O Acordo - parte 4


Nelson olhou de relance para Gabriel e Júnior, que não sabiam o que dizer. Arthmes colocou novamente o sobretudo e pediu para todos se sentarem, enquanto tentava levantar a mulher, que teimava em ficar de joelhos.
‒ Agora que todos se sentaram, me diga, Walter, o que faz aqui?
‒ Passamos aqui, Nelson, para conversar. Como você não estava, decidimos...
‒ Você decidiu!
‒ É Júlia. – Disse Walter aborrecido. – Eu decidi fazer uma surpresa. Demos a volta por fora do restaurante e ficamos esperando. Quando ouvimos a porta, nos escondemos na cozinha. Mas nunca pensaríamos em ouvir isso.
Nelson suspirou profundamente e, virando-se para os outros:
‒ Júnior, Gabriel e Arthmes, estes são o Doutor Walter e sua esposa Júlia, são meus amigos e acredito neles.
Mas Júlia tomou a palavra.
‒ É verdade o que você contou? Existe um demônio por aí?
Ela perguntou olhando para Arthmes, mas quem respondeu foi Gabriel.
‒ Sim, é verdade.
‒ Mas..., não temos que nos preocupar, temos um anjo!
‒ Não é bem assim, Júlia...
‒ Como não! – Júlia se levantou num sobressalto. – Temos um anjo ao nosso lado, um ser celestial, divino, abençoado pelo próprio Deus!
Pela primeira vez compreenderam o que aquela notícia poderia provocar.
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‒ Dona Júlia, sente-se. – Disse Arthmes. - É melhor todos vocês saberem da história, o que poderia ter sido evitado e não foi, não tem mais importância, vou contar pra vocês desde o início...
Gabriel sabia que aquilo iria doer. Arthmes ficou triste e abaixou a cabeça, com dor no coração.
Neste momento, Teobaldo e Lisa entravam no gabinete da recepção da prefeitura e se dirigiram para a secretária que lixava as unhas. Esta os olhou e Lisa sorriu.
‒ Bom dia. Queremos falar com o prefeito.
‒ No momento, ele não está.
Lisa não gostava de negativas.
‒ Pois ligue e diga ao prefeito Amorim que é Elisa, filha do...
‒ Eu sei quem é a senhora, Dona Elisa, mas o prefeito não está e nem pode atender a ligações, ele foi a uma reunião no Centro Empresarial.
Lisa, séria e nervosa, virou-lhe as costas, enquanto esta voltava, calmamente, as unhas. Afastou-se de braço dado com Teobaldo, mas parou na porta do gabinete.
‒ Mulherzinha petulante. Vou mandar o Amorim demiti-la ‒ e olhou para Teobaldo. – Foram os votos de meu pai que o colocaram na prefeitura.
Teobaldo sorriu.
‒ Tenha calma, eu acho que ela ficaria muito bem..., na sua cama. Não a acha bonita?
Lisa olhou novamente para a secretária e sorriu maliciosamente.
‒É..., bonitinha.
‒ Você a quer de presente?
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Lisa passou a língua levemente nos lábios.
‒ Quero.
E ameaçou voltar, mas Teobaldo a deteve, segurando seu braço.
‒ Depois, agora temos uma reunião no Centro Empresarial.
Lisa concordou sorrindo e os dois seguiram seu caminho.
‒ Eu acho que devemos chamar a polícia!
No Restaurante Ilhas Gregas, Arthmes acabou sua história.
‒ E o que devemos dizer a eles, Doutor Walter? – Júnior ficou nervoso, mas continuou. – Que tem um demônio na cidade, que o culpado é o Gabriel e quem nos contou isso foi um anjo?
Walter engoliu a seco, mais ficou calado.
‒ O que fazemos então? – Perguntou Júlia.
Gabriel se levantou.
‒ Nós vamos pra casa de Ben, sugiro que vocês também sigam para as suas.
‒ Só isso?
‒ Não temos muito que fazer Nelson – respondeu Gabriel –, temos que esperar, qualquer notícia a gente se reúne aqui, no seu restaurante.
Todos concordaram e se levantaram.
‒ Júlia!
Walter a procurou de seu lado, mas ela estava conversando com Júnior. Ele voltou e a puxou rispidamente.
