Magnetismo Curador - parte 4


Para soprar quente, coloca-se sobre a parte do corpo em que se quer ativar um pano dobrado em quatro, como um lenço (lã, linho ou algodão), mas a flanela branca é preferível. Aplica -se a boca sobre esse pano, e armazenando bastante ar, sopra-se uma expiração muito lenta e o mais prolongada possível, sem empregar contração nem força. Quando se tem chegado ao fim da expiração e sente-se que vai faltar o sopro, levanta-se a boca, aspira-se algum tempo o ar para encher os pulmões; depois deste processo, coloca-se de novo os lábios no pano, e começa-se outra insuflação.
Assim continua-se tendo cuidado, no intervalo de cada insuflação, de nunca abastecer-se de ar conservando os lábios apoiados no pano: além do perigo de absorções mais ou menos nocivas para o operador, esta maneira de proceder poderia, até certo ponto, prejudicar o efeito propulsivo que é
o caráter especial da insuflação.
É também necessário não soprar quente diretamente sobre a pele, depondo nela os lábios sem um isolador: além do mau efeito que podem produzir os contatos que a decência exclui, a insuflação quente prolongada não tem efetivamente toda a sua ação senão quando é praticada através de um corpo permeável intermediário; a espessura das roupas e das cobertas favorece-a em vez de lhe ser nociva.

Entretanto, pode-se às vezes exercer uma ação quente pelo sopro sobre certas partes que as conveniências permitem insuflar diretamente, tais como os dedos, as mãos, os braços, os olhos, algumas articulações, o alto da cabeça. Pode-se então soprar diretamente sem empregar nenhum pano intermediário. Neste caso, faz-se a insuflação na distância de alguns centímetros, sem pousar

os lábios, e, em vez de uma longa expiração, faz-se expirações curtas e sucessivas, como quando, por ocasião dos grandes frios, procura-se reaquecer os dedos, a fim de evitar-se a dormência. Estas insuflações quentes à distância são mais dilatadoras e calmantes que as primeiras. Empregam-se principalmente com vantagem em todos os estados congestivos sanguíneos ou purulentos, panarícios, moléstias suspeitas, tersóis, queimaduras, fluxões e enxaquecas.

Tive ocasião de obter um dia sobre mim mesmo uma prova bastante concludente acerca do efeito benéfico dessas insuflações à distância:
Há cerca de vinte anos, estando junto à minha lareira, tive o descuido, ao tomar uma xícara de chá, de derramar todo o conteúdo dela, queimando-me completamente na parte dorsal da mão esquerda. Sobreveio-me a idéia de tirar deste pequeno incidente uma experiência, e, dividindo em duas partes iguais por um risco de lápis a superfície da queimadura, pus-me durante toda a tarde e com perseverança, a soprar uma das metades, tapando a outra com um cartão e deixando-a entregue a si própria. No dia seguinte pela manhã, verifiquei que até ao limite traçado a lápis, a epiderme da parte insuflada na véspera não tinha nenhum traço de queimadura, enquanto que, a partir deste limite, o mal havia seguido o seu curso e a epiderme da parte não insuflada estava tumefata. Esta prova parece-me concludente.

As insuflações quentes têm um grande efeito sobre as articulações, sobre o alto da cabeça, o cerebelo, as têmporas, os olhos, as orelhas, o coração, o epigástrio, o baço, o fígado, a coluna vertebral e os rins.
Combatem as obstruções, os engurgitamentos, as síncopes, as asfixias, as dores do estômago, as cólicas hepáticas ou nefríticas, as enxaquecas, as afecções glandulosas, a catalepsia, a letargia , as dores de ouvido, a surdez, as supressões, etc.
Favorecem o movimento circulatório de todos os líquidos da economia e a transpiração, despertam os movimentos do coração e da respiração.
Nas contrações espasmódicas a insuflação feita sobre uma região em que passa o tronco principal dos nervos que se vão distribuir num membro, basta para tirar a rigidez e tornar flexível todas as partes que recebem deste tronco nervoso a vida e o movimento; e, para fazer cessar o espasmo ou a contração, quando a insuflação produziu o seu efeito, que a calma sobreveio e a dor foi aliviada, cessa-se de soprar e conduz-se para as extremidades com o auxílio de passes à distância. (102)

Depois de um parto laborioso feito pelo Dr. Thiriat, a criança nasceu meia asfixiada. Apesar dos meios empregados em casos tais, o Dr. Thiriat, professor de partos e médico nas águas de Plombières, não conseguindo chamá-la à vida, decidiu-se a agir mais diretamente sobre o coração e diafragma: aplicou sobre a região desses dois órgãos um pano seco e limpo, começou a soprar a quente sobre o coração, depois sobre toda a superfície do tórax, e deste modo chegou a estabelecer o funcionamento regular da respiração, determinando na criança uma primeira inspiração profunda. "Esta espécie de ressurreição, que eu desesperava de obter pelos meios ordinários, diz o Dr. Thiriat, realizou-se depois de cerca de uma hora de influxo magnético." (Extraído da Biblioteca do magnetismo, tom. IV, p. 149)
Eu mesmo tive, muitas vezes, ocasião de observar a virtude curadora das insuflações, e pessoalmente devo-lhes um verdadeiro tributo de gratidão, porque em dois casos muito graves permitiram-me restituir a saúde a meus filhos.
Eis o primeiro caso:
Meu filho tinha então cinco ou seis anos. Uma noite fomos despertados em sobressalto pelos seus gritos: à primeira vista julguei da gravidade de seu estado: sua voz era surda e sibilante, seus olhos cavos se enchiam de lágrimas. O nariz estava afilado, os músculos do pescoço, enrigecidos, os violentos espasmos que partiam do diafragma, a cabeça voltada para trás, a boca aberta, as narinas trêmulas e procurando debalde o ar que lhe faltava, tudo indicava que não havia um momento a perder. Concentrando toda a minha energia vital na idéia de disputar meu filho ao

