Mistérios Desvelados Ensinamentos do Mestre Saint Germain - parte 6


o indivíduo – mas se se recusam a reconhecer essa 'Lei',
sobrevêm a autodestruição produzida pelo seu próprio egoísmo. O egoísmo
e o sentimento do poder para governar a outrem, cegam a razão e ofuscam
a percepção da mente externa para os perigos que eles mesmos correm, e
tais indivíduos se atiram precipitadamente na ruína - espiritual, mental,
moral e física - ruína que se estende, muitas vezes, até a terceira e quarta
encarnação seguinte. Só a Luz pode elevar o indivíduo acima do egoísmo.
"Só quando a humanidade se colocar acima do lodaçal de seu
próprio egoísmo e de todas as formas de luxúria, poderá ser confiado aos
seres humanos tudo o que Deus e a Natureza têm preparado para Uso
Adequado; qualquer indivíduo, porém, quando se purifica de seu egoísmo e
concupiscência, pode fazer uso pleno de todas essas riquezas,
empregando-as harmoniosamente e em benefício dos outros. O indivíduo
pode preparar-se para ser o administrador desses dons, porque na era que
já se introduziu, só poderão fazer uso ilimitado das riquezas os que se
tiverem feito merecedores de se tornar Fieis Guardiões e Dispensadores
desse tesouro. Deus e a Natureza preparam de antemão essas Dádivas
para que os homens as empreguem corretamente, e só o Correto uso é a
condição exigida para recebê-las". Saint Germain cruzou as mãos no peito
e continuou:
"Deus Todo Poderoso! Penetra tão firmemente no coração de Teus
filhos que eles só anseiem por Ti; então, a nenhum faltará qualquer de
Tuas Grandes Dádivas".
Lacrou tudo como tinha sido encontrado e voltamos para junto de
meu corpo, no qual tomei a entrar rapidamente.
Deu-me, de novo, a Taça de Cristal cheia de Substância Vivificante
e disse:
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"Meu amado filho, sereis um auxiliar extremamente valioso e que
Deus vos abençoe sempre".
Com esta bênção, inclinou-se em reverência e desapareceu.
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Capítulo VII
O VALE SECRETO
Algum tempo depois, certa manhã, recebi pelo correio uma
estranha carta em que me pedia que procurasse um determinado endereço
em Tucson, Arizona. Deixava transparecer a idéia de que a informação que
me deveria ser dada era de tal natureza, que só pessoalmente poderia ser
explicada. Considerei o modo singular mediante o qual o pedido chegou
até mim, sentindo, porém, um Desejo Interior de atender ao chamado.
Poucos dias depois, dirigi-me ao endereço dado, toquei a
campainha e quase imediatamente a porta me foi aberta por um homem
alto e esguio, de mais ou menos dois metros de altura, beirando os
quarenta anos, cabelos cinza tom aço e olhos também cinzentos.
Dei-me a conhecer e ele me saudou com um aperto de mão sincero
e cordial, o que revelou ser meu interlocutor fora de dúvida, um
temperamento leal e fidedigno. Seu olhar era firme e destemido, e ele dava
a impressão de possuir grande reserva de energia.
Senti que havia nele uma harmonia Interior fora do comum, e
percebi que isso só poderia significar o início de uma profunda e grandiosa
amizade. Ele também pareceu estar ciente de algo Interior, que fazia surgir
entre nós uma atração recíproca.
Pediu-me que entrasse e me sentasse.
"Estais aqui a meu pedido", começou e eu me confesso
extremamente grato, por mais estranho que isto vos pareça. Vosso
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endereço me foi dado por alguém de quem falarei mais tarde. Como
explicação, devo dizer-vos que fiz algumas notáveis descobertas, cuja
veracidade peço que aceiteis em confiança, até que eu vos possa levar
comigo e provar-vos sua a autenticidade.
"Aconselharam-me a entrar diretamente em contato pessoal
convosco, como sendo a única pessoa a quem deveria ser feita esta
revelação com a qual ando preocupado. Como ponto de partida, terei que
me reportar a fatos que ocorreram há vinte anos.
"Tinha eu, nessa época, uma linda esposa. Sei agora que ela era
dotada de um grande desenvolvimento Interno de que, então, não tinha eu
percepção. Nasceu-nos um filho, a quem ambos idolatrávamos. Por cinco
anos, a nossa felicidade foi completa. Subitamente, sem qualquer aviso ou
razão aparente, a criança desapareceu.
"Procuramos incessantemente durante semanas a fio e fizemos o
que era humanamente possível para encontrá-lo, mas tudo em vão.
Finalmente, perdemos todas as esperanças. Minha esposa nunca se
recuperou do choque e cinco meses mais tarde, morreu.
"Nos últimos dias de sua vida, fez-me ela um estranho pedido: que
seu corpo permanecesse sete dias na sepultura, depois do seu
passamento, para ser, em seguida, cremado. Pareceu-me esquisito, porque
nunca havíamos ventilado nada que dissesse respeito a esse assunto.
Entretanto, aquiesci aos seus desejos.
"lmaginai minha surpresa quando, cinco dias depois do funeral,
recebi um chamado do zelador do cemitério para dizer-me que encontrara,
pela manhã, a sepultura aberta, tendo o corpo desaparecido. Não foi
possível descobrir-se o menor indício de qualquer coisa que se relacionasse
com essa estranha ocorrência.
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"Dezesseis anos mais tarde, ao despertar pela manhã, encontrei no
chão do meu quarto uma carta que me era endereçada, sem nenhum sinal
de que tivesse passado pelo correio. Apanhei-a, abri-a e li seu conteúdo,
que me deixou assombrado e incrédulo. Dizia:
"Vossa esposa e vosso filho estão vivos, fortes e passam bem. Vêlos-
ei em breve. Tende paciência até que chegue a ocasião. Regozijai-vos
por saber que a morte não existe. Em tempo determinado, recebereis
instruções sobre o modo de agir implicitamente. Tudo depende de vosso
silêncio absoluto. Vereis e recebereis explicação completa de tudo o que
parecia tão misterioso. Compreendereis, então, por que razão a Verdade é
mais estranha e mais espantosa do que a ficção, visto que a mais
extraordinária ficção não é senão a reprodução de uma Verdade que existe
em qualquer ponto do universo.
Assinado,
Um Amigo".
"Meu amigo, podeis bem imaginar o meu assombro. A princípio,
não acreditei em uma palavra sequer. Ao entardecer do terceiro dia, estava
eu sentado junto à lareira quando ouvi a voz de minha amada esposa, tão
clara e distintamente como se ela estivesse a meu lado, na saia, dizendo:
"Roberto, Meu Amado! Estou viva e passo bem; nosso filho está
comigo. Seremos muito felizes quando estiveres novamente conosco. Não
desconfieis da mensagem, ela é absolutamente verdadeira. Serás trazido
até nós se não permitireis que a dúvida te feche a porta. Falo-te pelo Raio
Sonoro que um dia hás de aprender a usar.
Não pude suportar a tensão por mais tempo e disse:
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"Aparece-me e acreditarei". Instantaneamente a voz replicou:
"Espera um momento'". Dentro de três minutos, um Brilhante Raio
de Luz Dourada penetrou na saia formando um túnel em cujo extremo
oposto se achava minha bela esposa. Inegavelmente, era ela.
"Querido", disse-me, 'milagres aparentes têm ocorrido em tua vida
durante anos, mas por não ter sido tua atenção atraída para o rumo certo,
tivemos que esperar até agora. Confia na mensagem que te chegará às
mãos. Então, virás a nós, e eu te asseguro que um novo mundo se abrirá.
Para o nosso grande amor, não há barreiras'.
"O Raio de Luz desapareceu instantaneamente e com Ele, a voz.
Minha alegria não conheceu limites. Eu não mais podia duvidar. Senti um
alívio, uma paz e um repouso que havia anos não experimentava.
Sucederam-se, então, semanas de espera que, eu sei agora, consistiam
numa preparação que se operava dentro de mim. Finalmente veio a
mensagem por que eu tanto ansiava e com ela um diagrama e instruções a
serem seguidas.
"Vi que estas me levariam às altas montanhas que ficam a sudeste
de Tucson, Arizona. Preparei-me para partir imediatamente, dizendo aos
meus amigos que ia fazer uma pequena prospecção. Provi-me de um
cavalo e de um animal de carga, sentindo muito pouco desconforto e
nenhuma dificuldade em observar as instruções recebidas. Se fosse
possível seguir em linha reta, teria coberto a distância, facilmente, em dois
dias.
"Antes do por do sol do terceiro dia, cheguei a um canyon (vale ou
garganta de paredes altas e verticais) encoberto, pelo qual teria passado
sem perceber, não fosse o diagrama que possuía. Acabara de acampar
quando escureceu de todo. Envolvi-me nas cobertas e logo adormeci
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suavemente, sonhando, com nitidez, que ao despertar pela manhã veria
um jovem, de pé, junto a mim a me contemplar.
