergonha,
o desgosto e remorso, a do justo desfruta de uma serenidade perfeita.
978 A lembrança das faltas que a alma cometeu, quando era
imperfeita, não perturba sua felicidade, mesmo após estar depurada?
– Não, porque resgatou suas faltas e saiu vitoriosa das provas a que
se submeteu com esse objetivo.
979 As provas que restam a suportar para terminar a purificação
não são para a alma uma apreensão pesarosa que perturba sua felicidade?
– Para a alma que ainda está impura, sim; por isso não pode desfrutar
de uma felicidade perfeita senão quando estiver completamente pura; mas
para a alma que já se elevou, o pensamento das provas que restam a
suportar não tem nada de pesaroso.
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
324
G A alma que atingiu certo grau de pureza já desfruta da felicidade.
Um sentimento de doce satisfação a penetra e fica feliz com tudo que
vê, com tudo que a cerca; ergue-se para ela o véu que encobria os
mistérios, e as maravilhas da Criação e as perfeições divinas se mostram
em todo o seu esplendor.
980 O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem é
para eles uma fonte de felicidade?
– A união dos Espíritos que simpatizam com o bem é, para eles, um
dos maiores prazeres, porque não temem ver essa união perturbada pelo
egoísmo. Eles formam, no mundo espiritual, famílias com o mesmo sentimento,
e nisso consiste a felicidade espiritual, assim como na Terra vos
agrupais por categorias e sentis um certo prazer quando estais reunidos. A
afeição pura e sincera que sentem e da qual são os agentes é uma fonte
de felicidade, porque lá não há falsos amigos nem hipócritas.
G O homem sente as primícias1 dessa felicidade na Terra quando encontra
as almas com as quais pode juntar-se numa união pura e santa.
Em uma vida mais depurada, esse prazer será extasiante e sem limites,
porque só encontrará almas simpáticas livres do egoísmo. Porque tudo
é amor na natureza; é o egoísmo que o mata.
981 Existe para a condição futura do Espírito uma diferença entre
aquele que durante a vida temia a morte e outro que a encarava
com indiferença e até mesmo com alegria?
– A diferença pode ser muito grande; entretanto, acaba freqüentemente
diante das causas que geram esse medo ou esse desejo. Tanto
quem a teme quanto quem a deseja pode estar movido por sentimentos
muito diferentes e são esses sentimentos que influem na condição do
Espírito. É evidente, por exemplo, naquele que deseja a morte unicamente
por que vê nela o fim de suas aflições, revelar-se uma espécie de revolta
contra a Providência e contra as provas que deve suportar.
982 É necessário crer no Espiritismo e nas manifestações dos
Espíritos para assegurar nosso bom êxito na vida futura?
– Se assim fosse, todos os que não crêem ou que não tiveram a oportunidade
de se esclarecer seriam deserdados, o que seria absurdo. Só a prática
do bem assegura o bom êxito no futuro. Portanto, o bem é sempre o bem,
seja qual for o caminho que a ele conduz. (Veja as questões 165 e 799.)
G A compreensão do Espiritismo ajuda o homem a se melhorar, ao
comprovar as idéias sobre certos pontos do futuro; apressa o adiantamento
dos indivíduos e das massas, porque permite conhecer o que
seremos um dia; é um ponto de apoio, uma luz que nos guia. O Espiritismo
ensina o homem a suportar as provas com paciência e resignação;
1 - Primícias: primeiros frutos; início; primeiros resultados (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
325
desvia-o dos atos que podem retardar sua felicidade futura. É assim
que contribui para essa felicidade, mas não diz que só por ele se pode
alcançá-la.
PENALIDADES TEMPORAIS
983 Se o Espírito que repara suas faltas numa nova existência
passa por sofrimentos materiais, é certo dizer que após a morte a
alma tem apenas sofrimentos morais?
– É bem verdade que a alma, quando está reencarnada, considera
as aflições da vida um sofrimento, mas é apenas o corpo que sofre materialmente.
Dizeis, freqüentemente, daquele que está morto, que não sofre mais;
porém, isso nem sempre é verdade. Como Espírito, não tem dores físicas;
mas, de acordo com as faltas que cometeu, pode ter dores morais mais
torturantes e, numa nova existência, pode ser ainda mais infeliz. O mau
rico pedirá esmola e será vítima de todas as privações da miséria, e o
orgulhoso passará todas as humilhações; aquele que abusa de sua autoridade
e trata seus subordinados com desprezo e dureza será forçado a
obedecer a um senhor mais duro do que ele foi. Todos os sofrimentos e
aflições da vida são a expiação das faltas de uma outra existência, quando
já não são a conseqüência das faltas da vida atual. Quando tiverdes saído
daqui, compreendereis isso muito bem. (Veja as questões 273, 393 e 399.)
O homem que pensa ser feliz na Terra por satisfazer suas paixões é o
que menores esforços faz para se melhorar. Muitas vezes repara já nessa
vida, apesar dessa felicidade efêmera, mas certamente a expiará em uma
outra existência, também toda material.
984 As dificuldades da vida terrena são sempre resultantes das
faltas da existência atual?
– Não; já dissemos: são provas concedidas pela Providência ou escolhidas
por vós mesmos em Espírito antes dessa encarnação, para reparar
as faltas cometidas numa existência anterior; porque toda transgressão às
leis de Deus, especialmente à lei de justiça, deve ser compensada por um
esforço equivalente de correção, no presente ou no futuro.
A justeza da justiça é própria da lei: conseqüentemente, quando uma
pessoa boa e justa, aos vossos olhos, vive em dificuldades, está submetida a
uma correção de seus próprios erros do passado. (Veja a questão 393.)
985 A reencarnação da alma num mundo mais elevado é uma
recompensa?
– É a conseqüência de sua depuração; porque, à medida que os
Espíritos se depuram, encarnam em mundos cada vez mais perfeitos, até
que se tenham libertado de toda a matéria e se livrado de todas as impurezas,
para desfrutar eternamente a felicidade dos Espíritos puros na
presença de Deus.
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
326
G Nos mundos onde a existência é menos material do que na Terra,
as necessidades são menos grosseiras e todos os sofrimentos físicos
são de menor intensidade. Os homens não conhecem mais as más paixões
que nos mundos inferiores os fazem inimigos uns dos outros. Não
tendo nenhum motivo de ódio nem de ciúme, vivem entre si em paz,
porque praticam a lei de justiça, amor e caridade. Não conhecem as
mágoas e as angústias que nascem da inveja, do orgulho e do egoísmo,
que fazem de nossa existência terrena um verdadeiro tormento. (Veja as
questões 172 e 182.)
986 O Espírito que progrediu em sua existência terrena pode algumas
vezes reencarnar no mesmo mundo?
– Sim; se não pôde levar ao fim sua missão, ele mesmo pode pedir
para completá-la numa nova existência, que não será mais para ele uma
expiação. (Veja a questão 173.)
987 Que será da pessoa que, sem fazer o mal, também nada faz
para libertar-se da influência da matéria?
– Uma vez que não dá nenhum passo para se melhorar, deve recomeçar
uma existência igual à que deixou; permanece estacionário e, dessa
forma, pode prolongar os sofrimentos da reparação.
988 Existem pessoas cuja vida flui numa calma perfeita; que, não
tendo necessidade de fazer nada por si mesmas, são livres de preocupações.
Essa existência feliz é uma prova de que não têm nada
para reparar de uma existência anterior?
– Conheceis muitas dessas pessoas? Se achais que sim, é um engano.
Muitas vezes, a calma é apenas aparente. Elas podem ter escolhido
essa existência, mas, quando a deixam, percebem que ela não as ajudou
a progredir; e, então, como o preguiçoso, lamentam o tempo perdido.
Sabei que o Espírito pode apenas adquirir conhecimentos e se elevar pela
atividade; se ele se entrega à preguiça, não avança. É semelhante àquele
que tem necessidade, de acordo com vossos costumes, de trabalhar, e
vai passear ou se deitar, com a intenção de não fazer nada. Sabei também
que cada um prestará contas da inutilidade voluntária de sua existência;
essa inutilidade é sempre fatal à felicidade futura. A felicidade futura está
para o homem em razão da soma do bem que faz; a da infelicidade em
razão do mal praticado e das infelicidades que tenham feito.
989 Existem pessoas que, sem serem completamente más, tornam
infelizes, pelo seu temperamento, as que com elas convivem;
qual é a conseqüência disso para elas?
– Essas pessoas, seguramente, não são boas. Repararão suas faltas
tendo sempre presentes na visão a imagem dos que fez infelizes. Isso será
para elas uma reprovação; depois, em outra existência, sofrerão o que
fizeram sofrer.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
327
EXPIAÇÃO E ARREPENDIMENTO
990 O arrependimento se dá na vida física ou na espiritual?
– Na vida espiritual; mas também pode ocorrer na física, quando chegais
a compreender a diferença entre o bem e o mal.
991 Qual a conseqüência do arrependimento na vida espiritual?
– O desejo de uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende
as imperfeições que o impedem de ser feliz e por isso anseia por
uma nova existência em que poderá reparar suas faltas. (Veja as questões
332 e 975.)
992 E o arrependimento ainda na vida física?
– É um começo de progresso, já na vida presente, se houver tempo
de reparar suas faltas. Quando a consciência aponta um erro e mostra
uma imperfeição, sempre se pode melhorar.
993 Não existem pessoas que só têm o instinto do mal e são
inacessíveis ao arrependimento?
– Já vos disse que o Espírito deve progredir sem parar. Aquele que
nesta vida tem apenas o instinto do mal terá o do bem numa outra, e é
para isso que renasce muitas vezes, porque é preciso que todos avancem
e atinjam o objetivo. Apenas uns o alcançam num tempo mais curto; outros,
num tempo mais longo, de acordo com a sua vontade. Aquele que
tem apenas o instinto do bem já está depurado, mas pode ter tido o do
mal numa existência anterior. (Veja a questão 804.)
994 A pessoa que não reconheceu suas faltas durante a vida
sempre as reconhece depois da morte?
– Sim, sempre as reconhece, e então sofre mais, porque sente todo o
mal que fez ou de que foi causa voluntária. Entretanto, o arrependimento
nem sempre é imediato. Há Espíritos que teimam nas inclinações negativas,
apesar dos seus sofrimentos; mas, cedo ou tarde, reconhecerão o
caminho falso, e o arrependimento virá. É para esclarecê-los que trabalham
os bons Espíritos, e vós também podeis trabalhar nesse sentido.