perigo que parecia ameaçá-lo, principiei a magnetizá-lo. Comecei desembaraçando-lhe a garganta, passando de leve os meus dedos em ponta desde a parte posterior das orelhas até aos ombros, seguindo os trajetos das jugulares, depois multipliquei as insuflações quentes por diante do pescoço, por detrás das orelhas e sobre a nuca. Quando vinha a sufocação, de modo que a criança se erguia ansiosa por sobre o travesseiro, e depois dobrava violentamente a cabeça para trás, prestes a perder a respiração, eu punha de lado as insuflações e impunha fortemente as mãos, uma sobre os rins, a outra sobre o umbigo, de modo a atuar sobre o diafragma, e logo depois as contrações cessavam. Recomeçava então vigorosamente a ação do sopro, que era também aplicado à base do coração e ao epigástrio.
Pelas 9 horas da manhã, após cinco horas angustiosas, durante as quais minha mulher e eu havíamos passado por todas as alternativas da dúvida e da esperança não somente a criança estava salva, como ainda não restava da moléstia nenhum traço; e ao vermos o sorriso do nosso filho inteiramente curado, interrogamos a nós mesmos se não tínhamos sido o joguete de um terrível pesadelo.
Em outra circunstância, na época em que a influenza assolava Paris, tinha então meu filho quinze anos. Num domingo ele preparava-se para sair depois do almoço, quando, de repente, sem que nada pudesse fazer prever o que ia acontecer, o menino atirou-se sobre uma poltrona queixando-se de um incômodo súbito; o seu rosto decompunha-se, invadia-o um frio glacial, e ele queixava-se de dores vivas na nuca. Essas dores tornaram-se em alguns momentos muito intensas, a ponto de se tornar impossível despi-lo e transportá-lo para a cama: qualquer movimento era-lhe doloroso, e toda a mudança do lugar era-lhe impossível. Ignorávamos por completo a que atribuir este mal fulminante que nos enchia de inquietação; debalde procurava-se levar o calor às extremidades geladas, e meio algum dava bom resultado. Tomei a deliberação de me postar diante da poltrona em que jazia meu filho quase inanimado, tomei-o pelo corpo, e fiz-lhe demoradas e ardentes insuflações sobre o coração; bastou isto para reanimá-lo. Em poucos instantes o calor voltou aos pés, às mãos, ao rosto: e o sangue, afluindo ao cérebro, que parecia até então inanimado, provocou fortes comichões na testa e no couro cabeludo. Aproveitei-me deste momento para despi-lo e deitá-lo, e instalei-me à sua cabeceira, recomeçando as insuflações sobre a nuca e sobre o coração, alternando-as com passes e imposições. O menino caiu numa meia sonolência que, pelas seis da tarde, terminou pelo repouso, tirando-nos por último, de nossa cruel ansiedade. Tudo tinha acabado, e não existia mais traço algum desse mal misterioso e súbito, que durante toda a tarde nos tinha sobressaltado; o doente recuperava o seu apetite e alegria, teimando em levantar-se, imediatamente, para compartilhar do jantar, como de costume.
Evidentemente, às insuflações devemos esta transformação visível de um estado crítico que nos tinha alarmado tão intensamente. Um de nossos amigos presentes, que se associara às nossas angústias e à nossa alegria conforme as peripécias do tratamento, pode dificilmente acreditar naquilo que presenciaram os seus olhos!

As insuflações não atuam somente no começo das moléstias agudas de marcha rápida, como a que acabamos de citar; das longas síncopes, imagens da morte, em que a alma parece ter abandonado para sempre o seu invólucro, o sopro, quente retém a vida prestes a escapar -se e induze-a às funções que deve desempenhar.

Os anais magnéticos fornecem-nos numerosos exemplos de ressurreições deste gênero. Eis dois fatos dignos de nota:
O  primeiro é  relatado  por  Puységur em  seu  livro Recherches physiologiques.  A Sra Princesa
de Ligne, da família Pozzo di Borgo, que com certeza jamais ouvira falar em Mesmer nem de sua doutrina, tinha doente um de seus filhos de berço. Obrigada a sair para negócio importante, aproveitou-se do momento em que seu filho adormecera: mas qual não fora a sua surpresa quando, ao entrar em casa, viu todos os seus em pranto: a criança jazia inanimada em seu berço. O médico que, a toda pressa, se chamara, não havia ainda chegado! Sem ouvir mais, sem dar um gemido, obedecendo apenas ao sentimento maternal que a dominava, a Sra de Ligne precipitou-se

para seu filho, arrancando-o do berço e, no transporte de seu delírio, atirou-se ao chão sobre o tapete, envolveu-se, juntamente com o corpinho da criança, em tudo o que pode encontrar para reanimá-lo, apertou-o de encontro ao coração, e cobriu-o com o seu hálito. Assim conservou-se numa espécie de êxtase doloroso, e como que aniquilada em sua profunda dor. Ninguém ousou aproximar-se, nenhuma força humana seria capaz de arrancá-la a essa atração onde o sentimento materno prendeu-a magneticamente, quando finalmente os gritos da criancinha chamaram-na à realidade tirando-a da sua imobilidade. Ergueu-se, descobriu-a, e a criança estava salva!... Não está aí patente, diz Puységur, um admirável exemplo de magnetismo instintivo?
O segundo fato é referido pelo Dr. Foissac:
Entre as curas operadas pelo Dr. Desprez, há uma, diz ele, que é importante notar: a de sua mulher. Em consequência do parto, ela experimentou acidentes muito graves, contra os quais todos os socorros foram inúteis. A doente perdeu forças, e sentindo-se aproximar-se da morte, dirigiu a seu marido um último adeus e caiu sem sentidos. Seus irmãos e suas amigas, acreditando-a morta, quiseram tirar o Dr. Desprez do quarto, mas, retido não sei por que esperança, ele recusou-se e pediu que o deixassem a sós com ela. Logo que saíram, apressa-se em fechar a porta, despe-se, deita-se junto de sua mulher, toma-a em seus braços, e procura reaquecer o seu corpo gelado com o seu hálito e contato. Ao cabo de vinte minutos, ela dá um profundo suspiro, abre os olhos, reconhece-o e recupera a palavra!... Poucos dias depois, estava restituída à saúde. (Foissac, Rapports sur le magnétisme, p. 272)
Estes dois fatos notáveis que li na obra de Aubin Gauthier, traziam-me ainda pensativo, quando sobreveio, no 11º regimento de couraceiros de que eu fazia parte, um terrível acidente: um dos nossos camaradas, o capitão B... ao montar um cavalo foi violentamente atirado ao chão, sobre a calçada por uma repulsa inesperada do seu animal, e nesta queda, tendo ofendido a cabeça ficou sete ou oito dias sem sentidos.
Todos os dias íamos ao hospital, para onde ele fora transportado, receber notícias do nosso infeliz camarada. Ainda o vejo estendido como um cadáver naquele leito do hospital com o rosto macilento, imóvel, os braços nus pendentes para fora do leito, por sobre vasos colocados no chão, a fim de receberem o filete de sangue que lentamente escoava-se gota a gota, da veia aberta pelo bisturi. Faziam-se tentativas para tirá-lo do seu estado de letargia sangrando-o ligeiramente.
Esta singular maneira de chamar à vida a este corpo inerte, que parecia exangue revoltava - me a lógica e o bom senso, e várias vezes nestas visitas quotidianas, tive a idéia de aconchegar o pobre moribundo aos meus braços e fazer-lhe insuflações no coração, convicto de que eu lhe restituiria assim a vida mais rapidamente, do que poderiam fazê-lo aquelas sangrias mortíferas; porém, nessa época, eu não possuía ainda o fervor, nem a experiência que a prática me deu mais tarde, e confesso, para minha vergonha, que não tive a coragem de minha opinião.
Seria, afinal, muita ousadia em meu modo de pensar colocar-me de encontro às tradições rotineiras do hospital, e demais eu devia contar com a disciplina militar que mantém todas as iniciativas à distância!
Somente no oitavo dia o nosso pobre camarada recuperou os sentidos, porém, devido ao tratamento que sofrera, caiu num tal estado de prostração, que, depois de uma longa convalescência o cérebro anemiado foi atacado de loucura e alguns meses mais tarde sobreveio a morte.
A minha intervenção logo após o incidente teria conseguido salvar o meu camarada? Não o teria afirmado nessa época; mas hoje, depois de tudo quanto tenho visto, estou intimamente convencido, e há vinte anos que esta idéia muitas vezes me enche de pesar.