‒ Pare de me envergonhar.
‒ Só estava pegando o número do celular.
Mas Walter a puxou novamente.
‒ Vamos!
‒ Espera! Eu quero pedir a benção do anjo.
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‒ Ele não é anjo. É...
No entanto, Walter notou que Arthmes, o olhava fixamente e sentiu medo. Não completou a frase e foi embora temeroso. Arthmes ficou de pé, imóvel. Gabriel veio por trás e colocou a mão em seu ombro, mas ele não se mexeu.
‒ Vai piorar não é?
‒ Muito Gabriel, muito mais.
O casal entrou no elevador, tinham perguntado ao recepcionista o local da reunião do prefeito com os empresários locais.
‒ Auditório. No 8º andar. – Foi a resposta.
Centro Empresarial de Nova Hilfurt. Um dos poucos prédios altos da cidade, um “elefante branco” feito pela atual gestão para prestigiar os comerciantes do local. Na verdade um “cabide de empregos” e a maneira mais segura de acrescentar no “cofre particular” do prefeito trinta por cento da receita das obras.
Ao chegarem as portas estavam abertas. Era um local amplo, com poltronas vermelhas confortáveis. No púlpito o prefeito discursava ao microfone para uma platéia bem arrumada, que dava sinais claros de insatisfação pela proposta do aumento das taxas de transporte para matérias-primas dentro dos limites da cidade.
‒ Amorim..., este aumento é inconcebível!
‒ Com certeza!
Todos no auditório concordavam com os comentários dos dois colegas empresários, a reunião começou a ficar muito tumultuada.
‒ Esperem..., senhores... – Amorim tentava acalmar os ânimos. –Infelizmente este aumento é necessário.
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Mas os comentários negativos eram gerais e Amorim não conseguia ter controle sobre o ambiente.
Teobaldo estava ainda de pé com Lisa ao seu lado. Ele a acomodou e começou a andar em direção ao palco, onde um confuso prefeito pedia conselhos a seus assessores.
‒ Prefeito!
A platéia, por um instante, parou de falar e olhou para o estranho que se mantinha de pé, até o prefeito deu-lhe atenção. Sua voz soou calma, mas o prefeito estava desconfiado.
‒ Compreendo o aumento das taxas de circulação de mercadorias, mas com certeza tem uma proposta para equilibrar este aumento.
O prefeito olhou para o assessor, que imediatamente se afastou e começou a ligar do celular, buscando idéias com escalões mais altos.
‒ Temos, temos sim, mas quem é o senhor? – Amorim tentava ganhar tempo.
‒ Sou um novo empreendedor. Vou começar me fixando em Nova Hilfurt.
‒ E qual seria o ramo de negócios?
‒ Propaganda e Marketing. – Teobaldo sorriu. - Qual é a proposta?
Amorim olhou para o assessor nervoso e apertou os olhos, não tinha resposta.
‒ Posso fazer uma proposta? – Sugeriu o estranho, o prefeito consentiu com a cabeça.
‒ Se pudéssemos ter estagiários em nossas empresas por um período maior, faríamos economia e teríamos a propaganda positiva necessária para a prefeitura solicitar verbas extras ao
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governo para futuros projetos dentro das fábricas. Seria um repasse de verbas para cursos de especialização.
Por alguns segundos todos ficaram estáticos, como se o tempo tivesse parado, mas era apenas a influência de Teobaldo contaminando todos como um vírus.
‒ É uma boa idéia!
A este primeiro comentário no auditório seguiram-se outros e todos positivos à sugestão de Teobaldo, inclusive do próprio prefeito, que se animou e retomou a palavra já pensando em como superfaturar o pedido de verbas. Teobaldo, sorrindo, voltou pelo corredor e sentou-se ao lado de Lisa.
‒ E agora? – perguntou Lisa.
‒ Vamos aguardar ele falar conosco, é só esperar.
Teobaldo estava confiante, conhecia a natureza Humana e Amorim era fraco, fácil de manipular. A reunião não demorou muito, o principal assunto graças ao estranho, tinha sido resolvido.
Assim que terminou a reunião Amorim mandou chamá-los em uma sala à parte, longe de ouvidos indiscretos.