995 Existem Espíritos que, sem serem maus, são indiferentes à
sua sorte?
– Existem Espíritos que não se ocupam com nada de útil: estão sempre
na expectativa; mas é uma situação de sofrimento. Como em tudo
deve haver progresso, esse progresso se manifesta neles pela dor.
995 a Eles não têm o desejo de abreviar seus sofrimentos?
– Eles o têm, sem dúvida, mas não têm vontade suficiente para querer
o que poderia aliviá-los. Quantas pessoas há dentre vós que preferem
morrer de fome a trabalhar?
996 Uma vez que os Espíritos vêem o mal causado pelas suas
imperfeições, como se explica que existam os que agravam essa situação
e prolongam sua condição de inferioridade fazendo o mal como
Espíritos, afastando os homens do bom caminho?
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
328
– Espíritos que agem assim são aqueles em que o arrependimento
é tardio. O Espírito que se arrepende pode se deixar arrastar de novo
pelas tendências inferiores, por outros Espíritos ainda mais atrasados. (Veja
a questão 971.)
997 Vemos Espíritos de uma inferioridade notória acessíveis aos
bons sentimentos e tocados pelas preces feitas para eles. Como se
explica que outros Espíritos, aparentemente mais esclarecidos, mostrem
um endurecimento e cinismo completos?
– A prece apenas tem efeito em favor do Espírito que se arrepende.
Para aquele que, possuído pelo orgulho, revolta-se contra Deus e persiste
nos seus desatinos, exagerando-os ainda mais, como fazem os Espíritos
infelizes, a prece nada pode e nada poderá, até o dia em que uma luz de
arrependimento o esclareça. (Veja a questão 664.)
G Não se deve esquecer que o Espírito, após a morte do corpo, não
está subitamente transformado. Se sua vida foi reprovável, é porque foi
imperfeito; portanto, a morte não o torna imediatamente perfeito. Pode
persistir em seus erros, suas falsas opiniões e preconceitos até que seja
esclarecido pelo estudo, reflexão e sofrimento.
998 A reparação ocorre na vida corporal ou na espiritual?
– A reparação ocorre durante a vida física pelas provas a que o Espírito
é submetido, e na vida espiritual pelos sofrimentos morais ligados à
inferioridade do Espírito.
999 O arrependimento sincero durante a vida basta para apagar
as faltas e merecer a graça de Deus?
– O arrependimento ajuda no adiantamento do Espírito, mas o passado
deve ser reparado.
999 a De acordo com isso, se um criminoso dissesse que, tendo
de reparar seu passado, não tem necessidade de se arrepender, o
que isso resultaria para ele?
– Se teima e persiste no pensamento do mal, sua expiação será mais
longa e mais dolorosa.
1000 Podemos, ainda na vida física, resgatar nossas faltas?
– Sim, reparando-as; mas não penseis resgatá-las por algumas renúncias
infantis ou fazendo a caridade após a morte, quando não tiverdes
mais necessidade de nada. Deus não dá valor ao arrependimento estéril,
sempre fácil, e que custa apenas o esforço de se bater com a mão no
peito. A perda de um dedo mínimo, no trabalho, apaga mais faltas que o
suplício do corpo suportado durante anos, sem outro objetivo além do
bem de si mesmo. (Veja a questão 726.) O mal apenas é reparado pelo
bem, e a reparação não tem nenhum mérito se não atingir a pessoa no seu
orgulho, nos seus interesses materiais.
De que vale, para sua justificação, restituir, após a morte, os bens
irregularmente adquiridos, dos quais tirou proveito durante a vida, e que
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
329
agora para nada servem? De que adianta renunciar a alguns prazeres fúteis
e a coisas supérfluas, se a falta que cometeu com os outros permanece
a mesma? De que serve, enfim, se humilhar perante Deus, se conserva
seu orgulho diante dos homens? (Veja as questões 720 e 721.)
1001 Não haverá nenhum mérito em assegurar, após a morte,
um emprego útil dos bens que possuímos?
– Nenhum mérito não é o termo. Isso sempre é melhor do que nada;
mas o mal é que aquele que doa seus bens depois da morte freqüentemente
é mais egoísta do que generoso; quer ter a honra do bem, mas não
o trabalho de o fazer. Quando renuncia em favor de outros, durante sua
vida, tem duplo proveito: o mérito do sacrifício e o prazer de ver felizes
aqueles que lhe devem a felicidade. Mas o egoísmo está presente quando
lhe diz: “O que tu dás tiras de teus prazeres”; e como o egoísmo fala mais
alto que o desinteresse e a caridade, ele guarda o que possui a pretexto
de suas necessidades pessoais e das exigências de sua posição. Lastimai
aquele que não conhece o prazer de dar; este é verdadeiramente
deserdado de um dos mais puros e mais delicados prazeres. Deus, ao
submetê-lo à prova da riqueza, tão escorregadia e perigosa para seu futuro,
quis lhe dar como compensação a felicidade de ser generoso, da qual
pode desfrutar já aqui na Terra. (Veja a questão 814.)
1002 O que deve fazer aquele que, no último momento da vida,
reconhece suas faltas, mas não tem tempo de repará-las? Basta,
nesse caso, arrepender-se?
– O arrependimento apressa a reabilitação, mas não o absolve. Não
tem diante de si o futuro que nunca se fecha?
DURAÇÃO DAS PENALIDADES FUTURAS
1003 A duração dos sofrimentos para um culpado, numa vida
futura, é sem regras ou segue uma lei?
– Deus não age por capricho, e tudo no universo é regido por leis que
revelam sua sabedoria e bondade.
1004 O que determina a duração dos sofrimentos para o culpado?
– O tempo necessário ao seu melhoramento. A condição de sofrimento
ou felicidade, sendo proporcional ao grau de depuração do Espírito,
faz com que a duração e a natureza dos sofrimentos dependam do tempo
que leva para se melhorar. À medida que progride e seus sentimentos se
depuram, seus sofrimentos diminuem e mudam de natureza.
São Luís
1005 Para o Espírito sofredor, o tempo parece ser mais ou menos
longo do que quando estava encarnado?
– Parece mais longo: o sono não existe para ele. Só para os Espíritos
que atingiram um certo grau de depuração o tempo se funde, por assim
dizer, diante do infinito. (Veja a questão 240.)
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
330
1006 A duração dos sofrimentos do Espírito pode ser eterna?
– Sem dúvida, se ele fosse eternamente mau, isto é, se nunca se melhorasse
nem se arrependesse sofreria eternamente. Mas Deus não criou
seres para serem voltados perpetuamente ao mal; apenas os criou simples
e ignorantes, e todos devem progredir num tempo mais ou menos longo, de
acordo com a vontade de cada um. A vontade pode ser mais ou menos
tardia, assim como existem crianças mais ou menos precoces, mas se
manifestará cedo ou tarde pela irresistível necessidade que o Espírito sente
de sair de sua inferioridade e ser feliz. A lei que rege a duração dos sofrimentos
é, portanto, eminentemente sábia e benevolente, uma vez que subordina
a sua duração aos esforços do Espírito para se melhorar. Nunca interfere no
seu livre-arbítrio: se faz mau uso, dele sofre as conseqüências.
São Luís
1007 Existem Espíritos que nunca se arrependem?
– Existem aqueles em que o arrependimento é muito tardio; mas afirmar
que nunca se melhorarão seria negar a lei do progresso, como afirmar
que a criança não pode se tornar adulta.
São Luís
1008 A duração dos sofrimentos depende sempre da vontade do
Espírito, ou existem aqueles que são impostos por um tempo determinado?
– Sim, os sofrimentos podem ser impostos por um tempo; mas Deus,
que deseja apenas o bem de suas criaturas, sempre acolhe o arrependimento,
e o desejo de se melhorar nunca é inútil.
São Luís
1009 Desse modo, os sofrimentos impostos nunca serão por toda
a eternidade?
– Interrogai o bom senso, a razão, e perguntai-vos se uma condenação
perpétua por causa de alguns momentos de erro não seria a negação
da bondade de Deus. O que é, de fato, a duração da vida, mesmo de cem
anos, em relação à eternidade? Eternidade! Compreendei bem essa palavra?
Sofrimentos, torturas sem fim, sem esperança, por algumas faltas!
Vossa razão não rejeita uma idéia dessa? É compreensível que os antigos
tenham visto no Senhor do universo um Deus terrível, ciumento e vingativo.
Em sua ignorância, atribuíam à Divindade as paixões dos homens.
Porém, esse não é o Deus que o Cristo nos revelou, que coloca como
virtudes primordiais o amor, a caridade, a misericórdia e o esquecimento
das ofensas. Poderia Ele próprio não ter as qualidades das quais faz um
dever? Não há contradição em atribuir ao Criador a bondade infinita e a
vingança também infinita? Ensinai, antes de mais nada, que Ele é justo em
Sua perfeição e que o homem não compreende Sua justiça. Mas a justiça
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
331
não exclui a bondade, e Ele não seria bom se condenasse aos mais horríveis
e perpétuos sofrimentos a maior parte de suas criaturas. Teria o direito
de fazer da justiça uma obrigação para seus filhos, se não lhes tivesse
dado os meios de compreendê-la? Aliás, a sublimidade da justiça, unida à
bondade, está em fazer com que a duração dos sofrimentos dependa dos
esforços que o transgressor faça para se melhorar. Eis a verdade destas
palavras: “A cada um segundo suas obras”.
Santo Agostinho
Esforçai-vos, por todos os meios ao vosso alcance, em combater,
destruir a idéia dos castigos eternos, pensamento blasfemo, ultrajante para
com a justiça de Deus. Esse pensamento é a fonte mais fecunda da incredulidade,
do materialismo e da indiferença que invadiu as massas humanas
desde que sua inteligência começou a se desenvolver. O Espírito,
prestes a se esclarecer, ou apenas saído da ignorância, logo compreende
a monstruosa injustiça; sua razão a rejeita e, então, freqüentemente, sente
a mesma rejeição ao sofrimento que o revolta e a Deus, a quem o atribui;
daí os males inumeráveis que vieram se unir aos vossos e para os quais
viemos trazer remédio. A tarefa que apontamos será tão mais fácil quanto
é certo que as autoridades sobre as quais se apóiam os defensores dessa
crença têm todas evitado de se pronunciar sobre elas formalmente. Nem
os concílios2, nem os Pais da Igreja3 resolveram essa questão. Mesmo de
acordo com os próprios evangelistas, e tomando ao pé da letra as palavras
simbólicas do Cristo, ele ameaçou os culpados com um fogo que não
se apaga, com um fogo eterno; porém, não há absolutamente nada nessas
palavras que prove que ele os condenou eternamente.