"Quando despertei, para meu assombro lá estava o jovem, na vida
real, a olhar-me atentamente. Saudou-me com um bonito sorriso, dizendo:
"Meu amigo, esperava-o para me acompanhar". Notei que ele havia
preparado minha bagagem, e voltando-se sem adiantar uma palavra,
dirigiu-se para o alto do canyon. Depois de quase uma hora de marcha,
paramos em frente a um penhasco que parecia fechar o caminho diante de
nós.
"Voltou-se o meu guia, colocou as mãos sobre a rocha fazendo
pressão sobre ela. Uma seção da parede, de três metros talvez, por três
metros e sessenta centímetros, afundou cerca de trinta centímetros e
deslizou para um lado. Penetramos em um túnel que, há séculos, devia ter
sido o leito de um curso d'água subterrânea. Meu companheiro fechou a
entrada atrás de nós e quando voltamo-nos para prosseguir, uma suave
claridade espalhou por toda parte, de modo que podíamos enxergar
distintamente. Eu me sentia assombrado com tudo o que via, mas não me
esquecia da recomendação que recebera por ocasião das minhas
instruções, isto é, 'guardar silêncio'.
"Continuamos pelo túnel adentro por mais de uma hora e
chegamos finalmente a uma porta maciça de metal, que se abriu
vagarosamente ao ser tocada pelo meu guia. Este se afastou para o lado e
esperou-me passar. Avancei em meio à brilhante luz solar, quase sem
respirar, deleitado com a lindeza da cena que se estendia diante de mim: à
nossa frente desdobrava-se um vale de insuperável beleza, com cerca de
quarenta hectares de extensão.
"Meu amigo", disse-me o jovem, "regressastes ao lar depois de uma
longa ausência, como haveis de compreender dentro em pouco". Conduziu167
me, então, a um lindo edifício, próximo ao sopé de um rochedo escarpado,
no extremo superior do vale. À medida que nos aproximávamos, eu
distinguia grande variedade de frutas e vegetais que ali cresciam em
abundância, entre as quais: laranjas, tâmaras, nozes inglesas e pecans
(fruto da nogueira-pecan). Linda cachoeira jorrava de cima para baixo do
penhasco, formando, na base, uma límpida lagoa. O edifício era maciço e
parecia existir ali desde séculos.
"Já quase o alcançávamos, quando uma bela mulher de branco
apareceu na entrada. Aproximamo-nos e minha querida esposa achou-se
diante de nós, mais bela do que nunca. Noutra ocasião eu a tomaria nos
braços, e depois de todo o sofrimento por que tinha passado naqueles
anos, era quase além do que eu podia suportar. Ela virou-se, pondo o
braço em redor do moço que me conduzia e disse:
"Roberto, este é o nosso filho".
"Filho! Foi tudo o que pude dizer, tão fortemente emocionado
estava.
"Ele adiantou-se, pôs o braço em redor de nós e permanecemos os
três, por um momento, invadidos por profundo amor e gratidão, felizes,
uma vez mais. De repente, lembrei-me de que eram passados dezesseis
anos desde que ele desaparecera e que naquele momento devia ter vinte e
um. Ele respondeu o meu pensamento dizendo: "Sim, pai, tenho vinte e
um anos. Amanhã é dia de meu aniversário".
"Como pudeste ler meu pensamento tão prontamente? - perguntei.
"O! Isto é uma coisa muito comum e fácil para nós. Será tudo muito
natural e simples quando compreenderes como fazê-lo', replicou.
"Vem", continuou, "deves estar com fome. Arranjemos alguma coisa
para comer". Com os braços em redor de mim, entramos no velho edifício.
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O acabamento interior era em mármore rosa e ônix branco. Mostraram-me
um belo aposento onde o sol da manhã inundava tudo com seu glorioso
esplendor. Refresquei-me e encontrei um terno de flanela branca que ali
havia sido colocado para mim. Experimentei-o e ajustava-se perfeitamente.
Isto surpreendeu-me, mas lembrei-me de novo da recomendação 'guardar
silêncio'. Fui para o pavimento inferior e apresentaram-me a um cavalheiro
de aparência impressionante, mais ou menos da minha altura e que
possuía olhos grandes, escuros e penetrantes.
"Pai", disse meu filho, "este é o nosso Querido Mestre Eriel. Foi ele
quem salvou a minha vida e a de Mamãe, e aperfeiçoou-nos durante todos
esses anos até que tu estivesses preparado para te reunires a nós, aqui.
Foi ele quem mandou a mensagem e instruções para vires, porque chegou
a hora de começares teu aperfeiçoamento definitivo".
"Entramos na sala de jantar, que era magnífica, e não pude deixar
de expressar minha admiração. Ela estava situada no ângulo sudeste do
edifício, no andar principal, e era invadida pela luz do Sol, de manhã e de
tarde. As paredes eram de nogueira primorosamente entalhada, e o teto
cintilante, marchetado entre os raios com motivos de desenho hexagonal.
Uma sólida peça de nogueira, tendo no mínimo cinco centímetros de
espessura, apoiava-se num pedestal esculpido e servia de mesa, parecendo
ter milênios de idade. Tomamos lugar em redor dela quando entrou um
jovem esguio. Meu filho apresentou-o, dizendo:
"Este é o nosso irmão Fun Wey, que nosso Mestre trouxe da China
quando era ainda criança, na ocasião em que sua vida ia ser arrebatada.
Ele é de uma família chinesa muito antiga, e capaz de fazer muitas coisas
maravilhosas. Sempre desejou servir-nos e somos privilegiados e felizes
por chamá-lo Irmão. E uma das naturezas mais joviais que tenho
conhecido".
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"Entre as iguarias do almoço havia saborosos morangos, tâmaras
deliciosas e bolos de nozes. Passamos para a ampla sala de estar e Mestre
Eriel disse-me:
"Na ocasião em que vossa querida esposa, que é vosso Raio Gêmeo,
devia ter expirado, vi uma oportunidade de dar-lhe certa assistência, que
deveria habilitá-la a alcançar o Estado Ascensionado e ter assim muito
maior liberdade e mais ampla capacidade para servir. Tive o grande
privilégio e a alegria de prestar-lhe essa assistência.
"'Abri o esquife, restitui-lhe a ação consciente - e tornei-a capaz de
levantar o corpo. Este já tinha alcançado um ponto de alta rarefação,
porque seu desejo de "Luz" era muito grande. Sua intensa devoção era um
desejo veemente de "Luz", o que tornou possível sua Ascensão. Expliquei
isto a ela no dia em que pensastes ter ela morrido.
"'Vós três fostes meus filhos em outra encarnação, há muito tempo.
Então, um grande amor teve origem que perdurou através dos séculos. O
profundo amor dela tornou possível a assistência e a elevação que se
operou nessa ocasião.
"Vosso filho, que fora raptado com a intenção de prendê-lo para
resgate, foi trazido para este canyon. Os dois raptores começaram a
discutir e um deles planejou tirar a vida da criança.
"Surgi diante deles e arrebatei o menino. Eles ficaram paralisados
pelo próprio terror e nunca mais se recuperaram: ambos faleceram poucas
semanas mais tarde. Se alguém, deliberadamente tira a vida de um ser
humano, ou resolve, mentalmente, tirá-la, lança uma causa em movimento
que seguramente lhe arrebatará a própria vida.
"Um sentimento ou desejo da morte de outrem fará a mesma coisa,
porque ele se dirige para a pessoa visada e depois começa a viagem de
retorno para quem o enviou. Muitas vezes pessoas emitem ressentimento
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diante de uma injustiça praticada, num desejo intenso de livrar o mundo
de um certo indivíduo. Isto é uma forma sutil do pensamento da morte,
que deve voltar para quem o emitiu.
"Inúmeras pessoas causam a sua própria destruição por essa
sutilíssima atividade da personalidade humana, pois ninguém escapa
jamais a essa Lei Imutável. Há muitas fases de Sua reação, e é porque a
humanidade tolera tais pensamentos e sentimentos que a raça, como um
todo, vem experimentando a dissolução de corpo após corpo.
"O número de seres humanos que perecem por violência física é
infinitesimal quando comparado às mortes produzidas por essas sutis
atividades do pensamento, do sentimento e da palavra falada. A raça
humana vem se aniquilando há milênios por esse modo sutil, porque não
quer aprender a "Lei da Vida" e obedecê-la.
"Há unicamente Uma Lei de Vida, e esta é o Amor. O indivíduo
pensante e Auto-Consciente que não quer obedecer e não obedece a esse
Decreto Eterno e Beneficente, não pode conservar e não conservará o
corpo físico, porque tudo aquilo que não é Amor desintegra a forma, não
obstante seja o agente de decomposição o pensamento, a palavra, o
sentimento ou o ato - intencional ou não - pois a Lei age indiferentemente.
Pensamentos, sentimentos, palavras e atos constituem, de per si, uma
certa força animada e eternamente em movimento dentro de sua própria
órbita.
"Se o homem soubesse que nunca cessa de criar por um momento
sequer, perceberia que, através da Presença de Deus dentro de si, poderia
purificar suas criações maléficas e ficar livre, assim, de suas próprias
limitações.
