‒ Só às vezes. Arthmes me disse que sempre devemos perguntar o “Por que”. Assim como também saber aceitar os mistérios da vida.
‒ Quem é Arthmes?
‒ É a outra pessoa que veio conosco.
Ana parou o carro no sinal de trânsito.
‒Esse Arthmes parece ser bom de filosofia.
Gabriel sorriu novamente.
‒ Com certeza ele conhece muitas coisas.
‒ E qual é o ponto em comum muito forte, que une uma pessoa como você ao Júnior?
Gabriel desta vez não sorriu, ficou sério olhando pra frente. Virou-se e viu o belo rosto de Ana. Suspirou levemente.
‒ Arthmes – foi sua resposta e ficou em silêncio.
Ana não perguntou mais nada. Achou a resposta estranha. Mas, se este tal de Arthmes podia ser um elo tão forte entre pessoas de mundos tão diferentes, devia valer a pena conhecê-lo. O sinal abriu e os dois seguiram para a casa de Ben, trocando olhares.
Júnior e Lisa, que continuaram no apartamento, agora sentados no sofá riam das várias situações que relembravam.
‒ ...e porque você saiu da festa do Leandro mais cedo?
‒ Dois motivos Lisa: primeiro, que eu já vinha de outra festa; segundo, que “fiquei” com uma garota e fui pra casa dela.
‒ É! Quem?
Júnior sem responder começou a rir.
‒ Há! Fala Junior, quem era?
Lisa começou a sacudi-lo.
‒ Tá! Tá bom! Foi a Carmem.
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‒ A Carmem Cruz de Mattos?
‒ É! A noite também foi maravilhosa.
‒ Cara. Por que você não me chamou?
Lisa fez cara de indignada.
‒ Como é que é?
‒ É! Me chamava e íamos os três pra cama. Ia ser bem legal.
Júnior começou a rir.
‒ Na próxima. Tá legal Lisa?
Lisa fez sinal de afirmativo e se levantou do sofá dizendo para Júnior esperar. Voltou, sentou-se e sorriu pelo canto da boca.
‒ Tenho uma coisa comigo fantástica Júnior.
Lisa abriu a mão direita, estava segurando três pedrinhas de um amarelo bem claro, meio foscas. O sorriso no rosto de Júnior foi diminuindo até desaparecer totalmente.
‒ Isso..., isso é crack Lisa?
‒ É, cara! – Lisa estava eufórica. – Vamos fumar? Eu já experimentei, te leva pra terra dos anjos.
Júnior olhava fixamente para a mão de Lisa e, naquele segundo, lembrou-se de uma das conversas que teve com Arthmes na casa de Gabriel.
‒ ...já experimentei de quase tudo, Arthmes! Esportes radicais, mulheres de todas as maneiras e até drogas.
‒ Até drogas Júnior? Todos os tipos?
‒ Não! Todos não. Já faz quase um ano que eu não cheiro; e fumar maconha, uns..., oito meses. Por quê? Isso afasta a gente do céu?
Arthmes sorriu levemente.
‒ O que afasta a gente do céu são nossos atos e também são eles que nos deixam entrar.
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Júnior franziu a testa, mais ele continuou.
‒ Você não “entra” no céu. Através de seus atos, abre portas em seu coração e o céu então “penetra” em você.
‒ Quer dizer que não importa o que falamos, só o que fazemos?
‒ Quero dizer, Júnior, que nossas palavras só ganham força quando nossos atos condizem com elas.
‒ E as drogas então são ruins?
Arthmes olhou fixamente para Júnior.
‒ Todo mundo sabe o que é bom e o que é ruim para si. Isto está dentro do Homem. Mas o céu só penetra nele quando a escolha de suas palavras vem de seu coração e reflete em seus atos.
‒ Júnior!
Lisa falou pela segunda vez, Júnior balançou a cabeça como se estivesse despertando, mas se manteve sério e olhou para ela.
‒ Eu..., eu não estou afim.
‒Há! Qual é Júnior? – Lisa abriu os braços e novamente fez cara de indignada.
‒ Nada. Só não quero – repetiu.
‒ Tá dando uma de otário? Você não era assim. Agora que está andando com esse cara, você mudou. Não sai mais, não liga pra ninguém... Cadê o Júnior? Sumiu! – Lisa se levantou estupidamente, rodou a sala e parou em frente a ele, que se mantinha mudo. Aquela era uma experiência nova, nunca havia negado uma aventura, por mais bizarra que fosse. Não sabia o que dizer então resolveu ficar calado.
Lisa logo entendeu que, pelo silêncio, Júnior não iria fumar com ela.
‒ Tudo bem!
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Ela se movimentou pela sala, pegando sua bolsa e um casaquinho.
‒ Tá careta? – sua voz era agressiva. – Problema seu!
