CAPÍTULO 10 OCUPAÇÕES E MISSÕES DOS ESPÍRITOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
210
585 Que pensais da divisão da natureza em três reinos, ou melhor,
em duas classes: os seres orgânicos e os inorgânicos1? Alguns
fazem da espécie humana uma quarta classe2. Qual dessas divisões
é preferível?
– Todas são boas, dependendo do ponto de vista. Sob o ponto de vista
material, há apenas seres orgânicos e inorgânicos; sob o ponto de vista
moral há, evidentemente, quatro graus.
G Esses quatro graus têm, de fato, características nítidas, ainda que
seus limites pareçam se confundir. A matéria inerte, que constitui o reino
mineral, tem somente uma força mecânica. As plantas, ainda que compostas
de matéria inerte, são dotadas de vitalidade. Os animais, compostos
de matéria inerte e dotados de vitalidade, têm além disso uma espécie
de inteligência instintiva, limitada, com a consciência de sua existência e
de sua individualidade. O homem, tendo tudo o que há nas plantas e nos
animais, domina todas as outras classes por uma inteligência especial,
sem limites fixados, que lhe dá a consciência de seu futuro, a percepção
das coisas extramateriais e o conhecimento de Deus.
586 As plantas têm consciência de sua existência?
– Não; elas não pensam, têm apenas a vida orgânica.
587 As plantas têm sensações? Elas sofrem quando são mutiladas?
– As plantas recebem impressões físicas que agem sobre a
matéria, mas não têm percepções e, portanto, não têm a sensação da dor.
588 A força que atrai as plantas umas às outras é independente
de sua vontade?
– Sim, uma vez que não pensam. É uma força mecânica da matéria
agindo sobre a matéria; elas não poderiam se opor a isso.
589 Algumas plantas, como a sensitiva e a dionéia3, por exemplo,
têm movimentos que demonstram uma grande sensibilidade e
em alguns casos uma espécie de vontade. A dionéia, cujos lóbulos
OS MINERAIS E AS PLANTAS
CAPÍTULO
11
OS TRÊS REINOS
Os minerais e as plantas – Os animais e o homem –
Metempsicose
1 - Seres orgânicos são aqueles que têm vida e, por isso, um organismo. Os inorgânicos não
possuem órgãos nem vida (N. E.).
2 - Quarta classe: a do homem; a terceira é a dos animais irracionais (N. E.).
3 - Dionéia: planta carnívora própria de lugares úmidos (N. E.).
211
capturam a mosca que nela pousa, parece preparar uma armadilha
para matá-la. Essas plantas são dotadas da faculdade de pensar?
Têm uma vontade e formam uma classe intermediária entre a natureza
vegetal e a natureza animal? São uma transição de uma para a
outra?
– Tudo é uma transição na natureza, pelo próprio fato de que nada é
semelhante e que, entretanto, tudo se liga. As plantas não pensam e, por
conseguinte, não têm vontade. A ostra que se abre e todos os zoófitos4
não pensam: há neles apenas um instinto cego e natural.
G O organismo humano fornece exemplos de movimentos semelhantes
sem a participação da vontade, como nas funções digestivas e circulatórias;
o piloro5 se contrai ao contato de alguns corpos para lhes
impedir a passagem. Deve ocorrer o mesmo com a sensitiva, na qual os
movimentos não implicam, de modo algum, a necessidade de uma percepção
e ainda menos de uma vontade.
590 As plantas têm, como os animais, um instinto de conservação
que as leva a procurar o que lhes pode ser útil e a fugir do que as
pode prejudicar?
– Sim, têm, pode-se dizer, uma espécie de instinto, isso dependendo
da extensão que se dá a essa palavra; mas é um instinto puramente mecânico.
Quando, nas operações de química, vedes dois corpos se reunirem,
é porque se ajustam, ou seja, há afinidade entre eles; mas não chamais
isso de instinto.
591 Nos mundos superiores as plantas são, como os outros seres,
de uma natureza mais perfeita?
– Tudo é mais perfeito; mas nesses mundos superiores as plantas
são sempre plantas, os animais são sempre animais e os homens, sempre
homens.
OS ANIMAIS E O HOMEM
592 Se compararmos o homem e os animais sob o ponto de vista
da inteligência, a linha de demarcação parece difícil de se estabelecer,
porque alguns animais têm, sob esse aspecto, uma superioridade
notória sobre alguns homens. Essa linha pode ser estabelecida de
uma maneira precisa?
– Sobre esse ponto vossos filósofos não estão de acordo em quase
nada: uns querem que o homem seja um animal e outros que o animal
seja um homem; todos estão errados. O homem é um ser à parte que des-
CAPÍTULO 11 OS TRÊS REINOS
4 - Zoófito: espécie animal a qual pertencem os corais e as esponjas marinhas ou de água doce
que têm formas semelhantes às das plantas (N. E.).
5 - Piloro: orifício na parte inferior do estômago que o liga com o duodeno. Possui uma válvula que
regula o bolo alimentar para o intestino e impede a volta de material do intestino para o estômago
(N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
212
ce muito baixo algumas vezes, ou que pode se elevar bem alto. Fisicamente
o homem é como os animais, e até menos dotado que muitos
deles; a natureza deu aos animais tudo o que o homem é obrigado a
inventar com sua inteligência para satisfazer suas necessidades e sua
conservação. É verdade que seu corpo se destrói como o dos animais,
mas seu Espírito tem uma destinação que somente ele pode compreender,
porque apenas o homem é completamente livre. Pobres homens que
vos rebaixais além da brutalidade! Não sabeis vos distinguir? Reconhecei
o homem pelo sentimento que ele tem da existência de Deus.
593 Pode-se dizer que os animais agem apenas por instinto?
– Ainda assim é um sistema. É bem verdade que o instinto domina na
maioria dos animais, mas não vedes que muitos agem com uma vontade
determinada? É inteligência, porém limitada.
G Além do instinto, não há como negar a alguns animais atos combinados
que expressam uma vontade de agir num sentido determinado e
de acordo com as circunstâncias. Há neles uma espécie de inteligência,
cujo exercício é mais exclusivamente concentrado sobre os meios de
satisfazerem suas necessidades físicas e proverem à sua conservação.
Entre eles, não há nenhuma criação, nenhum melhoramento; qualquer
que seja a arte com que executem seus trabalhos, fazem hoje o que
faziam antigamente, nem melhor, nem pior, conforme formas e proporções
constantes e invariáveis. O filhote, isolado da sua espécie, não
deixa de construir seu ninho com o mesmo modelo sem ter recebido o
ensinamento. Se alguns são suscetíveis6 de uma certa educação, seu
desenvolvimento intelectual, sempre restrito a limites estreitos, é motivado
pela ação do homem sobre uma natureza flexível, uma vez que não
fazem nenhum progresso próprio. Mesmo o que alcançam pela ação
do homem é um progresso efêmero e puramente individual, já que o
animal, entregue a si mesmo, não tarda a retornar aos limites que a
Natureza lhe traçou.
594 Os animais têm uma linguagem?
– Uma linguagem formada de palavras e de sílabas, não; mas de um
meio de se comunicarem entre eles, sim. Dizem muito mais coisas do que
acreditais; mas sua linguagem é limitada às suas necessidades, como
suas idéias.
594 a Há animais que não têm voz; ao que parece esses não têm
linguagem?
– Eles se compreendem por outros meios. Vós, homens, tendes apenas
as palavras para se comunicarem? E os mudos, que dizeis deles? Os
animais, sendo dotados da vida de relação, têm meios de se informar e de
exprimir as suas sensações. Acreditais que os peixes não se entendem
entre si? O homem não tem o privilégio exclusivo da linguagem; embora a
6 - Suscetível: sujeito a receber impressões, modificações ou adquirir qualidades (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE SEGUNDA
213
dos animais seja instintiva e limitada ao círculo de suas necessidades e
idéias, enquanto a do homem é passível de ser aperfeiçoada e se presta a
todas as concepções de sua inteligência.
G Os peixes, de fato, que emigram em massa, e as andorinhas, que
obedecem ao guia que as conduz, devem ter meios de se informarem, se
entenderem e se combinarem. Talvez por terem uma visão mais penetrante
que lhes permita distinguir os sinais que fazem; talvez também a
água seja um veículo que lhes transmita certas vibrações. O que quer que
seja, é incontestável que têm um meio de se entenderem, ocorrendo o
mesmo com todos os animais privados da voz e que fazem trabalhos em
comum. Que estranheza pode causar, depois disso, que os Espíritos possam
se comunicar entre si sem a ajuda da palavra articulada? (Veja a
questão 282.)
595 Os animais têm o livre-arbítrio de seus atos?
– Eles não são simples máquinas, como se pode supor; mas sua
liberdade de ação é limitada às suas necessidades e não se pode comparar
à do homem. Sendo muito inferiores ao homem, não têm os mesmos
deveres. Sua liberdade é restrita aos atos da vida material.
596 De onde vem a aptidão de alguns animais em imitar a linguagem
do homem e por que essa aptidão se encontra mais nos pássaros
do que no macaco, por exemplo, cuja conformação tem mais semelhança
com o homem?
– É pela conformação particular dos órgãos da voz, favorecida pelo instinto
de imitação; o macaco imita os gestos, alguns pássaros imitam a voz.
597 Se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa
liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria?
– Sim, e que sobrevive ao corpo.
597 a Esse princípio é uma alma semelhante à do homem?
– É também uma alma, se quiserdes, depende do sentido que se dá
a essa palavra; mas é inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e
a do homem tanta distância quanto há entre a alma do homem e Deus.
598 A alma dos animais conserva, após a morte, sua individualidade
e a consciência de si mesma?
– Sua individualidade, sim, mas não a consciência de seu eu. A vida
inteligente continua no estado latente7.
599 A alma dos animais tem a escolha de encarnar em um animal
em vez de outro?
– Não; ela não tem o livre-arbítrio.
600 A alma do animal, sobrevivendo ao corpo, estará, depois da
morte, na erraticidade, como a do homem?
7 - Estado latente: neste caso (fig.), oculto, não manifesto. Aguardando o momento propício para
vir à luz (N. E.).
CAPÍTULO 11 OS TRÊS REINOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
214
– É uma espécie de erraticidade, uma vez que não está mais unida ao
corpo, mas não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser que
pensa e age de acordo com sua livre vontade; o dos animais não tem a
mesma faculdade. A consciência de si mesmo é o que constitui o atributo
principal do Espírito. O espírito do animal é classificado após sua morte
pelos Espíritos a quem compete essa tarefa e quase imediatamente utilizado;
não há tempo de se colocar em relação com outras criaturas.
601 Os animais seguem uma lei progressiva, como os homens?
– Sim, por isso, nos mundos superiores, onde os homens são mais
avançados, os animais também o são, tendo meios de comunicação mais
desenvolvidos; mas são sempre inferiores e submissos ao homem, são
para ele servidores inteligentes.
G Não há nada de extraordinário nisso. Imaginemos nossos animais,
os mais inteligentes, o cão, o elefante, o cavalo, com uma conformação
apropriada aos trabalhos manuais. Que não poderiam fazer sob a direção
do homem?
602 Os animais progridem, como o homem, pela ação de sua
vontade ou pela força das coisas?
– Pela força das coisas; é por isso que para eles não há expiação.
603 Nos mundos superiores, os animais conhecem Deus?
– Não; para eles o homem é um deus, como antigamente os Espíritos
foram deuses para os homens.
604 Os animais, mesmo os aperfeiçoados nos mundos superiores,
são sempre inferiores ao homem. Isso significa que Deus teria criado
seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o que
parece estar em desacordo com a unidade de vistas e de progresso
que se distingue em todas as suas obras.
– Tudo se encaixa na natureza pelos laços que não podeis ainda compreender,
e as coisas mais desiguais na aparência têm pontos de contato
que o homem nunca chegará a compreender na sua condição atual. Ele
pode entrevê-los pelo esforço de sua inteligência, mas somente quando
essa inteligência tiver adquirido todo desenvolvimento e estiver livre dos
preconceitos do orgulho e da ignorância é que poderá ver claramente na
obra de Deus. Enquanto isso não acontece, suas idéias limitadas lhe fazem
ver as coisas sob um ponto de vista mesquinho e restrito. Sabei bem
que Deus não pode se contradizer e que tudo, na natureza, se harmoniza
pelas leis gerais que nunca se afastam da sublime sabedoria do Criador.
604 a A inteligência é, assim, uma propriedade comum, um ponto
de contato entre a alma dos animais e a do homem?
– Sim, mas os animais têm apenas a inteligência da vida material; para
o homem, a inteligência produz a manifestação da vida moral.
605 Se considerássemos todos os pontos de contato entre o homem
e os animais, não poderíamos deduzir que o homem possui duas
almas: a alma animal e a alma espírita e que, se não tivesse essa
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE SEGUNDA
215
última, poderia viver como o animal? De outro modo, pode-se considerar
que o animal é um ser semelhante ao homem, tendo menos
alma espírita? Isso não significaria que os bons e os maus instintos
do homem seriam o efeito da predominância de uma dessas duas
almas?
– Não. O homem não tem duas almas; mas os corpos têm instintos
que são o resultado da sensação dos órgãos. Há nele apenas uma dupla
natureza: a natureza animal e a natureza espiritual. Pelo seu corpo, participa
da natureza dos animais e seus instintos; pela sua alma, participa da
natureza dos Espíritos.
605 a Assim, além de suas próprias imperfeições, das quais o
Espírito deve se despojar, o homem tem ainda que lutar contra a influência
da matéria?
– Sim, quanto mais é inferior mais os laços entre o Espírito e a matéria
são unidos; não o vedes? O homem não tem duas almas; a alma é sempre
única em cada ser. A alma do animal e a do homem são distintas uma da
outra, de modo que a alma de um não pode animar o corpo criado para a
outra. Mas, ainda que o homem não tenha alma animal que, por suas paixões,
o nivele aos animais, tem o corpo que muitas vezes o rebaixa a eles,
porque seu corpo é um ser dotado de vitalidade, que tem instintos, porém
ininteligentes e limitados ao cuidado de sua conservação.
G O Espírito, ao encarnar no corpo do homem, traz o princípio intelectual
e moral que o torna superior aos animais. As duas naturezas que
existem no homem dão às suas paixões duas origens diferentes: uma
vem dos instintos da natureza animal, outra das impurezas do Espírito
encarnado e que simpatiza mais ou menos com a grosseria dos apetites
animais. Purificando-se, o Espírito se liberta pouco a pouco da influência
da matéria. Submisso a essa influência, se aproxima da brutalidade; despojado
dela, se eleva à sua verdadeira destinação.
606 De onde os animais tiram o princípio inteligente que constitui
a espécie particular de alma, da qual são dotados?
– Do elemento inteligente universal.
606 a A inteligência do homem e a dos animais vêm de um princípio
único?
– Sem dúvida. Mas no homem ela recebeu uma elaboração que o
eleva acima do animal.
607 Foi dito que a alma do homem, em sua origem, está no estado
semelhante ao da infância da vida corporal, que sua inteligência apenas
desabrocha e ela ensaia para a vida. (Veja a questão 190.) Onde
o Espírito cumpre essa primeira fase?
– Em uma série de existências anteriores ao período que chamais
humanidade.
607 a Assim, pode-se considerar que a alma teria sido o princípio
inteligente dos seres inferiores da Criação?
CAPÍTULO 11 OS TRÊS REINOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
216
– Não dissemos que tudo se encadeia na natureza e tende à unidade?
É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio
inteligente se elabora, individualiza-se pouco a pouco e ensaia para a vida,
como já dissemos. É, de algum modo, um trabalho preparatório, como a
germinação, em que o princípio inteligente sofre uma transformação e tornase
Espírito. É então que começa o período da humanização e com ela a
consciência de seu futuro, a distinção entre o bem e o mal e a responsabilidade
de seus atos. Assim como depois da infância vem a adolescência,
depois a juventude e, enfim, a idade adulta. Não há, além disso, nessa
origem nada que deva humilhar o homem. Será que os grandes gênios se
sentirão humilhados por terem sido fetos em formação no seio de sua mãe?
Se alguma coisa deve humilhá-lo é sua inferioridade perante Deus e sua
impotência para sondar a profundidade dos seus desígnios e a sabedoria
das leis que regem a harmonia do universo. Reconhecei a grandeza de
Deus nessa harmonia admirável que faz com que tudo seja solidário na
natureza. Acreditar que Deus pudesse fazer alguma coisa sem objetivo e ter
criado seres inteligentes sem futuro seria blasfemar contra sua bondade,
que se estende sobre todas as suas criaturas.
607 b Esse período de humanização começa na nossa Terra?
– A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana; o
período de humanização começa, em geral, nos mundos ainda mais inferiores;
entretanto, essa não é uma regra geral, e poderia acontecer que um
Espírito, desde o começo de sua humanização, estivesse apto a viver na
Terra. Esse caso não é freqüente; é, antes, uma exceção.
608 O Espírito do homem, após a morte, tem consciência das
existências anteriores ao seu período de humanidade?
– Não, porque não é nesse período que se inicia para ele sua vida de
Espírito e é até mesmo difícil se lembrar de suas primeiras existências
como homem, assim como o homem não se lembra mais dos primeiros
tempos de sua infância e ainda menos do tempo que passou no seio de
sua mãe. É por isso que os Espíritos dizem que não sabem como começaram.
(Veja a questão 78.)
609 O Espírito, entrando no período de humanidade, conserva traços
do que foi antes, do período que se poderia chamar pré-humano?
– Depende da distância que separa os dois períodos e o progresso
realizado. Durante algumas gerações, pode ter sinais mais ou menos pronunciados
do estado primitivo, porque nada na natureza se faz por transição
brusca, sempre há anéis que ligam as extremidades das cadeias dos seres
e acontecimentos; mas esses traços se apagam com o desenvolvimento
do livre-arbítrio. Os primeiros progressos se realizam muito lentamente,
porque ainda não estão alicerçados, determinados pela vontade; mas eles
seguem uma progressão mais rápida à medida que o Espírito adquire uma
consciência mais perfeita de si mesmo.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE SEGUNDA
217
610 Os Espíritos que disseram que o homem é um ser à parte na
ordem da Criação estão enganados?
– Não; mas a questão não foi explicada e, aliás, há coisas que só a
seu tempo podem ser esclarecidas. O homem é, de fato, um ser à parte,
uma vez que tem faculdades que o distinguem de todos os outros e tem
outra destinação. A espécie humana é a que Deus escolheu para a encarnação
dos seres que podem conhecê-lo.
METEMPSICOSE
611 O fato de ser comum a origem do princípio inteligente dos
seres vivos não é a consagração da doutrina da metempsicose?
– Duas coisas podem ter a mesma origem e não se parecerem em
nada mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, flores e frutos
no germe sem forma contido na semente de onde saiu? A partir do momento
que o princípio inteligente atinge o estágio necessário para ser Espírito
e entrar no período de humanização, não tem mais relação com seu estado
primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a
semente. No homem, não há mais do animal senão o corpo e as paixões
que nascem da influência do corpo e do instinto de conservação inerente
à matéria. Não se pode, portanto, dizer que aquele homem é a encarnação
do Espírito de tal animal e, assim, a metempsicose, tal como se entende,
não é exata.
612 O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar
em um animal?
– Isso seria retroceder e o Espírito não retrocede. O rio não retorna à
sua fonte. (Veja a questão 118.)
613 Por mais errada que seja a idéia ligada à metempsicose, não
seria resultado do sentimento intuitivo das diferentes existências do
homem?
– Esse sentimento intuitivo se encontra nessa crença como em muitas
outras; mas, como faz com a maioria de suas idéias intuitivas, o homem
alterou sua natureza.
G Seria verdadeira a idéia da metempsicose se ela definisse como
sendo a progressão da alma de um estado inferior a um estado superior
em que adquirisse desenvolvimentos que transformassem sua natureza.
Porém, é falsa no sentido de transmigração direta do animal para o
homem e vice-versa, o que dá idéia de um retrocesso ou de uma fusão;
portanto, essa fusão não poderia acontecer entre seres corporais de
duas espécies, porque seria indício de que estão em graus não-assimiláveis
e deve acontecer o mesmo com os Espíritos que as animam. Se o
mesmo Espírito pudesse animá-las alternativamente, haveria, conseqüentemente,
uma identidade de natureza que se traduziria na possibilidade
da reprodução física.
CAPÍTULO 11 OS TRÊS REINOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
218
A reencarnação ensinada pelos Espíritos está fundada, em contrário,
sobre a marcha ascendente da natureza e a progressão do homem
em sua própria espécie, o que não tira em nada sua dignidade. O que o
rebaixa é o mau uso que faz das faculdades que Deus lhe deu para o
seu adiantamento. Seja como for, a antiguidade e a universalidade da
doutrina da metempsicose, assim como os homens eminentes que a
professaram, provam que o princípio da reencarnação tem raízes na
própria natureza; esses são, portanto, argumentos antes a seu favor do
que contrários.
