O livro dos espiritos - parte 2


PARTE SEGUNDA
MUNDO ESPÍRITA OU DOS ESPÍRITOS
CAPÍTULO
1
DOS ESPÍRITOS
Origem e natureza dos Espíritos – Mundo normal primitivo –
Forma e ubiqüidade dos Espíritos – Perispírito – Diferentes
ordens de Espíritos – Escala espírita – Terceira ordem -
Espíritos imperfeitos – Segunda ordem - Bons Espíritos –
Primeira ordem - Espíritos puros – Progressão dos
Espíritos – Anjos e demônios
67
– É evidente. Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente,
como os corpos são a individualização do princípio material. A época e
o modo dessa formação é que são desconhecidos.
80 A criação dos Espíritos é permanente, ou só ocorreu no início
dos tempos?
– É permanente, Deus nunca parou de criar.
81 Os Espíritos se formam espontaneamente, ou procedem uns
dos outros?
– Deus os cria, como a todas as outras criaturas, por sua vontade.
Mas, repito mais uma vez, sua origem é um mistério.
82 É exato dizer que os Espíritos são imateriais?
– Como podemos definir uma coisa quando não temos termos de comparação
e com uma linguagem insuficiente? Pode um cego de nascença
definir a luz? Imaterial não é bem a palavra, incorpóreo seria mais exato, porque
deveis compreender bem que o Espírito, sendo uma criação, deve ser
alguma coisa. É uma matéria puríssima, mas sem comparação ou semelhança
para vós, e tão etérea que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.
G Dizemos que os Espíritos são imateriais, porque sua essência difere
de tudo o que conhecemos como matéria. Uma comunidade de cegos
não teria termos para exprimir a luz e seus efeitos. O cego de nascença
acredita ter todas as percepções pela audição, pelo olfato, pelo paladar e
pelo tato. Ele não compreende as idéias que lhe dariam o sentido que lhe
falta. Do mesmo modo, em relação à essência dos seres sobre-humanos,
somos como verdadeiros cegos. Podemos defini-los somente por comparações
sempre imperfeitas, ou por um esforço de nossa imaginação.
83 Compreende-se que o princípio de onde emanam os Espíritos
seja eterno, mas o que perguntamos é se sua individualidade tem um
fim e se, num dado momento, mais ou menos longo, o elemento do
qual são formados se dispersa e retorna à massa de onde saiu, como
acontece com os corpos materiais. É difícil compreender que uma
coisa que começou não possa acabar. Os Espíritos têm um fim?
– Há coisas que não compreendeis, porque a vossa inteligência é
limitada. Mas isso não é razão para serem rejeitadas. A criança não compreende
tudo o que seu pai compreende, nem o ignorante tudo o que
compreende o sábio. Nós vos dizemos que a existência dos Espíritos não
acaba; é tudo o que, por agora, podemos dizer.
MUNDO NORMAL PRIMITIVO
84 Os Espíritos constituem um mundo à parte, fora daquele que
vemos?
– Sim, o mundo dos Espíritos ou das inteligências incorpóreas.
85 Qual dos dois é o principal na ordem das coisas: o mundo
espiritual ou o mundo corporal?
– O mundo espiritual, que preexiste e sobrevive a tudo.
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
68
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
86 O mundo corporal poderia deixar de existir, ou nunca ter existido,
sem alterar a essência do mundo espiritual?
– Sim, eles são independentes e, entretanto, sua correlação é incessante,
porque reagem incessantemente um sobre o outro.
87 Os Espíritos ocupam uma região determinada e circunscrita
no espaço?
– Os Espíritos estão em todos os lugares, povoam infinitamente os
espaços. Estão sempre ao vosso lado, vos observam e agem entre vós
sem os perceberdes, porque os Espíritos são uma das forças da natureza
e os instrumentos dos quais Deus se serve para a realização de Seus
desígnios providenciais. Mas nem todos vão a todos os lugares, porque
há regiões interditadas aos menos avançados.
FORMA E UBIQÜIDADE1 DOS ESPÍRITOS
88 Os Espíritos têm uma forma determinada, limitada e constante?
– A vossos olhos, não; aos nossos, sim. O Espírito é, se quiserdes,
uma chama, um clarão ou uma centelha etérea.
88 a Essa chama ou centelha tem uma cor qualquer?
– Para vós, ela varia do escuro ao brilho do rubi, conforme seja o
Espírito mais ou menos puro.
G É costume representarem-se os gênios com uma chama ou uma
estrela sobre a fronte. É uma alegoria que lembra a natureza essencial
dos Espíritos. Coloca-se no alto da cabeça, porque é aí a sede da inteligência.
89 Os Espíritos gastam algum tempo para percorrer o espaço?
– Sim; porém, rápido como o pensamento.
89 a O pensamento não é a própria alma que se transporta?
– Quando o pensamento está em algum lugar, a alma está também,
uma vez que é a alma que pensa. O pensamento é um atributo da alma.
90 O Espírito que se transporta de um lugar a outro tem consciência
da distância que percorre e dos espaços que atravessa, ou é
subitamente transportado para o lugar aonde quer ir?
– Ocorrem ambas as coisas. O Espírito pode muito bem, se o quiser,
se dar conta da distância que percorre, mas essa distância pode também
não ser sentida e até completamente despercebida. Isso depende de sua
vontade e de sua natureza mais ou menos depurada.
91 A matéria oferece algum obstáculo aos Espíritos?
– Não, eles penetram em tudo: o ar, a terra, as águas e até mesmo o
fogo lhes são igualmente acessíveis.
1 - Ubiqüidade: capacidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo. É um atributo de
Espíritos de grande evolução (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
69
92 Os Espíritos têm o dom da ubiqüidade, ou, em outras palavras,
o mesmo Espírito pode se dividir ou estar em vários pontos ao
mesmo tempo?
– Não pode haver divisão do mesmo Espírito. Mas cada um é um
centro que se irradia para diferentes lados e é por isso que parece estar
em muitos lugares ao mesmo tempo. Vedes o Sol, é apenas um e, entretanto,
irradia-se em todos os sentidos e leva seus raios para muito longe.
Apesar disso, não se divide.
92 a Todos os Espíritos se irradiam com o mesmo poder?
– Longe disso. Isso depende do grau de pureza de cada um.
G Cada Espírito é uma unidade indivisível, mas cada um deles pode
estender seu pensamento para muitos lugares sem com isso se dividir.
É apenas nesse sentido que se deve entender o dom da ubiqüidade
atribuído aos Espíritos; como uma centelha que projeta ao longe sua
claridade e pode ser percebida de todos os pontos do horizonte; ou,
ainda, como um homem que, no mesmo lugar e sem se dividir, pode
transmitir ordens, sinais e movimento para diferentes pontos.
PERISPÍRITO
93 O Espírito, propriamente dito, não tem nenhuma cobertura, ou
como pretendem alguns, é envolvido por alguma substância?
– O Espírito é envolvido por uma substância vaporosa para vós, mas
ainda bem grosseira para nós; é suficientemente vaporosa para poder se
elevar na atmosfera e se transportar para onde quiser.
G Assim como nas sementes o germe do fruto é envolvido pelo
perisperma2, do mesmo modo o Espírito, propriamente dito, é revestido
de um envoltório que, por comparação, pode-se chamar perispírito.
94 De onde o Espírito tira seu envoltório semimaterial?
– Do fluido universal de cada globo. É por isso que não é igual em
todos os mundos. Ao passar de um mundo a outro, o Espírito muda de
envoltório, como trocais de roupa.
94 a Assim, quando os Espíritos que habitam os mundos superiores
vêm até nós, revestem-se de um perispírito mais grosseiro?
– É preciso que se revistam de vossa matéria, como já dissemos.
95 O envoltório semimaterial do Espírito tem formas determinadas
e pode ser perceptível?
– Sim, tem a forma que lhe convém. É assim que se apresenta, algumas
vezes, nos sonhos, ou quando estais acordados, podendo tomar
uma forma visível e até mesmo palpável.
2 - Perisperma: revestimento fino que envolve a parte da semente da qual se formará a
planta (N. E.).
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
70
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
DIFERENTES ORDENS DE ESPÍRITOS
96 Os Espíritos são iguais ou há entre eles alguma hierarquia?
– Eles são de diferentes ordens, de acordo com o grau de perfeição a
que chegaram.
97 Há um número determinado de ordens ou de graus de perfeição
entre os Espíritos?
– O número é ilimitado. Não há entre essas ordens uma linha de demarcação
como limite, e, assim, as divisões podem ser multiplicadas ou
restringidas à vontade. No entanto, considerando-se as características
gerais, podem reduzir-se a três principais.
Em primeiro lugar, os que chegaram à perfeição: os Espíritos puros.
Os da segunda ordem são os que atingiram o meio da escala: o desejo do
bem é sua preocupação. Os do último grau, ainda no início da escala, são
os Espíritos imperfeitos, caracterizados pela ignorância, pelo desejo do
mal e por todas as más paixões que retardam seu adiantamento.
98 Os Espíritos da segunda ordem têm apenas o desejo do bem,
ou terão também o poder de praticá-lo?
– Têm esse poder segundo o grau de sua perfeição: uns têm a ciência,
outros a sabedoria e a bondade, mas todos ainda têm provas a cumprir.
99 Os Espíritos da terceira ordem são todos essencialmente maus?
– Não; uns não fazem o bem nem o mal; outros, ao contrário, se
satisfazem no mal e sentem prazer quando encontram a ocasião de o
fazer. E há ainda os Espíritos levianos ou zombadores, mais brincalhões do
que maus, que se satisfazem antes na malícia do que na maldade e que
encontram prazer em mistificar e causar pequenas contrariedades das quais
se riem.
ESCALA ESPÍRITA
100 Observações preliminares: A classificação dos Espíritos é baseada
no grau de seu adiantamento, nas qualidades que adquiriram e nas imperfeições
de que ainda devam se livrar. Essa classificação não tem nada de
absoluto. Cada categoria apenas apresenta um caráter nítido em seu conjunto,
mas de um grau a outro a transição é insensível e nos extremos as
diferenças se apagam como nos reinos da natureza, nas cores do arcoíris,
ou, ainda, como nos diferentes períodos da vida do homem. Pode-se
formar um número de classes mais ou menos grande, segundo o ponto
de vista de que se considere a questão. Ocorre o mesmo com todos os
sistemas de classificações científicas: esses sistemas podem ser mais ou
menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos
para a inteligência, mas, quaisquer que sejam, não mudam em nada as
bases da ciência. Assim, os Espíritos interrogados sobre esse ponto pu-
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
71
deram variar no número de categorias sem que isso tenha conseqüências.
Armaram-se alguns contestadores da Doutrina com essa contradição
aparente, sem refletir que os Espíritos não dão nenhuma importância ao
que é puramente convencional. Para eles, o pensamento é tudo. Deixam
para nós a forma, a escolha dos termos, as classificações, numa palavra,
os sistemas.
Acrescentamos ainda esta consideração, que jamais se deve perder
de vista: é que entre os Espíritos, assim como entre os homens, há os
muito ignorantes, e nunca será demais se prevenir contra a tendência de
acreditar que todos devem saber tudo só porque são Espíritos. Qualquer
classificação exige método, análise e conhecimento profundo do assunto.
Portanto, no mundo dos Espíritos, aqueles que têm conhecimentos limitados
são, como na Terra, os ignorantes, incapazes de abranger um conjunto
para formular um sistema. Só imperfeitamente conhecem ou compreendem
uma classificação qualquer. Para eles, todos os Espíritos que
lhes são superiores são de primeira ordem, sem que possam apreciar as
diferenças de saber, capacidade e moralidade que os distinguem entre si,
como faria entre nós um homem rude em relação aos homens civilizados.
Mesmo os que têm capacidade de o fazer podem variar nos detalhes, de
acordo com seus pontos de vista, principalmente quando uma divisão
como esta não tem limites fixados, nada de absoluto. Lineu, Jussieu e
Tournefort proclamaram, cada um, seu método, e a botânica não se alterou em
nada por causa disso. É que o método deles não inventou as plantas, nem seus
caracteres. Eles apenas observaram as semelhanças e funções com as quais
depois formaram grupos ou classes. Da mesma maneira procedemos nós. Não
inventamos os Espíritos, nem seus caracteres. Vimos e observamos. Nós os
julgamos por suas palavras e seus atos, depois os classificamos por semelhanças,
baseando-nos em dados que eles próprios nos forneceram.
Os Espíritos admitem geralmente três categorias principais ou três grandes
divisões. Na última, a que está no início da escala, estão os Espíritos
imperfeitos, caracterizados pela predominância da matéria sobre o Espírito
e pela propensão ao mal.
Os da segunda são caracterizados pela predominância do Espírito
sobre a matéria e pelo desejo do bem: esses são os bons Espíritos. Os
da primeira categoria atingiram o grau supremo da perfeição: são os Espíritos
puros.
Essa divisão nos parece perfeitamente racional e apresenta características
bem definidas. Só nos faltava ressaltar, mediante um número
suficiente de subdivisões, as diferenças principais do conjunto. Foi o que
fizemos com o auxílio dos Espíritos, cujas instruções benevolentes nunca
nos faltaram.
Com o auxílio desse quadro será fácil determinar a categoria e o grau
de superioridade ou inferioridade dos Espíritos com os quais podemos
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
72
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
entrar em contato e, por conseguinte, o grau de confiança e de estima que
merecem. É de certo modo a chave da ciência espírita, visto que apenas
ele pode nos explicar as anomalias, as diferenças que apresentam as comunicações,
ao nos esclarecer sobre as desigualdades intelectuais e morais
dos Espíritos. Observaremos, todavia, que nem sempre os Espíritos pertencem
exclusivamente a esta ou aquela classe. Seu progresso apenas
se realiza gradualmente e, muitas vezes, mais num sentido do que em
outro, e podem reunir as características de mais de uma categoria, o que
se pode notar por sua linguagem e seus atos.
TERCEIRA ORDEM – ESPÍRITOS IMPERFEITOS
101 Características gerais– Predominância da matéria sobre o Espírito.
Propensão ao mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as más paixões
que são suas conseqüências.
Eles têm a intuição de Deus, mas não o compreendem.
Nem todos são essencialmente maus. Entre alguns há mais leviandade,
inconseqüência e malícia do que verdadeira maldade. Alguns não fazem
o bem nem o mal; mas, apenas pelo fato de não fazerem o bem, já
demonstram sua inferioridade. Outros, ao contrário, se comprazem no mal
e ficam satisfeitos quando encontram a ocasião de o fazer.
Podem aliar a inteligência à maldade ou à malícia; mas qualquer que
seja seu desenvolvimento intelectual, suas idéias são pouco elevadas e
seus sentimentos mais ou menos inferiores.
Seus conhecimentos sobre as coisas do mundo espírita são limitados e
o pouco que sabem se confunde com as idéias e os preconceitos da vida
corporal. Eles podem nos dar apenas noções falsas e incompletas, mas o observador
atento encontra, muitas vezes, em suas comunicações imperfeitas,
a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos Superiores.
Seu caráter se revela pela sua linguagem. Todo Espírito que em suas
comunicações revela um mau pensamento pode ser classificado na terceira
ordem. Por conseqüência, todo mau pensamento que nos é sugerido
vem de um Espírito dessa ordem.
Eles vêem a felicidade dos bons e isso é, para eles, um tormento
incessante, porque sentem todas as agonias que originam a inveja e o
ciúme.
Conservam a lembrança e a percepção dos sofrimentos da vida corporal
e essa impressão é, muitas vezes, mais dolorosa do que a realidade. Sofrem,
verdadeiramente, pelos males que suportaram em vida e pelos que fizeram os
outros sofrer. E como sofrem por longo tempo, acreditam que irão sofrer para
sempre. A Providência, para puni-los, permite que assim pensem3.
Pode-se dividi-los em cinco classes principais:
3 - À frente, na questão 258 e seguintes, está explicada a idéia de como a lei atua para o resgate
dos Espíritos (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
73
102 Décima classe. Espíritos Impuros – São inclinados ao mal e fazem
dele o objeto de suas preocupações. Como Espíritos, dão conselhos
falsos, provocam a discórdia e a desconfiança e se mascaram de todas as
formas para melhor enganar. Eles se ligam às pessoas de caráter mais
fraco, que cedem às suas sugestões, a fim de prejudicá-los, satisfeitos
em poder retardar o seu adiantamento e fazê-las fracassar nas provas por
que passam.
Nas manifestações, esses espíritos são reconhecidos pela linguagem.
A trivialidade e a grosseria das expressões, entre os Espíritos como entre
os homens, é sempre um indício de inferioridade moral ou intelectual. Suas
comunicações revelam a baixeza de suas inclinações e, se tentam enganar
ao falar de uma maneira sensata, não podem sustentar esse papel por
muito tempo, e acabam sempre por denunciar a sua origem.
Alguns povos fizeram desses Espíritos divindades malfazejas; outros
os designaram sob o nome de demônios, maus gênios, espíritos do mal.
Quando estão encarnados, são inclinados a todos os vícios que geram
as paixões vergonhosas e degradantes: a sensualidade, a crueldade,
a mentira, a hipocrisia, a cobiça e a avareza sórdida. Fazem o mal pelo
prazer de fazê-lo e, muitas vezes, sem motivos e por ódio ao bem, escolhem
quase sempre suas vítimas entre as pessoas honestas. São flagelos
para a humanidade, seja qual for a posição da sociedade a que pertençam,
e o verniz da civilização não os livra da baixeza e da desonra.
103 Nona classe. Espíritos Levianos – São ignorantes, maliciosos,
inconseqüentes e zombeteiros. Envolvem-se em tudo, respondem a tudo,
sem se preocupar com a verdade. Comprazem-se em causar pequenos
desgostos e pequenas alegrias, atormentar e induzir maliciosamente ao
erro por meio de mistificações e espertezas. A esta classe pertencem os
Espíritos vulgarmente designados sob os nomes de duendes, trasgos4,
gnomos, diabretes. Estão sob a dependência dos Espíritos Superiores, que
se utilizam deles, muitas vezes, como fazemos com os nossos servidores.
Nas suas comunicações com os homens, a linguagem é algumas
vezes espirituosa e engraçada, mas quase sempre sem profundidade.
Compreendem os defeitos e o ridículo humanos, exprimindo-os em tiradas
mordazes e satíricas. Se usam nomes supostos, é mais para se divertir
conosco do que por maldade.
104 Oitava classe. Espíritos Pseudo-Sábios – Seus conhecimentos
são bastante amplos, mas acreditam saber mais do que sabem na realidade.
Tendo realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, sua
linguagem tem uma característica séria que pode induzir ao erro e ocasionar
enganos sobre suas capacidades e seus conhecimentos. Mas isso é
apenas um reflexo dos preconceitos e das idéias sistemáticas que con-
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
4 - Trasgo: Espírito elementar (N. E.).
74
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
servam da vida terrena. É uma mistura de algumas verdades ao lado dos
erros mais absurdos, no meio dos quais sobressai a presunção, o orgulho,
a inveja e a obstinação das quais não puderam se libertar.
105 Sétima classe. Espíritos Neutros – Não são bastante bons para
fazer o bem, nem suficientemente maus para fazer o mal. Inclinam-se tanto
para um quanto para o outro e não se elevam acima da condição comum
da humanidade, tanto pela moral quanto pela inteligência. Eles se prendem
às coisas deste mundo e lamentam a perda das alegrias grosseiras
que nele deixaram.
106 Sexta classe. Espíritos Batedores e Perturbadores – Estes Espíritos
não formam, propriamente falando, uma classe distinta quanto às
qualidades pessoais, podendo pertencer a todas as classes da terceira
ordem. Manifestam, freqüentemente, sua presença por efeitos sensíveis e
físicos, como pancadas, o movimento e o deslocamento anormal dos
corpos sólidos, a agitação do ar, etc. Parecem estar ainda, mais do que
outros, ligados à matéria e ser os agentes principais das variações e transformações
das forças e elementos da natureza no globo, seja ao atuarem
sobre o ar, a água, o fogo, os corpos duros ou nas entranhas da terra.
Reconhece-se que esses fenômenos não se originam de uma causa imprevista
e física, quando têm um caráter intencional e inteligente. Todos os
Espíritos podem produzir esses fenômenos, mas os de ordem elevada
os deixam, geralmente, como atribuições dos subalternos, mais aptos
às coisas materiais do que às da inteligência. Quando julgam que essas
manifestações são úteis, servem-se dos Espíritos dessa classe como seus
auxiliares.
SEGUNDA ORDEM – BONS ESPÍRITOS
107 Características gerais– Predominância do Espírito sobre a matéria;
desejo do bem. Suas qualidades e poder para fazer o bem estão em
conformidade com o grau que alcançaram. Uns têm a ciência; outros, a
sabedoria e a bondade. Os mais adiantados reúnem o saber às qualidades
morais. Não estando ainda completamente desmaterializados,
conservam mais ou menos, de acordo com sua categoria, os traços da
existência corporal, tanto na forma da linguagem quanto nos costumes,
entre os quais se identificam algumas de suas manias. Não fosse por isso,
seriam Espíritos perfeitos.
Compreendem Deus e o infinito e já gozam da felicidade dos bons;
são felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem. O amor que os
une é uma fonte de felicidade indescritível que não é alterada pela inveja,
pelo remorso, nem por nenhuma das más paixões que fazem o tormento
dos Espíritos imperfeitos. Mas todos ainda têm que passar por provas até
que atinjam a perfeição absoluta.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
75
Como Espíritos, sugerem bons pensamentos, desviam os homens do
caminho do mal, protegem a vida daqueles que se tornam dignos e neutralizam
a influência dos Espíritos imperfeitos sobre os que não têm por
que passar por ela.
Quando encarnados são bons e benevolentes com os seus semelhantes.
Não são movidos pelo orgulho, egoísmo, nem ambição. Não sentem
ódio, rancor, inveja ou ciúme e fazem o bem pelo bem.
A esta ordem pertencem os Espíritos designados nas crenças populares
pelos nomes de gênios bons, gênios protetores, Espíritos do bem.
Nos tempos de superstições e ignorância, foram tidos como divindades
benfazejas.
Pode-se dividi-los em quatro grupos principais:
108 Quinta classe. Espíritos Benevolentes – Sua qualidade dominante
é a bondade; satisfazem-se em prestar serviços aos homens e em
protegê-los, mas seu saber é limitado. Seu progresso é maior no sentido
moral do que no intelectual.
109 Quarta classe. Espíritos Prudentes ou Sábios – O que os distingue
especialmente é a abrangência de seus conhecimentos. Preocupam-se menos
com as questões morais do que com as científicas, para as quais têm
mais aptidão. Mas consideram a ciência somente do ponto de vista da utilidade,
livre das paixões que são próprias dos Espíritos imperfeitos.
110 Terceira classe. Espíritos de Sabedoria – As qualidades morais
do mais elevado grau formam seu caráter. Sem ter conhecimentos ilimitados,
são dotados de uma capacidade intelectual que lhes dá um julgamento
preciso e sábio sobre os homens e as coisas.
111 Segunda classe. Espíritos Superiores – Reúnem a ciência, a sabedoria
e a bondade. Sua linguagem revela sempre a benevolência e é
constantemente digna, elevada, muitas vezes sublime. Sua superioridade
os torna mais aptos que os outros para nos dar noções mais justas sobre
as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites do que é permitido ao
homem conhecer. Comunicam-se benevolentemente com os que procuram
de boa-fé a verdade e que têm a alma já liberta dos laços terrestres
para compreendê-la. Mas se afastam dos que são movidos apenas pela
curiosidade ou dos que a influência da matéria desvia da prática do bem.
Quando, por exceção, encarnam na Terra, é para realizar uma missão
de progresso e nos oferecem, então, o modelo de perfeição a que a humanidade
pode aspirar neste mundo.
PRIMEIRA ORDEM – ESPÍRITOS PUROS
112 Características gerais– Não sofrem nenhuma influência da matéria.
Superioridade intelectual e moral absoluta em relação aos Espíritos
das outras ordens.
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
76
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
113 Primeira classe. Classe Única– Passaram por todos os graus da
escala e se libertaram de todas as impurezas da matéria. Tendo atingido o
mais elevado grau de perfeição de que é capaz a criatura, não têm mais
que sofrer provas nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação
em corpos perecíveis, a vida é para eles eterna e a desfrutam no seio
de Deus.
Gozam de uma felicidade inalterável por não estarem sujeitos nem às
necessidades, nem às variações e transformações da vida material. Mas
essa felicidade não é de uma ociosidade monótona passada numa contemplação
perpétua. São os mensageiros e ministros de Deus, cujas ordens
executam para a manutenção da harmonia universal. Comandam
todos os Espíritos que lhes são inferiores, ajudando-os a se aperfeiçoarem
e lhes designam missões. Assistir os homens em suas aflições, incitá-los
ao bem ou à expiação das faltas que os afastam da felicidade suprema é
para eles uma agradabilíssima ocupação. São chamados, às vezes, de
anjos, arcanjos ou serafins.
Os homens podem entrar em comunicação com eles, mas presunçoso
seria aquele que pretendesse tê-los constantemente às suas ordens.
PROGRESSÃO DOS ESPÍRITOS
114 Os Espíritos são bons ou maus por natureza ou são eles
mesmos que se melhoram?
– São os próprios Espíritos que se melhoram, passando de uma ordem
inferior para uma ordem superior.
115 Dentre os Espíritos, alguns foram criados bons e outros maus?
– Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, ou seja, sem
conhecimento. Deu a cada um uma missão com o objetivo de esclarecêlos
e de fazê-los chegar, progressivamente, à perfeição pelo conhecimento
da verdade e para aproximá-los de Si. A felicidade eterna e pura é para
os que alcançam essa perfeição. Os Espíritos adquirem esses conhecimentos
ao passar pelas provas que a Lei Divina lhes impõe. Uns aceitam
essas provas com submissão e chegam mais depressa ao objetivo que
lhes é destinado. Outros somente as suportam com lamentação e por
causa dessa falta permanecem mais tempo afastados da perfeição e da
felicidade prometida.
115 a Assim sendo, os Espíritos seriam em sua origem semelhantes
às crianças, ignorantes e sem experiência, só adquirindo pouco a
pouco os conhecimentos que lhes faltam ao percorrer as diferentes fases
da vida?
– Sim, a comparação é boa. A criança rebelde permanece ignorante e
imperfeita, tem maior ou menor aproveitamento segundo sua docilidade.
Porém, a vida do homem tem um limite, um fim, enquanto a dos Espíritos
se estende ao infinito.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
77
116 Há Espíritos que permanecerão perpetuamente nas classes
inferiores?
– Não, todos se tornarão perfeitos. Eles progridem, mas demoradamente.
Como já dissemos, um pai justo e misericordioso não pode banir
eternamente seus filhos. Pretenderíeis que Deus, tão grande, tão bom, tão
justo, fosse pior do que vós mesmos?
117 Depende dos Espíritos apressar seu progresso para a
perfeição?
– Certamente. Chegam mais ou menos rapidamente conforme seu
desejo e submissão à vontade de Deus. Uma criança dócil não se instrui
mais rapidamente do que uma criança rebelde?
