LIVRO SS - Um Manual Prático de Magia - parte 5


Chegamos a uma parte muito interessante: a criação do
sigilo. Há uma infinidade de maneiras de criar o seu Sigilo. A
mais comum é a gráfica, mas o caminho é a Arte, um atributo
de Netzach.
Para criar um símbolo gráfico de seu Sigilo você usará o
alfabeto comum. Como exemplo gostaria de descrever um sigilo
que eu mesmo usei, para isto um pequeno pedaço de história é
necessário. Eu estava com uma dívida num determinado Banco,
e iria pagá-la com o uso de meus próximos dois salários, seria
um tempo de aperto, mas a coisa toda daria certo. Eu usaria,
também, meu décimo terceiro e minhas férias. Quando cheguei
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para trabalhar duas semanas depois, eu já não tinha emprego.
Além de ter gastado todo o meu dinheiro para pagar outras
contas, e ainda ter algumas contas a pagar, eu precisava pagar
o banco. Claro que a única saída era encontrar um outro
emprego, só que justamente naquela época as coisas não
estavam tão boas assim e arranjar um emprego demoraria
muito, muito mais do que eu poderia esperar. Justamente eu
que sempre dei um valor enorme para estar com minhas contas
sempre em dia, não poderia pagar um empréstimo num banco.
É justo dizer que perdi o emprego por descobrir esquemas de
roubo dentro do local que trabalhava, e ser ameaçado caso não
permitisse que as coisas continuassem tão erradas quanto
estavam. Como decidi não participar de esquemas sujos, acabei
perdendo o emprego e ganhando uma dívida. Depois de um
mês criei um sigilo com a seguinte frase:
Minha conta no banco X está paga.
Mas achei que ela não era tão boa assim. Então criei outra:
Minha conta no Banco X está paga e eu tenho saldo positivo.
Foi algumas semanas depois que, por iniciativa própria,
meus pais decidiram saber mais sobre a minha vida financeira.
Acabaram por me emprestar o dinheiro para pagar a conta.
Meu objetivo era fechar a conta que possuía naquele Banco
imediatamente após regularizar minha situação – para usar
uma expressão que os Bancos adoram. Eu tive saldo positivo
naquele Banco, um saldo de um Real! Tive que sacá-lo e depois
pude fechar minha conta.
E que isto não dê uma falsa idéia para o leitor de que, com o
uso da Magia Sigicular, ele pode sair por aí fazendo contas e
depois pagá-las usando um Sigilo. O processo foi muito mais
doloroso para mim do que o descrito, e eu prefiro não entrar
em detalhes entediantes de minha vida pessoal, que lhe
cansaria até você fechar o Livro SS e decidir que ele está
ficando cansativo com aquela história toda da vida pessoal de
Krystos Meyer. E eu tive que devolver o dinheiro para meus
pais.
A seqüência para criar o símbolo foi a seguinte.
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Primeiro eu expressei a frase que simbolizasse o desejo de
uma maneira simples, curta e positiva: “Minha conta no Banco
X está paga e eu tenho saldo positivo”.
Depois eu retirei as letras repetidas.
M I N H A C O N T A N O B A N C O X E S T Á P A G
A E M E U S A L D O E S T Á P O S I T I V O
Note que a palavra “está” foi imediatamente riscada por
estar repetida. As letras que você não vê repetidas, mas que
estão riscadas se devem ao fato do nome do Bando contê-las.
As letras ficaram da seguinte forma:
M I N H A C O T B E S G U L D V
Então eu usei estas letras sobrepostas umas às outras para
criar um símbolo, o Sigilo, representando o desejo.
Ele ficou como mostra a figura 6, abaixo.
Figura 6
Não é necessário que todas as letras estejam ali, no caso eu
usei todas, tente descobri-las na figura 6.
Uma questão importante é quanto à qualidade do Sigilo.
Ninguém daria muito valor a algo criado desleixadamente –
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embora alguma arte moderna seja criada assim e consiga
preços exorbitantes. Você deve se aplicar na construção de seu
símbolo, no símbolo da figura 6 eu usei nanquim e caneta
esferográfica. Em outras vezes em utilizo lápis 4B, lápis de cor
e/ou aquarela e tinta acrílica.
O que não quer dizer que você não possa construir Sigilos
com papel de saquinho de supermercado. Um envelope velho,
um papel qualquer, serve como suporte gráfico para o que você
está criando, e o que é criado é que deve ser tratado com
carinho e atenção.
Você deveria primeiro encontrar uma frase que expressasse
adequadamente o seu desejo, então deveria escrevê-la no alto
de uma folha em branco. Depois deve retirar as letras repetidas
e tentar criar algo com a sobreposição das letras. Mas não tente
criar uma figura do que quer com as letras da frase que
expressa o desejo. Você está tentando criar algo novo, e velhos
símbolos são lugar comum para sua mente, desenhos
esquemáticos são feitos pelas crianças todos os dias. Quando
chegar em um símbolo que lhe bastante agradável, você terá o
Sigilo. O símbolo tem que realmente ser agradável, para você.
Você não está criando uma obra de arte para ser vendida em
galerias interesseiras, está criando algo para entrar em contato
com sua Alma... Que o símbolo seja belo para você, mas se
esforce um pouco para criar algo que lhe seja realmente
interessante. Depois de ter o Sigilo transponha uma cópia para
um novo papel.