E indo até a porta, abriu-a e ficou olhando séria pra ele. Júnior compreendeu que o estava expulsando e não havia mais nada a ser dito.
‒ Vamos, cara! Não vou ficar com a porta aberta a noite toda.
Júnior se levantou e saiu direto sendo seguido por Lisa. Tomaram o elevador sem trocarem uma palavra ou se olharem. Chegando à rua, Lisa fez sinal para um táxi, abriu a porta e sentou no banco de trás. Júnior ficava apenas olhando calado com o rosto sério. Antes de sair, Lisa voltou-se para ele com raiva.
‒ Otário! – gritou.
Fez um sinal e o motorista partiu com ela para dentro da noite. Para onde ia? Com certeza algum lugar que pudesse fumar e depois mergulhar de cabeça em todas as emoções que estivessem ao seu alcance.
“Estranho” pensou Júnior ainda parado na calçada, “há algum tempo atrás eu teria aproveitado esta noite ao máximo. Eu devia estar me sentindo triste por tudo isso”. Mas ao contrário, ele se sentia muito bem. Um sentimento de satisfação encheu seu peito.
Júnior foi em direção do seu carro, era hora de ir para casa de Ben. Quando procurou as chaves nos bolsos, não encontrou. Num lampejo lembrou-se: as chaves e os documentos tinham ficado em cima da mesa, na casa de Lisa. Júnior olhou em volta, o carro estava bem estacionado, podia “dormir” ali e amanhã viriam buscá-lo. Seria um longo caminho até a casa de Ben. “É melhor começar a andar logo”.
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Mas quando chegou na primeira esquina, seu celular tocou. Era Arthmes.
‒ Arthmes? O que aconteceu?
‒ Gabriel teve um acidente.
‒ Um acidente? Onde? Quando? – Júnior ficou apreensivo.
‒ Não sei, não entendi bem. Uma garota ligou pra mim e falou que ele sofreu um acidente. Eu dei o endereço e devem estar chegando. Vem pra cá!
‒ Eu estou a pé. Vou demorar um pouco, mas estou indo! – disse já andando de volta.
A campainha da porta tocou.
‒ Olha! Chegaram..., vem logo!
Júnior desligou e começou a correr para o hotel.
‒ Entrem rápido!
Gabriel estava desnorteado. Cambaleava mesmo sendo carregado por Ana e Benjamim.
‒ Coloquem ele no sofá.
Ana sentou Gabriel e ficou ao seu lado, Ben sentou-se na poltrona ao lado, arfando. Não estava acostumado a fazer grandes esforços. Arthmes sentou-se ao lado de Gabriel e colocou a mão em seu ombro.
‒ O que aconteceu?
‒ Não sei bem ‒ Ana falava nervosa e gesticulava muito.
‒ Saímos lá de casa e fomos para a casa de Ben. Quando chegamos, estava tudo aceso. Chamamos, mas ninguém atendeu...
‒ Eu estava no banheiro... – mas Ben não conseguiu terminar a frase.
‒ Como não sabíamos onde ele estava, entrei na casa e Gabriel foi para a garagem. Comecei a chamar e Ben me respondeu
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pedindo pra esperar. Quando fomos para a garagem, encontramos Gabriel desacordado dentro de um tubo de vidro enorme.
‒ É o DECONAM.
Arthmes e Ana olharam sem entender.
‒ É o meu desacelerador condensador atômico molecular! Deconam. Entenderam? – o silêncio continuou. – Eu sei que vocês não compreenderam. Vou explicar...
Mas Arthmes havia compreendido.
‒ É um teletransporte.
Ben ficou surpreso com o esclarecimento de Arthmes. Afinal, ele tinha resumido em uma palavra toda a sua explicação.
‒ Exatamente! Fico admirado, geralmente as pessoas não compreendem...
‒ O que transporta? – Arthmes pareceu ficar nervoso.
‒ Como?
‒ O que a máquina teletransporta? – gritou.
‒ Bom. Na verdade ela desacelera as partículas desde os subníveis atômicos, como se fosse um imenso freio. Recondensando-as em uma atmosfera de 1 Kg por centímetro cúbico. Realinhando as moléculas...
‒ Não foi isso que perguntei! – Arthmes cortou a frase e Ben o olhou espantado.
‒ O que a máquina traz para esta dimensão?
Neste mesmo momento na garagem de Ben, o deconam emite um ruído agudo. Os líquidos caídos no chão começam a evaporar e suas fumaças se unem em uma nuvem esbranquiçada espessa que vai preenchendo todo o tubo e o laboratório. Como se estivesse viva, toma o ambiente. Um monstro devorando: a visão, a energia, a paz..., silêncio. Tudo parou. O vento da noite, o tempo..., tudo parou.