A insuflação é um dos meios de auscultação mais seguro. Quando ela desenvolve um bom e suave calor, e que a corrente calórica repercute profundamente e ao longe ramificando -se aos órgãos vizinhos do lugar em que se sopra quente, é um sinal de circulação livre e normal.
Se a insuflação não desenvolve nenhum calor ou muito pouco pelo menos, e que o calórico não se irradia em derredor do ponto insuflado, é sinal que as partes estão congestionadas e que se está em presença de um estado congestivo sanguíneo, mais ou menos acentuado.

Enfim, se a insuflação desenvolve uma comichão, um prurido, a sensação penível de um contato mais ou menos doloroso, uma queimadura, é que no ponto insuflado há obstrução e falta de circulação nervosa.
Para auscultar a coluna vertebral, faz-se deitar o paciente sobre o ventre e procede-se a insuflações sucessivas a partir da nuca até abaixo dos rins, e seguindo cada vértebra nos pontos de inserção dos ramos nervosos.

Seguindo esse método, pude muitas vezes descobrir pontos doentes em lugares onde os meios comuns de auscultação nada poderiam encontrar.
Um indivíduo, Sr. R. de 60 anos de idade, atacado de perturbações graves na bexiga, tinha sido muitas vezes auscultado por diversos especialistas que nada haviam encontrado de anormal na coluna vertebral. Fiz colocar o Sr. R. sobre a cama, e dispus-me a explorar o trajeto raquidiano pelo sopro. Quando cheguei ao nível das vértebras lombares, o meu doente, que até então não se mexera com as primeiras insuflações, moveu-se bruscamente perguntando-me o que lhe havia eu enterrado no dorso. Dificilmente convenci-o de que a minha ação tinha sido uniforme, e que tão somente o meu sopro havia determinado aquela sensação dolorosa. Tive que recomeçar muitas vezes para convencê-lo, e depois de muitas provas ficou demonstrado absolutamente que ao nível das primeiras vértebras lombares havia uma região muito limitada que recebia de meu sopro uma ação diferente daquela que era exercida tanto acima como abaixo. Esse ponto correspondia ao principal tronco nervoso que vai precisamente levar a enervação à bexiga e a todos os órgãos que lhe são dependentes. No fim de algumas semanas, quando o tratamento magnético regularizou a circulação nervosa, a sensibilidade mórbida desse ponto lombar desapareceu, e a enervação fez-se de então em diante sem parada e sem obstáculo...

A insuflação fria, dissemos, possui uma ação essencialmente dispersiva e refrigerante. É um dos mais poderosos processos de dispersão, de que falaremos mais tarde.
Para soprar frio, fica-se colocado numa distância de 50 centímetros a um metro, e dirige-se sobre o ponto que se quer atuar um sopro rápido e violento, como se quisesse soprar de longe uma luz e apagá-la.
O sopro frio se emprega e com vantagem nas dores de cabeça, nas agitações febris, convulsões, ataques nervosos.

Se ao magnetizar sobrecarregou-se a cabeça ou o epigástrio, pode-se ter certeza de desembaraçá-los soprando frio e de longe. (Deleuze)

Quando se quer fazer uma insuflação sobre uma lesão que repugna insuflar diretamente, pode -se empregar um tubo de vidro do comprimento de 20 a 30 centímetros e de diâmetro um tanto avantajado. Coloca-se a extremidade inferior em um pano que se estende sobre a parte doente, apoiam-se os lábios sobre a outra extremidade e o sopro penetra tão perfeitamente como se a boca estivesse em contato.

CAPÍTULO X
Das dispersões

Seu objeto.¾ Imposições de dispersão.¾ Passes de dispersão.¾ Passes transversais e perpendiculares.¾ Insuflações de dispersão.¾ Processo para descontraturar o queixo, o pescoço, os braços, as pernas, o diafragma, todo o corpo.¾ A resolução duma contração pode obter-se por processos opostos, exemplos.¾ Opinião errônea dos partidários da teoria dos fluidos acerca das dispersões.

Se todos são magnetizáveis (38), nem todos experimentam no mesmo grau os efeitos magnéticos: há pacientes mais ou menos sensíveis. Pode, portanto, acontecer que um se ache momentaneamente incomodado por uma ação radiante muito viva; neste caso a cabeça se torna pesada, o peito se oprime, e em tal emergência faz-se necessário moderar a ação, mas é preciso dispersar.
Por outro lado, como os efeitos à distância ¾ imposições fixas (97) e passes lentos (101) ¾ atraem mais especialmente a ação das correntes sobre as partes visadas, e as forças nervosas se acumulam nessas partes (57), acontece muitas vezes que uma ação parcial muito prolongada sobre tal ou tal ponto do organismo, produz nesse ponto uma contratura ou um espasmo que é necessário destruir. Faz-se cessar a contratura ou o espasmo, dispersando parcialmente.
Existem, pois, processos chamados de dispersão, os quais se deve procurar conhecer. Estes processos se compõem de imposições, passes e insuflações.

Imposições de dispersão

As imposições de dispersão se fazem do mesmo modo que as imposições comuns (59, 60 e seguintes), com a diferença que só a palma da mão deve pousar sobre o ponto que se quer dispersar, e que os dedos, em vez de se estenderem sobre as partes circunvizinhas, devem ser encurvados, postados de pé e afastados no ar, a fim de facilitarem o escoamento das correntes pelas suas cinco pontas.

Passes de dispersão

Os passes de dispersão se compõem de passes transversais e de passes perpendiculares.

O passe transversal faz-se da maneira seguinte: deve-se colocar de pé em frente ao paciente, estender os dois braços para diante, as mãos abertas com as costas voltadas, os polegares para baixo, e a ponta dos dedos a alguma distância do corpo do paciente (30 a 50 centímetros).
Nesta posição, abrir bruscamente e num golpe seco os dois braços sempre estendidos horizontalmente, e voltar com certa vivacidade à posição primitiva, para recomeçar do mesmo modo. É este movimento vivo e alternado dos dois braços no sentido horizontal, em que cada mão faz, tanto à direita como à esquerda, o papel de leque, que constitui o passe transversal.
Dispersa-se parcialmente um ponto do organismo fazendo três ou quatro destes movimentos alternados em frente ao ponto que se quer dispersar.
Se se quer operar uma dispersão geral deve-se executar uma série ininterrupta destes movimentos alternados, começando na altura da testa e baixando sucessivamente a linha de dispersão da testa ao peito e do peito aos pés.

