Ana argumentou que Elisa já tinha feito isso.
‒ Um amor, Ana, não outra aventura. ‒ Foi a resposta de Arthmes.
Ana continuava nervosa, mas Gabriel a tranqüilizou, repetindo as palavras de Arthmes e acrescentando outras suas, então ele a conduziu para fazerem um café.
Júnior aproveitou e sentou ao lado de Arthmes.
‒ Cara, me conta uma coisa: gays, lésbicas e simpatizantes entram no céu?
Arthmes sorriu.
‒ Está perguntando isso pela sua consciência ou por curiosidade?
‒ Os dois? – Foi a resposta meio sem graça.
‒ Júnior, uma vez disse a você que nossas ações tem que começar em nossos corações, isto porque vocês têm o Livre Arbítrio, ou seja, têm o poder das escolhas e, com isso, podem escolher o que lhes traz felicidade. Sabemos que Deus é justo e bom, seria uma injustiça “ELE” não amar gays e lésbicas, afinal, eles escolheram esse tipo de relacionamento. Se “ELE” se aborrecesse com isso, teria que culpar a si próprio, pois foi “ELE” quem deu aos mortais o Livre Arbítrio.
Júnior olhava pensativo.
‒ Sei o que você pode estar pensando..., – continuou – mas lembre-se: “ELE” não erra.
‒ Mas as religiões condenam isto.
‒ Júnior, as religiões são a tentativa da tradução da palavra de Deus. Crianças que não se entendem tentam compreender um Ser infinitamente superior. O homossexualismo é tão antigo como a própria Humanidade...
‒ Mas é certo, Arthmes?
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Arthmes colocou a mão na nuca de Júnior.
‒ Sabe o que é errado, Júnior?
Júnior balançou negativamente a cabeça.
‒ A falta de escolha. A falta de escolha faz o mortal, aos olhos de Deus, estar morto.
E se levantou, ia à garagem conversar com Ben, que trabalhava incessantemente. Júnior continuou sentado, pensativo. Arthmes notou e resolveu explicar de outra forma.
‒ Mais uma coisa, sabe como você descobre qual das garrafas tem o melhor vinho?
Júnior olhou sem responder.
‒ Você tem que provar todas.
Então um belo sorriso apareceu no rosto de Júnior, ele enfim compreendeu.
‒ Escutem bem!
‒ Não! Escute você, Nelson...
No restaurante Ilhas Gregas, Walter e Júlia pediram para conversar com Nelson. E Walter já estava gritando.
‒ As pessoas estão morrendo. E nós sabemos os motivos e temos que dar um fim nisso!
‒ E o que você sugere? – Nelson parecia confuso.
‒ Eu sei lá!
‒ Eu acho que devemos confiar neles.
‒ Ninguém perguntou sua opinião, Júlia. – A agressividade de Walter estava fora de controle.
‒ Prestem atenção! –Gritou Nelson. - Se vocês forem brigar a conversa acaba aqui!
Júlia resignou-se, mas Walter continuava nervoso. O próprio silêncio era pesado.
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‒ Escutem, eu acho que toda a história é verdade, e eles são nossa melhor chance de acabar com tudo. Quem vai acreditar em toda essa história? Os crentes? Os católicos? A polícia? Esta cidade vai virar uma loucura, uma verdadeira praça de guerra se prenderem o anjo. E aí? Vamos com tochas atrás do demônio?
Walter não estava acostumado a perder o controle da situação, tudo que pode fazer foi socar a mesa na sua frente. Júlia sorriu pelo canto da boca, foi bom ver o marido no seu lugar.
‒ Vá pra casa, Walter, temos que esperar.
‒ Isto está virando um inferno, mas antes de me alcançar eu tomo uma atitude.
Agarrou Júlia pelo pulso e saiu do restaurante. Nelson, olhando a cena, pensou o que levaria um bom homem como Walter a se transformar dessa maneira. Então lembrou-se do acidente que matou seu próprio filho. Sua mente voou e naquele segundo tudo a sua frente desapareceu, a cena surgiu de forma real, como se estivesse aquele instante: Ele limpando a arma de caça, sentado no sofá de sua sala, um sábado com sol, com certeza no domingo entraria na mata para se divertir com os amigos. Seu pequeno filho de sete anos brincava em frente a porta. Ele só conseguia se lembrar do barulho violento do disparo e o corpo do filho sangrando em seus braços. Ninguém o culpou pelo ocorrido, os anos de análise ajudaram, mas o casamento acabou. Ainda bem que tinha família e amigos, o trabalho também ajudou e sua vida continuou, lógico que de maneira diferente, mas continuou. Retornou ao presente sacudindo a cabeça e desfazendo as imagens. Nelson abaixou a cabeça, suspirou fundo e entrou na cozinha do restaurante, sofrendo pelo filho, pelo velho amigo e por ele mesmo.
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Eraldo entrou em casa esbaforido, estava todo suado. Tinha tirado o terno e a gravata, a caminhada até o monte foi longa, ficar no pico deste por horas também não foi nada agradável, mas ele fez e sentia um forte orgulho por ter conseguido.
‒ Você está bem? Está com uma cara estranha.