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Longe dali, Arthmes colocou as mãos na cabeça. Igual a uma ferroada de abelha dentro do crânio! Ele grita com a dor. Levanta-se, assustando a todos. A dor percorre seu corpo, sentindo seu peito ser rasgado como por um ferro em brasa, e a sensação de sufocamento aumenta. Ben fica parado totalmente sem reação. Gabriel já estava lúcido, mas não tinha forças para fazer algo. Ana toma a iniciativa e tenta segurar Arthmes, que se contorcia, gritava e cambaleava, esbarrando e quebrando vários objetos.
‒ Para! Calma! – gritava Ana. ‒ O que está acontecendo aqui?
No laboratório, a névoa se dissipou um pouco e “ele” já pode ser visto. Sapatos, calça e camisa social, terno, tudo preto, contrastando com sua gravata prateada. Um homem, uma aberração que não deveria estar ali ou aqui, cabelos bem alinhados, barba bem-feita e olhos verdes como os de Lúcifer. Olhos que assumiram, repentinamente, o vermelho de um rubi. Um rubi em que se podiam ver almas que gritavam, choravam e suplicavam nas chamas de seu próprio Inferno. Ao sair do laboratório, seus olhos ficaram normais, mas sua existência aqui nunca será. Enquanto andava a silhueta foi sumindo noite adentro como em um sonho ou um pesadelo.
‒ Segurem ele! – Gabriel gritava ainda sem forças para levantar.
Agora Ben tentava ajudar, segurando o braço de Arthmes, que num rápido movimento atirou-o por cima da mesa de centro no outro sofá. Ana rapidamente o pegou por trás. No momento em que teve o último e mais forte espasmo de dor, jogou-se pra frente e deixou Ana apenas com o sobretudo nas mãos. A porta do apartamento se abriu. Júnior entrou suado e quase sem fôlego
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para ver uma cena incrível: Ben sentado em um sofá de olhos esbugalhados e boca aberta. Gabriel no chão se apoiando na pequena mesa, tentando chegar a Arthmes. Ana com o sobretudo nas mãos, os olhos cheios d’agua e gaguejando palavras desconexas e... Arthmes ajoelhado, com a cabeça entre as pernas, chorando e com as enormes asas totalmente abertas pela dor.
‒ Júnior! Júnior vai ver Arthmes!
Era Gabriel gritando enquanto tentava se arrastar na direção dele.
Júnior bateu a porta e foi em direção a Arthmes. Ajoelhando-se, o abraçou.
‒ Meu Deus! O que é isso? O que é isso? – Ana conseguia repetir apenas estas palavras.
‒ Arthmes, meu amigo!
Gabriel conseguiu chegar e, junto com Júnior, começaram a levantá-lo.
‒ “Ele” chegou..., “ele” está aqui... – sussurrava Arthmes.
‒ O quê? O que, Arthmes? – repetiu Gabriel.
Arthmes levantou a cabeça, a cena era piedosa: estava chorando! Lágrimas que brilhavam como gotas de diamantes rolavam pelo seu rosto. Ainda agachados, Arthmes segurou Gabriel e Júnior pelos braços.
‒ Gabriel... Júnior... “ele” chegou! Está em nossa dimensão!
Uma hora depois de muitas explicações e ouvindo toda a história de Arthmes.
‒ Isso tudo é..., incrível!
‒ Mais é a verdade, Ana, e agora estamos todos envolvidos.
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Arthmes terminou a narrativa e todos ficaram pensativos. Menos Benjamim, que olhava vidrado para Arthmes, agora mais recuperado e vestido.
‒ O que foi Ben?
Aproveitando a pergunta, Ben se levantou rapidamente e foi-se sentar ao lado de Arthmes.
‒ Você me permite? Podemos conversar? Posso fazer algumas perguntas?
‒ Pode Ben. Você... – mas Arthmes não completou a frase.
‒ Você é o sonho de todo o cientista, sabia? Em pensar que inventei o deconam justamente para falar com vocês!
‒ Olha Ben...
‒ Quantos anos você tem?
‒ Na cronologia terrestre, alguns milhões...
‒ Milhões? Antes do planeta surgir?
‒ Há? Sim, mas...
‒ Fantástico! Sempre teve essa forma?
‒ Não. Temos a forma que vocês compreendem, mas...
‒ Sua composição! Gostaria de fazer alguns testes: sangue, pele...
‒ Ben!
‒ E, o mais importante, me conte tudo que você sabe sobre Deus!
‒ Ben! – Arthmes gritou. – Não temos tempo pra isso agora!
Ben ficou parado com um semblante triste. Parecia até que ia chorar. Júnior veio do bar com um copo de água.
‒ Ele tem razão, Ben. Caso você não se lembre, tem um demônio solto na cidade.