118 Os Espíritos podem se degenerar?
– Não; à medida que avançam, compreendem o que os afasta da
perfeição. Quando o Espírito acaba uma prova, fica com o conhecimento
que adquiriu e não o esquece mais. Pode ficar estacionário, mas retroceder,
não retrocede.
119 Deus não poderia isentar os Espíritos das provas que devem
sofrer para atingir a primeira ordem?
– Se tivessem sido criados perfeitos, não teriam nenhum mérito para
desfrutar dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o mérito sem a
luta? Além do mais, a desigualdade entre eles é necessária para desenvolver
a personalidade, e a missão que realizam nessas diferentes ordens
está nos desígnios da Providência para a harmonia do universo.
G Tendo em vista que na vida social todos os homens podem chegar
às primeiras funções, igualmente poderíamos perguntar por que o soberano
de um país não promove cada um de seus soldados a general; por que
todos os empregados subalternos não são empregados superiores; por
que todos os estudantes não são mestres. Portanto, há essa diferença
entre a vida social e a vida espiritual: a primeira é limitada e nem sempre
permite alcançar todos os graus, enquanto a segunda é indefinida e deixa a
cada um a possibilidade de se elevar ao grau supremo.
120 Todos os Espíritos passam pelo mal para chegar ao bem?
– Pelo mal, não, mas sim pela fieira5 da ignorância.
121 Por que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros
o do mal?
– Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os
simples e ignorantes, ou seja, com as mesmas aptidões tanto para o bem
quanto para o mal. Os que são maus o são por vontade própria.
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
5 - Fieira: experiência pela qual alguém passou (N. E.).
78
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
122 Como é que os Espíritos, em sua origem, quando ainda não
têm consciência de si mesmos, podem ter a liberdade de escolha entre
o bem e o mal? Há neles algum princípio, alguma tendência que os
leve para um ou outro caminho?
– O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire a consciência
de si mesmo. Não haveria mais liberdade se a escolha fosse
determinada ou imposta por uma causa independente da vontade do Espírito.
A causa não está nele, e sim fora, nas influências a que cede em
virtude de sua livre vontade. É essa a grande figura da queda do homem e
do pecado original: uns cederam, outros resistiram à tentação.
122 a De onde parte a influência sobre ele?
– Dos Espíritos imperfeitos que procuram apossar-se dele para dominá-
lo e ficam satisfeitos de o fazer fracassar. Foi isso que se quis simbolizar
na figura de Satanás.
122 b Essa influência se exerce sobre o Espírito somente em sua
origem?
– Essa influência o segue na sua vida de Espírito até que alcance um
domínio tão completo sobre si mesmo que os maus desistam de obsediá-lo6.
123 Por que Deus permitiu que os Espíritos pudessem seguir o
caminho do mal?
– Como ousais pedir a Deus conta de seus atos? Pensais poder penetrar
seus desígnios? Entretanto, podeis pensar assim: a sabedoria de
Deus está na liberdade de escolha que dá a cada um, porque, assim,
cada um tem o mérito de suas obras.
124 Uma vez que há Espíritos que, desde o princípio, seguem o
caminho do bem absoluto e outros o do mal absoluto, deve haver, sem
dúvida, degraus entre esses dois extremos?
– Sim, certamente, e é aí que se encontra a grande maioria.
125 Os Espíritos que seguiram o caminho do mal poderão chegar
ao mesmo grau de superioridade que os outros?
– Sim, mas as eternidades serão para eles mais longas.
G Por esta expressão – as eternidades – deve-se entender a idéia
que os Espíritos inferiores têm da perpetuidade de seus sofrimentos,
porque, como não lhes é dado ver o fim do seu sofrimento, essa idéia
revive em todas as provas em que fracassam7.
126 Os Espíritos que alcançaram o grau supremo de perfeição,
após terem passado pelo mal, têm menos mérito do que os outros,
aos olhos de Deus?
6 - Obsessão: neste caso, influência de um Espírito desencarnado, malévolo, sobre um encarnado.
Há outras formas de obsessão – Veja O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, cap. 23 -
Da Obsessão – (N. E.).
7 - Compare com a questão 101, referente à idéia de sofrimento e punição (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
79
– Deus contempla a todos do mesmo modo e os ama com o mesmo
coração. Eles foram chamados maus por fracassarem; mas no início eram
só simples Espíritos.
127 Os Espíritos são criados iguais quanto às aptidões intelectuais?
– Eles são criados iguais, mas, não sabendo de onde vêm, é preciso
que o livre-arbítrio prossiga seu curso. Progridem mais ou menos rapidamente
em inteligência como em moralidade.
G Os Espíritos que seguem desde o princípio o caminho do bem nem
por isso são Espíritos perfeitos. Se não têm tendências más ainda
precisam adquirir a experiência e os conhecimentos necessários para
atingir a perfeição. Podemos compará-los a crianças que, qualquer que
seja a bondade de seus instintos naturais, têm necessidade de se
desenvolver, se esclarecer e não passam, sem transição, da infância à
idade adulta. Assim como há homens bons e outros maus desde
sua infância, há também Espíritos bons ou maus desde sua origem,
com a diferença fundamental de que a criança tem os instintos todos
formados, enquanto o Espírito, na sua formação, não é mau, nem bom;
tem todas as tendências e toma uma ou outra direção por efeito de seu
livre-arbítrio.
ANJOS E DEMÔNIOS
128 Os seres a que chamamos anjos, arcanjos, serafins formam
uma categoria especial de natureza diferente dos outros Espíritos?
– Não. São os Espíritos puros. Estão no mais alto grau da escala e
reúnem todas as perfeições.
G A palavra anjo desperta, geralmente, a idéia de perfeição moral.
Entretanto, aplica-se, muitas vezes, a todos os seres bons e maus que
estão fora da humanidade. Diz-se: o bom e o mau anjo, o anjo de luz e o
anjo das trevas. Nesse caso, é sinônimo de Espírito ou de gênio. Nós a
tomamos aqui na sua significação de bom.
129 Os anjos percorreram todos os graus da escala evolutiva?
– Eles percorreram todos os graus, mas, como já dissemos: uns aceitaram
sua missão sem murmurar e chegaram mais rápido; outros levaram
um tempo mais ou menos longo para chegar à perfeição.
130 Se a opinião de que há seres criados perfeitos e superiores
a todas as outras criaturas é errônea, como se explica o fato de que
esteja na tradição de quase todos os povos?
– Pensai e considerai que o vosso mundo não existe de toda a eternidade
e que, muito tempo antes que ele existisse, havia Espíritos que já
tinham alcançado o grau supremo da evolução. Eis por que os homens
acreditaram que eles foram sempre assim (perfeitos).
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
80
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
131 Há demônios, no sentido que se dá a essa palavra?
– Se houvesse demônios, seriam obra de Deus. Deus seria justo e
bom por ter feito seres eternamente devotados ao mal e eternamente infelizes?
Se há demônios, é no vosso mundo inferior e em outros semelhantes
ao vosso. Demônios são esses homens hipócritas que fazem de um Deus
justo um Deus mau e vingativo e acreditam que Lhe agradam pelas abominações
que cometem em Seu nome.
G A palavra demônio nos dias atuais significa e nos dá idéia de mau
Espírito, porém a palavra grega daimôn, de onde se origina, significa
gênio, inteligência, e se emprega para designar seres incorpóreos, bons
ou maus, sem distinção.
Os demônios, conforme o significado comum da palavra, supõem
seres malvados por natureza, na sua essência. Seriam, como todas as
coisas, criação de Deus. Assim sendo, Deus, soberanamente justo e
bom, não pode ter criado seres predispostos, por sua natureza, ao mal
e condenados por toda a eternidade. Se não fossem obra de Deus,
seriam, forçosamente, como ele, de toda a eternidade, ou então haveria
muitos poderes soberanos.
A primeira condição de toda doutrina é a de ser lógica. A doutrina
dos demônios, cuidadosa e severamente analisada, peca por essa base
essencial. Pode-se compreendê-la na crença dos povos atrasados que,
por não conhecerem os atributos de Deus, crêem em divindades maldosas
e em demônios. Mas, para todo aquele que faz da bondade de
Deus um atributo por excelência, é ilógico e contraditório supor que
Deus pudesse criar seres voltados ao mal e destinados a praticá-lo
perpetuamente, porque isso é negar Sua bondade. Os partidários do
demônio se apóiam nas palavras do Cristo. E com toda certeza não
contestaremos aqui a autoridade de Seu ensinamento, que gostaríamos
de ver mais no coração do que na boca dos homens. Mas os
partidários dessa idéia estarão certos do significado que o Cristo dava à
palavra demônio? Já não sabemos que a forma alegórica é a maneira
usual de Sua linguagem? Tudo que é dito no Evangelho deve ser tomado
ao pé da letra? Não precisamos de outra prova mais evidente além
desta passagem:
“Logo após esses dias de aflição, o Sol se escurecerá e a Lua não
mais iluminará, as estrelas cairão do céu e as forças do céu serão abaladas.
Eu vos digo em verdade que esta geração não passará sem que
todas essas coisas sejam cumpridas.”
Não vimos a forma do texto bíblico ser contestada pela ciência no
que se refere à Criação e ao movimento da Terra? Não se dará o mesmo
com certas figuras empregadas pelo Cristo, tendo que falar em conformidade
com os tempos e os lugares? O Cristo não poderia dizer, conscientemente,
uma falsidade; se, então, em suas palavras há coisas que
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
81
parecem chocar a razão, é porque não as compreendemos ou as interpretamos
mal.
Os homens fizeram com os demônios o que fizeram com os anjos.
Da mesma forma que acreditaram na existência de seres perfeitos desde
toda a eternidade, tomaram também por comparação os Espíritos
inferiores como seres perpetuamente maus. Pela palavra demônio devem-
se entender Espíritos impuros que, muitas vezes, não são nada melhores
do que o nome já diz, mas com a diferença de que seu estado é
apenas transitório. Esses são os Espíritos imperfeitos que se revoltam
contra as provas que sofrem e, por isso, as sofrem por um tempo mais
longo; porém, chegarão a se libertar e sair dessa situação quando tiverem
vontade. Podemos, portanto, compreender a palavra demônio com
essa restrição. Mas, como se entende agora, com um sentido peculiar e
muito próprio, ela induziria ao erro, fazendo acreditar na existência de
seres especialmente criados para o mal.
Com relação a Satanás, é evidentemente a personificação do mal
sob uma forma alegórica, porque não se poderia admitir um ser mau
lutando em igualdade de poder com a Divindade e cuja única preocupação
seria a de contrariar seus desígnios. Como o homem precisa de
figuras e imagens para impressionar sua imaginação, o próprio homem
pintou seres incorpóreos sob uma forma material, com os atributos que
lembram as qualidades e os defeitos humanos. É assim que os antigos,
querendo personificar o Tempo, pintaram-no na figura de um velho com
uma foice e uma ampulheta. A figura de um jovem para essa alegoria
seria um contra-senso. Ocorre o mesmo com as alegorias da fortuna,
da verdade, etc. Modernamente os anjos ou Espíritos puros são representados
numa figura radiosa, com asas brancas, símbolo da pureza;
Satanás com chifres, garras e os atributos da animalidade, emblema
das paixões inferiores. O povo, que toma as coisas ao pé da letra, viu
nesses emblemas individualidades reais, como antigamente viu Saturno
na alegoria do Tempo.
CAPÍTULO 1 – DOS ESPÍRITOS
82
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
132 Qual é o objetivo da encarnação dos Espíritos?
– A Lei de Deus lhes impõe a encarnação com o objetivo de fazê-los
chegar à perfeição. Para uns é uma expiação; para outros é uma missão.
Mas, para chegar a essa perfeição, devem sofrer todas as tribulações da
existência corporal: é a expiação. A encarnação tem também um outro
objetivo: dar ao Espírito condições de cumprir sua parte na obra da criação.
Para realizá-la é que, em cada mundo, toma um corpo em harmonia
com a matéria essencial desse mundo para executar aí, sob esse ponto
de vista, as determinações de Deus, de modo que, concorrendo para a
obra geral, ele próprio se adianta.
G A ação dos seres corpóreos é necessária à marcha do universo. Deus,
em sua sabedoria, quis que, numa mesma ação, encontrassem um meio
de progredir e de se aproximar Dele. É assim que, por uma lei admirável da
Providência, tudo se encadeia, tudo é solidário na natureza.
133 Os Espíritos que, desde o princípio, seguiram o caminho do
bem, têm necessidade da encarnação?
– Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e
tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer só alguns
felizes, sem dificuldades e sem trabalho e, por conseguinte, sem mérito.
133 a Mas, então, de que serve aos Espíritos seguirem o caminho
do bem, se isso não os livra das dificuldades da vida corporal?
– Eles chegam mais rápido à finalidade a que se destinam; e, depois,
as dificuldades da vida são muitas vezes a conseqüência da imperfeição
do Espírito. Quanto menos imperfeições, menos tormentos. Aquele que
não é invejoso, ciumento, avarento ou ambicioso não sofrerá com os tormentos
que procedem desses defeitos.
A ALMA
134 O que é a alma?
– Um Espírito encarnado.
134 a O que era a alma antes de se unir ao corpo?
– Um Espírito.
OBJETIVO DA ENCARNAÇÃO
CAPÍTULO
2
ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS
Objetivo da encarnação – A alma – Materialismo
83
134 b As almas e os Espíritos são, portanto, uma e a mesma
coisa?
– Sim, as almas são os Espíritos. Antes de se unir ao corpo, a alma é
um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível e se revestem
temporariamente de um corpo carnal para se purificar e se esclarecer.
135 Há no homem outra coisa mais que a alma e o corpo?
– Há o laço que une a alma ao corpo.
135 a Qual é a natureza desse laço?
– Semimaterial, ou seja, de natureza intermediária entre o Espírito e o
corpo. É preciso que assim seja para que possam se comunicar um com
o outro. É por esse princípio que o Espírito age sobre a matéria e viceversa.
G Desse modo, o homem é formado de três partes essenciais:
1ª ) O corpo ou ser material, semelhante ao dos animais e animado
pelo mesmo princípio vital;
2ª ) A alma, Espírito encarnado que tem no corpo a sua habitação;
3ª ) O princípio intermediário ou perispírito, substância semimaterial
que serve de primeiro envoltório ao Espírito e une a alma ao corpo físico.
São como num fruto: a semente, o perisperma e a casca.
136 A alma é independente do princípio vital?
– O corpo é apenas o envoltório, repetimos isso constantemente.
136 a O corpo pode existir sem a alma?
– Sim, pode; porém, desde que cesse a vida no corpo, a alma o
abandona. Antes do nascimento, não há união definitiva entre a alma e o
corpo; ao passo que, depois que essa união está estabelecida, só a morte do
corpo rompe os laços que o unem à alma, que o deixa. A vida orgânica
pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo
em que não há vida orgânica.
136 b O que seria nosso corpo se não houvesse alma?
– Uma massa de carne sem inteligência, tudo o que quiserdes, exceto
um ser humano.
137 Um mesmo Espírito pode encarnar em dois corpos diferentes
ao mesmo tempo?
– Não; o Espírito é indivisível e não pode animar simultaneamente dois
seres diferentes. (Veja O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, cap. 7 – Da
Bicorporeidade e da Transfiguração.)
138 Que pensar daqueles que consideram a alma como o princípio
da vida material?
– É uma questão de palavras que não nos diz respeito. Começai por
vos entenderdes a vós mesmos.
139 Alguns Espíritos e, antes deles, alguns filósofos definiram
assim a alma: “Uma centelha anímica emanada do grande Todo”. Por
que essa contradição?
CAPÍTULO 2 – ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS
84
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
– Não há contradição; depende da significação das palavras. Por que
não tendes uma palavra para cada coisa?
G A palavra alma é empregada para exprimir coisas muito diferentes.
Uns chamam alma o princípio da vida, e com esse entendimento é exato
dizer, em sentido figurado, que a alma é “uma centelha anímica emanada
do grande Todo”. Essas últimas palavras indicam a fonte universal do
princípio vital do qual cada ser absorve uma porção que, depois da
morte, retorna à massa. Essa idéia não exclui a de um ser moral distinto,
independente da matéria e que conserva sua individualidade. É esse ser
que se chama, igualmente, alma, e é nesse sentido que se pode dizer que
a alma é um Espírito encarnado. Ao dar à alma definições diferentes, os
Espíritos falaram conforme a idéia que faziam da palavra e de acordo
com as idéias terrestres de que ainda estavam mais ou menos imbuídos.
Isso decorre da insuficiência da linguagem humana, que não tem
uma palavra para cada idéia, gerando uma infinidade de enganos e discussões.
Eis por que os Espíritos superiores nos dizem que nos entendamos
primeiro acerca das palavras (Ver na Introdução explicação mais
detalhada de alma).
140 O que pensar da teoria da alma subdividida em tantas partes
quanto os músculos e sendo responsável, assim, por cada uma das
funções do corpo?
– Isso depende ainda do sentido que se dá à palavra alma. Se a
entendermos como o fluido vital, tem razão; mas se queremos entendê-la
como Espírito encarnado, é errada. Como já dissemos, o Espírito é indivisível.
Ele transmite o movimento aos órgãos pelo fluido intermediário, sem
sedividir.
140 a Entretanto, há Espíritos que deram essa definição.
– Espíritos ignorantes podem tomar o efeito pela causa.
G A alma atua por intermédio dos órgãos e os órgãos são animados
pelo fluido vital, que se reparte entre eles e se concentra mais fortemente
nos órgãos que são os centros ou focos do movimento. Conseqüentemente,
não procede a idéia de igualar a alma ao fluido vital, se por alma
queremos dizer o Espírito que habita o corpo durante a vida e o abandona
na morte.
141 Há alguma verdade na opinião dos que pensam que a alma
é exterior e envolve o corpo?
– A alma não está aprisionada no corpo como um pássaro numa
gaiola. Irradiante, ela brilha e se manifesta ao redor dele como a luz através
de um globo de vidro ou como o som ao redor de um centro sonoro. É
desse modo que se pode dizer que é exterior, mas não é o envoltório do
corpo. A alma tem dois envoltórios ou corpos: um sutil e leve, que é o
primeiro, chamado perispírito; o outro, grosseiro, material e pesado, que é
o corpo carnal. A alma é o centro de todos esses envoltórios, como o
germe o é numa semente, como já dissemos.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
85
142 O que dizer desta outra teoria segundo a qual a alma, numa
criança, se completa a cada período de vida?
– O Espírito é um só, está completo na criança como no adulto. Os
órgãos ou instrumentos das manifestações da alma é que se desenvolvem
e se completam. Nesse caso é ainda tomar o efeito pela causa.
143 Por que todos os Espíritos não definem a alma da mesma
maneira?
– Os Espíritos não são todos igualmente esclarecidos sobre estas
questões. Há Espíritos cujos conhecimentos são ainda limitados e não
compreendem as coisas abstratas, como ocorre entre vós com as crianças.
Há também Espíritos pseudo-sábios, que fazem rodeio de palavras
para se impor; aliás, como acontece entre vós. Mas, além disso, os próprios
Espíritos esclarecidos podem se exprimir em termos diferentes que, no
fundo, têm o mesmo significado, especialmente quando se trata de coisas
para as quais a vossa linguagem é inadequada para exprimir claramente,
precisando de figuras e comparações que tomais como realidade.
144 O que se deve entender por alma do mundo?
– O princípio universal da vida e da inteligência de onde nascem as
individualidades. Mas aqueles que se servem dessas palavras freqüentemente
não se compreendem uns aos outros. A palavra alma tem uma
aplicação tão elástica que cada um a interpreta de acordo com a sua
imaginação. Já se atribuiu, também, uma alma à Terra, o que é preciso
entender como sendo o conjunto de Espíritos devotados que dirigem as
vossas ações no bom caminho quando os escutais, e que são, de algum
modo, os representantes de Deus em relação ao vosso globo.
145 Como tantos filósofos antigos e modernos têm discutido por
tanto tempo sobre a ciência psicológica sem ter chegado à verdade?
– Esses homens eram os precursores da Doutrina Espírita eterna. Eles
prepararam os caminhos. Eram homens e se enganaram, tomaram suas
próprias idéias pela luz. Mas os próprios erros servem para deduzir a verdade
ao mostrar os prós e os contras. Aliás, entre esses erros se encontram
grandes verdades, que um estudo comparativo tornará compreensíveis1.
146 A alma tem uma sede determinada e circunscrita no corpo?
– Não, mas está mais particularmente na cabeça entre os grandes
gênios, os que pensam muito, e no coração nos que têm sentimentos
elevados e cujas ações beneficiam toda a humanidade.
146 a Que pensar da opinião daqueles que colocam a alma num
centro vital?
– Isso quer dizer que o Espírito se localiza, de preferência, nessa parte
do vosso organismo, uma vez que é para aí que convergem todas as
sensações. Aqueles que a colocam no que consideram como centro da
CAPÍTULO 2 – ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS
1 - Compare essa resposta com a da questão 628 (N. E.).
86
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
vitalidade a confundem com o fluido ou princípio vital. Contudo, pode-se
dizer que a sede da alma está mais particularmente nos órgãos que servem
às manifestações intelectuais e morais.
MATERIALISMO
147 Por que os anatomistas2, os fisiologistas3 e em geral os que
se aprofundam nas ciências naturais são, muitas vezes, levados ao
materialismo?
– O fisiologista vê tudo à sua maneira. Orgulho dos homens, que acreditam
saber tudo e não admitem que alguma coisa possa ultrapassar seu
conhecimento. Sua própria ciência lhes dá presunção. Pensam que a natureza
não pode lhes ocultar nada.
148 Não é de lamentar que o materialismo seja uma conseqüência
de estudos que deveriam, ao contrário, mostrar ao homem a superioridade
da inteligência que governa o mundo? Por isso, pode-se
concluir que são perigosos?
– Não é exato dizer que o materialismo seja uma conseqüência desses
estudos. É o homem que tira deles uma falsa conseqüência, porque
tem a liberdade de abusar de tudo, mesmo das melhores coisas. O nada,
aliás, os amedronta mais do que eles demonstram, e os Espíritos fortes
são, muitas vezes, mais fanfarrões do que bravos. A maioria dos materialistas
só o são porque não têm nada para encher o vazio do abismo que se
abre diante deles. Mostre-lhes uma âncora de salvação e se agarrarão a
ela apressadamente.
G Por uma aberração4 da inteligência, há pessoas que vêem nos seres
orgânicos apenas a ação da matéria e a esta atribuem todos os nossos
atos. Vêem no corpo humano apenas a máquina elétrica; estudaram o
mecanismo da vida apenas pelo funcionamento dos órgãos que muitas
vezes viram se extinguir pela ruptura de um fio, e não viram nada mais que
esse fio.
Procuraram ver se restava alguma coisa e, como encontraram apenas
a matéria, que se tornara inerte, e não viram a alma escapar nem a
puderam apanhar, concluíram que tudo estava nas propriedades da
matéria e que, depois da morte, o pensamento se aniquilava. Triste conseqüência
se fosse assim, porque então o bem e o mal não teriam significação
alguma; o homem seria levado apenas a pensar em si mesmo
e a colocar acima de tudo a satisfação de seus prazeres materiais, os
laços sociais seriam rompidos e as afeições mais santas destruídas para
2 - Anatomista: profissional que estuda a forma e a estrutura dos órgãos do corpo humano
(N. E.).
3 - Fisiologista: profissional que estuda o funcionamento das atividades vitais do corpo humano:
crescimento, respiração, pensamento, etc. (N. E.).
4 - Aberração: desvio, distorção, desatino (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
87
todo o sempre. Felizmente, essas idéias estão longe de ser gerais, podese
até mesmo dizer que são muito limitadas e constituíram apenas opiniões
individuais, porque em nenhuma parte constituíram doutrina. Uma
sociedade fundada sobre essas bases teria em si o germe de sua dissolução,
e seus membros se entredevorariam como animais ferozes5.
O homem tem o pensamento instintivo de que nem tudo se acaba
quando cessa a vida. Tem horror ao nada. Ainda que teime e resista
inutilmente contra a idéia da vida futura, quando chega o momento supremo
são poucos os que não se perguntam o que vai ser deles; a idéia
de deixar a vida e não mais retornar é dolorosa. Quem poderia, de fato,
encarar com indiferença uma separação absoluta, eterna, de tudo o que
amou? Quem poderia, sem medo, ver abrir-se diante de si o imenso
abismo do nada onde se dissiparão para sempre todas as nossas capacidades,
todas as nossas esperanças, e dizer a si mesmo: “Qual o quê!
Depois de mim, nada, nada mais além do vazio; tudo acabou; daqui a
alguns dias minhas lembranças serão apagadas da memória dos que
me sobreviverem; daqui a pouco não restará nenhum traço de minha
passagem pela Terra; o próprio bem que fiz será esquecido pelos ingratos
a quem servi; e nada pode compensar tudo isso, nenhuma outra
perspectiva além do meu corpo roído pelos vermes!”
Esse quadro não tem alguma coisa de apavorante, glacial? A religião
nos ensina que não pode ser assim, e a razão o confirma. Mas essa
existência futura, vaga e indefinida não nos dá nenhuma esperança, sendo
para muitos a origem da dúvida. Temos uma alma, sim, mas o que é
nossa alma? Ela tem uma forma, uma aparência qualquer? É um ser
limitado ou indefinido? Uns dizem que é um sopro de Deus; outros, uma
centelha; outros, uma parte do grande Todo, o princípio da vida e da
inteligência, mas o que tudo isso nos oferece? O que nos importa ter
uma alma se depois da morte ela se confunde na imensidade como as
gotas d’água no oceano? A perda de nossa individualidade não é para
nós o mesmo que o nada? Diz-se, ainda, que é imaterial; mas uma coisa
imaterial não poderá ter proporções definidas e para nós equivale ao
nada. A religião ainda nos ensina que seremos felizes ou infelizes, conforme
o bem ou o mal que tivermos feito. Mas em que consiste essa
felicidade que nos espera no seio de Deus? É uma beatitude, uma contemplação
eterna, sem outra ocupação a não ser a de cantar louvores
ao Criador? As chamas do inferno são uma realidade ou um símbolo? A
própria Igreja as entende nesta última significação, mas quais são aqueles
sofrimentos? Onde está esse lugar de suplício? Numa palavra, o que se
faz, o que se vê, nesse mundo que nos espera a todos? Diz-se que
ninguém voltou de lá para nos prestar contas.
CAPÍTULO 2 – ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS
5 - Como animais ferozes: embora Kardec tenha escrito isso há quase 150 anos, os sistemas
políticos que se basearam na doutrina materialista se autodissolveram por si, não tiveram continuidade
(N. E.).