Pobres ovelhas desgarradas, sabei deixar vir até vós o bom Pastor
que, longe de vos banir para sempre de sua presença, vem ao vosso
encontro para vos reconduzir ao aprisco4. Filhos pródigos, deixai o exílio
voluntário; dirigi vossos passos à morada paternal: o Pai estende os braços
e se mostra sempre pronto a festejar vosso retorno à família.
Lammenais
Guerras de palavras! Guerras de palavras! Já não fizestes derramar
sangue suficiente? Será ainda preciso reacender as fogueiras? Discutemse
os temas: eternidade das penalidades, eternidade dos castigos; deveis
compreender que o que entendeis hoje por eternidade não é o mesmo
que entendiam os antigos.
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
2 - Concílios: reuniões da Igreja Romana em que se discutem propostas de reforma de conceitos
doutrinários (N. E.).
3 - Pais da Igreja: padres da Igreja Romana de grande cultura, como Santo Agostinho e São
Tomás de Aquino (N. E.).
4 - Aprisco: abrigo, particularmente o que se destina às ovelhas (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
332
Se o teólogo consultar as fontes, descobrirá, como vós, que o texto
hebreu não dava às palavras penas sem fime irremissíveiso mesmo significado
dado pelos gregos, os latinos e os modernos nas suas traduções.
Eternidade dos castigos corresponde à eternidade do mal. Sim, enquanto
o mal existir entre os homens, os sofrimentos subsistirão; é em sentido
relativo que se devem interpretar os textos sagrados. A eternidade dos
sofrimentos é, portanto, apenas relativa, e não absoluta. Quando chegar o
dia em que todos os homens, pelo arrependimento, se revestirem
da túnica da inocência, não haverá mais gemidos nem ranger de dentes.
A razão humana é limitada, é bem verdade, mas mesmo assim é um
presente de Deus. Assim, com a ajuda da razão, não existe uma única
pessoa de boa-fé que não seja capaz de compreender a natureza relativa
da noção de castigos eternos! Castigos eternos! Como? Seria preciso,
então, admitir que o mal é eterno! Somente Deus é eterno e não poderia
ter criado o mal eterno, porque assim seria preciso lhe tirar o mais magnífico
de seus atributos: o poder soberano, porque não seria soberanamente
poderoso aquele que criasse um elemento destruidor de suas próprias
obras. Humanidade! Humanidade! Não mergulhes mais tristes olhares nas
profundezas da Terra para lá procurar os castigos. Chora, espera, arrepende-
te, repara os erros e refugia-te no pensamento de um Deus infinitamente
amoroso, absolutamente poderoso, essencialmente justo.
Platão
Gravitar para a unidade divina, esta é a meta da humanidade. Para
atingi-la, três coisas são necessárias: a justiça, o amor e a ciência; três
coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça. Pois
bem! Eu vos digo, em verdade, que falseais esses princípios fundamentais,
comprometendo a idéia de Deus ao exagerar uma severidade que Ele
não tem. Vós a comprometeis mais ainda incutindo no espírito da criatura
a idéia de que ela mesmo possui mais clemência, bondade, amor e verdadeira
justiça do que o Criador. Vós destruís até mesmo a idéia de inferno
ao torná-lo ridículo e inadmissível às vossas crenças, como é para vossos
corações o horrendo espetáculo das execuções, fogueiras e torturas da
Idade Média! Mas, como? Será que agora, quando a era das represálias
foi banida pela legislação humana, é que esperais mantê-la viva? Acreditai
em mim, irmãos em Deus e em Jesus Cristo, acreditai em mim, ou resignai-
vos a deixar morrer em vossas mãos todos os dogmas, em vez de os
modificar, ou, então, vivificai-os, abrindo-os às idéias puras que os bons
Espíritos derramam neles neste momento. A idéia de inferno, com suas
fornalhas ardentes, suas caldeiras fervilhantes, pode ser tolerada, num século
de ferro; mas atualmente não é mais que um fantasma, quando muito
para amedrontar criancinhas, e no qual elas mesmas não acreditam mais
quando crescem. Insistir nessa mitologia assustadora é incentivar a incredulidade,
mãe de toda desorganização social. Tremo ao ver toda uma ordem
social abalada e a ruir sobre suas bases, por falta de sanção penal
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
333
condizente. Homens de fé ardente e viva, vanguardeiros do dia da luz,
mãos à obra! Não para manter fábulas ultrapassadas que perderam o crédito,
mas para reavivar, restaurar o verdadeiro sentido da sanção penal, de
forma que estejam de acordo com os costumes, sentimentos e as luzes
de vossa época.
Quem é, de fato, o culpado? É aquele que, por um desvio, por um
falso movimento da alma, se afasta do objetivo da Criação, que consiste
no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo5 humano,
pelo Homem-Deus, por Jesus Cristo.
Que é o castigo? A conseqüência natural, derivada desse falso movimento;
uma soma de dores necessárias para fazê-lo desgostar, detestar a
sua deformidade, pela prova do sofrimento. O castigo é o aguilhão que
estimula a alma, pela amargura, a se curvar sobre si mesma e retornar ao
caminho da salvação. O objetivo do castigo é apenas a reabilitação, a
redenção. Querer que o castigo seja eterno, por uma falta que não é eterna,
é negar toda a sua razão de ser.
Eu vos digo em verdade, basta, chega de colocar em paralelo na eternidade
o bem, essência do Criador, com o mal, essência da criatura; isso
seria criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o amortecimento
gradual dos castigos e das penalidades pelas reencarnações sucessivas
e consagrai, com a razão unida ao sentimento, a unidade divina.
Paulo, Apóstolo
G Procura-se estimular o homem ao bem e desviá-lo do mal por meio
do atrativo das recompensas e medo dos castigos. Mas se esses castigos
são apresentados de maneira que a razão se recuse a acreditar
neles, não terão nenhuma influência. Longe disso, rejeitará tudo: a forma
e o fundo. Que se apresente, ao contrário, o futuro, de uma maneira
lógica, e então o homem não mais o rejeitará. O Espiritismo lhe dá essa
explicação.
A doutrina da eternidade dos castigos, no sentido absoluto, faz do
ser supremo um Deus implacável. Seria lógico dizer de um soberano
que ele é muito bom, benevolente, indulgente, que deseja apenas a felicidade
daqueles que o cercam, mas ao mesmo tempo que é ciumento,
vingativo, inflexível em seu rigor, e que pune, com extremo castigo, a
maioria de seus súditos por uma ofensa ou infração às suas leis, mesmo
aqueles que erraram por não ter conhecimento? Isso não seria uma
contradição? Portanto, pode Deus ser menos bom do que seria um
homem?
Uma outra contradição se apresenta aqui. Uma vez que Deus sabe
tudo, sabia que ao criar uma alma ela falharia; ela foi, portanto, desde
sua formação, destinada à infelicidade eterna: isso é possível, é racio-
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
5 - Arquétipo:exemplo, modelo, padrão, protótipo (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
334
nal? Com a doutrina das penalidades relativas, tudo se justifica. Deus
sabia, sem dúvida, que ela falharia, mas lhe dá os meios de se esclarecer
por sua própria experiência, mediante suas próprias faltas. É necessário
que repare seus erros para melhor se firmar no bem, mas a porta
da esperança não lhe é fechada para sempre, e Deus faz com que sua
liberdade dependa dos esforços que faça para atingir o objetivo. Isso
todos podem compreender e a lógica mais meticulosa pode admitir. Se
as penalidades futuras tivessem sido apresentadas sob esse ponto de
vista, haveria bem menos descrentes.
A palavra eterno é freqüentemente empregada, na linguagem comum,
com uma significação figurada, para designar uma coisa de longa
duração e da qual não se prevê o fim, embora se saiba muito bem que
esse fim existe.
Dizemos, por exemplo, os gelos eternos das altas montanhas, dos
pólos, embora saibamos, de um lado, que o mundo físico pode ter um
fim, e, de outro, que o estado dessas regiões pode mudar por causa do
deslocamento normal do eixo da Terra ou por um cataclismo. A palavra
eterno, nesse caso, não quer dizer perpétuo até o infinito. Quando
sofremos com uma longa doença, dizemos que nosso mal é eterno. O
que há, portanto, de estranho que esses Espíritos, ao sofrerem como
sofrem, há anos, há séculos, até mesmo há milhares de anos, o digam
dessa mesma forma e se expressem assim? É preciso lembrar, principalmente,
que sua inferioridade não lhes permite ver a extremidade do
caminho, acreditam sofrer sempre, e isso é para eles uma punição.
Afinal, a doutrina do fogo, das fornalhas e torturas, copiadas do
Tártaro6, do paganismo, foi hoje completamente abandonada pela alta
teologia, e só nas escolas esses pavorosos quadros alegóricos ainda
são apresentados como verdades positivas por certos homens, mais
zelosos que esclarecidos, e isso é um grave erro, porque as imaginações
juvenis, libertando-se de seus terrores, poderão aumentar o
número de incrédulos. A teologia reconhece hoje que a palavra fogo
é usada no sentido figurado na Bíblia e deve ser entendida como um
estado mental, um fogo moral. (Veja a questão 974.) Aqueles que, como
nós, acompanham as ocorrências da vida e os sofrimentos após a
morte pelas comunicações espíritas, puderam se convencer de que,
por não ter nada de material, não são menos dolorosos. Com relação
à sua duração, certos teólogos começam a admiti-las no sentido restrito
indicado acima e pensam que, de fato, a palavra eterno pode se
referir aos castigos, em si mesmos, como conseqüência de uma lei imu-
6 - Tártaro: na mitologia, o lugar mais profundo dos Infernos, onde eram jogados os maiores
pecadores (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
335
tável, e não à sua aplicação a cada indivíduo. No dia em que a religião
admitir essa interpretação, assim como algumas outras que são igualmente
a conseqüência do progresso das luzes, reunirá muitas ovelhas
desgarradas.
RESSURREIÇÃO DA CARNE
1010 O dogma da ressurreição da carne é a consagração da
reencarnação ensinada pelos Espíritos?