O ponto de partida dos Espíritos é uma dessas questões que se
ligam ao princípio das coisas e que estão nos segredos de Deus. Não é
permitido ao homem conhecê-lo de maneira absoluta, e ele somente
pode fazer a esse respeito suposições, construir sistemas mais ou menos
prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de conhecer tudo; sobre o
que não sabem podem também ter opiniões pessoais mais ou menos
sensatas.
É assim, por exemplo, que nem todos pensam a mesma coisa a
respeito das relações que existem entre o homem e os animais. Segundo
alguns, o Espírito só alcança o período de humanidade após ter sido
elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da
Criação; segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido
à raça humana, sem passar pela experiência animal.
O primeiro desses sistemas tem a vantagem de dar um objetivo ao
futuro dos animais, que formariam assim os primeiros anéis da cadeia
dos seres pensantes; o segundo está mais de acordo com a dignidade
do homem e pode se resumir no seguinte modo:
As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente
umas das outras pelo caminho da progressão; assim, o espírito da ostra
não se torna sucessivamente o do peixe, do pássaro, do quadrúpede e
do quadrúmano8. Cada espécie constitui um tipo absoluto, física e moralmente,
e cada indivíduo tira na fonte universal a soma do princípio
inteligente que lhe é necessário, segundo a perfeição de seus órgãos e
a obra que deve cumprir nos fenômenos da natureza, e que, em sua
morte, volta à fonte universal. As espécies de animais dos mundos mais
avançados que o nosso (veja a questão 188) são igualmente raças distintas,
apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de adiantamento
dos homens de lá, dos quais são auxiliares, mas que não
procedem daqueles da Terra, espiritualmente falando. Não ocorre o mesmo
com o homem. Do ponto de vista físico, ele forma evidentemente
um anel da cadeia dos seres vivos; mas, do ponto de vista moral, entre
o animal e o homem há uma separação. O homem possui alma ou
Espírito, a centelha divina que lhe dá o sentido moral e um valor intelec-
8 - Quadrúmano: que tem quatro mãos; macaco (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE SEGUNDA
219
tual que falta aos animais e é nele o ser principal, preexistindo e sobrevivendo
ao corpo ao conservar sua individualidade. Qual é a origem do
Espírito? Onde está seu ponto de partida? Forma-se a partir do princípio
inteligente individualizado? Está aí um mistério que seria inútil tentar penetrar
e sobre o qual, como já dissemos, não se pode construir mais do
que sistemas. O que é constante e resulta ao mesmo tempo do raciocínio
e da experiência é a sobrevivência do Espírito, a conservação de sua
individualidade após a morte, sua faculdade progressiva, seu estado
feliz ou infeliz de acordo com seu adiantamento no caminho do bem e
todas as verdades morais que são a conseqüência desse princípio.
Quanto às relações misteriosas que existem entre os homens e os animais,
está aí, nós repetimos, o segredo de Deus, como muitas outras
coisas cujo conhecimento atual não importa ao nosso adiantamento e
sobre as quais seria inútil insistir.
CAPÍTULO 11 OS TRÊS REINOS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
220
614 O que se deve entender por lei natural?
– A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do
homem; ela lhe indica o que deve ou não fazer, e ele é infeliz somente
quando se afasta dela.
615 A lei de Deus é eterna?
– Eterna e imutável como o próprio Deus.
616 Deus ordenou aos homens, numa época, o que lhes proibiu
em outra?
– Deus não pode se enganar; são os homens que são obrigados a
mudar suas leis, porque são imperfeitos; mas as leis de Deus são perfeitas.
A harmonia que rege o universo material e o universo moral é fundada
sobre as leis que Deus estabeleceu para toda a eternidade.
617 Que objetivos abrangem as leis divinas? Elas se referem a
outra coisa além da conduta moral?
– Todas as leis da natureza são leis divinas, uma vez que Deus é o
criador de todas as coisas. O sábio estuda as leis da matéria, o homem de
bem estuda as da alma e as pratica.
617 a É permitido ao homem se aprofundar em ambas?
– Sim, mas uma única existência não basta.
G Que são, de fato, alguns anos para adquirir tudo o que constitui o ser
perfeito, se considerarmos apenas a distância que separa o selvagem do
homem civilizado? A mais longa existência possível de imaginar é insuficiente
e com maior razão quando é abreviada, como acontece com muitos.
Entre as leis divinas, umas regem o movimento e as relações da matéria
bruta: são as leis físicas, cujo estudo é do domínio da ciência. Outras
dizem respeito especialmente ao homem em si mesmo e em suas relações
com Deus e com seus semelhantes. Elas compreendem as regras
da vida do corpo como também as da vida da alma: são as leis morais.
PARTE TERCEIRA
LEIS MORAIS
CARACTERÍSTICAS DA LEI NATURAL
CAPÍTULO
1
LEI DIVINA OU NATURAL
Características da lei natural –
Origem e conhecimento da lei natural –
O bem e o mal – Divisão da lei natural
221
618 As leis divinas são as mesmas para todos os mundos?
– A razão diz que devem ser apropriadas à natureza de cada mundo e
proporcionais ao grau de adiantamento dos seres que os habitam.
ORIGEM E CONHECIMENTO DA LEI NATURAL
619 Deus deu a todos os homens meios de conhecer Sua lei?
– Todos podem conhecê-la, mas nem todos a compreendem; os que
a compreendem melhor são os homens de bem e os que procuram pesquisá-
la; entretanto, todos a compreenderão um dia, porque é preciso
que o progresso se realize.
G A justiça das diversas encarnações do homem é uma conseqüência
desse princípio, uma vez que a cada nova existência sua inteligência é
mais desenvolvida e compreende melhor o bem e o mal. Se tudo devesse
se cumprir numa única existência, qual seria a sorte de tantos milhões
de seres que morrem a cada dia no embrutecimento da selvageria ou
nas trevas da ignorância, sem que tivesse dependido deles o esclarecimento?
(Veja as questões 171 e 222.)
620 A alma, antes de sua união com o corpo, compreende a lei
de Deus melhor que depois de sua encarnação?
– Compreende-a conforme o grau de perfeição que atingiu e conserva
disso a lembrança intuitiva depois de sua união com o corpo; contudo,
os maus instintos do homem o fazem esquecer-se dela.
621 Onde está escrita a lei de Deus?
– Na consciência.
621 a Uma vez que o homem traz inscrita na consciência a lei de
Deus, há necessidade que lhe seja revelada?
– Ele a esqueceu e a menosprezou; Deus quis que ela fosse lembrada.
622 Deus deu a alguns homens a missão de revelar Sua lei?
– Sim, certamente; em todos os tempos houve homens que receberam
essa missão. São os Espíritos Superiores encarnados com o objetivo
de fazer a humanidade avançar.
623 Aqueles que pretenderam instruir os homens na lei de Deus
não estavam algumas vezes enganados e, freqüentemente, não fizeram
com que se transviassem por meio de falsos princípios?
– Aqueles que não são inspirados por Deus e que, levados pela ambição,
se disseram portadores de uma missão que não tinham, certamente puderam
desviá-los. Entretanto, como eram de fato homens de gênio, mesmo no meio
dos erros ensinados muitas vezes encontram-se grandes verdades.
624 Qual é o caráter do verdadeiro profeta?
– É um homem de bem, inspirado por Deus. Pode-se reconhecê-lo
por suas palavras e ações. Deus não se serviria da boca de um mentiroso
para ensinar a verdade.
CAPÍTULO 1 LEI DIVINA OU NATURAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
222
625 Qual é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem
para lhe servir de guia e modelo?
– Jesus.
G Jesus é para o homem o exemplo da perfeição moral a que pode
pretender a humanidade na Terra. Deus nos oferece Jesus como o mais
perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão de
sua lei, porque era o próprio Espírito Divino e foi o ser mais puro que
apareceu na Terra.
Se alguns daqueles que pretenderam instruir o homem na lei de
Deus algumas vezes o desviaram, ensinando-lhe falsos princípios, foi
por se deixarem dominar por sentimentos muito materiais e por ter confundido
as leis que regem as condições da vida da alma com as do
corpo. Muitos anunciaram como leis divinas o que eram apenas leis
humanas criadas para servir às paixões e dominar os homens.
626 As leis divinas e naturais só foram reveladas aos homens
por Jesus e, antes dele, tinham conhecimento delas apenas pela intuição?
– Não dissemos que elas foram escritas em todos os lugares? Todos
os homens que meditaram sobre a sabedoria puderam compreendê-las e
ensiná-las desde os séculos mais remotos. Com os seus ensinamentos,
mesmo incompletos, eles prepararam o terreno para receber a semente.
Estando as leis divinas escritas no livro da natureza, o homem pôde conhecê-
las quando as quis procurar. Eis por que os preceitos que consagram
foram proclamados em todos os tempos pelos homens de bem e é por
isso, também, que se encontram seus elementos na doutrina moral de
todos os povos saídos da barbárie, embora incompletos ou alterados pela
ignorância e pela superstição.
627 Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus,
qual é a utilidade do ensinamento dado pelos Espíritos? Terão a nos
ensinar alguma coisa a mais?
– A palavra de Jesus era, muitas vezes, alegórica e em parábolas,
porque falava de acordo com os tempos e os lugares. É preciso agora que
a verdade seja inteligível para todo mundo. É preciso também explicar e
desenvolver essas leis, uma vez que há tão poucas pessoas que as compreendem
e ainda menos as que as praticam. Nossa missão é de abrir os
olhos e os ouvidos para confundir os orgulhosos e desmascarar os hipócritas:
aqueles que tomam as aparências da virtude e da religião para
ocultarem suas baixezas. O ensinamento dos Espíritos deve ser claro e
inequívoco, a fim de que ninguém possa alegar ignorância e cada um
possa julgá-lo e apreciá-lo com a razão. Estamos encarregados de preparar
o reino do bem anunciado por Jesus; por isso, não é correto que
cada um possa interpretar a lei de Deus ao capricho de suas paixões nem
falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
223
628 Por que a verdade nem sempre foi colocada ao alcance de
todos?
– É preciso que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a
luz: é preciso se habituar a ela pouco a pouco; de outro modo, fica-se
deslumbrado.
Nunca ocorreu que Deus permitisse ao homem receber comunicações
tão completas e instrutivas como as que lhe é dado receber hoje.
Havia, como sabeis, na Antiguidade, alguns indivíduos que estavam em
poder do que consideravam uma ciência sagrada e da qual faziam mistério
aos que, de acordo com o seu julgamento, eram profanos. Deveis
compreender, com o que conheceis agora das leis que regem os fenômenos
das comunicações dos Espíritos, que esses indivíduos recebiam apenas
algumas verdades esparsas no meio de um conjunto equívoco e, a maior
parte do tempo, simbólico. Entretanto, não há para o homem estudioso
nenhum antigo sistema filosófico, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar,
pois em tudo há os germes das grandes verdades que, ainda
que pareçam contraditórias, esparsas que estão em meio a acessórios sem
fundamento, são muito fáceis de entender, graças à chave que o Espiritismo
dá para uma multidão de coisas que puderam, até aqui, parecer sem razão
e que, hoje, a realidade vos demonstra de uma maneira irrecusável. Não
deixeis, portanto, de tirar dessas matérias assuntos de estudo; elas são
muito ricas e podem contribuir muito para a vossa instrução.
O BEM E O MAL
629 Que definição se pode dar à moral?
– A moral é a regra do bem proceder, ou seja, a que permite distinguir
entre o bem e o mal. Ela é fundada sobre o cumprimento da lei de Deus. O
homem procede bem quando faz tudo para o bem de todos porque, então,
cumpre a lei de Deus.
630 Como se pode distinguir o bem e o mal?
– O bem é tudo o que está conforme a lei de Deus; o mal, tudo o que
é contrário. Assim, fazer o bem é proceder conforme a lei de Deus; fazer o
mal é infringir essa lei.
631 O homem tem, por si mesmo, meios de distinguir o bem do
mal?
– Sim, quando crê em Deus e de fato quer saber porque Deus lhe deu
a inteligência para distinguir um do outro.
632 O homem, sujeito ao erro como está, não pode se enganar
no julgamento do bem e do mal e acreditar que faz o bem quando, na
realidade, faz o mal?
– Jesus disse: “o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também
vós a eles”. Tudo está aí resumido. Vós não vos enganareis.
CAPÍTULO 1 LEI DIVINA OU NATURAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
224
633 A regra do bem e do mal, que se poderia chamar de reciprocidade
ou de solidariedade, não pode se aplicar à conduta pessoal do
homem para consigo mesmo. Ele encontra na lei natural a regra dessa
conduta e um guia seguro?
– Quando comeis em excesso, isso vos faz mal. Pois bem! Deus dá a
medida daquilo que precisais. Quando a ultrapassais, sois punidos. Ocorre
o mesmo com tudo. A lei natural traça para o homem o limite de suas
necessidades; quando a ultrapassa, é punido pelo sofrimento. Se o homem
escutasse, em todas as coisas, a voz que diz basta, evitaria a maior
parte dos males de que acusa a natureza.
634 Por que o mal está na natureza das coisas? Eu falo do mal
moral. Deus não poderia criar a humanidade em condições melhores?
– Já vos dissemos: os Espíritos foram criados simples e ignorantes.
(Veja a questão 115.) Deus deixa ao homem a escolha do caminho. Tanto
pior se tomar o mau: sua peregrinação será maior. Se não houvesse montanhas,
o homem não compreenderia que se pode subir e descer, e, se
não houvesse rochedos, não compreenderia que há corpos duros. É preciso
que o Espírito adquira experiência e para isso é necessário que conheça
o bem e o mal; é por essa razão que há a união do Espírito ao corpo. (Veja
a questão 119.)
635 As diferentes posições sociais criam necessidades novas
que não são as mesmas para todos os homens. A lei natural parece,
assim, não ser uma regra uniforme?
– Essas diferentes posições estão na natureza da vida do homem e
de conformidade com a lei do progresso. Isso não invalida a unidade da lei
natural que se aplica a tudo.
G As condições de existência do homem mudam de acordo com os
tempos e os lugares, o que resulta para ele em necessidades diferentes
e posições sociais apropriadas a essas necessidades. Porém, essa diversidade
está na ordem das coisas, está conforme a lei de Deus e é
una, quanto ao seu princípio. Cabe à razão distinguir as necessidades
reais das necessidades artificiais ou convencionais.
636 O bem e o mal são absolutos para todos os homens?
– A lei de Deus é a mesma para todos; mas o mal depende principalmente
da vontade que se tem de o praticar. O bem é sempre o bem e o
mal é sempre o mal, qualquer que seja a posição do homem; a diferença
está no grau de responsabilidade.
637 O selvagem que cede ao instinto e se nutre da carne humana
é culpado?
– Eu disse que o mal depende da vontade. Pois bem! O homem é
mais culpado à medida que se torna mais consciente daquilo que faz.
G As circunstâncias dão ao bem e ao mal uma gravidade relativa. O
homem comete muitas faltas que por serem a conseqüência da posição
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
225
em que a sociedade o colocou não são menos repreensíveis; mas a
responsabilidade está na razão dos meios que tem de compreender o
bem e o mal. É assim que o homem esclarecido que comete uma simples
injustiça é mais culpado aos olhos de Deus do que o selvagem
ignorante que é governado pelos instintos.
638 O mal parece, algumas vezes, ser conseqüência da força das
coisas. Por exemplo, em alguns casos, a necessidade de destruição,
mesmo dos nossos semelhantes. Pode-se dizer que haja infração à
lei de Deus?
– Não deixa de ser o mal, ainda que necessário; porém, essa necessidade
desaparece à medida que a alma se depura, ao passar de uma
existência para outra; e então, o homem se torna mais culpado quando o
comete, porque melhor o compreende.
639 O mal que se comete não é, muitas vezes, o resultado da
posição em que nos colocaram outros homens? E, nesse caso, quais
são os mais culpados?
– O mal recai sobre aquele que o causou. Porém, o homem que é
conduzido ao mal pela posição que exerce é menos culpado do que aqueles
que o causaram; contudo, cada um será punido, não somente pelo
mal que tiver feito, como também pelo que tiver provocado.
640 Aquele que não faz o mal, mas que se aproveita do mal feito
por um outro, é culpado da mesma forma?
– É como se o cometesse; ao tirar proveito participa dele. Talvez não
pratique a ação; mas se, ao encontrar tudo feito, faz uso disso, é porque a
aprova, e ele mesmo o faria se pudesse, ou se ousasse.
641 O desejo do mal é tão repreensível quanto o próprio mal?
– Depende; há virtude em resistir voluntariamente ao mal que se deseja
praticar, especialmente quando se tem a possibilidade de satisfazer
esse desejo; mas se é apenas por falta de ocasião, há culpa.
642 Basta não fazer o mal para ser agradável a Deus e assegurar
um futuro melhor?
– Não. É preciso fazer o bem no limite de suas forças, porque cada
um responderá por todo o mal que resulte do bem que não tiver feito.
643 Há pessoas que, pela sua posição, não têm a possibilidade
de fazer o bem?
– Não há ninguém que não possa fazer o bem; somente o egoísta
nunca encontra ocasião. Bastam as relações sociais com outros homens
para encontrar ocasião de fazer o bem, e cada dia de vida dá a oportunidade
a quem não esteja cego pelo egoísmo; porque fazer o bem não é
somente ser caridoso, é ser útil na medida de vosso poder todas as vezes
que vossa ajuda se fizer necessária.
644 O meio onde alguns homens vivem não é para eles a causa
primeira de muitos vícios e crimes?
CAPÍTULO 1 LEI DIVINA OU NATURAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
226
– Sim, mas isso ainda é uma prova escolhida pelo Espírito no estado
de liberdade. Ele quis se expor à tentação para ter o mérito da resistência.
645 Quando o homem está, de algum modo, mergulhado na
atmosfera do vício, o mal não se torna um arrebatamento quase irresistível?
– Arrebatamento, sim; irresistível, não, porque, em meio à atmosfera
do vício, encontrais, algumas vezes, grandes virtudes. São Espíritos que
tiveram força de resistir e, ao mesmo tempo, a missão de exercer uma boa
influência sobre seus semelhantes.
646 O mérito do bem depende de algumas condições ou há diferentes
graus de mérito no bem?
– O mérito do bem está na dificuldade em praticá-lo; não há mérito em
fazer o bem sem esforço e quando não custa nada. Deus tem mais em conta
o pobre que partilha de seu único pedaço de pão do que o rico que dá
apenas o supérfluo. Foi o que Jesus ensinou ao falar da esmola da viúva.
DIVISÃO DA LEI NATURAL
647 Toda a lei de Deus está contida no ensinamento de amor ao
próximo ensinado por Jesus?
– Certamente esse ensinamento contém todos os deveres dos homens
entre si; mas é preciso vos mostrar sua aplicação, senão deixareis
de o cumprir como fazeis até hoje; aliás, a lei natural compreende todas as
circunstâncias da vida e esse ensinamento é apenas uma parte da lei. Os
homens necessitam de regras precisas. Os ensinamentos gerais e indefinidos,
por serem muito vagos, possibilitam diversas interpretações.
648 Que pensais da divisão da lei natural em dez partes compreendendo
as leis de adoração, trabalho, reprodução, conservação,
destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade e, por fim, a
de justiça, amor e caridade?
– Essa divisão da lei de Deus em dez partes é a de Moisés e pode
abranger todas as circunstâncias da vida, que é essencial. Podeis seguila,
embora ela nada tenha de absoluto, como não têm os outros sistemas
de classificação que dependem do ponto de vista sob o qual se considere
o que quer que seja. A última lei é a mais importante; é por ela que o
homem pode avançar mais na vida espiritual, porque resume todas as
outras.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
227
649 Em que consiste a adoração?
– É a elevação do pensamento a Deus. Pela adoração, a alma se
aproxima d’Ele.
650 A adoração é para o homem resultado de um sentimento
natural ou conseqüência de um ensinamento?
– É sentimento inato, como o da existência de Deus. A consciência
de sua fraqueza leva o homem a se curvar diante d’Aquele que pode
protegê-lo.
651 Houve povos desprovidos de todo sentimento de adoração?
– Não, nunca houve povos ateus. Todos compreendem que acima de
tudo há um ser supremo.
652 Pode-se considerar a adoração como tendo origem na lei
natural?
– Ela está na lei natural, pois é o resultado de um sentimento natural
no homem. Eis por que se encontra entre todos os povos, ainda que sob
formas diferentes.