"Ele tece um casulo de discórdia humana ao seu redor e passa a
dormir dentro dele, esquecendo-se, no mínimo por algum tempo, de que,
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se pode construir esse casulo, também pode rompê-lo. Usando as asas
de sua Alma - Adoração e Determinação - ele pode transpor as trevas de
sua própria criação. Passará, então, a viver uma vez mais no Centro de
seu Ser, na LUZ e na LIBERDADE DE SEU DEUS INTERNO.
"Entretanto, na vossa atividade e de vossa amada família, direi melhor,
de minha amada família, a nuvem que parecia conter tanta tristeza
mostra nesta hora o reverso e revela sua gloriosa, dourada fímbria.
Viestes agora para dentro do Esplendor Radiante de Luz, do qual nunca
mais saireis.
"Na maioria das vezes, os seres humanos, ignorando as
maravilhosas coisas que são planejadas para eles, impedem -
inconscientemente - a aproximação deste maior bem. Foste convidado a
vir aqui, não só para vos reunirdes aos que vos são caros, como também
para receber instruções definitivas sobre a existência, o uso e a direção
do Poder Imenso de Deus latente em vosso interior. Quando perceberdes
como libertá-lo e governá-lo, tudo vos será possível.
"Vossos entes queridos usaram a Luz e os Raios Sonoros para
estabelecer comunicação convosco. Este conhecimento, com seu poder,
ser-vos-á explicado e então sereis também capaz de empregá-los
conscientemente e à vontade. Sois dotado de uma grande sensibilidade, e
quando esta característica é governada intencionalmente, sobrevém uma
consciência do Imenso Poder de Deus, que está pronto para ser liberado a
qualquer instante.
"Deveis permanecer aqui durante seis semanas em treinamento,
para depois voltar ao mundo exterior, a fim de usar os ensinamentos que
recebestes. Voltai a qualquer tempo, porque sois agora um dos nossos.
"Jamais poderei exprimir por meio de palavras o que essas seis
semanas significaram para mim. Tornar-me ciente de minha própria
habilidade em aplicar a instrução recebida e fazer uso de tal sabedoria, era
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coisa que me assombrava. Dentro de pouco tempo comecei a adquirir
confiança em mim mesmo, o que tornou tudo muito mais fácil. O que
parece tão misterioso e fora do comum para os humanos, achei natural e
normal para essa Estupenda 'Presença Interna'.
"Tive que perceber que eu era realmente Filho de Deus. Como Filho
da Fonte de Todo o Bem, a Ilimitada Energia-Sabedoria obedecia à minha
direção consciente e quando eu a dirigia, como faz um Mestre, obtinha
resultados imediatos. À proporção que eu ganhava confiança em minha
própria capacidade no emprego da 'Grande Lei', os resultados,
naturalmente, se tornavam cada vez mais rápidos. Ainda estou
maravilhado pela Perene Fonte de Amor e Sabedoria que fluía desse
Grande Mestre. Nós o amamos com profunda devoção, maior do que
qualquer outro amor que jamais possa existir entre pai e filho, porque o
Laço de Amor formado pela doação de Compreensão Espiritual é Eterno e
muito mais profundo do que qualquer amor gerado através da experiência
humana, por mais belo e forte que possa ser. Ele sempre nos dizia:
"Se vos transformardes numa Eterna Fonte de Amor Divino,
derramando-o onde quer que vá, vosso pensamento e sentimento, tornarvos-
eis um poderoso Magneto de Todo o Bem, que tereis de pedir auxílio
para distribuí-lo. A Paz e a Serenidade do Espírito liberam uma força que
obriga a mente externa à obediência. Isso deve ser exigido com autoridade.
Nosso lar, aqui neste Vale Secreto, vem sendo ocupado há mais de quatro
mil anos.
"Um dia, depois de fazer um notável discurso sobre a 'Posse
Legítima de Deus', olhou fixamente para mim e sugeriu que fizéssemos um
passeio. Conduziu-me para um ponto do vale, oposto ao lado pelo qual
havíamos entrado. Perto da parede sul e correndo paralelamente a ela, de
leste para oeste, havia uma lombada começando no chão, elevando-se a
dois metros de altura, prolongando-se por cerca de seiscentos metros de
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extensão e descendo até o chão novamente. Chegando mais perto, notei
que havia um veio de quartzo branco. Mestre Eriel chegou até onde o veio
tocava o solo e empurrou um pedaço frouxo com o pé. Vi que era
imensamente rico em ouro. Meu amor humano pelo ouro tentou
encapelar-se, mas a 'Presença Interior' instantaneamente refreou. Com um
sorriso, o Mestre observou:
"Muito bem. Agora, tenho trabalho a realizar na Europa e devo
deixar-vos por enquanto.
Sorriu e desapareceu imediatamente. Era a primeira vez que ele
demonstrava o Completo Domínio que possuía e as coisas que era capaz
de fazer dessa maneira. No mesmo momento meu filho se tornou visível,
exatamente no mesmo lugar que Eriel havia deixado naquele instante e riu
gostosamente de minha surpresa.
"Mamãe e eu, disse, podemos levar nossos corpos aonde quer que
desejemos por esse mesmo processo. Não fiques surpreendido. É uma Lei
Natural e só parece estranha e fora do comum porque ainda não estás
empregando-a. Na realidade, ela não é mais extraordinária do que teria
sido o telefone para os povos da Idade Média. Se eles tivessem conhecido a
Lei de sua construção, poderiam, então, tê-lo usado igualmente como nós
neste século.
"Desde essa visita à minha família no Vale Secreto, já lá estive sete
vezes. Da última vez que voltei ao mundo externo, o Mestre me deu vosso
endereço, o que explica meu pedido para virdes aqui. O convite é extensivo
a que regresseis comigo".
Meu hospedeiro percebeu, de repente, que estivera falando por
várias horas e pediu desculpas por haver abusado de minha paciência.
Respondi-lhe que as experiências relatadas eram tão fascinantes, e eu
estivera tão intensamente interessado, que o tempo deixou de existir, tão
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absorto me encontrava. Aceitei profundamente grato o convite de Mestre
Eriel para visitá-los, o que declarei francamente. Momentos depois,
chegava ao aposento um jovem de estatura elevada.
"Apresento-vos nosso Irmão Fun Wey", disse meu hospedeiro,
introduzindo-o, e ele no mais perfeito inglês, respondeu:
"Meu Irmão do Coração de Luz viajou muito. Meu coração palpita
de êxtase e alegria. Minha alma sente vossa serenidade e radiação".
Dirigindo-se ao meu anfitrião, continuou:
"Sabendo que estáveis ocupado, vim aqui para vos servir".
"Será grande prazer para nós ter-vos por companhia à nossa mesa",
disse meu amigo dirigindo-se a mim - e juntos passamos à sala de jantar.
Nossa refeição foi deliciosa e quando terminamos, meu amigo reatou o fio
da conversa para descrever muitas de suas experiências pessoais com
Eriel. Elas eram realmente notáveis, isto é, falando apenas do lado
humano de nossa percepção, mas do ponto de vista de nossa Divindade
tudo era e é supremamente natural.
De repente, um Raio de Luz, ou melhor, um Tubo de Luz penetrou
na sala e pelo que deduzi da conversação era o Raio Gêmeo de meu amigo,
falando. Num dado momento, o Raio dirigiu-se a mim. Disse o meu
hospedeiro:
"Querida, deixa-me apresentar-te o Irmão a quem nosso Mestre
Eriel pediu que eu encontrasse.
Eu vi seu Raio Gêmeo e ouvi-a tão claramente como se ela estivesse
ao nosso lado, na sala. Esse meio de comunicação constitui uma
experiência extremamente feliz, e é possível condensar tanto a Luz, a
ponto de formar um tubo no qual o som e a visão podem ser
transportados. Era tão real como um holofote.
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Meu hospedeiro insistiu comigo para que permanecesse em sua
casa até o dia de nossa partida para as montanhas. Partimos antes do
raiar do sétimo dia após nosso encontro, e foi uma das mais memoráveis
experiências de minha vida até então. Tudo o que ele me contou provou
ser verdade nos mínimos detalhes.
Nossa chegada ao Vale Secreto foi um acontecimento cheio de
alegria, e muito grande foi a nossa felicidade. Encontrei-me com o Raio
Gêmeo de meu amigo e seu filho; mostraram-me então o antigo edifício
onde tantos estudantes haviam recebido o verdadeiro conhecimento das
Leis do Ser, e atingido a Liberdade Eterna.
Experimentei sensação maravilhosa ao permanecer no lugar onde o
Grande Poder de Deus se concentrava por tantos séculos, e do qual os
Mestres Ascensionados haviam feito Retiro para alguns dos seus
trabalhos. Sentei-me, meditando nas bênçãos que haviam recebido os
estudantes privilegiados por terem tido acesso àquele lugar, quando
Mestre Eriel se dirigiu a mim:
"Meu filho", começou, "estais perto de vossa maravilhosa libertação.