– Como quereis que fosse de outro modo? Como acontece com
outras palavras, estas apenas parecem despropositadas aos olhos de
certas pessoas quando são tomadas ao pé da letra. É por isso que levam
à incredulidade. Mas dai-lhes uma interpretação lógica, e aqueles que
chamais livres-pensadores a admitirão sem dificuldade, precisamente
porque raciocinam. Não vos enganeis, os livres-pensadores anseiam e
desejam crer. Eles têm, como os outros, e até mais, sede de futuro, mas
não podem admitir o que a ciência desmente. A doutrina da pluralidade
das existências está de acordo com a justiça de Deus, apenas ela pode
explicar o inexplicável; como querer que o seu princípio não esteja na
própria religião?
1011 Assim a Igreja, pelo dogma da ressurreição da carne, ensina
a doutrina da reencarnação?
– É evidente. Essa doutrina é, aliás, a conseqüência de muitas coisas
que passaram despercebidas e dentro em pouco serão, nesse sentido,
reconhecidas. Em breve, se reconhecerá aquilo que o Espiritismo ressalta
a cada passo, até mesmo do texto das Escrituras sagradas. Os Espíritos
não vêm, portanto, subverter a religião, como alguns pretendem; vêm, ao
contrário, confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis; mas, como
chegou o tempo de não mais empregar a linguagem figurada, exprimemse
sem alegoria e dão às coisas um sentido claro e preciso, que não
possa estar sujeito a nenhuma interpretação falsa. Eis por que, daqui a
algum tempo, tereis mais pessoas sinceramente religiosas e crentes do
que tendes hoje.
São Luís
G A ciência, de fato, demonstra a impossibilidade da ressurreição
de acordo com a idéia que se faz dela. Se os despojos do corpo humano
permanecessem homogêneos, embora dispersos e reduzidos a pó,
ainda se conceberia sua união em um determinado tempo; mas as coisas
não se passam assim. O corpo é formado de diversos elementos:
oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, etc. Pela decomposição, esses
elementos se dispersam e vão servir à formação de novos corpos, de
modo que a mesma molécula, de carbono, por exemplo, terá entrado
na composição de muitos milhares de corpos diferentes (falamos ape-
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
336
nas dos corpos humanos, sem contar os dos animais). É possível que
determinado indivíduo tenha, talvez, em seu corpo moléculas que pertenceram
aos homens das idades primitivas; que essas mesmas moléculas
orgânicas que absorveis em vosso alimento provenham talvez do
corpo de um indivíduo que conhecestes, e assim por diante. Estando a
matéria em quantidade definida e suas transformações em quantidades
indefinidas, como cada um desses corpos poderia se reconstituir dos
mesmos elementos? Existe aqui uma impossibilidade material. Não se
pode, portanto, admitir racionalmente a ressurreição da carne a não ser
como uma figura que simboliza o fenômeno da reencarnação, e então
não há nada mais em choque com a razão, nada que esteja em contradição
com os dados da ciência.
É verdade que, segundo o dogma, essa ressurreição deve acontecer
apenas no fim dos tempos, enquanto, de acordo com a Doutrina
Espírita, acontece todos os dias. Porém, ainda não existe nesse quadro
do julgamento final uma bela e grande figura que esconde, sob o véu da
alegoria, uma dessas verdades imutáveis que não encontrará mais incrédulos,
desde que lhes seja restituída a verdadeira significação? Que
as pessoas sejam dignas de meditar a teoria espírita sobre o futuro das
almas e sua destinação, em relação às diferentes provas que lhes cabe
suportar, e se verá que, com exceção da simultaneidade, o julgamento
em que serão condenadas ou absolvidas não é uma ficção, assim como
pensam os incrédulos. Destaquemos ainda que aquela teoria é a conseqüência
natural da pluralidade dos mundos, hoje perfeitamente admitida,
enquanto, conforme a doutrina do juízo final, a Terra passa a ser o
único mundo habitado.
PARAÍSO, INFERNO E PURGATÓRIO
1012 Haverá lugares determinados no universo destinados às
penalidades e aos prazeres dos Espíritos, conforme seus méritos?
– Já respondemos a essa questão. As penalidades e os prazeres são
inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos; cada um tira de si mesmo o
princípio de sua própria felicidade ou infelicidade; e como estão por toda
parte, nenhum lugar localizado nem fechado está destinado a um ou a outro.
Quanto aos Espíritos encarnados, eles são mais ou menos felizes ou
infelizes conforme o mundo que habitem seja mais ou menos avançado.
1012 a Em vista disso, o inferno e o paraíso não existiriam como
o homem os representa?
– São apenas figuras: existem Espíritos felizes e infelizes por toda parte.
Entretanto, como também dissemos, os Espíritos da mesma ordem se
reúnem por simpatia; mas podem se reunir onde quiserem quando são
perfeitos.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
337
A localização exata dos lugares de penalidades e recompensas existe
apenas na imaginação do homem e provém da tendência de materializar e
circunscrever as coisas das quais eles não podem compreender a essênciainfinita.
1013 O que se deve entender por purgatório?
– Dores físicas e morais: é o tempo de expiação. É quase sempre na
Terra que fazeis vosso purgatório e onde sois obrigados a expiar vossas
faltas.
G O que o homem chama de purgatório é igualmente uma figura pela
qual se deve entender não como um lugar qualquer determinado, mas
como o estado dos Espíritos imperfeitos, que estão em expiação até a
purificação completa que deve elevá-los ao plano dos Espíritos bemaventurados.
Essa purificação, operando-se nas diversas encarnações,
faz com que o purgatório consista nas provas da vida corporal.
1014 Como se explica que Espíritos, que pela sua linguagem
revelam superioridade, tenham respondido a pessoas muito sérias a
respeito do inferno e do purgatório, de acordo com a idéia corrente
que se faz desses lugares?
– Eles falam uma linguagem que possa ser compreendida pelas pessoas
que os interrogam, e quando essas pessoas se mostram convictas
de certas idéias evitam chocá-las bruscamente para não ferir suas convicções.
Se um Espírito quisesse dizer, sem precauções oratórias, a um
muçulmano que Maomé não foi profeta, seria muito mal compreendido.
1014 a Concebe-se que assim possa ser com a maioria dos Espíritos
que desejam nos instruir; mas como se explica que Espíritos
interrogados sobre sua situação tenham respondido que sofriam torturas
do inferno ou do purgatório?
– Quando são inferiores e ainda não completamente desmaterializados,
conservam parte de suas idéias terrenas e transmitem suas impressões se
servindo de termos que lhes são familiares. Eles se encontram num meio
que lhes permite sondar o futuro apenas imperfeitamente, e é por isso que
freqüentemente Espíritos errantes, ou recém-desencarnados, falarão como
se estivessem encarnados. Inferno pode se traduzir por uma vida de provações
extremamente dolorosa, com a incerteza de haver outra melhor.
Purgatório, por uma vida também de provações, mas com consciência de
um futuro melhor. Quando passais por uma grande dor, não dizeis que
sofreis como um condenado? São apenas palavras, e sempre no sentido
figurado.
1015 O que se deve entender por uma alma penada?
– Um Espírito errante e sofredor, incerto de seu futuro, e a quem podeis
proporcionar o alívio que, muitas vezes, solicita ao se comunicar
convosco. (Veja a questão 664.)
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
338
1016 Em que sentido se deve entender a palavra céu?
– Acreditais que seja um lugar, como os Campos Elíseos7 dos antigos,
onde todos os bons Espíritos estão indistintamente aglomerados com
a única preocupação de desfrutar, durante a eternidade, de uma felicidade
passiva? Não. É o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos
os mundos superiores onde os Espíritos desfrutam de todas as suas qualidades
sem os tormentos da vida material nem as angústias próprias à
inferioridade.
1017 Alguns Espíritos disseram estar habitando o quarto, o quinto
céu, etc.; o que quiseram dizer com isso?
– Se lhes perguntais qual céu habitam é porque tendes uma idéia de
muitos céus sobrepostos, como os andares de uma casa. Então, eles
respondem conforme vossa linguagem. Mas, para eles, essas palavras,
quarto e quinto céu, exprimem diferentes graus de depuração e, conseqüentemente,
de felicidade. É exatamente como quando se pergunta a
um Espírito se ele está no inferno; se é infeliz, dirá que sim, porque para ele
inferno é sinônimo de sofrimento; porém, ele sabe muito bem que não é
uma fornalha. Se fosse um pagão diria que estava no Tártaro.
G O mesmo acontece com muitas outras expressões semelhantes,
como: cidade das flores, cidade dos eleitos, primeira, segunda ou terceira
esfera, etc., que não passam de expressões usadas por certos
Espíritos, quer como figuras, quer algumas vezes por ignorância da realidade
das coisas e até mesmo das mais simples noções científicas.
De acordo com a idéia restrita que se fazia antigamente dos lugares
de sofrimentos e recompensas, e principalmente com a opinião de que
a Terra era o centro do universo, de que o céu formava uma abóbada e
que havia uma região de estrelas, colocava-se o céu em cima e o inferno
embaixo. Daí as expressões: subir ao céu, estar no mais alto dos
céus, estar precipitado no inferno. Hoje a ciência demonstra que a Terra
não passa de um dos menores planetas, sem importância especial. Entre
milhões de outros, traçou a história de sua formação e descreveu
sua constituição; provou que o espaço é infinito, que não há nem alto
nem baixo no universo, e assim impôs a rejeição à idéia de situar o céu
acima das nuvens e o inferno nos lugares baixos. Quanto ao purgatório,
nenhum lugar lhe fora designado. Estava reservado ao Espiritismo dar
sobre todas essas coisas a explicação mais racional, grandiosa e, ao
mesmo tempo, mais consoladora para a humanidade. Assim, pode-se
dizer que levamos em nós mesmos nosso inferno e nosso paraíso e,
quanto ao purgatório, nós o encontramos em nossa encarnação, em
nossas vidas físicas.
7 - Campos Elíseos: na Mitologia, lugar onde se encontravam, após a morte, as almas dos heróis
e dos justos (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE QUARTA
339
1018 Em que sentido é preciso entender estas palavras do Cristo:
“Meu reino não é deste mundo?”
– O Cristo, ao responder assim, falava num sentido figurado. Ele queria
dizer que apenas reina nos corações puros e desinteressados. Ele está
por todos os lugares onde domina o amor ao bem, mas os homens ávidos
das coisas deste mundo e ligados aos bens da Terra não estão com ele.
1019 O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra?
– O bem reinará na Terra quando, entre os Espíritos que vêm habitála,
os bons predominarem sobre os maus; então eles farão reinar na Terra
o amor e a justiça, que são a fonte do bem e da felicidade. Pelo progresso
moral e praticando as leis de Deus é que o homem atrairá para a Terra os
bons Espíritos e afastará os maus; mas os maus só a deixarão quando o
homem tiver expulsado de si o orgulho e o egoísmo.