88
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
É um erro dizer isso. A missão do Espiritismo é precisamente a de
nos esclarecer sobre esse futuro, de nos fazer, até certo ponto, tocá-lo
e vê-lo, não mais só pelo raciocínio, mas apresentando fatos. Graças às
comunicações espíritas, isso não é uma presunção, uma probabilidade
que cada um entende à sua maneira, que os poetas embelezam com
suas ficções ou pintam de imagens alegóricas que nos enganam. É a
realidade que nos aparece, pois são os próprios Espíritos que vêm nos
descrever sua situação, nos dizer o que foram, o que nos permite assistir,
por assim dizer, a todas as peripécias de sua nova vida e, por esse
meio, nos mostram a sorte inevitável que nos está reservada, de acordo
com nossos méritos e deméritos. Há nisso algo de anti-religioso? Bem
ao contrário, uma vez que os incrédulos aí encontram a fé e os indecisos
a renovação de fervor e de confiança. O Espiritismo é o mais poderoso
auxiliar da religião. E se é assim, é porque Deus o permite e o permite
para reanimar nossas esperanças vacilantes e nos reconduzir ao caminho
do bem mediante a perspectiva do futuro.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
89
149 Em que se torna a alma logo após a morte?
– Volta a ser Espírito, ou seja, retorna ao mundo dos Espíritos, que
havia deixado temporariamente.
150 A alma, após a morte, conserva sua individualidade?
– Sim, nunca a perde. O que seria ela se não a conservasse?
150 a Como a alma continua a ter a sua individualidade, uma vez
que não possui mais seu corpo material?
– Ela ainda tem um fluido que lhe é próprio, tomado da atmosfera de
seu planeta e que representa a aparência de sua última encarnação: seu
perispírito.
150 b A alma nada leva consigo deste mundo?
– Nada mais que a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor.
Essa lembrança é cheia de doçura ou amargura, de acordo com o emprego
que fez da vida. Quanto mais pura, mais compreende a futilidade do
que deixa na Terra.
151 O que pensar da opinião de que, após a morte, a alma retorna
ao todo universal?
– O conjunto dos Espíritos não forma um todo? Não constitui um mundo
completo? Quando estais em uma assembléia, sois parte integrante dessa
assembléia e, entretanto, sempre conservais a individualidade.
152 Que prova podemos ter da individualidade da alma após a
morte?
– Não tendes essa prova por meio das comunicações que obtendes?
Se não fôsseis cegos, veríeis; e, se não fôsseis surdos, ouviríeis, pois muito
freqüentemente uma voz vos fala e revela a existência de um ser fora de vós.
G Aqueles que pensam que na morte a alma retorna ao todo universal
estão errados, se por isso entenderem que, semelhante a uma gota
d’água que cai no oceano, perde sua individualidade. Porém, estarão
certos se entenderem por todo universal o conjunto de seres incorpóreos,
do qual cada alma ou Espírito é um elemento.
A ALMA APÓS A MORTE
CAPÍTULO
3
RETORNO DA VIDA CORPORAL À
VIDA ESPIRITUAL
A alma após a morte; sua individualidade.
Vida eterna – Separação da alma e do corpo –
Perturbação espiritual
90
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Se as almas não se diferenciassem no todo, teriam apenas as qualidades
do conjunto e nada poderia distingui-las umas das outras; não
teriam nem inteligência, nem qualidades próprias. Porém, muito ao contrário
disso, em todas as comunicações demonstram ter consciência do
seu eu e uma vontade própria. A diversidade que apresentam em todas
as comunicações é conseqüência da sua individualidade. Se após a
morte houvesse somente o que se chama de o grande Todo que absorve
todas as individualidades, esse Todo seria uniforme e, então, todas
as comunicações do mundo invisível seriam idênticas. Uma vez que lá
se encontram seres bons e maus, sábios e ignorantes, felizes e infelizes,
e de todas as espécies: alegres e tristes, levianos e sérios, etc., é evidente
que são seres distintos. A individualidade torna-se ainda mais evidente
quando esses seres provam sua identidade por manifestações incontestáveis,
por detalhes pessoais relativos à sua vida terrestre que se
podem comprovar. Também não pode ser posta em dúvida quando se
tornam visíveis em suas aparições. A individualidade da alma nos foi
ensinada em teoria, como um artigo de fé. O Espiritismo a torna evidente
e, de certo modo, material.
153 Em que sentido se deve entender a vida eterna?
– É a vida do Espírito que é eterna; porém, a do corpo é transitória e
passageira. Quando o corpo morre, a alma retorna à vida eterna.
153 a Não seria mais exato chamar vida eterna à vida dos Espíritos
puros, aqueles que, tendo atingido o grau de perfeição, não têm
mais provas para suportar?
– Isso é, antes, a felicidade eterna. Porém, mais uma vez, é uma questão
de palavras: chamai as coisas como quiserdes, contanto que vos entendais.
SEPARAÇÃO DA ALMA E DO CORPO
154 O corpo ou a alma sente alguma dor no momento da morte?
– Não; o corpo sofre muitas vezes mais durante a vida do que no
momento da morte: a alma não toma nenhuma parte nisso. Os sofrimentos
que às vezes ocorrem no momento da morte são uma alegria para o
Espírito, que vê chegar o fim de seu exílio.
G Na morte natural, a que acontece pelo esgotamento dos órgãos em
conseqüência da idade, o homem deixa a vida sem se dar conta disso:
é como um foco de luz que se apaga por falta de suprimento.
155 Como se opera a separação da alma e do corpo?
– Quando os laços que a retinham se rompem, ela se desprende.
155 a A separação se opera instantaneamente e por uma transição
brusca? Há uma linha de demarcação nitidamente traçada entre
a vida e a morte?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
91
– Não; a alma se desprende gradualmente e não escapa como um
pássaro cativo subitamente libertado. Esses dois estados se tocam e se
confundem de maneira que o Espírito se desprende pouco a pouco dos
laços que o retinham no corpo físico: eles se desatam, não se quebram.
G Durante a vida, o Espírito se encontra preso ao corpo por seu
envoltório semimaterial ou perispírito. A morte é apenas a destruição do
corpo e não do perispírito, que se separa do corpo quando nele cessa a
vida orgânica. A observação demonstra que, no instante da morte, o
desprendimento do perispírito não se completa subitamente; opera-se
gradualmente e com uma lentidão muito variável, conforme os indivíduos.
Para uns é bastante rápido e pode-se dizer que o momento da morte é
ao mesmo instante o da libertação, quase imediata. Mas, para outros,
aqueles cuja vida foi extremamente material e sensual, o desprendimento
é mais demorado e dura algumas vezes dias, semanas e até mesmo
meses. Isso sem que haja no corpo a menor vitalidade nem a possibilidade
de um retorno à vida, mas uma simples afinidade entre corpo e
Espírito, afinidade que sempre se dá em razão da importância que, durante
a vida, o Espírito deu à matéria. É racional conceber, de fato, que
quanto mais o Espírito se identifica com a matéria, mais sofre ao se
separar dela. Por outro lado, a atividade intelectual e moral, a elevação
de pensamentos, operam um início do desprendimento mesmo durante
a vida do corpo, de tal forma que, quando a morte chega, o desprendimento
é quase instantâneo. Esse é o resultado de estudos feitos em
todos os indivíduos observados no momento da morte. Essas observações
ainda provaram que a afinidade que em alguns indivíduos persiste
entre a alma e o corpo é, algumas vezes, muito dolorosa, visto que o
Espírito pode sentir o horror da decomposição. Esse caso é excepcional
e particular para certos gêneros de vida e certos gêneros de morte;
verifica-se entre alguns suicidas.
156 A separação definitiva da alma do corpo pode ocorrer antes
da completa cessação da vida orgânica?
– Na agonia, a alma, algumas vezes, já deixou o corpo. Nada mais resta
nele do que a vida orgânica. O homem não tem mais consciência de si
mesmo e, entretanto, ainda há nele um sopro de vida orgânica. O corpo é
uma máquina que o coração faz mover. Existe, enquanto o coração faz circular
o sangue em suas veias, e não tem necessidade da alma para isso.
157 No momento da morte, a alma tem, às vezes, um desejo ou
um êxtase que lhe faz entrever o mundo em que vai entrar?
– Muitas vezes a alma sente desfazerem-se os laços que a
prendem ao corpo, então, faz todos os seus esforços para rompê-los completamente.
Já em parte desprendida da matéria, vê o futuro desdobrar-se
à sua frente e desfruta, por antecipação, do estado de Espírito.
CAPÍTULO 3 – RETORNO DA VIDA CORPORAL À VIDA ESPIRITUAL
92
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
158 O exemplo da lagarta, que inicialmente rasteja na terra, depois
se fecha na sua crisálida1 numa morte aparente para renascer
em uma existência brilhante, pode nos dar uma idéia da vida terrestre,
da vida espiritual e, enfim, de nossa nova existência?
– Uma idéia imperfeita, mas a imagem é boa. Não deverá, entretanto,
ser tomada ao pé da letra, como muitas vezes fazeis.
159 Que sensação experimenta a alma no momento em que reconhece
estar no mundo dos Espíritos?
– Isso depende. Se fizestes o mal com o desejo de fazê-lo, vos envergonhareis
de tê-lo feito, num primeiro momento. Para o justo, é bem
diferente: é como o alívio de um grande peso, porque não teme nenhum
olhar indagador.
160 O Espírito encontra imediatamente aqueles que conheceu
na Terra e que desencarnaram antes dele?
– Sim, de acordo com a afeição que havia entre eles, muitas vezes
vêm recebê-lo na volta ao mundo dos Espíritos e o ajudam a se desprender
das faixas da matéria. Assim como reencontra também muitos que
havia perdido de vista durante sua permanência na Terra. Vê os que estão
na erraticidade2, como também vai visitar os que estão encarnados.
161 Na morte violenta e acidental, quando os órgãos ainda não
estão enfraquecidos pela idade ou por doenças, a separação da alma
e o término da vida ocorrem simultaneamente?
– Geralmente é simultâneo, mas, em todos os casos, o momento
dessa separação é muito curto.
162 No caso de decapitação, por exemplo, o homem conserva
por alguns instantes a consciência de si mesmo?
– Muitas vezes a conserva durante alguns minutos, até que a vida
orgânica tenha-se extinguido completamente. Mas às vezes ocorre que a
apreensão da morte pode fazer com que perca a consciência mesmo
antes do instante do suplício.
G Trata-se aqui da consciência que o supliciado pode ter de si mesmo,
como homem e por intermédio dos órgãos, e não como Espírito. Se
não perdeu a consciência antes do suplício pode, ainda, conservá-la
por alguns instantes que são de uma duração muito curta e cessa necessariamente
com a vida orgânica do cérebro, o que não implica que o
perispírito esteja completamente desligado do corpo. Pelo contrário: em
todos os casos de morte violenta, quando não acontece pela extinção
natural das forças vitais, os laços que unem o corpo ao perispírito são
muito fortes, e o desprendimento completo demora mais.
1 - Crisálida: estado intermediário entre lagarta e borboleta. No contexto, significa a transformação,
o vir a ser (N. E.).
2 - Veja a questão 223 e seguintes. (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
93
PERTURBAÇÃO ESPIRITUAL
163 A alma, ao deixar o corpo, tem imediatamente consciência
de si mesma?
– Consciência imediata não. Ela passa algum tempo como num estado
de perturbação.
164 Todos os Espíritos experimentam, no mesmo grau e com a
mesma duração, a perturbação que se segue à separação da alma e
do corpo?
– Não, isso depende de sua elevação. Aquele que já está depurado
reconhece a sua nova situação quase imediatamente, porque já se libertou
da matéria durante a vida do corpo, enquanto o homem carnal, aquele
cuja consciência não é pura, conserva durante muito mais tempo as sensações
da matéria.
165 O conhecimento do Espiritismo tem alguma influência sobre
a duração, mais ou menos longa, dessa perturbação?
– Uma influência muito grande, uma vez que o Espírito já compreendia
antecipadamente sua situação. Mas a prática do bem e a consciência
pura exercem maior influência.
G No momento da morte, tudo é inicialmente confuso; a alma necessita
de algum tempo para se reconhecer. Ela fica atordoada, semelhante
à situação de uma pessoa que desperta de um profundo sono e procura
se dar conta da situação. A lucidez das idéias e a memória do passado
voltam à medida que se apaga a influência da matéria da qual acaba de
se libertar e à medida que se vai dissipando uma espécie de névoa que
obscurece seus pensamentos.
O tempo da perturbação que se segue à morte do corpo é bastante
variável. Pode ser de algumas horas, de muitos meses ou até mesmo de
muitos anos. É menos longa para aqueles que se identificaram já na vida
terrena com seu estado futuro, porque compreendem imediatamente
sua posição.
Essa perturbação apresenta circunstâncias particulares de acordo
com o caráter dos indivíduos e, principalmente, com o gênero de morte.
Nas mortes violentas, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia3, ferimentos,
etc., o Espírito fica surpreso, espantado e não acredita estar
morto. Sustenta essa idéia com insistência e teimosia. Entretanto, vê
seu corpo, sabe que é o seu e não compreende que esteja separado
dele. Procura aproximar-se de pessoas que estima, fala com elas e não
compreende por que não o escutam. Essa ilusão dura até o completo
desprendimento do perispírito. Só então o Espírito reconhece o estado
em que se encontra e compreende que não faz mais parte do mundo
dos vivos. Esse fenômeno se explica facilmente. Surpreendido pela morte,
CAPÍTULO 3 – RETORNO DA VIDA CORPORAL À VIDA ESPIRITUAL
3 - Apoplexia: lesão cerebral aguda; derrame cerebral (N. E.).
94
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
o Espírito fica atordoado com a brusca mudança que se operou nele. A
morte é, para ele, sinônimo de destruição, de aniquilamento. Mas, como
ainda pensa, vê, escuta, não se considera morto. O que aumenta ainda
mais sua ilusão é o fato de se ver num corpo semelhante ao anterior,
cuja natureza etérea não teve ainda tempo de estudar. Acredita que seja
sólido e compacto como o primeiro; e quando percebe esse detalhe, se
espanta por não poder apalpá-lo. Esse fenômeno é semelhante ao que
acontece com os sonâmbulos inexperientes que não acreditam dormir,
porque, para eles, o sono é sinônimo de suspensão das atividades, e,
como podem pensar livremente e ver, julgam não estar dormindo. Alguns
Espíritos apresentam essa particularidade, embora a morte não tenha acontecido
inesperadamente. Porém, é sempre mais generalizada naqueles
que, apesar de estar doentes, não pensavam em morrer. Vê-se, então, o
singular espetáculo de um Espírito assistir ao seu enterro como sendo
o de um estranho e falando sobre o assunto como se não lhe dissesse
respeito, até o momento em que compreende a verdade.
A perturbação que se segue à morte nada tem de pesaroso para o
homem de bem! É calma e muito semelhante à de um despertar tranqüilo.
Para aquele cuja consciência não é pura, a perturbação é cheia de
ansiedade e angústias que aumentam à medida que reconhece a situação
em que se encontra.
Nos casos de morte coletiva, tem-se observado que os que perecem
ao mesmo tempo nem sempre se revêem imediatamente. Na perturbação
que se segue à morte, cada um vai para seu lado, ou apenas
se preocupa com aqueles que lhe interessam.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
95
166 Como a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida
corporal, pode acabar de se depurar?
– Submetendo-se à prova de uma nova existência.
166 a Como a alma realiza essa nova existência? É pela sua
transformação como Espírito?
– A alma, ao se depurar, sofre sem dúvida uma transformação, mas
para isso é preciso que passe pela prova da vida corporal.
166 b A alma tem, portanto, que passar por muitas existências
corporais?
– Sim, todos nós temos muitas existências. Os que dizem o
contrário querem vos manter na ignorância em que eles próprios se encontram.
Esse é o desejo deles.
166 c Desse princípio parece resultar que a alma, após ter deixado
um corpo, toma outro, ou seja, reencarna em um novo corpo. É
assim que se deve entender?
– Evidentemente.
167 Qual é o objetivo da reencarnação?
– Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isso, onde
estaria a justiça?
168 O número de existências corporais é limitado ou o Espírito
reencarna perpetuamente?
– A cada nova existência, o Espírito dá um passo no caminho do
progresso. Quando se libertar de todas as suas impurezas, não tem mais
necessidade das provações da vida corporal.
169 O número de encarnações é o mesmo para todos os Espíritos?
– Não; aquele que caminha rápido se poupa das provas. Todavia,
essas encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o
progresso é quase infinito.
170 Em que se torna o Espírito após sua última encarnação?
– Espírito bem-aventurado; é um Espírito puro.
A REENCARNAÇÃO
CAPÍTULO
4
PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
A reencarnação – Justiça da reencarnação –
Encarnação nos diferentes mundos – Transmigração
progressiva – Destinação das crianças após a morte –
Sexo nos Espíritos – Parentesco, filiação –
Semelhanças físicas e morais – Idéias inatas
96
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO
171 Em que se baseia o dogma1 da reencarnação?
– Na justiça de Deus e na revelação, e repetimos incessantemente:
um bom pai deixa sempre para seus filhos uma porta aberta ao arrependimento.
A razão não vos diz que seria injusto privar, para sempre, da felicidade
eterna todos aqueles cujo aprimoramento não dependeu deles mesmos?
Não são todos os homens filhos de Deus? Só homens egoístas podem
pregar a injustiça, o ódio implacável e os castigos sem perdão.
G Todos os Espíritos estão destinados à perfeição, e Deus lhes fornece
os meios de alcançá-la pelas provações da vida corporal. Mas, na
Sua justiça, lhes permite cumprir, em novas existências, o que não puderam
fazer, ou acabar, numa primeira prova.
Não estaria de acordo nem com a igualdade, a justiça, nem com a
bondade de Deus condenar para sempre os que encontraram, no
próprio meio em que viveram, obstáculos ao seu melhoramento, independentemente
de sua vontade. Se a sorte do homem estivesse irrevogavelmente
fixada após a morte, Deus não teria pesado as ações de
todos numa única e mesma balança e não agiria com imparcialidade.
A doutrina da reencarnação, que consiste em admitir para o homem
diversas existências sucessivas, é a única que responde à idéia
que fazemos da justiça de Deus em relação aos homens que se acham
numa condição moral inferior; a única que pode nos explicar o futuro e
firmar nossas esperanças, porque nos oferece o meio de resgatar nossos
erros por novas provações. A razão nos demonstra essa doutrina e
os Espíritos a ensinam.
O homem que tem consciência de sua inferioridade encontra na
doutrina da reencarnação uma esperança consoladora. Se acredita na
justiça de Deus, não pode esperar achar-se, perante a eternidade, em
pé de igualdade com aqueles que agiram melhor do que ele. Contudo, o
pensamento de que essa inferioridade não o exclui para sempre do bem
supremo que conquistará mediante novos esforços o sustenta e lhe
reanima a coragem. Quem é que, no término de sua caminhada, não
lamenta ter adquirido muito tarde uma experiência que não pode mais
aproveitar? Porém, essa experiência tardia não está perdida; tirará proveito
dela numa nova vida.
1 - Dogma: essa palavra adquiriu de forma genérica o significado de um princípio, um ponto de
doutrina infalível e indiscutível. Porém, o seu verdadeiro sentido não é esse. A Doutrina Espírita
não é dogmática no sentido que se conhece em alguns credos religiosos que adotam o princípio
de filosofia em que a fé se sobrepõe à razão (fideísmo) para acomodar e justificar suas posições
de crença.
A palavra dogma está aqui com o seu significado, isto é, a união de um fundamento, um princípio
divino, com a experiência humana. Allan Kardec a emprega aqui e nas demais obras da Codificação
Espírita com esse sentido, e igualmente os Espíritos se referiram ao dogma da reencarnação com
essa significação, como se vê na resposta e à frente, na Parte Segunda, cap. 5, desta obra (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
97
ENCARNAÇÃO NOS DIFERENTES MUNDOS
172 Nossas diferentes existências corporais se passam todas na
Terra?
– Não, nem todas, mas em diferentes mundos. As que passamos na
Terra não são nem as primeiras nem as últimas, embora sejam das mais
materiais e mais distantes da perfeição.
173 A alma, a cada nova existência corporal, passa de um mundo
para outro ou pode ter várias existências num mesmo globo?
– Ela pode reviver diversas vezes num mesmo globo, se não for suficientemente
avançada para passar a um mundo superior.
173 a Desse modo, podemos reaparecer muitas vezes na Terra?
– Certamente.
173 b Podemos voltar à Terra após ter vivido em outros mundos?
– Seguramente. Já vivestes em outros mundos além da Terra.
174 Voltar a viver na Terra é uma necessidade?
– Não; mas se não avançardes, podereis ir para um outro mundo que
não seja melhor e que pode até ser pior.
175 Existe alguma vantagem em voltar a habitar a Terra?
– Nenhuma vantagem em particular, a menos que se esteja em missão.
Nesse caso se progride aí como em qualquer outro mundo.
175 a Não seria melhor permanecer como Espírito?
– Não, não. Seria permanecer estacionário, e o que se quer é avançar
para Deus.
176 Os Espíritos, após terem encarnado em outros mundos, podem
encarnar neste, sem nunca terem passado por aqui?
– Sim, como vós em outros mundos. Todos os mundos são
solidários: o que não se cumpre em um se cumpre em outro.
176 a Desse modo, há homens que estão na Terra pela primeira vez?
– Há muitos e em diversos graus.
176 b Pode-se reconhecer por um sinal qualquer quando um Espírito
está pela primeira vez na Terra?
– Isso não teria nenhuma utilidade.
177 Para chegar à perfeição e à felicidade suprema, que são o
objetivo final de todos os homens, o Espírito deve passar por todos os
mundos que existem no universo?
– Não. Há muitos mundos que estão num mesmo grau da escala
evolutiva e onde o Espírito não aprenderia nada de novo.
177 a Como então explicar a pluralidade dessas existências num
mesmo globo?
– O Espírito pode aí se encontrar a cada vez em posições bem diferentes,
que são para ele outras ocasiões de adquirir experiência.
CAPÍTULO 4 – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
98
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
178 Os Espíritos podem encarnar corporalmente num mundo relativamente
inferior àquele em que já viveram?
– Sim, se for para cumprir uma missão e ajudar no progresso. Aceitam
com alegria as dificuldades dessa existência, porque lhes oferecem um
meio de avançar.
178 a Isso não pode ocorrer por expiação? Deus não pode enviar
Espíritos rebeldes para mundos inferiores?
– Os Espíritos podem permanecer estacionários, mas não regridem.
Quando estacionam, sua punição é não avançar e ter de recomeçar as
existências mal-empregadas num meio conveniente à sua natureza.
178 b Quais são aqueles que devem recomeçar a mesma existência?
– Os que falharam em sua missão ou em suas provações.
179 Os seres que habitam cada mundo atingiram um mesmo grau
de perfeição?
– Não, é como na Terra: há seres mais avançados e menos avançados.
180 Ao passar deste mundo para um outro, o Espírito conserva a
inteligência que tinha aqui?
– Sem dúvida, a inteligência não se perde, mas pode não ter os mesmos
meios de manifestá-la; isso depende de sua superioridade e das
condições do corpo que vai tomar. (Veja “Influência do organismo”, Parte
Segunda, cap. 7).
181 Os seres que habitam os diferentes mundos possuem corpo
semelhante aos nosso?
– Sem dúvida possuem corpo, porque é preciso que o Espírito esteja
revestido de matéria para agir sobre a matéria. Porém, esse corpo é mais
ou menos material, de acordo com o grau de pureza a que chegaram os
Espíritos. E é isso que diferencia os mundos que devem percorrer; porque
há muitas moradas na casa de nosso Pai e, portanto, muitos graus. Alguns
o sabem e têm consciência disso na Terra; outros não sabem nada.
182 Podemos conhecer exatamente o estado físico e moral dos
diferentes mundos?
– Nós, Espíritos, só podemos responder de acordo com o grau de
adiantamento em que vos encontrais. Portanto, não devemos revelar essas
coisas a todos, visto que nem todos terão alcance de compreendê-las,
e isso os perturbaria.
G À medida que o Espírito se purifica, o corpo que o reveste se aproxima
igualmente da natureza espírita. A matéria torna-se menos densa,
ele não mais se arrasta em sofrimento pela superfície do solo, as necessidades
físicas são menos grosseiras e os seres vivos não têm mais
necessidade de se destruírem mutuamente para se alimentar. O Espírito
é mais livre e, para atingir coisas distantes, tem percepções que nos são
desconhecidas. Ele vê pelos olhos do corpo o que apenas pelo pensamento
podemos imaginar.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
99
A purificação dos Espíritos reflete-se na perfeição moral dos seres
em que estão encarnados. As paixões brutais se enfraquecem e o egoísmo
dá lugar a um sentimento fraternal. É desse modo que, nos mundos
superiores à Terra, as guerras são desconhecidas, os ódios e as discórdias
não têm motivo, porque ninguém pensa em fazer o mal a seu semelhante.
A intuição que têm do futuro, a segurança que uma consciência
livre de remorsos lhes dá, fazem com que a morte não lhes cause
nenhuma apreensão, por isso a encaram sem temor e a compreendem
como uma simples transformação.
A duração da vida nos diferentes mundos parece ser proporcional
ao grau de superioridade física e moral desses mundos, e isso é perfeitamente
racional. Quanto menos material é o corpo, menos está sujeito
às alternâncias e instabilidades que o desorganizam. Quanto mais puro
é o Espírito, mais livre das paixões que o destroem. Esse é ainda um
benefício da Providência que, desse modo, abrevia os sofrimentos.
183 Ao ir de um mundo para outro, o Espírito passa por uma nova
infância?
– A infância é em todos os lugares uma transição necessária, mas não
é tão frágil em todos os lugares como entre vós, na Terra.
184 O Espírito pode escolher o novo mundo que vai habitar?
– Nem sempre, mas pode pedir e conseguir isso se o merecer; porque
os mundos são acessíveis aos Espíritos de acordo com seu grau de
elevação.
184 a Se o Espírito não pede nada, o que determina o mundo em
que deve reencarnar?
– O grau de sua elevação.
185 O estado físico e moral dos seres vivos é perpetuamente o
mesmo em cada globo?
– Não; os mundos estão também submetidos à lei do progresso2.
Todos começaram como o vosso, por um estado inferior, e a própria Terra
passará por uma transformação semelhante. Ela será um paraíso quando
os homens se tornarem bons.
G É assim que as raças que hoje povoam a Terra desaparecerão um
dia e serão substituídas por seres cada vez mais perfeitos. Essas raças
transformadas sucederão às atuais, como as atuais sucederam a outras
ainda mais atrasadas.
186 Há mundos em que o Espírito, deixando de habitar um corpo
material, tem apenas como envoltório o perispírito?
– Sim, há. Nesses mundos até mesmo esse envoltório, o perispírito,
torna-se tão etéreo que para vós é como se não existisse. É o estado dos
Espíritos puros.
CAPÍTULO 4 – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
2 - Assunto abordado nesta obra, na Parte Terceira, cap. 8 (N. E.).
100
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
186 a Disso parece resultar que não há uma demarcação definida
entre o estado das últimas encarnações e o de Espírito puro?
– Essa demarcação não existe. A diferença nesse caso se desfaz
pouco a pouco, torna-se imperceptível, assim como a noite se desfaz diante
dos primeiros clarões da alvorada.
187 A substância do perispírito é a mesma em todos os globos?
– Não; é mais ou menos etérea. Ao passar de um mundo para outro,
o Espírito se reveste instantaneamente da matéria própria de cada um
deles, com a rapidez de um relâmpago.