‒ Vou direto ao assunto! Quem é você? Sei que não tem empresa em Nova Hilfurt, o que quer?
Teobaldo sorriu e sentou-se com Lisa ao seu lado.
‒ Quero que se torne governador.
‒ E o que você ganha com isto?
‒ Agora? Não quero nada, apenas estar ao seu lado. Tenho maneiras de fazê-lo ganhar as eleições – a voz de Teobaldo era pausada e inspirava confiança. – Afinal, chega de passar por restrições, tristezas, chega de ser menosprezado pelo Mundo...
Em um lampejo, Amorim reviveu sua infância miserável em outra cidade, de seu primeiro roubo para ter comida aos
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outros se que seguiram. De como aprendeu a roubar sêmen de animais de raça na fazenda onde trabalhava, enriqueceu, tornou-se fazendeiro, expandiu suas terras expulsando posseiros. Teve, é claro, que “convencê-los” a sair, mas ninguém sentiria falta se dois ou três desaparecessem para servir de exemplo, foi fácil. Estranhamente os olhos de Teobaldo, desta vez, não ficaram vermelhos.
‒ Você quer poder, precisa de poder e isto eu posso lhe dar. Ao meu lado você terá o que merece.
Amorim balançou a cabeça e olhou para Teobaldo, o tempo parou e os dois sorriram lentamente ao mesmo tempo. Lisa, que via toda cena, teve a impressão que eles eram reflexo um do outro.
Foi Teobaldo quem feriu o silêncio.
‒ Preciso ver os papéis que levantou contra seus adversários, aqueles sobre os impostos.
‒ Como sabe disso? Era sigiloso.
‒ Acredite, senhor prefeito, sei tudo que você sabe e mais um pouco.
‒ Metade está em uma cidade próxima e o resto em meu escritório – Amorim respondeu sem pensar muito, realmente era fácil de manipular. Teobaldo se levantou e Lisa também.
‒ Vou até seu escritório agora, mas como chego a outra cidade?
‒ Vou ligar para meu primeiro assessor e homem de confiança, que irá levá-lo.
‒ Certo. A propósito, sua secretária vai estar lá?
‒ É..., sim, por quê?
‒ Eu prometi um presente para alguém – e sorriu olhando para Lisa, que sorriu de volta e se manteve calada ‒, e ela, com certeza, vai me ajudar neste presente.
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‒ Não tem problema! Peço para esperar vocês com os papéis e depois ela fica à sua disposição.
‒ Com certeza, ela fica.
Teobaldo andou com Lisa até a porta e, antes de sair, virou-se para o prefeito sorrindo.
‒ Aliás, meu nome é Teobaldo, senhor governador.
Amorim encheu o peito de ar com o elogio e fez sinal de afirmativo com a mão. Teobaldo sorriu e fechou a porta atrás de si, trancando também as esperanças de dignidade do prefeito.
‒ Vocês demoraram.
Casa de Benjamim.
‒ Estivemos no restaurante de Nelson e tivemos uma longa conversa.
‒ Vocês contaram para ele, Gabriel?
‒ Não só pra ele Ana – Gabriel sentou-se –, também para o doutor Walter e a esposa.
‒ Daqui a pouco toda a cidade vai saber. – Falou Júnior em tom sarcástico.
Arthmes estava calado, em pé próximo a janela, olhava para fora como alguém desconfiado de estar sendo seguido. Até Ben entrar na sala, com um refrigerante.
‒ Pensei que estivesse trabalhando na máquina! - Ben virou-se para Gabriel, visivelmente contrariado pelo comentário.
‒ Qual é o problema? Está com algum peso na consciência?
A resposta fez Gabriel levantar-se prontamente.
‒ Pra começar, não construí aquela máquina, gênio!
‒ Não! – respondeu Ben balançando a cabeça. – Só foi incompetente o bastante para cair em um tubo de três metros de altura.
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‒ Por que aquele seu cachorro imbecil latiu pra mim!
Já estavam gritando e começaram a andar um em direção ao outro.
‒ Ele sempre late quando vê porcaria!
‒ Então ele vive latindo pra você!
Júnior entrou no meio dos dois, já estavam perto demais.
‒ Calma..., calma gente! Brigar não dá certo.
‒ Além do mais, temos problemas maiores para resolver.