A transformação da humanidade foi anunciada e é chegado o tempo
em que todos os homens amantes do progresso se apresentam e se
apressam, porque essa transformação se fará pela encarnação dos Espíritos
melhores, que formarão sobre a Terra uma nova ordem. Então, os
Espíritos maus, que a morte vai retirando a cada dia, e aqueles que tentam
deter a marcha das coisas serão excluídos da Terra porque estariam deslocados
entre os homens de bem dos quais perturbariam a felicidade.
Eles irão para mundos novos, menos avançados, desempenhar missões
punitivas para seu próprio adiantamento e de seus irmãos ainda mais
atrasados. Nessa exclusão de Espíritos da Terra transformada não percebeis
a sublime figura do paraíso perdido? E a chegada à Terra do homem
em semelhantes condições, trazendo em si o gérmen de suas paixões e
os traços de sua inferioridade primitiva, a figura não menos sublime do
pecado original? O pecado original, sob esse ponto de vista, se refere à
natureza ainda imperfeita do homem, que é, assim, responsável por si
mesmo e por suas próprias faltas e não pelas faltas de seus pais. Todos
vós, homens de fé e boa vontade, trabalhai com zelo e coragem na grande
obra da regeneração, porque recolhereis cem vezes mais o grão que tiverdes
semeado. Infelizes aqueles que fecham os olhos à luz. Preparam para
si longos séculos de trevas e decepções; infelizes os que colocam todas
as suas alegrias nos bens deste mundo, porque sofrerão mais privações
do que os prazeres de que desfrutaram; infelizes, principalmente, os egoístas,
porque não encontrarão ninguém para ajudá-los a carregar o fardo de
suas misérias.
São Luís
CAPÍTULO 2 – PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
340
Aquele que do magnetismo terrestre conhece apenas o brinquedo
dos patinhos imantados, que se movimentam numa bacia com água
sob a ação do ímã, dificilmente poderá compreender que ali está o
segredo do mecanismo do universo e dos movimentos dos planetas.
O mesmo acontece com quem conhece do Espiritismo somente
o fenômeno das mesas girantes1; vê apenas um divertimento, um
passatempo da sociedade, e não compreende que esse fenômeno
tão simples e comum, conhecido da Antiguidade e até mesmo dos
povos semi-selvagens, possa ter alguma ligação com as questões
da maior importância para a sociedade humana. Para o observador
comum, de fato, que relação a simplicidade de uma mesa que se move
pode ter com a moral e o futuro da humanidade? Mas aquele que
ponderar há de se lembrar que da simples panela que ferve e ergue
a tampa com a pressão do vapor, fato que também ocorre desde toda
a Antiguidade, saiu o poderoso motor com que o homem transpõe o
espaço e supera as distâncias. Pois bem! Vós, que não credes em
nada fora do mundo material, sabei que da mesa que se move e provoca
vossos sorrisos desdenhosos saiu uma ciência e a solução de
problemas que nenhuma filosofia pudera ainda resolver. Apelo para
todos os adversários de boa-fé e os desafio a dizer se se deram ao
trabalho de estudar o que criticam; porque, em boa lógica, a crítica
só tem valor quando o crítico conhece aquilo que critica. Zombar de
uma coisa que não se conhece, que não se pesquisou com o critério
do observador consciencioso, não é criticar, é dar prova de leviandade
e dar uma pobre idéia de sua capacidade de julgamento. Certamente,
se tivéssemos apresentado esta filosofia como obra de um
cérebro humano, ela teria encontrado menos desprezo e receberia as
honras do exame daqueles que pretendem dirigir a opinião pública;
mas ela vem dos Espíritos! Que absurdo! É com muito custo que lhe
dispensam um de seus olhares; julgam apenas pelo título, como o
macaco da fábula julgou a noz pela casca. Ignorai, se quiserdes,
sua origem: suponde que este livro seja obra de um homem e dizei,
conscientemente, se, após uma leitura séria, encontrais nele motivo
para zombaria.
CONCLUSÃO
1
1 - Fenômeno das mesas girantes: na Introdução, capítulo 3, Allan Kardec se refere “à série
progressiva dos fenômenos”, a história que acabaria por originar esta obra. Entre eles está a das
mesas falantes ou girantes (N. E.).
341
2
O Espiritismo é o antagonista mais terrível do materialismo! Não
é de admirar que tenha os materialistas como adversários. Mas como
o materialismo é uma doutrina que poucos se atrevem a confessar
abertamente (prova de que não estão seguros de suas convicções e
são dominados por essa insegurança), eles se defendem com o manto
da razão e da ciência, e, o que é estranho, os mais descrentes até
mesmo falam em nome da religião, que também não conhecem e não
compreendem, como o Espiritismo. Seu ponto de ataque se concentra
principalmente no maravilhoso e no sobrenatural, que não admitem.
De acordo com eles, o Espiritismo, estando fundado no maravilhoso,
não passa de uma suposição ridícula. Eles não pensam que ao condenar,
sem restrição, o processo do maravilhoso e do sobrenatural,
condenam a religião. De fato, a religião está fundada na revelação e
nos milagres; portanto, o que é a revelação senão comunicações extra-
humanas? Todos os autores sagrados, desde Moisés, falaram desses
gêneros de comunicações. O que são os milagres senão fatos
maravilhosos e sobrenaturais por excelência, uma vez que são, no
sentido litúrgico2, uma anulação das leis da natureza? Portanto, ao
rejeitar o maravilhoso e o sobrenatural, rejeitam as próprias bases de
toda religião. Mas não é sob esse ponto de vista que devemos encarar
a questão. O Espiritismo não tem de examinar se existem ou não milagres.
Se Deus pôde, em certos casos, alterar as leis eternas que
regem o universo, o Espiritismo deixa, em relação a isso, toda a liberdade
de crença. Diz e prova que os fenômenos em que se apóia nada
têm de sobrenatural, a não ser na aparência. Esses fenômenos não
parecem naturais aos olhos de certas pessoas, porque estão fora do
comum e diferentes dos fatos conhecidos. Mas não são mais sobrenaturais
do que todos os fenômenos dos quais a ciência nos dá hoje a
solução e que pareciam maravilhosos antes, em uma outra época.
Todos os fenômenos espíritas, sem exceção, são conseqüência de
leis gerais. Revelam-nos um dos poderes da natureza, poder desconhecido,
ou melhor, incompreendido até aqui, mas que a observação
demonstra estar na ordem das coisas. O Espiritismo se fundamenta
menos no maravilhoso e no sobrenatural do que a própria religião;
aqueles que o atacam sob esse aspecto é porque não o conhecem, e
ainda que fossem os homens mais sábios, nós lhes diríamos: se a
ciência, que vos ensinou tanta coisa, não ensinou que o domínio da
natureza é infinito, sois apenas meio sábios.
CONCLUSÃO
2 - Litúrgico: referente à liturgia, que é o culto público e oficial instituído por uma igreja; ritual (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
342
3
Conforme dizeis, desejais curar o século dessa mania de credulidade
que ameaça invadir o mundo. Gostaríeis que o mundo fosse
dominado pela incredulidade que procurais propagar? Não é por causa
da ausência de toda crença que se deve atribuir o relaxamento dos
laços de família e a maior parte das desordens que minam a sociedade?
Ao demonstrar a existência e a imortalidade da alma, o Espiritismo
reaviva a fé no futuro, levanta os ânimos abatidos, faz suportar
com resignação as contingências da vida. Ousaríeis chamar a isso
um mal? Duas doutrinas se defrontam: uma que nega o futuro, a outra
que o proclama e o prova; uma que nada explica, a outra que explica
tudo e por isso mesmo se dirige à razão; uma é a confirmação do
egoísmo, a outra dá uma base à justiça, à caridade e ao amor de seus
semelhantes. A primeira mostra apenas o presente e aniquila toda
esperança, a segunda consola e mostra o vasto campo do futuro; qual
é a mais nociva?
Certas pessoas, dentre as mais descrentes, se fazem apóstolos
da fraternidade e do progresso; mas a fraternidade pressupõe o desinteresse,
a renúncia da personalidade. Portanto, para a verdadeira
fraternidade o orgulho é uma aberração. Com que direito se impõe um
sacrifício àquele a quem dizeis que quando morrer tudo estará acabado;
que amanhã talvez não será nada mais do que uma velha máquina
desmantelada e jogada fora? Que razão terá ele para si mesmo
impor uma renúncia qualquer? Não é mais natural que durante os
breves instantes que lhe concedeis ele trate de viver o melhor possível?
Daí vem o desejo de possuir muito para melhor desfrutar. Desse
desejo nasce a inveja contra os que possuem mais que ele; e dessa
inveja para a vontade de se apossar do que é dos outros basta apenas
um passo. O que o detém? A lei? Mas a lei não abrange todos os
casos. Direis que é a consciência, o sentimento do dever? Mas sobre
o que baseais o sentimento do dever? Restará a esse sentimento
uma razão de ser se estiver ligado à crença de que tudo termina com
a vida? Com essa crença apenas uma doutrina é racional: cada um
por si. As idéias de fraternidade, consciência, dever, humanidade e até
mesmo de progresso são apenas palavras vãs. Vós que proclamais
semelhantes doutrinas não sabeis todo o mal que fazeis à sociedade,
nem por quantos crimes assumis a responsabilidade! Mas o que falo
sobre responsabilidade? Para o descrente isso não existe, ele presta
homenagem apenas à matéria.
4
O progresso da humanidade tem seu princípio na aplicação da lei
de justiça, amor e caridade. Essa lei está fundada na certeza do futu343
ro; se lhe tirais essa certeza, tirais sua pedra fundamental. Dessa lei
derivam todas as outras, porque ela encerra todas as condições da
felicidade do homem. Apenas ela pode curar as chagas da sociedade,
e o homem pode julgar, comparando as idades e os povos, quanto
sua condição melhora à medida que essa lei é mais bem compreendida
e praticada. Note-se que se sua aplicação parcial e incompleta
produz um bem real, o que não acontecerá quando ela for a base de
todas as suas instituições sociais! Isso é possível? Sim, porque se ele
já deu dez passos pode dar vinte, e assim por diante. Pode-se, portanto,
julgar o futuro pelo passado. Já vimos pouco a pouco se extinguirem
as antipatias de povo a povo; as barreiras que os separam
diminuem com a civilização; eles se dão as mãos de um extremo a
outro do mundo; uma justiça maior regula as leis internacionais; as
guerras tornam-se cada vez mais raras e não excluem os sentimentos
humanitários; a uniformidade se estabelece nas relações; as discriminações
de raças e de castas acabam, e os homens de crenças diferentes
fazem calar os preconceitos de seitas para se confundirem na
adoração de um único Deus. Falamos dos povos que marcham à frente
da civilização. (Veja as questões 789 e 793.)