A pergunta partiu de sua esposa, uma mulher admirada por todos de sua igreja, afinal, ela perdoou o marido pela traição que ele teve, mesmo sendo depois do casamento, com uma das moças que freqüentava o mesmo local, uma aventura que durou meses. Na época, várias vezes ele a enganou dizendo que iria a outros lugares. Até que em um descuido, ela descobriu. Tudo foi resolvido de forma discreta, o que significa que todos na congregação ficaram sabendo, seu antigo pastor a chamou para convencê-la que era melhor continuar com o marido, que tudo foi uma tentação, algo feito pelo “inimigo”. Ela pensou um pouco, não tinha parentes no estado, foi criada por uma família que sentia orgulho de seu marido, o futuro “pastor” de Nova Hilfurt, só conhecia as pessoas da igreja e todos se afastariam dela se o abandonasse, mesmo estando coberta de razão. Seu marido era a opção de um futuro melhor, por isso resolveu ficar. E a outra? Ficou coberta de vergonha, porque, mesmo sendo solteira, ela fraquejou ante uma provação, se deixou usar pelo “inimigo” e “aproveitou-se” de um bom homem casado. Logo foi hostilizada pelas outras mulheres, que temiam pelos seus homens, o que fazer? O mais simples: ir embora.
‒ Você não imagina o que aconteceu! – Eraldo estava eufórico. – Todas as orações que fizemos hoje foram atendidas!
Os olhos da mulher começaram a brilhar, não eram apenas as palavras, Eraldo era extremamente carismático. Antes mesmo
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de ela dizer algo, Eraldo contou o que aconteceu, colocando palavras mais apaixonadas nas partes em que descrevia sua conversa com o anjo. A mulher acreditava em cada frase. Quando terminou, colocou as mãos em seus ombros e disse:
‒ Ligue para todas as igrejas, não apenas as da nossa congregação, todos precisam saber que a salvação chegou e Deus me escolheu para a tarefa de espalhar a boa nova.
A mulher saiu nervosa e Eraldo, sentando-se, começou a orar, mas só com a boca, sua mente estava longe das palavras. Pensava nos “pecados” que havia cometido e que tinha recordado quando estava no monte. Então veio um nome: Marlene. Suas feições, seu belo corpo nu ao seu lado na cama e também seu único “pecado” revelado. Ele ainda se lembrava da conversa que teve com seu pastor.
‒ Será que minha esposa vai me perdoar?
E da resposta do pastor.
‒ Meu amigo, pense bem. Que opção ela tem?
Ele ainda se lembrava de certa vez que pregava na praça da cidade depois de tudo “resolvido”. Viu Marlene passar sem olhar para os lados, chegou a pensar em chamá‒la, mas perder tudo que tinha conseguido? O respeito, a hierarquia por causa de uma mulher que se aproveitou dele? Ela era a pessoa errada, a mulher que o retirou do caminho do Senhor, a tentação que deveria evitar, pois ali estava o “inimigo” do Senhor. E, sorrindo de orgulho pelo seu discernimento, voltou a cantar o hino de louvor. Nunca mais a viu. Estas recordações se misturavam com outras, mais bem escondidas, nunca reveladas, mas que sempre terminavam com o pedido de perdão a Deus, enfim, Deus o perdoou mostrando-lhe seu mensageiro.
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Mas tinha muito trabalho a fazer, a primeira coisa era saber onde o anjo estava. Não seria difícil, Júnior sempre ficava no hotel Amazonas e o irmão Cláudio era faxineiro de lá. Ele saberia. Além disso, todos deveriam ver o anjo. Repentinamente um grande pensamento invadiu sua mente, talvez ele conseguisse unificar todas as igrejas da cidade. Este pensamento, em um instante, tornou-se uma certeza e viu-se no púlpito de um grande local, lotado de irmãos que louvavam com o anjo a seu lado, mas os “pecados”..., os “pecados” teimavam em voltar nas recordações, deveria deixar isto pra lá, afinal, ele já tinha sua missão, o resto seria seu segredo e ele resolveria depois, com Deus.
‒ Todos temos segredos.
Esta foi a resposta de Arthmes a pergunta de Gabriel, eram 4h30 na casa de Ben, resolveram dormir lá.
‒ Até você? – Falou Gabriel sentando‒se no sofá.
Arthmes sorriu, todos continuavam dormindo, Gabriel se deitou ao lado de Ana para acalmá‒la. Conversaram, olharam-se e beijaram-se. Ficaram juntos no quarto de hóspedes, por isso Júnior dormiu no sofá da sala e Ben dormiu na garagem deitado na mesa, mas ainda não havia sido notado. Gabriel acordou ao lado de Ana, levantou-se e foi para a sala, tinha perdido o sono e sabia que Arthmes não dormia.
‒ Tenho muitos segredos Gabriel.
‒ Você não fala do inferno. Sofreu muito?
‒ Não. Provoquei muito sofrimento.
‒ Você era uma espécie de gerente, mandava nos outros?
Arthmes acenou afirmativamente com a cabeça.
‒ Esse demônio é mais que você? O..., como é o nome dele?
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‒ Na hierarquia, ele está abaixo de mim. Não sou um demônio criado, sou um anjo decaído, ele não teria a chance que estou tendo. E o nome dele é Teobaldo. O mesmo nome do garoto de nove anos que realizei a possessão em Illfurt, na França, no ano de 65. O nome deste demônio é uma piada de Lúcifer para mim.
‒ Todos nós temos que enfrentar nossos demônios. – Falou Gabriel quase instintivamente.
“Boa colocação”, pensou Arthmes e sorriu.
‒ Tem razão, todos nós.
‒ Idiotas! – gritava Teobaldo no telefone.