Apegai-vos à contínua aceitação de vossa própria 'Presença-Mestra' que
em vós habita, e tereis justo motivo para grande regozijo". Estendeu a mão
direita e o véu entre o visível e o invisível foi afastado. Continuou:
"Desejo que possais ver como nós, que somos Ascensionados, a
sublime e majestosa atividade do Nosso Mundo. Aqui, continuamente
prestamos testemunho, como Filhos de Deus, porque não existe mais
dúvida, temor ou imperfeição dentro de nós".
Nunca me esquecerei da alegria e do privilégio que tive, durante os
dias que passei com aquele maravilhoso povo.
"Todos os dias", disse Eriel, "assistireis ao emprego da Luz e dos
Raios Sonoros que anulam o tempo e o espaço, e que a humanidade está
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destinada a usar em futuro próximo, tão naturalmente como usa agora o
telefone. Esta é uma das mais estupendas atividades que o indivíduo pode
aprender a dirigir. Um Raio de Luz pode ser dirigido e controlado de tal
modo que pode ser usado como um lápis, para escrever sobre o metal ou
no céu, e o que é escrito permanece visível por tanto tempo quanto o
deseja aquele que escreve.
"Quando o estudante é bastante forte para se opor à opinião do
mundo da ignorância, então, ele ou ela está preparado para prestar
testemunho das maravilhas das atividades individuais de Deus,
manifestadas pelos Mestres Ascensionados.
"Até que possa fazer isso, o poder da sugestão e a radiação de
dúvida de outros perturbá-lo-ão intermitentemente, a tal ponto que muitas
vezes abandona a busca da Verdade. Interrupção do fluxo contínuo de
instrução, representa discórdia. Discórdia é a cunha e a maneira sutil pela
qual a força sinistra desta Terra penetra na atividade externa de um
estudante que se tenha resolvido a viver 'A Luz'.
"Tal atividade é extremamente sutil, porque é um sentimento que se
insinua no discípulo, antes que ele possa realmente perceber sua
existência. É incrivelmente persistente e seu crescimento é tão insidioso,
que ele não chega a compreender o que se passou, até que o "momentum"
já está a caminho.
"Este sentimento começa como uma pequena dúvida. Uma dúvida
precisa apenas ser sentida duas ou três vezes para se transformar em
desconfiança. A desconfiança gira uma ou duas vezes no corpo emocional
e se transforma em suspeita, e suspeita é auto-destruição.
"Lembrai-vos disso, meu filho, quando voltardes para o mundo
externo e achareis nela uma salvaguarda que vos conduzirá através de
todas as experiências da Vida, mantendo-vos insensível à discórdia. Se
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alguém emite suspeita, será, também, suspeitado, porque cada qual tem,
no seu mundo, exatamente aquilo que nele pôs, e este 'Decreto Irrevogável
e Eterno' existe por toda parte no Universo. Todos os impulsos da
consciência fazem viagem de volta ao ponto central, que as enviou - nem
mesmo um átomo escapa.
"O verdadeiro estudante da 'Luz' encara 'A Luz', manda-a adiante
de si, vê sua Envolvente Radiação onde quer que se mova e Adora-A
constantemente. Supera a dúvida, o temor, a suspeita e a ignorância da
mente humana, e conhece somente 'A Luz'. Esta é Sua Fonte - Seu
Verdadeiro Eu".
Com essas palavras de despedida, Eriel disse-me adeus, e eu voltei
para a rotina diária de minha vida externa.
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Capítulo VIII
O PODER ONIPRESENTE DE DEUS
No dia seguinte, recebi um comunicado mediante o qual me
empenhei numa transação que exigia toda minha atenção e meu tempo. A
simples antecipação desse negócio proporcionou-me grande alegria, e
ingressei nele com muito entusiasmo. Sobreveio uma sensação agradável e
animadora, coisa que até então eu não conhecera em minha prática de
negócios.
No curso da referida transação, entrei em estreito contato pessoal
com um homem de caráter extremamente dominador. Sua atitude em
negócios consistia em realizar seu desejo a orça, caso falhasse a cilada ou
encontrasse oposição aos seus desígnios.
Ele só confiava no poder de seu próprio intelecto e de sua vontade
humana, e nunca conheceu nem teve fé em qualquer outra coisa. Nunca
hesitou em esmagar ou arruinar pessoas ou coisas que se achassem no
trajeto de seu sucesso, e empregava todos os meios para atingir seus fins
egoístas.
Eu me encontrei com ele três anos antes de se realizar a
experiência que vou relatar, e nessa ocasião senti-me quase desarmado em
sua presença, tão poderoso era o sentimento de domínio que
continuamente emitia. Percebi, apesar de tudo, que seu controle sobre os
outros consistia apenas em força focalizada dentro da atividade externa.
Experimentei certa perturbação quando compreendi que teria de entrar em
sociedade com ele. Imediatamente procurei um modo de tratá-lo, aplicando
a Lei de Deus, quando a “Voz Interna” disse-me claramente:
179
“Porque não deixar o ‘Poderoso Deus Interior’ tomar conta por
completo e manobrar esta situação? Esse ‘Poder Interno’ não conhece
dominação e é sempre invencível”.
Fiquei imensamente grato e entreguei tudo por completo à “Sua”
direção. Encontrei o indivíduo em questão com dois outros e concordei em
ir com eles inspecionar uma mina num Estado distante. Senti que se
tratava de uma mina muito valiosa, cuja proprietária era uma senhora
idosa que perdera seu bom marido em conseqüência de um acidente
ocorrido nela alguns meses antes.
Ele havia deixado seus negócios em condições precárias, e nosso
prepotente amigo resolvera comprar a mina ao seu próprio preço — que
não era honesto. Depois de uma longa viagem de automóvel, chegamos ao
nosso destino cerca de duas horas do dia seguinte. Encontramos a
proprietária que, percebi, era uma alma abençoada — leal e honrada.
Imediatamente deliberei firmemente que ela haveria de fazer uma
transação honesta e receber o justo valor da propriedade. Convidou-nos
para uma agradável refeição, finda a qual prosseguimos para examinar a
mina. Percorremos obras, túneis, galerias, poços e câmaras de mineração.
Quanto mais eu observava mais certeza tinha de que alguma coisa estava
errada. A própria atmosfera parecia insuflar em mim esta convicção.
Eu estava persuadido de que um rico veio de minério de ouro fora
descoberto, sem que a proprietária tivesse sido informada. Sentia, de
qualquer modo, que o comprador colocara secretamente um dos operários
sob a responsabilidade de vigiar tal atividade e que este, durante as
semanas de vigília, captara a confiança do superintendente. Percebi,
intimamente, que o superintendente era um bom homem, mas que ainda
não tinha despertado — espiritualmente falando.
180
Enquanto permanecíamos em palestra com ele, meu Deus Interno
revelou-me integralmente o que ocorrera: algum tempo antes, quando
esses dois indivíduos estavam inspecionando o trabalho, chegaram a um
lugar onde as perfurações haviam rompido a parede de um túnel, que
conduzia diretamente ao coração da montanha. A dinamite produzira uma
ruptura que atingiu riquíssimo veio de quartzo aurífero. O superintendente
estava a ponto de sair precipitadamente para dar notícia à proprietária,
quando o operário espião observou-lhe:
“Espera! Eu conheço o homem que vai comprar esta mina. Se
desejas continuar em tua posição atual, não menciones esta descoberta.
Providenciarei para que, não só permaneças aqui, como superintendente,
mas também para que te dêem cinco mil dólares pelo teu silêncio. A velha
receberá o bastante para sua manutenção”. O superintendente, temendo
perder o emprego, concordou.
Em nosso exame da mina, chegamos ao fim do túnel principal:
senti fortemente que era esse o lugar do rico veio de ouro. Tinha sido
habilmente encoberto e disfarçado, como se fora uma formação solta, onde
era perigoso trabalhar. Isto foi o que disseram à proprietária. Enquanto eu
permanecia nesse lugar, falando com os outros, minha Visão Interna foi
aberta e vi tudo o que acontecera — a rica descoberta de minério de ouro,
a camuflagem do veio aurífero, a oferta ao superintendente e sua
aceitação. Senti-me grato pelo que os meus sentidos internos verificaram,
mas sabia que devia esperar. Voltamos para a residência da proprietária e
as negociações começaram. O comprador abriu a questão dizendo:
“Senhora Atherton, quanto espera obter por essa propriedade”?
“Avaliei-a em duzentos e cinqüenta mil dólares”, respondeu ela,
cortez e gentilmente.
181
“Absurdo”! Bradou ele, “disparatado, ridículo. Não vale a metade
dessa quantia”. Continuou nesse tom de voz por alguns momentos,
trovejando, como era seu costume. Anteriormente, isso produzira efeito
muitas vezes, e ele seguia ainda a antiga linha de conduta. Discutiu,
esbravejou e acabou dizendo:
“Senhora Atherton, a senhora está numa situação em que tem
necessidade de vender; serei generoso e lhe darei cento e cinqüenta mil
dólares”.