Apesar de todos esses aspectos, ainda estamos longe da perfeição,
e ainda existem muitos resíduos antigos para ser destruídos até
que tenham desaparecido os últimos vestígios da barbárie. Mas esses
resíduos poderão continuar contra a força irresistível do progresso,
essa força viva que é, ela mesma, uma lei da natureza? Se a presente
geração é mais avançada do que a passada, por que a seguinte não
será mais avançada do que a nossa? Ela o será pela força das coisas;
inicialmente porque com as gerações se extinguem dia a dia alguns
campeões dos velhos abusos, e assim a sociedade se forma pouco a
pouco de elementos novos que se libertaram dos velhos preconceitos.
Em segundo lugar, porque o homem, desejando o progresso, estuda
os obstáculos e se aplica em removê-los. Uma vez que o movimento
progressivo é evidente, o progresso futuro não pode ser posto
em dúvida. O homem quer ser feliz, e é natural esse desejo; portanto,
ele procura o progresso apenas para aumentar sua felicidade, sem o
que o progresso não teria sentido, em nada o serviria, se não melhorasse
sua posição. Mas, quando tiver desfrutado o máximo de todos os
prazeres que o progresso intelectual pode proporcionar, perceberá que
não tem a felicidade completa; reconhecerá que essa felicidade sem a
segurança das relações sociais é irrealizável, é impossível. Essa segurança
ele só encontrará no progresso moral. Então, pela força das coisas
ele mesmo conduzirá o progresso nesse sentido, e o Espiritismo
será a mais poderosa alavanca para atingir esse objetivo.
CONCLUSÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
344
5
Os que dizem que as crenças espíritas ameaçam invadir o mundo
proclamam, desse modo, a força do Espiritismo, porque uma idéia
sem fundamento e destituída de lógica não poderia se tornar universal.
Assim, se o Espiritismo se implanta por toda parte, se tem como seguidores
principalmente pessoas esclarecidas, como se pode constatar,
é que tem um fundo de verdade. Contra essa tendência, todos os
esforços de seus detratores3 serão inúteis, e a prova é que até mesmo
o ridículo com que procuram cobri-lo, longe de amortecer sua marcha,
parece lhe ter dado uma nova vida. Esse resultado justifica
plenamente o que dizem repetidas vezes os Espíritos: “Não vos inquieteis
com a oposição; tudo o que se fizer contra se tornará a favor, e os
maiores adversários servirão à causa sem querer. Contra a vontade
de Deus a má vontade dos homens não prevalece”.
Com o Espiritismo, a humanidade deve entrar numa nova fase, a
do progresso moral, que é sua conseqüência inevitável. Parai, portanto,
de vos espantar com a rapidez com que se propagam as idéias
espíritas; a causa disso está na satisfação que elas proporcionam a
todos os que nelas se aprofundam e que nelas vêem algo mais do que
um fútil passatempo; portanto, como o homem quer sua felicidade
acima de tudo, não é de estranhar que se apegue a uma idéia que faz
as pessoas felizes.
O desenvolvimento dessas idéias apresenta três períodos distintos:
o primeiro é o da curiosidade provocada pela estranheza dos fenômenos
que se produziram; o segundo, do raciocínio e da filosofia; o
terceiro, da aplicação e das conseqüências. O período da curiosidade
passou. A curiosidade dura pouco; uma vez satisfeita, esquece-se o
objeto para passar a um outro. O mesmo não acontece com o que
recorre ao raciocínio sério e ao julgamento.
O segundo período começou, e o terceiro se seguirá inevitavelmente.
O Espiritismo progrediu especialmente depois de ter sido mais
bem compreendido na sua essência, desde que perceberam seu alcance,
porque ele toca no ponto mais sensível do homem: o de sua
felicidade, até mesmo neste mundo; aí está a causa de sua propagação,
o segredo da força que o fará triunfar. Ele torna felizes aqueles
que o compreendem, enquanto sua influência vai se ampliando sobre
as massas. Até mesmo aquele que nunca testemunhou nenhum fenômeno
das manifestações diz: “Além desses fenômenos, existe a filosofia;
essa filosofia me explica o que NENHUMA outra havia me explicado;
nela encontro, somente pelo raciocínio, uma demonstração racional
dos problemas que interessam no mais alto grau ao meu futuro;
3 - Detrator: aquele que deprecia ou difama o mérito ou a reputação de alguma coisa (N. E.).
345
ele me proporciona a calma, a segurança, a confiança; livra-me do
tormento da incerteza e, além disso, a questão dos fatos materiais
passa a ser secundária”. Todos vós que atacais o Espiritismo quereis
um meio de combatê-lo com sucesso? Aqui está. Trocai-o por algo
melhor; indicai uma solução MAIS FILOSÓFICA a todas as questões
que ele resolveu; dai ao homem uma OUTRA CERTEZA que o torne
mais feliz e compreendei bem o alcance desta palavra certeza, já que
o homem aceita como certo o que lhe parece lógico; não vos contenteis
em dizer: “Isto não é assim”; é muito fácil fazer uma afirmativa
dessas. Provai, não por uma negação, mas por meio de fatos, que
isso não é real, nunca foi e NÃO PODE ser; se não é, dizei o que em
seu lugar pode ser; provai, enfim, que as conseqüências do Espiritismo
não tornam os homens melhores e, portanto, mais felizes, pela
prática da mais pura moral evangélica, moral que muito é louvada,
mas pouco praticada. Quando tiverdes feito isso, tereis o direito de o
atacar. O Espiritismo é forte porque se apóia nas próprias bases da
religião: Deus, a alma, os sofrimentos e as recompensas futuras; principalmete
porque mostra esses sofrimentos e recompensas como conseqüências
naturais da vida terrestre, e que nada, no quadro que oferece
do futuro, pode ser recusado pela razão mais exigente. Vós, cuja
doutrina é a negação do futuro, que compensação ofereceis aos sofrimentos
aqui da Terra? Vós vos apoiais na incredulidade, o Espiritismo
se apóia na confiança em Deus; enquanto ele convida os homens à
felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade, vós ofereceis o
NADA por perspectiva e o EGOÍSMO por consolação. Ele explica tudo,
vós não explicais nada; ele prova pelos fatos e vós não provais nada.
Como quereis que as pessoas duvidem entre as duas doutrinas?
6
Seria fazer uma idéia muito falsa do Espiritismo acreditar que sua
força vem das manifestações materiais e que, impedindo essas manifestações,
pode-se miná-lo em sua base. Sua força está na filosofia,
no apelo que faz à razão, ao bom senso. Na Antiguidade, era objeto
de estudos misteriosos, cuidadosamente escondidos do povo. Hoje,
não tem segredos para ninguém; fala uma linguagem clara, sem equívocos.
Nele não há nada de místico, nada de alegorias passíveis de
falsas interpretações; quer ser compreendido por todos, porque chegou
o tempo de as pessoas conhecerem a verdade; longe de se opor
à difusão da luz, ele a revela para todas as pessoas. Não exige uma
crença cega, quer que se saiba por que se crê; ao se apoiar na razão,
será sempre mais forte do que aqueles que se apóiam no nada. Os
obstáculos que tentassem antepor à liberdade das manifestações poderiam
lhe dar fim? Não, porque só produziriam o efeito de todas as
perseguições: o de estimular a curiosidade e o desejo de conhecer o
CONCLUSÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
346
que é proibido. Por outro lado, se as manifestações espíritas fossem
privilégio de um único homem, ninguém duvida que, pondo esse
homem de lado, as manifestações acabariam. Infelizmente, para os
adversários, elas estão ao alcance de todos, desde o simples até o
sábio, desde o palácio até ao mais humilde casebre; qualquer um
pode a elas recorrer. Pode-se proibir que sejam feitas em público; mas
sabe-se precisamente que não é em público que elas se produzem
melhor, e sim reservadamente. Portanto, como cada um pode ser médium,
quem pode impedir uma família no seu lar, um indivíduo no
silêncio de seu gabinete, o prisioneiro na cela, de ter comunicação
com os Espíritos, apesar da proibição dos seus opositores e mesmo
na presença deles?
Se as proíbem em um país poderão impedi-las nos países vizinhos,
no mundo inteiro, uma vez que não há um país, em qualquer
dos continentes, onde não haja médiuns? Para prender todos os médiuns
seria preciso prender a metade da população humana; se até
mesmo chegassem, o que não seria muito fácil, a queimar todos os
livros espíritas, estariam reproduzidos no dia seguinte, porque sua
fonte é inatacável, e não se podem prender nem queimar os Espíritos,
que são seus verdadeiros autores.
O Espiritismo não é obra de um homem; ninguém se pode dizer
seu criador, porque ele é tão antigo quanto a Criação; encontra-se por
toda parte, em todas as religiões e na religião Católica ainda mais, e
com mais autoridade do que em qualquer outra, porque nela se encontram
os mesmos princípios: os Espíritos de todos os graus, suas
relações ocultas e patentes com os homens, os anjos de guarda, a
reencarnação, a emancipação da alma durante a vida, a dupla vista,
as visões, as manifestações de todos os gêneros, as aparições e até
mesmo as aparições tangíveis, isto é, as materializações. Com relação
aos demônios, não passam de maus Espíritos e, salvo a crença
de que foram destinados ao mal por toda a eternidade, enquanto o
caminho do progresso está livre para os outros existe entre eles apenas
a diferença de nome.
O que faz a ciência espírita moderna? Ela reúne num corpo de
doutrina o que estava esparso; explica em termos próprios o que estava
somente em linguagem alegórica; elimina o que a superstição e
a ignorância produziram para deixar apenas a realidade e o positivo:
eis seu papel; mas o de fundadora não lhe cabe. A Doutrina Espírita
mostra o que é, coordena, mas não cria nada, por isso suas bases
são de todos os tempos e de todos os lugares. Quem, pois, ousaria se
acreditar forte o suficiente para abafá-la com sarcasmos e até mesmo
com a perseguição? Se a proibirem num lugar, renasce em outros, no
próprio terreno de onde a expulsaram, porque está na natureza e não
é dado ao homem anular uma força da natureza nem opor seu veto
aos decretos de Deus.