‒ Digo a você quem são, onde encontrá-los, dou o dinheiro e você manda um burro fazer o trabalho?
‒ O cara era bom, mas não deu sorte.
Elias desistiu de buscar uma desculpa e resolveu mudar de assunto.
‒ Mas tenho uma boa notícia para o senhor.
Teobaldo sentou-se na poltrona. Desta dava para ver a enorme cama do quarto onde Lisa transava com dois homens juntos, na verdade dois governadores. Teobaldo estava realizando as coalizões partidárias.
‒ Muito bem. Espero que estas sejam boas.
Elias sorriu pelo comentário.
‒ Minha mãe esteve ontem na igreja, ela sempre vai ao culto, até me chamou...
‒ Seja objetivo!
‒ Ela disse que amanhã todos irão ver o anjo que está na cidade e o pastor encontrou. Disse que devem avisar a todas as igrejas porque o sinal do céu chegou, todos, muita gente vai prá lá.
Teobaldo sorriu do outro lado da linha.
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‒ Antes de voltar da capital, ligo de novo, pegue o resto do dinheiro e podem aproveitar.
‒ Sim senhor! – Elias ficou eufórico.
Teobaldo desligou no instante em que um dos homens saiu do quarto. Era gordo, calvo e totalmente nu de roupas e escrúpulos.
‒ Nunca me diverti tanto! Venha também, Teobaldo!
‒ Minha felicidade é ver a sua alegria, excelência. - Falou sorrindo.
‒ Mas não pare! Tem que terminar tudo que começou! – Bradou sorrindo com o punho cerrado.
O homem gargalhou e, andando desajeitado, voltou falando alto para o quarto. Assim que saiu, o sorriso de Teobaldo se apagou. “Amanhã terão uma surpresa”, pensou, afinal, agora uma cidade inteira estaria atrás deles.
Júnior, Gabriel e Arthmes olhavam incrédulos, eram 10h e a rua em frente ao hotel Amazonas estava apinhada de gente. Alguns grupos oravam em voz alta, outros cantavam e outros gritavam. Na frente, nas escadarias do hotel, vários pastores falavam ao mesmo tempo e, ao centro, Eraldo Montes comandava a multidão, que clamava pelo anjo.
‒ E agora? – perguntou Gabriel para Arthmes. – Querido anjo não ortodoxo. O que fazemos?
‒ Ligue o carro, faça a volta e vamos sair daqui tranquilamente.
Júnior e Gabriel num relance compreenderam. Se aquela multidão soubesse que o anjo estava no carro iriam desmontá-lo para vê-lo e depois despedaçariam Arthmes para tê-lo.
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Júnior engatou a ré e começou a recuar devagar, mas Eraldo viu e reconheceu a pick-up.
‒ Ali! – gritou Eraldo. – São eles! Aleluia, eles chegaram, o anjo do nosso Senhor chegou! O sinal do céu! – Bradou.
Toda a multidão olhou para o carro.
‒ Cara, agora ferrou! – Gritou Júnior, que apertou o acelerador e fez o veículo cantar os pneus, rodando 180 graus, toda a multidão veio em sua direção como uma onda humana, mas Júnior engatou a marcha e, cantando novamente os pneus, disparou pela rua.
‒ Conseguimos! Conseguimos!
‒ Conseguimos nada, Júnior! – gritou Gabriel.
‒ Eles virão atrás da gente, vão olhar debaixo de cada pedra da cidade procurando Arthmes e não podemos voltar para a casa do Ben. Se esta multidão descobrir, podem destruir o laboratório.
‒ Pra onde então? – Júnior estava sem direção.
‒ Pro mato Júnior. Vamos sair da cidade!
A idéia de Gabriel era boa. Júnior tinha sido criado ali e conhecia bem os arredores.
15h45.
‒ Cara, tô morrendo de fome!
Júnior esfregava a barriga. Os três estavam no mato, uma pequena clareira fora da estrada e perto do rio, um local que Júnior ia quando era criança para chorar porque os pais estavam sempre ausentes.
‒ Já liguei pra Ana, agora temos que esperar as roupas e a comida.
‒ E o repelente, né Gabriel?
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Ouviram um barulho, era Ana que vinha chegando. Gabriel foi até ela e a beijou.
‒ Trouxe a comida? Cadê?
‒ Calma Júnior!
‒ Calma você Gabriel, eu tô com fome!
Ana entregou a comida e contou que a cidade estava sendo revirada. Estavam indo em todas as residências e quem não abria a porta tinha a casa invadida.
No hotel, Eraldo havia colocado pessoas vigiando as entradas. Ana entrou como visitante e passou despercebida, disfarçando-se de camareira. Desta forma, entrou no quarto e conseguiu trazer roupas para os três.
‒ Temos que esperar escurecer e voltar para a casa do Ben. Voltaremos no carro da Ana e ligamos para o Nelson vir buscar a pick-up.
Não havia muito que fazer. Ana entregou as roupas que havia trazido. Arthmes retirou o sobretudo para trocá-lo. Por um momento os raios do Sol que atravessavam as folhas, junto com a leve brisa que purificava o ar tornaram o quadro mágico. Arthmes tinha o corpo perfeito, sem marcas, atlético, suas asas contrastavam com o azul do céu e a beleza de suas feições mostrava a nobreza de suas atitudes.
Ana se aproximou e tocou em seu ombro delicadamente. Arthmes sorriu.
‒ Eu sou real.
‒ Juro que cairia de joelhos se não o conhecesse
Mas Arthmes colocou o sobretudo e a visão se desfez.