“Levarei em consideração sua oferta”, replicou ela, tão amedrontada
estava por sua atitude de domínio e arrogância, a ponto de começar a
aceitar suas idéias e ceder ao seu ousado cinismo. Ele percebeu-lhe a
hesitação e imediatamente começou a forçar a situação.
“Não posso esperar, prosseguiu, meu tempo é valioso”. A senhora
deve decidir-se logo ou o negócio será cancelado”.
Sacou do bolso os papéis e colocou-os sobre a mesa. A senhora
Atherton olhou em volta, sentindo-se desamparada; sacudi com a cabeça
“não” para ela, mas ela não me viu. O contrato estava exposto. Atravessou
a sala e sentou-se numa cadeira, junto à mesa, preparando-se para
assiná-lo. Eu sabia que, para protegê-la, deveria agir imediatamente e indo
até o lugar onde ela se encontrava sentada, dirigi a palavra ao nosso
prepotente amigo, dizendo:
“Apenas um momento: pagareis a esta prezada senhora o valor
exato de sua mina, ou então não a tereis”. Ele voltou seu furor contra mim
com injúrias muito causticantes, ensaiando a tática costumeira.
“Só quero saber quem vai me impedir de obter a mina ao meu
preço, replicou. Senti uma onda na Poderosa Força de Deus Interior sair
como uma avalanche, mantendo-me impassível ao seu ímpeto de vingança
e respondi:
182
“Deus o impedirá”.
Diante dessa resposta, ele estalou uma gargalhada. Continuou
portando-se mal, tumultuosa, cínica e afrontosamente. Esperei com toda a
calma.
“Idiota”, recomeçou, num arrebatamento de furor, “deixe de
tagarelar sobre Deus. Nem você nem Deus nem coisa alguma podem me
deter. Obtenho o que desejo sem dar satisfação. Até agora ninguém me
impediu disso”.
Sua arrogância parecia não ter limites e ele se revelou, em corpo e
alma, vítima de suas emoções. Sua razão era incapaz de funcionar — como
acontece sempre sob a ação de qualquer sentimento desgovernado — do
contrário, ela tê-lo-ia advertido para que não continuasse com seus
insultos.
Senti de novo a expansão do Poder de Deus. Nessa ocasião foi-se
tornando cada vez mais forte, até que, num tom de clarim, a Poderosa Voz
Interior do meu Deus Interno revelou a Verdade de toda a transação e a
fraude da mina.
- “Senhora Atherton”, disse eu, “a senhora está sendo vítima de
uma grande falcatrua. Seus operários descobriram um rico filão de ouro.
Este homem tinha entre eles um espião que subornou o superintendente,
a fim de que este silenciasse a respeito”.
O superintendente e os outros que se encontravam na sala ficaram
pálidos e sem voz, à medida que meu Eu Interior continuava a expor sua
traição. O pretenso comprador parecia sempre o mesmo em qualquer
emergência e interrompendo-me bradou com cólera selvagem:
183
“Você mente! Far-lhe-ei saltar os miolos por tal interferência”.
Levantou, então, sua bengala de aço e quando alcei a mão para segurá-la,
uma Chama Branca lançou-se subitamente, flamejando em cheio sobre
sua face. Ele caiu no chão como que atingido por um raio. Então, Meu
Poderoso Deus interno falou de novo com toda a autoridade da eternidade
— Majestoso, Imperioso:
“Que ninguém se mova nesta sala sem a devida permissão”! Meu
eu- externo, não mais eu mas Deus em Ação”, encaminhou-se para onde
jazia o homem e continuou:
“Grande Alma neste homem, é a Ti que eu me dirijo! Por tempo
demasiadamente longo tens estado prisioneira do seu dominador eupessoal.
Manifesta-te agora! Assume a direção de sua mente e de seu
corpo! Corrige as inúmeras decepções que ele tem causado na vida
presente. Dentro de uma hora, esta forte criação humana exterior de
discórdia e injustiça que ele construiu será consumida, e nunca mais há
de enganar ou dominar humanamente um outro filho de Deus. Ao euexterno,
ordeno: Desperta! Segue em paz, amor, longanimidade,
generosidade e boa vontade para tudo aquilo que vive”.
Lentamente, a cor começou a voltar à face do homem e ele abriu os
olhos cheio de espanto. “Deus em mim” — agindo ainda, tomou-o
gentilmente pela mão e, colocando o braço sob seu ombro, ajudou-o a
sentar-se numa ampla e confortável cadeira. Novamente Ele comandou:
“Meu Irmão, olhai para mim”! Quando ele levantou seus olhos para
os meus, um tremor passou-lhe pelo corpo e com voz apenas audível,
disse: “Sim, eu vi. Compreendo como tenho andado errado. Deus me
perdoe”. Deixou cair a cabeça entre as mãos e escondeu o rosto, silencioso
e envergonhado. Lágrimas começaram a pingar através de seus dedos e ele
chorou como uma criança.
184
“Pagareis a esta prezada senhora um milhão de dólares”, continuou
Meu Deus Interior, “e lhe dareis um interesse de dez por cento na mina,
também porque, no veio recentemente encontrado, há no mínimo dez
milhões de minério de ouro”. Com profunda humildade e uma estranha
doçura, ele respondeu:
“Que isso seja feito agora”. Dessa vez pediu aos seus homens, em
vez de ordenar-lhes, como de hábito, que preparassem os papéis nessa
conformidade. A senhora Atherton e ele assinaram, completando a
transação.
Voltei-me para os outros que se encontravam na sala e percebi,
pela expressão de suas fisionomias, que todos tinham sido tão exaltados
em suas consciências, que tinham podido ver além do véu humano,
dizendo cada qual por sua vez:
“Nunca mais, com a ajuda de Deus, tentarei enganar ou prejudicar
meu próximo”. Eles tinham sido levados a reconhecer e aceitar plenamente
o Eu Divino dentro de cada um.
Era tarde da noite quando tiveram lugar essas ocorrências. A
senhora Atherton fez-nos um convite cordial para que permanecêssemos
como seus hóspedes durante a noite, e a acompanhássemos na manhã
seguinte a Phoenix, para ser feito o registro dos papeis referentes à venda.
Nessa mesma noite, depois da ceia, reunimo-nos numa confortável sala de
estar, diante de uma grande lareira aberta. Todos procuravam
sinceramente compreender melhor as Grandes Leis Cósmicas da Vida.
Perguntaram-me como eu me iniciara nessa espécie de
conhecimentos; falei-lhes do Mestre Saint Germain e do meio pelo qual o
encontrara. Contei-lhes algumas de minhas experiências no Monte Shasta
e o que ele dissera no curso de nossa conversação a respeito da Grande Lei
Cósmica:
185
“Meu Filho, a Grande Lei Cósmica não discrimina mais do que o faz
a tábua de multiplicação, se alguém comete erro ao aplicá-la; ou a
eletricidade, quando alguém, ignorando a Lei que lhe governa o emprego,
tenta dirigir-lhe a força sem conhecer o modo de controlá-la.
“Os Grandes Decretos Imutáveis, que por todo o sempre mantêm a
ordem no Reino Infinito da Vida manifestada, se baseiam todos no ‘Grande
Princípio Uno da Criação’ — AMOR. Isso é o Coração — a Fonte de Tudo, e
o verdadeiro Centro em torno do qual se realiza a existência no mundo da
forma.
“Amor é Harmonia e sem ele, no princípio de uma forma, esta forma
não poderia vir à existência de modo algum. Amor é o Poder coesivo do
Universo e sem ele, um Universo não poderia existir.
“Em vosso mundo científico, o Amor se expressa como força de
atração entre os elétrons. E a Inteligência diretriz que os compele para a
forma, o Poder que os conserva girando em torno de um núcleo central e o
Alento dentro do núcleo, que para este os atrai. A mesma coisa é
verdadeira para todo e qualquer vórtice de força, em toda parte da criação.
“Um núcleo central, com os elétrons girando-lhe em torno, formam
um átomo. Este núcleo de Amor está para o átomo como o pólo magnético
para a Terra, e a espinha dorsal para o corpo humano. Sem um núcleo
central ou Centro do Coração, só há Luz Universal informe — os elétrons
que enchem o Infinito e giram em volta do Grande Sol Central.
“O elétron é Espírito Puro ou ‘Luz’ de Deus. Ele permanece para
sempre Incontaminado e Perfeito. É Eternamente Auto-Sustentado,
Indestrutível, Auto-Luminoso e Inteligente. Se não o fosse, não poderia
obedecer e nem obedeceria ‘A Lei’ — atividade dirigente do Amor. Ele é
Imortal, Inteligente Luz-Energia Sempre-Pura, a única Real e Legítima
186
Substância da qual tudo é feito no Universo — A Eternamente Perfeita
‘Vida-Essência’ de Deus.
“O espaço inter-estelar é preenchido por essa pura ‘Essência-Luz’.