188 Os Espíritos puros habitam mundos especiais, ou estão no espaço
universal, sem estar ligados mais a um mundo do que a outro?
– Os Espíritos puros habitam determinados mundos, mas não estão
restritos a eles como os homens estão à Terra; eles podem, melhor do que
os outros, estar em todos os lugares*.
* De acordo com o ensinamento dos Espíritos, de todos os globos que compõem o nosso sistema
planetário, a Terra é onde os habitantes são menos avançados, tanto física quanto moralmente.
Marte ainda estaria inferior, e Júpiter muito superior em todos os sentidos. O Sol não seria um
mundo habitado por seres corporais, e sim um lugar de encontro de Espíritos superiores que, de lá,
irradiam seus pensamentos para outros mundos, que dirigem por intermédio de Espíritos menos
elevados, transmitindo-os a eles por meio do fluido universal. Como constituição física, o Sol seria
um foco de eletricidade. Todos os sóis parecem estar numa posição idêntica.
O volume e a distância que estão do Sol não têm nenhuma relação necessária com o grau de
adiantamento dos mundos, pois parece que Vênus é mais avançado que a Terra, e Saturno menos
que Júpiter.
Muitos Espíritos que na Terra animaram pessoas conhecidas disseram estar encarnados em
Júpiter, um dos mundos mais próximos da perfeição, e é admirável ver, nesse globo tão avançado,
homens que, na opinião geral que fazemos deles, não eram reconhecidos como tão elevados. Isso
não deve causar admiração, se considerarmos que alguns Espíritos que habitam Júpiter podem ter
sido enviados à Terra para cumprir uma missão que, aos nossos olhos, não os colocava em primeiro
plano; que, entre sua existência terrestre e a de Júpiter, podem ter tido outras intermediárias, nas
quais se melhoraram. E, finalmente, que nesse mundo, como no nosso, há diferentes graus de
desenvolvimento, e que entre esses graus pode haver a mesma distância como a que separa entre
nós o selvagem do homem civilizado. Desse modo, o fato de habitarem Júpiter não quer dizer que
estão no mesmo padrão dos seres mais avançados de lá, da mesma forma que não se está no
mesmo padrão de um sábio da Universidade só porque se reside em Paris.
As condições de longevidade não são também as mesmas que na Terra, e por isso não se pode
comparar a idade. Um Espírito evocado, desencarnado há alguns anos, disse estar encarnado há
seis meses num mundo cujo nome nos é desconhecido. Interrogado sobre a idade que tinha nesse
mundo, respondeu: “Não posso avaliá-la, porque não contamos o tempo como vós; além do mais,
o modo de vida não é o mesmo; desenvolvemo-nos lá com muito mais rapidez; embora não faça
mais que seis dos vossos meses que lá estou, posso dizer que, quanto à inteligência, tenho trinta
anos da idade que tive na Terra”.
Muitas respostas semelhantes nos foram dadas por outros Espíritos, e isso nada tem de inacreditável.
Não vemos na Terra um grande número de animais adquirir em poucos meses seu desenvolvimento
normal? Por que não poderia ocorrer o mesmo com os habitantes de outras esferas?
Notemos, por outro lado, que o desenvolvimento adquirido pelo homem na Terra, na idade de trinta
anos, pode ser apenas uma espécie de infância, comparado ao que deve alcançar. Bem curto de
vista se revela quem nos toma em tudo por protótipos da criação, e é rebaixar a Divindade crer que,
fora o homem, nada mais é possível a Deus (N. K.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
101
TRANSMIGRAÇÃO3 PROGRESSIVA
189 Desde o princípio de sua formação, o Espírito desfruta da
plenitude de suas faculdades?
– Não, o Espírito, assim como o homem, tem também sua infância.
Na origem, os Espíritos têm somente uma existência instintiva e mal têm
consciência de si mesmos e de seus atos. É pouco a pouco que a inteligência
se desenvolve.
190 Qual é o estado da alma em sua primeira encarnação?
– É o estado de infância na vida corporal. Sua inteligência apenas
desabrocha: a almaensaia para a vida.
191 As almas de nossos selvagens são almas em estado de infância?
– De infância relativa; são almas já desenvolvidas, pois já sentem
paixões.
191 a As paixões são, então, um sinal de desenvolvimento?
– De desenvolvimento sim, mas não de perfeição. As paixões são um
sinal da atividade e da consciência do eu, visto que, na alma primitiva, a
inteligência e a vida estão em estado de germe.
G A vida do Espírito, em seu conjunto, passa pelas mesmas fases que
vemos na vida corporal. Gradualmente, passa do estado de embrião ao
de infância para atingir, no decurso de uma sucessão de períodos, o de
adulto, que é o da perfeição, com a diferença de que não conhece o
declínio e a decrepitude, isto é, a velhice extrema como na vida corporal.
Essa vida, que teve começo, não terá fim; precisa de um tempo
imenso, do nosso ponto de vista, para passar da infância espírita a um
desenvolvimento completo, e seu progresso se realiza não somente num
único mundo, mas passando por diversos mundos. A vida do Espírito se
compõe, assim, de uma série de existências corporais, e cada uma delas
é uma ocasião para o seu progresso, como cada existência corporal
se compõe de uma série de dias em cada um dos quais o homem adquire
um acréscimo de experiência e instrução. Mas, da mesma forma
que, na vida do homem, há dias que não trazem nenhum proveito, também
na do Espírito há existências corporais sem resultado, por não as
ter sabido aproveitar.
192 Pode-se, na vida atual, por efeito de uma conduta perfeita,
superar todos os graus e tornar-se um Espírito puro sem passar por
graus intermediários?
– Não, porque o que para o homem parece perfeito está longe da
perfeição. Existem qualidades que lhe são desconhecidas e que não pode
compreender. Ele pode ser tão perfeito quanto comporte a perfeição de
sua natureza terrestre, mas não é a perfeição absoluta. Da mesma forma
CAPÍTULO 4 – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
3 - Transmigração: passagem da alma de um corpo para outro (N. E.).
102
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
que uma criança, por mais precoce que seja, tem que passar pela juventude
antes de alcançar a idade madura; e um doente tem que passar pelo
estado de convalescença antes de recuperar a saúde. Aliás, o Espírito
deve avançar em ciência e moralidade; se progrediu apenas num deles, é
preciso que progrida no outro, para atingir o alto da escala. Porém, quanto
mais o homem avança em sua vida presente, menos longas e difíceis
serão as provas futuras.
192 a O homem pode, pelo menos, assegurar nesta vida uma
existência futura menos cheia de amarguras?
– Sim, sem dúvida, pode abreviar a extensão e reduzir as dificuldades
do caminho. Só o negligente se encontra sempre na mesma situação.
193 Um homem, numa futura existência, pode descer mais baixo
do que na atual?
– Como posição social, sim; como Espírito, não.
194 A alma de um homem de bem pode, numa nova encarnação,
animar o corpo de um perverso?
– Não. Ela não pode regredir.
194 a A alma de um homem perverso pode tornar-se a de um
homem de bem?
– Sim, se houver arrependimento, o que, então, é uma recompensa.
G A marcha dos Espíritos é progressiva e não retrógrada. Elevam-se
gradualmente na hierarquia e não descem da categoria que já alcançaram.
Em suas diferentes existências corporais podem descer como homens,
mas não como Espíritos. Assim, a alma de um poderoso da Terra
pode mais tarde animar o mais humilde operário, e vice-versa; essas
posições entre os homens ocorrem muitas vezes na razão inversa dos
sentimentos morais. Herodes era rei e Jesus, carpinteiro.
195 A possibilidade de se melhorar numa outra existência não
pode levar certas pessoas a perseverar no mau caminho, pelo pensamento
de que poderão sempre se corrigir mais tarde?
– Aquele que pensa assim não acredita em nada, e nem a idéia de um
castigo eterno o amedrontaria mais do que qualquer outra, porque sua
razão a repele, e essa idéia leva-o à incredulidade a respeito de tudo. Se
unicamente se tivessem empregado meios racionais para orientar os homens,
não haveria tantos céticos. Um Espírito imperfeito pode, de fato,
durante sua vida corporal, pensar como dizeis; mas, uma vez libertado da
matéria, pensa de outra forma, porque logo se apercebe de que fez um
cálculo errado e, então, virá consciente de um sentimento contrário a esse,
na sua nova existência. É assim que se realiza o progresso e é por essa
razão que existem na Terra homens mais avançados que outros; uns já
possuem a experiência que outros ainda não têm, mas que adquirirão
pouco a pouco. Depende deles impulsionar o seu próprio progresso ou
retardá-lo indefinidamente.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
103
G O homem que se encontra numa posição má deseja trocá-la o mais
depressa possível. Aquele que está convencido de que as dificuldades desta
vida são a conseqüência de suas imperfeições procurará garantir uma nova
existência menos sofrida, e esse pensamento o desviará mais depressa do
caminho do mal do que a idéia do fogo eterno, em que não acredita.
196 Se os Espíritos apenas podem melhorar-se suportando as
dificuldades da existência corporal, segue-se que a vida material seria
uma espécie de cadinho4 ou depurador por onde devem passar
para alcançar a perfeição?
– Sim, é exatamente assim. Eles se melhoram nessas provações evitando
o mal e praticando o bem. Mas é só depois de várias encarnações
ou depurações sucessivas que atingem o objetivo a que se destinam após
um tempo mais ou menos longo e de acordo com seus esforços.
196 a É o corpo que influi sobre o Espírito para melhorá-lo, ou o
Espírito que influi sobre o corpo?
– Teu Espírito é tudo; teu corpo é uma vestimenta que apodrece; eis tudo.
G No suco da videira, nós encontramos uma comparação semelhante
aos diferentes graus da depuração da alma. Ele contém o licor chamado
espírito ou álcool, mas enfraquecido por uma série de matérias estranhas
que lhe alteram a essência. Essa essência só atinge a pureza
absoluta após diversas destilações, em cada uma das quais se depura
das várias impurezas. O corpo é o alambique no qual a alma deve entrar
para se depurar; as matérias estranhas são como o perispírito que se
depura à medida que o Espírito se aproxima da perfeição.
DESTINAÇÃO DAS CRIANÇAS APÓS A MORTE
197 O Espírito de uma criança que desencarna em tenra idade
poderá ser tão avançado quanto o de um adulto?
– Algumas vezes é mais, porque pode ter vivido muito mais e ter mais
experiência, principalmente se progrediu.
197 a O Espírito de uma criança pode, então, ser mais avançado
do que o de seu pai?
– Isso é muito freqüente. Vós mesmos não vedes isso muitas vezes
na Terra?
198 De uma criança que morre em tenra idade, e, portanto, não
tendo praticado o mal, podemos supor que seu Espírito pertença aos
graus superiores?
– Se não fez o mal, não fez o bem, e Deus não a isenta das provações
que deve passar. Seu grau de pureza não ocorre porque tenha animado o
corpo de uma criança, mas pelo progresso que já realizou.
CAPÍTULO 4 – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
4 - Cadinho: vaso refratário onde se fundem os metais. Neste caso, local em que os sentimentos
são apurados (N. E.).
104
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
199 Por que a vida é muitas vezes interrompida na infância?
– A duração da vida de uma criança pode ser, para o Espírito que nela
está encarnado, o complemento de uma existência anterior interrompida
antes do tempo. Sua morte é, muitas vezes, também uma provação ou
uma expiação para os pais.
199 a O que acontece com o Espírito de uma criança que morre
em tenra idade?
– Ela recomeça uma nova existência.
G Se o homem tivesse apenas uma existência e se, depois dela, sua
destinação futura fosse fixada perante a eternidade, qual seria o mérito
de metade da espécie humana que morre em tenra idade, para desfrutar,
sem esforços, da felicidade eterna? E com que direito ficaria desobrigada
e livre das condições, muitas vezes tão duras, impostas à outra
metade? Tal ordem de coisas não estaria de acordo com a justiça de
Deus. Pela reencarnação, a igualdade é para todos. O futuro pertence a
todos sem exceção e sem favorecer a ninguém. Os que se retardam
não podem culpar senão a si mesmos. O homem deve ter o mérito de
seus atos, como tem de sua responsabilidade.
Além do mais, não é racional considerar a infância como um estado
normal de inocência. Não se vêem crianças dotadas dos piores instintos
numa idade em que a educação ainda não pôde exercer sua influência?
Não há algumas que parecem trazer do berço a astúcia, a falsidade, a
malícia, até mesmo o instinto de roubo e de homicídio, apesar dos bons
exemplos que lhe são dados de todos os lados? A lei civil as absolve de
seus delitos, porque considera que agem sem discernimento. E tem razão,
porque, de fato, agem mais instintivamente do que pela própria vontade.
Porém, de onde podem se originar esses instintos tão diferentes em crianças
da mesma idade, educadas nas mesmas condições e submetidas às
mesmas influências? De onde vem essa perversidade precoce, senão da
inferioridade do Espírito, uma vez que a educação em nada contribuiu para
isso? As que são dadas a vícios, é porque seu Espírito progrediu menos e,
portanto, sofrem as conseqüências, não por seus atos de infância, mas por
aqueles de suas existências anteriores. E é desse modo que a lei é igual
para todos, e a justiça de Deus a todos alcança.
SEXO NOS ESPÍRITOS
200 Os Espíritos têm sexo?
– Não como o entendeis, porque o sexo depende do organismo físico.
Existe entre eles amor e simpatia, mas fundados na identidade dos
sentimentos.
201 O Espírito que animou o corpo de um homem pode, em uma
nova existência, animar o de uma mulher e vice-versa?
– Sim, são os mesmos Espíritos que animam os homens e as mulheres.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
105
202 Quando está na erraticidade, o Espírito prefere encarnar no
corpo de um homem ou de uma mulher?
– Isso pouco importa ao Espírito. Depende das provas que deve
suportar.
G Os Espíritos encarnam como homens ou mulheres, porque não
têm sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, assim como
cada posição social, lhes oferece provas, deveres especiais e a ocasião
de adquirir experiência. Aquele que encarnasse sempre como homem
apenas saberia o que sabem os homens.
PARENTESCO, FILIAÇÃO
203 Os pais transmitem aos filhos uma porção de sua alma ou
limitam-se a dar-lhes a vida animal a que uma nova alma, mais tarde,
vem acrescentar a vida moral?
– Dão-lhe apenas a vida animal, porque a alma é indivisível. Um pai
estúpido pode ter filhos inteligentes e vice-versa.
204 Uma vez que tivemos diversas existências, o parentesco pode
recuar além de nossa existência atual?
– Não pode ser de outra forma. A sucessão das existências corporais
estabelece entre os Espíritos laços que remontam às existências anteriores.
Daí muitas vezes decorrem as causas de simpatia entre vós e alguns
Espíritos que vos parecem estranhos.
205 Por que, aos olhos de certas pessoas, a doutrina da reencarnação
se apresenta como destruidora dos laços de família por fazêlos
recuar às existências anteriores?
– Ela não os destrói. Ela os amplia. O parentesco, estando fundado
em afeições anteriores, faz com que os laços que unem os membros de
uma mesma família sejam mais vigorosos. Essa doutrina amplia também
os deveres da fraternidade, uma vez que, entre os vossos vizinhos, ou
entre os servidores, pode-se encontrar um Espírito que esteve ligado a
vós pelos laços de sangue.
205 a Ela diminui, entretanto, a importância que alguns atribuem à
sua genealogia5, uma vez que se pode ter tido por pai um Espírito que
pertenceu a outra raça, ou tendo vindo de uma condição bem diversa?
– É verdade, mas essa importância está fundada no orgulho. O que
essas pessoas honram em seus ancestrais são os títulos, a posição, a
fortuna. Alguém que coraria de vergonha por ter tido como antepassado
um honesto sapateiro se gabaria de descender de um nobre corrupto e
debochado. Mas o que quer que eles digam ou façam, não impedirão as
coisas de ser o que são, porque Deus não formulou as leis da natureza de
acordo com a vaidade deles.
CAPÍTULO 4 – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
5 - Genealogia: procedência e origem da família; os antepassados; linhagem (N. E.).
106
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
206 Do fato de não haver ligações de filiação entre os Espíritos
de descendentes da mesma família, segue-se que o culto aos ancestrais
seja uma coisa ridícula?
– Certamente que não. Todo homem deve considerar-se feliz por pertencer
a uma família em que encarnam Espíritos elevados. Embora os
Espíritos não procedam uns dos outros, têm afeição aos que lhe estão
ligados pelos laços de família, porque esses Espíritos são freqüentemente
atraídos a esta ou àquela família em razão de simpatias ou ligações anteriores.
Mas, ficai certos: os Espíritos de vossos ancestrais não se sentem
honrados pelo culto que vós lhes ofereceis por orgulho. O valor dos méritos
que tiveram só se refletirão sobre vós pelo esforço que fizerdes em
seguir-lhes os bons exemplos, e, só assim, então, vossa lembrança pode
lhes ser agradável e útil.
SEMELHANÇAS FÍSICAS E MORAIS
207 Os pais transmitem muitas vezes a seus filhos a semelhança
física. Eles também lhes transmitem alguma semelhança moral?
– Não, uma vez que têm almas ou Espíritos diferentes. O corpo procede
do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito. Entre os descendentes
das raças há apenas consangüinidade.
207 a De onde vêm as semelhanças morais que existem algumas
vezes entre os pais e filhos?
– São Espíritos simpáticos atraídos pela semelhança de suas tendências.
208 O Espírito dos pais tem influência sobre o do filho após o
nascimento?
– Há uma influência muito grande. Como já dissemos, os Espíritos
devem contribuir para o progresso uns dos outros. Pois bem, os Espíritos
dos pais têm como missão desenvolver o de seus filhos pela educação. É
para eles uma tarefa: se falharem, serão culpados.
209 Por que pais bons e virtuosos geram, às vezes, filhos de
natureza perversa? Melhor dizendo, por que as boas qualidades dos
pais nem sempre atraem, por simpatia, um bom Espírito para animar
seu filho?
– Um Espírito mau pode pedir pais bons, na esperança de que seus
conselhos o orientem a um caminho melhor e, muitas vezes, Deus lhe
concede isso.
210 Os pais podem, por seus pensamentos e preces, atrair para
o corpo de um filho um Espírito bom em preferência a um Espírito
inferior?
– Não, mas podem melhorar o Espírito do filho que geraram e que lhes
foi confiado: é seu dever. Filhos maus são uma provação para os pais.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
107
211 De onde vem a semelhança de caráter que muitas vezes
existe entre dois irmãos, especialmente entre gêmeos?
– Espíritos simpáticos que se aproximam por semelhança de sentimentos
e que se sentem felizes por estar juntos.
212 Nas crianças cujos corpos nascem ligados e que possuem
certos órgãos em comum há dois Espíritos, ou melhor, duas almas?
– Sim, há duas, são dois os corpos. Entretanto, a semelhança entre
eles é tanta que se afigura aos vossos olhos como se fossem uma só6.
213 Visto que os Espíritos encarnam como gêmeos por simpatia,
de onde vem a aversão que se vê algumas vezes entre eles?
– Não é uma regra que os gêmeos sejam Espíritos simpáticos. Espíritos
maus podem querer lutar juntos no teatro da vida.
214 O que pensar das histórias de crianças gêmeas que brigam
no ventre da mãe?
– Lendas! Para dar idéia de que seu ódio era muito antigo, fizeram-no
presente antes de seu nascimento. Geralmente vós não levais em conta
as figuras poéticas.
215 De onde vem o caráter distintivo que se nota em cada povo?
– Os Espíritos também se agrupam em famílias formadas pela semelhança
de suas tendências mais ou menos depuradas, de acordo com
sua elevação. Pois bem! Um povo é uma grande família na qual se reúnem
Espíritos simpáticos. A tendência que têm os membros dessas grandes
famílias os leva a se unirem, daí se origina a semelhança que existe no
caráter distintivo de cada povo. Acreditais que Espíritos bons e caridosos
procurarão um povo duro e grosseiro? Não, os Espíritos simpatizam com
as coletividades, assim como simpatizam com os indivíduos; aí estão em
seu meio.
216 O homem conserva, em suas novas existências, traços do
caráter moral de existências anteriores?
– Sim, isso pode ocorrer; mas ao se melhorar, ele muda. Sua posição
social pode também não ser mais a mesma. Se de senhor torna-se escravo,
seus gostos serão completamente diferentes e teríeis dificuldade em
reconhecê-lo. Sendo o Espírito sempre o mesmo nas diversas encarnações,
suas manifestações podem ter uma ou outra semelhança, modificadas,
entretanto, pelos hábitos de sua nova posição, até que um aperfeiçoamento
notável venha mudar completamente seu caráter; por isso, de
orgulhoso e mau, pode tornar-se humilde e bondoso, desde que se tenha
arrependido.
CAPÍTULO 4 – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
6 - É o caso dos nascimentos dos xifópagos, também chamados irmãos siameses, em que os
corpos nascem ligados, e que por razões culturais e pelo desconhecimento das leis da reencarnação
eram, até há pouco tempo, tidos e exibidos como monstros. São na verdade Espíritos em
provas redentoras (N. E.).
108
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
217 O homem, pelo Espírito, conserva traços físicos das existências
anteriores em suas diferentes encarnações?
– O corpo que foi anteriormente destruído não tem nenhuma relação
com o novo. Entretanto, o Espírito se reflete no corpo. Certamente, o corpo
é apenas matéria, mas apesar disso é modelado de acordo com a
capacidade do Espírito que lhe imprime um certo caráter, principalmente
ao rosto, e é verdade quando se diz que os olhos são o espelho da alma,
ou seja, é o rosto que mais particularmente reflete a alma. É assim que
uma pessoa sem grande beleza tem, entretanto, algo que agrada quando
é animada por um Espírito bom, sábio, humanitário, enquanto existem rostos
muito belos que nada fazem sentir, podendo até inspirar repulsa.
Poderíeis pensar que apenas os corpos muito belos servem de envoltório
aos Espíritos mais perfeitos; entretanto, encontrais todos os dias homens
de bem sem nenhuma beleza exterior. Sem haver uma semelhança pronunciada,
a similitude dos gostos e das inclinações pode dar o que se
chama de um ‘ar de família’.
G Tendo em vista que o corpo que reveste a alma na nova encarnação
não tem necessariamente nenhuma relação com o da encarnação
anterior, uma vez que em relação a ele pode ter uma procedência completamente
diferente, seria absurdo admitir que numa sucessão de existências
ocorressem semelhanças que não passam de casuais. Entretanto,
as qualidades do Espírito modificam freqüentemente os órgãos
que servem às suas manifestações e imprimem ao semblante, e até
mesmo ao conjunto das maneiras, um cunho especial. É assim que, sob
o envoltório mais humilde, pode-se encontrar a expressão da grandeza
e da dignidade, enquanto sob a figura do grande senhor pode-se ver
algumas vezes a expressão da baixeza e da desonra. Algumas pessoas,
saídas da mais ínfima posição, adquirem, sem esforços, os hábitos e as
maneiras da alta sociedade. Parece que elas reencontram seu ambiente,
enquanto outras, apesar de seu nascimento e educação, estão nesse
mesmo ambiente sempre deslocadas. Como explicar esse fato senão
como um reflexo do que o Espírito foi antes?
IDÉIAS INATAS
218 O Espírito encarnado conserva algum traço das percepções
que teve e dos conhecimentos que adquiriu em suas existências anteriores?
– Ele possui uma vaga lembrança, que lhe dá o que se chama de
idéias inatas.
218 a A teoria das idéias inatas não é, portanto, uma fantasia?
– Não, os conhecimentos adquiridos em cada existência não se perdem.
O Espírito, liberto da matéria, sempre os conserva. Durante a
encarnação, pode esquecê-los em parte, momentaneamente, mas a in-
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
109
tuição que conserva deles o ajuda em seu adiantamento. Sem isso, teria
sempre que recomeçar. A cada nova existência, o Espírito parte de onde
estava na existência anterior.
218 b Pode, então, haver um grande vínculo entre duas existências
sucessivas?
– Nem sempre tão grande quanto podeis supor, porque as posições
são freqüentemente muito diferentes e, no intervalo delas, o Espírito pode
ter progredido. (Veja a questão 216.)
219 Qual é a origem das faculdades, das capacidades extraordinárias
dos indivíduos que, sem estudo prévio, parecem ter a intuição
de certos conhecimentos, como a língua, o cálculo, etc.?
– Lembrança do passado; progresso anterior da alma, mas do qual
nem mesmo ela tem consciência. De onde quereis que esses conhecimentos
venham? O corpo muda, mas o Espírito não, embora troque de
vestimenta.
220 Ao mudar de corpo, podem-se perder alguns talentos intelectuais,
não mais ter, por exemplo, o gosto pelas artes?
– Sim, se desonrou esse talento ou se fez dele um mau uso. Uma
capacidade intelectual pode, além do mais, permanecer adormecida numa
existência, porque o Espírito veio para exercitar uma outra que não tem
relação com ela. Então, qualquer talento pode permanecer em estado
latente para ressurgir mais tarde.
221 É a uma lembrança retrospectiva que o homem deve, mesmo
no estado selvagem, o sentimento instintivo da existência de Deus
e o pressentimento da vida futura?
– É uma lembrança que conservou do que sabia como Espírito antes
de encarnar; mas o orgulho muitas vezes sufoca esse sentimento.
221 a É a essa lembrança que se devem certas crenças relativas
à Doutrina Espírita e que se encontram em todos os povos?
– Essa Doutrina é tão antiga quanto o mundo; eis por que pode ser
encontrada em toda parte, sendo uma prova de que é verdadeira. O Espírito
encarnado, conservando a intuição de seu estado como Espírito, tem,
instintivamente, a consciência do mundo invisível, freqüentemente falseada
pelos preconceitos, acrescida da ignorância que a mistura com a
superstição.
CAPÍTULO 4 – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
110
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
222 O dogma da reencarnação, dizem algumas pessoas, não é novo;
foi tomado de Pitágoras1. Nós nunca dissemos que a Doutrina Espírita é
invenção moderna. Os fatos espíritas, o Espiritismo, sendo uma lei da natureza,
deve existir desde a origem dos tempos, e sempre nos esforçamos
para provar que se encontram traços dele desde a mais alta Antiguidade.
Pitágoras, como se sabe, não é o autor da metempsicose2; ele a tomou
dos filósofos indianos e egípcios, que a conheciam desde tempos imemoriais.
A idéia da transmigração das almas era uma crença comum, admitida
pelos homens mais eminentes. Por qual meio chegou até eles? Foi por
revelação ou por intuição? Não sabemos. Mas, seja como for, uma idéia
não atravessa os tempos e não é aceita por inteligências de elite se não
tiver algo de sério. A antiguidade dessa doutrina seria mais uma prova a
seu favor do que uma objeção. Todavia, entre a metempsicose dos antigos
e a doutrina moderna da reencarnação há, como se sabe, uma grande
diferença que os Espíritos rejeitam de maneira mais absoluta. É a da transmigração
da alma do homem para os animais e vice-versa.