‒ Que tipo de anjo é você?
‒ Sou Gabriel, ou era, um Anjo da Lua. Nós somos responsáveis da vigília durante o sono dos mortais.
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‒ Para não sermos atacados durante a noite? – Disse colocando um biscoito na boca.
‒ Gabriel... – Arthmes balançou a cabeça, ‒ você tem que tirar essa idéia de combates entre o bem e o mal, isso não existe. É algo criado e incutido nas pessoas pelas religiões para controle das massas.
‒ O que vocês faziam então? – a pergunta veio de Ana.
‒ Bom, vocês sabem que dia e noite não existe, é algo criado pela rotação da Terra e denominado assim pelos mortais. Existem vários tipos de energia. Muitas desconhecidas para vocês, que são intensificadas pela falta de luz solar e que bombardeiam a Terra a cada segundo. Além disso, existe a energia mental fortíssima dos mortais que nunca cessa de agir, a noite, inclusive, muito mais forte mesmo quando estão dormindo. Nós somos os responsáveis pelo desvio, encaminhamento e dissipação dessas energias.
‒ Trabalhinho difícil!
Todos riram da brincadeira de Júnior, havia uma paz naquele local. Apesar dos acontecimentos, do tumulto que tomava conta da cidade, aquele local pareceu ter sido poupado. Júnior tinha acertado em levá-los para lá.
‒ Vocês morrem?
‒ Não da maneira que vocês pensam, Ana. Anjos são transportados a outro nível, a uma esfera superior quando atingem determinado grau de desenvolvimento.
‒ E isso demora muito?
‒ O tempo não existe Gabriel. Só para você ter uma idéia: anjos que ocupavam tarefas na época do mensageiro de Nazaré ainda estão no mesmo cargo.
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‒ E os que morreram durante a batalha que ocorreu no céu?
‒ A energia que compunha estes foi redirecionada, a criação nunca para.
‒ Mas, a luta..., a Batalha do Céu...
Arthmes sorriu antes de responder a Gabriel.
‒ Já estava perdida antes de começar.
‒ Então por que lutou? – a pergunta veio de Júnior.
‒ Para poder escolher Júnior. Para ver o que tinha do outro lado do muro.
‒ Está terminada!
1h30am. Ben entra eufórico na sala onde todos já estão, foi difícil chegar em casa, mas Nelson criou uma distração com a pick-up. Todos sorriram, levantaram e abraçando Ben, o felicitaram. Afinal, uma boa notícia.
‒ Você só me dá péssimas notícias?
‒ Mas..., Senhor Teobaldo... – tentava se explicar Elias ‒ Eles sumiram! Ninguém os encontra.
‒ Idiota! – gritou e desligou o telefone.
‒ O que foi amor? – Lisa se aproximou nua e alcoolizada.
Sem responder Teobaldo mantinha-se pensativo: “enquanto Gabriel estiver vivo, eles terão a oportunidade de mandar-me de volta, tenho que resolver isto. Definitivamente.”
- Prepare-se Lisa. Amanhã voltamos pra casa.
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QUARTO MOVIMENTO
RESSURREIÇÃO
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Nelson entrou no escritório do prefeito às 16h. A secretária disse que realmente o Senhor Teobaldo havia deixado um recado para Gabriel, entregando‒lhe o papel dobrado. Tinha certo nervosismo por parte dela, havia marcado um encontro com Lisa sem Teobaldo saber no final do expediente e não queria se atrasar. Nelson pegou o papel, agradeceu e saiu rápido para a casa de Ben. Arthmes pediu-lhe que fosse na prefeitura e perguntasse, depois que os encontrassem para uma reunião e ele não queria se atrasar.
‒ “HOJE, AS 21h, CIDADE NOVA, PRAÇA CENTRAL, SÓ GABRIEL.”
Júnior leu alto o que estava escrito.
‒ Como sabia que haveria este bilhete?
‒ Não sabia Nelson, ‒ explicou Arthmes – pensei que ainda estariam na capital, mas, como conheço a maneira que “eles” pensam e como não fomos encontrados, resolvi tentar. E “ele” quer falar com você, Gabriel.
‒ Ele não vai! – Ana gritou. – Está na cara que é uma armadilha.
‒ Onde é o lugar?
Perguntou Gabriel sério.
‒ A Cidade Nova é um local onde casas populares estão sendo construídas pela prefeitura. À noite aquilo fica deserto, pouca iluminação, o local não é confiável. – Disse Nelson.
Arthmes olhou profundamente para Gabriel, que estava calado, pensativo. Enfim Arthmes falou:
‒ Você não vai sozinho, Gabriel.
‒ Ele não vai! – Repetiu Ana desta vez gritando.
‒ Vou sim, Ana.
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Gabriel falou sem alterar a voz, o que fez Ana explodir em mil argumentos lógicos para ele ficar, Gabriel escutou tudo, impassível, até que ela terminou.
‒ Muita gente já morreu, eu amo estar vivo e sei que você deve ter razão, mas tenho que ir e fazer o que é certo.
‒ Seu certo, Gabriel, não é bom pra mim! – Os olhos de Ana imploravam e brilhavam com as lágrimas.
‒ O que é certo, às vezes, não é bom pra todos, mas, Ana, continua sendo o certo e tem que ser feito.
Ana não disse mais nada, as lágrimas correram de seus olhos e ela correu para o quarto, achava que tinha perdido a irmã e agora Gabriel. Quem seria o próximo?