O passe transversal se executa também com uma só mão, com a mão direita por exemplo, batendo o ar vivamente com essa mão, por sobre a parte que se quer dispersar, como quando se atiça o fogo de um braseiro com um papelão.

Os passes perpendiculares só se empregam no fim das sessões, depois dos passes transversais. Executam-se da maneira seguinte: o paciente fica de pé, coloca-se em um de seus lados, e, pondo-se as mãos estendidas com as faces por sobre a cabeça, desce-as rapidamente, uma por diante e a outra por detrás do corpo até ao soalho. Faz-se assim cinco ou seis passes seguidos, tomando a precaução de afastar as mãos ao subi-las para recomeçar.
Em vez de colocar-se de lado, pode-se também colocar-se por diante ou por detrás do paciente e fazer, seguindo com as mãos os dois lados do corpo, uma série de passes semelhantes.

Todo o passe de dispersão, quer seja transversal ou perpendicular, deve ser feito com certa presteza; isto constitui principalmente o seu caráter especial, pois quanto mais lesto e mais rápido , tanto mais ele dispersa.

Insuflações de dispersão

A dispersão pelo sopro se faz soprando frio à distância e com muita vivacidade, como já acima foi dito (140).

Toda a ação à distância, imposições fixas (97) ou passes lentos (101), podem produzir contraturas, como já foi acima referido (142).
A resolução das contraturas assim produzidas obtém-se pelo toque e os processos de dispersão seguintes:

Contratura do queixo. ¾ Tocar levemente os dois maxilares com a ponta dos dedos, com as duas mãos desde a orelha até o mento, e terminar este duplo contato nesse lugar por uma ação viva de retirada para si, como se quisesse arrancar alguma coisa.
Se dois ou três passes deste gênero, feitos um após outro, não bastarem para produzir a resolução da contratura, deve-se soprar frio à distância sobre os maxilares, e fazer passes transversais diante da boca.

Contratura do pescoço. ¾ Tocar de leve os músculos do pescoço com as pontas dos dedos de ambas as mãos, desde a nuca até abaixo do mento ou por detrás das orelhas até à extremidade das espáduas passando sobre as jugulares, e terminar este passe pela viva ação de retirada prescrita mai s acima (150), soprar frio sobre a nuca e fazer passes transversais.

Contratura do braço. ¾ Fazer com ambas as mãos, ou com uma só, um passe muito vivo à distância (ou tocando de leve com a ponta dos dedos), desde o ombro até à extremidade do braço, e terminar o passe por uma ação viva de retirada, soprar frio sobre o lugar da sangria e o punho, faze r passes transversais.

Contratura da perna. ¾ Fazer com ambas as mãos ou com uma só, um passe muito vivo à distância (ou de leve com as pontas dos dedos), desde o quadril até à extremidade do pé, e terminar o passe por uma ação viva de retirada, soprar frio sobre a curva da perna e o tornozelo, e fazer passes transversais.

Contratura do diafragma. ¾ Com ambas as mãos fazer um passe muito vivo à distância (ou tocando de leve com as pontas dos dedos) desde o epigástrio até aos quadris, e terminar o passe por uma ação viva de retirada, soprar frio sobre o epigástrio, e fazer passes transversais.

Contratura geral. ¾ Se o corpo estiver em contratura na sua totalidade, fazer sucessivamente os passes de dispersão prescritos mais acima, sobre os braços (152), sobre as pernas, (153) e sobre o epigástrio (154), soprar frio sobre a testa e sobre o epigástrio, e fazer passes transversais da cabeça aos pés (145).

Uma contratura nem sempre é o resultado de uma única e mesma causa.
Em cada paciente, em razão de sua idiossincrasia e do seu temperamento, as correntes centrífugas e centrípetas estão longe de se equilibrarem da mesma maneira: em um, a contratura virá dum excesso de condensação dispersiva (efeito centrífugo), em outro dum excesso de condensação resolutiva (efeito centrípeto) (108).
Ora, por outro lado, como as ações magnéticas possuem, conforme sua natureza, um efeito concêntrico ou excêntrico mais ou menos notável sobre as correntes, pode acontecer, em certos casos, que a resolução de uma contratura se obtenha por processos inteiramente opostos.
Em tal paciente, por exemplo, faz-se contratura à distância e o mais leve contato basta para trazer a resolução; em tal outro, pelo contrário, o menor contato produz contratura e a resolução só se pode fazer à distância. Só a sagacidade do operador é que pode guiá -lo na escolha dos meios apropriados.

Freqüentemente tive ocasião de averiguar na produção do fenômeno esta singular anomalia, que efetivamente não é mais que aparente, porque ela se prende ao funcionamento natural das forças excêntricas e concêntricas das correntes. Eis um exemplo:
Senhorita M..., 28 anos, hipertrofia do ovário direito, contratura de todo o lado direito do corpo.
Quando no estado magnético, a contratura do lado direito cessa espontaneamente e todos os membros readquirem a flexibilidade. Somente, a paciente é de uma sensibilidade magnética extrema, a tal ponto que o mais leve contato estranho, um simples atrito nas roupas ou na epiderme, bastam para provocar instantaneamente um estado cataléptico, do qual só com muito esforço pode-se fazer sair a paciente e afastando-se dela cinco a seis metros. Um dia ao falar à senhorita M., eu, sem querer, tocara-lhe no corpo; aconteceu que tive de levar mais de uma hora para fazer cessar a catalepsia imediata, produzida pelo meu contato: a manifestação fazia -se lentamente, quando eu me retirava para a extremidade do aposento, mas logo que me aproximava da cama da doente, manifestava-se a catalepsia de novo. Foi-me necessário passar para o compartimento vizinho, cuja porta conservou-se aberta a fim de desprendê-la completamente e, quando após algum trabalho, eu consegui isso, abandonei o compartimento sem reentrar no quarto da doente. Eis aí um caso de sensibilidade magnética inteiramente excepcional, felizmente; mas ele demonstra que, ao contrário do que se passa mais comumente, o contato pode determinar contraturas, em vez de produzir a resolução.