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Gabriel abaixou a cabeça. Afinal, foi pelo seu descuido que o demônio, aliás, “seu” demônio pessoal, tinha alcançado esta dimensão. Um rápido pensamento passou por sua cabeça: “o que vim realmente fazer aqui?”.
‒ O que vamos fazer?
‒ Vamos atrás dele Ana. Agora!
‒ Calma Júnior. - Gabriel se levantou, – não vamos nos precipitar. Pelo que Arthmes falou, ele pode ser qualquer um e estar em qualquer lugar.
Arthmes concordou, balançando a cabeça.
‒ O primeiro passo é voltar ao laboratório e verificar as possibilidades de mandá-lo de volta e só depois vamos ao seu encontro.
‒ A gente pode se dividir!
‒ Não Ana. “Ele” tem os mesmos poderes que Arthmes com algo a mais: consegue persuadir qualquer pessoa.
‒ Como assim? – Ben ficou curioso.
‒ O poder de persuasão – explicou Arthmes – é característica dos demônios. Assemelha-se aos devaneios dos mortais. Quando “ele” entra em sua mente, tudo some ao seu redor e você recorda vivendo a situação sendo conduzido por “ele”. Quanto mais culpado se sente mais poder tem sobre você até conseguir que faça exatamente o que “ele” quiser.
‒ Por isso temos que permanecer juntos – completou Gabriel. – Vamos voltar ao laboratório. Primeiro passamos na casa de Ana e trocamos os carros.
Todos concordaram e começaram a sair. Arthmes segurou Júnior pelo braço e comentou ao seu ouvido.
‒ Notou? Gabriel está diferente.
‒ Ele parece mais prático, com mais iniciativa.
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‒ É a influência solitária do anjo da guarda. Já começou.
Ao chegarem na casa de Ana trocaram os carros e seguiram para casa de Ben.
‒ Muito bem. – Disse Ben a Gabriel quando todos entraram na garagem ‒ Me mostre exatamente o que aconteceu. Preciso saber para tentar reverter o processo.
Gabriel toma a frente e começa a relembrar.
‒ Quando entrei, logo vi que você não estava, mas fiquei impressionado, as bancadas com várias substâncias, os sistemas eletrônicos e ao fundo aquele grande tubo de vidro. Tudo estava assim, funcionando.
‒ É. Como fui ao banheiro, não desliguei.
‒ Então vim até esta bancada aqui. Peguei dois tubos com líquidos coloridos e fiquei admirando...
‒ Um verde e um azul?
‒ Isso mesmo! –
‒ O verde é de plantas que conseguem fazer a reagrupação de células e o azul é de animais marinhos que fazem regeneração de partes amputadas – explicou.
‒ Estava com os frascos na mão, quando ali na porta apareceu um cachorro...
‒ Um grande? Castanho?
Gabriel confirmou.
‒ É rufus, meu cachorro. Mas..., ele está velho demais. Não consegue nem latir.
‒ Mas ele veio latindo e rosnando. Parecia que ia me atacar! Eu me afastei de costas até tropeçar aqui, ‒ e apontou o cabo de força no chão – então caí dentro do tubo.
‒ As misturas caíram em cima de você?
Novamente Gabriel confirmou.
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‒ Depois só me lembro que bati a cabeça e me senti sufocado. Vi imagens distorcidas e apareceram vocês dois me chamando.
Ben coçou a cabeça, andou até o meio da sala e olhou de volta.
‒ Vai ser difícil. Tenho que fazer novamente as misturas e desenvolver uma substância para que haja na primeira uma desagregação celular e na segunda um inibidor. Isso sem destruir as células – Ben demonstrava uma grande preocupação.
‒ E isso é difícil?
‒ Muito Júnior. Se desagregar ou inibir demais, não haverá reconstituição no outro plano.
‒ Ele morre?
‒ Tecnicamente pode-se dizer que sim Júnior. Ele se desfaz em uma intersecção entre duas dimensões e ali fica em suspensão indefinidamente.
‒ Você consegue fazer isso? – Ana estava ansiosa.
‒ Vou tentar – Ben coçou novamente a cabeça. – Não sabia se iria conseguir trazer algo, agora tenho que tentar mandar de volta. O processo é totalmente experimental. Tenho que rever a amperagem das descargas elétricas, a força magnética envolvida...
‒ Calma Ben – Ana o abraçou, ‒ se tem alguém que consegue é você. É só ter calma.
‒ E aí? O que fazemos agora?
‒ Por enquanto nada Ana.
‒ Arthmes está certo Ana. Não sabemos nada dele – Gabriel foi até a janela, tocou o vidro suavemente e olhou a escuridão. – Vamos ter que esperar clarear para fazer algo.