Os Espíritos, ao ensinarem o dogma da pluralidade das existências
corporais, renovam, portanto, uma doutrina proveniente das primeiras idades
do mundo e que se conservou até nossos dias no pensamento íntimo
de muitas pessoas. Os Espíritos apenas a apresentam sob um ponto de
vista racional, mais de acordo com as leis progressivas da natureza e mais
em harmonia com a sabedoria do Criador, livre de todos os acessórios da
superstição. Uma circunstância digna de nota é que não foi apenas neste
livro que os Espíritos a ensinaram nos últimos tempos: já antes da sua
publicação, numerosas comunicações semelhantes haviam sido obtidas
em diversos países e depois se multiplicaram de forma extraordinária. Seria
talvez o caso de examinarmos aqui as razões por que todos os Espíritos
não parecem estar de acordo sobre esta questão. Mais à frente voltaremos
a esse assunto.
Examinemos a questão sob outro ponto de vista e façamos uma separação,
deixando de lado toda intervenção dos Espíritos por enquanto.
Suponhamos que esta teoria não foi dada por eles, e que até mesmo
CAPÍTULO
5
CONSIDERAÇÕES SOBRE A
PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
1 - Pitágoras: filósofo e matemático grego, viveu cerca de 500 ou 600 anos a.C. (N. E.).
2 - Metempsicose: doutrina segundo a qual a mesma alma pode animar, em vidas sucessivas,
corpos diversos: vegetais, animais ou homens (N. E.).
111
nunca se abordou esta questão com os Espíritos. Coloquemo-nos, momentaneamente,
num terreno neutro, admitindo o mesmo grau de
probabilidade para uma e outra hipótese, isto é, a pluralidade e a unicidade
das existências corporais. Vejamos para qual lado nos guiará o nosso
interesse e a razão.
Certas pessoas rejeitam a idéia da reencarnação pelo único motivo
de que ela não lhes convém, dizendo ser-lhes suficiente uma só existência
e que não gostariam de recomeçar outra parecida. Reconhecemos que o
simples pensamento de reaparecer na Terra as faz pular de furor. É compreensível
que o simples pensamento de terem de reaparecer na Terra as
faça ficar furiosas. Mas a estes convém apenas lembrar se acaso Deus,
para reger o universo, tenha que pedir-lhes conselho ou consultar seus
gostos. Portanto, de duas coisas, uma: ou a reencarnação existe ou não
existe. Se existe, embora as contrarie, será preciso enfrentá-la sem que
Deus lhes peça permissão para isso. Essas pessoas parecem-se com um
doente que diz: “Sofri o bastante por hoje, não quero mais sofrer amanhã”.
Mas, apesar de seu mau humor, não terá, por isso, que sofrer menos
amanhã e nos dias seguintes, até que esteja curado. Portanto, se tiverem
de viver de novo, corporalmente, reviverão, reencarnarão. Protestarão inutilmente,
como a criança que não quer ir à escola ou o condenado, para a
prisão. Será preciso que passem por isso. Objeções semelhantes são
muito ingênuas para merecer um exame mais sério. Diremos, entretanto,
para tranqüilizá-las, que o que a Doutrina Espírita ensina sobre a reencarnação
não é tão terrível quanto lhes parece; se a estudassem a fundo, não
ficariam tão assustadas, saberiam que a condição dessa nova existência
depende delas; serão felizes ou infelizes de acordo com o que tiverem
feito aqui na Terra e podem, a partir dessa vida, se elevar tão alto que não
temerão mais a queda no lodaçal.
Supomos falar a pessoas que acreditem num futuro qualquer depois
da morte e não àquelas que tomam o nada por perspectiva ou que
querem fazer desaparecer sua alma num todo universal, sem individualidade,
exatamente como as gotas de chuva somem no oceano. Se, portanto,
acreditais num futuro qualquer, não admitireis, sem dúvida, que seja o
mesmo para todos, porque, senão, onde estaria a utilidade do bem? Por
que se reprimir? Por que não satisfazer a todas as paixões, todos os desejos,
mesmo à custa dos outros, uma vez que por isso não se ficaria nem
melhor nem pior? Credes, ao contrário disso, que esse futuro será mais ou
menos feliz ou infeliz, de acordo com o que tivermos feito durante a vida?
Tendes a esperança de que seja tão feliz quanto possível, uma vez que é
pela eternidade? Teríeis, por acaso, a pretensão de vos considerar um
dentre os homens mais perfeitos que já existiram sobre a Terra e de ter,
assim, o direito de alcançar imediatamente a felicidade suprema dos eleitos?
Não. Admitis que existem homens com valores maiores do que os
vossos e que têm o direito a um lugar melhor, sem que com isso estejais
entre os condenados. Pois bem! Colocai-vos mentalmente por um instan-
CAPÍTULO 5 – CONSIDERAÇÕES SOBRE A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
112
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
te nessa situação intermediária que seria a vossa, como acabastes de
reconhecer, e imaginai que alguém venha vos dizer: “Sofreis, não sois tão
felizes quanto poderíeis ser, enquanto tendes diante de vós seres que
desfrutam de uma felicidade perfeita; quereis mudar vossa posição com a
deles?” Sem dúvida, direis: “Que é preciso fazer?” “Muito pouco, muito
simples. Recomeçar o que fizestes mal e procurar fazê-lo melhor”. Hesitaríeis
em aceitar esta proposta mesmo a preço de muitas existências de
provações? Façamos outra comparação simples. Se viessem dizer a um
homem que, embora não estando entre os últimos dos miseráveis, sofresse
privações pela escassez de seus recursos: “Eis ali uma imensa fortuna,
podeis dela desfrutar, sendo preciso para isso trabalhar arduamente durante
um minuto”. Mesmo o mais preguiçoso da Terra diria sem hesitar:
“Trabalharei um minuto, dois, uma hora ou um dia se for preciso; que importa
isso, se vou terminar minha vida na abundância?” Portanto, o que é
a duração da vida corpórea perante a eternidade? Menos de um minuto,
menos de um segundo.
Temos visto algumas pessoas raciocinarem deste modo: Deus, que é
soberanamente bom, não pode impor ao homem recomeçar uma série de
misérias e dificuldades. Por acaso, consideram essas pessoas que
há em Deus mais justiça e bondade quando condena o homem a um sofrimento
perpétuo, por alguns momentos de erro, do que quando lhe dá os
meios de reparar suas faltas? Dois industriais tinham, cada um, um operário
que podia aspirar a tornar-se sócio da empresa. Aconteceu que esses dois
trabalhadores empregaram certa vez muito mal o dia de trabalho e mereciam
ambos ser despedidos. Um dos patrões despediu o operário, apesar de suas
súplicas, e este, não tendo mais encontrado trabalho, morreu na miséria. O
outro disse ao seu empregado: “Perdeste um dia de serviço, tu me deves um
outro como recompensa. Fizeste mal o teu trabalho, me deves a reparação;
eu te permito recomeçar, trata de o fazer bem e eu te conservarei, e poderás
sempre aspirar à posição superior que te prometi”. É necessário perguntar
qual dos dois patrões foi o mais humano? Deus, que é a própria clemência,
seria mais impiedoso do que um homem?
O pensamento de que nosso destino está fixado para sempre em
razão de alguns anos de provação, até mesmo quando não tenha dependido
de nós alcançar a perfeição na Terra, tem algo de desanimador,
enquanto a idéia oposta é eminentemente consoladora, porque nos dá
a esperança. Desse modo, sem nos pronunciarmos a favor ou contra a
pluralidade das existências, sem dar preferência a uma hipótese ou outra,
diremos que, se fosse dado ao homem o direito de escolha, não haveria
ninguém que preferisse um julgamento sem apelação. Um filósofo disse
que se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo para a felicidade dos
seres humanos3. O mesmo se pode dizer da pluralidade das existências.
3 - O filósofo que fez essa afirmação foi Voltaire (1694-1778), poeta, literato e filósofo francês
(N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
113
Mas, como já ficou dito, Deus não pede nossa permissão; não consulta
nossa vontade. Ou isto é, ou não é. Vejamos de que lado estão as probabilidades
e tomemos a questão sob um outro ponto de vista, deixando
outra vez de lado o ensinamento dos Espíritos para analisá-la, unicamente,
como estudo filosófico.
Se não existe reencarnação, não há senão uma existência corporal;
isso é evidente. Se nossa existência corporal atual é a única, a alma de cada
homem é criada no momento do seu nascimento, a menos que se admita a
anterioridade da alma e, nesse caso, se perguntará qual foi o estado da
alma antes de seu nascimento e se esse estado não constituía, por si só, uma
existência sob uma forma qualquer. Não há meio-termo possível: ou a alma
existia ou não existia antes do corpo. Se existia, qual era sua situação? Ela
tinha ou não consciência de si mesma? Se não tinha, é como se não existisse.
Se tinha individualidade, era progressiva ou estacionária? Tanto num caso como
no outro, em que grau se achava ao tomar o corpo? Ao admitir, de acordo com
a crença popular, que a alma nasce com o corpo, ou, o que vem a dar no
mesmo, que antes de sua encarnação tinha apenas qualidades negativas, fazemos
as seguintes questões:
1. Por que a alma mostra aptidões tão diversas e independentes
das idéias adquiridas pela educação?
2. De onde vem a aptidão extranormal de certas crianças de tenra
idade para determinada arte ou ciência, enquanto outras permanecem
inferiores ou medíocres por toda a vida?
3. De onde vêm, em uns, as idéias inatas ou intuitivas que não existem
em outros?
4. De onde vêm, em algumas crianças, esses instintos precoces de
vícios ou de virtudes, esses sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza,
que contrastam com o meio em que nasceram?
5. Por que certos homens, independentemente da educação, são
mais avançados que outros?
6. Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes uma
criança hotentote4 recém-nascida e a educardes nas escolas mais renomadas,
fareis dela algum dia um Laplace5 ou um Newton6?
Perguntamos: qual é a filosofia ou a teosofia7 que pode resolver
esses problemas? Ou as almas são iguais no seu nascimento, ou são
desiguais, não há a menor dúvida disso. Se são iguais, por que são tão
diversas as suas aptidões? Dirão que isso depende do organismo. Nesse
caso, então seria a mais monstruosa e mais imoral das doutrinas. O ho-
CAPÍTULO 5 – CONSIDERAÇÕES SOBRE A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
4 - Hotentote: natural ou habitante da Hotentótia, África; raça negra, primitiva (N. E.).
5 - Laplace: Pierre Simon Laplace, astrônomo, físico e matemático francês, viveu de 1749 a 1827
(N. E.).
6 - Newton: Isaac Newton, cientista inglês. Viveu de 1642 a 1727 (N. E.).
7 - Teosofia: qualquer doutrina religiosa e filosófica que procura explicar e integrar Deus e o homem
(N. E.).
114
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
mem seria apenas uma máquina, o joguete da matéria, e assim não teria
mais as responsabilidades por seus atos, pois poderia atribuir tudo às suas
imperfeições físicas. Se são desiguais as almas, é porque Deus as criou
assim; mas, então, por que essa superioridade inata concedida a alguns?
Estará essa parcialidade, esse favorecimento de acordo com a Sua justiça
e com o amor igual que dedica a todas as criaturas?
Admitamos, ao contrário, uma sucessão de existências anteriores
progressivas para cada alma e tudo estará claramente explicado. Os homens
trazem ao nascer a intuição do que adquiriram em vidas anteriores;
são mais ou menos avançados de acordo com o número de existências
por que passaram, conforme estejam mais ou menos distantes do ponto
de partida, exatamente como numa reunião de indivíduos de todas as
idades, em que cada um terá um desenvolvimento proporcional ao número
de anos que tiver vivido. As existências sucessivas serão, para a vida da
alma, o que os anos são para a vida do corpo. Reuni de uma vez mil
indivíduos, de um a oitenta anos. Imaginai que um véu seja lançado sobre
todos os dias que ficaram para trás, e que, em vossa ignorância, os
acreditais nascidos todos no mesmo dia: perguntareis naturalmente como
uns podem ser grandes e outros pequenos, uns velhos e outros jovens,
uns instruídos e outros ainda ignorantes. Mas se o véu que esconde
o passado se dissipar, se chegardes a saber que todos viveram um tempo
mais ou menos longo, tudo se explicará. Deus, em Sua justiça, não podia
ter criado almas mais perfeitas e outras menos perfeitas; mas, com a
pluralidade das existências, a desigualdade, as diferenças e divergências
da vida não tem nada contrário à mais rigorosa justiça: pois vemos
apenas o presente, não o passado. Este raciocínio se baseia em algum
sistema ou é uma suposição gratuita? Não. Partimos de um fato patente,
incontestável: a desigualdade das qualidades, das aptidões e do desenvolvimento
intelectual e moral, e verificamos que esse fato é inexplicável
por todas as teorias correntes; enquanto a explicação é simples, natural e
lógica por uma outra teoria. É racional preferir as que não explicam àquela
que explica?
Em relação à sexta questão, sem dúvida se dirá que o hotentote é
de uma raça inferior. Então perguntaremos se o hotentote é ou não é um
homem. Se é um homem, por que Deus o fez, e à sua raça, deserdados
de privilégios concedidos à raça caucásica8? Se não é um homem, por
que procurar fazê-lo cristão? A Doutrina Espírita é mais ampla que tudo
isso; para ela não há diversas espécies de homens, há apenas homens
cujos Espíritos estão mais ou menos atrasados, todos, porém, suscetíveis
de progredir. Não está, este princípio, mais de acordo com a justiça de
Deus?
8 - Raça caucásica: pertencente ou relativo ao Cáucaso. Habitantes do norte da Rússia, chamados
russos brancos; a raça branca é também chamada raça caucásica (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
115
Acabamos de avaliar as condições da alma quanto ao passado e
ao presente. Se nós a considerarmos numa projeção quanto ao seu futuro,
encontraremos as mesmas dificuldades.
1. Se nossa existência atual é única, deve decidir a nossa destinação
vindoura. Qual é, então, na vida futura, a posição respectiva do selvagem
e do homem civilizado? Estarão no mesmo plano ou estarão distanciados
em relação à felicidade eterna?
2. O homem que trabalhou durante toda a vida para se aperfeiçoar
estará na mesma posição daquele que permaneceu inferior, não por sua culpa,
mas porque não teve tempo nem oportunidade de se aperfeiçoar?
3. O homem que praticou o mal, porque não pôde se esclarecer,
será culpado por um estado de coisas que não dependeram dele?
4. Trabalha-se para esclarecer os homens, para moralizá-los, civilizá-
los; mas, para cada um que se esclareça, há milhões de outros que
morrem a cada dia antes que a luz chegue até eles. Qual será o fim deles?
Serão tratados como condenados? Se não forem, o que fizeram para merecer
estar na mesma posição que os outros?
5. Qual é o destino das crianças que morrem em tenra idade e que
não puderam, por isso, fazer o bem nem o mal? Se ficarem entre os eleitos,
por que esse favorecimento, sem terem feito nada para merecê-lo? Por
qual privilégio se livraram das dificuldades da vida?
Há alguma doutrina capaz de esclarecer essas questões?
Admiti as existências consecutivas e tudo estará explicado de acordo
com a justiça de Deus. O que não puder ser feito numa existência se
fará em outra. É assim que ninguém escapa à lei do progresso. Cada um
será recompensado de acordo com seu mérito real e ninguém é excluído
da felicidade suprema, a que pode pretender, sejam quais forem os obstáculos
que venha a encontrar no caminho.
Essas questões poderiam ser multiplicadas ao infinito, porque são
inúmeros os problemas psicológicos e morais que só encontram solução
na pluralidade das existências. Limitamo-nos apenas à observação dos
mais comuns. Poderão também dizer que a doutrina da reencarnação não
é admitida pela Igreja, porque ela seria a subversão da religião. Nosso
objetivo não é tratar dessa questão neste momento; basta-nos ter demonstrado
que a reencarnação é eminentemente moral e racional. Portanto,
o que é moral e racional não pode ser contrário a uma religião que proclama
ser Deus a bondade e a razão por excelência. Que teria sido da religião
se, contra a opinião universal e a comprovação da ciência, se houvesse
posicionado contra a evidência e tivesse expulsado de seu seio todos os
que não acreditassem no movimento do Sol ou nos seis dias da criação?
Que crédito mereceria e que autoridade teria, entre os povos mais esclarecidos,
uma religião fundada em erros notórios que fossem impostos como
artigos de fé? Quando a evidência foi comprovada, a Igreja se colocou
sabiamente ao lado do que era evidente. Se está provado que existem
CAPÍTULO 5 – CONSIDERAÇÕES SOBRE A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
116
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
coisas impossíveis sem a reencarnação e que certos pontos do dogma
somente podem ser explicados por ela, é preciso admitir e reconhecer
que a discordância entre essa doutrina e os dogmas é apenas aparente.
Mais adiante mostraremos que a religião está menos distanciada do que
se pensa da doutrina das vidas sucessivas e que se a aceitasse não sofreria
maiores danos do que já sofreu com a descoberta do movimento da
Terra e dos períodos geológicos que, à primeira vista, pareceram desmentir
os textos bíblicos. O princípio da reencarnação ressalta, aliás, em muitas
passagens das Escrituras, e se encontra notavelmente formulado de
maneira clara e inequívoca no Evangelho:
“Quando desciam do monte (após a transfiguração), Jesus lhes ordenou:
‘Não faleis a ninguém o que acabastes de ver, até que o filho do
homem seja ressuscitado dentre os mortos’. Seus discípulos o interrogaram,
então, dizendo: ‘Por que os escribas dizem que é preciso que Elias
venha primeiro?’ Mas Jesus lhes respondeu: ‘É verdade que Elias deve vir
e que restabelecerá todas as coisas. Mas eu vos declaro que Elias já veio,
e eles não o conheceram, mas o fizeram sofrer como quiseram. É assim
que farão morrer o filho do homem.’ Então seus discípulos entenderam
que era de João Batista que ele lhes falava” (Mateus, cap. 17).
Uma vez que João Batista era Elias, deve ter ocorrido a reencarnação
do Espírito ou da alma de Elias no corpo de João Batista.
Qualquer que seja, enfim, a opinião que se tenha da reencarnação,
quer a aceitemos ou não, todos teremos de passar por ela, caso ela exista,
apesar de toda crença contrária. O ponto essencial é que o ensinamento
dos Espíritos é eminentemente cristão. Apóia-se na imortalidade da
alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, no livre-arbítrio
do homem, na moral do Cristo e, portanto, não é anti-religioso.
Até agora argumentamos, como dissemos, pondo de lado todo ensinamento
espírita que, para algumas pessoas, não tem autoridade. Se
nós, assim como muitos outros, adotamos a opinião da pluralidade das
existências, não é apenas porque o ensinamento tenha vindo dos Espíritos.
É porque esta Doutrina nos pareceu a mais lógica e porque só ela
resolve questões até então insolúveis.
Mesmo se fosse da autoria de um simples mortal, nós a teríamos
igualmente adotado e não hesitaríamos nem mais um segundo em renunciar
às nossas próprias idéias. No momento em que um erro é demonstrado,
o amor-próprio tem mais a perder do que a ganhar ao se manter teimosamente
numa idéia falsa. Da mesma forma, nós a teríamos rejeitado, mesmo
que tivesse vindo dos Espíritos, se nos parecesse contrária à razão,
assim como negamos muitas outras; porque sabemos, por experiência,
que não devemos aceitar cegamente tudo o que vem da parte deles, da
mesma maneira que não se deve aceitar tudo que vem da parte dos homens.
A maior distinção, o primeiro título, que para nós recomenda a idéia
da reencarnação, antes de tudo, é o de ser lógica. Mas existe uma outra,
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
117
que é o de ser confirmada pelos fatos: fatos positivos e, por assim dizer,
materiais, que um estudo atento e racional pode revelar a qualquer um que
se dê ao trabalho de observar com paciência e perseverança, diante dos
quais não pairam mais dúvidas. Quando esses fatos se popularizarem,
como os da formação e do movimento da Terra, será preciso render-se à
evidência e os opositores terão gasto em vão os argumentos contrários.
Reconheçamos, em resumo, que a doutrina da pluralidade das existências
é a única que explica o que, sem ela, é inexplicável. Que é eminentemente
consoladora e está em harmonia com a mais rigorosa justiça
e é, para o homem, a âncora de salvação que Deus lhe deu na Sua misericórdia.
Até mesmo as palavras de Jesus não podem deixar dúvida sobre
este assunto. Eis o que é dito no Evangelho de João, cap. 3:
3. Jesus, respondendo a Nicodemos, disse: “Em verdade, em verdade
te digo que se um homem não nasce de novo, não pode ver o reino
de Deus”.
4. Nicodemos lhe disse: “Como um homem pode nascer sendo já
velho? Pode ele entrar no ventre de sua mãe e nascer uma segunda vez?”
5. Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade te digo que se um
homem não renascer da água e do espírito, não pode entrar no reino de
Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é
Espírito. Não te espantes com o que te disse: Necessário vos é nascer de
novo”. (Veja a seguir a questão 1010, “Ressurreição da carne”).
CAPÍTULO 5 – CONSIDERAÇÕES SOBRE A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
118
223 A alma reencarna imediatamente após a separação do
corpo?
– Algumas vezes pode reencarnar imediatamente, mas normalmente
só após intervalos mais ou menos longos. Nos mundos superiores, a reencarnação
é quase sempre imediata. Nesses mundos em que a matéria
corporal é menos grosseira, o Espírito, quando encarnado, desfruta de
quase todos os seus atributos de Espírito. Seu estado normal é semelhante
ao dos vossos sonâmbulos lúcidos.
224 Em que se torna a alma no intervalo das encarnações?
– Espírito errante que aguarda nova oportunidade e a espera.
224 a Qual a duração desses intervalos?
– De algumas horas a alguns milhares de séculos. Não há, propriamente
falando, limite extremo estabelecido para o estado de erraticidade,
que pode se prolongar por muito tempo, mas que nunca é perpétuo. O
Espírito sempre encontra, cedo ou tarde, a oportunidade de recomeçar
uma existência que sirva de purificação às suas existências anteriores.
224 b Essa duração está subordinada à vontade do Espírito ou
pode ser imposta como expiação?
– É uma conseqüência do livre-arbítrio. Os Espíritos têm perfeita consciência
do que fazem, mas para alguns é também uma punição que a
Providência lhes impõe1. Outros pedem para que se prolongue, a fim de
progredirem nos estudos que só podem ser feitos com proveito na condição
de Espírito.
225 A erraticidade é, por si mesma, um sinal de inferioridade dos
Espíritos?
ESPÍRITOS ERRANTES
CAPÍTULO
6
VIDA ESPÍRITA
Espíritos errantes – Mundos transitórios –
Percepções, sensações e sofrimentos dos Espíritos –
Ensaio teórico sobre a sensação nos Espíritos –
Escolha das provas – Relações após a morte –
Relações de simpatia e antipatia dos Espíritos.
Metades eternas – Lembrança da existência corporal –
Comemoração dos mortos. Funerais
1 - Veja “Escolha das provas”, questão 258 e seguintes, 615, e especialmente a questão 963
e seguintes, (N. E.).
119
– Não, porque existem Espíritos errantes de todos os graus. A encarnação
é para o Espírito um estado transitório. Como já dissemos, em seu
estado normal, o Espírito está liberto da matéria.
226 Todos os Espíritos que não estão encarnados são errantes?
– Daqueles que devem reencarnar, sim. Mas os Espíritos puros que
atingiram a perfeição não são errantes: seu estado é definitivo.
G Os Espíritos, com relação às qualidades íntimas, são de diferentes
ordens ou graus que vão avançando sucessivamente à medida que
se depuram. Quanto ao estado em que se acham, podem ser: encarnados,
ou seja, unidos a um corpo; errantes, quer dizer, despojados do
corpo material à espera de uma nova encarnação para se aperfeiçoarem;
Espíritos puros, perfeitos, que não têm mais necessidade de
encarnação.
227 De que maneira os Espíritos errantes se instruem? É como nós?
– Eles estudam seu passado e procuram os meios de se elevar. Vêem,
observam o que se passa nos lugares que percorrem; ouvem os ensinamentos
dos homens esclarecidos e os conselhos dos Espíritos mais
elevados que eles e isso lhes inspira idéias que não tinham antes.
228 Os Espíritos conservam algumas das paixões humanas?
– Os Espíritos elevados, ao se libertarem do corpo, deixam as más
paixões e apenas guardam as do bem. Mas os Espíritos inferiores as conservam;
de outra forma, seriam de primeira ordem.
229 Por que os Espíritos, ao deixar a Terra, não deixam também
todas as más paixões, uma vez que vêem os seus inconvenientes?
– Tendes neste mundo pessoas que são excessivamente invejosas;
acreditais que, quando o deixam, perdem esse defeito? Após a partida da
Terra, principalmente para os que tiveram paixões muito intensas, uma
espécie de atmosfera os acompanha, os envolve e todas essas coisas
ruins se conservam, porque o Espírito ainda está impregnado das vibrações
da matéria. Entrevê a verdade apenas por alguns momentos, como
para ter noção do bom caminho.
230 O Espírito progride na erraticidade?
– Pode melhorar-se muito, sempre de acordo com sua vontade e seu
desejo. Mas é na existência corporal que põe em prática as novas idéias
que adquiriu.
231 Os Espíritos errantes são felizes ou infelizes?
– São felizes ou infelizes de acordo com seu mérito. São infelizes e
sofrem por causa das paixões das quais ainda conservaram a essência ou
são felizes segundo estejam mais ou menos desmaterializados. No estado
de erraticidade, o Espírito entrevê o que lhe falta para ser mais feliz e procura
os meios de alcançá-lo. Porém, nem sempre lhe é permitido reencarnar
conforme sua vontade, o que para ele é uma punição.
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
120
232 No estado de erraticidade, os Espíritos podem ir a todos os
mundos?
– Depende. Quando o Espírito deixa o corpo, não está, apesar disso,
completamente desprendido da matéria e ainda pertence ao mundo onde
viveu ou a um do mesmo grau, a menos que, durante sua vida, tenha se
elevado; esse é, aliás, o objetivo a que deve pretender, sem o que nunca
se aperfeiçoará. Ele pode, entretanto, ir a alguns mundos superiores, mas
nesse caso é como um estranho. Consegue, na verdade, apenas os entrever
e isso é o que lhe dá o desejo de se aperfeiçoar para ser digno da
felicidade que lá se desfruta e poder habitá-los mais tarde.
233 Os Espíritos já purificados vão aos mundos inferiores?
– Vão muitas vezes a fim de ajudá-los a progredir. Senão esses mundos
ficariam entregues a si mesmos, sem guias para dirigi-los.
MUNDOS TRANSITÓRIOS
234 Existem, como já foi dito, mundos que servem aos Espíritos
errantes como estâncias transitórias ou locais de repouso?
– Sim, existem. São particularmente destinados aos seres errantes,
que podem neles habitar temporariamente. São como acampamentos,
campos para repousar de uma erraticidade bastante longa, condição sempre
um tanto angustiante. São posições intermediárias entre os outros
mundos, graduados de acordo com a natureza dos Espíritos que podem
alcançá-los e onde podem desfrutar de um bem-estar relativamente maior
ou menor, conforme o caso.