Existe acerca da dispersão uma opinião errônea, que é preciso notar e que provém de um velho preconceito baseado na teoria dos fluidos: alguns magnetizadores acreditam ainda hoje no bom e no mau fluido; os processos chamados purificatórios, que empregam, quer antes, quer depois de cada magnetização, é um testemunho deste fato.
Quando o doente imbuído deste erro vos diz, ao procederdes à dispersão no fim de uma sessão: "Não tireis mais do meu bom fluido! " ele se engana. Nada se lhe tira pela dispersão.
A dispersão é uma operação que tem simplesmente por objeto romper a corrente. É fácil de observá-lo quando um braço contraído, mantido horizontalmente em uma posição absolutamente rígida pela contratura, cai de repente sob o impulso enérgico de um único sopro frio à distância ou quando um paciente sensível, conservado durante algum tempo sob a influência da emissão radiante, cai subitamente para trás debaixo do sopro frio rápido que lhe projetais na testa, como se o fio que o retinha preso à magia se rompesse subitamente.
O desprendimento é uma ação puramente dinâmica.

CAPÍTULO XI
Dos tratamentos

Objeto dos tratamentos.¾ Sua duração.¾ Disposições preliminares.¾ Exemplos de movimentos fisiológicos inesperados, produzindo-se no curso do tratamento.¾ Depois dos tratamentos magnéticos não há convalescência, o último dia de crise é o último da moléstia.

É necessário haver perfeita distinção entre um tratamento magnético e uma magnetização acidental e passageira. Uma dor, uma nevralgia, um movimento febril, um começo de defluxo, uma função momentaneamente suspensa se curam rapidamente; basta, muitas vezes, uma ou duas magnetizações para sustar os progressos do mal e restabelecer o equilíbrio do organismo. Mas dá-se diferentemente quando se trata de uma moléstia mais séria, e principalmente de um estado crônico que já vem de muito tempo. Faz-se preciso então instituir um tratamento.

Podendo durar oito dias, quinze dias, um, dois, três, seis meses, e muitas vezes mais, conforme a gravidade e a antigüidade do mal, é necessário não empreender um tratamento precipitado, se de ambas as partes não houver firme resolução de continuá-lo e levá-lo até feliz êxito.

Quando não houver vontade ou vagar para ultimar com êxito feliz um tratamento magnético, não se deve empreendê-lo, porque, depois de um doente ter experimentado bons e salutares efeitos da ação magnética, a cessação muito súbita desta ação torna-se-lhe muitas vezes prejudicial. (De Puységur)
Deslocar-se-iam deste modo os humores que não tivessem tido tempo de se fixarem. (De Jussieu)
Um efeito começado e não sustentado pode contrariar a natureza sem ajudá -la em seus meios. (De Puységur)
Em certas moléstias orgânicas muito graves e antigas, os esforços que faz a natureza para tomar uma nova direção podem produzir as crises mais dolorosas e alarmantes; faz-se mister evitarmos interromper a ação e não nos amedrontarmos. Nunca vi acidente grave ser a consequência de uma crise violenta cujo desenvolvimento não se tenha sustado ou contrariado. (Deleuze)

Um assentimento recíproco dos mais completos deve-se estabelecer desde o começo entre magnetizador e magnetizado: de um lado, dedicação, vontade firme e perseverante; do outro, paciência e confiança absolutas.
O magnetizador só deve ter um objetivo: aliviar ou curar. Deve considerar sua missão como um verdadeiro sacerdócio que lhe cria novas obrigações. Sacrificando tudo ao desejo de praticar o bem, não deve procurar, por vã ostentação, impressionar a imaginação do seu doente ou daqueles que o cercam pela produção de efeitos surpreendentes e extraordinários; sua única preocupação deve ser ajudar a natureza, sem nunca contrariá-la.
Por seu lado, a pessoa magnetizada deve fazer todos os esforços para sustentar e animar o ardor daquele que se propõe restituir-lhe a saúde. Não deve, pois, mostrar prevenção, desconfiança ou impaciência.

O começo de um tratamento é geralmente ingrato. Pelo fato do magnetismo não produzir imediatamente efeitos aparentes e sensíveis, não se deve desde logo decidir que ele é impotente;

pode-se citar um grande número de casos de cura obtidos, sem que nenhum sintoma magnético se tenha manifestado.
Conseqüentemente, nem sempre as curas são precedidas, como se poderia supor, de efeitos que anunciem a ação magnética, e seria de mau alvitre desanimar-se depressa.
Nas moléstias agudas de marcha rápida, é raro que o magnetismo não atue de maneira a mostrar imediatamente todo o bem que dele se pode tirar. Porém, nas moléstias crônicas de marcha mais lenta, os sinais são sempre menos prontos, menos sensíveis, e precisa-se esperar vinte até trinta dias para ter-se um indício qualquer.
Acontece mesmo muitas vezes, em certos casos de moléstias orgânicas inveteradas, que a ação só se faz sentir no fim de alguns meses, e então perde-se a confiança no momento em que se poderia colher os frutos do tratamento.

Fora do assentimento moral comum, que deve existir entre magnetizador e magnetizado, qualquer tratamento exige de uma e de outra parte muita regularidade, uniformidade, ordem e principalmente exatidão.

O começo periódico das sessões em horas fixas é absolutamente indispensável à boa direção de um tratamento. Uma vez combinada a hora mais conveniente, importa que haja restrita pontualidade.
Conforme a gravidade do mal ou a natureza da moléstia, assim se decide que as sessões se realizem todos os dias ou de dois em dois dias. Se as sessões se derem todos os dias, cump re que haja de ambos os lados uma grande exatidão quotidiana, a fim de evitar-se lacunas no tratamento. Se forem de dois em dois dias, é necessário, tanto quanto possível, que haja periodicidade constante e que um dia não seja indiferentemente substituído por outro.

A duração das sessões deve sempre ser a mesma. Pode-se na média fixá-la em meia hora, 45 minutos no máximo, quando a sessão tiver de comportar alguns processos de massagem.

Impulsado pelo ardor do bem ou pelo desejo de satisfazer ao doente, deixamo-nos sempre levar a magnetizar por mais tempo do que o necessário para lhe ser útil. Entretanto, é preciso não perdermos de vista que uma ação curta, porém vigorosamente sustentada do começo ao fim, é mil vezes mais profícua ao doente do que uma ação muito prolongada, na qual o operador perde uma parte de suas forças.
Os pacientes sonambúlicos, que em sono são na maior parte excelentes conselheiros e muitas vezes nos dão indicações sobre os melhores processos a empregar, estão todos de acordo em que é inútil prolongar a ação magnética para produzir o efeito desejado.
Quinze ou vinte minutos bem empregados bastam perfeitamente, na opinião deles para esse fim. Às vezes mesmo, vão até a reduzir este tempo a dez minutos.
Um de meus amigos, o Sr. de X., verdadeiro apóstolo do magnetismo, em cujo ativo pode -se inscrever belas e numerosas curas, citava-me sobre este assunto o fato seguinte que vem perfeitamente confirmar os que eu próprio pude recolher e apreciar:
O Sr. de X.  magnetizava  a Sra  G., que tinha um tumor interno, e ao mesmo tempo magnetizava o seu filho de 12 anos de idade, que sofria de uma hérnia umbilical. Esta Sra, muito sensitiva, caia
facilmente no estado sonambúlico, e nestas condições fornecia, pela lucidez que apresentava, preciosas informações ao seu magnetizador, para guiá-lo na dupla cura por ele empreendida. A Sra G. insistia sempre com muita vivacidade para que ele não se fatigasse inutilmente em seu tratamento, e recomendava-lhe que não consagrasse mais de dez minutos até doze, no máximo, quer a ela quer a seu filho.
Apesar da exigüidade das magnetizações feitas em intervalos bastante espaçados, o estado da mãe do menino melhorou sensivelmente em pouco tempo, e graças às contrações dos músculos do abdome debaixo da influência magnética a hérnia de que sofria o menino, em breve foi reduzida.