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SEGUNDO MOVIMENTO
DESTRUIÇÃO
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Três pancadas fortes foram o suficiente para acordar Neida na casa paroquial. Havia dormido em cima dos livros de contabilidade da igreja. Aliás, todo aquele dia tinha sido muito estranho. Uma súbita vontade de organizar tudo tomou conta dela: telefonou para os pais, refez apostilas de catequese, rezou com fervor redobrado e quando resolveu colocar os cálculos das doações em dia não aquentou e caiu no sono. Agora se perguntava quem estaria batendo naquela hora da noite.
‒ Pois não? – disse Neida abrindo a pequena fresta da porta.
‒ Boa noite. – Falou o homem, sorridente com voz agradável. – Sou um viajante e preciso muito de ajuda. Sei que não vai me negar.
Por um momento Neida pensou em chamar Sofia. Mas a voz dele era muito carismática, envolvente. Olho-o de cima a baixo, estava bem vestido.
‒ Um momento. – Fechou a fresta, destrancou, abriu a porta e olhou novamente. Além de bem vestido, era um homem bonito.
‒ Senhor?
‒ Teobaldo. E seu nome? – Sua voz era gentil e seu sorriso envolvente.
‒ Neida. Digo “Irmã” Neida – “Que sorriso lindo”, Neida pensou.
‒ Não sei em que posso ajudá-lo Sr. Teobaldo.
‒ Tenho certeza que fará tudo o que puder por mim, Neida. Você sabe: a falta de palavras e atos carinhosos, a falta de compreensão no Mundo de hoje é terrível. As pessoas acabam sendo humilhadas e se arrastam nas próprias mágoas, tomando
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decisões tristes em suas vidas. Decisões que terminam destruindo os melhores sonhos...
A medida que Teobaldo falava, um quadro vivo se formou ante os olhos, agora vidrados, de Neida. Ela não via mais o agradável sorriso e o belo homem à sua frente, mas seguia suas palavras com cenas de sua vida de antes do convento. O pai incompreensível. Sua mãe, uma pessoa sem personalidade, uma infância marcada por surras e desprezo, Neida viu seu sonho de constituir uma família se desfazer quando o pai acusou-a publicamente de prostituição, suas negativas de nada adiantaram, então resolveu enterrar todo seu passado, nada mais interessava, foi acusada injustamente de ser prostituta, resolveu ser uma santa e entrou para o convento.
‒ ...e com nada, absolutamente nada pode reparar uma acusação injusta – continuou Teobaldo – tentamos esquecer, mas o passado nos persegue como uma flecha certeira a machucar nosso coração.‒ Teobaldo ainda falava enquanto conduzia Neida para dentro e fechava a porta atrás de si. Ele levou a jovem freira até o meio da sala.
‒ O que poderia comprar o esquecimento? – continuou Teobaldo a falar. – O quê? Mostre o que você pode ter de valioso entre os Homens. Comprar seu silêncio, sua atenção e seus sorrisos. Esta é a chance de sorrir, agarre-se a ela.
Neida, sem vontade como um robô ou um zumbi, dirigiu-se às pequenas gavetas do móvel, retirou o dinheiro e o entregou sorrindo.
‒ É pouco, Neida, é pouco.
O sorriso se desfez e Neida começou a buscar em toda a casa mais dinheiro. Obras assistenciais, doações, empréstimos etc. Nada ficou livre de ser entregue, então terminou.
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‒ Neida..., é pouco.
Tudo que ela queria era ser esquecida e perder novamente as lembranças no turbilhão do passado. Os olhos de Teobaldo começaram a ficar avermelhados e sua voz assumiu um tom mais grave, gutural.
‒ Nada compra o passado, Neida, você não pode mudá-lo, ele vai cortá-la todos os dias pela sua falsidade, sua falta de coragem de realizar seus sonhos.
As lágrimas começaram a cair de seus olhos, os únicos ruídos que se ouviam eram como miados tristes, baixinhos, como se implorassem misericórdia.
Teobaldo foi até a cozinha, ao lado da sala, e voltou trazendo uma grande faca. Colocou-a em cima da mesa, à frente de Neida.
‒ Você sabe que tem que acabar com essa dor. O que você imagina do céu?
Outro quadro vivo apareceu para Neida, o céu, o paraíso que ela sempre imaginou, sem lágrimas, calúnias, dores ou perseguições. Neida, entre lágrimas, começou a sorrir. Teobaldo aproximou-se por trás e lhe falou ao ouvido.
‒ Este é o céu que te espera e que sempre te esperou. Agora é o momento de você ir a ele, só precisa ter a coragem de sua infância.
Cada vez mais, Neida sorria com a visão do céu.
‒ Você foi preparada para este momento, você quer este momento. O que antes era ilusão, agora vira realidade por suas mãos, tão capazes como quando era criança.