234 a Os Espíritos que habitam esses mundos podem deixá-los
quando querem?
– Sim, os Espíritos podem deixá-los para irem aonde devem ir. Imaginai-
os como pássaros de passagem pousando numa ilha, esperando refazer
suas forças para alcançar seu objetivo.
235 Os Espíritos progridem durante sua estada nos mundos transitórios?
– Certamente. Os que neles se reúnem é com o objetivo de se instruir
e poder mais facilmente obter a permissão de alcançar lugares melhores e
chegar à posição que os eleitos atingem.
236 Os mundos transitórios, por sua natureza especial, são perpetuamente
destinados aos Espíritos errantes?
– Não; a posição deles é apenas temporária.
236 a Esses mundos são, ao mesmo tempo, habitados por seres
corporais?
– Não; a superfície é estéril. Aqueles que os habitam não têm necessidade
de nada.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
121
236 b Essa esterilidade é permanente e resulta de sua natureza
especial?
– Não, são estéreis transitoriamente.
236 c Esses mundos são, por isso, desprovidos de belezas naturais?
– A natureza se reflete nas belezas da imensidade, que são tão admiráveis
quanto o que chamais de belezas naturais.
236 d Visto que o estado desses mundos é transitório, a Terra
estará um dia nesse mesmo estado?
– Ela já esteve.
236 e Em que época?
– Durante sua formação.
G Nada é inútil na natureza; tudo tem seu objetivo, sua finalidade. Nada
está vazio, tudo está habitado, a vida está por todos os lugares. Desse
modo, durante a longa série de séculos que se escoaram antes da aparição
do homem sobre a Terra, durante esses lentos períodos de transição
atestados pelas camadas geológicas, antes mesmo da formação
dos primeiros seres orgânicos sobre essa massa informe, nesse caos
árido onde os elementos estavam desordenados, não havia ausência de
vida. Seres que não possuíam nem necessidades nem sensações físicas
como as nossas, nela encontravam refúgio. Deus quis que, até mesmo
nesse estado imperfeito, a Terra servisse para alguma coisa. Quem ousaria
dizer que entre esses milhares de mundos que circulam na imensidão
universal apenas um, um dos menores, perdido na vastidão, tivesse o
privilégio exclusivo de ser povoado? Qual seria a utilidade dos outros?
Deus os teria feito apenas para recreação dos nossos olhos? Suposição
absurda, incompatível com a sabedoria que emana de todas as Suas
obras e inadmissível quando se pensa na existência de todas as que
não podemos perceber. Ninguém contestará que nessa idéia da existência
de mundos ainda impróprios à vida material e, entretanto, povoados
de seres com vida apropriada ao seu meio, há algo de grandioso e sublime,
em que se encontra, talvez, a solução de mais de um problema.
PERCEPÇÕES, SENSAÇÕES E
SOFRIMENTOS DOS ESPÍRITOS
237 A alma, quando está no mundo dos Espíritos, ainda possui
as percepções que possuía em sua vida física?
– Sim. Tem também outras que não possuía, porque o seu corpo era
como um véu que as dificultava e obscurecia. A inteligência é um dos
atributos do Espírito que se manifesta mais livremente quando não tem
entraves.
238 As percepções e os conhecimentos dos Espíritos são ilimitados;
numa palavra, eles sabem todas as coisas?
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
122
– Quanto mais se aproximam da perfeição, mais sabem. Se são Espíritos
Superiores, sabem muito. Os Espíritos inferiores são mais ou menos
ignorantes sobre todas as coisas.
239 Os Espíritos conhecem o princípio das coisas?
– Conhecem de acordo com sua elevação e pureza. Os Espíritos
inferiores não sabem mais que os homens.
240 Os Espíritos compreendem o tempo como nós?
– Não. É por isso que vós também não nos compreendeis quando se
trata de fixar datas ou épocas.
G A idéia e a ação do tempo para os Espíritos não são como nós os
compreendemos. O tempo, para eles, é nulo, por assim dizer, e os séculos,
tão longos para nós, são, a seus olhos, apenas instantes que se
perdem na eternidade, como o relevo do solo se apaga e desaparece
para quem o vê de longe quando se eleva no espaço.
241 Os Espíritos têm uma idéia do presente mais precisa e exata
do que nós?
– Do mesmo modo que aquele que vê claramente as coisas tem uma
idéia mais exata do que um cego. Os Espíritos vêem o que não vedes;
logo, julgam de modo diferente de vós. Mas lembramos mais uma vez:
isso depende da elevação de cada um.
242 Como é que os Espíritos têm conhecimento do passado?
Para eles, esse conhecimento é ilimitado?
– O passado, quando nos ocupamos dele, é o presente, torna-se
vivo, exatamente como lembrais do que vos impressionou fortemente durante
um período, ou numa viagem a um lugar longínquo e estranho. Como
Espíritos, já não temos mais o véu material a nos obscurecer a inteligência,
eis por que nos lembramos das coisas que estão apagadas para vós. Mas
os Espíritos não conhecem tudo, a começar pela sua própria criação.
243 Os Espíritos conhecem o futuro?
– Isso também depende da sua elevação. Muitas vezes apenas o
entrevêem, mas nem sempre lhes é permitido revelá-lo. Quando o vêem,
parece-lhes presente. O Espírito adquire a visão do futuro mais claramente
à medida que se aproxima de Deus. Após desencarnar, a alma vê e abrange
num piscar de olhos suas migrações passadas, mas não pode ver o
que Deus lhe reserva. Para isso é preciso que esteja integrada a Deus,
após muitas e muitas existências.
243 a Os Espíritos que atingem a perfeição absoluta têm conhecimento
completo do futuro?
– Completo não é bem a palavra. Só Deus é o Soberano Senhor e
ninguém pode se igualar a Ele.
244 Os Espíritos vêem Deus?
– Só os Espíritos Superiores O vêem e O compreendem. Os Espíritos
inferiores O sentem e O pressentem física, moral e espiritualmente.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
123
244 a Quando um Espírito inferior diz que Deus lhe proíbe ou lhe
permite uma coisa, como sabe que isso vem de Deus?
– Ele não vê a Deus, mas sente Sua soberania e, quando uma coisa
não pode ser feita, ou uma palavra não pode ser dita, sente como intuição,
uma advertência invisível que o proíbe de fazê-lo. Vós mesmos não tendes
pressentimentos que são como advertências secretas, para fazer ou não
isso ou aquilo? O mesmo ocorre conosco, apenas num grau superior.
Deveis compreender que a essência dos Espíritos, sendo mais sutil que a
vossa, lhes dá a possibilidade de melhor receber as advertências divinas.
244 b A ordem é transmitida por Deus ou por intermédio de outros
Espíritos?
– Ela não vem diretamente de Deus. Para se comunicar com Deus,
preciso é ser digno disso. Deus transmite Suas ordens por Espíritos que
se encontram muito elevados em perfeição e instrução.
245 O dom da visão, nos Espíritos, é limitado e localizado, como
nos seres corporais?
– Não; a visão está neles como um todo.
246 Os Espíritos têm necessidade da luz para ver?
– Vêem por si mesmos e não têm necessidade da luz exterior. Para
eles, não há trevas, a não ser aquelas em que podem se encontrar por
expiação.
247 Os Espíritos têm necessidade de se transportar para ver em
dois lugares diferentes? Eles podem, por exemplo, ver simultaneamente
os dois hemisférios do globo?
– Como o Espírito se transporta com a rapidez do pensamento, podese
dizer que vê tudo de uma só vez, em todos os lugares. Seu pensamento
pode irradiar e se dirigir, ao mesmo tempo, a vários pontos diferentes, mas
essa qualidade depende de sua pureza. Quanto menos for depurado, mais
sua visão estará limitada. Só Espíritos Superiores podem ter uma visão do
conjunto.
G O dom de ver, nos Espíritos, é uma propriedade inerente à sua natureza
e irradia em todo o seu ser, como a luz se irradia de todas as partes de
um corpo luminoso. É uma espécie de lucidez universal que se estende a
tudo, envolve num só lance o espaço, os tempos e as coisas e para a qual
não há trevas ou obstáculos materiais. Compreende-se que deva ser assim.
No homem, a visão funciona por meio de um órgão impressionado
pela luz e, sem luz, fica na obscuridade. No Espírito, como o dom da visão
é um atributo próprio, sendo desnecessário qualquer agente exterior, a visão
não depende de luz. (Veja “Ubiqüidade”, questão 92.)
248 O Espírito vê as coisas tão distintamente quanto nós?
– Mais distintamente, porque a sua visão penetra no que não podeis
penetrar. Nada a obscurece.
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
124
249 O Espírito percebe os sons?
– Sim. Percebe até os que vossos rudes sentidos não podem perceber.
249 a O dom, a capacidade de ouvir, está em todo o seu ser,
assim como a de ver?
– Todas as percepções são atributos do Espírito e fazem parte do seu
ser. Quando está revestido de um corpo material, as percepções do exterior
apenas lhe chegam pelo canal dos órgãos correspondentes. Porém,
no estado de liberdade, essas percepções deixam de estar localizadas.
250 Sendo as percepções atributos próprios do Espírito, pode
deixar de usá-las?
– O Espírito só vê e ouve o que quer. Isso de uma maneira geral e,
sobretudo, para os Espíritos elevados. Já em relação aos que são imperfeitos,
queiram ou não, ouvem e vêem freqüentemente aquilo que pode
ser útil a seu adiantamento.
251 Os Espíritos são sensíveis à música?
– Quereis falar de vossa música? O que é ela perante a música celeste
cuja harmonia nada na Terra vos pode dar uma idéia? Uma está para a
outra como o canto de um selvagem está para uma suave melodia. Entretanto,
Espíritos vulgares podem sentir um certo prazer ao ouvir vossa música,
porque ainda não são capazes de compreender uma mais sublime. A música
tem para os Espíritos encantos infinitos, em razão de suas qualidades
sensitivas bastante desenvolvidas. A música celeste é tudo o que a imaginação
espiritual pode conceber de mais belo e mais suave.
252 Os Espíritos são sensíveis às belezas da natureza?
– As belezas naturais dos globos são tão diferentes que se está longe
de as conhecer; mas os Espíritos são sensíveis, sim, a essas belezas,
sensíveis conforme sua aptidão em apreciá-las e compreendê-las. Para
os Espíritos elevados há belezas de conjunto diante das quais desaparecem,
por assim dizer, as belezas de detalhes.
253 Os Espíritos sentem nossas necessidades e sofrimentos físicos?
– Eles os conhecem, porque os sofreram, passaram por eles; mas
não os sentem como vós, materialmente, porque são Espíritos.
254 Os Espíritos sentem cansaço e a necessidade do repouso?
– Não podem sentir o cansaço como o entendeis; conseqüentemente,
não têm necessidade de repouso corporal como o vosso, uma vez que
não possuem órgãos cujas forças devam ser reparadas. Mas o Espírito
repousa, no sentido de que não tem uma atividade constante, embora
não atue de uma maneira material. Sua ação é toda intelectual e seu repouso,
inteiramente moral; ou seja, há momentos em que seu pensamento
deixa de ser tão ativo e não mais se fixa num objetivo determinado. Esse
instante é um verdadeiro repouso, mas não é comparável ao do corpo. O
cansaço que podem sentir os Espíritos está em razão de sua inferioridade,
visto que, quanto mais elevados, menos o repouso lhes é necessário.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
125
255 Quando um Espírito diz que sofre, que sofrimento sente?
– Angústias morais, que o torturam mais dolorosamente do que os
sofrimentos físicos.
256 Como é que alguns Espíritos se queixam de sofrer de frio e
de calor?
– Lembrança do que tinham sofrido durante a vida, muitas vezes
mais aflitiva que a realidade. É freqüentemente uma comparação com que,
na falta de coisa melhor, exprimem sua situação. Quando se lembram do
seu corpo, experimentam uma espécie de impressão, como quando se
tira um casaco e se tem a sensação, por um tempo, que ainda se está
vestido.
ENSAIO TEÓRICO SOBRE A SENSAÇÃO NOS ESPÍRITOS
257O corpo é o instrumento da dor. Se não é sua causa primária, é,
pelo menos, a causa imediata. A alma tem a percepção da dor: essa percepção
é o efeito. A lembrança que a alma conserva disso pode ser de muito
sofrimento, mas não pode provocar ação física. De fato, nem o frio, nem o
calor podem desorganizar os tecidos da alma. Ela não pode congelar-se,
nem queimar-se. Não vemos todos os dias a lembrança ou a preocupação
com um mal físico produzir os efeitos desse mal, até mesmo ocasionar a
morte? Todo mundo sabe que as pessoas que tiveram membros amputados
sentem dor no membro que não existe mais. Certamente, não é nesse membro
que está a sede ou o ponto de partida da dor, mas no cérebro, que
conservou a impressão da dor. Podem-se admitir, portanto, reações semelhantes
nos sofrimentos do Espírito após a morte. Um estudo mais aprofundado
do perispírito, que desempenha um papel tão importante em todos os
fenômenos espíritas como nas aparições vaporosas ou tangíveis, como na
circunstância por que o Espírito passa no momento da morte; na idéia tão
freqüente de que ainda está vivo, no quadro tão comovente dos suicidas e
dos que foram martirizados, nos que se deixaram absorver pelos prazeres
materiais e em tantos outros fatos, vieram lançar luz sobre a questão e deram
lugar a explicações que resumimos a seguir.
O perispírito é o laço que une o Espírito à matéria do corpo. O Espírito
é quem o forma, tirando elementos do meio ambiente e do fluido universal.
Ele é formado ao mesmo tempo de eletricidade, fluido magnético e até de
alguma quantidade de matéria inerte. Pode-se dizer que é a matéria puríssima,
o princípio da vida orgânica, mas não da vida intelectual. A vida
intelectual está no Espírito. É, além disso, o agente das sensações exteriores.
No corpo, essas sensações se localizam nos órgãos próprios que
servem de canais condutores. Destruído o corpo, as sensações se tornam
generalizadas. É por isso que o Espírito não diz sofrer mais da cabeça
do que dos pés. É preciso precaução para não confundir as sensações
do perispírito, que se tornou independente, com as do corpo: podemos
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
126
tomar essas sensações apenas como comparação, e não como analogia.
Liberto do corpo, o Espírito pode sofrer. Mas esse sofrimento não é corporal,
embora não seja exclusivamente moral, como o remorso, porque se
queixa de frio e calor. Apesar disso, não sofre mais no inverno que no
verão: nós o temos visto atravessar as chamas sem sofrer nada, nenhuma
dor, o fogo não lhe causa nenhuma impressão. A dor que sente não é
física propriamente dita, é um vago sentimento íntimo que o próprio Espírito
nem sempre entende, precisamente porque a dor não está localizada e
não é produzida por agentes externos: é mais uma lembrança do que uma
realidade, mas é uma recordação também dolorosa. Há, entretanto, algumas
vezes, mais que uma lembrança, como iremos ver.
A experiência nos ensina que no momento da morte o perispírito se
desprende mais ou menos lentamente do corpo. Nos primeiros instantes
seguidos ao desencarne, o Espírito não entende a sua situação: não acredita
estar morto, sente-se vivo, vê seu corpo de um lado, sabe que é seu
e não entende por que está separado dele. Essa situação persiste enquanto
o laço entre o corpo e o perispírito não se romper por completo.
Um suicida nos disse: “Não, não estou morto”, e acrescentava:“E, entretanto,
sinto os vermes que me roem”. Porém, seguramente, os vermes
não roíam o seu perispírito, e muito menos o Espírito; roíam-lhe apenas o
corpo. Mas como a separação do corpo e do perispírito não estava concluída,
disso se originava uma espécie de repercussão moral que lhe
transmitia a sensação do que se passava no seu corpo. Repercussão não
é bem a palavra que dê a idéia exata do que ocorre, porque pode fazer
supor um efeito muito material. Era antes e de fato a visão do que se
passava no cadáver, que ainda estava ligado ao seu perispírito, produzindo
nele essa sensação que tomava como real, como autêntica. Desse
modo, não era uma lembrança, uma vez que durante sua vida nunca tinha
sido roído por vermes; era uma sensação nova e atual. Vemos, assim, que
deduções se podem tirar dos fatos, quando observados atentamente.
Durante a vida, o corpo recebe as impressões exteriores e as transmite
ao Espírito por intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, o
que se chama de fluido nervoso. Estando o corpo morto, não sente mais
nada, porque não possui mais Espírito, nem perispírito. O perispírito, desprendido
do corpo, experimenta a sensação, mas como ela não lhe chega
mais por um canal limitado, próprio, torna-se geral. Portanto, como o perispírito
é na realidade um agente de transmissão das sensações que se
produzem do corpo para o Espírito, porque é no Espírito que está a consciência,
disso se deduz que, se pudesse existir perispírito sem Espírito, ele
não sentiria mais do que sente um corpo morto. Da mesma forma, se o
Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a qualquer sensação dolorosa,
como ocorre com os Espíritos completamente purificados. Sabemos
que, quanto mais o Espírito se purifica, mais a essência do perispírito se
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
127
torna etérea, do que se conclui que a influência material diminui à medida
que o Espírito progride e, por conseqüência, o próprio perispírito torna-se
menos grosseiro.
Mas, dirão, as sensações agradáveis são transmitidas ao Espírito por
meio do perispírito, da mesma forma que as sensações desagradáveis;
sendo o Espírito puro inacessível a umas, deve ser igualmente inacessível
a outras. Sim, sem dúvida, assim é de fato para as sensações que provêm
unicamente da influência da matéria que conhecemos, por exemplo: o
som de nossos instrumentos e o perfume de nossas flores não lhes causam
nenhuma impressão. Porém, o Espírito têm sensações íntimas de um
encanto indefinível, das quais não podemos fazer nenhuma idéia, por sermos,
a esse respeito, como cegos de nascença perante a luz: sabemos
que elas existem, mas por que meio se produzem não o sabemos. Termina
aí nossa ciência. Sabemos que o Espírito têm percepção, sensação,
audição, visão; que essas faculdades são generalizadas por todo o ser, e
não, como no homem, só em uma parte do seu ser. Mas de que modo ele
as tem? É o que não sabemos. Os próprios Espíritos não podem nos dar
idéia precisa, porque a nossa linguagem não pode exprimir idéias que não
conhecemos, da mesma forma que para os selvagens não há termos para
exprimir nossas artes, ciências e doutrinas filosóficas.
Ao dizer que os Espíritos são inacessíveis às impressões de nossa
matéria, estamos nos referindo aos Espíritos muito elevados, cujo envoltório
etéreo não tem nada de semelhante ao que conhecemos aqui na Terra.
O mesmo não ocorre com os de perispírito mais denso: estes percebem
nossos sons e odores, mas não por uma parte limitada de sua individualidade,
como quando encarnados. Pode-se dizer que neles as vibrações
moleculares se fazem sentir em todo seu ser e chegam assim ao seu
sensorium commune2, que é o próprio Espírito, embora de um modo diferente,
o que produz uma modificação na percepção. Eles ouvem o som de
nossa voz e, no entanto, nos compreendem sem necessidade da palavra,
apenas pela transmissão do pensamento; isso vem em apoio ao que
dissemos: a percepção dessas vibrações é tão mais fácil quanto mais
desmaterializado está o Espírito. Quanto à visão, é independente de nossa
luz. O dom da visão é um atributo essencial da alma, para ela não há
obscuridade; mas é mais ampla e penetrante para os que estão mais purificados.
A alma ou o Espírito tem nela mesma todos os dons e recursos
de todas as percepções. Na vida corporal são limitados pela grosseria dos
órgãos físicos; na vida extracorporal são cada vez menos limitados, à medida
que menos denso se torna o envoltório semimaterial.
Esse envoltório, o perispírito, tirado do meio ambiente, varia de acordo
com a natureza dos mundos. Ao passar de um mundo para outro, os
2 - Sensorium commune: expressão latina usada em medicina e em anatomia, que significa
sede da sensação, da sensibilidade (N. E.).
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
128
Espíritos mudam de envoltório, assim como mudamos de roupa quando
passamos do inverno para o verão, ou de um pólo para o Equador. Os
Espíritos mais elevados, quando vêm nos visitar, se revestem do perispírito
terrestre e, assim, suas percepções são como as dos Espíritos do lugar
onde estão. Porém, todos, tanto inferiores quanto superiores, apenas ouvem
e sentem o que querem ouvir ou sentir. Tendo em vista que não possuem
os órgãos sensitivos, podem tornar, à vontade, suas percepções
ativas ou nulas; há apenas uma situação a que são obrigados: a de ouvir
os conselhos dos bons Espíritos. A visão é sempre ativa, mas podem
reciprocamente se tornar invisíveis uns aos outros. De acordo com a posição
que ocupam, podem se ocultar dos que lhes são inferiores, mas não
dos superiores. Nos primeiros momentos que se seguem ao desencarne,
a visão do Espírito é sempre perturbada e confusa; porém, vai se aclarando
à medida que se liberta do corpo físico e pode adquirir nitidez igual à
que tinha durante a vida terrena, além de contar com a possibilidade de
poder ver através dos corpos que são opacos para nós. Quanto a poder
alcançar a visão do espaço infinito, do futuro e do passado, depende do
grau de pureza e da elevação do Espírito.
Toda essa teoria, alegarão alguns, não é nada tranqüilizadora. Pensávamos
que uma vez livres do corpo, instrumento de nossas dores, não
sofreríamos mais. Agora nos dizeis que ainda sofreremos, desta ou daquela
forma, mas que será sempre sofrimento. Ah, sim! Podemos ainda
sofrer, e muito, por um longo tempo, mas podemos também parar de sofrer,
já desde o instante em que deixarmos a vida corporal.
Os sofrimentos aqui da Terra, algumas vezes, independem de nós,
mas muitos são as conseqüências da nossa vontade, e se buscarmos as
origens constataremos que, em sua maior parte, resultam de causas que
poderíamos evitar. Quantos males, quantas enfermidades o homem não
deve aos seus excessos, à sua ambição, às suas paixões? O homem que
sempre tivesse vivido sobriamente, que não tivesse cometido abusos, que
sempre tivesse sido simples em seus gostos, modesto em seus desejos,
se pouparia de muitos sofrimentos. O mesmo acontece com o Espírito: as
angústias que enfrenta são a conseqüência da maneira como viveu na
Terra. Sem dúvida, não terá mais artrite nem reumatismo, mas terá outros
sofrimentos que não são menores. Temos visto que os sofrimentos que
sente são causados pelos laços que ainda existem entre ele e a matéria e,
quanto mais se desmaterializa, menos tem sensações dolorosas. Portanto,
depende do homem querer libertar-se dessa influência já em vida; tem
seu livre-arbítrio e, conseqüentemente, a escolha entre fazer e não fazer.
Que ele dome suas paixões brutais, não tenha ódio, inveja, ciúme, nem
orgulho; que purifique sua alma pelos bons sentimentos; que faça o bem;
que dê às coisas deste mundo a importância que merecem; então, ainda
no corpo físico, já estará purificado, desprendido da matéria, e quando o
deixar não sofrerá mais sua influência. Os sofrimentos físicos que experimentou
não deixarão nenhuma lembrança dolorosa; não restará nenhuma
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
129
impressão desagradável, porque afetou apenas o corpo e não o Espírito.
Ficará feliz por estar livre delas, e a calma de sua consciência o livrará de
todo sofrimento moral.
Interrogamos milhares de Espíritos que haviam pertencido a todas as
classes da sociedade e a todas as posições sociais, quando na Terra.
Nós os estudamos em todos os períodos de sua vida espírita, desde o
instante em que deixaram o corpo; nós os seguimos passo a passo na
vida após a morte para observar as mudanças que se operavam neles,
nas idéias, nas sensações. E sob esse aspecto, os homens mais simples
foram os que nos forneceram materiais de estudo mais preciosos, porque
notamos sempre que os sofrimentos estão relacionados à conduta que
tiveram na vida corpórea da qual sofrem as conseqüências, e que essa
nova existência é fonte de uma felicidade indescritível para aqueles que
seguiram o bom caminho. Deduz-se que sofrem porque merecem e só
podem queixar-se de si mesmos, tanto neste quanto no outro mundo.
ESCOLHA DAS PROVAS
258 Na espiritualidade, antes de começar uma nova existência
corporal, o Espírito tem consciência e previsão das coisas que acontecerão
durante sua vida?
– Ele mesmo escolhe o gênero de provas que quer passar. Nisso
consiste seu livre-arbítrio.
258 a Então não é Deus que impõe os sofrimentos da vida como
castigo?
– Nada acontece sem a permissão de Deus, que estabeleceu todas
as leis que regem o universo. Perguntareis, então, por que Ele fez esta lei
em vez daquela. Ao dar ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda
a responsabilidade de seus atos e de suas conseqüências, nada impede
seu futuro; o caminho do bem está à frente dele, assim como o do mal.
Mas, se fracassa, resta-lhe uma consolação: nem tudo está acabado para
ele. Deus, em sua bondade, deixa-o livre para recomeçar, reparando o
que fez de mal. É preciso, aliás, distinguir o que é obra da vontade de
Deus e o que é obra do homem. Se um perigo vos ameaça, não fostes
vós que o criastes, foi Deus; mas tendes a liberdade de vos expor a ele,
por terdes visto aí um meio de adiantamento, e Deus o permitiu.
259 Se o Espírito tem a escolha do gênero de prova que deve
passar, todas as dificuldades que experimentamos na vida foram previstas
e escolhidas por nós?
– Todas não é a palavra, porque não se pode dizer que escolhestes e
previstes tudo que vos acontece neste mundo, até nas menores coisas.
Vós escolhestes os gêneros das provas; os detalhes são conseqüência
da situação em que viveis e, freqüentemente, de vossas próprias ações.
Se o Espírito quis nascer entre criminosos, por exemplo, sabia dos riscos
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
130
a que se exporia, mas não tinha conhecimento dos atos que viria a praticar;
esses atos são efeito de sua vontade ou de seu livre-arbítrio. O Espírito
sabe que, ao escolher um caminho, terá uma luta a suportar; sabe a natureza
e a diversidade das coisas que enfrentará, mas não sabe quais os
acontecimentos que o aguardam. Os detalhes dos acontecimentos nascem
das circunstâncias e da força das coisas. Somente os grandes
acontecimentos que influem na vida estão previstos. Se seguis um caminho
cheio de sulcos profundos, sabeis que deveis tomar grandes
precauções, porque tendes a probabilidade de cair, mas não sabeis em
qual deles caireis; pode ser que a queda não aconteça, se fordes prudente
o bastante. Se, ao passar na rua, uma telha cai na vossa cabeça, não
acrediteis que estava escrito, como se diz vulgarmente.
260 Como o Espírito pode querer nascer entre pessoas de má
conduta?
– É preciso que seja enviado para um meio em que possa se defrontar
com a prova que pediu. Pois bem! É preciso que haja identidade de relações
e semelhanças, que os semelhantes se atraiam: para lutar contra o
instinto do roubo, é preciso que se encontre entre pessoas que roubam.
260 a Se não houvesse pessoas de má conduta na Terra, o Espírito
não encontraria nela o meio necessário para passar por determinadas
provas?