A frase de Ana fez os dois ficarem calados, mas se olharam com raiva.
‒ Vamos sair! – Arthmes tinha ficado quieto até agora. – Temos que acalmar os ânimos.
Ben deu de ombros e foi para o laboratório, Ana o seguiu.
‒ Também acho melhor vocês saírem de novo – disse ela antes de deixar a sala. - Nervosismo só atrapalha. - Falou olhando tristemente para Gabriel.
‒ Está na hora do almoço, vamos comer alguma coisa.
Gabriel bateu a porta traseira quando entrou na pick-up.
‒ Não tenho fome.
‒ Júnior está certo Gabriel. Se a linha não agüenta, como vamos pegar o peixe?
‒ Vai me acusar também Arthmes? – gritou.
‒ Não! Só quero que pense e tenha um pouco mais de responsabilidade – gritou Arthmes.
‒ Esqueci, é isso que os anjos fazem – resmungou.
‒ Não os anjos Gabriel, os demônios – e virou-se para frente. ‒ Vamos, Júnior – Júnior ligou o motor e voltaram para o Ilhas Gregas.
O restaurante estava fechado, bateram a porta e Nelson a abriu, convidando-os a entrar.
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‒ Viemos almoçar. Não abriu o restaurante?
‒ Depois de hoje de manhã? Dei folga pra todo mundo. Mas tenho um ótimo strogonoff, podem se sentar que vou trazer.
‒ Eu não como, Nelson.
‒ Você vai me fazer esta desfeita?
‒ Você não entendeu – explicou Arthmes –, não tenho fome, nem sinto o gosto da comida.
‒ Cara, vida de anjo é dura.
‒ É..., um pouquinho. – Falou Arthmes, sorrindo.
Nelson trouxe a comida e sentou-se com eles.
‒ Me diga uma coisa, ‒ perguntou Júnior a Arthmes – quando encontrarmos “ele”, como vamos enfiá-lo dentro daquele tubo?
‒ Nós não, Júnior, só Gabriel – uma leve brisa correu. – Somente Gabriel poderá fazer isso.
‒ E como ele vai fazer?
‒ Através da “LEI DA ATRAÇÃO”.
Gabriel olhou para Júnior e Nelson, que acompanhavam a conversa mudos, mas com a mesma curiosidade.
‒ Tá legal, Arthmes, explica. – Falou Júnior.
‒ A Lei da Atração, como diz o nome, atrai tudo para você, seja algo bom ou mau.
‒ Não entendi.
‒ Imagine qualquer coisa, Gabriel.
Gabriel pensou um pouco.
‒ Tá, pronto, e agora?
‒ Agora você deu uma ordem direta ao Universo, ele vai se reconstruir de forma a trazer exatamente o que desejou.
‒ Funciona simples assim? – perguntou Nelson.
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‒ É, simples assim e para todos os mortais conseguirem qualquer coisa.
‒ Isso é absurdo! As pessoas se afundam em problemas o tempo todo, tem dívidas, desilusões amorosas, como algo tão simples pode dar certo? Você está transformando o Ser Humano..., em Deus!
‒ Não é necessário transformar nada Gabriel. Enquanto os Seres Humanos pensarem como filhos, ficarão esperando que o Pai Celestial traga as soluções, quando entenderem esta lei e começarem a aplicá-la, assumem o papel de pai e isto traz responsabilidades, pois você traz para sua vida e das outras pessoas acontecimentos, coisas materiais, tudo! Vocês não querem esta responsabilidade, tem medo dela, acham que os milagres pertencem a “ELE”, quando qualquer pessoa pode fazê-lo.
Arthmes falava olhando para todos e continuou.
‒ Acham que os problemas e as tristezas que tiveram e que ainda têm em suas vidas foram trazidas ao acaso? O acaso não existe, o Universo é feito por leis rígidas e, mesmo que vocês não as entendam, elas existem e sempre seguem o mesmo padrão. A Lei da Atração é uma lei de alcance mental da alma e só através desta faculdade pode ser movida.
‒ Você pode usá-la?
Arthmes dirigiu seu olhar para Nelson e sorriu.
‒ Anjos, ou demônios, não tem alma, não temos como usá-la. Por isso vocês são chamados filhos de Deus. O que “ELE” espera é que um dia vocês cresçam e se tornem pais.