ADORAÇÃO EXTERIOR
653 A adoração tem necessidade de manifestações exteriores?
– A verdadeira adoração é a do coração. Em todas as vossas ações,
imaginai sempre que o Senhor está convosco.
653 a A adoração exterior é útil?
– Sim, se não for uma farsa, uma vã simulação. É sempre útil dar um
bom exemplo; mas aqueles que o fazem de forma fingida ou por amorpróprio
e cuja conduta desmente a piedade que aparentam dão um exemplo
antes mau do que bom e fazem mais mal do que pensam.
654 Deus dá preferência aos que O adoram desse ou daquele modo?
– Deus prefere os que O adoram verdadeiramente com o coração,
com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, àqueles que acreditam
honrá-lo por cerimônias que não os tornam melhores para com seus semelhantes.
OBJETIVO DA ADORAÇÃO
CAPÍTULO
2
LEI DE ADORAÇÃO
Objetivo da adoração – Adoração exterior –
Vida contemplativa – Prece – Politeísmo – Sacrifícios
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
228
Todos os homens são irmãos e filhos de Deus; Ele chama para
si todos que seguem Suas leis, qualquer que seja a forma em que se
exprimam.
Quem tem apenas a piedade aparente é hipócrita; aquele em que a
adoração é apenas fingimento e presunção, em contradição com sua conduta,
dá um mau exemplo.
Aquele que faz da adoração do Cristo uma profissão e que é orgulhoso,
invejoso e ciumento, que é duro e implacável para com os outros, ou
ambicioso pelos bens deste mundo, eu vos digo que a religião está nos
seus lábios e não no coração. Deus, que vê tudo, dirá: aquele que conhece
a verdade é cem vezes mais culpado do mal que faz do que o ignorante
selvagem que vive isolado e será tratado desse modo no dia da justiça. Se
um cego vos derruba ao passar, o desculpareis; se é um homem que vê
claramente, vos queixareis e tendes razão.
Não pergunteis, portanto, se há uma forma de adoração mais conveniente,
porque isso seria perguntar se é mais agradável a Deus ser adorado
antes em uma língua do que em outra. Eu vos digo ainda mais uma vez: os
cânticos apenas chegam a Ele pela porta do coração.
655 É repreensível praticar uma religião em que não se acredita
sinceramente, visando somente o respeito e para não escandalizar
aqueles que pensam de outro modo?
– A intenção, nisso como em muitas outras coisas, constitui a regra.
Aquele que respeita as crenças dos outros não procede mal; faz melhor
do que aquele que as ridiculariza, porque falta à caridade; mas aquele que
a pratica por interesse e por ambição é desprezível aos olhos de Deus e
dos homens. A Deus não agradam os que aparentam se humilhar diante
Dele apenas para desfrutar da aprovação dos homens.
656 A adoração coletiva é preferível à individual?
– Os homens reunidos numa comunhão de pensamentos e de sentimentos
têm mais força para atrair os bons Espíritos. Ocorre o mesmo quando
se reúnem para adorar a Deus. Mas não acrediteis, por isso, que a adoração
particular seja de menos valor, porque cada um pode adorar a Deus
ao pensar n’Ele.
VIDA CONTEMPLATIVA
657 Os homens que se entregam à vida contemplativa, não fazendo
nenhum mal e pensando apenas em Deus, têm mérito perante
Deus?
– Não, porque se não fazem o mal também não fazem o bem, e são
inúteis; aliás, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que se pense n’Ele,
mas não que se pense apenas n’Ele, uma vez que deu ao homem deveres
a cumprir na Terra. Aquele que consome seu tempo na meditação e na
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
229
contemplação não faz nada de meritório aos olhos de Deus, porque a
dedicação de sua vida é toda pessoal e inútil para a humanidade, e Deus
lhe pedirá contas do bem que não tiver feito. (Veja a questão 640.)
PRECE
658 A prece é agradável a Deus?
– A prece é sempre agradável a Deus quando é do coração, porque a
intenção é tudo e a prece do coração é preferível à que se pode ler, por
mais bela que seja, se for lida mais com os lábios do que com o sentimento.
A prece é agradável a Deus quando é dita com fé, fervor e sinceridade;
mas não acrediteis que Ele seja tocado pela prece do homem fútil, orgulhoso
e egoísta, a menos que signifique de sua parte um ato de sincero
arrependimento e verdadeira humildade.
659 Qual é o caráter geral da prece?
– A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar n’Ele; é se
aproximar d’Ele; é se colocar em comunicação com Ele. Pela prece, podem-
se propor três coisas: louvar, pedir, agradecer.
660 A prece torna o homem melhor?
– Sim, quem ora com fervor e confiança é mais forte contra as tentações
do mal, e Deus envia bons Espíritos para assisti-lo. É um socorro
nunca recusado quando pedido com sinceridade.
660 a Por que algumas pessoas que oram muito têm, apesar
disso, um caráter muito ruim, são invejosas, ciumentas, coléricas, não
têm benevolência nem tolerância, podendo ser, algumas vezes, até
mesmo viciosas?
– O essencial não é orar muito, mas orar bem. Essas pessoas acreditam
que todo o mérito está no tamanho da prece e fecham os olhos para
seus próprios defeitos. A prece é, para elas, uma ocupação, um emprego
do tempo, não um estudo delas mesmas. Não é o remédio que é ineficaz,
é a maneira como é empregado.
661 É válido orar a Deus para perdoar nossas faltas?
– Deus sabe discernir o bem e o mal; a prece não oculta as faltas.
Aquele que a Deus pede perdão de suas faltas apenas o obtém ao mudar
de conduta. As boas ações são as melhores preces, porque os atos valem
mais do que as palavras.
662 É válido orar para outra pessoa?
– O Espírito daquele que ora age pela sua vontade de fazer o bem.
Pela prece, atrai bons Espíritos que se associam ao bem que quer fazer.
G Possuímos, em nós mesmos, pelo pensamento e pela vontade, um
poder de ação que se estende além dos limites de nossa esfera corporal.
A prece em favor de outras pessoas é um ato dessa vontade. Se for
ardente e sincera, pode chamar os bons Espíritos para ajudar aquele
CAPÍTULO 2 LEI DE ADORAÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
230
por quem oramos, a fim de lhe sugerir bons pensamentos e lhe dar ao
corpo e à alma a força de que tem necessidade. Mas a prece do coração
é tudo, a dos lábios não é nada.
663 As preces que fazemos por nós mesmos podem mudar nossas
provas e desviar-lhes o curso?
– Vossas provas estão nas mãos de Deus e há algumas que devem
ser suportadas até o fim, mas Deus tem sempre em conta a resignação. A
prece traz para junto de vós os bons Espíritos que dão a força de suportálas
com coragem e fazem com que pareçam menos duras. Já dissemos,
a prece nunca é inútil quando é bem-feita, porque dá força àquele que
ora, o que já é um grande resultado. Ajudai-vos e o céu vos ajudará,
sabeis disso. Aliás, Deus não pode mudar a ordem da natureza à vontade
de cada um, porque aquilo que é um grande mal sob o vosso ponto de
vista mesquinho e vossa vida efêmera é, muitas vezes, um grande bem na
ordem geral do universo. Além de tudo, quantos males há dos quais o
homem é o próprio autor por sua imprevidência ou por suas faltas! É punido
naquilo que errou. Entretanto, os pedidos justos são muitas vezes
atendidos mais vezes do que supondes. Acreditais que Deus não vos tem
escutado, porque não fez um milagre por vós, enquanto vos assiste por
meios tão naturais que parecem o efeito do acaso ou da força das coisas;
muitas vezes também, muitas vezes mesmo, Ele vos suscita o pensamento
necessário para, por vós mesmos, sairdes do problema.
664 É útil orar pelos mortos e pelos Espíritos sofredores? Nesse
caso, como nossas preces podem levar alívio e abreviar seus sofrimentos?
Têm elas o poder de fazer abrandar a justiça de Deus?
– A prece não pode ter por efeito mudar os desígnios de Deus, mas a
alma para quem se ora experimenta alívio, porque é um testemunho de
interesse que se lhe dá, e porque o infeliz sempre encontra alívio quando
almas caridosas se compadecem de suas dores. De outro lado, pela prece,
motiva-se ao arrependimento e ao desejo de fazer o que é preciso
para ser feliz; é nesse sentido que se pode abreviar sua pena, se por seu
lado ajudar com sua boa vontade. Esse desejo de melhorar, animado pela
prece, atrai para junto do Espírito sofredor Espíritos melhores que vêm
esclarecê-lo, consolá-lo e lhe dar esperança. Jesus orava pelas ovelhas
desgarradas e mostra, dessa maneira, que seríeis culpados de não fazer o
mesmo por aqueles que têm necessidade das vossas preces.
665 O que pensar da opinião que rejeita a prece pelos mortos em
razão de não estar recomendada no Evangelho?
– O Cristo disse: “Amai-vos uns aos outros”. Essa recomendação ensina
que o homem deve empregar todos os meios possíveis para demonstrar
afeição aos outros, sem entrar em detalhes sobre a maneira de atingir esse
objetivo. Se é verdade que nada pode impedir o Criador de aplicar a justiça,
da qual é a própria imagem, a todas as ações do Espírito, não é menos
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
231
verdadeiro que a prece que Lhe dirigis em favor daquele que vos inspira
afeição é um testemunho da lembrança que tendes dele, e apenas pode
contribuir para aliviar seus sofrimentos e consolá-lo. A partir do momento
em que ele sinta o menor arrependimento, é, então, socorrido; mas ele
nunca ignora que uma alma simpática se ocupou dele e lhe deixa o doce
pensamento que essa intercessão foi útil. Resulta disso, necessariamente,
de sua parte, um sentimento de reconhecimento e afeição por aquele
que lhe deu essa prova de amizade ou piedade. Dessa maneira, o amor
que o Cristo recomendava aos homens apenas aproximou-os entre si;
portanto, os dois obedeceram à lei de amor e de união de todos os seres,
lei divina que deve conduzir à unidade, objetivo e finalidade do Espírito*.
666 Pode-se orar aos Espíritos?
– Pode-se orar aos bons Espíritos como mensageiros de Deus e executores
de Seus desígnios; mas seu poder está na sua superioridade e
depende sempre do Senhor de todas as coisas, pois sem sua permissão
nada se faz; por isso, as preces que lhes dirigimos são somente eficazes
se são agradáveis a Deus.
POLITEÍSMO
667 Por que o politeísmo é uma das crenças mais antigas e divulgadas,
apesar de ser falsa?
– O pensamento de um Deus único só poderia ser, para o homem,
resultado do desenvolvimento de suas idéias. Incapaz, em sua ignorância,
de conceber um ser imaterial, sem forma determinada, agindo sobre a
matéria, deu-lhe o homem as características da natureza corporal, ou seja,
uma forma e uma figura. Desde então, tudo o que parecia ultrapassar as
proporções da inteligência comum era uma divindade. Tudo que não compreendia
devia ser obra de um poder sobrenatural, e daí estava a um passo
de acreditar em tantos poderes diferentes quantos eram os efeitos que
observava. Mas em todos os tempos houve homens esclarecidos que
compreenderam que governar o mundo com essa multidão de poderes
seria impossível sem uma direção superior e conceberam o pensamento
de um Deus único.
668 Os fenômenos espíritas, produzidos em todos os tempos e
conhecidos desde as primeiras épocas do mundo, não concorreram
para fazer acreditar na pluralidade dos deuses?
– Sem dúvida, como os homens chamavam deus a tudo o que era
sobre-humano, os Espíritos eram para eles deuses, e é por isso que, quando
um homem se distinguia entre os outros pelas suas ações, seu gênio ou
CAPÍTULO 2 LEI DE ADORAÇÃO
* Resposta dada pelo Espírito de M. Monod, pastor protestante de Paris, falecido em abril de
1856. A resposta anterior, nº 664, é do Espírito São Luís (N. K.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
232
por um poder oculto, incompreendido pelos demais, tornavam-no um deus
e lhe rendiam culto após a morte. (Veja a questão 603.)
G A palavra deus, entre os antigos, tinha uma significação muito ampla.
Não era como nos nossos dias, uma personificação do senhor da
natureza; era uma qualificação genérica dada a todo ser colocado além
das condições da humanidade. Como as manifestações espíritas lhes
havia revelado a existência de seres incorpóreos que agiam como potências
da natureza, eles os chamaram deuses, como nós os chamamos
Espíritos. Uma simples questão de palavras, com a diferença de
que em sua ignorância, mantida de propósito por aqueles que nisso
tinham interesse, ergueram templos e altares muito lucrativos, enquanto,
para nós, eles são simples criaturas, como nós, mais ou menos perfeitas,
simplesmente sem o seu corpo terrestre. Se estudarmos com cuidado
os diversos atributos das divindades pagãs, reconheceremos, sem
dificuldade, todos aqueles atributos que os nossos Espíritos também
têm em todos os graus da escala espírita; o estado físico nos mundos
superiores; todas as propriedades do perispírito e o papel que desempenham
nas coisas da Terra.
O Cristianismo, ao esclarecer o mundo com sua luz divina, não veio
destruir uma coisa que está na natureza, mas orientar a adoração para
aquele a quem é devida. Quanto aos Espíritos, sua lembrança se perpetuou
sob diversos nomes, conforme os povos, e suas manifestações,
que nunca deixaram de se produzir, foram diversamente interpretadas e
muitas vezes exploradas sob o manto do mistério; enquanto a religião
viu fenômenos miraculosos, os incrédulos viram mentiras. Hoje, graças
aos estudos mais sérios, feitos a plena luz, o Espiritismo livra-os das idéias
supersticiosas que os obscureceram durante séculos e nos revela um
dos maiores e mais sublimes princípios da natureza.
SACRIFÍCIOS
669 O hábito de sacrifícios humanos vem da mais alta Antiguidade.
Como o homem pôde ser levado a acreditar que tais coisas pudessem
ser agradáveis a Deus?
– Primeiramente, porque não compreendia Deus como fonte da bondade.
Entre os povos primitivos, a matéria domina o espírito; eles se
entregam aos instintos animais, é por isso que são geralmente cruéis, porque
o seu sentido moral ainda não se desenvolveu. Além disso, os homens
primitivos deveriam acreditar, naturalmente, que uma criatura viva tinha muito
mais valor aos olhos de Deus do que um morto. Foi isso que os levou a
sacrificar primeiro os animais e em seguida os homens, uma vez que,
seguindo sua falsa crença, pensavam que o valor do sacrifício estava diretamente
ligado à importância da vítima. Na vida material, se ofereceis um
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
233
presente a alguém, o escolheis de um valor tanto maior quanto quereis
demonstrar à pessoa mais amizade e consideração. Devia ocorrer o mesmo
com os homens ignorantes em relação a Deus.
669 a Assim, os sacrifícios de animais teriam precedido os sacrifícios
humanos?
– Sim. Não há dúvida.
669 b Então, de acordo com essa explicação, os sacrifícios humanos
não teriam sua origem num sentimento de crueldade?
– Não, mas numa idéia errônea de ser agradável a Deus. Vede o que
ocorreu com Abraão1. Depois, os homens abusaram ao sacrificar seus
inimigos. Porém, Deus nunca exigiu sacrifícios de animais nem de homens;
Ele não pode ser honrado com a destruição inútil de sua própria
criatura.
670 Os sacrifícios humanos feitos com intenção piedosa algumas
vezes puderam ser agradáveis a Deus?
– Não, nunca. Mas Deus julga a intenção. Os homens, sendo ignorantes,
podiam acreditar que faziam um ato louvável ao sacrificar um de
seus semelhantes. Nesse caso, Deus apenas levava em conta o pensamento
e não o fato. Os homens, ao se melhorarem, reconheceriam seu
erro e reprovariam esses sacrifícios, que não deviam alcançar compreensão
no pensamento dos Espíritos esclarecidos; digo esclarecidos porque
os Espíritos estavam, então, envolvidos por um véu material, mas, pelo
livre-arbítrio, podiam ter uma percepção de sua origem e finalidade, e muitos
já compreendiam, por intuição, o mal que faziam, embora continuassem
a fazê-lo para satisfazer suas paixões.
671 Que devemos pensar das chamadas guerras santas? O sentimento
que leva pessoas fanáticas a exterminarem o máximo que
puderem dos que não compartilham de suas crenças para serem agradáveis
a Deus parece ter a mesma origem que os estimulava antigamente
a sacrificar os seus semelhantes?
– Eles estão envolvidos pela ação de maus Espíritos e ao guerrearem
com seus semelhantes contrariam a vontade de Deus, que diz que se deve
amar seu irmão como a si mesmo. Todas as religiões, ou melhor, todos os
povos, adoraram um mesmo Deus, tenha um nome ou outro. Por que
fazer uma guerra de extermínio apenas pelo fato de terem religiões diferentes
ou não terem ainda alcançado o progresso dos povos esclarecidos?
Os povos podem ser desculpados por não acreditarem na palavra daquele
que era animado pelo Espírito de Deus e enviado por ele, principalmente
quando não o viram e não foram testemunhas de seus atos; porém, como
quereis que acreditem nessa palavra de paz, quando pretendeis impor
CAPÍTULO 2 LEI DE ADORAÇÃO
1 - Abraão: patriarca da Bíblia que se propôs a sacrificar Isaac, seu filho, a Deus, como prova
de obediência, mas pela intervenção de um Espírito foi impedido de fazê-lo – Veja em Gênese,
22 – (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
234
essa palavra com a espada na mão? Devemos levar-lhes o esclarecimento
e procurar fazer-lhes conhecer a doutrina do Salvador pela persuasão e
pela doçura, não pela força e pelo sangue. Na maioria das vezes, não
acreditais nas comunicações que temos com alguns mortais; como haveis
de querer que estranhos acreditassem na vossa palavra, quando
vossos atos desmentem a doutrina que pregais?
672 A oferenda dos frutos da terra, feita a Deus, tem mais mérito
aos seus olhos do que o sacrifício de animais?
– Já vos respondi ao dizer que Deus julga a intenção e o fato tem
pouca importância para ele. Seria evidentemente mais agradável oferecer
a Deus frutos da terra do que o sangue das vítimas. Como já vos dissemos
e repetimos sempre, a prece dita do fundo do coração é cem vezes mais
agradável a Deus do que todas as oferendas que poderíeis lhe fazer. Repito
que a intenção é tudo e o fato não é nada.
673 Não haveria um meio de tornar essas oferendas mais agradáveis
a Deus se aliviassem as necessidades daqueles a quem falta
o necessário; e, nesse caso, o sacrifício de animais, quando feito com
um objetivo útil, não se tornaria meritório, embora fosse abusivo quando
não servia para nada ou só tinha proveito apenas para as pessoas
que não tinham necessidade de nada? Não haveria alguma coisa de
verdadeiramente piedoso em consagrar aos pobres os primeiros frutos
dos bens que Deus nos concedeu na Terra?
– Deus abençoa sempre aqueles que fazem o bem, e aliviar os pobres
e aflitos é o melhor meio de honrá-Lo. Não quero dizer, entretanto, que Deus
desaprova as cerimônias que fazeis por devoção, mas há muito dinheiro
que poderia ser empregado mais utilmente e não é. Deus ama a simplicidade
em todas as coisas. O homem que fundamenta sua crença nas exterioridades
e não no coração é um Espírito com vistas estreitas. Julgai se Deus
deve se importar mais com a forma do que com o conteúdo.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
235
674 A necessidade do trabalho é uma lei da natureza?
– O trabalho é uma lei natural, por isso mesmo é uma necessidade, e
a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque aumenta suas necessidades
e prazeres.
675 Devem-se entender por trabalho somente as ocupações materiais?
– Não; o Espírito também trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação
útil é trabalho.
676 Por que o trabalho é imposto ao homem?
– É uma conseqüência de sua natureza corporal. É uma expiação e
ao mesmo tempo um meio de aperfeiçoar sua inteligência. Sem o trabalho,
o homem permaneceria na infância da inteligência; por isso deve seu
sustento, segurança e bem-estar apenas ao seu trabalho e à sua atividade.
Àquele que tem o corpo muito fraco, Deus deu a inteligência como
compensação; mas é sempre um trabalho.
677 Por que a própria natureza provê, por si mesma, a todas as
necessidades dos animais?
– Tudo trabalha na natureza; os animais trabalham como vós, mas seu
trabalho, como sua inteligência, é limitado ao cuidado de sua conservação.
Eis por que entre eles o trabalho não gera o progresso, enquanto
entre os homens há um duplo objetivo: a conservação do corpo e o desenvolvimento
do pensamento, que é também uma necessidade que o
eleva acima de si mesmo. Quando digo que o trabalho dos animais é
limitado ao cuidado de sua conservação, refiro-me ao objetivo a que se
propõem a trabalhar; mas, inconscientemente, ao prover suas necessidades
materiais, se constituem em agentes dos desígnos do Criador, e seu
trabalho não concorre menos para o objetivo final da natureza, se bem que
muitas vezes não percebeis o resultado de imediato.