Não é escuro nem é caos, como tem sido a ignorante, limitada concepção
do débil intelecto humano. Esse Grande Oceano de Luz Universal que
existe por toda parte, por toda a Infinidade, é constantemente trazido à
forma e recebe esta ou aquela qualidade, de acordo com o modo pelo qual
os elétrons são mantidos, pelo Amor, em torno de um ponto central ou
núcleo.
“O número de elétrons que se combinam uns aos outros num
átomo específico, resulta e é determinado pelo pensamento consciente. A
intensidade com que eles giram em volta do núcleo central, resulta e é
determinada pelo sentimento. A intensidade do deslocamento e movimento
giratório dentro do núcleo central é o ‘Alento de Deus’ e portanto a mais
concentrada atividade do Amor Divino. Falando em termos científicos,
seria denominado força centrípeta. São estes os fatores determinantes da
qualidade de um átomo.
“Desse modo, vereis o átomo como uma entidade — uma coisa viva
que respira — criada ou trazida à existência pelo Alento, o Amor de Deus,
através da Vontade da Inteligência Auto-Consciente. Dessa maneira, ‘O
VERBO SE FEZ CARNE’. Pensamento e sentimento constituem o
mecanismo que a Inteligência Auto-Consciente emprega para realizar essa
manifestação do seu Ser.
“O pensamento destrutivo e o sentimento discordante alteram de
tal modo a proporção e o grau de velocidade dos elétrons no interior do
átomo, que a duração do Alento de Deus dentro do pólo é mudada. A
duração do Alento é decretada pela Vontade da Consciência que usa essa
particular espécie de átomo. Quando essa Vontade Diretriz Consciente é
retirada, os elétrons perdem sua polaridade e se dispersam, procurando
187
seu caminho de volta — inteligentemente, notai — para o ‘Grande Sol
Central’, repolarizando-se. Ali recebem somente Amor, pois o Alento de
Deus é interminável — e a Ordem, que é a Primeira Lei, é eternamente
mantida.
“Alguns cientistas têm sustentado e ensinado que os planetas
colidem no espaço. Tal coisa é impossível. Para isto acontecer, teria que
ser arremessado no caos todo o Plano da Criação. Felizmente as ‘Poderosas
Leis de Deus’ não estão subordinadas às opiniões de alguns dos filhos da
Terra. Pensem o que pensarem os cientistas terrenos, a Criação de Deus
está sempre se movendo para diante e expressando Perfeição cada vez
maior.
“O pensamento construtivo e o sentimento harmonioso dentro da
mente e do corpo humano, são as atividades do Amor e da Ordem. Estes
permitem que a Perfeita Proporção e Velocidade dos elétrons dentro do
átomo se mantenham permanentes; desse modo, eles buscam o seu
caminho inteligentemente até o Grande Sol Central, para repolarizar-se
sempre que houver dispersão e perda da polaridade e enquanto for
mantida a duração do Alento de Deus dentro do seu núcleo — pela
Vontade da Inteligência Diretora Auto-Consciente, que utiliza o corpo no
qual eles existem. Desse modo, a qualidade de Perfeição e a manutenção
da Vida num corpo humano estão sempre sob o controle consciente da
Vontade do indivíduo que o ocupa. A Vontade do indivíduo é suprema com
relação ao seu templo e, mesmo em caso de acidente, ninguém deixa seu
corpo-templo enquanto não o quiser. Muitas vezes os padecimentos do
corpo, o medo, a incerteza e muitas outras coisas influenciam a
personalidade para mudar suas decisões, acerca do que decidiu no
passado, mas tudo o que acontece ao corpo está e estará sempre sob o
controle da livre vontade individual.
“Para compreender a explicação acima, concernente ao elétron e ao
controle consciente que o indivíduo tem para governar a estrutura atômica
188
do próprio corpo, através do seu pensamento e sentimento, deve
compreender o Princípio Uno que governa a forma por toda a Imensidade.
Quando o homem fizer o esforço necessário para provar isto a si mesmo,
ou dentro do seu próprio corpo atômico de carne, então tratará de se
dominar. Quando tiver feito isso, tudo no Universo será voluntário
cooperador seu, para realizar o que desejar através do Amor.
“Todo aquele que se faz voluntariamente obediente à ‘Lei do Amor’,
tem a Perfeição em sua mente e em seu mundo permanentemente
mantida. A ele e só a ele pertence Toda Autoridade e Mestria, Só ele tem o
direito de ordenar, porque aprendeu primeiro a obedecer. Quando tiver
conseguido a obediência da estrutura atômica dentro de sua própria mente
e corpo, toda a estrutura atômica fora de sua mente e de seu corpo
também lhe obedecerá.
“Assim, a humanidade, através do pensamento e do sentimento,
tem o poder — cada indivíduo dentro de si mesmo — de se elevar à maior
altura, ou submergir na maior profundeza. Cada um, por si só, determina
seu próprio caminho de experiência. Pelo controle consciente de sua
atenção, quanto àquilo que permite à própria mente aceitar, pode andar e
falar com Deus — Face a Face — ou, desviando-se de Deus, tornar-se
inferior aos animais, mergulhando sua consciência humana no mais
profundo esquecimento. Neste último caso, a Chama de Deus Dentro dele
se retira de sua habitação humana. Depois de eóns de tempo, ela tenta de
novo uma jornada humana no mundo da matéria física, até que a vitória
final seja alcançada conscientemente e por sua Livre Vontade”.
Falei-lhes das possibilidades ilimitadas que, como Saint Germain
me mostrara, estão perante a humanidade sempre que haja aceitação
voluntária da ‘Grande Presença Divina’ dentro de cada indivíduo, como
Força Diretriz e Realizadora. Perguntou-me o comprador da mina porque
189
usava eu tantas vezes a palavra aceitação e eu relembrei as palavras que
Saint Germain empregara para explicá-la a mim, dizendo:
“Mesmo na atividade externa de vossa Vida, se comprardes alguma
coisa e não a usardes, ou se algo maravilhoso e perfeito vos oferecerem e
não o aceitardes, ser-vos-á impossível tirar daí algum proveito. Assim
acontece com a Grande Presença de Deus dentro de nós. A menos que
reconheçamos que a nossa Vida é a Vida de Deus — e que todo poder e
energia de que dispomos para fazer o que quer que seja, é Poder de Deus e
Energia de Deus — como poderemos ter Qualidades de DEUS e realizações
em nosso mundo?
“Como Filhos de Deus, somos autorizados a escolher a quem
serviremos: se à Poderosa Presença de Deus Dentro de nós, ou à
personalidade humana exterior. A satisfação dos apetites humanos
exteriores e das exigências dos sentidos tem como único resultado —
miséria e destruição.
“Todo Desejo Construtivo é, realmente, o Próprio Deus Interior
impulsionando a Perfeição a manifestar-se, para uso e proveito do euexterno.
A Grande Energia de Vida está fluindo através de nós,
constantemente. Se a dirigirmos para realizações construtivas, Ela nos
trará alegria e felicidade. Se a dirigirmos para a satisfação dos sentidos,
não pode haver senão miséria como resultado, porque é tudo ação da Lei
—uma Vida-Energia Impessoal.
“Conservai diante da atividade externa de vossa mente a lembrança
constante de que sois ‘Vida’ — ‘Deus em Ação’ em vós mesmos e em vosso
mundo. O eu-pessoal está constantemente clamando pela posse de bens
materiais e poder, quando a própria Energia, mediante a qual existe, lhe é
cedida pelo seu Deus Interno. A externa atividade humana pessoal não
possui nem mesmo a própria pele. Até os átomos de seu corpo lhe são
190
emprestados pela ‘Suprema Presença de Deus’ do Grande Oceano de
Substância Universal.
“Exercitai-vos em fazer voltar todo o poder e autoridade para a
‘Grande e Gloriosa Chama Divina’, que é vosso ‘Eu Real’, e a ‘Fonte’ da
qual tendes recebido sempre tudo o que é bom”.
Conversamos até as duas horas da manhã, quando sugeri que nos
recolhêssemos. Ninguém queria dormir, mas eu lhes disse:
“Dormireis nos braços de Deus”. E na manhã seguinte mostraramse
surpresos por terem conseguido dormir tão rapidamente.
Levantamos às sete horas e nos dirigimos para Phoenix. O registro
foi concluído e expliquei-lhes que devia deixá-los, pois meu trabalho entre
eles tinha terminado, por enquanto. Mostraram-se todos profundamente
gratos e ansiosos por saber mais. Prometi manter-me em contato com eles
e lhes proporcionar mais auxílio, de acordo com as instruções do Mestre
Saint Germain. Na ocasião da minha saída, o comprador da mina virou-se
para mim, dizendo:
“Não me importo com o que pensem de mim; desejo abraçar-vos e
agradecer-vos do fundo do coração, por me terdes salvo da ruína do meu
eu-externo e pela revelação da Grande Luz“. Inclinei a cabeça com
profunda humildade e respondi:
“Agradecei a Deus. Eu sou apenas o canal. Deus, só, é a Grande
‘Presença’ e Poder que faz todas as coisas bem”. A senhora Atherton
voltou-se para mim e expressou seus sentimentos:
“Louvo e agradeço a Deus em vós pela Poderosa ‘Presença’
Protetora, e nunca em minha vida deixarei de agradecer a Deus e a vós
pela Luz que esta experiência nos trouxe a todos”.