‒ Então é só desejar que acontece? – todos estavam curiosos.
‒ Vamos refinar o processo Nelson, primeiro você deseja, ou faz o pedido específico, depois vem a resposta do Universo,
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mas entre as duas coisas há uma terceira: a sua sintonia com esta força.
‒ E como consigo isto?
‒ Com o emotivo, Gabriel, suas emoções aceleram todo o processo. A necessidade de algo, junto com sua emoção, faz toda a diferença.
‒ Mais... e aquele pensamento que fiz antes?
‒ Vai acontecer, tenha certeza disto, mas o pensamento junto com a emoção, e se possível fazendo visualização do que deseja, diferenciam todo o processo, o Universo trabalha com velocidade, o que pode atrasar é sua falta de emoção, ou, se preferir..., sua falta de fé.
‒ OK! Então Gabriel pode trazê-lo.
‒ Não é tão fácil assim, Júnior.
‒ Gabriel tem razão Júnior – continuou Arthmes. – Não vejo nele motivação suficiente para trazer o demônio – e se levantou de onde almoçavam.
‒ Se não estou pronto. Quando este motivo vai aparecer?
Arthmes, de pé, olhava para os amigos.
‒ Não sei. Mas sei que suas vidas, seus caminhos são uma teia de encontros e desencontros. Se estamos juntos é porque existe uma razão para isto, nada acontece por acaso.
Dito isso, afastou-se e ficou olhando o rio. Uma leve brisa correu novamente, trazendo mais dúvidas que certezas.
‒ Nada acontece por acaso ‒ esta foi a resposta de Teobaldo para Sofia.
Estavam no carro com o assessor do prefeito dirigindo, Teobaldo ia a seu lado e Sofia, que tinha pedido carona até a outra cidade, estava no banco de trás. Sofia sorriu.
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‒ O senhor é uma pessoa muito agradável, Sr. Teobaldo.
Ele sorriu e olhou para a estrada. Era estranha a presença de Sofia no carro. Queria se livrar do assessor, este era seu plano. Lisa não seria envolvida, estava se divertindo com a secretária do prefeito, que era casada e por isso não falaria para ninguém. Porém, o inesperado aconteceu quando Sofia pediu carona e o assessor cedeu. “Bom” pensou, “tenho que me livrar dela também” e isto, antes de ser um problema, seria um prazer. Lembrou também que dois de “seus” rapazes estariam esperando mais à frente. Voltaria com um e deixaria o outro, afinal, sabia que Gabriel deveria aparecer. Quem sabe mataria mais dois coelhos?
‒ Por favor... ‒ Teobaldo falou tocando no ombro do assessor que estava ao volante. – Pode parar perto daquelas árvores? Tenho que ir ao banheiro.
‒ Acha que eu não notei você olhando para aquele garoto riquinho?
Escritório do Doutor Walter.
‒ Você tá sonhando. – Gritou a mulher.
‒ Júlia, presta atenção! Ninguém me contou. Eu vi!
‒ Você me viu pedindo o telefone dele para termos contato – Júlia tentava ponderar. ‒ Pense bem! Pedi o telefone dele na frente de todo mundo. Até do anjo!
‒ Anjo? Ou demônio? Eu sei lá se aquela história é verdadeira. E se ele for o “outro”? Quem garante que não está enganando a gente?
‒ Eu achei convincente.
‒ Esqueci que você entende muito de mentiras. – Falou em tom de sarcasmo.
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Júlia balançou a cabeça. Amava o marido, mas detestava seu ciúme, o que só havia piorado com o passar do tempo. Sentia-se como se um par de olhos estivesse sempre em suas costas. Para manter o casamento, parou de fazer várias atividades que gostava, até mesmo de escutar músicas antigas. Ele afirmava que Júlia estava com saudades do passado ou lembrando de outras pessoas. Várias vezes havia pensado em sair de casa, mas o medo e a ideia de ter que reconstruir sua vida a impediam, então se resignava e continuava vivendo com uma pessoa que demonstrava seu amor com palavras estúpidas e gestos, às vezes, brutos.