678 Nos mundos mais aperfeiçoados, o homem está sujeito à
mesma necessidade de trabalho?
– A natureza do trabalho é relativa à natureza das necessidades. Quanto
menos as necessidades são materiais, menos o trabalho é material; mas
NECESSIDADE DO TRABALHO
CAPÍTULO
3
LEI DO TRABALHO
Necessidade do trabalho – Limite do trabalho.
Repouso
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
236
não deveis crer, por isso, que o homem fica inativo e inútil: a ociosidade
seria um suplício, em vez de ser um benefício.
679 O homem que possui bens suficientes para assegurar sua
existência está livre da lei do trabalho?
– Do trabalho material, pode ser, mas não da obrigação de se tornar
útil conforme seus meios, de aperfeiçoar sua inteligência ou a dos outros,
o que é também um trabalho. Se o homem a quem Deus distribuiu bens
suficientes não está obrigado a se sustentar com o suor de seu rosto, a
obrigação de ser útil a seus semelhantes é tanto maior quanto as oportunidades
que surjam para fazer o bem, com o adiantamento que Deus lhe
fez em bens materiais.
680 Não há homens impossibilitados para trabalhar no que quer
que seja e cuja existência é inútil?
– Deus é justo. Apenas desaprova aquele que voluntariamente tornou
inútil sua existência, porque esse vive à custa do trabalho dos outros. Ele quer
que cada um se torne útil conforme suas aptidões. (Veja a questão 643.)
681 A lei natural impõe aos filhos a obrigação de trabalhar por
seus pais?
– Certamente, do mesmo modo que os pais devem trabalhar por seus
filhos; é por isso que Deus fez do amor filial e do amor paternal um sentimento
natural para que, por essa afeição recíproca, os membros de uma
mesma família fossem levados a se ajudarem mutuamente, o que é freqüentemente
esquecido em vossa sociedade atual. (Veja a questão 205.)
LIMITE DO TRABALHO. REPOUSO
682 O repouso, sendo uma necessidade após o trabalho, não é
também uma lei natural?
– Sem dúvida. O repouso repara as forças do corpo e é também
necessário para dar um pouco mais de liberdade à inteligência, para que
se eleve acima da matéria.
683 Qual é o limite do trabalho?
– O limite das forças; entretanto, Deus deixa o homem livre.
684 O que pensar daqueles que abusam de sua autoridade para
impor a seus inferiores excesso de trabalho?
– É uma das piores ações. Todo homem que tem o poder de comandar
é responsável pelo excesso de trabalho que impõe a seus subordinados,
porque transgride a lei de Deus. (Veja a questão 273.)
685 O homem tem direito ao repouso na velhice?
– Sim. Ao trabalho está obrigado apenas conforme suas forças.
685 a Mas que recurso tem o idoso necessitado de trabalhar
para viver, se já não pode?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
237
– O forte deve trabalhar pelo fraco e, na falta da família, a sociedade
deve tomar o seu lugar: é a lei da caridade.
G Não basta dizer ao homem que é seu dever trabalhar, é preciso
ainda que aquele que tem de prover a existência com seu trabalho encontre
com que se ocupar, o que nem sempre acontece. Quando a falta
do trabalho se generaliza, toma proporções de um flagelo como a miséria.
A ciência econômica procura o remédio no equilíbrio entre a produção
e o consumo; mas esse equilíbrio, supondo-se que seja possível,
não será contínuo, e nesses intervalos o trabalhador precisa viver. Há
um elemento que não se costuma considerar, sem o qual a ciência econômica
torna-se apenas uma teoria: é a educação. Não a educação
intelectual, mas a educação moral; não ainda a educação moral pelos
livros, mas a que consiste na arte de formar o caráter, que dá os hábitos:
porque educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Quando se pensa
na massa de indivíduos lançados a cada dia na torrente da população,
sem princípios nem freios e entregues aos próprios instintos, devem
causar espanto as conseqüências desastrosas que resultam disso?
Quando essa arte for conhecida e praticada, o homem trará hábitos de
ordem e de previdência para si e para os seus, de respeito pelo que é
respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos angustiado os
maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas
que uma educação bem conduzida pode curar; aí está o ponto de partida,
o elemento real do bem-estar, a garantia da segurança de todos.
CAPÍTULO 3 LEI DO TRABALHO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
238
686 A reprodução dos seres vivos é uma lei da natureza?
– Isso é evidente; sem a reprodução, o mundo corporal acabaria.
687 Se a população seguir sempre a progressão crescente que
vemos, chegará um momento em que será excessiva na Terra?
– Não; Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio, não faz nada
inútil; o homem que vê apenas um canto do quadro da natureza não pode
julgar a harmonia do conjunto.
SUCESSÃO E APERFEIÇOAMENTO DAS RAÇAS
688 Há, presentemente, raças humanas que diminuem; chegará
um momento em que desaparecerão da face da Terra?
– É verdade, mas outras tomaram seu lugar, como outras tomarão o
da vossa um dia.
689 Os homens atuais são uma criação nova ou descendentes
aperfeiçoados dos seres primitivos?
– São os mesmos Espíritos que vieram para se aperfeiçoar em novos
corpos, mas que ainda estão longe da perfeição. Assim, a raça humana
atual, pelo seu crescimento, tende a expandir-se sobre toda a Terra e substituir
as raças que se extinguem, terá seu período de decrescimento e
desaparecerá. Outras raças mais aperfeiçoadas a substituirão, descendendo
da raça atual, como os homens civilizados de hoje descendem dos
seres brutos e selvagens dos tempos primitivos.
690 Do ponto de vista puramente físico, os corpos da raça atual
são uma criação especial ou vieram dos corpos primitivos pelo caminho
da reprodução?
– A origem das raças se perde no tempo; como todas pertencem à
grande família humana, qualquer que seja a fonte primitiva de cada uma,
elas puderam se juntar entre si e produzir tipos novos.
691 Qual é, do ponto de vista físico, a característica distintiva e
dominante das raças primitivas?
POPULAÇÃO DO GLOBO
CAPÍTULO
4
LEI DE REPRODUÇÃO
População do globo – Sucessão e aperfeiçoamento
das raças – Obstáculos à reprodução –
Casamento e celibato – Poligamia
239
– Desenvolvimento da força bruta em vez da intelectual. Atualmente
ocorre o contrário: o homem faz mais pela inteligência do que pela força
do corpo e, entretanto, faz cem vezes mais, porque soube aproveitar as
forças da natureza, o que os animais não conseguem fazer.
692 O aperfeiçoamento genético das raças animais e dos vegetais,
pela ciência, é contrária à lei natural? Estaria mais conforme com
essa lei deixar as coisas seguirem seu curso normal?
– Deve-se fazer tudo para chegar à perfeição, e o próprio homem é
um instrumento nas mãos de Deus, do qual Ele se serve para que tudo à
sua volta atinja os objetivos aos quais se destina. A perfeição, sendo o
objetivo para o qual tende a natureza, é de Deus favorecer essa perfeição.
692 a Mas o homem somente se esforça para o melhoramento
dessas raças por interesse pessoal e, raramente, tem outro objetivo
senão o aumento de seus prazeres; isso não diminui seu mérito?
– Que importa que seu mérito seja nulo, contanto que o progresso se
faça? Cabe a ele tornar seu trabalho meritório pela intenção. Aliás, por
meio desse trabalho, exerce e desenvolve sua inteligência e é sob esse
aspecto que obtém maior proveito.
OBSTÁCULOS À REPRODUÇÃO
693 As leis e costumes humanos que criam obstáculos à reprodução
são contrários à lei da natureza?
– Tudo o que dificulte a marcha da natureza é contrário à lei geral.
693 a Entretanto, há espécies de seres vivos, animais e plantas
cuja reprodução indefinida seria prejudicial a outras espécies e o próprio
homem se tornaria uma vítima; comete ele um ato repreensível
ao impedir essa reprodução?
– Deus deu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder que
deve usar para o bem, mas do qual não deve abusar. Pode-se regular a
reprodução conforme as necessidades, mas do qual não deve dificultá-la
sem razão. A ação inteligente do homem é um contrapeso estabelecido
por Deus para equilibrar as forças da natureza, e é isso ainda que o distingue
dos animais, porque o faz com conhecimento de causa. Mas os
próprios animais também concorrem para esse equilíbrio, porque o instinto
de destruição que lhes foi dado faz com que, ao terem de prover sua
própria conservação, detenham o desenvolvimento excessivo e talvez
perigoso das espécies animais e vegetais de que se nutrem.
694 Que pensar do controle da natalidade para impedir a reprodução
e satisfazer a sensualidade?
– Isso prova a predominância do corpo sobre a alma e quanto o homem
está materializado.
CAPÍTULO 4 LEI DE REPRODUÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
240
CASAMENTO E CELIBATO1
695 O casamento, ou a união permanente de dois seres, é contrária
à lei natural?
– É um progresso na marcha da humanidade.
696 Qual seria o efeito da abolição do casamento para a sociedade
humana?
– O retorno à vida animal.
G A união livre e casual dos sexos é um estado natural. O casamento
é um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas,
porque estabelece a solidariedade fraterna e aparece entre todos os
povos, ainda que em condições diversas. A abolição do casamento seria
o retorno à infância da humanidade e colocaria o homem até mesmo
abaixo de alguns animais que dão exemplo de uniões constantes.
697 A idéia de que o casamento não pode ser absolutamente
dissolvido está na lei natural ou apenas na lei humana?
– É uma lei humana muito contrária à lei natural. Mas os homens podem
mudar suas leis; as da natureza são as únicas imutáveis.
698 O celibato voluntário é meritório aos olhos de Deus?
– Não, e os que vivem assim por egoísmo desagradam a Deus e
enganam a todos.
699 O celibato não é para algumas pessoas um sacrifício com a
finalidade de se devotar mais inteiramente ao serviço da humanidade?
– Isso é bem diferente; eu disse: por egoísmo. Todo sacrifício pessoal
é meritório quando é para o bem; quanto maior o sacrifício, maior o mérito.
G Deus não pode se contradizer nem achar mau o que fez. Não
pode haver mérito na violação de Sua lei; mas se o celibato, por si mesmo,
não é meritório, não ocorre o mesmo quando é pela renúncia às
alegrias da família, um sacrifício decidido em favor da humanidade. Todo
sacrifício pessoal para o bem e sem o disfarce do egoísmo eleva o homem
acima de sua condição material.
POLIGAMIA
700 A igualdade numérica aproximada que existe entre homens
e mulheres é um indício da proporção em que se devam unir?
– Sim, porque tudo tem uma finalidade na natureza.
701 Qual das duas, a poligamia ou a monogamia, está mais de
acordo com a lei natural?
– A poligamia é uma lei humana cuja abolição marca um progresso
social. O casamento, conforme os desígnios de Deus, deve estar fundado
1 - Celibato: estado de uma pessoa que se mantém solteira (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
241
na afeição dos seres que se unem. Com a poligamia não há afeição real:
há apenas sensualidade.
G Se a poligamia estivesse de acordo com a lei natural, deveria ser
universal, o que seria materialmente impossível por causa da igualdade
numérica dos sexos.
A poligamia deve ser considerada como um uso particular ou uma
legislação especial, apropriada a alguns costumes, e que o aperfeiçoamento
social faz pouco a pouco desaparecer.
CAPÍTULO 4 LEI DE REPRODUÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
242
702 O instinto de conservação é uma lei natural?
– Sem dúvida. Foi dado a todos os seres vivos, seja qual for o grau de
inteligência. Para uns, é puramente mecânico; para outros, é racional.
703 Com que objetivo Deus deu a todos os seres vivos o instinto
de conservação?
– Porque todos devem cumprir os desígnios da Providência; é por
isso que Deus deu o instinto de conservação. Além disso, a vida é necessária
ao aperfeiçoamento dos seres que têm instintivamente esse
sentimento, sem se darem conta disso.
MEIOS DE CONSERVAÇÃO
704 Deus, dando ao homem a necessidade de viver, sempre lhe
forneceu os meios para isso?
– Sim. Se não os encontra, é por falta de iniciativa. Deus não poderia
dar ao homem a necessidade de viver sem lhe dar os meios, por isso faz
a terra produzir e fornecer o necessário a todos, porque só o necessário é
útil. O supérfluo nunca é.
705 Por que nem sempre a terra produz o suficiente para fornecer
o necessário ao homem?
– O homem a negligencia por ingratidão e, no entanto, a terra continua
sendo uma excelente mãe. Além disso, ele ainda acusa a natureza por sua
própria imperícia ou imprevidência. A terra produziria sempre o necessário
se o homem soubesse se contentar. Se o que produz não é bastante para
todas as necessidades, é porque emprega no supérfluo o que deveria
utilizar no necessário. Observai o árabe no deserto: encontra sempre com
o que viver, porque não cria necessidades artificiais. Porém, quando a
metade da produção é desperdiçada para satisfazer fantasias, deve o homem
se espantar de não encontrar nada em seguida? E terá razão de se
queixar por estar desprovido quando chega a época da escassez? Na
verdade, não é a natureza que é imprevidente, é o homem que não sabe
regrar sua vida.
INSTINTO DE CONSERVAÇÃO
CAPÍTULO
5
LEI DE CONSERVAÇÃO
Instinto de conservação – Meios de conservação –
Prazeres dos bens da terra – Necessário e supérfluo –
Privações voluntárias. Mortificações
243
706 Por bens da terra somente devemos entender os produtos
do solo?
– O solo é a fonte primária de onde vêm todos os outros recursos,
que são apenas uma transformação dos produtos do solo; por isso, é
preciso entender por bens da terra tudo o que o homem pode desfrutar
neste mundo.
707 Os meios de subsistência, muitas vezes, faltam a alguns,
mesmo em meio à abundância que os cerca; por quê?
– É pelo egoísmo dos homens em geral e também, freqüentemente,
por negligência deles mesmos. Buscai e achareis; essas palavras não querem
dizer que basta olhar a terra para encontrar o que se deseja, mas que
é preciso procurar com ardor e perseverança e não com fraqueza, sem
se deixar desencorajar pelos obstáculos que, muitas vezes, são apenas
meios de colocar à prova a vossa constância, paciência e firmeza. (Veja a
questão 534.)
G Se a civilização multiplica as necessidades, também multiplica as
fontes de trabalho e os meios de vida; mas é preciso admitir que sob
esse aspecto resta ainda muito a fazer. Quando a civilização terminar
sua obra, ninguém poderá queixar-se de que lhe falta o necessário, senão
por sua própria culpa. A infelicidade, para muitos, decorre de enveredarem
por um caminho que não é o que a natureza traçou; é então
que falta inteligência para terem êxito. Há lugar ao sol para todos, mas
com a condição de cada um ter o seu, e não o dos outros. A natureza
não pode ser responsável pelos vícios de organização social nem pelas
conseqüências da ambição e do amor-próprio.
Entretanto, seria preciso ser cego para não reconhecer o progresso
que se realizou sob esse aspecto entre os povos mais avançados. Graças
aos louváveis esforços que a filantropia e a ciência juntas não param
de fazer para o melhoramento da condição material dos homens, e apesar
do contínuo aumento das populações, a insuficiência da produção
está atenuada em grande parte, pelo menos. Os anos mais calamitosos
hoje nada têm de comparável aos de antigamente. A higiene pública,
esse elemento tão essencial para o bem-estar e a saúde, desconhecida
de nossos pais, é agora objeto de cuidados especiais; o infortúnio e o
sofrimento encontram lugares de refúgio. Em toda parte a ciência contribui
para aumentar o bem-estar. Pode-se dizer que já alcançou a perfeição?
Certamente que não. Mas o que já se fez dá a medida do que se
pode fazer com perseverança, se o homem é bastante sábio para procurar
sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não nas utopias que
o fazem recuar em vez de progredir.
708 Não há situações em que os meios de subsistência não dependem
de modo algum da vontade do homem, e a privação até daquilo
que mais necessita é uma conseqüência das circunstâncias?
CAPÍTULO 5 LEI DE CONSERVAÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
244
– É uma prova muitas vezes cruel que deve passar e à qual sabia que
seria exposto. Seu mérito está em sua submissão à vontade de Deus, se
sua inteligência não fornece nenhum meio de se livrar das dificuldades. Se
a morte deve atingi-lo, deve se submeter sem reclamar e compreender
que a hora da verdadeira libertação chegou e que o desespero do último
momento pode lhe fazer perder o fruto de sua resignação.
709 Aqueles que, em certas posições críticas, se viram obrigados
a sacrificar seus semelhantes para se alimentarem deles, cometeram
um crime? Nesse caso, o crime pode ser atenuado pela necessidade
de viver que lhes dá o instinto de conservação?
– Já respondi, ao dizer que há mais mérito em sofrer todas as provas
da vida com coragem e abnegação. Nesse caso, há homicídio e crime de
lesa-natureza, faltas que devem ser duplamente punidas.
710 Nos planetas onde o corpo é mais depurado, os seres vivos
têm necessidade de alimentação?
– Sim, mas os alimentos estão de acordo com sua natureza. Esses
alimentos não seriam muito substanciais para vossos estômagos grosseiros,
do mesmo modo que, para eles, a vossa alimentação também não
serviria.
PRAZERES DOS BENS DA TERRA
711 O uso dos bens da terra é um direito para todos os homens?
– Esse direito é a conseqüência da necessidade de viver. Deus não
pode impor um dever sem dar o meio de satisfazê-lo.
712 Por que Deus colocou o atrativo do prazer na posse e uso
dos bens materiais?
– Para estimular o homem ao cumprimento de sua missão e experimentá-
lo por meio da tentação.
712 a Qual é o objetivo dessa tentação?
– Desenvolver sua razão, que deve preservá-lo dos excessos.
G Se o homem tivesse considerado o uso dos bens da Terra somente
pela utilidade que eles têm, sua indiferença poderia comprometer a harmonia
do universo: Deus lhe deu o atrativo do prazer para o cumprimento
dos seus desígnios. Mas pelo que possa representar esse atrativo
quis, por outro lado, prová-lo por meio da tentação que o arrasta para o
abuso do qual sua razão deve defendê-lo.
713 Os prazeres têm limites traçados pela natureza?
– Sim, têm o limite do necessário; mas, pelos excessos, chegais ao
extremo exagero e à repulsa e vos punis a vós mesmos.
714 O que pensar do homem que procura nos excessos de toda
espécie um refinamento para seus prazeres?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
245
– Pobre infeliz digno de lástima e não de inveja. Está bem próximo da
morte!
714 a Da morte física ou moral?
– De ambas.
G O homem que procura nos excessos de toda espécie um requinte
de prazeres coloca-se abaixo do animal, porque o animal sabe deter-se
na satisfação da sua necessidade. Despreza o homem a razão que Deus
lhe deu por guia, e, quanto maiores os seus excessos, mais domínio
exerce sua natureza primitiva sobre sua natureza espiritual. As doenças,
a decadência, a morte prematura decorrentes dos abusos são a conseqüência
da transgressão da lei divina.
NECESSÁRIO E SUPÉRFLUO
715 Como o homem pode conhecer o limite do necessário?
– Aquele que é sensato o conhece pela intuição; muitos o conhecem
pela experiência e à sua própria custa.
716 A natureza não traçou o limite de nossas necessidades em
nossa estrutura orgânica?
– Sim, mas o homem é insaciável. A natureza traçou o limite às suas
necessidades no seu próprio organismo, mas os vícios lhe alteraram a
constituição e criaram necessidades que não são reais.
717 O que pensar dos que monopolizam os bens da terra para
obter o supérfluo em prejuízo dos que precisam do necessário?
– Eles desconhecem a lei de Deus e terão que responder pelas privações
que impuseram aos outros.
G O limite entre o necessário e o supérfluo não tem nada de absoluto,
de indiscutível. A civilização criou necessidades que o selvagem
desconhece, e os Espíritos que ditaram esses ensinamentos não pretendem
que o homem civilizado viva como o selvagem. Tudo é relativo
e cabe à razão distinguir cada coisa. A civilização desenvolve o senso
ético e ao mesmo tempo o sentimento de caridade, que leva os homens
ao apoio mútuo. Os que vivem à custa das necessidades dos
outros exploram os benefícios da civilização em seu proveito; têm da
civilização apenas o verniz, como há pessoas que têm da religião apenas
a máscara.
PRIVAÇÕES VOLUNTÁRIAS. MORTIFICAÇÕES
718 A lei de conservação obriga o homem a prover as necessidades
do corpo?
– Sim, sem força e saúde o trabalho é impossível.