– E seria o caso de lastimar se isso acontecesse? É o que ocorre nos
mundos superiores, onde o mal não tem acesso porque há somente Espíritos
bons. Fazei que o mesmo aconteça na vossa Terra.
261 O Espírito, nas provas que deve passar para atingir a perfeição,
deve experimentar todas as tentações? Deve passar por todas
as circunstâncias que podem incitar o orgulho, a inveja, a avareza, a
sensualidade, etc.?
– Certamente que não, uma vez que sabeis que há Espíritos que,
desde o começo, tomam um caminho que os livra de muitas provas; mas,
aquele que se deixa levar pelo mau caminho corre todos os perigos desse
caminho. Um Espírito, por exemplo, pode pedir a riqueza e esta ser concedida;
então, de acordo com seu caráter, poderá tornar-se avarento ou
pródigo, egoísta ou generoso, ou se entregar a todos os prazeres da sensualidade;
mas isso não quer dizer que tenha que passar forçosamente
por todas essas tendências.
262 Como pode o Espírito em sua origem, simples, ignorante e
sem experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa
e ser responsável por essa escolha?
– Deus supre sua inexperiência ao traçar-lhe o caminho que deve seguir,
como o fazeis com uma criança desde o berço. Deixa-o, porém, livre para
escolher, à medida que seu livre-arbítrio se desenvolve. É então que muitas
vezes se extravia ao seguir o mau caminho, se não escuta os conselhos dos
bons Espíritos; é o que se pode chamara queda do homem.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
131
262 a Quando o Espírito usa seu livre-arbítrio, a escolha da existência
corporal depende sempre de sua vontade, ou essa existência
pode ser imposta pela vontade de Deus como expiação?
– Deus sabe esperar: não apressa a expiação. No entanto, perante a
Lei, um Espírito pode ter uma encarnação compulsória quando, por sua
inferioridade, ou má vontade, não está apto a compreender o que lhe poderia
ser mais útil e quando essa encarnação pode servir à sua purificação
e adiantamento, ao mesmo tempo que lhe sirva de expiação.
263 O Espírito faz sua escolha imediatamente após a morte?
– Não, muitos acreditam na eternidade das penas e, como já foi dito,
pensar assim representa para eles um castigo. (Veja a questão 101).
264 Como o Espírito escolhe as provas que quer suportar?
– Ele escolhe as que podem ser para ele uma expiação, pela natureza
de seus erros, e lhe permitam avançar mais rapidamente. Uns podem, ao
escolher, se impor uma vida de misérias e privações para tentar suportá-la
com coragem; outros querem se experimentar nas tentações da riqueza e
do poder, muito perigosas, pelo abuso e o mau uso que delas se possa
fazer e pelas paixões inferiores que desenvolvem; outros, enfim, preferem
se experimentar nas lutas que têm que sustentar em contato com o vício.
265 Se alguns Espíritos escolhem o contato com o vício como
prova, há aqueles que o escolhem por simpatia e desejo de viver num
meio conforme seu gosto, ou para se entregar completamente às tendência
materiais?
– Há, sem dúvida. Mas só fazem essa escolha os que têm o senso
moral ainda pouco desenvolvido; a provação está em viver a escolha que
fizeram e a sofrem por longo tempo. Cedo ou tarde, compreenderão que a
satisfação das paixões brutais traz conseqüências deploráveis, e o sofrimento
lhes parecerá eterno. Poderão permanecer nesse estado até que
se tornem conscientes da falta em que incorreram, e então eles mesmos
pedem a Deus para resgatá-las em provas libertadoras.
266 Não parece natural escolher as provas menos dolorosas?
– Para vós, sim; para o Espírito, não. Quando se está liberto da matéria,
a ilusão cessa e a forma de pensar é outra.
G O homem na Terra, sob a influência das idéias terrenas, vê nas suas
provas apenas o lado doloroso. Por isso lhe pareceria natural escolher
as que, em seu ponto de vista, pudessem se conciliar com os prazeres
materiais. Porém, na vida espiritual, compara esses prazeres ilusórios e
grosseiros com a felicidade inalterável que percebe, e, então, nenhuma
importância dá aos sofrimentos passageiros da Terra. O Espírito pode,
em vista disso, escolher a prova mais rude e, conseqüentemente, a mais
angustiosa existência, na esperança de atingir mais depressa um estado
melhor, como o doente escolhe muitas vezes o remédio mais desagradável
para se curar mais depressa. Aquele que deseja ver seu nome
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
132
ligado à descoberta de um país desconhecido não escolhe um caminho
florido; sabe dos perigos que corre, mas também sabe da glória que o
espera se for bem-sucedido.
A doutrina da liberdade na escolha de nossas existências e das
provas que devemos suportar deixa de causar espanto ou surpresa, se
considerarmos que os Espíritos livres da matéria apreciam as coisas de
maneira diferente da nossa. Percebem que há um objetivo, bem mais
sério do que os prazeres ilusórios do mundo e, após cada existência,
vêem o passo que deram e compreendem o que ainda lhes falta de
pureza para atingi-lo. Eis por que se submetem voluntariamente a todas
as alternâncias e às dificuldades da vida corporal, pedindo, eles mesmos,
aquelas que lhes permitam alcançar mais prontamente o objetivo
a que almejam. Não há, portanto, motivo de estranheza no fato de o
Espírito não escolher uma existência mais suave. No estado de imperfeição
em que se acha, o Espírito não pode querer uma existência feliz,
sem amargura; ele a pressente e antevê, e é para atingi-la que procura
melhorar-se.
Não temos, aliás, todos os dias, perante os olhos, exemplos de
experiências parecidas? O que faz o homem que trabalha uma parte de
sua vida, sem trégua nem descanso, para reunir posses que lhe garantam
o bem-estar, senão uma tarefa que se impôs tendo em vista um
futuro melhor? O militar que se arrisca numa missão perigosa, o viajante
que enfrenta os maiores perigos no interesse da ciência ou de sua fortuna;
o que isso representa, senão provas voluntárias que lhes devem
proporcionar honra e proveito, se forem bem-sucedidos? A que não se
submete e não se expõe o homem por seu interesse ou glória? Os concursos
não são também provas voluntárias às quais se submete, para
se elevar na carreira que escolheu? Não se chega a uma posição importante,
qualquer que seja, nas ciências, nas artes, na indústria, senão
passando por posições inferiores que são também provas. A vida humana
é uma cópia da vida espiritual, na qual encontramos, em escala
pequena, todas as mesmas peripécias. Se, na vida terrestre, escolhemos
freqüentemente as provas mais rudes, visando a um objetivo mais
elevado, por que o Espírito, que vê mais longe e para quem a vida terrestre
é apenas um incidente passageiro, não escolheria uma existência
laboriosa e de renúncia, sabendo que ela deve conduzi-lo a uma felicidade
eterna? Aqueles que dizem que, se o homem tem o direito de escolha
de sua existência, pediriam para ser príncipes ou milionários são como
míopes, que vêem apenas o que tocam, ou como crianças gulosas, às
quais, quando se pergunta que profissão pretendem, respondem: pasteleiros
ou confeiteiros.
Como um viajante que, no fundo do vale embaçado pelo nevoeiro,
não vê a distância, nem os pontos extremos de seu caminho; mas, uma
vez chegado ao cume da montanha, divisa o caminho que percorreu e o
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
133
que lhe resta percorrer; vê seu objetivo, os obstáculos que ainda tem a
transpor e pode, então, planejar com mais segurança os meios para
atingi-lo. O Espírito encarnado é semelhante ao viajante no fundo do
vale. Liberto dos laços terrestres, sua visão tem o completo domínio da
sua destinação, como aquele que está no cume da montanha. Para o
viajante, o objetivo é o repouso após o cansaço; para o Espírito, é a
felicidade suprema após as dificuldades e as provas.
Todos os Espíritos dizem que, na espiritualidade, pesquisam, estudam
e observam para fazer sua escolha. Não temos um exemplo desse
fato na vida corporal? Não procuramos freqüentemente, durante anos,
a carreira em que fixamos livremente nossa escolha, por acreditarmos
ser a mais apropriada para fazermos nosso caminho? Se fracassamos
numa, escolhemos outra. Cada carreira que abraçamos é uma fase, um
período da vida. Cada dia não é empregado para planejar o que faremos
no dia seguinte? Portanto, o que são as diferentes existências corporais
para o Espírito senão etapas, períodos, dias de sua vida espírita,
que é, como sabemos, sua vida normal, uma vez que a corpórea é apenas
transitória e passageira?
267 O Espírito pode escolher suas provas, quando já encarnado?
– Seu desejo pode ter influência, dependendo da intenção com que
as deseja; mas, como Espírito, vê freqüentemente as coisas muito diferentes.
É apenas o Espírito que faz a escolha; mas, afirmamos mais uma vez,
é possível. Ele pode fazê-la na vida material, porque para o Espírito há
sempre momentos em que fica independente da matéria que habita.
267 a Muitas pessoas desejam poder e riqueza; não é, certamente,
como expiação ou como prova?
– Sem dúvida, é o instinto material que as deseja para delas desfrutar;
já o Espírito as deseja para conhecer todas as alternativas que elas
oferecem.
268 Até que atinja o estado de pureza perfeita, o Espírito tem que
passar constantemente por provas?
– Sim, mas não são como as entendeis, visto que chamais de provas às
adversidades materiais. Porém, o Espírito que atingiu um certo grau, sem ser
ainda perfeito, nada mais tem a suportar; embora sempre tenha deveres que
o ajudam a se aperfeiçoar, e que nada têm para ele de constrangedor ou
angustiante, ainda que seja para ajudar os outros a se aperfeiçoar.
269 O Espírito pode se enganar sobre a eficácia da prova que
escolheu?
– Ele pode escolher uma que esteja acima de suas forças e, então,
fracassar. Pode também escolher alguma que não lhe dê nenhum proveito,
que resulte numa vida ociosa e inútil; mas, então, uma vez de volta ao
mundo dos Espíritos, percebe que nada ganhou e pede para reparar o
tempo perdido, numa outra encarnação.
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
134
270 A que se devem as vocações de certas pessoas e seu desejo
de seguir uma carreira em vez de outra?
– Parece-me que vós mesmos podeis responder a essa questão.
Não é a conseqüência de tudo o que dissemos sobre a escolha das provas
e o progresso realizado nas existências anteriores?
271 Ainda na espiritualidade, o Espírito, ao estudar as diversas
condições em que poderá progredir, como pensa poder fazê-lo ao
nascer, por exemplo, entre os povos canibais?
– Espíritos já avançados não nascem entre canibais. Entre eles nascem
Espíritos com a natureza dos canibais, ou que lhe são até inferiores.
G Sabemos que os antropófagos3 não estão no último grau da escala
evolutiva e que há mundos onde o embrutecimento e a ferocidade ultrapassam
em tudo o que conhecemos na Terra. Esses Espíritos que lá
habitam são ainda inferiores aos mais inferiores de nosso mundo, e nascer
entre os nossos selvagens é para eles um progresso, como seria um
progresso para os antropófagos do nosso globo exercer entre nós uma
profissão que os obrigasse a derramar sangue4. Se não alcançam o
mais alto é porque sua inferioridade moral não lhes permite compreender
um progresso mais completo. O Espírito não pode avançar senão
gradualmente; não pode transpor de um salto a distância que separa a
barbárie da civilização, e é aí que vemos uma das necessidades da reencarnação,
que está verdadeiramente de acordo com a justiça de Deus.
De outro modo, em que se tornariam esses milhões de seres que morrem
a cada dia no último estado de degradação, se não possuíssem os
meios de atingir a superioridade? Por que Deus os deserdaria dos favores
concedidos aos outros homens?
272 Espíritos vindos de um mundo inferior à Terra ou de um povo
muito atrasado, como os canibais, por exemplo, poderiam nascer entre os
povos civilizados?
– Sim, há os que se desencaminham ao querer subir muito alto. Ficam
desajustados entre vós, porque possuem costumes e instintos que
não se afinam com os vossos.
3 - Antropófago: aquele que come carne humana (N. E.).
4 - Que os obrigasse a derramar sangue (qui les obligerant à verser le sang): Pode causar
estranheza, à primeira vista, a afirmativa de Allan Kardec, a ponto de se pensar que o razoável
seria pela negativa, isto é, que os obrigasse a não derramar sangue, o que faria supor que assim
haveria um grande progresso do Espírito, de matador e carnívoro reencarnaria longe dessas
características num grande salto evolutivo. A Doutrina Espírita não ensina isso; a afirmativa de
Allan Kardec está de acordo com os ensinamentos básicos dos Espíritos do Senhor.
Muitos antropófagos, se tiverem mérito para tanto, podem reencarnar em meio à sociedade
desempenhando funções compatíveis com o progresso coletivo. Respeita-se dessa forma a sua
essência de Espíritos em ascensão, sem que para isso seja necessário que andem de tacape ou
faca em punho “fazendo esguichar sangue” como pode dar a entender a frase ao pé da letra. Está
aí o progresso do Espírito. Reencarna em meio à civilização numa profissão útil que representa
para ele um grande degrau de progresso: da barbárie antropófaga para a civilização (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
135
G Esses seres nos dão o triste espetáculo da ferocidade em meio à
civilização. Ao retornar renascendo entre os canibais, não sofrem uma
queda, uma degradação, apenas voltam aos seus lugares e com isso
talvez até ganhem.
273 Um homem que pertence a uma raça civilizada poderia, por
expiação, reencarnar em uma raça selvagem?
– Sim, mas isso depende do gênero da expiação. Um senhor que
tenha sido cruel com seus escravos poderá tornar-se escravo por sua vez
e sofrer os maus-tratos que fez os outros suportar. Aquele que um dia
comandou poderá, em uma nova existência, obedecer até mesmo àqueles
que se curvaram à sua vontade. É uma expiação que lhe pode ser
imposta, se abusou de seu poder. Um bom Espírito também pode escolher
uma existência em que exerça uma ação influente e encarnar dentre
povos atrasados, para fazer com que progridam, o que, neste caso, é
para ele uma missão.
RELAÇÕES APÓS A MORTE
274 As diferentes ordens de Espíritos estabelecem entre eles
uma hierarquia de poderes? Existe entre eles subordinação e autoridade?
– Sim, muito grande. Os Espíritos têm uns para com os outros uma
autoridade relativa à sua superioridade, que exercem por uma ascendência
moral irresistível.
274 a Os Espíritos inferiores podem escapar da autoridade dos
superiores?
– Eu disse: irresistível.
275 O poder e a consideração que um homem desfrutou na Terra
lhe dão alguma supremacia no mundo dos Espíritos?
– Não. Os pequenos serão elevados e os grandes rebaixados. Lede
os Salmos5.
275 a Como devemos entender essa elevação e esse rebaixamento?
– Não sabeis que os Espíritos são de diferentes ordens, de acordo
com seu mérito? Pois bem! O maior da Terra pode estar no último lugar
entre os Espíritos, enquanto seu servidor pode estar no primeiro. Compreendei
isso? Jesus disse: “Todo aquele que se humilhar será elevado e todo
aquele que se elevar será humilhado”.
276 Aquele que foi grande na Terra e se encontra entre os Espíritos
de ordem inferior passa por humilhação?
– Freqüentemente muito grande, principalmente se era orgulhoso e
invejoso.
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
5 - Salmos: livro bíblico do Velho Testamento (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
136
277 O soldado que, após a batalha, encontra seu general no
mundo dos Espíritos, o reconhece ainda como seu superior?
– O título não é nada; a superioridade real é tudo.
278 Os Espíritos de diferentes ordens se misturam uns com os
outros?
– Sim e não, ou seja, eles se vêem, mas se distinguem uns dos outros
e se afastam ou se aproximam, de acordo com os seus sentimentos, como
acontece entre vós. Constituem um mundo do qual o vosso dá uma vaga
idéia. Os da mesma categoria se reúnem por afinidade e formam grupos
ou famílias de Espíritos unidos pela simpatia e objetivo a que se propuseram:
os bons, pelo desejo de fazer o bem; os maus, pelo desejo de fazer
o mal, pela vergonha de suas faltas e pela necessidade de se encontrar
entre seres semelhantes.
G Exatamente como numa grande cidade, onde os homens de todas
as categorias e condições se vêem e se reencontram sem se confundirem;
onde as sociedades se formam por semelhanças de gostos; onde
o vício e a virtude convivem cada um à sua maneira.
279 Todos os Espíritos têm reciprocamente acesso uns aos outros?
– Os bons vão a toda parte e é preciso que seja desse modo para
que possam exercer sua influência sobre os maus. As regiões habitadas
pelos bons são interditadas aos Espíritos imperfeitos, a fim de que não as
perturbem com suas más paixões.
280 Qual é a natureza das relações entre os bons e os maus
Espíritos?
– Os bons empenham-se em combater as más tendências dos outros,
a fim de ajudá-los a elevar-se; é sua missão.
281 Por que os Espíritos inferiores gostam de nos induzir ao mal?
– Por inveja de não ter merecimento para estar entre os bons. Seu
desejo é impedir, tanto quanto possam, os Espíritos inexperientes de alcançar
o bem supremo; querem que os outros sintam o que eles mesmos
sentem. Não acontece também o mesmo entre vós?
282 Como os Espíritos se comunicam entre si?
– Eles se vêem e se compreendem; a palavra se materializa pelo reflexo
do Espírito. O fluido universal estabelece entre eles uma comunicação
constante; é o veículo da transmissão do pensamento, assim como o ar é
o veículo do som. É uma espécie de telégrafo universal que liga todos os
mundos e permite aos Espíritos comunicarem-se de um mundo a outro.
283 Os Espíritos podem esconder seus pensamentos? Podem
se ocultar uns dos outros?
– Não, para eles tudo está a descoberto, principalmente entre os que
são perfeitos. Podem se afastar uns dos outros, mas sempre se vêem.
Isso não é, entretanto, uma regra absoluta, porque certas categorias de
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
137
Espíritos podem muito bem se tornar invisíveis para outros, se julgarem
útilfazê-lo.
284 Como os Espíritos, que não têm mais corpo, podem constatar
a sua individualidade e se distinguir dos outros que os rodeiam?
– Eles constatam sua individualidade pelo perispírito, que os
distingue uns dos outros, assim como pelo corpo se podem distinguir os
homens.
285 Os Espíritos se reconhecem por terem coabitado a Terra? O
filho reconhece seu pai, o amigo reconhece seu amigo?
– Sim, e assim de geração em geração.
285 a Como os homens que se conheceram na Terra se reconhecem
no mundo dos Espíritos?
– Nós vemos nossa vida passada e a lemos como num livro; ao ver
o passado de nosso amigos e inimigos, vemos sua existência da vida
à morte.
286 A alma, ao deixar o corpo logo após a morte, vê imediatamente
parentes e amigos que a precederam no mundo dos Espíritos?
– Imediatamente não é bem a palavra. Como já dissemos, ela precisa
de algum tempo para reconhecer seu estado e se desprender da matéria.
287 Como a alma é acolhida em seu retorno ao mundo dos Espíritos?
– A do justo, como um irmão bem-amado que é esperado há muito
tempo. A do mau, como um ser que se equivocou.
288 Que sentimento têm os Espíritos impuros quando vêem um
mau Espírito chegando até eles?
– Os maus ficam satisfeitos ao ver seres à sua imagem e privados, como
eles, da felicidade infinita, como, na Terra, um perverso entre seus iguais.
289 Nossos parentes e amigos vêm algumas vezes ao nosso
encontro quando deixamos a Terra?
– Sim, eles vêm ao encontro da alma que estimam. Felicitam-na como
no retorno de uma viagem, se ela escapou dos perigos do caminho, e a
ajudam a se despojar dos laços corporais. É a concessão de uma graça
para os bons Espíritos quando aqueles que amam vêm ao seu encontro,
enquanto o infame, o mau, sente-se isolado ou é apenas rodeado por
Espíritos semelhantes a ele: é uma punição.
290 Os parentes e amigos sempre se reúnem depois da morte?
– Isso depende de sua elevação e do caminho que seguem para seu
adiantamento. Se um deles é mais avançado e marcha mais rápido do
que o outro, não poderão permanecer juntos. Poderão se ver algumas
vezes, mas somente estarão para sempre reunidos quando marcharem
lado a lado, ou quando atingirem a igualdade na perfeição. Além disso, a
impossibilidade de ver seus parentes e seus amigos é, algumas vezes,
uma punição.
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
138
RELAÇÕES DE SIMPATIA E ANTIPATIA
ENTRE OS ESPÍRITOS. METADES ETERNAS
291 Além da simpatia geral de afinidade, os Espíritos têm entre
si afeições particulares?
– Sim, como entre os homens. Mas o laço que une os Espíritos é mais
forte quando estão livres do corpo, por não estarem mais expostos às
alterações e volubilidades das paixões.
292 Há ódio entre os Espíritos?
– Somente há ódio entre os Espíritos impuros, e são eles que provocam
entre vós as inimizades e as desavenças.
293 Dois seres que foram inimigos na Terra conservarão ressentimentos
um contra o outro no mundo dos Espíritos?
– Não. Eles compreenderão que seu ódio era uma tolice e o motivo,
pueril. Apenas os Espíritos imperfeitos conservam um certo rancor até que
estejam depurados. Se foi unicamente por um interesse material que se
tornaram inimigos, não pensarão mais nisso, ainda que estejam pouco
desmaterializados. Se não há antipatia entre eles, o motivo de discussão
não mais existindo, podem se rever com prazer.
G Como dois escolares que atingiram a idade da razão reconhecem a
infantilidade das brigas que tiveram na infância e deixam de se malquerer.
294 A recordação das más ações que dois homens praticaram
um contra o outro é um obstáculo à simpatia?
– Sim, isso os leva a se distanciarem.
295 Que sentimento têm após a morte aqueles a quem fizemos
mal aqui na Terra?
– Se são bons, perdoam de acordo com o vosso arrependimento. Se
são maus, é possível que conservem ressentimento e algumas vezes até
vos persigam numa outra existência. Isso pode representar uma punição,
uma provação.
296 As afeições individuais dos Espíritos são passíveis de alteração?
– Não, porque não podem se enganar. Eles não têm mais a máscara
sob a qual se escondem os hipócritas; eis por que as suas afeições são
inalteráveis quando são puros. O amor que os une é para eles a fonte de
uma felicidade suprema.
297 A afeição que dois seres tiveram na Terra sempre continuará
no mundo dos Espíritos?
– Sim, sem dúvida, se é fundada sobre uma simpatia verdadeira. Mas
se as causas físicas foram maiores que a simpatia, ela cessa com a causa.
As afeições entre os Espíritos são mais sólidas e mais duráveis do que as
da Terra, porque não estão sujeitas aos caprichos dos interesses materiais
e do amor-próprio.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
139
298 As almas que devem unir-se estão predestinadas a essa
união desde a origem e cada um de nós tem, em alguma parte do
universo, sua metade à qual um dia fatalmente se unirá?
– Não. Não existe união particular e fatal entre duas almas. A união
existe entre todos os Espíritos, mas em diferentes graus, de acordo com a
categoria que ocupam, ou seja, de acordo com a perfeição que adquiriram:
quanto mais perfeitos, mais unidos. Da discórdia nascem todos os
males humanos; da concórdia resulta a felicidade completa.
299 Em que sentido devemos entender a palavra metade, de que
certos Espíritos se servem para designar os Espíritos simpáticos?
– A expressão é inexata. Se um Espírito fosse a metade de um outro,
uma vez separados, ambos estariam incompletos.
300 Dois Espíritos perfeitamente simpáticos6, uma vez reunidos,
o serão pela eternidade, ou podem se separar e se unir a outros?
– Todos os Espíritos são unidos entre si. Falo daqueles que atingiram
a perfeição. Nas esferas inferiores, quando um Espírito se eleva, já não
tem mais a mesma simpatia por aqueles que deixou para trás.
301 Dois Espíritos simpáticos são o complemento um do outro,
ou essa simpatia é o resultado de uma identidade perfeita?
– A simpatia que atrai um Espírito ao outro é o resultado da perfeita
concordância de suas tendências, de seus instintos; se um tivesse que
completar o outro, perderia sua individualidade.
302 A identidade necessária para a simpatia perfeita consiste
apenas na semelhança de pensamentos e sentimentos, ou ainda na
uniformidade dos conhecimentos adquiridos?
– Na igualdade dos graus de elevação.
303 Os Espíritos que não são simpáticos hoje podem tornar-se
mais tarde?
– Sim, todos o serão. Assim, o Espírito que está hoje numa esfera
inferior, ao se aperfeiçoar, alcançará a esfera onde está o outro. Seu reencontro
acontecerá mais prontamente se o que está num grau mais evoluído
permanecer estacionário por não ter conseguido superar as provas a que
se submeteu.
303 a Dois Espíritos simpáticos podem deixar de sê-lo?
– Certamente, se um deles for preguiçoso.
G A teoria das metades eternas7 é apenas uma figura que representa
a união de dois Espíritos simpáticos. É uma expressão usada até mesmo
na linguagem comum e não deve ser tomada ao pé da letra. Os
Espíritos que dela se serviram certamente não pertencem a uma ordem
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
6 - Simpáticos: neste caso, concordantes, solidários, afins; que estão no mesmo padrão evolutivo
(N. E.).
7 - Metades eternas: o que também se conhece na linguagem comum por almas-gêmeas (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
140
elevada. A esfera de suas idéias é limitada e expressa seus pensamentos
pelos termos de que se serviam durante a vida corporal. É preciso
rejeitar essa idéia de dois Espíritos criados um para o outro, e que deverão,
portanto, um dia, fatalmente, se reunir na eternidade, após estarem
separados durante um espaço de tempo mais ou menos longo.
LEMBRANÇA DA EXISTÊNCIA CORPORAL
304 O Espírito se lembra de sua existência corporal?
– Sim, isto é, tendo vivido muitas vezes como homem, ele se lembra
do que foi, e eu vos asseguro que, às vezes, ri por sentir dó de si mesmo.
G Assim como o homem que, atingindo a idade da razão, ri das loucuras
de sua juventude ou das ingenuidades de sua infância.
305 A lembrança da existência corporal se apresenta ao Espírito
de maneira completa e de súbito, após o desencarne?
– Não, ele a revê pouco a pouco, como algo que sai de um nevoeiro,
e à medida que fixa sua atenção nisso.
306 O Espírito se lembra, com detalhes, de todos os acontecimentos
de sua vida? Ele alcança o conjunto de um golpe de vista
retrospectivo?
– Ele se lembra das coisas em razão das conseqüências que tiveram
sobre a sua situação de Espírito. Mas deveis compreender que há muitas
circunstâncias da vida às quais não dá a menor importância e que nem
mesmo procura delas se lembrar.
306 a Ele poderia se lembrar, se quisesse?
– Pode se lembrar dos detalhes e de incidentes mais minuciosos,
seja dos acontecimentos, ou até mesmo de seus pensamentos; mas quando
isso não tem utilidade, não o faz.
306 b Ele entrevê o objetivo da vida terrestre com relação à vida
futura?
– Certamente a vê e a compreende bem melhor do que quando encarnado.