‒ Estranho local e dia para marcar um encontro. – Ben falou baixo, mas Júnior ouviu.
‒ Como assim?
‒ Hoje tem uma recepção no Salão Nobre, ao lado da prefeitura. Estranho “ele” marcar tão longe.
Ben saiu da sala. Júnior apertou os olhos, pensativo.
A secretária do prefeito chegou com o coração aos pulos no discreto restaurante. Havia um misto de ansiedade e preocupação, ela se sentia com vinte anos de idade. Desde a sua experiência com Elisa, algo mudou, sua vida mudou , não, não sua vida , sua maneira de ver a vida. Seu casamento não era infeliz, ao contrário, o marido era compreensivo e amigo, um parceiro para todas as horas, mas... a experiência... sabia que a vontade havia aparecido depois de falar com o Senhor Teobaldo, tudo foi mágico, algo que a deixou completa, feliz. E felicidade não aparece todos os dias.
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Sentou-se à mesa. Elisa estava à sua frente. Não sabia como começar a falar, ela queria mais, queria sempre, todos os dias. Elisa sorriu e tocou em sua mão, ela deixou.
‒ Tudo foi só um momento? Foi só naquele momento?
Perguntou a secretária.
‒ Eu já fiz muitas coisas na minha vida, muitas coisas. Não me envergonho, mas também não sinto orgulho delas.
‒ Todos falam do seu passado, Elisa. A diferença é que eu quero falar do futuro.
‒ Você tem marido e filhos...
‒ Os filhos sempre vão ser meus e meu parceiro vai ter que entender minha escolha, porque é minha e não dele. O que eu quero saber é de você. O que você escolhe?
‒ Você faz as coisas parecerem fáceis!
‒ Não, Elisa, elas não são, mas viver uma mentira é errado. Tenho certeza que meu parceiro não merece ser traído, então, vou dar a oportunidade a ele de ser feliz com outra pessoa.
‒ Eu quero tentar – Elisa abaixou a cabeça –, mas..., e se não der certo?
Ela sorriu.
‒ Se não der certo, vamos ser grandes amigas e continuar a viver da melhor forma.
Elisa sorriu, a secretária se aproximou e a beijou levemente, ninguém notou.
‒ O que vai fazer?
‒ Vou conversar agora com meu ex‒parceiro e preparar o divórcio.
‒ Tenho uma cama de casal lá em casa, aliás, o apartamento é meu e da minha irmã.
‒ Será que ela não vai se incomodar comigo?
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Elisa sorriu.
‒ Não. Acho até que ela vai gostar, inclusive aposto que vai dizer : “Finalmente você está tomando jeito, Elisa”.
As duas riram, respiraram aliviadas, porque uma não sabia o que a outra pensava e, no final, descobriram que uma pensava na outra.
20h50.
Nelson parou o carro em uma das ruas mal-iluminadas da Cidade Nova. Havia vergalhões, muitos montes de areia e tijolos espalhados não só nesta, mais em todas as ruas. As casas eram todas iguais e algumas ainda no esqueleto. Do lugar que pararam, podiam ver, precariamente iluminada, a praça central.
Gabriel tentou argumentar na casa de Ben, mas Nelson foi inflexível em ir, além do mais, ele conhecia todo o local. Gabriel, relutando, aceitou pedindo que ficasse de fora, protegido. Arthmes não foi, ainda o estavam procurando e Júnior saiu com Ana para encontrar Elisa, que havia ligado.
A noite dava tons macabros ao local abandonado, cada sombra parecia esconder um demônio. Gabriel saiu do carro e começou a andar em direção à praça, lembrou-se da última conversa com Arthmes.
‒ ...“ele” conhece você, Gabriel, seus desejos, frustrações, fraquezas, medos, “ele” é seu demônio pessoal.
‒ “Ele” vai me influenciar. Como posso vencê-lo?
‒ Você é uma boa pessoa, Gabriel, tudo que aconteceu na sua vida até hoje moldou seu caráter, sua personalidade. As experiências ruins que passou o fizeram amadurecer e o tornou o que é. Será desta maneira que vai vencê-lo, deixando o lugar de
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filho e tornando-se um pai, então vai usar a Lei da Atração e nada, absolutamente nada, vai mudar o seu desejo.
‒ Corre Gabriel! Corre!
O grito veio de Nelson, Gabriel olhou para o lado e viu o rapaz com a arma na mão. Desesperado, correu por uma das ruas. O homem armado tentou mirar, mas havia pouca luz. Ele também correu, começando uma perseguição pelas ruas escuras. O coração de Gabriel dava pulos, tornando as pernas pesadas. Infelizmente, a rua que entrou era sem saída. Desesperado, Gabriel pensou em voltar, mas o rapaz veio apontando o revolver 38 para ele.
‒ Perdeu cara!
Gabriel fechou os olhos, o barulho do tiro feriu o silêncio da noite, não havia dor. “Será que morrer é assim?” Este pensamento se desfez rápido quando o rapaz à sua frente tentou falar algo, revirou os olhos e suas pernas se dobraram, ele caiu ante o olhar atônito de Gabriel, que, levantando a cabeça, viu Júnior ainda segurando uma pistola apontada para o cadáver. Gabriel foi pelo lado e retirou delicadamente a arma das mãos de Júnior.
‒ Obrigado.