Entretanto, em certos casos, quando uma crise se manifesta ou quando é necessário lutar contra um mal fulminante, não mais se trata de limitar o tempo que deve ser passado junt o do doente; é preciso a todo o transe sustentar a crise para dominar o mal; é então mister prolongar a ação magnética durante muitas horas seguidas, desenvolvendo toda a perseverança e energia.

A narração do fato seguinte pode dar uma idéia dessas lutas a toda a prova:
Uma noite, um dos meus amigos cai-me em casa como uma bomba, exclamando: ¾ Totó está morrendo! Está atacado de crupe!
Totó é uma encantadora criança de seis anos, que por sua afabilidade e delicadeza constitui a alegria de todos os que a conhecem. O meu amigo relata-me minuciosamente a sua moléstia: oito dias antes, Totó tivera uma espécie de angina: um médico a tratara com cáusticos e vomitórios; uma melhora se havia manifestado, e julgou-se conjurado o perigo; depois, subitamente, na própria manhã, o mal recrudescera com tal violência que o médico, chamado a toda a pressa, declarara a doente muito pior, e aconselhara sem mais detença a operação da traqueotomia.
Não pudemos conformar-nos com esta terrível operação, acrescentou o meu amigo, e como em igual circunstância, já conseguiste tirar vosso próprio filho desta má situação, corri a fim de saber se ainda é possível tentar salvar o pobre Totó! Partimos. O diagnóstico do doutor não era exagerado; efetivamente, a criança se achava em terrível estado crítico: tinha afonia, febre ardente, respiração estertorosa, acessos freqüentes de sufocação. Encontramos a mãe em pranto, considerando seu filho perdido. Porém, com o magnetismo cumpre que nunca desesperemos; ele traz em si a vida. Demais há na criança uma tal exuberância de vitalidade, que até ao último momento pode-se conseguir a reação vital.
Comecei o trabalho, e depois de ter passado uma parte da noite a insuflar e magnetizar a pobre doentinha, tivemos a inefável alegria de verificar uma melhora sensível. Regressei à casa para repousar um pouco, refazer as minhas forças esgotadas, e voltei pela manhã muito cedo, a fim de continuar a lutar. Pouco a pouco, a cruel moléstia cedeu aos meus perseverantes esforços e, à noite, no meio de uma crise terrível, a criança expeliu peles espessas que se desprendiam da garganta. Por vinte vezes acreditei que ela ia morrer nos nossos braços, tão violentos eram os esforços que ela fazia: mas à força de imposições, passes, e insuflações, consegui sustentá -la nessa crise, que felizmente foi a última. Totó estava salva! Mas, para livrá-la da morte foi-me necessário sustentar com a moléstia uma terrível luta, em que não poupei tempo nem esforços, luta essa que durara mais de trinta e seis horas.

Fora dos casos urgentes em que se deve disputar passo a passo a vida do doente e nos multiplicarmos, é inoportuno fazer mais de duas sessões por dia. É o máximo de esforço que se pode dar, porque é preciso deixar tempo a ação magnética, para que ela produza o seu efeito. Faz - se então uma sessão pela manhã e outra à noite, a fim de deixar entre as duas sessões quotidianas o maior intervalo possível. Em geral, num tratamento começando por ação suave e progressiva, obtém-se resultado muito melhor do que agindo com muita energia e precipitação. O defeito comum a todos os noviços, é pecar por impaciência e excessivo ardor. Cumpre evitarmos violentar a reação vital. Ela nunca corresponde às ações brutais; deve-se deixá-la produzir em seu tempo. Efetivamente, é às vezes de maior vantagem começar um tratamento por sessões alternadas de dois em dois dias, e estar-se pronto a torná-la diárias desde que se produza o efeito magnético.
Nos tratamentos quotidianos, pode-se em certos casos suspender as sessões durante muito s dias, a fim de estudar-se, com espírito de observação, os sintomas que se produzem no intervalo. Estas suspensões contribuem às vezes para despertar a sensibilidade magnética no momento em que se recomeça.

Uma observação diária, redigida com cuidado e regularidade, é o verdadeiro complemento de todo o tratamento bem dirigido.

Um diário bem feito serve para esclarecer o médico que assiste ao magnetizador e dá -lhe um conhecimento exato de tudo o que se manifesta no curso do tratamento. Serve ao pr óprio operador, permitindo-lhe estabelecer os pontos de comparação com os fenômenos obtidos em outros tratamentos e para publicar, quando necessário, os bons resultados obtidos a fim de vulgarizá-los. (Aubin Gauthier)

Acontece freqüentemente que, magnetizando-se por uma afecção passageira, a reação vital leva sua ação reparadora a pontos do organismo onde antigas afecções tinham deixado uma desordem qualquer, e vê-se inopinadamente produzir nesses pontos movimentos fisiológicos inesperados, que trazem uma cura com a qual se não contava.

O Sr. Oswald Wirth, bem conhecido pelas numerosas curas que obtém em Paris, tratava de uma bronquite em certa Sra, quando sobrevieram dores na perna esquerda e o tornozelo inchou, como se houvesse sido fortemente contundido. Não havia absolutamente relação entre estes sintomas patológicos e a bronquite, mas a admiração do magnetizador cessou quando a doente lhe referiu que, alguns anos antes, havia caído de um carro, ferindo-se gravemente na perna, e nunca se curara perfeitamente deste acidente.
O coeficiente de vitalidade que lhe traziam os magnetizadores, dirigido contra a sua bronquite determinando para a perna doente uma migração salutar das forças vitais, tinha permitido à natureza o recomeçar a obra de reparação que, entregue a si mesma, não poderia acabar. Pode assim a doente desembaraçar-se ao mesmo tempo das consequências de sua queda do carro e de sua bronquite.
Este fato me desperta um outro não menos singular: Uma senhora veio um dia pedir-me que a magnetizasse por causa de um dos olhos que estava sempre lacrimejando.
Ao cabo de duas ou três sessões de tratamento, o olho não ia melhor mas a minha doente, muito surpreendida e alegre, informou-me de que perdas abundantes, minando-lhe as forças e a saúde já havia meses, tinham desaparecido; confessou-me que não havia falado dessas perdas, porque sabia terem sido produzidas por uma causa interna tão grave, que ela não julgava a ação magnética com o poder de combatê-la.
Todas as notabilidades tinham de fato declarado incurável esta Sa Apesar deste prognóstico pouco lisonjeiro, não somente cessaram as perdas por completo, como ainda a causa grave que as
ocasionava desapareceu no fim de 40 sessões: a ação magnética, fora de todas as nossas previsões, havia determinado essa migração das forças vitais para as regiões mais seriamente comprometidas, do mesmo modo que uma guarnição sitiada conduz, sob o impulso de seu chefe, o grosso de suas forças para os pontos ameaçados.