Walter olhava sério para sua mulher, bonita, inteligente, com certeza desejada por vários homens. Por que ele deveria tratá‒la de outra maneira? Quando a conheceu, estava com outra pessoa, mas ela desmanchou com o namorado dizendo que este era inconseqüente, infantil, que gostava de homens mais maduros. Começaram logo a namorar e não demorou para ela estar de mudança para sua casa. Casaram-se no civil, viveram bem nos primeiros dois anos, mas quando ela se negou a ter filhos, alegando que desta forma aproveitariam mais, começou a desconfiar de traição. Os amigos (e que amigos...) colocaram mais lenha na fogueira. Agora, por que deveria tratá-la diferente? Ele se sentia bem, tinha o controle da situação, e da esposa.
‒ Walter..., você tem que parar com este ciúme.
‒ Você foi pra perto dele pedir o telefone, não podia ter pedido quando estava do meu lado?
‒ Walter..., não fiz nada de mais!
‒ É! Até ter chance de fazer!
‒ Fazer o quê? O quê?
‒ Pronto! Falou a santa.
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O telefone começou a tocar, Júlia ia responder, mais preferiu atender. Era para Walter, ela estendeu o braço e ele o pegou rispidamente. À medida que escutava, o rosto de Walter ficava pálido. Desligou.
‒ O que aconteceu?
Walter parecia não acreditar.
‒ Um homicídio seguido de suicídio...
Enquanto Walter explicava, Júlia ficou aterrorizada. Quando acabou, Walter pegou sua pasta e foi para o local. Júlia, sozinha no escritório, sabia que seu próximo ato traria outra briga para dentro de casa, mas tinha que fazer o certo.
‒ Alô, é o Júnior, quem...
Júnior ouviu tudo e desligou.
‒ Gente problemas, acharam um homem e uma freira mortos na estrada.
‒ Atropelamentos acontecem sempre, Júnior.
‒ Não, Nelson, o homem matou a freira e depois se suicidou.
Arthmes falou para todos.
‒ É realmente estranho. Vamos lá dar uma olhada.
Despediram-se de Nelson e foram para o local. Ao chegarem notaram que a polícia já havia chegado. Pararam o carro um pouco afastado.
‒ Júnior, você é mais conhecido aqui, vá até lá e pergunte o que aconteceu.
Seguindo o conselho de Gabriel, Júnior foi até o local, enquanto os outros esperavam ansiosos no carro.
‒ O que acha Arthmes?
‒ Acho que deixamos passar algo. Olhe! Júnior está voltando.
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‒ Cara, este tal de Walter deve comer jiló todo o dia, ficou me olhando com uma cara... – mas não terminou a frase.
‒ Júnior! Se concentra! O que aconteceu?
‒ A polícia disse que o assessor atirou na freira com a própria arma e depois se suicidou, sem motivo aparente. Todos os documentos, dinheiro, nada foi levado, inclusive o carro deles está no mesmo local.
‒ Com licença? – A voz era desconhecida.
‒ Você não é Ricardo Sonato de Andrade Júnior?
A pessoa na frente deles era comum, um senhor de seus cinqüenta e poucos anos, de terno e gravata, sem barba e cabelo alinhado. O olhar de Júnior mostrava apenas dúvidas.
‒ Não lembra de mim, Dinho?!
Ao falar o apelido da infância de Júnior veio a recordação.
‒ Conheço sim, é... Naldo!
E apertaram as mãos, Gabriel e Arthmes apenas olhavam ainda dentro do carro.
‒ Isso! Só que agora é pastor Eraldo Montes, o que faz aqui?
‒ Vim ver o acidente.
‒ É, muito triste. Ele era da congregação, um bom rapaz. Teve uma vida difícil, mas havia superado graças ao Senhor Jesus e agora..., isso... – falou apontando para o local.
‒ Júnior! – gritou Gabriel. – Vamos, temos que ver outros assuntos.
Mas Eraldo se adiantou.
‒ Vão para a cidade? Podem me dar uma carona? Vim com Walter. Mas ele ainda vai demorar.
‒ Tá legal.
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Gabriel olhou querendo fuzilar Júnior pela resposta, mas se conteve. Eraldo se sentou atrás com Arthmes, Júnior entrou e ligou o motor, mas não olhou para Gabriel.
‒ Então seu nome é Arthmes – “nome estranho”, pensou Eraldo. ‒ Tem religião Arthmes?