Júnior balançou a cabeça, não acreditava no que tinha feito, mas também não se arrependia. Tinha desconfiado desde o início do bilhete e, após deixar Ana com Elisa, foi ao local do encontro com o carro dela levando a pistola de Ben, chegou a tempo de ver a perseguição e não teve dúvidas do que fazer.
Um segundo tiro feriu a noite, eles se olharam e Gabriel colocou em palavras seu único pensamento:
‒ Nelson!
Os dois correram de volta até o carro. Nelson estava caído na frente deste com a mão sobre o peito ensangüentado. Ficaram
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de joelhos e levantaram o corpo do amigo semi-morto, que respirava com dificuldade, até que simplesmente parou.
‒ Eu disse pra ele largar a arma!
O desespero veio do rapaz armado que estava a apenas quatro metros de Nelson. Gabriel e Júnior não o haviam notado, só olhavam para o amigo. O rapaz gritava frases incoerentes, seus olhos estavam cheios de lágrimas.
‒ Falei pra ele: “Seu Nelson, larga a arma!”, mas ele não soltou.
Elias gesticulava sem parar. Quando viu o homem com a arma de caça na mão, não o reconheceu. Nelson, com um transplante de rins, salvou a vida da mãe de Elias, desde então ajudou a família com alimentos, roupas e amizade.
‒ Eu gritei, pedi! Ele disse que ia falar com minha mãe!
Gabriel e Júnior se levantaram devagar, Elias chegara ao auge do desespero, calou-se e apenas olhou para o corpo de Nelson, depois para Gabriel e começou a chorar baixinho.
‒ “Seu” Teobaldo! – O grito de Elias feriu mais a noite que os tiros.
Então, ainda olhando para Gabriel, levantou a arma, colocando-a no ouvido, disparou. O tempo pareceu parar, Gabriel se apoiou na parede de tijolos, seus olhos correram de um corpo para o outro, o silêncio era pesado, as sombras eram pesadas, o toque da morte não veio gentil, não conseguia chorar, a respiração estava descompassada. O amigo Nelson encontrou-se com seu filho, e o infeliz Elias com todos os seus demônios. E Gabriel? Sentiu-se vazio, o vazio que dá a impotência. Nada, nem um pensamento. Mais..., algo teve que aparecer. Veio do fundo de sua alma, dos subterrâneos, uma vontade inquestionável. Ela tomou
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seu corpo, envolvendo-o, só havia uma razão, uma emoção e nenhuma dúvida.
Júnior olhava toda a cena. Não era mais o garoto mimado, nem se sentia um homem, apenas um Ser Humano preso em uma teia de acontecimentos.
Gabriel moveu-se, tocou o braço de Júnior, que o acompanhou sem dizer nada. Entraram no carro de Ana, nenhum dos dois olhou para trás. Júnior dirigiu em velocidade, quando pararam estavam em frente à recepção, ao lado da prefeitura, o Salão Nobre. Júnior não saiu do carro. Gabriel desceu, estava mal-vestido, mas assim mesmo entrou no enorme salão, seus olhos o percorreram até encontrar Teobaldo. Não o conhecia, mas sentia quem era “ele”, e começou a andar em sua direção. Teobaldo conversava animadamente, fingia até fumar segurando um charuto, porém, quando olhou para Gabriel, tudo desapareceu, os dois não viram ou ouviram mais ninguém.
‒ Você é difícil de morrer.
Apesar do gracejo Gabriel continuou calado, apenas olhava, ali na sua frente estava toda a causa de seus problemas, ali estava o “seu” problema, o mal personificado, mas era o “seu” mal. Teobaldo, ante seu silêncio, sorriu tentando desestabilizá-lo, mas Gabriel estava impassível, o sorriso se desfez e a respiração de Teobaldo tornou-se apreensiva.
‒ Quero você hoje a meia-noite na máquina que o trouxe.
Teobaldo virou a cabeça como se levasse uma tapa, seus olhos demonstravam surpresa, havia uma vontade desconhecida naquelas palavras. E “ele”, que acompanhou Gabriel nos bares da frustração e que o viu recusar oportunidades de melhorar sua vida financeira e sentimental, mais de uma vez, por medo de arriscar. Agora estava diante de um homem que afirmava o que
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queria e sem dúvidas que o conseguiria. E a certeza era tão grande que Gabriel virou-lhe as costas e começou a andar para a saída. No mesmo instante, Teobaldo sentiu no ar, a sua volta, a energia da Lei da Atração, o Universo estava se remodelando à vontade de Gabriel rapidamente, ele estava pronto. Teobaldo ainda olhou, procurando Gabriel, mas ele já havia deixado o recinto, estava entrando no carro.
‒ Pra onde?
‒ Pra casa do Ben, Júnior.
Júnior arrancou com o veículo, nenhum dos dois olhou para trás.
‒ Me diga tudo de Deus!
Laboratório, casa de Benjamim.
‒ Você não compreenderia ‒ Arthmes sorriu –, ninguém compreenderia. Não existem palavras no vocabulário da Terra para descrevê‒lo.
‒ Mas você já o viu!
‒ Vi sua glória, Ben.
‒ Como assim “sua Glória”?
Arthmes ficou calado, estava procurando as palavras certas, seria difícil explicar a Benjamim.
‒ A glória de Deus é quando “ELE” se movimenta, ou quando “ELE” ama, o que é a mesma coisa. Cada movimento faz aparecer uma galáxia. “ELE” é a força da transformação de tudo e em tudo que existe. Quando se vê o brilho de sua glória, que só é permitido aos anjos, não vemos mais nada.