CAPÍTULO 5 LEI DE CONSERVAÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
246
719 É condenável ao homem procurar o seu bem-estar?
– O bem-estar é um desejo natural. Os abusos são condenáveis porque
contrariam a lei de conservação. O bem-estar é condenável se foi
adquirido à custa dos outros e se comprometeu o equilíbrio moral e físico
do homem.
720 As privações voluntárias, que resultam numa expiação igualmente
voluntária, têm algum mérito aos olhos de Deus?
– Quanto mais fazeis o bem aos outros mais mérito tereis.
720 a Há privações voluntárias que sejam meritórias?
– Sim, a renúncia aos prazeres inúteis, que liberta o homem da matéria
e eleva sua alma. O meritório é resistir à tentação que o conduz aos
excessos ou ao prazer das coisas inúteis; é tirar do que lhe é necessário
para doar àqueles que não têm o suficiente. Se a privação é apenas fingimento,
é uma zombaria.
721 A vida de mortificações ascéticas1 dos devotos e dos místicos,
praticada desde a Antiguidade e entre diferentes povos, é meritória
sob algum ponto de vista?
– Perguntai para o que e a quem ela serve e tereis a resposta. Se
serve apenas àquele que a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo,
qualquer que seja o pretexto com o qual se disfarce. Renegar-se a si mesmo
e trabalhar para os outros é a verdadeira mortificação, conforme a
caridade cristã.
722 A abstenção de alguns alimentos, regra entre diversos povos,
é fundada na razão?
– Tudo aquilo com que o homem pode se alimentar sem prejuízo para
a sua saúde é permitido. Porém, alguns legisladores resolveram proibir
alguns alimentos com um objetivo útil e, para dar maior autoridade às suas
leis, as apresentaram como se fossem vindas de Deus.
723 A alimentação animal é, para o homem, contrária à lei natural?
– Em vossa constituição física, a carne alimenta a carne; de outro
modo, o homem enfraquece. A lei de conservação dá ao homem o dever
de manter suas forças e sua saúde para cumprir a lei do trabalho. Ele
deve, portanto, se alimentar conforme as exigências de seu organismo.
724 A abstenção de alimento animal ou outro, como purificação,
é meritória?
– Sim, se essa abstenção for em benefício dos outros; mas Deus não
pode ver uma mortificação quando não é séria e útil. Por isso dizemos que
aqueles que se privam apenas na aparência são hipócritas. (Veja a questão
720.)
725 Que pensar das mutilações que se fazem no corpo do homem
e dos animais?
1 - Ascéticas: dedicadas à meditação com o fim de ser virtuoso (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
247
– Por que tal questão? Perguntai, a vós mesmos, ainda uma vez e
sempre, se uma coisa é útil. O que é inútil não pode ser agradável a Deus
e o que é nocivo é sempre desagradável; porque, deveis saber, Deus só é
sensível aos sentimentos daqueles que lhe elevam a alma; é praticando
Sua Lei que podereis vos libertar da matéria terrestre, e não violando-a.
726 Se os sofrimentos deste mundo nos elevam pela maneira
que os suportamos, elevam-nos também os que criamos voluntariamente?
– Os únicos sofrimentos que elevam são os sofrimentos naturais, porque
vêm de Deus; os sofrimentos voluntários não servem para nada quando
não contribuem para o bem dos outros. Por acaso acreditais que avançam
no caminho do progresso os que abreviam sua vida nos rigores sobrehumanos,
como fazem os bonzos2, os faquires3e alguns fanáticos de muitas
seitas? Por que não trabalham antes pelo bem de seus semelhantes? Que
vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem por aquele que está
enfermo; sofram necessidades para o alívio dos infelizes; então, sim, sua
vida será útil e agradável a Deus. Quando os sofrimentos voluntários têm
em vista apenas a si mesmo, é egoísmo; quando se sofre pelos outros, é
caridade: são estes os preceitos do Cristo.
727 Se não devemos criar sofrimentos voluntários sem utilidade
para os outros, devemo-nos preservar daqueles que prevemos ou que
nos ameaçam?
– O instinto de conservação foi dado a todos contra os perigos e os
sofrimentos. Mortificai o Espírito e não vosso corpo, exterminai o vosso
orgulho, sufocai o vosso egoísmo, que parece uma serpente que vos tortura
o coração, e fareis mais por vosso adiantamento do que por meio de
rigores que não são mais deste século.
CAPÍTULO 5 LEI DE CONSERVAÇÃO
2 - Bonzos: monges do Budismo. São dados a martírios e suplícios (N. E.).
3 - Faquires: que se deixam mutilar ou se submetem a jejuns. Exibem-se para provar o domínio
e a insensibilidade da dor sobre o corpo (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
248
728 A destruição é uma lei natural?
– É preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar. O que
chamais destruição é apenas transformação que tem por objetivo a renovação
e o melhoramento dos seres vivos.
728 a O instinto de destruição teria sido dado aos seres vivos por
desígnios providenciais?
– As criaturas são os instrumentos de que Deus se serve para atingir
os seus objetivos. Para se alimentarem, os seres vivos se destroem entre
si com um duplo objetivo: manter o equilíbrio na reprodução, que poderia
tornar-se excessiva, e melhor utilização dos restos do corpo. Mas somente
o corpo é destruído, porque é apenas o acessório, e não a parte essencial.
O princípio inteligente é indestrutível e se elabora nas diferentes metamorfoses1
que sofre.
729 Se a destruição é necessária para a regeneração dos seres,
por que a natureza os cerca com meios de preservação e de conservação?
– Para que a destruição não ocorra antes do tempo preciso. Toda
destruição antecipada dificulta o desenvolvimento do princípio inteligente;
é por isso que Deus deu a cada ser a necessidade de viver e de se
reproduzir.
730 Uma vez que a morte deve nos conduzir a uma vida melhor,
que nos livra dos males desta, e, por isso, mais deveria ser desejada
do que temida, por que o homem tem um horror instintivo que o faz
temê-la?
– Já dissemos, o homem deve procurar prolongar a vida para cumprir
sua tarefa; eis por que Deus lhe deu o instinto de conservação, que o
sustenta nas provas; sem isso, muitas vezes se deixaria levar pelo desencorajamento.
A voz secreta que o faz temer a morte lhe diz que ainda pode
fazer alguma coisa para seu adiantamento. Quando um perigo o ameaça,
DESTRUIÇÃO NECESSÁRIA E DESTRUIÇÃO ABUSIVA
CAPÍTULO
6
LEI DE DESTRUIÇÃO
Destruição necessária e destruição abusiva –
Flagelos destruidores – Guerras – Assassinato –
Crueldade – Duelo – Pena de morte
1 - Metamorfose: mudança ou troca de forma. Transformação, modificação, alteração (N. E.).
249
é uma advertência para que aproveite o tempo e a morada que Deus lhe
concede. Mas, ingrato! Rende mais vezes graças à sua estrela do que ao
seu Criador.
731 Por que, ao lado dos meios de conservação, a natureza colocou
ao mesmo tempo os agentes destruidores?
– O remédio ao lado do mal, já dissemos, é para manter o equilíbrio e
servir de contrapeso.
732 A necessidade de destruição é a mesma em todos os
mundos?
– É proporcional ao estado mais ou menos material dos mundos e
cessa quando os estados físico e moral estão mais depurados. Nos mundos
mais avançados as condições de existência são completamente
diferentes.
733 A necessidade da destruição existirá sempre entre os homens
na Terra?
– A necessidade de destruição diminui e se reduz entre os homens à
medida que o Espírito se sobrepõe à matéria; é por isso que se constata o
horror à destruição crescer com o desenvolvimento intelectual e moral.
734 Em seu estado atual, o homem tem direito ilimitado de destruição
sobre os animais?
– Esse direito é regido pela necessidade de prover a sua alimentação
e segurança. O abuso nunca foi um direito.
735 O que pensar da destruição que ultrapassa os limites das
necessidades e da segurança? Da caça, por exemplo, quando tem
por objetivo apenas o prazer de destruir sem utilidade?
– Predominância dos maus instintos sobre a natureza espiritual. Toda
destruição que ultrapassa os limites da necessidade é uma violação da lei
de Deus. Os animais destroem apenas de acordo com suas necessidades;
mas o homem, que tem o livre-arbítrio, destrói sem necessidade; ele
deverá prestar contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, porque
cede aos maus instintos.
736 Os povos que são muito escrupulosos com relação à destruição
dos animais têm um mérito particular?
– É um excesso, mesmo sendo um sentimento louvável em si mesmo; se
se torna abusivo, seu mérito é neutralizado pelos abusos de outras espécies.
Há entre eles mais medo supersticioso do que a verdadeira bondade.
FLAGELOS DESTRUIDORES
737 Com que objetivo os flagelos destruidores atingem a humanidade?
– Para fazê-la progredir mais depressa. Não dissemos que a
destruição é necessária para a regeneração moral dos Espíritos, que ad-
CAPÍTULO 6 LEI DE DESTRUIÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
250
quirem em cada nova existência um novo grau de perfeição? É preciso ver
o objetivo para apreciar os resultados dele. Vós os julgais somente do
ponto de vista pessoal e os chamais de flagelos por causa do prejuízo que
ocasionam; mas esses aborrecimentos são, na maior parte das vezes,
necessários para fazer chegar mais rapidamente a uma ordem de coisas
melhores e realizar em alguns anos o que exigiria séculos. (Veja a questão
744.)
738 A Providência não poderia empregar para o aperfeiçoamento
da humanidade outros meios que não os flagelos destruidores?
– Sim, pode, e os emprega todos os dias, uma vez que deu a cada
um os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. É o homem
que não tira proveito disso; é preciso castigá-lo em seu orgulho e
fazer-lhe sentir sua fraqueza.
738 a Mas nesses flagelos o homem de bem morre como o perverso;
isso é justo?
– Durante a vida, o homem sujeita tudo ao seu corpo; mas, após a
morte, pensa de outro modo e, como já dissemos, a vida do corpo é
pouca coisa; um século de vosso mundo é um relâmpago na eternidade.
Portanto, os sofrimentos que sentis por alguns meses ou alguns dias não
são nada, são um ensinamento para vós e servirão no futuro. Os Espíritos,
que preexistem e sobrevivem a tudo, compõem o mundo real. (Veja a questão
85.) Esses são filhos de Deus e objeto de toda a sua solicitude; os
corpos são apenas trajes sob os quais aparecem no mundo. Nas grandes
calamidades que destroem os homens, é como se um exército tivesse
durante a guerra seus trajes estragados ou perdidos. O general tem mais
cuidado com seus soldados do que com as roupas que usam.
738 b Mas nem por isso as vítimas desses flagelos são menos
vítimas?
– Se considerásseis a vida como ela é, e quanto é insignificante em
relação ao infinito, menos importância lhe daríeis. Essas vítimas encontrarão
numa outra existência uma grande compensação para seus sofrimentos
se souberem suportá-los sem se lamentar.
G Quer a morte chegue por um flagelo ou por uma outra causa, não
se pode escapar quando a hora é chegada; a única diferença é que, nos
flagelos, parte um maior número ao mesmo tempo.
Se pudéssemos nos elevar pelo pensamento, descortinando toda a
humanidade de modo a abrangê-la inteiramente, esses flagelos tão terríveis
não pareceriam mais do que tempestades passageiras no destino
do mundo.
739 Os flagelos destruidores têm alguma utilidade do ponto de
vista físico, apesar dos males que ocasionam?
– Sim, eles mudam, muitas vezes, as condições de uma região; mas
o bem que resulta disso somente é percebido pelas gerações futuras.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
251
740 Os flagelos não seriam para o homem também provas morais
que os submetem às mais duras necessidades?
– Os flagelos são provas que proporcionam ao homem a ocasião de
exercitar sua inteligência, mostrar sua paciência e sua resignação à vontade
da Providência, e até mesmo multiplicam neles os sentimentos de abnegação,
de desinteresse e de amor ao próximo, se não é dominado pelo egoísmo.
741 É dado ao homem evitar os flagelos que o atormentam?
– Sim, em parte, embora não como se pensa geralmente. Muitos dos
flagelos são a conseqüência de sua imprevidência; à medida que adquire
conhecimentos e experiência, pode preveni-los se souber procurar suas
causas. Porém, entre os males que afligem a humanidade, há os de caráter
geral, que estão nos decretos da Providência, e dos quais cada indivíduo
sente mais ou menos a repercussão. Sobre esses males, o homem pode
apenas se resignar à vontade de Deus; e ainda esses males são, muitas
vezes, agravados pela sua negligência.
G Entre os flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, é
preciso colocar na primeira linha a peste, a fome, as inundações, as intempéries
fatais à produção da terra. Mas o homem encontrou na ciência, nos
trabalhos de arte, no aperfeiçoamento da agricultura, na rotatividade das
culturas e nas irrigações, no estudo das condições higiênicas, os meios de
neutralizar ou de pelo menos atenuar os desastres. Algumas regiões, antigamente
assoladas por terríveis flagelos, não estão preservadas hoje? Que
não fará, portanto, o homem pelo seu bem-estar material quando souber
aproveitar todos os recursos de sua inteligência e quando, aos cuidados de
sua conservação pessoal, souber aliar o sentimento da verdadeira caridade
por seus semelhantes? (Veja a questão 707.)
GUERRAS
742 Qual é a causa que leva o homem à guerra?
– Predominância da natureza selvagem sobre a espiritual e satisfação
das paixões. No estado de barbárie, os povos conhecem apenas o direito
do mais forte; é por isso que a guerra é para eles um estado normal.
Contudo, à medida que o homem progride, ela se torna menos freqüente,
porque evita as suas causas, e quando é inevitável sabe aliar à sua ação o
sentimento de humanidade.
743 A guerra desaparecerá um dia da face da Terra?
– Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei
de Deus; então, todos os povos serão irmãos.
744 Qual o objetivo da Providência ao tornar a guerra necessária?
– A liberdade e o progresso.
744 a Se a guerra deve ter como efeito conduzir à liberdade,
como se explica que tenha, muitas vezes, por objetivo e resultado a
escravidão?
CAPÍTULO 6 LEI DE DESTRUIÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
252
– Escravidão temporária para abater os povos, a fim de fazê-los progredir
mais rápido.
745 O que pensar daquele que provoca a guerra em seu proveito?
– Esse é o verdadeiro culpado e precisará de muitas reencarnações
para expiar todas as mortes que causou, porque responderá
por todo homem cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.
ASSASSINATO
746 O assassinato é um crime aos olhos de Deus?
– Sim, um grande crime; porque aquele que tira a vida de seu semelhante
corta uma vida de expiação ou de missão, e aí está o mal.
747 O assassinato tem sempre o mesmo grau de culpabilidade?
– Já o dissemos: Deus é justo, julga mais a intenção do que o fato.
748 Perante Deus há justificativa no assassinato em caso de legítima
defesa?
– Somente a necessidade pode desculpá-lo. Mas se o agredido pode
preservar sua vida sem atentar contra a do agressor, deve fazê-lo.
749 O homem é culpado pelos assassinatos que comete durante
a guerra?
– Não, quando constrangido pela força, embora seja culpado pelas
crueldades que comete. O sentimento de humanidade com que se portou
será levado em conta.
750 Qual é mais culpado diante da lei de Deus, aquele que mata
um pai ou aquele que mata uma criança?
– Ambos o são igualmente, porque todo crime é crime.
751 Como se explica que alguns povos, já avançados do ponto
de vista intelectual, matem crianças e isso seja dos costumes e consagrado
pela legislação?
– O desenvolvimento intelectual não pressupõe a necessidade do
bem; um Espírito Superior em inteligência pode ser mau. É aquele que
viveu muito sem se melhorar: apenas sabe.
CRUELDADE
752 Pode-se ligar o sentimento de crueldade ao instinto de destruição?
– É o instinto de destruição no que há de pior. Se a destruição é, às
vezes, uma necessidade, a crueldade nunca é; é sempre o resultado de
uma natureza má.
753 Como se explica que a crueldade seja a característica predominante
dos povos primitivos?
– Entre os povos primitivos, como os chamais, a matéria prepondera
sobre o Espírito; eles se abandonam aos instintos bárbaros e, como não
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
253
têm outras necessidades além da vida corporal, pensam somente em sua
conservação pessoal, e é isso que os torna geralmente cruéis. Além do
mais, os povos cujo desenvolvimento é imperfeito estão sob o domínio de
Espíritos igualmente imperfeitos que lhes são simpáticos, até que povos
mais avançados venham destruir ou enfraquecer essa influência.
754 A crueldade não vem da ausência do senso moral?
– Diremos melhor, que o senso moral não está desenvolvido, mas não
que esteja ausente, porque ele existe, como princípio, em todos os homens;
é esse senso moral que os faz mais tarde serem bons e humanos.
Ele existe, portanto, no selvagem, mas está como o princípio do perfume
está no germe da flor antes de desabrochar.
G Todas as faculdades existem no homem em condição rudimentar ou
latente. Elas se desenvolvem conforme as circunstâncias lhes são mais
ou menos favoráveis. O desenvolvimento excessivo de uma faz cessar ou
neutraliza o das outras. A superexcitação dos instintos materiais sufoca,
por assim dizer, o senso moral, como o desenvolvimento do senso moral
enfraquece, pouco a pouco, as faculdades puramente selvagens.
755 Como se explica existirem, no seio da civilização mais avançada,
seres algumas vezes tão cruéis quanto os selvagens?
– Exatamente como numa árvore carregada de bons frutos há os que
ainda não amadureceram, não atingiram o pleno desenvolvimento. São, se
o quiserdes, selvagens que têm da civilização apenas o hábito, lobos extraviados
no meio de ovelhas. Espíritos de ordem inferior e muito atrasados
podem encarnar em meio a homens avançados na esperança de avançarem;
mas, sendo a prova muito pesada, a natureza primitiva os domina.
756 A sociedade dos homens de bem estará um dia livre dos
malfeitores?
– A humanidade progride; esses homens dominados pelo instinto do
mal que se acham deslocados entre as pessoas de bem desaparecerão
pouco a pouco, como o mau grão é separado do bom depois de selecionado.
Então renascerão sob um outro corpo e, como terão mais experiência,
compreenderão melhor o bem e o mal. Tendes um exemplo disso nas
plantas e nos animais que o homem conseguiu aperfeiçoar e nos quais
desenvolveu qualidades novas. Pois bem! É somente depois de muitas
gerações que o aperfeiçoamento se torna completo. É a imagem das diferentes
existências do homem.
DUELO
757 O duelo pode ser considerado como legítima defesa?
– Não; é um assassinato e um costume absurdo, digno de bárbaros.
Com uma civilização mais adiantada e moralizada, o homem compreenderá
que o duelo é tão ridículo quanto os combates que se consideraram
antigamente como o juízo de Deus.
CAPÍTULO 6 LEI DE DESTRUIÇÃO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
254
758 O duelo pode ser considerado como um assassinato por parte
daquele que, conhecendo sua própria fraqueza, está quase certo de
que vai morrer?
– É um suicida.
758 a E quando as probabilidades são iguais, é um assassinato
ou um suicídio?
– Ambos.
G Em todos os casos, mesmo naqueles em que as probabilidades
são iguais, o duelista é culpado, primeiramente, porque ele atenta friamente
e de propósito deliberado contra a vida de seu semelhante, e
depois porque expõe sua própria vida inutilmente e sem proveito para
ninguém.
759 Qual é o valor do que se chama ponto de honra em matéria
de duelo?
– Orgulho e vaidade: duas chagas da humanidade.
759 a Mas não há casos em que a honra se encontra verdadeiramente
ofendida e um recuo seria covardia?
– Isso depende dos costumes e dos usos; cada país e cada século
tem sobre isso uma visão diferente; quando os homens forem melhores e
mais adiantados em moral compreenderão que o verdadeiro ponto de honra
está acima das paixões terrenas e não é nem matando nem deixando-se
matar que se repara um erro.
G Há mais grandeza e verdadeira honra em se confessar culpado,
quando errou, ou em perdoar, quando se tem razão e, em todos os
casos, em desprezar os insultos, que não o podem atingir.
PENA DE MORTE
760 A pena de morte desaparecerá um dia da legislação humana?
– A pena de morte desaparecerá incontestavelmente e sua supressão
marcará um progresso na humanidade. Quando os homens estiverem
mais esclarecidos, a pena de morte será completamente abolida da Terra,
os homens não terão mais necessidade de serem julgados pelos homens.
Falo de um tempo que ainda está muito distante de vós.