Em um gesto, Neida abriu os braços em sinal de aceitação. Teobaldo então dirigiu-se para a porta de saída.
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‒ Lembre-se... ‒ falou antes de sair –, a dor agora será rápida e, quando desaparecer, acabará com todas as outras, depois..., só terá paz.
Ele fechou a porta, ainda em tempo de vê-la pegando a faca. Deu alguns passos, parou, enfiou a mão no bolso e olhou para o dinheiro. Seus olhos já estavam normais. Sorriu e, como um fantasma, entrou na noite sem olhar para trás.
Gabriel via a escuridão iluminada pelas luzes de mercúrio das ruas, as sombras pareciam ganhar vida. Arthmes veio por trás.
‒ Não adianta ficar assim.
Houve um momento sem resposta.
‒ Ficar como Arthmes?
‒ Se condenando.
Gabriel continuou a olhar a escuridão.
‒ Eu o trouxe.
‒ Não. Foi um conjunto de fatos que resultaram nisso.
Gabriel voltou-se para Arthmes.
‒ E quem planejou isto?
‒ Como posso saber? Sou apenas um anjo, não escrevo o “LIVRO DA VIDA”.
‒ Livro do quê?
‒ O Livro da Vida, uma série de acontecimentos que cada Ser Humano tem que vivenciar para seu aprimoramento.
‒ Mais isto..., deve influir em nosso livre arbítrio. É algo injusto!
‒ Não. Não é. Vou explicar: você encontra uma carteira cheia de dinheiro, este acontecimento está escrito no Livro da Vida, o que você vai fazer com ela parte do seu livre arbítrio, entendeu?
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Gabriel abaixou a cabeça e ficou pensativo. Arthmes colocou as mãos em seus ombros e o olhou profundamente.
‒ Gabriel, você pode escolher ir embora e esquecer que ouviu falar de Nova Hilfurt, ou ficar e enfrentar esta situação. Esqueça os acontecimentos que resultaram neste fato e concentre suas forças no poder de suas escolhas.
‒ E se a minha escolha for errada?
Arthmes sorriu.
‒ Todo o Homem erra, faz parte da natureza do Ser Humano. Eu estive no Monte das Oliveiras e ouvi quando o mensageiro sentiu medo porque era Humano. Mas, como todos os homens, ele teve tempo de fazer uma nova escolha, que depois o encheu de alegria.
‒ E de glória – Falou Gabriel.
‒ A glória pouco importa para aquele que fez a escolha certa. O que conta é a felicidade no coração.
Gabriel pensou, sorriu e levantou a cabeça. Tinha feito a sua escolha.
Teobaldo estava sentado em uma boate. O barulho era ensurdecedor, mas parecia não atrapalhar seus pensamentos. Tinha dinheiro, verdade que não era muito, mas dinheiro não significa poder. Poder é a quantidade de influência que você consegue exercer sobre outras pessoas. Ele precisava de extensão para seus braços, estava limitado em um corpo, mas isto não deveria ser difícil, afinal, tinha como conhecer os maiores desejos e fraquezas dos mortais.
Uma mulher dançava freneticamente aquela música alucinante, tanto que chamou sua atenção. Ele sorriu, conhecia aquele procedimento, estava se preparando para viajar nas
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drogas. Chamou o garçom, o mandou trazer seu champanhe mais caro e levar uma taça para ela. Não demorou e os dois conversavam.
‒ Então você veio para ajudar o prefeito a ganhar as eleições.
‒ Isso mesmo.
‒ E o que foi que ele disse?
‒ Nada Lisa, ele ainda não me conhece.
Lisa não compreendeu. Teobaldo sorriu.
‒ Ele vai querer minha ajuda, tenho certeza disso. Agora, por que não vamos lá fora, pra você viajar?
‒ Como você sabe...
Teobaldo colocou os dedos suavemente em seus lábios.
‒ Sei de muitas coisas. Vamos ao nosso paraíso.
Lisa sorriu e acompanhou aquele homem misterioso e fascinante. Saíram da boate e, mais à frente, chegaram a uma rua estreita, mal iluminada. Teobaldo viu três silhuetas, três rapazes com atitudes suspeitas, deviam estar tramando algo.
‒ Meus braços! – exclamou Teobaldo, sorrindo.
Lisa novamente não compreendeu, mas Teobaldo ficou ansioso.
‒ Lisa, onde comprou as drogas?
‒ Em frente à boate, tenho um amigo...
Teobaldo segurou seu braço e a puxou.
‒ Me mostre quem é.
Eles voltaram, encontraram a pessoa e Teobaldo comprou três tipos de drogas diferentes. Retornaram à pequena rua.
‒ Pra que isto? – Lisa estava curiosa.
Ele, sorrindo, disse:
‒ Precisamos de empregados, minha querida.