Compreende a necessidade de depuração para chegar ao infinito
e sabe que em cada existência se liberta de algumas impurezas.
307 Como a vida passada se retrata na memória do Espírito?
É por um esforço de sua imaginação, ou como um quadro que tem
diante dos olhos?
– De ambas as formas. Todos os atos de que deseja se lembrar são
para ele como se fossem presentes; os outros estão mais ou menos vagos
no seu pensamento, ou totalmente esquecidos. Quanto mais se
desmaterializa, menos dá importância às coisas materiais. Fazeis freqüentemente
a evocação de um Espírito que acaba de deixar a Terra e verificais
que não se lembra do nome das pessoas que amava, nem dos detalhes
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
141
que, para vós, parecem importantes; é que já não lhe interessam e caemlhe
no esquecimento. Do que se lembra muito bem é dos fatos principais
que o ajudam a se melhorar.
308 O Espírito se lembra de todas as existências que precederam
a última que acabou de deixar?
– Todo o seu passado se desenrola diante dele, como as etapas percorridas
por um viajante; mas, como já dissemos, não se lembra de uma
maneira absoluta de todos os atos, lembra-se dos fatos em razão da influência
que têm sobre seu estado presente. Quanto às primeiras
existências, as que podemos considerar como a infância do Espírito, perdem-
se no tempo e desaparecem na noite do esquecimento.
309 Como o Espírito considera o corpo que acabou de deixar?
– Como uma veste que o apertavae sente-se feliz por estar livre dele.
309 a Que sentimento experimenta quando vê seu corpo em decomposição?
– Quase sempre um sentimento de indiferença, como por uma coisa
que não tem mais importância.
310 Após um certo tempo, o Espírito reconhece os ossos ou outros
objetos que lhe tenham pertencido?
– Algumas vezes, sim; mas isso depende do ponto de vista mais ou
menos elevado de como considera as coisas terrenas.
311 O respeito que se tem pelos objetos materiais que pertenceram
ao Espírito atrai sua atenção sobre esses objetos e ele vê esse
respeito com prazer?
– O Espírito sempre fica feliz por ser lembrado. O respeito pelos objetos
dele que se conservaram trazem-no à memória daqueles que deixou.
Mas é o pensamento que o atrai até vós e não os objetos.
312 Os Espíritos conservam a lembrança dos sofrimentos que
passaram durante sua última encarnação?
– Muitas vezes a conservam, e essa lembrança os faz avaliar melhor
quanto vale a felicidade que podem alcançar como Espíritos.
313 O homem que foi feliz na Terra lamenta-se dos prazeres que
perde quando a deixa?
– Somente os Espíritos inferiores lamentam os prazeres perdidos relacionados
com a impureza do seu caráter e que expiam por seus sofrimentos.
Para os Espíritos elevados a felicidade eterna é mil vezes preferível aos
prazeres passageiros da Terra.
G Assim como o homem adulto, que nenhuma importância dá àquilo
que fez as delícias de sua infância.
314 Aquele que começou grandes trabalhos com um objetivo útil
e os vê interrompidos pela morte lamenta, no outro mundo, por tê-los
deixado inacabados?
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
142
– Não, porque vê que outros estão destinados a terminá-los. Então se
empenha em influenciar outros Espíritos encarnados para continuá-los. Se
o seu objetivo na Terra era o bem da humanidade, continuará o mesmo no
mundo dos Espíritos.
315 Aquele que abandonou trabalhos de arte ou de literatura conserva
por suas obras o amor que lhes tinha quando era vivo?
– De acordo com sua elevação, julga-os sob um outro ponto de vista
e, freqüentemente, se arrepende de coisas que admirava antes.
316 O Espírito se interessa pelos trabalhos que se executam na
Terra pelo progresso das artes e das ciências?
– Isso depende de sua elevação ou da missão que deve desempenhar.
O que vos parece magnífico é, muitas vezes, pouca coisa para certos
Espíritos, que a consideram como um sábio vê a obra de um estudante.
Eles têm consideração pelo que pode contribuir para a elevação dos Espíritos
encarnados e seus progressos.
317 Os Espíritos, após o desencarne, conservam o amor à pátria?
– É sempre o mesmo princípio: para os Espíritos elevados, a pátria é o
universo; na Terra, a pátria está onde há mais pessoas que lhes inspirem
simpatia.
G A situação dos Espíritos e sua maneira de ver as coisas variam infinitamente
em razão do grau de seu desenvolvimento moral e intelectual.
Os Espíritos de uma ordem elevada geralmente fazem na Terra jornadas
de curta duração. Tudo o que se faz na Terra é tão mesquinho em comparação
às grandezas do infinito, as coisas que os homens mais dão
importância são tão infantis a seus olhos, que eles aí encontram poucos
atrativos, a menos que seja em missão com o objetivo de concorrer
para o progresso da humanidade. Os Espíritos de uma ordem mediana
se encontram entre nós mais freqüentemente; porém, já consideram as
coisas sob um ponto de vista mais elevado do que quando encarnados.
Os Espíritos vulgares são a maioria e constituem a massa da população
ambiente do mundo invisível do globo terrestre. Conservaram, com pouca
diferença, as mesmas idéias, gostos e tendências que possuíam quando
encarnados. Eles se intrometem nas nossas reuniões, nos negócios
e nas ocupações e nelas tomam parte mais ou menos ativa, de acordo
com seu caráter. Não podendo satisfazer às suas paixões, estimulam e
se deliciam com os que a elas se entregam. Entre eles, há alguns mais
sérios, que vêem e observam para se instruir e se aperfeiçoar.
318 As idéias dos Espíritos desencarnados se modificam quando
estão na erraticidade?
– Se modificam muito. Sofrem grandes modificações à medida que o
Espírito se desmaterializa. Ele pode algumas vezes permanecer por muito
tempo com as mesmas idéias, mas pouco a pouco a influência da matéria
diminui e vê as coisas com mais clareza. É então que procura os meios de
se aperfeiçoar.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
143
319 Uma vez que o Espírito já viveu a vida espírita em vidas
anteriores, de onde vem seu espanto ao reentrar no mundo dos Espíritos?
– É apenas o efeito do primeiro momento e da perturbação que se
segue ao seu despertar. Mais tarde reconhece perfeitamente o seu estado,
à medida que a lembrança do passado lhe vem e que se apaga a
impressão da vida terrestre. (Veja, nesta obra, questão 163 e segs.)
COMEMORAÇÃO DOS MORTOS. FUNERAIS
320 Os Espíritos são sensíveis à saudade daqueles que amaram
e que ficaram na Terra?
– Muito mais do que podeis supor; se são felizes, essa lembrança
aumenta sua felicidade; se são infelizes, essa lembrança é para eles um
alívio.
321 O dia da comemoração dos mortos tem algo de solene para
os Espíritos? Eles se preparam para visitar os que vão orar nas suas
sepulturas?
– Os Espíritos atendem ao chamado do pensamento tanto nesse dia
quanto em qualquer outro.
321 a Esse dia é para eles um encontro junto às suas sepulturas?
– Eles estão aí num maior número nesse dia, porque há mais pessoas
que os chamam. Mas cada um deles vem apenas pelos seus amigos e
não pela multidão de indiferentes.
321 b Sob que forma comparecem e como seriam vistos, se pudessem
se tornar visíveis?
– Sob a forma pela qual os conhecemos quando encarnados.
322 Os Espíritos esquecidos, cujos túmulos ninguém visita, também
aí comparecem apesar disso? Lamentam não ver nenhum amigo
que se lembre deles?
– Que lhes importa a Terra? Eles somente se prendem a ela pelo
coração. Se aí não há amor, não há mais nada que retenha o Espírito: tem
todo o universo para si.
323 A visita ao túmulo dá mais satisfação ao Espírito do que uma
prece feita para ele?
– A visita ao túmulo é uma maneira de mostrar que se pensa no Espírito
ausente: é a imagem. Já vos disse, a prece é que santifica o ato da
lembrança; pouco importa o lugar, quando se ora com o coração.
324 Os Espíritos das pessoas às quais se erguem estátuas ou
monumentos assistem à inauguração e as vêem com prazer?
– Muitos comparecem a essas solenidades quando podem, mas são
menos sensíveis às homenagens que lhes prestam do que à lembrança.
CAPÍTULO 6 – VIDA ESPÍRITA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
144
325 De onde surge, para certas pessoas, o desejo de ser enterradas
num lugar em vez de outro? Revêem esse lugar com maior
satisfação após sua morte? Essa importância dada a uma coisa material
é um sinal de inferioridade do Espírito?
– A afeição do Espírito por determinados lugares é inferioridade moral.
Que diferença há entre um pedaço de terra em vez de outro para um
Espírito elevado? Ele não sabe que se unirá aos que ama, mesmo estando
os seus ossos separados?
325 a A reunião dos restos mortais de todos os membros de uma
família num mesmo lugar deve ser considerada como uma coisa fútil?
– Não. É um costume piedoso e um testemunho de simpatia por quem
se amou. Essa reunião pouco importa aos Espíritos, mas é útil aos homens:
as lembranças ficam concentradas num só lugar.
326 A alma, ao entrar na vida espiritual, é sensível às homenagens
prestadas aos seus despojos mortais?
– Quando o Espírito já atingiu um certo grau de perfeição, não possui
mais vaidade terrestre e compreende a futilidade de todas as coisas. Porém,
ficai sabendo, há Espíritos que, no primeiro momento de seu
desencarne, sentem um grande prazer pelas homenagens que lhes prestam,
ou se aborrecem com a falta de atenção ao seu corpo físico; isso
porque ainda conservam alguns preconceitos da Terra.
327 O Espírito assiste ao enterro de seu corpo?
– Ele o assiste muito freqüentemente; mas, algumas vezes, se ainda
estiver perturbado, não se dá conta do que se passa.
327 a Ele fica lisonjeado com a concorrência de assistentes ao
seu enterro?
– Mais ou menos, de acordo com o sentimento que eles tenham.
328 O Espírito daquele que acaba de morrer assiste às reuniões
de seus herdeiros?
– Quase sempre; isso lhe é permitido para sua própria instrução e
para castigo dos culpados. O Espírito julga nessa hora o valor das manifestações
honrosas que lhe faziam. Todos os sentimentos dos herdeiros
se tornam claros como são de fato, e a decepção que sente ao ver a
cobiça daqueles que partilham seus bens o esclarece quanto a esses
sentimentos. Porém, a vez deles chegará igualmente.
329 O respeito instintivo que o homem, em todos os tempos e em
todos os povos, tem pelos mortos é o efeito da intuição de uma vida
futura?
– É a conseqüência natural dessa intuição; sem isso, esse respeito
não teria sentido.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
145
330 Os Espíritos conhecem a época em que reencarnarão?
– Eles a pressentem, assim como um cego sente o fogo quando dele
se aproxima. Sabem que devem retornar a um corpo como sabeis que um
dia deveis morrer, mas não sabem quando isso vai acontecer. (Veja, nesta
obra, a questão 166.)
330 a A reencarnação é, então, uma necessidade da vida espírita,
assim como a morte é uma necessidade da vida corporal?
– Certamente. É exatamente assim.
331 Todos os Espíritos se preocupam com sua reencarnação?
– Há muitos que nem mesmo pensam nisso, nem a compreendem;
isso depende de sua natureza mais ou menos avançada. Para alguns, a
incerteza quanto ao futuro é uma punição.
332 O Espírito pode antecipar ou retardar o momento de sua
reencarnação?
– Pode antecipá-lo, solicitando-o em suas preces. Pode também retardá-
lo, recuar diante da prova, porque entre os Espíritos há também os
covardes e os indiferentes, mas não o fazem impunemente. Ele sofre, como
quem recua diante do remédio salutar que pode curá-lo.
333 Se um Espírito se encontrasse bastante feliz por estar numa
condição mediana na espiritualidade e se não tivesse ambição de
progredir, poderia prolongar esse estado indefinidamente?
– Não. Não indefinidamente. Progredir é uma necessidade que o Espírito
sente, cedo ou tarde. Todos devem elevar-se, esse é o propósito da
destinação dos Espíritos.
334 A união da alma com este ou aquele corpo é predestinada,
ou a escolha se faz apenas no último momento?
– O Espírito é sempre designado antes. Ao escolher a prova por que
deseja passar, pede para encarnar; portanto, Deus, que tudo sabe e tudo
vê, sabe e vê antecipadamente que alma se unirá a qual corpo.
PRELÚDIO DO RETORNO
CAPÍTULO
7
RETORNO À VIDA CORPORAL
Prelúdio do retorno – União da alma e do corpo. Aborto –
Faculdades morais e intelectuais do homem –
Influência do organismo – Os deficientes mentais e
a loucura – Infância – Simpatias e antipatias
terrenas – Esquecimento do passado
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
146
335 O Espírito faz a escolha do corpo em que deve encarnar, ou
apenas do gênero de vida que lhe deve servir de prova?
– Pode escolher o corpo, já que as imperfeições desse corpo são
para ele provas que ajudam no seu adiantamento, se vencer os obstáculos
que aí encontra. Embora possa pedir, a escolha nem sempre depende
dele.
335 a O Espírito poderia, no último momento, recusar o corpo
escolhido por ele?
– Se recusasse, sofreria muito mais do que aquele que não tentou
nenhuma prova.
336 Poderia acontecer que um corpo que tivesse de nascer não
encontrasse Espírito para encarnar nele?
– Deus a isso proveria. Quando a criança deve nascer para viver, está
sempre predestinada a ter uma alma; nada foi criado sem finalidade.
337 A união do Espírito com um determinado corpo pode ser
imposta pela Providência Divina?
– Pode ser imposta, bem como as diferentes provas, especialmente
quando o Espírito ainda não está apto a fazer uma escolha com conhecimento
de causa. Como expiação, o Espírito pode ser obrigado a se unir ao
corpo de uma criança que por seu nascimento e pela posição que terá no
mundo poderão tornar-se para ele uma punição.
338 Se acontecesse de muitos Espíritos se apresentarem para um
mesmo corpo determinado a nascer, o que ficaria decidido entre eles?
– Muitos podem pedir isso. Julga-se num caso desses quem é mais
capaz de desempenhar a missão à qual a criança está destinada; mas,
como já foi dito, o Espírito já está designado antes do instante que deve
unir-se ao corpo.
339 O momento da encarnação é acompanhado de uma perturbação
semelhante à que se experimenta ao desencarnar?
– Muito maior e principalmente mais longa. Na morte o Espírito sai da
escravidão; no nascimento, entra nela.
340 O instante em que o Espírito deve encarnar é para ele solene?
Realiza esse ato como uma coisa séria e importante?
– É como um navegante que embarca para uma travessia perigosa e
não sabe se vai encontrar a morte nas ondas que enfrenta.
G O navegante que embarca sabe a que perigos se expõe, mas não
sabe se naufragará; o mesmo acontece com o Espírito: ele conhece as
provas às quais se submete, mas não sabe se fracassará. Da mesma
forma que para o Espírito a morte do corpo é como um renascimento, a
reencarnação é uma espécie de morte, ou melhor, de exílio, de clausura.
Ele deixa o mundo dos Espíritos pelo mundo corporal, assim como o
homem deixa o mundo corporal pelo mundo dos Espíritos. O Espírito
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
147
sabe que vai reencarnar, do mesmo modo que o homem sabe que vai
morrer. Mas, exatamente como o homem só tem consciência da morte
no momento extremo, também o Espírito só tem consciência da reencarnação
no momento determinado; então, nesse momento supremo,
a perturbação se apossa dele e persiste, até que a nova existência esteja
totalmente formada. Os momentos que antecedem à reencarnação
são uma espécie de agonia para o Espírito.
341 A incerteza em que se encontra o Espírito sobre a eventualidade
do sucesso das provas que vai suportar na vida é motivo de
ansiedade antes de sua encarnação?
– Uma ansiedade muito grande, uma vez que as provas dessa existência
retardarão ou adiantarão seu progresso, de acordo com o que tiver
suportado bem ou mal.
342 No momento de sua reencarnação, o Espírito está acompanhado
por outros Espíritos, seus amigos, que vêm assistir à sua partida
do mundo espírita, assim como o recebem quando para lá retorna?
– Isso depende da esfera que o Espírito habita. Se estiver onde reina
a afeição, os Espíritos que o amam o acompanham até o último momento,
encorajam-no, e muitas vezes até o seguem durante a vida.
343 Os Espíritos amigos que nos seguem durante a vida são
alguns dos que vemos em sonho, que nos demonstram afeição e se
apresentam a nós com aparências desconhecidas?
– Muito freqüentemente são os mesmos. Vêm vos visitar, assim como
visitais um prisioneiro.
UNIÃO DA ALMA E DO CORPO. ABORTO
344 Em que momento a alma se une ao corpo?
– A união começa na concepção, mas só se completa no instante do
nascimento. No momento da concepção, o Espírito designado para habitar
determinado corpo se liga a ele por um laço fluídico e vai aumentando
essa ligação cada vez mais, até o instante do nascimento da criança. O
grito que sai da criança anuncia que ela se encontra entre os vivos e servidores
de Deus.
345 A união entre o Espírito e o corpo é definitiva desde o momento
da concepção? Durante esse primeiro período o Espírito poderia
renunciar ao corpo designado?
– A união é definitiva no sentido de que nenhum outro Espírito poderá
substituir o que está designado para aquele corpo. Mas, como os laços
que o unem são muito frágeis, fáceis de se romper, podem ser rompidos
pela vontade do Espírito, se este recuar diante da prova que escolheu;
nesse caso, a criança não vive.
CAPÍTULO 7 – RETORNO À VIDA CORPORAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
148
346 O que acontece ao Espírito, se o corpo que escolheu morre
antes de nascer?
– Ele escolhe um outro.
346 a Qual é a razão dessas mortes prematuras?
– As imperfeições da matéria são a causa mais freqüente dessas
mortes.
347 Que utilidade pode ter para um Espírito sua encarnação num
corpo que morre poucos dias após seu nascimento?
– O ser não tem a consciência inteiramente desenvolvida de sua existência
e a importância da morte é para ele quase nula. É muitas vezes,
como já dissemos, uma prova para os pais.
348 O Espírito sabe, com antecedência, que o corpo que escolheu
não tem probabilidades de vida?
– Algumas vezes, sabe; mas se o escolher por esse motivo, é porque
recua diante da prova.
349 Quando uma encarnação falha para o Espírito, por uma causa
qualquer, é suprida imediatamente por outra existência?
– Nem sempre imediatamente. É preciso ao Espírito o tempo de escolher
de novo, a menos que uma reencarnação imediata seja uma
determinação anterior.
350 O Espírito, uma vez unido ao corpo de uma criança e quando
já não pode voltar atrás, lamenta, algumas vezes, a escolha que fez?
– Quereis dizer se, como homem, lastima a vida que tem? Se gostaria
de outra? Sim. Lamenta-se da escolha que fez? Não; ele não sabe que a
escolheu. O Espírito, uma vez encarnado, não pode lamentar uma escolha
de que não tem consciência, mas pode achar a carga muito pesada e
considerá-la acima de suas forças. São esses os casos dos que recorrem
ao suicídio.
351 No intervalo da concepção ao nascimento, o Espírito desfruta
de todas as suas faculdades?
– Mais ou menos, de acordo com a época, visto que ainda não está
encarnado, e sim vinculado. Desde o instante da concepção, o Espírito
começa a ser tomado de perturbação, anunciando-lhe que é chegado o
momento de tomar uma nova existência; essa perturbação vai crescendo
até o nascimento. Nesse intervalo, seu estado é quase idêntico ao de um
Espírito encarnado durante o sono do corpo. À medida que a hora do
nascimento se aproxima, suas idéias se apagam, assim como a lembrança
do passado, do qual não terá mais consciência, como pessoa, logo
que entrar na vida. Mas essa lembrança lhe volta pouco a pouco à memória
ao retornar ao seu estado de Espírito.
352 No momento do nascimento, o Espírito recupera imediatamente
a plenitude de suas faculdades?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
149
– Não, elas se desenvolvem gradualmente com os órgãos. É para ele
uma nova existência; é preciso que aprenda a se servir de seus instrumentos.
As idéias lhe voltam pouco a pouco, como a uma pessoa que sai do
sono e se encontra numa posição diferente daquela que tinha na véspera.
353 Como a união do Espírito e do corpo só está completa e
definitivamente consumada após o nascimento, pode-se considerar o
feto como tendo uma alma?
– O Espírito que deve animá-lo existe, de alguma forma, fora dele; não
possui, propriamente falando, uma alma, já que a encarnação está apenas
em via de se operar. Mas o feto está ligado à alma que deve possuir.
354 Como explicar a vida intra-uterina?
– É a da planta que vegeta. A criança vive, então, a vida animal. O
homem tem em si a vida animal e a vida vegetal, que se completam no
nascimento com a vida espiritual.
355 Há, como indica a ciência, crianças que, desde o ventre
materno, não têm possibilidades de viver? Qual o objetivo disso?
– Isso acontece freqüentemente; a Providência o permite como prova
para seus pais ou para o Espírito que está para reencarnar.
356 Existem crianças que, nascendo mortas, não foram destinadas
à encarnação de um Espírito?
– Sim, há as que nunca tiveram um Espírito destinado para o corpo;
nada devia realizar-se por elas. É, então, somente pelos pais que essa
criança veio.
356 a Um ser dessa natureza pode chegar a nascer?
– Sim, algumas vezes; porém, não vinga, não vive.
356 b Toda criança que sobrevive ao nascimento tem, necessariamente,
um Espírito encarnado nela?
– O que seria sem o Espírito? Não seria um ser humano.
357 Quais são, para o Espírito, as conseqüências do aborto?
– É uma existência nula que terá de recomeçar.
358 O aborto provocado é um crime, qualquer que seja a época
da concepção?
– Há sempre crime quando se transgride a Lei de Deus. A mãe, ou
qualquer outra pessoa, cometerá sempre um crime ao tirar a vida de uma
criança antes do seu nascimento, porque é impedir a alma de suportar as
provas das quais o corpo devia ser o instrumento.
359 No caso em que a vida da mãe esteja em perigo pelo nascimento
do filho, existe crime ao sacrificar a criança para salvar a mãe?
– É preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe.
360 É racional ter pelo feto a mesma atenção que se tem pelo
corpo de uma criança que tenha vivido?
CAPÍTULO 7 – RETORNO À VIDA CORPORAL
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
150
– Em tudo isso deveis ver a vontade de Deus e Sua obra. Não trateis,
portanto, levianamente as coisas que deveis respeitar. Por que não respeitar
as obras da Criação, que são incompletas algumas vezes pela vontade
do Criador? Isso pertence a seus desígnios, que ninguém é chamado a
julgar.
FACULDADES MORAIS E INTELECTUAIS DO HOMEM
361 De onde vêm, para o homem, suas qualidades morais, boas
ou más?
– São do Espírito encarnado nele; quanto mais o Espírito for puro,
mais o homem é levado ao bem.
361 a Parece resultar daí que o homem de bem é a encarnação
de um Espírito bom e o homem vicioso a de um mau?
– Sim. Mas devemos dizer que é um Espírito imperfeito, senão poderia
se acreditar na existência de Espíritos sempre maus, a quem chamais
de demônios.
362 Qual é o caráter dos indivíduos nos quais encarnam os Espíritos
travessos e levianos?
– São criaturas imprudentes, maliciosas e, algumas vezes, seres maldosos.
363 Os Espíritos possuem paixões que não pertencem à humanidade?
– Não; se as tivessem as teriam comunicado aos homens.
364 É o mesmo Espírito que dá ao homem as qualidades morais
e da inteligência?
– Certamente é o mesmo, e isso em razão do grau que alcançou na
escala evolutiva. O homem não tem em si dois Espíritos.
365 Por que alguns homens muito inteligentes, que evidenciam
estar neles encarnados Espíritos Superiores, são, ao mesmo tempo,
cheios de vícios?
– É que os Espíritos encarnados neles não são puros o suficiente, e o
homem cede à influência de outros Espíritos ainda piores. O Espírito progride
numa marcha ascendente insensível, mas o progresso não se cumpre
simultaneamente em todos os sentidos. Durante um período das suas
muitas existências, pode avançar em ciência; num outro, em moralidade.
366 O que pensar da opinião de que as diferentes faculdades
intelectuais e morais do homem seriam o produto de diferentes Espíritos
encarnados nele e tendo cada um uma aptidão especial?
– Ao refletir sobre essa opinião, reconhece-se que é absurda. O Espírito
deve ter todas as aptidões; para poder progredir, lhe é necessária uma
vontade única. Se o homem fosse uma mistura de Espíritos, essa vontade
não existiria e não teria individualidade, uma vez que, em sua morte, todos
O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE SEGUNDA
151
esses Espíritos seriam como um bando de pássaros escapados duma
gaiola. O homem lamenta-se, freqüentemente, de não compreender certas
coisas, e é curioso ver como multiplica as dificuldades, quando tem ao
seu alcance uma explicação muito simples e natural. Ainda aqui, toma o
efeito pela causa; é fazer em relação ao homem o que os pagãos faziam
em relação a Deus. Eles acreditavam em tantos deuses quantos são os
fenômenos no universo, mas mesmo entre eles havia pessoas sensatas
que já viam nesses fenômenos apenas efeitos, que tinham uma única
causa – Deus.
G O mundo físico e o mundo moral nos oferecem, a esse respeito,
numerosos pontos de comparação. Acreditou-se na existência múltipla
da matéria enquanto se esteve apegado à aparência dos fenômenos.
Hoje, compreende-se que esses fenômenos tão variados podem muito
bem não passar de modificações de uma matéria elementar única. Os
diversos dons são manifestações de uma mesma causa que é a alma,
ou Espírito encarnado, e não de diversas almas, assim como os diferentes
sons do órgão são o produto do mesmo ar e não de tantas outras
espécies de ar quantos sejam os sons. Desse sistema resultaria que,
quando um homem perde ou adquire certas aptidões, certas tendências,
isso seria pela ação de outros tantos Espíritos que vieram a encarnar
nele ou que se foram, o que o tornaria um ser múltiplo, sem individualidade
e, conseqüentemente, sem responsabilidade. Também contradizem
essa idéia os exemplos tão numerosos de manifestações pelas
quais os Espíritos provam sua personalidade e identidade.
INFLUÊNCIA DO ORGANISMO
367 O Espírito, ao se unir ao corpo, se identifica com a matéria?
– A matéria é apenas o envoltório do Espírito, assim como a roupa é o
envoltório do corpo. O Espírito, ao se unir ao corpo, conserva o que é
próprio de sua natureza espiritual.
368 As faculdades ou dons do Espírito se exercem com toda a
liberdade após sua união com o corpo?
– O exercício das faculdades depende dos órgãos que lhes servem
de instrumento: são enfraquecidas pela grosseria da matéria.
368 a Assim, o corpo material seria um obstáculo à livre manifestação
das faculdades do Espírito, como um vidro opaco se opõe à livre
emissão da luz?
– Sim, é como um vidro muito opaco.
G Pode-se ainda comparar a ação da matéria grosseira do corpo
sobre o Espírito à de uma água lamacenta, que tira a liberdade dos
movimentos dos corpos nela mergulhados.


Comentários