347
Afinal, que interesse haveria em entravar a propagação das
idéias espíritas? Essas idéias, é bem verdade, se opõem aos abusos
que nascem do orgulho e do egoísmo. Porém, esses abusos de que
alguns se aproveitam prejudicam a coletividade humana que, portanto,
será favorável às idéias espíritas, que terão como adversários sérios
apenas aqueles que são interessados em manter esses abusos. Por
sua influência, ao contrário, essas idéias, tornando os homens melhores
uns para com os outros, menos ávidos dos interesses materiais e
mais resignados aos decretos da Providência, são uma certeza de
ordem e de tranqüilidade.
7
O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: as manifestações,
os princípios de filosofia e de moral que delas decorrem e
a aplicação desses princípios; daí, três classes, ou três graus, entre
os espíritas:
1ª) aqueles que acreditam nas manifestações e se limitam em
constatá-las: para eles, o Espiritismo é uma ciência experimental;
2ª) aqueles que compreendem suas conseqüências morais;
3ª) aqueles que praticam ou se esforçam para praticar essa moral.
Seja qual for o ponto de vista, científico ou moral, sob o qual se
considerem esses fenômenos, cada um deles significa que é uma ordem
totalmente nova de idéias que surge, cujas conseqüências resultarão
numa profunda modificação na humanidade, e também compreende
que essa modificação pode apenas acontecer no sentido do bem.
Quanto aos adversários, pode-se também classificá-los em três
categorias: 1ª) aqueles que negam sistematicamente tudo o que é
novo ou que não vem deles e que falam disso sem conhecimento de
causa. A essa classe pertencem os que não admitem nada fora da
evidência dos sentidos; não viram nada, nada querem ver e ainda
menos se aprofundar. Ficariam até mesmo aborrecidos se vissem as
coisas muito claramente, com medo de serem forçados a admitir que
não têm razão. Para eles, o Espiritismo é uma fantasia, uma loucura,
uma utopia; ele não existe: está dito tudo. São os incrédulos de propósito.
Ao lado deles, pode-se colocar aqueles que não se dignam em
dar aos fatos a mínima atenção, nem por desencargo de consciência,
e poderem dizer: quis ver e nada vi. Não compreendem que seja preciso
mais de meia hora para se dar conta de toda uma ciência. 2ª)
Aqueles que, sabendo muito bem o que pensar da realidade dos fatos,
os combatem, todavia, por motivos de interesse pessoal. Para
eles, o Espiritismo existe, mas têm medo de suas conseqüências; atacam-
no como a um inimigo. 3ª) aqueles que encontram na moral espírita
uma censura muito severa aos seus atos e às suas tendências. O
CONCLUSÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
348
Espiritismo, levado a sério, os incomodaria; eles nem o rejeitam nem
o aprovam: preferem fechar os olhos. Os primeiros são dominados
pelo orgulho e pela presunção; os segundos, pela ambição; os terceiros,
pelo egoísmo. Compreende-se que essas causas de oposição,
não tendo nada de sólido, devem desaparecer com o tempo, porque
procuraríamos em vão uma quarta classe de antagonistas, opositores
que se apoiassem em provas contrárias, concretas, e apresentassem
um estudo contestador mas bem claro da questão. Todos apenas
opõem a negação, nenhum oferece demonstração séria e irrefutável.
Seria esperar demais da natureza humana acreditar que ela possa
se transformar subitamente pelas idéias espíritas. A ação da idéia
espírita não é claramente nem a mesma, nem no mesmo grau em
todos aqueles que as professam. Mas, seja qual for o resultado, por
pequeno que seja, é sempre um melhoramento, bastará apenas provar
a existência de um mundo extracorpóreo, o que implica a negação
das doutrinas materialistas. Isso é a própria conseqüência da observação
dos fatos. Porém, para os que compreendem o Espiritismo filosófico
e nele vêem além dos fenômenos mais ou menos curiosos, os
efeitos são outros. O primeiro, e mais geral, é de desenvolver o sentimento
religioso até mesmo naquele que, sem ser materialista, sente
apenas indiferença pelas coisas espirituais. Disso resultará para ele
a serenidade perante a morte; porém, em vez de desprezar ou desejar
a morte, o espírita defenderá sua vida como outro qualquer, mas tranqüilamente
aceita, sem lamentos, uma morte inevitável como uma coisa
mais feliz do que temível, pela certeza que tem do que lhe acontecerá.
O segundo efeito, quase tão geral quanto o primeiro, é a resignação
nas alternâncias da vida. O Espiritismo faz ver as coisas de tão alto
que a vida terrestre passa a ter a sua verdadeira importância e o homem
não se aflige tanto com os tormentos que o acompanham: daí,
quanto mais coragem nas aflições, mais moderação nos desejos;
daí também o afastamento do pensamento de abreviar seus dias, porque
a ciência espírita ensina que, pelo suicídio, perde-se sempre o
que se queria ganhar. A certeza de um futuro que depende de nós
mesmos tornar feliz, a possibilidade de estabelecer relações com seres
que nos são queridos oferecem ao espírita uma consolação suprema.
Seu horizonte se amplia até ao infinito pelo espetáculo incessante
que tem da vida além da morte, da qual pode sondar os mistérios
profundos. O terceiro efeito é estimular no homem o perdão e a
tolerância para com os defeitos dos outros. Mas é preciso ficar claro
que o princípio egoísta e tudo que dele decorre são o que existe de
mais obstinado no homem e, conseqüentemente, o mais difícil de arrancar
pela raiz. Fazemos sacrifícios voluntariamente, contanto que
nada custem e de nada nos privem. O dinheiro ainda é, para o maior
349
número de pessoas, um atrativo irresistível, e bem poucos compreendem
a palavra supérfluo, quando se trata de sua pessoa. Assim a
renúncia da personalidade é sinal do mais eminente progresso.
8
Os Espíritos, perguntam certas pessoas, nos ensinam uma moral
nova, superior à que ensinou o Cristo? Se essa moral é a do Evangelho,
para que serve o Espiritismo? Esse raciocínio assemelha-se ao do
califa Omar, referindo-se à biblioteca de Alexandria: “Se ela contém,
dizia ele, apenas o que existe no Alcorão, é inútil; portanto, deve ser
queimada. Se contém outra coisa, é má; portanto, ainda é preciso
queimá-la”. Não, o Espiritismo não ensina uma moral diferente da de
Jesus; mas perguntaremos: Antes de Cristo os homens não tinham a
lei dada por Deus a Moisés? Sua doutrina não se encontra no Decálogo?
Por isso, se dirá que a moral de Jesus era inútil? Perguntaremos
ainda àqueles que negam a utilidade da moral espírita: por que a
do Cristo é tão pouco praticada e porque os que lhe proclamam com
justiça a sublimidade são os primeiros a violar a primeira de suas leis:
a caridade universal ? Os Espíritos vêm não apenas confirmá-la, mas
mostram sua utilidade prática; tornam inteligíveis e claras verdades
que tinham sido ensinadas apenas sob forma alegórica; e, ao lado da
moral, vêm definir os problemas mais profundos da psicologia.
Jesus veio mostrar aos homens o caminho do verdadeiro bem;
porque Deus, que o enviou para fazer lembrar sua lei desprezada,
não enviaria hoje Espíritos para lhes lembrar de novo e com mais
precisão, quando a esquecem para tudo sacrificar ao orgulho e à
cobiça? Quem ousaria impor limites ao poder de Deus e Lhe traçar
normas? Quem nos diz que, como afirmam os Espíritos, não são chegados
os tempos preditos e que não chegamos ao tempo em que as
verdades mal compreendidas ou falsamente interpretadas devam ser
abertamente reveladas à humanidade para apressar seu adiantamento?
Não há algo de providencial nessas manifestações que se produzem
simultaneamente em todos os pontos do globo? Não é apenas
um único homem, ou um profeta, que vem nos advertir. A luz surge de
todas as partes. É um mundo totalmente novo que se desdobra aos
nossos olhos. Assim como a invenção do microscópio nos mostrou o
mundo dos infinitamente pequenos que desconhecíamos que existissem
e o telescópio nos mostrou milhares de sóis e planetas que também
desconhecíamos, as comunicações espíritas revelam o mundo
invisível que nos cerca, cujos habitantes se acotovelam conosco constantemente
e, contra nossa vontade, tomam parte em tudo que fazemos.
Mais algum tempo e a existência desse mundo, que nos espera,
também será tão incontestável quanto o mundo microscópico e dos
CONCLUSÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
350
sóis e planetas que giram no espaço. De nada, então, nos valerá nos
terem feito conhecer todo um mundo? De nos ter iniciado nos mistérios
da vida além-morte? É verdade que essas descobertas, se assim
podemos chamar, contrariam de certo modo certas idéias pré-estabelecidas.
Mas todas as grandes descobertas científicas não modificaram
igualmente, e até mesmo derrubaram, as idéias de maior crédito?
E não foi preciso que nosso amor-próprio se curvasse diante da
evidência?
O mesmo acontecerá com relação ao Espiritismo e, em pouco tempo,
ele terá o direito de ser citado entre os conhecimentos humanos.
As comunicações com os seres desencarnados deram por resultado
nos fazer compreender a vida futura, fazendo com que a vejamos,
nos preparando para os sofrimentos e prazeres que nos esperam
segundo nossos méritos e por isso mesmo encaminhar para o
espiritualismo aqueles que viam nos homens apenas a matéria, a máquina
organizada. Também tivemos razão em dizer que o Espiritismo
matou o materialismo pelos fatos. Se tivesse produzido apenas esse
resultado, já bastante gratidão lhe deveria a sociedade; porém, faz
mais: mostra os inevitáveis efeitos do mal e, conseqüentemente, a
necessidade do bem. O número daqueles a quem proporcionou sentimentos
melhores, neutralizou as más tendências e desviou do mal é
maior do que se pode pensar e aumenta todos os dias. É que para
estes o futuro deixou de ser uma coisa imprecisa, vaga; não é mais
uma simples esperança, é uma verdade que se compreende, que se
explica, quando se vêem e ouvem aqueles que vêm até nós se lamentar
ou se felicitar pelo que fizeram na Terra. Todo aquele que é testemunha
disso se põe a refletir e sente a necessidade de se conhecer,
de se julgar e de se modificar.