191
“Tenho certeza de que nos encontraremos de novo”, respondi, e
despedindo-me de todos voltei o rosto uma vez mais para o Monte Shasta,
chegando ao meu apartamento na tarde do dia seguinte.
Duas semanas mais tarde, senti um forte impulso para fazer mais
uma excursão ao meu ponto de encontro com o Mestre Saint Germain.
Parti às quatro da manhã e alcancei a orla do espesso bosque cerca das
nove horas.
Mal penetrara uns vinte passos dentro da mata, quando o grito
plangente da minha amiga pantera chegou-me aos ouvidos. Respondi
imediatamente. Num momento, veio ela saltando para junto de mim, com
toda satisfação de um velho amigo, e continuamos a caminhar para o
nosso ponto de encontro.
Notei que a pantera estava muito inquieta, procedendo como que
influenciada por uma agitação interior. Era coisa fora do comum, pois
sempre se mantivera muito calma, quando em minha presença. Acaricieilhe
a linda cabeça, sem, contudo conseguir acalmá-la. Sentei-me para
almoçar.
“Vem, velha amiga”, disse-lhe quando acabamos, “vamos dar um
passeio”. Ela me lançou um longo e firme olhar, a expressão mais patética
que eu jamais vira. Não pude compreendê-la.
Tínhamos vencido uma certa distância, quando chegamos a um
penhasco de cerca de quatro metros de altura, de cujo cimo pendia uma
rocha prestes a se projetar. Alguma coisa fez com que eu olhasse para a
pantera. A expressão de seus olhos era selvagem e feroz. Senti uma espécie
de tensão na atmosfera, mas não percebi de que se tratava. Avancei uns
passos mais e senti um calafrio percorrer-me o corpo. Olhando
repentinamente para cima, vi uma suçuarana agachada, pronta para
saltar. Lançou-se imediatamente em direção a mim. Atirei-me de encontro
192
ao penhasco e a onça caiu um pouco além do lugar onde eu estivera.
Como um relâmpago, a pantera saltou e as duas travaram combate
mortal.
Não há palavras que possam descrever o terror da luta que se
seguiu. Elas gritavam, rolavam e se dilaceravam com as garras. A
suçuarana era consideravelmente mais pesada e pareceu, por algum
tempo, que levava vantagem. A pantera, entretanto, era mais ágil e
finalmente desvencilhou-se. Houve apenas um instante de pausa até que
ela viu a oportunidade de um salto, atirou-se no dorso de sua inimiga,
cravando-lhe os dentes atrás das orelhas.
As garras da pantera eram como aço e depois de alguns segundos
de rolarem atracadas, o esforço da suçuarana tornou-se cada vez mais
fraco. Finalmente ambas cessaram por completo. A pantera veio
cambaleando para junto de mim, com os flancos horrivelmente
dilacerados. Olhou-me, volvendo para cima os olhos, de onde toda a
ferocidade havia desaparecido, e suas forças se esgotaram rapidamente.
Deixou transparecer uma expressão de contentamento e subitamente,
dando um grito plangente, caiu morta a meus pés.
Fiquei imóvel e chorei em silêncio a perda de minha amiga, porque
eu me tornara afeiçoado a ela, quase como a um companheiro humano.
Logo em seguida olhei para cima e vi Saint Germain a meu lado, que me
disse:
“Amado Irmão, não fiqueis triste ou desanimado, vosso contato com
a pantera acelerou-lhe de tal modo a consciência, que ela não poderia
permanecer por mais tempo em seu corpo atual, e a Grande Lei Cósmica
exigiu-lhe algum serviço em benefício vosso. Este ela vo-lo prestou em
amor, salvando-vos a vida. Tudo está verdadeiramente bem”. Tocou-me,
então, a testa com o polegar da mão direita.
193
“Sede em paz”, continuou, ao mesmo tempo que o sentimento de
pesar me abandonava e eu me sentia completamente aliviado. “A Grande
Lei Cósmica” não falha. Não podemos receber sem dar, assim como não
podemos dar sem receber. Desse modo, é mantido o Grande Equilíbrio da
Vida.
“Congratulo-me sinceramente convosco pelo serviço prestado na
mina e pela vossa serenidade durante os acontecimentos. Todos os que
tomaram parte naquele episódio, tornar-se-ão grandes auxiliares da
humanidade.
“Brevemente sereis chamado a prestar serviço muito maior do que
qualquer outro que prestastes até agora. Quando a ocasião for chegada,
lembrai-vos sempre de que o que atua é o Poder e a Inteligência de Deus,
sendo vossa mente e vosso corpo apenas o canal. Até que vos encontreis
com essa experiência vindoura, meditai constantemente no ‘Poder
Ilimitado de Deus’, que através de vós pode expressar-se a qualquer
tempo”.
Perguntei-lhe qual é a atitude do Mestre Ascensionado em relação
aos numerosos canais pelos quais a Verdade parcial é divulgada.
Respondeu-me Ele:
“Há muitos canais sinceros. Alguns têm mais compreensão que
outros. São todos filhos de Deus, servindo do melhor modo possível, de
acordo com a compreensão que têm no momento. Não podemos julgar
ninguém, devemos reconhecer e ver só Deus, expressando-se em tudo.
Nosso esforço é abençoar toda atividade, onde quer que seja. Vemos a ‘Luz
Interior’ irradiar através de tais atividades e isso torna impossível nós nos
enganarmos quanto a expressarem ou não a verdade.
“O mesmo sucede no que concerne aos indivíduos. Os que oferecem
seus serviços em nome do Ascensionado Jesus Cristo, receberão sempre
194
mais do que o normal poder sustentador”. Tínhamos percorrido uma
pequena distância, quando Ele disse:
“Vinde, eu vos acompanharei até a casa. Ponde o braço no meu
ombro”. Assim o fiz e senti meu corpo erguer-se do solo. Dentro de poucos
momentos eu estava em meu quarto, no chalé, tendo Saint Germain de pé
a meu lado que sorria de minha surpresa.
“Queira encontrar-me daqui a sete dias no local do costume”, disse
Ele, “para então terminarmos nosso trabalho nesta parte do país”. A
última coisa que permaneceu visível, enquanto Ele gradualmente
desaparecia, foram seus belos, maravilhosos olhos sorrindo para mim.
Enquanto eu meditava diariamente sobre a Grande Presença
Divina Interior, preparando-me para a minha missão vindoura,
compreendia cada vez melhor como é importante manter a Atenção
concentrada sobre “Aquela Única Presença” — quaisquer que sejam as
aparências — a fim de impedir que alguma condição externa pudesse me
afetar. Em uma das palestras de Saint Germain, havia Ele acentuado
particularmente toda a importância de conservar meu eu-exterior
harmonioso, dizendo a respeito:
“Meu Filho, não podeis imaginar como é grande a necessidade de
harmonia no eu-exterior, uma vez que a plenitude da Perfeição e do Poder
Interno deve ser expressa em vossa vida externa. A importância de manter
um sentimento de Paz, Amor e Serenidade no eu pessoal, sempre e em
quaisquer circunstâncias, porque quando isso acontece, a Poderosa
Presença Interior de Deus” pode atuar — sem limites — num instante.
“A expansão contínua de um sentimento de Paz e Amor Divino para
todas as pessoas e coisas, incondicionalmente, não obstante julgueis ser
isso merecido ou não, é a Chave Mágica que abre a porta e liberta
instantaneamente este tremendo ‘Poder de Deus Interior’. Feliz, realmente,
195
é aquele que aprendeu esta ‘Lei’, porque então procura SER todo Paz e
Amor. Sem isso, a humanidade nada tem de bom e com isso tem todas as
coisas ‘Perfeitas’. Harmonia é a Nota-chave, a ‘Grande Lei Una da Vida’.
Sobre Ela repousa toda a Manifestação Perfeita e sem Ela todas as formas
se desintegram e voltam para o Grande Oceano de Luz Universal”.
Durante os sete dias que se seguiram, passei muito tempo em
meditação. Senti crescer dentro de mim uma paz cada vez maior, de tal
modo que no sexto dia pareceu-me como se minha inteira consciência
fosse um grande mar calmo.
Na manhã do sétimo dia, deixei meu chalé às quatro horas,
chegando ao ponto de encontro às dez e meia. Sentei-me num tronco para
esperar, com um sentimento de maravilhosa exaltação, que eu sabia ser
resultado de minha meditação. Estava tão absorto na contemplação do
meu Deus Interno, que não percebi a aproximação de ninguém, quando
uma voz me falou.
Levantei os olhos e vi um ancião de barbas e cabelos brancos, que
à primeira vista pensei ser um velho prospector, embora suas vestes
estivessem limpas demais para essa ocupação. Quando ele se chegou e me
estendeu a mão, tive confirmada minha impressão: não era a mão de um
operário. Trocamos cumprimentos, conversamos por alguns momentos
sobre generalidades, até que ele me disse:
“Meu amigo, desejaria contar-vos uma história que não vos tomará
muito tempo. Há muito não a conto a ninguém. Gostaria de tentar uma
vez mais”.