No tratamento das moléstias pela medicina comum, acontece freqüentemente que a demora da convalescença sobreleva a do tratamento; é o que fazia dizer a Mesmer que a convalescença é a Moléstia dos remédios.
O magnetismo não se fazendo ajudar de remédio algum, e apelando, desde o primeiro dia, para a reação vital, não produz convalescença: o último dia de crise é o último dia da moléstia.
As radiações magnéticas, impulsando o despertar da natureza e a realização das funções, incitam o doente a recuperar as forças, à medida que explica os princípios mórbidos da moléstia, e é assim que ela termina no próprio dia em que se completa o equilíbrio integral.

Todas as curas magnéticas, sem exceção, vêm confirmar este fato. Eis um exemplo que me é pessoal: Alguns dias depois de meu casamento, em 1874, minha mulher caiu tão gravemente doente que fui obrigado a fazer-lhe quarto noite e dia, por espaço de um mês. Só tendo confiança na ação magnética, não recorri a médico algum, e constituí-me ao mesmo tempo seu médico, seu magnetizador e seu enfermeiro. Uma vez por outra, atirava-me inteiramente vestido sobre uma cama de campo, colocada no quarto da doente (precisamente a cama de que me havia utilizado

durante a campanha de 1870, em Metz, contra os alemães), a fim de refazer, em alguns instantes de repouso, as forças necessárias à continuação da luta.
Esta luta foi terrível, mas com a perseverança fornecida pelo afeto que eu votava à minha mulher, combati pouco a pouco o mal por espaço de um longo mês. Às vezes possuía -me de desespero, mas a minha inalterável confiança no magnetismo restituía-me a coragem, e a minha perseverança encontrou finalmente a sua recompensa: o mal cessou subitamente.
À vista da gravidade e da demora da moléstia, acreditei a princípio na necessidade de uma longa convalescença para restituir à doente todas as suas forças; mas, com grande pasmo de minha parte, assim não se deu, e em vinte e quatro horas minha mulher fez um retorno tão completo à saúde, que reentrou desembaraçadamente no curso da vida comum, até então suspenso para ela, havia mais de um mês.

CAPÍTULO XII
Dos Processos

O tratamento magnético fornece ao doente a faculdade de, por si mesmo, prover-se dos elementos de reconstituição que lhe faltam.¾ Magnetizar é um dom natural, mas o estudo dos processos constitui a arte de magnetizar.¾Imutabilidade  dos  princípios,  variabilidade   dos processos.¾ Tendência de certos magnetizadores para colocar toda a potência magnética na vontade.¾ A medicina chamada sonambúlica tem feito desviar de seu percurso o magnetismo curador (de Puységur e Mesmer).¾ Processos preliminares passivos, ativos, mistos e terminários.

É incontestável que o homem não haure na atmosfera e nos produtos da digestão a vitalidade que lhe é necessária. Se o homem doente não pode fazê-lo tão bem como o homem são, é que, em virtude de uma falta de equilíbrio ou de tensão vital, o mecanismo orgânico, mais ou menos travado, funciona mal.
O homem são, que magnetiza um doente irradiando sobre ele, não faz mais que comunicar -lhe por sua emissão radiante a impulsão vibratória que falta à sua tensão normal, e lhe dá assim a faculdade natural de se prover por si mesmo dos elementos de reconstituição que lhe faltam.
Apresentando o ato magnético sob este aspecto muito simples, compreende -se que todo o contato, toda a irradiação, toda a emissão radiante, donde quer que venham, serão para o doente um benefício e lhe aproveitarão sempre até certo ponto.

Dois homens colocados em frente um do outro, provocam de maneira harmônica a tensão de suas propriedades e podem ser considerados como se fossem um todo.
No homem isolado, quando uma parte sofre, toda a ação da vida se dirige para ela com o fim de destruir o mal.
Do mesmo modo, quando dois homens agem um sobre o outro, toda a ação desta união age sobre a parte doente com uma intensidade proporcional. (Mesmer)

Poderíamos, portanto, quando houvesse necessidade, contentar-nos com um simples contato periódico para restituir, ao organismo comprometido, o grau de tensão que lhe é necessário. Assim pensando, a arte de magnetizar residiria unicamente no contato, apoiado, por uma intenção caridosa e perseverante, ou melhor, não existiria ciência magnética: qualquer indivíduo seria magnetizador por intuição. Nasce-se, efetivamente, com a faculdade de magnetizar, como se nasce com a faculdade de se mover e de cantar. Todos podem desenvolver mais ou menos suas forças musculares no caminhar, no saltar, no dançar, nos exercícios de força e de agilidade, todos, mais ou menos, corretamente assobiam uma ária; mas estas faculdades só constituem verdadeiros talentos, quando cuidadosamente desenvolvidas por exercícios baseados em métodos e princípios que formam uma arte.
Assim se dá com o magnetismo. Emitir radiações magnéticas é uma faculdade comum a todos, mas o conhecimento dos princípios que regulam esta emissão e o estudo dos processos que facilitam as aplicações constituem a arte de magnetizar.
Se, pois, é possível fazer-se muito bem por simples intuição, pode-se fazer ainda muito mais conhecendo os princípios e os processos cujas vantagens nos são demonstradas pela observação e a experiência.