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Deixou Lisa nas sombras e dirigiu-se para os rapazes. Dois ficaram de pé na sua frente. O mais adiantado mostrou uma faca.
‒ Aí, cara, é um assalto!
Teobaldo sorriu.
‒ O cara vai perder tudo e tá rindo “cachorrão” – falou o segundo.
‒ Senhores..., quero contratá-los.
‒ Tá maluco cara? Quer morrer?
‒ Posso pagar.
Abrindo a mão, Teobaldo mostrou os pacotes com várias drogas. Os olhos dos marginais brilharam, o mais adiantado, de apelido “cachorrão”, estendeu a mão, mas Teobaldo colocou rapidamente o pacote atrás do corpo.
‒ Deixem ele falar!
A voz vinha do terceiro integrante, que ainda estava nas sombras.
‒ Ele é o chefe? – Seu tom de voz era de gracejo – Deixe-me vê-lo, não falo com empregados.
O rapaz se aproximou, não devia ter ainda vinte anos, mas já trazia as marcas da tristeza que acompanha todo o jovem sem esperanças.
‒ O que você quer?
‒ Preciso de guarda-costas. Pessoas de confiança para certos serviços.
‒ Não quer sujar as mãos, bacana?
Teobaldo olhou profundamente nos seus olhos..., e sua voz mudou.
‒ Chega de ficar limitado por este Mundo que não os compreende, chega de leis. Você quer liberdade para fazer o que quiser, porque você pode e quer...
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Um quadro vivo se formou para o rapaz. Começou a ver cenas de sua família, o pai desempregado, bêbado, um lixo. A mãe surrando-o por nada, depois a polícia, por nada, depois na cadeia, violência.
‒ Somente o mais forte sobrevive... – continuou Teobaldo – Essa é a sua lei, a nossa lei. Os fracos servem aos fortes de todas as maneiras – seus olhos ficaram vermelhos. – E, agora, você tem a prova disso, pisando em todos, em tudo, você agora vai ter o seu lugar por direito..., ao meu lado. Acorde!
Ele sacudiu a cabeça, como se despertasse de um pesadelo. Teobaldo colocou as drogas em sua mão.
‒ Quero todos aqui amanhã as 9h. Todos.
O rapaz chamado “cachorrão” se aproximou e sorriu.
‒ Quem garante que a gente vem?
Imediatamente, o chefe deu-lhe um forte tapa na cara e gritou.
‒ Todos aqui amanhã! Quem não vier, se entende comigo.
Teobaldo sorriu.
‒ Gostei, qual seu nome?
‒ Elias.
Teobaldo começou a rir.
‒ Ótimo nome! – E fez sinal para Lisa, que se aproximou cheia de admiração.
‒ Vamos, vou lhe mostrar como usar isto de verdade. – Referindo-se ao crakc com ela.
Enquanto se afastavam, ele falou em um tom bem alto.
‒ Elias! Que nome excelente!
E começou a gargalhar na escuridão, mas os rapazes já não o ouviam, estavam viajando nas drogas.
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Amanheceu.
‒ Vou dar uma volta pela cidade.
‒ Eu e Júnior vamos também, Gabriel. Você ficou acordado quase a noite toda. Não está em condições de dirigir.
‒ Tudo bem, Arthmes, cadê Ana e Ben?
‒ Estão dormindo. Ben passou a noite inteira trabalhando e Ana ainda está sob o impacto dos fatos de ontem. Vamos deixá-los assim, quando acordarem estarão melhor.
Os três entraram na pick-up e saíram sem destino. Pela cidade, que dormia calmamente sem saber dos últimos acontecimentos, estava bem cedo, tudo em silêncio, por isso o grito pareceu tão alto, o desespero veio da casa paroquial, justamente quando passavam perto da igreja. Júnior olhou pelo retrovisor e viu a irmã Sofia abrir a porta e sair gritando alucinadamente, ele parou o carro e correu a acudi-la. Sofia sem voz apontava para dentro, Gabriel e Arthmes entraram primeiro e viram a irmã Neida estirada no chão sobre uma enorme poça de seu sangue devido à faca cravada, até o cabo, em seu coração. Aproximaram-se. Arthmes olhou seu rosto, estava sorrindo.
‒ Foi “ele”, Gabriel.
Júnior entrou desnorteado e parou ao ver o cadáver.
‒ Foi “ele” Júnior – repetiu Arthmes.
Outras pessoas foram chegando, Júnior notou. Sabia que o logo a polícia estaria ali. Pegou os amigos pelos braços e os puxou para fora. Havia outras pessoas ajudando a velha freira. Os três entraram no carro, mas Júnior não deu a partida, ficaram parados, pensativos. Antes de lamentarem o ocorrido teriam que descobrir o porquê daquilo. Gabriel pegou o celular.