9
Os adversários do Espiritismo não se esqueceram de se armar
contra ele com algumas divergências de opiniões sobre certos pontos
da Doutrina. Não deveria causar estranheza nem é de admirar que,
no início de uma ciência, quando as observações ainda são incompletas
e cada um a considera sob seu ponto de vista, sistemas contraditórios
tenham oportunidade de aparecer. Mas, hoje, a grande maioria
desses sistemas já caiu diante de um estudo mais aprofundado, a
começar pelo que atribuía todas as comunicações ao Espírito do mal,
como se fosse impossível a Deus enviar aos homens bons Espíritos;
doutrina absurda, pois é desmentida pelos fatos; incrédula, porque é
a negação do poder e da bondade do Criador. Os Espíritos sempre
nos aconselharam a não nos inquietarmos com essas divergências e
que a unidade se daria. A unidade já está firmada na maioria dos
351
pontos, e as divergências tendem cada dia a desaparecer. Com relação
a essa questão perguntou-se aos Espíritos: enquanto se aguarda
a união, sobre o que pode o homem imparcial e desinteressado basear-
se para formar um julgamento? Eis a resposta:
“A luz mais pura não é obscurecida por nenhuma nuvem; o diamante
puro tem mais valor; julgai, portanto, os Espíritos, de acordo
com a pureza de seus ensinamentos. Não esqueçais que entre os
Espíritos existem aqueles que ainda não se livraram das idéias da
vida terrestre; sabei distingui-los por sua linguagem; julgai-os pelo
conjunto do que dizem; vede se existe encadeamento lógico em suas
idéias; se nelas nada revela ignorância, orgulho ou malevolência; em
resumo, se suas palavras trazem sempre o cunho da sabedoria que
manifesta a verdadeira superioridade. Se vosso mundo fosse inacessível
ao erro, seria perfeito, e ele está longe disso. Ainda estais nele
para aprender a distinguir o erro da verdade; faltam as lições da experiência
para exercer vosso julgamento e vos fazer avançar. A unidade
se produzirá do lado em que o bem nunca foi misturado com o mal; é
desse lado que os homens se unirão pela força das coisas, porque
reconhecerão que aí está a verdade.
Que importam, aliás, algumas divergências que estão mais na
forma do que no fundo! Notai que os princípios fundamentais são por
toda parte os mesmos e devem vos unir por um pensamento comum:
o amor de Deus e a prática do bem. Seja qual for, assim, o modo de
progresso que se supõe ou as condições normais de existência futura,
o objetivo final é o mesmo: fazer o bem; portanto, não existem duas
maneiras de fazê-lo.
Se, entre os adeptos do Espiritismo, existem aqueles que diferem
de opinião sobre alguns pontos da teoria, todos concordam sobre os
pontos fundamentais. Há, portanto, unidade, exceto da parte dos que,
em número muito reduzido, não admitem ainda a intervenção dos Espíritos
nas manifestações e as atribuem ou a causas puramente físicas,
o que é contrário a esta máxima: “Todo efeito inteligente deve ter
uma causa inteligente”, ou a um reflexo do próprio pensamento4 dos
homens, o que é desmentido pelos fatos. Os outros pontos são apenas
secundários e não comprometem em nada as bases fundamentais.
Pode, portanto, haver escolas que procuram se esclarecer sobre
as partes ainda controvertidas da ciência, mas não devem ser rivais
entre si. A contradição apenas deve existir entre aqueles que querem
o bem e aqueles que fariam ou desejariam o mal. Ora, não existe um
espírita sincero e compenetrado nos grandes ensinamentos morais
ensinados pelos Espíritos que possa querer o mal nem desejar o mal
CONCLUSÃO
4 - No item 16 da Introdução, Kardec faz uma reflexão e um estudo sobre a questão (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
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de seu próximo sem distinção de opinião. Se uma dessas escolas
está no erro, a luz, cedo ou tarde, se fará para ela, desde que haja
boa-fé e ausência de prevenção. Enquanto isso, todas têm um laço
comum que deve uni-las em um mesmo pensamento; todas têm um
mesmo objetivo. Pouco importa o caminho, uma vez que conduza a
essa meta. Nenhuma deve se impor pelo constrangimento material
ou moral, e estaria no caminho falso apenas aquela que condenasse ou
reprovasse a outra, porque agiria evidentemente sob a influência de
maus Espíritos. A razão deve ser o supremo argumento e a moderação
assegurará melhor o triunfo da verdade do que as críticas envenenadas
pela inveja e pelo ciúme. Os bons Espíritos ensinam apenas
a união e o amor ao próximo. Nunca um pensamento mau ou contrário
à caridade pode provir de uma fonte pura. Estudemos sobre este assunto
e, para terminar, os conselhos do Espírito de Santo Agostinho:
“Por muito tempo, os homens se estraçalharam e se amaldiçoaram
em nome de um Deus de paz e de misericórdia, ofendendo-o
com semelhante sacrilégio. O Espiritismo é o laço que os unirá um
dia, porque mostrará onde está a verdade e onde está o erro. Mas
haverá ainda por muito tempo escribas e fariseus5 que o negarão,
como negaram o Cristo. Quereis saber sob a influência de que Espíritos
estão as diversas seitas que dividiram entre si o mundo? Julgai-as
por suas obras e princípios. Nunca os bons Espíritos foram os instigadores
do mal; nunca aconselharam nem legitimaram o assassinato e
a violência; nunca excitaram os ódios dos partidos, nem a sede das
riquezas e das honras, nem a avidez dos bens da Terra. Somente
aqueles que são bons, humanos e benevolentes para com todos são
seus preferidos e são também os preferidos de Jesus, porque seguem
o caminho indicado para chegar até ele.”
Santo Agostinho
5 - Escribas e fariseus: figuras do Evangelho. Neste caso, gente falsa, fingida, pérfida, traiçoeira
(N. E.).
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GLOSSÁRIO
Alma: dizemos do espírito quando está no corpo, encarnado.
Anatomista: profissional que estuda a forma e a estrutura dos órgãos do corpo
humano.
Atributo: qualidade de um ser, aquilo que lhe é próprio.
Axioma: princípio evidente que é aceito como universalmente verdadeiro, sem
exigência de demonstração.
Cataclismo: transformação brusca da Terra, abrangendo grande área da crosta;
dilúvio, inundação.
Catalepsia: estado caracterizado pela rigidez dos músculos e imobilidade; pode
ser provocado por afecções nervosas ou induzidas, como, por exemplo, pelo
hipnotismo.
Celibato: estado de uma pessoa que se mantém solteira.
Centelha anímica: princípio da vida espiritual; corpo espiritual; o Espírito.
Cético: que duvida de tudo, descrente.
Crisálida: estado intermediário entre lagarta e borboleta. No contexto, significa
a transformação, o vir a ser.
Dionéia: planta carnívora própria de lugares úmidos.
Dogma: essa palavra adquiriu de forma genérica o significado de um princípio,
um ponto de doutrina infalível e indiscutível. Porém, o seu verdadeiro sentido
não é esse. A Doutrina Espírita não é dogmática no sentido que se conhece em
alguns credos religiosos que adotam o princípio de filosofia (fideísmo) em que a
fé se sobrepõe à razão para acomodar e justificar suas posições de crença.
A palavra dogma está aqui com o seu significado, isto é, a união de um fundamento,
um princípio divino, com a experiência humana. Allan Kardec a emprega
aqui e nas demais obras da Codificação Espírita com esse sentido, e igualmente
os Espíritos se referiram ao dogma da reencarnação com essa significação.
Eletricidade: o telégrafo, o telefone, etc. A resposta dos Espíritos se refere ao
telégrafo, mas se aplica hoje ao telefone e às telecomunicações em geral.
Estado latente: período entre um estímulo e a reação por ele provocada, em que
há falta de atividade. Espécie de dormência dos elementos.
Expiação: nova oportunidade de reparar as faltas e os erros de vidas passadas.
Pela expiação geralmente passamos pelas mesmas situações, dores, sofrimentos,
etc, que impusemos aos outros. É a Lei de Causa e Efeito.
Faculdade: dom, capacidade, aptidão.
Fisiologista: profissional que estuda o funcionamento das atividades vitais do
corpo humano: crescimento, respiração, pensamento, etc.
Gravidade: lei da Física, atração que os planetas e os corpos celestes exercem
uns sobre os outros.
Hotentote: natural ou habitante da Hotentótia, África; raça negra, primitiva.
Letargia: estado caracterizado por sono profundo e demorado, causado por
distúrbios cerebrais ou por perda momentânea do controle cerebral.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
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Lineu, Jussieu e Tournefort: naturalistas e botânicos, sendo o primeiro sueco
e os outros dois franceses.
Materialismo: doutrina que nega a existência de Deus e da alma. É a oposição
ao espiritualismo.
Metafísica: é parte da filosofia, é um conjunto de conhecimentos racionais (e
não de conhecimentos revelados) em que se procura determinar as regras fundamentais
do pensamento, e que nos dá a chave do conhecimento do real em
oposição à aparência.
Metempsicose: doutrina segundo a qual a mesma alma pode animar, em vidas
sucessivas, corpos diversos: vegetais, animais ou homens.
Moléculas: agrupamento de um ou mais átomos que forma uma substância; a
menor quantidade de matéria.
Moral (a): o conjunto das virtudes; a vergonha; o brio.
Moral (o): estado de ânimo.
Obsessão: influência de um espírito desencarnado, malévolo, sobre um encarnado.
Pode haver obsessão também entre: encarnado para encarnado, encarnado
para desencarnado e desencarnado para encarnado. (Veja Livro dos Médiuns,
Cap. 23, Obsessões.)
Panteísmo: doutrina filosófica segundo a qual só Deus é real. Tudo o que existe
é a manifestação de Deus, que por sua vez é a soma de tudo o que existe.
Pena de talião: punição imposta na Antiguidade, pela qual se vingava o delito
infligindo ao delinqüente o mesmo dano ou mal que ele praticara.
Perisperma: revestimento fino que envolve a parte da semente da qual se formará
a planta.
Proteu: aquele que muda constantemente de opinião ou de sistema.
Quarta classe: a do homem; a terceira é a dos animais irracionais.
Robert Fulton: mecânico norte-americano que inventou a propulsão, o motor
a vapor.
Sensitiva: planta também conhecida como dormideira, que se fecha ao contato
com a mão.
Sofisma: argumento falso, enganoso, feito de propósito para induzir ao erro.
Suscetível: sujeito a receber impressões, modificações ou adquirir qualidades.
Tártaro: na mitologia, o lugar mais profundo dos infernos, onde eram jogados
os maiores pecadores.
Teologia: estudo das questões referentes ao conhecimento da divindade e suas
relações com os homens; estudo dos dogmas e dos textos sagrados.
Transmigração: passagem da alma de um corpo para outro.

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