‒ Mais nada? Então os anjos...
Arthmes riu.
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‒ Somos todos cegos Ben. Não precisamos mais enxergar, porque podemos sentir tudo a nossa volta, todas as energias que compõe o Universo, inclusive as energias mentais dos Humanos.
Ben sentou-se, pensou um pouco e olhou para Arthmes.
‒Sempre quis falar com vocês, entendê-los, talvez ajudar a humanidade a crescer espiritualmente e de repente... você parece tão... humano.
Arthmes vagarosamente sorriu. Ben pôde sentir o rosto dele ficar mais iluminado.
‒ Obrigado pelo elogio Ben.
‒ Isto foi um elogio?
Arthmes estavam com os olhos rasos d’água.
‒ A mais de dois mil anos Ben, troquei uma eternidade por um momento, sabia do resultado e assim mesmo resolvi experimentar novas sensações. Quando tudo terminou tinha perdido mais que o céu, perdi minha natureza. Tenho tentado entender o que sou desde que comecei esta aventura – e novamente sorriu. – Vou explicar: um demônio é um demônio, não importa o que faça, sua natureza é o raciocínio frio sem se importar como chegar aos resultados. E um anjo é um anjo, sua natureza é proteger, é obedecer e ponto final.
‒Quem sabe..., sua natureza pode ser Humana!
Arthmes riu agora bem alto.
‒ Eu duvido muito! Mas... no momento... é muito bom ter o melhor dos dois Mundos.
‒ E talvez seja esta a sua natureza.
‒ Pode ser... O importante é que eu tenho muito orgulho delas, meu amigo.
A porta do laboratório explodiu pela violência que foi aberta, Ana sem fôlego e chorando apareceu.
O Acordo
111
‒ Ben, Arthmes... Nelson morreu.
Eles a acompanharam até a sala, Gabriel e Júnior lá estavam e contaram o que havia acontecido na Cidade Nova. Depois, Gabriel contou o que ocorreu no Salão Nobre.
‒ O que vamos fazer?
‒ Vamos esperar Ana – falou Arthmes. – Vamos esperar até a meia‒noite.
‒ Acredita, realmente, que ele virá?
23h55
‒ Acredito Ben, ‒ e Arthmes olhou para Gabriel sentado, impassível – ele virá.
Todos estavam no laboratório, menos Walter e Júlia.
‒ O que não significa que farei algo!
A alta voz vinha da porta, todos olharam, menos Gabriel, lá estava Teobaldo. Gabriel se levantou e deu um passo à frente.
‒ Entre na máquina.
Teobaldo riu e balançou a cabeça negativamente.
‒ Não é assim, Gabriel. Você usou bem a Lei da Atração, mas, diferente dos anjos – falou e olhou para Arthmes –, nós temos a opção para escolher, não somos estes paus-mandados.
‒ Você matou muita gente!
Teobaldo virou‒se para a dona da voz, sorriu, apontou o dedo e falou em tom de gracejo.
‒ Você é Ana, irmã de Elisa. É, tem razão, mas só em parte, na verdade o que mata as pessoas são seus próprios medos, seus próprios segredos. Eu só lembrava que eles existiam. Olhe para Elisa, está feliz, e sabe por quê? Porque assumiu e enfrentou seus próprios demônios.
‒ Entre na máquina.
O Acordo
112
Teobaldo abriu os braços.
‒ Gabriel... pense bem, o que você tinha antes? Uma vida frustrada, apagada. Posso mudar isso, posso dar o que você quiser. Seus sonhos, lembra? Seus livros sairão da gaveta, será admirado, uma vida melhor, sem privações...
Os olhos de Teobaldo ficaram vermelhos. Ana ia dizer algo, mas Arthmes a conteve, sabia que Gabriel devia trilhar esta estrada sozinho.
Várias imagens passavam no devaneio de Gabriel, família, amores, sexo, trabalho, nada ficou de fora. Principalmente suas tristezas.
‒ ...este é o momento de resolver sua vida, este é o nosso momento. Acorde! E faça agora o que deve ser feito.
‒ Não preciso acordar – disse serenamente e o olhando fixamente. – Eu não tenho mais segredos, isto é coisa de criança.
Teobaldo olhava incrédulo, mas Gabriel continuou.
‒ Adultos não têm segredos para si mesmos. Adultos transformam os segredos em experiência, com isso amadurecem e se tornam senhores de suas vidas.
Teobaldo deu um sorriso de desdém.
‒ Entre na máquina Teobaldo, não tem mais nada a fazer aqui.
A voz de Gabriel era resoluta e Teobaldo, sério, caminhou até o DECONAM e entrou, virou-se e olhou para todos, então sorriu para Arthmes.
‒ Lúcifer mandou lembranças e avisa que não esquecerá!
Arthmes olhava sério.
‒ Diga a ele que também não esqueço. – Foi a resposta.
‒ Gabriel! Temos um problema! – a voz de Ben era apreensiva.
O Acordo
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‒ O que foi?
‒ Pelos meus cálculos, preciso que você entre também. Vocês têm um centro de magnetismo em comum. Na entrada para nossa realidade, ele foi cortado. Para se unirem, é necessário que você entre também.
‒ E aí Gabriel! – Teobaldo falou sorrindo maliciosamente. – Vai assumir agora sua maturidade?
Teobaldo ria alto, sua voz solitária ecoava no laboratório. Mas Gabriel, com passos firmes, caminhou e entrou na máquina. Teobaldo olhou por cima do ombro de Gabriel na sua frente e Arthmes notou o tom de orgulho em sua expressão e pensou.