Gabriel colocou a mão no rosto e suspirou.
‒ Na verdade, não.
‒ Eu era assim, sem religião, mas Deus tocou meu coração.
‒ Tocou é?
‒ Sim! Deus me disse o caminho, acredita que “ELE” fale conosco?
‒ Com certeza, acredito. – Falou sorrindo.
‒ Então! – Eraldo aumentou o tom de voz. ‒ O que aconteceu comigo pode acontecer com você, é só aceitar Jesus Cristo como seu único e suficiente salvador!
Eraldo não parava de falar, Gabriel, já sem paciência, olhou novamente para Júnior e notou que ele estava correndo demais.
‒ Júnior! Vai mais devagar.
‒ Tem uma moto atrás da gente.
Gabriel suspirou nervoso.
‒ Cara, isto aqui é uma rodovia, claro que têm motos...
‒ O cara tá armado!
Gabriel olhou para trás e viu a moto se aproximando.
‒ Pisa Júnior! Mete o pé!
A pick-up acelerou. Pelo retrovisor, Júnior viu a moto ficar um pouco para trás para, no instante seguinte, também acelerar e iniciar uma perseguição por uma rodovia com poucos carros e muitas curvas. O motor da pick-up roncava como um animal furioso, mas a moto, nas poucas retas, gritava e aproximava o carrasco de suas vítimas.
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Arthmes e Eraldo se seguravam como podiam. Gabriel ficava olhando pra trás, além de gritar, incentivando Júnior a correr mais depressa. Mas a moto se aproximou e, em uma reta, seu ocupante deu dois tiros na pick-up. O primeiro acertou na lataria, o que fez Gabriel se abaixar e Arthmes, por puro instinto, proteger Eraldo com seu corpo, mas o segundo tiro atingiu Arthmes. Nunca havia sentindo este tipo de dor, o chumbo quente entrou pelas costas, procurando o que dilacerar, mas não encontrou nada. Mesmo assim a dor era intensa e Arthmes gritou alto. Eraldo, num rápido movimento, arrancou parte do sobretudo, mas..., não encontrou o local do ferimento, nem sangue. Seus olhos se esbugalharam quando viram as alvas penas que se mesclavam à pele de Arthmes.
‒ Deus! – gritou. – Meu Deus! – Gritou desesperadamente.
E começou a querer se ajoelhar enquanto gritava graças a Deus. Isto já era incômodo, em um carro a mais de 100 Km/h era de enlouquecer. Por um momento a pick-up pareceu um hospício ambulante. Gabriel gritava para Júnior ir mais depressa, que respondia dizendo que já estava correndo; enquanto Eraldo gritava que estariam todos salvos, que Jesus enfim respondeu e Arthmes pedia para ele parar.
O motociclista se aproximou perigosamente até emparelhar com o carro, mas Júnior notou. Virando bruscamente o volante, jogou a pick-up na moto, que perdeu o controle, desceu em alta velocidade, pelo acostamento, até se arrebentar em algumas árvores, e seu ocupante quebrar o pescoço. O rapaz apelidado de “cachorrão” estava morto. Júnior pisou no freio e derrapou no acostamento de terra, todos desceram e andaram lentamente olhando para o barranco. Júnior parecia ter ficado em estado catatônico com tudo que aconteceu.
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‒ Matei uma pessoa... – Júnior repetia várias vezes, baixinho, com olhos incrédulos.
Arthmes teria chegado também na beirada, mas Eraldo prostrou-se na sua frente e agarrou seus calcanhares.
‒ Criatura do Senhor, eu estou pronto! Eu quero ser salvo!
Arthmes não falava nada, olhando para Gabriel fez alguns gestos desesperados para tirar Eraldo dali.
‒ Júnior! – Gabriel o sacudiu. – Acorda Júnior!
Júnior se recompôs, levantou os ombros e foram até Eraldo, levantaram-no pelos braços, mas ele continuava eufórico.
‒ Não! Esperem! Não me levantem, vamos todos nos ajoelhar! Este é um sinal de Deus! – Bradou.
Arthmes pensou um pouco e teve uma idéia. Retirou o sobretudo, andou até perto de Eraldo, ainda seguro pelos amigos.