‒ Vou ligar pra Ana e contar o que houve.
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O telefone só tocou uma vez até ser atendido. Uma voz feminina respondeu.
‒ Ana? É o Gabriel, tenho uma notícia muito ruim.
‒ O que houve? O demônio fez uma pessoa se suicidar – Gabriel contou.
‒Quem? Uma jovem freira, aqui na...
Gabriel escutou outro grito, mas este era masculino e vinha do outro lado da linha. Ele ficou mudo, escutava apenas alguns barulhos, vozes pedindo calma, e depois um choro.
Gabriel colocou no viva-voz, para que todos ouvissem.
‒ Gabriel! – Era Ana do outro lado da linha. – Gabriel, coloquei no viva-voz, quando o Ben escutou sobre a freira, ficou descontrolado, agora está chorando. Liga depois.
Gabriel concordou e desligou o celular, olhou para os amigos.
‒ Será que esta freira era alguém especial para o Ben?
‒ Talvez fosse alguém muito especial – concluiu Arthmes.
Houve um breve silêncio, cortado subitamente pelas batidas na janela. Era Nelson.
‒ Vocês viram o que aconteceu?
Júnior olhou novamente pelo retrovisor, a polícia já havia chegado.
‒ Sabemos o que aconteceu. –Respondeu Arthmes.
‒ Eu quero algumas respostas e sei que vocês as têm.
Gabriel e Júnior olharam desconfiados, mas Arthmes se mantinha sereno.
‒ Onde podemos conversar?
‒ No meu restaurante, Arthmes, está fechado.
O Acordo
64
Abriram a porta e Nelson subiu, em alguns instantes estavam em frente ao Ilhas Gregas. Entraram e Nelson trancou a porta.
‒ Muito bem, quem vai contar o que está acontecendo?
‒ Quem disse que sabemos alguma coisa?
‒ Júnior, você nunca vem a Hilfurt. Desde que chegaram, tive a nítida impressão que algo iria acontecer; e tem mais, não acabou, vem mais coisa por aí.
Antes de Júnior responder, Arthmes tomou a palavra.
‒ Você está certo.
‒ Arthmes!
‒ Não, Gabriel, ele tem que saber.
‒ Por quê?
‒ Pelo que ele sentiu. Faz parte da história dele. Todos os fatos são interligados com as pessoas, a isto chamamos de “TEIA DO DESTINO”, está no Livro da Vida. Ele sentiu realmente e vai saber o que está acontecendo, o que vai fazer depois fica por conta de seu Livre Arbítrio.
Arthmes virou-se para Nelson, que se mantinha calado.
‒ Escute, eu vou lhe contar o que está acontecendo, mas quero deixar uma coisa bem clara, o que você vai fazer com estas informações é problema seu, sua escolha, elas irão levá-lo em uma direção que nós não conhecemos o fim e talvez não possamos ajudá-lo.
Nelson pensou e consentiu.
‒ Muito bem, existe um demônio na cidade, e ele veio assim...
Arthmes contou tudo sobre a máquina, o nome da cidade, o demônio e suas capacidades.
O Acordo
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‒ Deixe eu perguntar, Arthmes, como você sabe disso tudo? – Nelson ainda estava incrédulo.
Júnior olhou para Gabriel, sorrindo pelo canto da boca. Ele já sabia o que viria a seguir.
‒ Eu fui enviado para ajudá-los, Nelson.
‒ Para nos ajudar? Você não parece Jesus.
‒ Não, Nelson – Arthmes desabotoou o sobretudo. – Eu não sou o mensageiro..., eu sou um..., amigo.
Tirou o sobretudo e abriu suas asas. Nelson ficou paralisado, de boca aberta, teve que se sentar. Não conseguia falar ou ficar de pé.
‒ Um... um..., anjo. Meu Deus, Arthmes, você é..., um anjo!
‒ Um Anjo!
Os quatro olharam em direção a porta da cozinha, de onde tinha vindo aquela última exclamação. Um homem todo de branco, bigode, aparentando 60 anos saiu de lá, junto com uma mulher mais nova, bonita, devia ter seus 30 e poucos anos. Eles se aproximaram diretamente de Arthmes.
‒ Um anjo! – exclamava ele.
A mulher estendeu a mão para tocar nas asas, mas Arthmes não deixou, afastando-se. Nelson levantou e se interpôs entre eles com certa agressividade.
‒ Walter! Júlia! – Gritou. – O que estão fazendo aqui?
Mas Nelson parecia ter ficado invisível. A mulher se ajoelhou sem tirar os olhos de Arthmes e o homem gaguejava. Nelson olhava para os dois, estavam totalmente fora da realidade.
‒ Walter, acorde! Meu Deus.
‒ São de verdade Nelson? É mesmo um anjo? A história que ouvimos é verdadeira?
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