“Enfim Teobaldo notou o quanto valia ser o demônio de alguém com tanta coragem. Teobaldo encontrou seu lugar e Gabriel achou o seu”! Pensou.
Todos estavam apreensivos, sabiam dos perigos envolvidos. Ben ligou e o processo foi iniciado, o que se passava pela cabeça de Gabriel enquanto o tubo enchia-se de névoa e nublava sua visão? Apenas uma certeza, que fazia o que era certo.
‒ Gabriel? Está acordado?
A voz era conhecida, Gabriel abriu os olhos vagarosamente, primeiro eram imagens difusas, então, aos poucos, tornaram-se nítidas.
‒ Oi gente!
Gabriel sorriu deitado na cama de Ben, todos estavam a sua volta e também sorriram.
‒ Dormi muito?
‒ Umas doze horas – falou Ana.
Gabriel sentou-se e sacudiu a cabeça, estava sentindo-se bem.
‒ E aí? Funcionou?
O Acordo
114
‒ Foi perfeito! – Ben tomou a palavra, ‒ vocês estão novamente juntos, quero dizer, você na sua realidade e “ele” na dele.
‒ E o DECONAM? – Perguntou Gabriel desconfiado.
‒ Acabou. Ainda falta muito para as pessoas aprenderem a mexer com o que não vêem. ‒ Ben falava sério. ‒ Acho melhor o Mundo descobrir sozinho como resgatar suas faltas, espiritualidade é algo que se conquista a cada dia e pela vontade de cada um.
‒ Então acabou. – Disse Gabriel aliviado.
‒ É, acabou – ecoou uma voz profunda no ambiente.
Todos olharam para Arthmes. Esse, afinal, era o acordo e Arthmes agora voltaria para casa.
‒ E sua irmã?
Ana começou a contar para Gabriel que a secretária do prefeito e Elisa estavam se entendendo, ela tinha se separado e as duas resolveram morar juntas. O prefeito perdeu o apoio político. Sem a influência de Teobaldo, os empresários recusaram as propostas, dificilmente ele seria reeleito.
‒ E sobre Nelson?
Disseram a Gabriel que a conclusão da polícia para o caso foi assalto e uma notícia surpresa: Walter e Júlia haviam viajado as pressas para outra cidade e sem data para voltarem.
‒ Ficamos pouco tempo juntos e aconteceram muitas mudanças.
Ninguém respondeu a Gabriel, todos haviam crescido, todos deixaram de ser crianças. Os cortes eram profundos, mas iriam cicatrizar e estas marcas se tornariam lições de vida, não segredos.
O Acordo
115
Entraram no carro. Arthmes tinha pedido para Júnior levá-los ao único lugar que tinham sentindo paz naqueles dias conturbados, os arredores da cidade. Quando chegaram, já eram 8h50pm, a noite estava calma. No céu, uma grande Lua cheia coroava e iluminava o cenário, o rio fluía fazendo um barulho suave e acalentador.
‒ O que acha que vai acontecer com Eraldo?
‒ Não sei Júnior, mas... – ponderou Arthmes. – Espero que mude de atitude. Ele é um daqueles pequenos homens que lhe falei e, se não mudar, o estarão esperando quando morrer.
‒ Mas não você.
Arthmes de pé, perto da margem, retirou o sobretudo.
‒ Não Gabriel, eu não.
E sorrindo abraçou Ben, depois Ana, então olhou para Júnior e Gabriel, por um segundo lembrou do dia em que se conheceram. Na verdade os três lembraram e começaram a rir, um olhando pra cara do outro. Abraçaram-se, o som do silêncio da amizade foi ouvido, a sinfonia perfeita que o Mundo tanto precisa.
Arthmes se afastou até perto da margem com árvores altas ao redor. Ficou com as mãos postas, fechou os olhos e abriu totalmente as asas. A cena começou a mudar, braceletes prateados com inscrições apareceram em seus pulsos e tornozelos, um manto branco com bordas também prateadas foi cobrindo seu corpo enquanto uma luz muito clara foi surgindo atrás de sua cabeça até formar uma auréola. Seu corpo ficou todo iluminado, clareando o local. Os filetes prateados que brilhavam em sua aura tornaram o ar mais límpido. A visão era linda e única. Arthmes abriu os olhos e a luz saiu também por eles.
‒ Cuida do Nelson!
O Acordo
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Quando Arthmes respondeu a Júnior, sua voz preencheu o local como se estivesse em volta de todos.
‒ Ele está ao seu lado Júnior. Sorrindo e de mãos dadas com o filho.
Arthmes ergueu os braços.
‒ Não esquece a gente!
‒ Não vou esquecer Gabriel, lembre-se: ‒ e sorriu – eu não sou muito ortodoxo.
Todos sentiram uma pancada rápida e forte de vento. Em um momento, um instante, a figura de Arthmes sumiu. Gabriel olhou pra cima e viu uma estrela cadente subindo, indo em direção à Lua, logo ela desapareceu. Todos se viraram e foram em direção ao carro, menos Júnior, que continuava olhando o local vazio e escuro à sua frente. As tristes recordações da infância tinham sumido, outras melhores tomaram seu lugar, Júnior olhou para cima sorrindo.
‒ Obrigado Arthmes.
Ele virou-se e foi para o carro. Não houve resposta, nem precisava.
FIM
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