Nesse momento, começou a surgir em mim um forte interesse.
Ocorreu-me que meu interlocutor pudesse estar com sede e enquanto eu
procurava um copo para lhe dar de beber, da fonte junto à qual
estávamos, formou-se em minha mão uma taça de cristal semelhante
196
àquela que Saint Germain por várias vezes me apresentou. O velho olhou
para mim e com os olhos brilhantes de excitação, disse, quase gritando:
“É ele! É ele!”
Não sabendo o que fazer, insisti para que bebesse. Quando olhei
para dentro da taça, vi que estava cheia do mesmo líquido claro e brilhante
que o Mestre me havia dado. O velho apoderou-se dela com avidez, e com
uma intensa expressão da mais profunda gratidão que eu jamais vira,
bebeu-lhe o conteúdo. Tornou-se, imediatamente, muito calmo e sereno,
manifestando ao mesmo tempo profunda e intensa sinceridade. Pedi-lhe
que me contasse sua história, e ele começou dizendo:
“Meu pai era oficial britânico estabelecido no Punjab, na Índia,
onde tínhamos nosso lar. Quando eu tinha dezesseis anos, ele financiou
um amigo seu que partiu para a África do Sul, a fim de tentar a sorte nas
minas de diamante, sem que meu pai recebesse, depois disso, qualquer
notícia dele.
“No ano em que completei vinte anos, um estrangeiro alto e belo,
homem de grande sabedoria, visitou meu pai em nossa casa. Ele trazia
uma mensagem do amigo de meu pai.
“Trago-vos notícias”, explicou, “do amigo a quem financiastes há
quatro anos passados. Ele foi muito bem sucedido nessa aventura,
tornando-se muito rico. Morreu recentemente nas minas e não deixou
parentes. Toda a sua fortuna foi deixada para vós, devendo passar às
mãos de vosso filho no caso de vossa morte. Se desejardes, eu me
encarregarei do assunto dessa transferência”.
“Não posso deixar a Índia no momento, porque estou aqui em
missão do Governo”, respondeu meu pai. “Aprecio grandemente vossa
oferta de vos encarregardes da questão por mim”. Eu estava perto durante
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essa conversa e quando eles chegaram a um acordo, o estrangeiro disseme:
“Meu filho, quando encontrardes o homem que vos ofereça uma
taça de cristal cheia de um líquido brilhante, tereis achado aquele que vos
pode ajudar a fazer a ascensão de vosso corpo. Não posso dizer-vos mais
do que isto, senão que haveis de encontrá-lo numa grande montanha da
América do Norte. Isto pode parecer vago, presentemente, mas é tudo que
me é possível dizer’.
“O estrangeiro partiu e um mês mais tarde, meu pai, que viajava
para ajustar certos negócios do governo com os nativos, foi baleado e
morreu antes de ser levado para casa. Eu era filho único e passado um
mês, preparamo-nos, minha mãe e eu, para regressar à Inglaterra.
Justamente antes de nossa partida, veio de novo o mesmo estrangeiro e
disse que estava pronto para transferir a fortuna de meu pai para mim.
Contei-lhe que meu pai tinha sido baleado e morto.
“Sim, respondeu o estrangeiro, “quando parti, há dois meses, sabia
que seu pai morreria antes de minha volta. Já providenciei para que a
fortuna seja transferida para vós, ou antes, para o Banco da Inglaterra, à
vossa disposição. Aqui está o dinheiro de que podeis precisar na viajem de
volta, e os documentos da transferência, bem como as credenciais de que
tereis necessidade junto ao banco. Apresentai-as e recebereis custódia de
vossa fortuna. Grande parte dela é representada por diamantes de
primeira qualidade’.
Agradeci e ofereci pagamento pelos seus serviços, mas ele
respondeu:
“Vossa bondosa intenção é muito louvável, mas isso já está
ajustado. Sentir-me-ei feliz em acompanhar-vos até o navio em Bombaim”.
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“A viagem revelou-me sua grande sabedoria e a seu lado eu me
senti como uma criança. Sei agora que ele me envolveu numa Radiação
que permaneceu comigo pelos anos a fora. Providenciou sobre o
passaporte, acompanhou-nos até o navio, e suas últimas palavras para
comigo foram estas:
“‘Lembrai-vos — a Taça de Cristal. Procurai e achareis”.
“Depois de uma viagem magnífica chegamos a Southampton, fomos
para Londres, onde apresentei minhas credenciais ao Banco da Inglaterra.
O funcionário que me atendeu observou:
“Sim, nós o esperávamos hoje. Aqui estão seu talão de cheques e a
caderneta do banco”.
“Examinei-os para ver a quanto montava minha fortuna, e fiquei
espantado ao saber que havia cem mil libras depositadas a meu crédito.
Cinco anos mais tarde faleceu minha mãe. Transferi metade de minha
fortuna para um banco de Nova York e comecei a procurar o homem com a
Taça de Cristal”.
“Nunca poderei reproduzir os desapontamentos, as provações e a
tristeza que experimentei, mas apesar de tudo, por qualquer razão, nunca
desisti. O fato que me parece mais estranho é que, enquanto envelheço na
aparência externa, minha energia e minhas forças são grandes como
nunca, e algumas vezes eu considero maiores do que na plenitude de
minha mocidade.
“Minha idade — setenta anos. Hoje senti necessidade de enveredar
por este caminho e louvo a Deus por vos ter encontrado. Meu desejo era
tão grande... era quase irresistível”!
“Mas meu bom homem, que hei de fazer por vós”? —perguntei.
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“Haveis de saber”, respondeu, “porque sei que não me enganei. No
coração desta majestosa montanha há um Grande Poder. Eu o sinto. Pedi
a Deus que vos mostre o que deveis fazer”.
Subitamente senti a “Poderosa Energia de Deus” invadir-me tão
fortemente, que quase me levantou do chão. Fazendo o sinal que Saint
Germain me ensinou, pedi “Luz” a Deus e erguendo minha mão em
saudação, disse:
“Poderoso Deus no homem e no Universo! Procuramos Tua Luz!
Procuramos Tua Sabedoria! Procuramos Teu Poder! Seja feita Tua vontade
em benefício deste Meu Irmão, que me procurou e me achou para fazer por
ele o que não sei fazer. Tu sabes! Manifesta Tua Vontade através da minha
mente e do meu corpo, e permite que apareça o que deve ser feito por este
Irmão — Teu Filho”.
Quando minha mão desceu, sustinha a Taça de Cristal cheia de
“Luz-Líquida Viva”. Ofereci-a ao meu companheiro e meu Poderoso Deus
Interno falou novamente:
“Bebe sem temor. Tua busca está terminada
Ele bebeu, sem um momento de hesitação. Ligeiro, dei um passo à
frente e segurei-lhe ambas as mãos. Lenta e progressivamente, todos os
vestígios da idade desapareceram dele e o Deus em mim continuou:
“Vê! Estás para sempre livre de todas as limitações terrenas.
Ascensiona agora para a ‘Grande Hoste de Luz’, que Te espera”.
Muito lentamente começou a se elevar do chão; enquanto isso, seus
trajes humanos iam desaparecendo, e ele sendo vestido em roupagem de
uma alvura resplandecente. Soltei suas mãos. Então, numa voz do mais
profundo Amor, disse-me:
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“Voltarei a ti, Amado Irmão. Bem recompensado serás por este
Serviço Transcendente. Eras a única pessoa através de quem isto poderia
ser feito para mim. Algum dia verás porque”. Com um sorriso feliz, ele
desapareceu num Radioso Caminho de “Luz”.
Quando a Poderosa Força de minha Presença retrocedeu, estava eu
tão aturdido que caí de joelhos e ofereci a mais profunda oração de minha
Vida em grata humildade e louvor pelo privilégio de prestar tal serviço.
Levantei-me e o Mestre Saint Germain recebeu-me em seu
maravilhoso abraço.
“Meu Amado Irmão”, disse-me, “estou muito satisfeito. Nobre e leal
foi vosso apoio ao Grande Deus Interno em vós. Com grande Beleza
recebestes vosso Poderoso Deus em Ação. Eu vos felicito. Permanecereis
sempre dentro de Nosso Abraço, ainda que, exteriormente, nem sempre
tenhais disso percepção.
“Vós vos tomastes um digno Mensageiro da Grande Fraternidade
Branca e da Hoste Ascensionada. Mantende-vos junto de vosso Poderoso
Eu Divino. Assim estareis sempre pronto para prestar serviço em qualquer
parte e para qualquer fim requerido. Meu Amor vos envolve. Eu vos
informarei quando houvermos de nos encontrar outra vez”.
Vagarosamente encetei o caminho de volta para o chalé, louvando e
agradecendo a cada passo ao Poderoso Deus Uno, que nos modela a todos
em Eterna Perfeição.
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