G O progresso social deixa, sem dúvida, ainda muito a desejar, mas seria
injusto com a sociedade atual se não se reconhecesse um progresso nas
restrições feitas à pena de morte entre os povos mais avançados e quanto
à natureza dos crimes aos quais se limita a sua aplicação. Se compararmos
as garantias com que a justiça, entre esses mesmos povos, se empenha
para cercar o acusado e a forma humanitária com que o trata, ainda
mesmo que seja reconhecidamente culpado, com o que se praticava nos
tempos que ainda não estão muito distantes, não se pode negar o avanço
no caminho progressivo em que marcha a humanidade.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
255
761 A lei de conservação assegura ao homem o direito de preservar
sua própria vida; não usa desse direito quando elimina da sociedade
um membro perigoso?
– Há outros meios de se preservar do perigo sem precisar matar. É necessário,
aliás, abrir ao criminoso a porta do arrependimento, e não fechá-la.
762 Se a pena de morte pode ser banida das sociedades civilizadas,
não foi uma necessidade nas épocas menos avançadas?
– Necessidade não é bem a palavra. O homem acha sempre uma
coisa necessária quando não encontra justificativa melhor; mas, à medida
que se esclarece, compreende mais acertadamente o que é justo ou injusto
e repudia os excessos cometidos nos tempos de ignorância, em
nome da justiça.
763 A restrição dos casos em que se aplica a pena de morte é
um indício de progresso na civilização?
– Podeis duvidar disso? Vosso Espírito não se revolta ao ler a narrativa
das carnificinas humanas de antigamente em nome da justiça e em honra
da Divindade? Das torturas que sofria o condenado, e mesmo um simples
suspeito, para lhe arrancar, pelo excesso dos sofrimentos, a confissão de
um crime que muitas vezes não cometeu? Pois bem! Se tivésseis vivido
naquele tempo, teríeis achado isso muito natural e talvez, se juízes fôsseis,
teríeis feito o mesmo. É assim que o justo de uma época parece bárbaro
em outra. As leis divinas são as únicas eternas; as leis humanas mudam
com o progresso e ainda mudarão até que sejam colocadas em harmonia
com as leis divinas.
764 Jesus ensinou: “Quem matou pela espada morrerá pela espada”.
Essas palavras não são a consagração da pena de talião2 e a
morte aplicada ao homicida não é a aplicação dessa pena?
– Tomai cuidado! Tendes vos enganado sobre essas palavras como
sobre muitas outras. A pena de talião é a justiça de Deus; é Ele que a aplica.
Todos vós sofreis a cada instante essa penalidade, porque sois punidos
pelos erros que cometeis, nessa vida ou em outra; aquele que fez sofrer
seus semelhantes estará numa posição em que ele mesmo sofrerá o que
tiver causado. Esse é o sentido dessas palavras de Jesus, que também
disse: “Perdoai aos vossos inimigos”, e ensinou a pedir a Deus para perdoar
vossas ofensas como vós mesmos tiverdes perdoado, ou seja, na mesma
proporção em que perdoardes. Deveis compreender bem isso.
765 O que pensar da pena de morte aplicada em nome de Deus?
– É tomar o lugar de Deus na justiça. Os que agem assim estão longe
de compreender Deus e ainda têm muito a expiar. A pena de morte é
também um crime quando aplicada em nome de Deus, e os que a ordenam
são responsáveis por assassinato.
CAPÍTULO 6 LEI DE DESTRUIÇÃO
2 - Pena de talião: punição imposta na Antiguidade, pela qual se vingava o delito infligindo ao
delinqüente o mesmo dano ou mal que ele praticara (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
256
766 A vida social é uma obrigação natural?
– Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus
deu-lhe a palavra e todas as demais faculdades necessárias ao relacionamento.
767 O isolamento absoluto é contrário à lei natural?
– Sim, uma vez que os homens procuram por instinto a sociedade,
para que todos possam concorrer para o progresso ao se ajudarem mutuamente.
768 O homem, ao procurar viver em sociedade, apenas obedece
a um sentimento pessoal, ou há um objetivo providencial mais geral?
– O homem deve progredir, mas não pode fazer isso sozinho porque
não dispõe de todas as faculdades; eis por que precisa se relacionar com
outros homens. No isolamento, se embrutece e se enfraquece.
G Nenhum homem possui todos os conhecimentos. Pelas relações
sociais é que se completam uns aos outros para assegurar seu bemestar
e progredir: é por isso que, tendo necessidade uns dos outros,
são feitos para viver em sociedade e não isolados.
VIDA DE ISOLAMENTO. VOTO DE SILÊNCIO
769 Compreende-se, como princípio geral, que a vida social faça
parte na natureza; mas, como todos os gostos estão também na natureza,
por que o gosto pelo isolamento absoluto seria condenável se o
homem encontra nele sua satisfação?
– Satisfação de egoísta. Há também homens que encontram satisfação
em se embriagar; vós os aprovais? Deus não pode ter por agradável
uma vida em que o homem se condena a não ser útil a ninguém.
770 O que pensar dos homens que escolhem viver em reclusão
absoluta para fugir do contato nocivo do mundo?
– Duplo egoísmo.
770 a Mas se esse retiro tiver por objetivo uma expiação ao lhe
impor uma privação pesarosa, não é meritório?
NECESSIDADE DA VIDA SOCIAL
CAPÍTULO
7
LEI DE SOCIEDADE
Necessidade da vida social – Vida de isolamento.
Voto de silêncio – Laços de família
257
– Fazer antes o bem do que o mal é a melhor expiação. Ao evitarem
um mal, caem em outro, uma vez que se esquecem da lei de amor e de
caridade.
771 O que pensar daqueles que fogem do mundo para se devotar
ao alívio dos sofredores?
– Esses se elevam ao se rebaixarem. Têm duplo mérito por se colocarem
acima dos prazeres materiais e por fazerem o bem cumprindo a lei do
trabalho.
771 a E aqueles que procuram no retiro a tranqüilidade de que
precisam para alguns trabalhos?
– Esse não é absolutamente um retiro egoísta. Eles não se isolam da
sociedade, uma vez que trabalham para ela.
772 O que pensar do voto de silêncio determinado por certas
seitas desde a Antiguidade?
– Perguntai antes se a palavra é um dom natural e porque Deus a
concedeu ao homem. Deus reprova o abuso e não o uso das faculdades
que concedeu. Entretanto, há momentos em que o silêncio pode ser útil.
No silêncio vos concentrais; vosso Espírito torna-se mais livre e pode então
entrar em comunicação conosco. Mas voto de silêncio é uma tolice.
Sem dúvida, os que consideram essas privações voluntárias como atos
de virtude têm uma boa intenção, mas se enganam porque não compreendem
verdadeiramente o alcance das leis de Deus.
G O voto de silêncio absoluto, como o de isolamento, impede o homem
das relações sociais que proporcionam ocasiões de fazer o bem e
cumprir a lei do progresso.
LAÇOS DE FAMÍLIA
773 Por que, entre os animais, pais e filhos deixam de se reconhecer
assim que os filhos não necessitam mais de cuidados?
– Os animais vivem vida material e não moral. A ternura da mãe com
seus filhotes tem origem no instinto de conservação de suas crias; quando
eles podem cuidar de si mesmos, sua tarefa está cumprida, a natureza
não exige deles mais nada; por isso os abandona, para se ocupar com os
outros recém-chegados.
774 Há pessoas que deduzem, do abandono dos pequenos animais
por seus pais, que entre os homens os laços de família são apenas
resultado dos costumes sociais e não uma lei natural; que devemos
pensar disso?
– O homem tem destinação diferente dos animais; por que, então,
querer se parecer com eles? Para o homem, há outra coisa além das
CAPÍTULO 7 LEI DE SOCIEDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
258
necessidades físicas: a necessidade do progresso. Os laços sociais são
necessários ao progresso e os de família estreitam os sociais: eis por que
fazem parte da lei natural. Deus quis que os homens aprendessem assim,
a se amar como irmãos. (Veja a questão 205.)
775 Qual seria, para a sociedade, o resultado do relaxamento
dos laços de família?
– Um agravamento do egoísmo.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
259
776 O estado natural e a lei natural são a mesma coisa?
– Não. O estado natural é o estado primitivo. A civilização é incompatível
com o estado natural, enquanto a lei natural contribui para o progresso
da humanidade.
G O estado natural é a infância da humanidade, é o ponto de partida
de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, tendendo à perfeição
e tendo em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado
a viver perpetuamente no estado natural, como não foi destinado a
viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório, o homem
liberta-se dele pelo progresso e pela civilização. A lei natural, ao contrário,
rege a humanidade inteira e o homem se aperfeiçoa à medida que
melhor compreende e pratica essa lei.
777 No estado natural, o homem, por ter menos necessidades,
não tem todos os tormentos que cria para si mesmo num estado mais
avançado; o que pensar da opinião que considera esse estado como
a mais perfeita felicidade sobre a Terra?
– Que quereis! É a felicidade do bruto; há pessoas que não a compreendem
de outro modo. É ser feliz à maneira dos bárbaros. Também as crianças
são mais felizes do que os adultos.
778 O homem pode regredir para o estado natural?
– Não; o homem deve progredir sempre e não pode retornar à infância.
Se progride, é porque Deus assim quer; pensar que possa regredir à
sua condição primitiva seria negar a lei do progresso.
MARCHA DO PROGRESSO
779 O homem traz em si o impulso de progredir ou o progresso é
apenas fruto de um ensinamento?
– O homem se desenvolve naturalmente, mas nem todos progridem
ao mesmo tempo e do mesmo modo; é assim que os mais avançados
ajudam pelo contato social o progresso dos outros.
ESTADO NATURAL
CAPÍTULO
8
LEI DO PROGRESSO
Estado natural – Marcha do progresso – Povos
degenerados – Civilização – Progresso da legislação
humana – Influência do Espiritismo sobre o progresso
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
260
780 O progresso moral é sempre acompanhado do intelectual?
– É sua conseqüência, mas nem sempre o segue imediatamente.
(Veja as questões 192 e 365.)
780 a Como o avanço intelectual pode gerar o progresso moral?
– Ao fazer compreender o bem e o mal; o homem, então, pode escolher.
O desenvolvimento do livre-arbítrio segue o da inteligência e aumenta
a responsabilidade dos seus atos.
780 b Por que os povos mais esclarecidos são, muitas vezes, os
mais pervertidos?
– O progresso completo é a meta; mas os povos, como os indivíduos,
o alcançam apenas passo a passo. Enquanto o sentido moral não estiver
plenamente desenvolvido, eles se servem de sua inteligência para fazer o
mal. O moral e a inteligência são duas forças que se equilibram apenas
com o tempo. (Veja as questões 365 e 751.)
781 O homem pode deter a marcha do progresso?
– Não; mas pode impedi-lo algumas vezes.
781 a O que pensar dos homens que tentam deter essa marcha
e fazer retroceder a humanidade?
– Pobres seres que serão punidos por suas próprias ações. Serão
arrastados pela torrente que querem deter.
G Sendo o progresso uma condição da natureza humana, ninguém
tem o poder de se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem
retardar, mas não sufocar. Quando essas leis se tornam incompatíveis
com a sua marcha, ele as destrói e a todos que tentam mantê-las. Será
assim até que o homem coloque suas leis em concordância com a justiça
e com o bem de todos, e não leis feitas pelo forte em prejuízo do fraco.
782 Não há homens que impedem o progresso com sua boa-fé,
pensando favorecê-lo porque o vêem sob seu ponto de vista e, muitas
vezes, onde ele não está?
– São como uma pequena pedra colocada sob a roda de um grande
carro e que não o impede de avançar.
783 O aperfeiçoamento da humanidade segue sempre uma marcha
progressiva e lenta?
– Há o progresso regular e lento que resulta da força das coisas; mas
quando um povo não avança rápido o suficiente a Providência provoca,
de tempos em tempos, um abalo físico ou moral que o transforma.
G O homem não pode permanecer perpetuamente na ignorância, porque
tem de atingir o objetivo marcado pela Providência; ele se esclarece
pela força das coisas. As revoluções morais, como as sociais, se infiltram
pouco a pouco nas idéias, germinam durante séculos, explodem
de repente e fazem desabar o edifício apodrecido do passado, que não
está mais em harmonia com as novas necessidades e aspirações.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
261
Muitas vezes, o homem percebe nessas transformações apenas a
desordem e a confusão momentâneas que atingem seus interesses materiais.
Porém, aquele que eleva o pensamento acima dos interesses
pessoais admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o
bem. É a tempestade e a agitação que purificam a atmosfera após a
perturbação.
784 A perversidade do homem é muito grande. Não parece recuar
em vez de avançar, pelo menos do ponto de vista moral?
– Engano vosso. Observai bem o conjunto e vereis que o homem
avança, uma vez que compreende melhor o que é o mal e a cada dia
corrige abusos. É preciso o mal chegar a extremos para fazer compreender
a necessidade do bem e das reformas.
785 Qual é o maior obstáculo ao progresso?
– O orgulho e o egoísmo; quero falar do progresso moral, uma vez
que o progresso intelectual avança sempre e parece, aliás, à primeira vista,
dar ao egoísmo e ao orgulho força duplicada ao desenvolver a ambição
e o amor às riquezas, que, por sua vez, estimulam o homem às pesquisas
que esclarecem seu Espírito.É assim que tudo se relaciona no mundo
moral como no físico e que do próprio mal pode sair o bem; mas essa
situação não durará muito tempo, mudará à medida que o homem compreender
melhor que além dos prazeres terrestres há uma felicidade
infinitamente mais durável.(Veja “O Egoísmo”, Parte Terceira, cap. 12.)
G Há duas espécies de progresso que se apóiam mutuamente e que,
entretanto, não marcham lado a lado: é o progresso intelectual e o progresso
moral. Entre os povos civilizados, o progresso intelectual recebeu,
neste século, todos os incentivos possíveis e atingiu um grau desconhecido
até os nossos dias. Falta algo ao progresso moral para que
esteja no mesmo nível, e, entretanto, comparando os costumes sociais
de hoje aos de alguns séculos atrás, seria preciso ser cego para negar
que houve progresso moral. Por que razão deve a marcha ascendente
do progresso moral atrasar-se em relação ao da inteligência? Por que
duvidar que entre o século 19º e o século 24º não ocorrerá tanto avanço,
como houve no progresso intelectual entre os séculos 14º e 19º ?
Duvidar dessa possibilidade será pretender que a humanidade tenha
atingido o auge da perfeição. Seria um absurdo. Ou que ela é moralmente
incapaz de se aperfeiçoar, o que é desmentido pela experiência.
POVOS DEGENERADOS
786 A história nos mostra muitos povos que, após os abalos que
sofreram, caíram na barbárie; onde está o progresso nesse caso?
– Quando vossa casa ameaça desabar a derrubais para reconstruir
uma mais sólida e mais cômoda; mas, até que esteja reconstruída, há
problemas e confusão na vossa casa.
CAPÍTULO 8 LEI DO PROGRESSO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
262
Compreendei o seguinte: éreis pobres e habitáveis um casebre; tornais-
vos rico e o deixais para habitar um palácio. Depois, um pobre diabo,
como vós, vem tomar vosso lugar no casebre e ainda fica muito contente,
porque antes não tinha abrigo. Pois bem! Aprendei que os Espíritos encarnados
nesse povo degenerado não são aqueles que o compuseram no
tempo de seu esplendor; os de então, que avançaram, foram para habitações
mais perfeitas, progrediram, enquanto outros menos avançados vieram
e tomaram o lugar, que também, por sua vez, deixarão.
787 Não há raças que por sua natureza são rebeldes ao progresso?
– Sim, mas estas se destroem, corporalmente, a cada dia.
787 a Qual será a sorte futura das almas que animam essas raças?
– Elas chegarão como todas à perfeição ao passar por outras existências:
Deus não deserda ninguém.
787 b Assim, os homens mais civilizados podem ter sido selvagens
e antropófagos?
– Vós mesmo o fostes, mais de uma vez, antes de ser o que sois.
788 Os povos são individualidades coletivas que, como os indivíduos,
passam pela infância, idade adulta e velhice; essa verdade constatada
pela história não nos faz concluir que os mais adiantados deste
século terão seu declínio e fim, como os da Antiguidade?
– Os povos materialistas, que vivem somente a vida do corpo, aqueles
cuja grandeza é fundada apenas sobre a força e a extensão territorial,
nascem, crescem e morrem, porque a força de um povo se esgota como
a de um homem. Aqueles cujas leis egoístas retardam o progresso das
luzes e da caridade morrem, porque a luz mata as trevas e a caridade mata
o egoísmo; mas há para os povos, como para os indivíduos, a vida da
alma. Aqueles, porém, cujas leis se harmonizam com as leis eternas do
Criador viverão e serão o farol dos outros povos.
789 O progresso reunirá um dia todos os povos da Terra numa
única nação?
– Não numa única nação, isso é impossível, uma vez que da diversidade
dos climas nascem costumes e necessidades diferentes que
constituem as nacionalidades; é por isso que sempre precisarão de leis
apropriadas a esses costumes e necessidades. Mas a caridade não conhece
diferenças nem faz distinção entre os homens pela cor. Quando a
lei de Deus for a base da lei humana em todos os lugares, os povos praticarão
a caridade entre si, como os indivíduos, de homem para homem;
então, viverão felizes e em paz, porque ninguém fará mal a seu vizinho,
nem viverão à custa uns dos outros.
G A humanidade progride por meio dos indivíduos que se aperfeiçoam
pouco a pouco e se esclarecem; então, quando eles prevalecem em
número, tomam a frente e conduzem os outros. De tempos em tempos
surgem homens de gênio que lhe dão um impulso, depois surgem ho-
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
263
mens com autoridade, instrumentos de Deus, que em alguns anos fazem
a humanidade avançar muitos séculos. O progresso dos povos também
evidencia a justiça da reencarnação. Os homens de bem praticam louváveis
esforços para fazer avançar uma nação moral e intelectualmente; os
integrantes da nação transformada serão mais felizes neste mundo e no
outro; mas, durante sua marcha lenta através dos séculos, milhares de
indivíduos morrem a cada dia. Qual é o destino de todos que morrem no
caminho? Sua inferioridade relativa os priva da felicidade reservada aos
que chegam por último? Ou melhor, sua felicidade é relativa? A justiça
divina não poderia consagrar semelhante injustiça. Pela pluralidade das
existências, o direito à felicidade é o mesmo para todos, porque ninguém
é deserdado do progresso. Aqueles que viveram no tempo da barbárie
podem voltar no tempo da civilização no mesmo povo ou em outro, resultando
disso que todos tiram proveito da marcha ascendente.
Mas o sistema da unicidade das existências apresenta ainda outra
dificuldade. De acordo com esse sistema, a alma é criada no momento
do nascimento; é claro que, se um homem é mais avançado que outro,
é porque Deus criou para ele uma alma mais avançada. Por que esse
favor? Que mérito tem ele que não viveu mais nem menos que um outro
para ser dotado de uma alma superior? Mas não é só essa a principal
dificuldade. Uma nação passa, em mil anos, da barbárie à civilização. Se
os homens vivessem ali mil anos seria possível entender que nesse período
tivessem tempo de progredir; mas todos os dias eles morrem, e
em todas as idades, e se renovam sem parar, de modo que a cada dia
vêem-se multidões aparecer e desaparecer. Decorridos os mil anos, não
há mais traços dos antigos habitantes e a nação, de bárbara, torna-se
civilizada. O que progrediu? Foram os indivíduos antigamente bárbaros?
Mas eles estão mortos há muito tempo. São os recém-chegados?
Mas se sua alma é criada no momento do nascimento, essas almas não
existiam na época da barbárie, e então é preciso admitir que os esforços
que se fazem para civilizar um povo têm o poder não de melhorar almas
imperfeitas, mas de fazer com que Deus crie almas mais perfeitas.
Comparemos essa teoria do progresso com a que é dada pelos
Espíritos. As almas vindas na época da civilização tiveram sua infância,
como todas as outras, mas já tinham vivido, e, ao reencarnar, vêm adiantadas
por um progresso anterior; vêm atraídas a um meio que lhes é
simpático e em relação com seu estado atual. Assim, os cuidados dados
à civilização de um povo não têm por objetivo criar no futuro almas mais
perfeitas, mas atrair aquelas que já progrediram, seja as que já tenham
vivido nesse mesmo povo na época da barbárie ou as que possam vir
de outro lugar. Aqui está a chave para entender o progresso de toda a
humanidade. Quando todos os povos atingirem o mesmo padrão no
sentimento do bem, a Terra será o ponto de encontro apenas dos bons
Espíritos, que viverão uma união fraterna. Os maus, se encontrando
CAPÍTULO 8 LEI DO PROGRESSO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
264
rejeitados, irão procurar nos mundos inferiores o meio que lhes convém,
até que sejam dignos de virem ao nosso meio, transformados.