‒ Ajoelhe-se. – Falou para Eraldo, olhando-o fixamente.
Ele caiu de joelhos com as mãos juntas. Arthmes então abriu as asas totalmente, sabia que haveria impacto nesta visão.
‒ Eraldo Montes... – disse firme e pausadamente. – O Senhor dos Mundos, o Arquiteto do Universo, manda que vá até aquele monte abençoado – era uma boa distância até lá – e pense, reflita sobre tua vida pregressa, pois “ELE” deseja voltar para ti.
Os olhos de Eraldo encheram-se de lágrimas e, como um robô, ele se levantou e começou a andar na direção indicada.
‒ Cara! Isso não foi maldade?
Arthmes colocou o sobretudo.
‒ Precisamos pensar Júnior, a situação está cada vez mais grave. Aliás você falou algo do morto ser assessor?
‒ Ele era assessor do prefeito.
‒ Do prefeito? Então “ele” vai tentar algo na política.
‒ E deve estar agora na prefeitura. – Pensou alto Gabriel.
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Rapidamente, entraram no carro. Júnior ligou o motor e olhou uma última vez para Eraldo, que já andava bem longe.
‒ Cara, isso foi maldade.
‒ Já te falei, Júnior, não sou muito ortodoxo. Vamos!
O pneu da pick-up patinou na terra. Júnior virou o volante, e eles ganharam novamente a estrada em direção à prefeitura.
‒ Não. O prefeito viajou para a capital junto com seu novo primeiro assessor, o Sr. Teobaldo.
Arthmes ficou pensativo, mas Gabriel continuava inquieto, estavam no escritório da prefeitura.
‒ Quando eles foram?
‒ Há..., já faz algum tempo. A esta hora, o avião já decolou.
A secretária do prefeito estava tranqüila, sorridente, muito gentil.
‒ Como é este senhor Teobaldo?
A secretária olhou para Arthmes e começou a descrevê-lo, quando terminou, informou ainda que levariam dois dias para voltarem.
‒ Vamos embora, temos que contar à Ana e ao Ben as novidades.
‒ Ah! Por favor! – Chamou a secretária. ‒ A Ana de quem falou é a irmã de dona Elisa?
‒ É sim.
‒ Pode entregar meu telefone pra ela?
Gabriel consentiu com a cabeça enquanto ela lhe entregava o papel.
‒ Por favor, peça para ela me ligar assim que chegar da capital.
‒ Como? Da capital? Ela foi junto?
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Júnior estava atordoado, mas a secretária sorriu para ele.
‒ Lógico! Ela é a dama de companhia do senhor Teobaldo.
“Droga” pensou Gabriel, “Ana vai pirar quando souber disso”.
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terceiro MOVIMENTO
REDENÇÃO
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‒ Minha irmã está com um demônio, e você me pede calma?
‒ Ficar neste estado não ajuda.
Gabriel tentava argumentar, mas, desde que chegaram á casa de Ben e contaram, Ana havia perdido o controle, já tinha chorado, gritado, se desesperado e agora queria tomar uma atitude.
‒ Em que estado você quer que eu fique? Minha irmã está transando com um demônio! Não é a sua irmã, é a minha!
‒ Anjos ou demônios não tem relações sexuais com mortais.
‒ Quem garante isso Arthmes?
Ele apenas sorriu, ela recuou um pouco.
‒ Vamos pegar o avião de papai e ir atrás deles!
‒ É melhor não, Ana. – Arthmes estava impassível. – É melhor aguardarmos eles voltarem.
‒ Mas..., minha irmã...
‒ Ela não vai sofrer nada. Ele precisa dela, do dinheiro e do corpo, só que para os outros.
‒ Como a secretária da prefeitura? – Júnior, conhecendo Elisa, rapidamente compreendeu o comportamento e o interesse da secretária.
‒ Não Júnior, aquilo foi um presente, um agrado.
‒ E demônios dão presentes?
‒ Quando é do interesse deles Ana, geralmente oferecem o que a pessoa mais deseja.
‒ A Elisa? Ela já fez e provou de tudo, o que ele pode dar de tão importante pra ela?
‒ Um amor verdadeiro, sem interesses fúteis, um amor que não conhece limites e com coragem bastante para se assumir.


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