Cumpre estabelecer uma diferença entre os princípios e os processos: uns são imutáveis, e os outros variáveis. Deve-se sempre respeitar os princípios e nunca nos afastarmos deles; de sua aplicação é que depende o poder e a eficácia do magnetismo. Quanto aos processos, o mesmo não se dá: a experiência é tudo, e a prática pode a cada momento retificar o que se fazia na véspera. (Deleuze)

Quando se tem adquirido o hábito de magnetizar, e que se está confiante em si, há certos processos preliminares que podem ser postos de lado, substituindo-os por outros. Assim, com o tempo, e quando o doente é sensível à ação, cessa-se com a preliminar de por-se em relação com o doente, magnetiza-se-o imediatamente, e ele sente desde logo os efeitos.
Por um outro lado, há certos processos que precisam de regras invariáveis. É de necessidade não se empregar, por exemplo, tal ou tal processo em tais circunstâncias, quando se sabe que o emprego deles poderia acarretar resultados diferentes.
Há ainda processos que devem ser modificados de acordo com as circunstâncias e os lugares em que nos achamos.
Assim, se se está em presença de pessoas que não possuem idéia alguma do magnetismo, cumpre evitar tudo o que poderia parecer-lhes muito extraordinário, infundir nos gestos a maior simplicidade e empregar processos os mais comuns. (Aubin Gauthier)

Certos práticos, atribuindo à vontade uma notável preponderância, tendem a colocar todo o poder magnético na vontade. Os processos, no seu modo de pensar, perdem a importância que devem ter. É certo que a vontade põe em movimento a força magnética e dirige-a, mas à maneira do pistão que expele o vapor nos recessos dum mecanismo e regula-lhe o grau de tensão em seu duplo movimento de condensação e expansão.
Em apoio desta impulsão reguladora, é preciso que certos processos acessórios acabem de especializar a ação e conduzam-na para os órgãos de detalhe.
É por meio de processos convenientemente apropriados, por exemplo, e não somente pela vontade, que se consegue deslocar uma dor, fazê-la descer, acelerar a circulação em certos pontos, dissipar um engurgitamento, e cessar uma obstrução. Casos há em que é preciso desde logo atrair as correntes para as regiões inferiores do corpo; outros, pelo contrário, em que se faz necessário prolongar a ação sobre a cabeça e o estômago.
Tal processo permitirá mais que outro a obtenção de um resultado pronto e decisivo: é uma questão de observação e de experiência. Mas se os processos são até certo ponto facultativos, alguns há imperativos que, em seu emprego, demandam muito tato e discernimento.

Diversos magnetizadores atuam igualmente bem, quer pelos passes mais lentos ou mais rápidos, quer pelo contato ou à distância, conservando as mãos no mesmo lugar ou estabelecendo correntes. (Deleuze)

Quando os pacientes são sensíveis e caem naturalmente em estado sonambúlico, acontece, às vezes, darem sobre este assunto indicações preciosas de que se pode t irar proveito. Há muitos exemplos de sonâmbulos dirigirem com vantagem o seu tratamento. Este curioso dom de segunda vista tem induzido muitos magnetizadores a desprezarem o estudo dos processos e a visarem exclusivamente um fim especial: colocar os doentes em condições de se curarem a si próprios.
Vai nisso um grave inconveniente, porque geralmente os sonâmbulos, só indicando processos particulares inteiramente ocasionais e unicamente apropriados às dores que sofrem nesse momento, fizerem ir-se perdendo de vista, pouco a pouco os princípios que serviam de base à grande arte fundada por Mesmer, e substituíram-na por uma espécie de medicina sonambúlica, que fez desviar da sua missão a terapêutica magnética.
Em vez de estudar e desenvolver os processos mais adequados para agir de uma maneira geral e direta sobre os órgãos e as vísceras do corpo humano, em lugar de constituir -se pela observação e a experimentação um corpo de doutrina útil, limitaram-se à função mais fácil e menos fatigante de formar sonâmbulos, aplicarem-se a tirar o melhor partido possível de sua lucidez mais ou menos

problemática, e insensivelmente o magnetismo chegou a consistir apenas um meio de formar sonâmbulos e fazer-lhes produzir oráculos.
O Sr. de Puységur, sem o querer, contribuiu para fazer entrar o magnetismo nesse caminho falso, donde ele foi o primeiro a transviar-se, conservando-se como simples espectador dos fenômenos que produzia, em vez de pesquisar-lhes as causas.
Que é que os adeptos de Puységur têm feito para provarem a ação curadora do magnetismo, deixando de lado as sábias lições de Mesmer? Não cessaram de interessar -se pelo sonambulismo.
De maneira que se para o assistente ou o incrédulo não sobrevier o sono e o sonambulismo não estiver ao nível da inteligência ou da lucidez desejada, não há magnetismo.
Duas escolas distintas, sem que sejam opostas, estabeleceram-se depois da descoberta do sonambulismo pelo Sr. de Puységur: uma, a de Mesmer, que dava grande importância à escolha dos processos; a outra que tomava por divisa a inscrição que se acha nas obras de Puységur: "Crede e tende vontade". (Aubin Gauthier)

Os processos cuja exatidão foi severamente averiguada por longas observações práticas, e cujo efeito tem sido cuidadosamente estudado, podem ser classificados do seguinte modo:

1o) Processos preliminares tendo por objeto estabelecer a relação do magnetizador  com o paciente.  (47 a 53)

2o) Processos passivos ¾ Compreendendo todos os contatos (contatos simples ou duplos), em que o operador conserva uma espécie de passividade, aguardando a manifestação das correntes. (54 a 75)

3o) Processos ativos pelos quais o operador abre caminho às correntes e conserva sempre um papel mais ou menos ativo (passes, ações à distância, massagem magnética, insuflações). (76 a 141)

4o) Processos mistos compreendendo todas as combinações variadas que podem ser feitas dos processos ativos e passivos entre si. (86 a 105)

5o) Processos terminários ¾ Compreendendo todos os processos de dispersão, imposições, passes transversais e perpendiculares, insuflações frias. (142 a 157)

CAPÍTULO XIII
Das sessões e da escolha dos processos

Periodicidade das sessões.¾ Sessões alternadas ou diárias.¾ Disposições preliminares.¾ Perturbações das correntes causadas pela presença de testemunhas.¾ Posição do doente.¾ Ordem e duração  das  sessões.¾ Regiões sobre as quais o operador deve concentrar sua ação.¾ Escolha do emprego dos processos em virtude dos diferentes casos que se apresentam. ¾ Utilidade em deixar que os sintomas se desenvolvam.¾ Processos para determinar naturalmente o sono.¾ Necessidade de modificar os processos, se os males são indolentes ou ativos.¾ Pode-se magnetizar indiferentemente com ambas as mãos.¾ Opinião errônea dos polaristas sobre a influência especial atribuída a cada mão.¾ Unipolaridade da ação radiante do homem.¾ Perigos de especificar em demasia.

As sessões alternam-se de dois em dois dias, ou são diárias, ou se fazem duas vezes por dia, conforme a natureza da moléstia. (163)
Se o mal for recente e agudo, se o organismo vibrar desde logo sob a ação magnética, é que a reação vital já está naturalmente em ação e é necessário substituí-la por magnetizações repetidas. Nesta emergência fazem-se duas sessões por dia.
Se, pelo contrário, a moléstia tomou, por sua antigüidade, um caráter crônico e inveterado, se a reação vital se tem embotado, se o organismo vibra pouco ou não vibra sob a incitação da emissão radiante, é inoportuno atacar vigorosamente os centros nervosos, os quais não se acham em condições de responder ao impulso que se lhes quer dar. Em tal caso deve -se fazer apenas uma sessão de dois em dois dias.



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