Essa teoria tem ainda por conseqüência que os trabalhos de aperfeiçoamento
social só resultam em proveito para as gerações presentes
e futuras, e que é nulo para as gerações passadas, qualquer que seja o
progresso feito, já que cometeram o erro de encarnar, muito cedo, e
que são como são porque estão carregadas de seus atos de barbárie.
De acordo com a Doutrina dos Espíritos, os progressos contínuos e
sucessivos servem igualmente a essas gerações passadas que reencarnam
em condições melhores e podem, assim, se aperfeiçoar no meio
da civilização. (Veja a questão 222.)
CIVILIZAÇÃO
790 A civilização é um progresso ou, conforme alguns filósofos,
uma decadência da humanidade?
– Progresso incompleto; o homem não passa subitamente da infância
à idade adulta.
790 a É racional condenar a civilização?
– Primeiramente condenai aqueles que abusam dela e não a obra de
Deus.
791 A civilização se depurará um dia de modo a fazer desaparecer
os males que tenha produzido?
– Sim, quando a moral também estiver tão desenvolvido quanto a
inteligência. O fruto não pode vir antes da flor.
792 Por que a civilização não realiza imediatamente todo o bem
que poderia produzir?
– Porque os homens ainda não estão prontos nem dispostos a obter
esse bem.
792 a Não seria também porque, ao criar novas necessidades,
ela superexcita novas paixões?
– Sim, e porque nem todas as faculdades do Espírito progridem a um
só tempo; é preciso tempo para tudo. Não podeis esperar frutos perfeitos
de uma civilização incompleta. (Veja as questões 751 e 780.)
793 Com que sinais se pode reconhecer uma civilização completa?
– Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar
bem avançados, pelas grandes descobertas e invenções maravilhosas, e
estais melhor alojados e vestidos do que os selvagens. Mas apenas tereis
verdadeiramente o direito de vos dizer civilizados quando tiverdes banido
da sociedade os vícios que a desonram e viverdes como irmãos praticando
a caridade cristã. Até lá, sois somente povos esclarecidos, que
percorreram apenas a primeira fase da civilização.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
265
G A civilização tem seus graus como todas as coisas. Uma civilização
incompleta é um estado de transição que origina males específicos, próprios
dela, desconhecidos do homem no seu estado primitivo; mas isso
não constitui senão um progresso natural, necessário, que já traz em si
mesmo o remédio para o mal que provoca.
À medida que a civilização se aperfeiçoa, faz cessar alguns males
que gerou, e esses males desaparecerão completamente com o progresso
moral.
De dois povos chegados ao topo da escala social, o único que pode
se dizer civilizado, na verdadeira acepção da palavra, é aquele em que
não se encontra egoísmo, cobiça e orgulho; em que os hábitos são mais
intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência pode se
desenvolver com mais liberdade; em que há mais bondade, boa fé, benevolência
e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta
e de nascimento são menos enraizados, porque são incompatíveis
com o verdadeiro amor ao próximo; em que as leis não consagram nenhum
privilégio e são as mesmas para o último como para o primeiro;
em que a justiça é exercida com imparcialidade; em que o fraco encontra
sempre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças
e opiniões são respeitadas; em que há menos infelizes e, enfim, em que
todo homem de boa vontade esteja sempre seguro de não lhe faltar o
necessário.
PROGRESSO DA LEGISLAÇÃO HUMANA
794 A sociedade poderia ser regida só pelas leis naturais sem a
colaboração das leis humanas?
– Poderia se as compreendesse bem, se o homem tivesse vontade
suficiente para praticá-las; mas a sociedade tem suas exigências e precisa
de leis particulares.
795 Qual a causa da instabilidade das leis humanas?
– Nos tempos da barbárie, são os mais fortes que fazem as leis, e as
fazem para se beneficiarem. Foi preciso modificá-las muito, à medida que
os homens compreenderam melhor a justiça. As leis humanas são mais
estáveis quanto mais se aproximam da verdadeira justiça, isto é, conforme
sejam as mesmas e iguais para todos e se identifiquem com a lei natural.
G A civilização criou para o homem novas necessidades, relativas à
posição social em que vive. Devem-se regular os direitos e os deveres
dessa posição por leis humanas. Mas sob a influência de suas paixões,
freqüentemente, criou direitos e deveres imaginários que a lei natural
condena e que os povos apagam de seus códigos à medida que progridem.
A lei natural é imutável, é a mesma para todos; a lei humana é
variável e progressiva; somente pôde consagrar, na infância das sociedades,
o direito do mais forte.
CAPÍTULO 8 LEI DO PROGRESSO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
266
796 A severidade das leis penais não é uma necessidade no
estado atual da sociedade?
– Uma sociedade depravada certamente tem necessidade de leis mais
severas. Infelizmente, essas leis mais se destinam a punir o mal depois de
feito em vez de secar a fonte do mal. Só a educação pode reformar os
homens, que então não terão mais necessidade de leis tão rigorosas.
797 Como o homem poderia ser levado a reformar suas leis?
– Isso ocorre naturalmente pela força das coisas e a influência dos
homens de bem que o conduzem no caminho do progresso. Já se reformaram
muitas e se reformarão outras. Esperai!
INFLUÊNCIA DO ESPIRITISMO SOBRE O PROGRESSO
798 O Espiritismo será para todos ou permanecerá como privilégio
de algumas pessoas?
– Certamente, ele se tornará uma convicção íntima de todos e marcará
uma nova era na história da humanidade, porque está na ordem natural
das coisas, na natureza, e é chegado o tempo de ocupar o seu lugar entre
os conhecimentos humanos.
Entretanto, haverá grandes lutas a sustentar, mais contra os interesses
do que contra a convicção, porque não podemos desconhecer que
há pessoas interessadas em combatê-lo, uns por amor-próprio, outros por
interesses materiais. Mas os opositores, ao se encontrarem cada vez mais
isolados, serão forçados a pensar como todo o mundo, sob pena de se
tornarem ridículos.
G As idéias somente se transformam ao longo do tempo e não subitamente.
De geração a geração vão se enfraquecendo e acabam por
desaparecer pouco a pouco junto com seus seguidores, substituídos
por outros indivíduos inspirados por novos princípios, como ocorre com
as idéias políticas. Observai o paganismo; não há ninguém que atualmente
aceite suas idéias religiosas; entretanto, muitos séculos após o
surgimento do Cristianismo, ainda há traços do paganismo que somente
a completa renovação das raças pode apagar. Ocorrerá o mesmo com
o Espiritismo; ele fez muito progresso, mas haverá ainda, durante duas
ou três gerações, um fermento de incredulidade que apenas o tempo
destruirá. Todavia, sua marcha será mais rápida que a do Cristianismo,
porque o próprio Cristianismo é quem lhe abre os caminhos e está nele
apoiado. O Cristianismo tinha o que destruir; o Espiritismo só tem que
edificar.
799 De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?
– Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, e
fazendo os homens compreenderem onde está seu verdadeiro interesse.
A vida futura, não estando mais encoberta pela dúvida, fará o homem
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
267
compreender melhor que pode, desde agora, no presente, preparar seu
futuro. Ao destruir os preconceitos de seitas, de castas e de raças, ensina
aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos.
800 Não é de temer que o Espiritismo não possa vencer a indiferença
dos homens e seu apego às coisas materiais?
– Seria conhecer pouco os homens, se pensássemos que uma causa
qualquer pudesse transformá-los como por encantamento. As idéias
se modificam pouco a pouco, de acordo com os indivíduos, e são necessárias
gerações para apagar completamente os traços dos velhos hábitos.
A transformação só pode, portanto, se operar a longo prazo, gradualmente,
passo a passo. A cada geração uma parte do véu se dissipa. O Espiritismo
veio rasgá-lo de uma vez e, conseguindo corrigir no homem um único
defeito que seja, já o terá habilitado a dar um grande passo que representa,
para ele, um grande bem, porque facilitará os outros que terá que dar.
801 Por que os Espíritos não ensinaram em todos os tempos o
que ensinam hoje?
– Não ensinais às crianças o que ensinais aos adultos e não se pode
dar ao recém-nascido um alimento que não poderá digerir. Cada coisa
tem seu tempo. Eles ensinaram muitas coisas que os homens não compreenderam
ou adulteraram, mas que podem compreender agora. Com o
seu ensinamento, mesmo incompleto, prepararam o terreno para receber
a semente que vai frutificar agora.
802 Uma vez que o Espiritismo deve marcar um progresso na
humanidade, por que os Espíritos não aceleram esse progresso com
manifestações tão generalizadas e evidentes que convençam até os
mais descrentes?
– Quereis ver milagres; mas Deus espalha milagres a mãos cheias
diante dos vossos olhos e, ainda assim, há homens que o renegam. Por
acaso o próprio Cristo convenceu seus contemporâneos com os prodígios
que realizou? Não vedes hoje homens negarem os fatos mais evidentes
que se passam sob seus olhos? Não há os que dizem que não acreditariam
mesmo se vissem? Não; não é por prodígios que Deus quer
encaminhar os homens. Em sua bondade, quer deixar o mérito de se convencerem
pela razão.
CAPÍTULO 8 LEI DO PROGRESSO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
268
803 Todos os homens são iguais diante de Deus?
– Sim, todos tendem ao mesmo objetivo e Deus fez suas leis para
todos. Muitas vezes, dizeis: “O Sol nasce para todos” e dizeis aí uma verdade
maior e mais geral do que pensais.
G Todos os homens são submissos às mesmas leis da natureza;
todos nascem com a mesma fraqueza, sujeitos às mesmas dores, e o
corpo do rico se destrói como o do pobre. Portanto, Deus não deu a
nenhum homem superioridade natural nem pelo nascimento, nem pela
morte: todos são iguais diante de Deus.
DESIGUALDADE DAS APTIDÕES
804 Por que Deus não deu as mesmas aptidões a todos os
homens?
– Deus criou todos os Espíritos iguais; mas, como cada um viveu mais
ou menos, conseqüentemente, adquiriu maior ou menor experiência; a
diferença está na experiência e na vontade, que é o livre-arbítrio. Daí uns
se aperfeiçoarem mais rapidamente do que outros, o que lhes dá aptidões
diversas. A variedade dessas aptidões é necessária, para que cada um
possa concorrer com os desígnios da Providência no limite do desenvolvimento
de suas forças físicas e intelectuais. O que um não pode ou não
sabe fazer o outro faz; é assim que cada um tem o seu papel útil. Depois,
todos os mundos sendo solidários uns com os outros, é natural que habitantes
de mundos superiores, na sua maioria criados antes do vosso,
venham aqui habitar para dar o exemplo. (Veja a questão 361.)
805 Ao passar de um mundo superior a outro inferior, o Espírito
conserva a integridade das faculdades adquiridas?
– Sim, já dissemos, o Espírito que progrediu não regride; pode escolher,
no estado de Espírito, um corpo mais grosseiro ou uma posição mais
precária do que a anterior, mas tudo isso deve sempre lhe servir de ensinamento
e ajudá-lo a progredir. (Veja a questão 180.)
IGUALDADE NATURAL
CAPÍTULO
9
LEI DE IGUALDADE
Igualdade natural – Desigualdade das aptidões –
Desigualdades sociais – Desigualdade das riquezas –
Provas de riqueza e de miséria – Igualdade dos direitos
do homem e da mulher – Igualdade diante do túmulo
269
G Assim, a diversidade das aptidões entre os homens não tem
relação com a natureza íntima de sua criação, mas do grau de aperfeiçoamento
que tenha alcançado como Espírito, durante as várias encarnações.
Deus, portanto, não criou a desigualdade das faculdades ou
aptidões, mas permitiu que Espíritos de diferentes graus de desenvolvimento
mantivessem permanente contato, a fim de que os mais avançados
pudessem ajudar o progresso dos mais atrasados e também para
que os homens, tendo necessidade uns dos outros, praticassem a lei
de caridade que deve uni-los.
DESIGUALDADES SOCIAIS
806 A desigualdade das condições sociais é uma lei da natureza?
– Não. É obra do homem e não de Deus.
806 a Essa desigualdade desaparecerá um dia?
– Apenas as Leis de Deus são eternas. Vós não vedes essa desigualdade
se apagar pouco a pouco todos os dias? Desaparecerá juntamente
com o predomínio do orgulho e do egoísmo, apenas restará a diferença do
merecimento. Chegará o dia em que os membros da grande família dos
filhos de Deus não se olharão como de sangue mais ou menos puro, porque
apenas o Espírito é mais ou menos puro, e isso não depende da
posição social.
807 O que pensar dos que abusam da superioridade de sua posição
social para oprimir o fraco em seu proveito?
– Esses se lamentarão: infelizes deles! Serão por sua vez oprimidos:
renascerão numa existência em que suportarão tudo o que fizeram os
outros suportar. (Veja as questões 273 e 684.)
DESIGUALDADE DAS RIQUEZAS
808 A desigualdade das riquezas não tem origem na desigualdade
das aptidões, que dá a uns maiores meios de aquisição do que a
outros?
– Sim e não; e da astúcia e do roubo, que me dizeis vós?
808 a Mas a riqueza herdada, portanto, não é fruto das más
paixões?
– Que sabeis disso? Voltai à origem dela e vereis que nem sempre é
pura. Sabeis lá se no princípio não foi fruto de roubo ou de injustiça? Porém,
além da origem, que pode não ser boa, acreditais que a cobiça da
riqueza, mesmo da bem adquirida, os desejos secretos que se concebem
para possuí-la o mais rapidamente possível sejam sentimentos louváveis?
É isso que Deus julga e vos asseguro que esse julgamento é mais severo
do que o dos homens.
CAPÍTULO 9 LEI DE IGUALDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
270
809 Se uma riqueza foi mal adquirida, os que a herdam mais
tarde são responsáveis por isso?
– Sem dúvida, eles não são responsáveis pelo mal que outros fizeram,
principalmente porque ignoram o fato; mas convém saber que a riqueza,
muitas vezes, chega às mãos de um homem apenas para lhe favorecer a
ocasião de reparar uma injustiça. Felizes os que compreenderem isso! Ao
fazer justiça em nome daquele que cometeu a injustiça, a reparação será
levada em conta para ambos, porque, muitas vezes, quem cometeu a
injustiça é que inspira essa ação aos herdeiros.
810 Sem se afastar da legalidade, qualquer um pode dispor de
seus bens de uma maneira mais ou menos justa. É responsável, depois
de sua morte, pelas disposições que haja feito?
– Toda ação tem seus frutos; os frutos das boas ações são doces; os
outros são sempre amargos. Entendei bem isso, sempre.
811 A igualdade absoluta das riquezas é possível e alguma vez
já existiu?
– Não, ela não é possível. A diversidade das faculdades e do caráter
entre os homens se opõe a essa igualdade.
811 a Entretanto, há homens que acreditam que aí está o remédio
para os males da sociedade; que dizeis disso?
– São posições sistemáticas ou ambições ciumentas; eles não compreendem
que a igualdade com que sonham seria logo rompida pela força
das coisas. Combatei o egoísmo, que é a vossa praga social, e não procureis
fantasias.
812 Se a igualdade das riquezas não é possível, ocorre o mesmo
com o bem-estar?
– Não, porque o bem-estar é relativo e cada um poderia dele desfrutar,
se o entendesse bem, já que o verdadeiro bem-estar é empregar o
tempo ao seu gosto e não em trabalhos para os quais não se sente nenhum
prazer; e como cada um tem aptidões diferentes, não haveria nenhum
trabalho útil por fazer. O equilíbrio existe em tudo, é o homem que quer
alterá-lo.
812 a Os homens poderão se entender?
– Os homens se entenderão quando praticarem a lei da justiça.
813 Há pessoas que passam privação e miséria por sua culpa; a
sociedade pode ser responsável por isso?
– Sim, já o dissemos: ela é muitas vezes a principal causa dessas
situações; aliás, não é de sua responsabilidade cuidar da educação moral
dos seus membros? É, muitas vezes, a má-educação que os levou a falsear
o julgamento em vez de sufocar neles as tendências nocivas. (Veja a
questão 685.)
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
271
PROVAS DE RIQUEZA E DE MISÉRIA
814 Por que Deus deu a uns riquezas e poder e a outros a miséria?
– Para experimentar cada um de maneiras diferentes. Aliás, vós já o
sabeis, essas provas foram os próprios Espíritos que escolheram e, muitas
vezes, nelas fracassam.
815 Qual das duas provas é a mais terrível para o homem, a
miséria ou a riqueza?
– Tanto uma como outra; a miséria provoca a lamentação contra a
Providência; a riqueza estimula todos os excessos.
816 Se o rico tem mais tentações, não tem também mais meios
de fazer o bem?
– É justamente o que nem sempre faz; torna-se egoísta, orgulhoso e
insaciável. Suas necessidades aumentam com a riqueza e ele acredita
nunca ter o suficiente.
G Neste mundo tanto as posições de destaque quanto a autoridade
sobre seus semelhantes são provas tão arriscadas e difíceis para o Espírito
quanto a miséria. Quanto mais se é rico e poderoso, mais se tem
obrigações a cumprir e maiores são as possibilidades de fazer o bem e
o mal. Deus experimenta o pobre pela resignação e o rico pelo uso que
faz de seus bens e de seu poder.
A riqueza e o poder despertam todas as paixões que nos ligam à
matéria e nos afastam da perfeição espiritual; é por isso que Jesus ensinou:
“Em verdade vos digo que é mais fácil um camelo1 passar pelo
buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. (Veja a
questão 266.)
IGUALDADE DOS DIREITOS DO
HOMEM E DA MULHER
817 O homem e a mulher são iguais diante de Deus e têm os
mesmos direitos?
– Sim; Deus deu a ambos a compreensão do bem e do mal e a
capacidade de progredir.
818 De onde vem a inferioridade moral da mulher em alguns
países?
– Do domínio injusto e cruel que o homem impôs sobre ela. É um
resultado das instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza.
Para os homens pouco avançados, do ponto de vista moral, a força faz o
direito.
CAPÍTULO 9 LEI DE IGUALDADE
1 - Camelo: ao tempo de Jesus, as cordas de amarrar navios eram feitas de pêlos de camelo e
eram conhecidas como camelo (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
272
819 Com que objetivo a mulher é mais fraca fisicamente do que o
homem?
– Para assinalar suas funções diferenciadas e particulares. Ao homem
cabem os trabalhos rudes, por ser mais forte; à mulher, os trabalhos mais
leves, e ambos devem se ajudar mutuamente nas provas da vida.
820 A fraqueza física da mulher não a coloca naturalmente sob a
dependência do homem?
– Deus deu a uns a força para proteger o fraco, e não para que lhes
imponham seu domínio.
G Deus apropriou a organização de cada ser às funções que deve
realizar. Se deu à mulher menos força física, dotou-a, ao mesmo tempo,
de uma maior sensibilidade em relação à delicadeza das funções maternais
e a fraqueza dos seres confiados aos seus cuidados.
821 As funções às quais a mulher é destinada pela natureza têm
importância tão grande quanto as do homem?
– Sim, e até maiores; é ela quem dá ao homem as primeiras noções
da vida.
822 Ambos, sendo iguais diante da lei de Deus, devem ser também
diante da lei dos homens?
– É o primeiro princípio de justiça: não façais aos outros o que não
quereis que vos façam.
822 a Assim, uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve
consagrar a igualdade dos direitos entre o homem e a mulher?
– De direitos, sim; de funções, não. É preciso que cada um esteja no
seu devido lugar; que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior,
cada um de acordo com sua aptidão. A lei humana, para ser justa, deve
consagrar a igualdade dos direitos entre o homem e a mulher; todo privilégio
concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher
segue o progresso da civilização, sua subjugação marcha com a barbárie.
Os sexos, aliás, existem apenas no corpo físico; uma vez que os Espíritos
podem encarnar em um ou outro, não há diferença entre eles nesse aspecto
e, conseqüentemente, devem desfrutar dos mesmos direitos.
IGUALDADE DIANTE DO TÚMULO
823 De onde vem o desejo do homem de perpetuar sua memória
com monumentos fúnebres?
– Último ato de orgulho.
823 a Mas a suntuosidade dos monumentos fúnebres, muitas
vezes, não é feita pelos parentes que desejam honrar a memória do
falecido e não pelo próprio falecido?
– Orgulho dos parentes que desejam glorificar a si mesmos. Nem
sempre é pelo morto que se fazem todas essas demonstrações: é por
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
273
amor-próprio, pelo mundo e para ostentar riqueza. Acreditais que a lembrança
de um ser querido seja menos durável no coração do pobre, porque
só pode colocar uma flor no túmulo do seu parente? Acreditais que o
mármore salva do esquecimento aquele que foi inútil na Terra?
824 Reprovais de modo absoluto a pompa dos funerais?
– Não; quando honram a memória de um homem de bem, é justa e
um bom exemplo.
G O túmulo é o local de encontro de todos os homens; ali terminam
definitivamente todas as distinções humanas. É em vão que o rico tenta
perpetuar sua memória nos monumentos grandiosos; o tempo os destruirá,
como o corpo. Assim quer a natureza. A lembrança de suas boas
e más ações será menos duradoura do que seu túmulo; a pompa dos
funerais não o limpará de suas torpezas e não o fará subir um só degrau
na hierarquia espiritual. (Veja a questão 320 e seguintes)
CAPÍTULO 9 LEI DE IGUALDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
274
825 Há posições no mundo em que o homem pode se vangloriar
de desfrutar de liberdade absoluta?
– Não, porque todos necessitam uns dos outros, tanto os pequenos
quanto os grandes.
826 Em que condição o homem poderia desfrutar de liberdade
absoluta?
– Na de eremita no deserto. Desde que haja dois homens juntos, há
direitos a respeitar e nenhum deles tem mais liberdade absoluta.
827 A obrigação de respeitar os direitos dos outros tira do homem
o direito de ser senhor de si?
– De jeito nenhum, porque esse é um direito que a natureza lhe concede.
828 Como conciliar as opiniões liberais de certos homens com a
tirania que, muitas vezes, eles mesmos praticam no lar e com os seus
subordinados?
– Eles têm da lei natural só a compreensão, porém contrabalançada
pelo orgulho e egoísmo. Quando esses princípios não são uma comédia
calculadamente representada, o homem tem a perfeita noção de como
deveria agir, mas não o faz.
828 a Como serão considerados na vida espiritual os que procederam
assim neste mundo?
– Quanto mais inteligência tenha um homem para compreender um
princípio, menos é desculpável por não aplicá-lo a si mesmo. Eu vos digo,
em verdade, que o homem simples, mas sincero, está mais avançado no
caminho de Deus do que aquele que quer parecer o que não é.
ESCRAVIDÃO
829 Há homens que são, por natureza, destinados a ser propriedades
de outros homens?
– Toda sujeição absoluta de um homem a outro é contrária à lei de
Deus. A escravidão é um abuso da força e desaparecerá com o progresso,
como desaparecerão pouco a pouco todos os abusos.
LIBERDADE NATURAL
CAPÍTULO
10
LEI DE LIBERDADE
Liberdade natural – Escravidão – Liberdade de pensar –
Liberdade de consciência – Livre-arbítrio – Fatalidade –
Conhecimento do futuro – Resumo teórico da
motivação das ações do homem
275
G A lei humana que consagra a escravidão é contra a natureza, uma
vez que iguala o homem ao irracional e o degrada moral e fisicamente.
830 Quando a escravidão faz parte dos costumes de um povo, os
que dela se aproveitam são condenáveis, por agirem seguindo um
procedimento que parece natural?
– O mal é sempre o mal e todos os sofismas não farão com que uma
má ação se torne boa. Mas a responsabilidade do mal é relativa aos meios
de que se dispõe para compreendê-la. Aquele que tira proveito da lei da
escravidão é sempre culpado da violação da lei natural; mas, nisso, como
em todas as coisas, a culpa é relativa. A escravidão, tendo se firmado nos
costumes de alguns povos, tornou possível ao homem aproveitar-se dela
de boa-fé, como de uma coisa que parecia natural; mas a partir do momento
que sua razão se mostrou mais desenvolvida e, acima de tudo,
esclarecida pelas luzes do Cristianismo, demostrando que o escravo é
um ser igual diante de Deus, não há mais desculpa que justifique a escravidão.
831 A desigualdade natural das aptidões não coloca algumas
raças humanas sob a dependência de outras mais inteligentes?
– Sim, mas para erguê-las e não para embrutecê-las ainda mais pela
escravidão. Os homens têm considerado durante muito tempo algumas
raças humanas como animais de braços e mãos e se julgaram no direito
de vendê-los como animais de carga. Eles acreditam possuir um sangue
mais puro, insensatos que vêem apenas a matéria! Não é o sangue que é
mais ou menos puro, mas o Espírito. (Veja as questões 361 e 803.)
832 Há homens que tratam seus escravos com humanidade, que
não lhes deixam faltar nada e pensam que a liberdade até os exporia
a piores privações; o que dizeis deles?
– Digo que esses cuidam melhor de seus interesses. Têm também
muito cuidado com seus bois e cavalos, para tirar mais proveito deles no
mercado. Não são tão culpados quanto os que os maltratam, mas dispõem
deles como de uma mercadoria ao impedir o direito de serem livres.
LIBERDADE DE PENSAR
833 Há no homem alguma coisa livre de qualquer constrangimento
e da qual desfruta de uma liberdade absoluta?
– É pelo pensamento que o homem desfruta de uma liberdade sem
limites, porque o pensamento desconhece obstáculos. Pode-se deter seu
vôo, mas não aniquilá-lo.
834 O homem é responsável por seu pensamento?
– É responsável diante de Deus; somente Deus, podendo conhecê-
lo, o condena ou o absolve segundo Sua justiça.
CAPÍTULO 10 LEI DE LIBERDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
276
LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA
835 A liberdade de consciência é uma conseqüência da de pensar?
– A consciência é um pensamento íntimo que pertence ao homem,
como todos os outros pensamentos.
836 O homem tem direito de colocar obstáculos à liberdade de
consciência?
– Não, nem à liberdade de pensar. Pertence apenas a Deus o direito
de julgar a consciência. Se os homens regulam por suas leis as relações
de homem para homem, Deus, pelas leis da natureza, regula as relações
do homem com Deus.
837 Qual o resultado dos obstáculos postos à liberdade de
consciência?
– Constranger os homens a agir de modo diferente do que pensam,
torná-los hipócritas. A liberdade de consciência é uma das características
da verdadeira civilização e do progresso.
838 Toda crença é respeitável mesmo que seja notoriamente falsa?
– Toda crença é respeitável quando é sincera e conduz à prática do
bem. As crenças condenáveis são as que conduzem ao mal.
839 É repreensível escandalizar na sua crença aquele que não
pensa como nós?
– É falta de caridade e ofende a liberdade de pensamento.
840 Será atentar contra a liberdade de consciência impor restrições
às crenças que provocam problemas à sociedade?
– Podem-se reprimir os atos, mas a crença íntima é inacessível.
G Reprimir os atos exteriores de uma crença quando ela ocasiona um
prejuízo qualquer aos outros não é atentar contra a liberdade de consciência,
porque a repressão não impede a pessoa de manter a crença.
841 Deve-se, em respeito à liberdade de consciência, deixar que
se propaguem doutrinas nocivas e pode-se, sem prejudicar essa liberdade,
procurar trazer de volta ao caminho da verdade aqueles que
se perderam ao admitir falsos princípios?
– Certamente que sim; e até mesmo se deve. Mas ensinai a exemplo
de Jesus, pela doçura e persuasão, e não pela força, o que seria pior que
a crença daquele a quem se quer convencer. Se há algo que seja permitido
impor é o bem e a fraternidade. Mas não acreditamos que o meio de
levá-los a admitir seja agindo com violência: a convicção não se impõe.
842 Todas as doutrinas têm a pretensão de ser a única expressão
da verdade; como se pode reconhecer a que tem o direito de se
posicionar assim?
– Será aquela que faz mais homens de bem e menos hipócritas, ou
seja, pela prática da lei de amor e de caridade em sua maior pureza e sua
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
277
aplicação mais abrangente. A esse sinal reconheceis que uma doutrina é
boa, já que toda doutrina que semear a desunião e estabelecer uma demarcação
entre os filhos de Deus só pode ser falsa e nociva.
LIVRE-ARBÍTRIO
843 O homem tem sempre o livre-arbítrio?
– Uma vez que tem a liberdade de pensar, tem a de agir. Sem o livrearbítrio
o homem seria como uma máquina.
844 O homem desfruta de seu livre-arbítrio desde seu nascimento?
– Há liberdade de agir desde que haja a liberdade de fazer. Nos primeiros
tempos da vida a liberdade é quase nula; ela vai evoluindo e seus
objetivos mudam de acordo com o desenvolvimento das faculdades. A
criança, tendo pensamentos relacionados com as necessidades de sua
idade, aplica seu livre-arbítrio às escolhas que lhe são necessárias.
845 As predisposições instintivas que o homem traz ao nascer
não são um obstáculo ao exercício do livre-arbítrio?
– As predisposições instintivas são do Espírito antes de sua encarnação;
conforme é mais ou menos adiantado, podem levá-lo a praticar
atos condenáveis, e ele será auxiliado nisso pelos Espíritos com essas
mesmas tendências, mas não há arrebatamento irresistível quando se
tem a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder. (Veja a questão
361.)
846 O organismo tem influência sobre os atos da vida? E se tem,
ela não acaba anulando o livre-arbítrio?
– O Espírito está certamente influenciado pela matéria que o pode entravar
em suas manifestações; eis por que, nos mundos onde os corpos
são menos materiais, as faculdades se desenvolvem com mais liberdade.
Porém, não é o instrumento que dá as faculdades. Além disso, é preciso
separar aqui as faculdades morais das intelectuais; se um homem tem o
instinto assassino, é seguramente seu próprio Espírito que o possui e o
transmite, e não seus órgãos. Aquele que canaliza o pensamento para a
vida da matéria torna-se semelhante ao irracional e, pior ainda, porque não
pensa mais em se prevenir contra o mal, e é nisso que é culpado, uma vez
que age assim por sua vontade. (Veja a questão 367 e segs. – “Influência do
organismo”.)
847 A anormalidade das faculdades tira do homem o livre-arbítrio?
– Aquele cuja inteligência é perturbada por uma causa qualquer não é
mais senhor de seu pensamento e assim não tem mais liberdade. Essa
anormalidade é, muitas vezes, uma punição para o Espírito que, numa
outra encarnação, pode ter sido fútil e orgulhoso e ter feito mau uso de
suas faculdades. Ele pode renascer no corpo de um deficiente mental,
CAPÍTULO 10 LEI DE LIBERDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
278
como o escravizador no corpo de um escravo e o mau rico no de um
mendigo. Porém, o Espírito sofreu esse constrangimento com perfeita consciência.
Está aí a ação da matéria. (Veja a questão 371 e seguintes)
848 Os desatinos das faculdades intelectuais causadas pela embriaguez
é desculpa para atos condenáveis?
– Não, porque o bêbado voluntariamente se privou de sua razão para
satisfazer paixões brutais; em vez de uma falta, comete duas.
849 No homem primitivo, a faculdade dominante é o instinto ou o
livre-arbítrio?
– É o instinto, o que não o impede de agir com total liberdade em
certas circunstâncias; como a criança, ele aplica essa liberdade às suas
necessidades e ela se desenvolve com a inteligência. Porém, como vós,
sois mais esclarecidos do que um selvagem e também mais responsáveis
pelo que fazeis.
850 A posição social não é, algumas vezes, um obstáculo à total
liberdade dos atos?
– O mundo tem, sem dúvida, suas exigências. Deus é justo e tudo
leva em conta, mas vos deixa a responsabilidade do pouco esforço que
fazeis para superar os obstáculos.
FATALIDADE
851 Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida, conforme o
sentido que se dá a essa palavra, ou seja, todos os acontecimentos
são predeterminados? Nesse caso, como fica o livre-arbítrio?
– A fatalidade existe apenas na escolha que o Espírito fez ao encarnar
e suportar esta ou aquela prova. E da escolha resulta uma espécie de
destino, que é a própria conseqüência da posição que ele próprio escolheu
e em que se acha. Falo das provas de natureza física, porque, quanto
às de natureza moral e às tentações, o Espírito, ao conservar seu livrearbítrio
quanto ao bem e ao mal, é sempre senhor para ceder ou resistir.
Um bom Espírito, ao vê-lo fraquejar, pode vir em sua ajuda, mas não pode
influir de modo a dominar sua vontade. Um Espírito mau, ao lhe mostrar de
forma exagerada um perigo físico, pode abalá-lo e assustá-lo. Porém, a
vontade do Espírito encarnado está constantemente livre para decidir.
852 Há pessoas que parecem ser perseguidas por uma fatalidade,
independentemente de seu modo de agir; a infelicidade não é um destino?
– São, talvez, provas que devem suportar e que escolheram. Mas
definitivamente não deveis acusar o destino pelo que, freqüentemente, é
apenas a conseqüência de vossas próprias faltas. Nos males que vos
afligem, esforçais-vos para que vossa consciência esteja pura, e já vos
sentireis bastante consolados.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
279
G As idéias justas ou falsas que fazemos das coisas nos fazem vencer
ou fracassar de acordo com nosso caráter e posição social. Achamos
mais simples e menos humilhante para o nosso amor-próprio atribuir
nossos fracassos à sorte ou ao destino, e não à nossa própria falta. Se
a influência dos Espíritos contribui para isso algumas vezes, podemos
sempre nos defender dessa influência afastando as idéias que nos
sugerem, quando são más.
853 Algumas pessoas mal escapam de um perigo mortal para
logo cair em outro; parece que não teriam como escapar à morte. Não
há fatalidade nisso?
– A fatalidade só existe, no verdadeiro sentido da palavra, apenas no
instante da morte. Quando esse momento chega, seja por um meio ou por
outro, não o podeis evitar.
853 a Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, não
morreremos se a hora não é chegada?
– Não, não morrereis, e sobre isso há milhares de exemplos; mas
quando a hora chegar, nada poderá impedir. Deus sabe por antecipação
qual o gênero de morte que terás na Terra e, muitas vezes, vosso Espírito
também sabe, porque isso foi revelado quando fez a escolha desta ou
daquela existência.
854 Por causa da inevitável hora da morte, as precauções que se
tomam para evitá-la são inúteis?
– Não. As precauções que tomais são sugeridas para evitar a morte
que vos ameaça, são meios para que ela não ocorra.
855 Qual é o objetivo da Providência ao nos fazer correr dos
perigos que não têm conseqüências?
– Quando vossa vida é colocada em perigo, é uma advertência que
vós mesmo desejastes, a fim de vos desviardes do mal e vos tornardes
melhor. Quando escapais desse perigo, ainda sob a influência do risco
que passastes, refletis seriamente, conforme a ação mais ou menos forte
dos bons Espíritos sobre vós para vos melhorardes. O mau Espírito, voltando
a tentação (digo mau subentendendo o mal que ainda existe nele),
pensa que escapará do mesmo modo a outros perigos e novamente deixa
se dominar pelas paixões. Pelos perigos que correis, Deus vos lembra de
vossa fraqueza e a fragilidade de vossa existência. Se examinardes a causa
e a natureza do perigo, vereis que, muitas vezes, as conseqüências
são a punição de uma falta cometida ou de um dever não cumprido. Deus
vos adverte assim para vos recolherdes em vós mesmos e vos corrigirdes.
(Veja as questões 526 e 532.)
856 O Espírito sabe por antecipação como desencarnará?
– Sabe que o gênero de vida escolhido o expõe a desencarnar mais
de uma maneira do que de outra. Sabe igualmente quais as lutas que terá
de enfrentar para evitá-la e, se Deus o permitir, não fracassará.
CAPÍTULO 10 LEI DE LIBERDADE
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
280
857 Há homens que enfrentam os perigos dos combates com a
convicção de que sua hora não chegou; há algum fundamento nessa
confiança?
– Freqüentemente, o homem tem o pressentimento de seu fim, como
pode ter o de que não morrerá ainda. Esse pressentimento vem por meio
dos seus protetores, que querem adverti-lo para estar pronto para partir,
ou estimulam sua coragem nos momentos em que é mais necessária.
Pode vir ainda pela intuição que tem da existência escolhida, ou da missão
que aceitou e sabe que deve cumprir. (Veja as questões 411 e 522.)
858 Por que os que pressentem a morte a temem menos que os
outros?
– É o homem que teme a morte e não o Espírito; aquele que a pressente
pensa mais como Espírito do que como homem: ele a compreende
como sua libertação e a espera.
859 Se a morte não pode ser evitada, ocorre o mesmo com todos
os acidentes que nos atingem no decorrer da vida?
– Freqüentemente esses acidentes são pequenas coisas para as
quais podemos vos prevenir e, algumas vezes, fazer com que as eviteis,
dirigindo vosso pensamento, porque não gostamos de vos ver sofrer; mas
isso é de pouca importância para a vida que escolhestes. A fatalidade, verdadeiramente,
consiste apenas na hora em que deveis nascer e morrer.
859 a Há fatos que, forçosamente, devam acontecer e que a vontade
dos Espíritos não podem afastar?
– Sim, mas vós, antes de encarnar, vistes e pressentistes quando
fizestes vossa escolha. Entretanto, não acrediteis que tudo o que acontece
está escrito, como se diz. Um acontecimento é, muitas vezes, a
conseqüência de um ato que praticastes por livre vontade, caso contrário
o acontecimento não teria ocorrido. Se queimais o dedo, é conseqüência
de vossa imprudência e ação sobre a matéria. Apenas as grandes dores,
os acontecimentos importantes que podem influir na evolução moral, são
previstos por Deus, já que são úteis para a vossa depuração e instrução.
860 O homem, por sua vontade e ações, pode fazer com que os
acontecimentos que deveriam ocorrer não ocorram, e vice-versa?
– Pode, desde que esse desvio aparente caiba na ordem geral da
vida que escolheu. Depois, para fazer o bem, como é seu dever e único
objetivo da vida, ele pode impedir o mal, especialmente aquele que poderia
contribuir para um mal maior.
861 O homem que comete um homicídio sabe, ao escolher sua
existência, que se tornará um assassino?
– Não. Sabe que, escolhendo uma determinada espécie de vida,
poderá ter a possibilidade de matar um de seus semelhantes, mas não
sabe se o fará porque há nele, quase sempre, uma decisão antes de
cometer qualquer ação; portanto, aquele que delibera sobre uma coisa é
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE TERCEIRA
281
sempre livre para fazê-la ou não. Se o Espírito soubesse antecipadamente
que, como homem, deveria cometer um assassinato, é porque isso estava
predestinado. Sabei que ninguém foi predestinado ao crime e todo
crime, como todo e qualquer ato, é sempre o resultado da vontade e do
livre-arbítrio.
Além disso, confundis sempre duas coisas bem distintas: os acontecimentos
materiais da vida e os atos da vida moral. Se algumas vezes
existe fatalidade, é nos acontecimentos materiais cuja causa está fora de
vós e são independentes de vossa vontade. Quanto aos atos da vida
moral, esses emanam sempre do próprio homem, que sempre tem, conseqüentemente,
a liberdade de escolha. Para esses atos, nunca existe
fatalidade.
862 Existem pessoas para as quais nada sai bem e que um mau
gênio parece perseguir em todas as suas ações; não está aí o que
podemos chamar de fatalidade?
– É uma fatalidade, se quiserdes chamar assim, mas é decorrente da
escolha que essa pessoa fez para a presente existência, porque há pessoas
que quiseram ser provadas por uma vida de decepção, para exercitar
sua paciência e sua resignação. Não acrediteis, entretanto, que essa fatalidade
seja absoluta; muitas vezes é o resultado do falso caminho que
tomaram e que nada têm a ver com sua inteligência e suas aptidões. Aquele
que deseja atravessar um rio a nado sem saber nadar tem grande probabilidade
de se afogar; assim é com a maioria dos acontecimentos da vida.
Se o homem somente empreendesse coisas compatíveis e de acordo
com suas capacidades, quase sempre teria êxito. O que faz com que se
perca é seu amor-próprio e sua ambição, que o fazem sair de seu caminho
e o induzem a considerar como vocação o desejo de satisfazer certas
paixões. Ele fracassa e é por sua culpa; mas, em vez de admiti-la espontaneamente,
prefere acusar sua estrela. Seria melhor ter sido um bom
trabalhador e ganho honestamente a vida do que ser um mau poeta e
morrer de fome. Haveria lugar para todos, se cada um soubesse se colocar
em seu lugar.
863 Os costumes sociais não obrigam o homem a seguir determinado
caminho em vez de outro, e ele não está submetido ao controle
da opinião geral na escolha de suas ocupações? O que se chama
de respeito humano não é um obstáculo ao exercício do livre-arbítrio?
– São os homens que fazem os costumes sociais e não Deus. Se a
eles se submetem, é porque lhes convêm, e isso é ainda um ato de seu
livre-arbítrio, uma vez que, se quisessem, poderiam libertar-se deles; então,
por que se lamentar? Não são os costumes sociais que devem acusar,
mas seu tolo amor-próprio, que os leva a preferir morrer de fome a abandoná-
lo. Ninguém levará em conta esse sacrifício feito à opinião pública,
enquanto Deus levará em conta o sacrifício que fizerem à sua vaidade.
Isso não quer dizer que seja preciso afrontar essa opinião sem necessida-
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