Há outros métodos para criar um sigilo, como na figura 6,
onde se parte a partir de um desenho do que se quer. Aqui
também o Sigilo deve se tornar não representativo do desejo,
para que passe sem ser oposto pela mente consciente. Você
deve, usando este método, desenhar primeiro o que quer, seja
uma situação ou um objeto, e depois passar a decompô-lo até
ter uma nova figura que em nada se pareça com a figura inicial.
E você não precisa entrar em um curso superior em Artes para
desenhar. Você deve usar suas melhores habilidades. Eu
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mesmo, que desenho o tempo todo, raramente uso o método
de desenhar o que quero, preferindo partir de letras.
Você não precisa se limitar a usar papel para executar seus
Sigilos, uma tela de computador também é um ótimo suporte.
Alguns programas criados especificamente pra desenhar podem
lhe ajudar, e muito. Você pode criar Sigilos em três dimensões
e inseri-los em cenários coloridos. Pode criar uma animação,
onde o Sigilo é aos poucos construído. Pode usar papelão para
criar figuras geométricas e tê-las ao seu lado, como talismãs.
Pode usar arame para entrelaçá-lo e criar algo para pendurar
em algum lugar perto de você. Digamos que você queira fazer
um Sigilo para se curar de insônia, seria interessante criar um
desenho ou figura feita em arame que pudesse ser pendurado
em cima da cabeceira de sua cama – este é mais um motivo
para fazer uma coisa bonita. Tudo isto se baseando no formato
do que quer, ou no formato das letras de seu desejo.
Uma outra forma de Sigilização é feita com sons. Você
escreve a frase como antes, digamos que queira ser uma
pessoa mais calma:
Eu sou mais calmo.
Então você transpõe as letras:
Ues uom siam mocal.
As palavras novas são palavras mágicas que podem se
repetidas durante as técnicas que serão descritas a seguir.
Um outro meio é criar palavras mágicas com a retirada de
letras repetidas:
E U S O U M A I S C A L M O
E U S O M A C L
A partir destas letras você pode ir testando até encontrar a
forma que mais lhe agrada. Euso somacal, oam luces, são
apenas alguns exemplos. Você também pode exprimir o nome
das letras e tentar ligar os sons. Eusso emacele é um exemplo.
Você pode tornar tônicas quaisquer letras que deseje, mas
tente criar uma frase ou palavra simples e, principalmente, com
um som agradável para você. Novamente você estará fazendo
coisas para si mesmo, por isto afinidade é importante.
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Existem muitas opções para se trabalhar com sons. Você
pode produzir suas palavras mágicas e usar um programa
simples de computador para tornar a pronúncia mais lenta, isto
dá um ar de mistério para a coisa toda e o efeito é bastante
poderoso. Ouvir palavras estranhas de trás para frente pode ser
uma opção interessante, bem como ouvi-las tocando de forma
mais lenta ou mais rápida. As experimentações são muitas e
você deve testar aquilo que deseja.
Só não se desespere se não souber usar um programa de
computador que faça estas coisas todas. Eu praticamente não
os uso, mesmo sabendo como. Prefiro muito mais o trabalho
com papel e lápis, porque esta forma tem uma afinidade maior
comigo.
Descubra seus próprios gostos.
Dar poder ao símbolo: entrando em estados alterados
de consciência: as técnicas espirituais do êxtase
Você construiu seu Sigilo, com sua melhor arte. O que fazer
com ele?
É preciso que ele seja entregue para o inconsciente.
Um antigo tratado de Alquimia afirma que a única linguagem
que o inconsciente entende é o Amor. É como entrar em
contato amoroso com você mesmo. O subtítulo para O Livro
do Prazer de Austin Osman Spare, mencionado no começo
deste capítulo, é Auto-Amor. Então você deve entrar em
estados simpáticos ao seu inconsciente.
A descrença, com certeza, não é um ato de amor. Então é
preciso barrar a descrença, e o meio mais efetivo de conseguir
isto é usando os rituais de purificação.
N’O Livro do Prazer, Austin Osman Spare não declara a
necessidade de rituais de purificação. Mas certamente que ele
os executava. Encantamentos para invocar forças superiores
subsistem em seus escritos, e eles são uma espécie de ritual de
proteção e purificação, como as poderosas invocações feitas no
Ritual Menor de Banimento do Pentagrama.
Os rituais de banimento têm uma outra utilidade que já foi
discutida, criam um momento e espaço mágicos. Criar um
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momento só seu é muito importante, pois você é o local de
todas as práticas mágicas. Criar uma barreira contra
intromissões que não são bem-vindas é também uma grande
utilidade, pois sentimentos como a descrença são afastados.
Não que você tenha que acreditar cegamente no Sigilo, mas
apenas deixar de negar o poder. Você não precisa acreditar
irrevogavelmente no poder dos Sigilos – embora com o tempo,
e com o acúmulo de práticas, vai acabar tendo motivos para
tanto –, mas não deve se esforçar para não acreditar.
O Ritual Menor de Banimento do Pentagrama deveria ser
executado no início e no final da prática que você irá executar.
Assim ele marcará o início e o final da prática. Após o primeiro
ritual de banimento deveria ser praticado o Ritual Menor de
Invocação do Pentagrama.
O objetivo das técnicas de êxtase é produzir um estado tal
que você sinta prazer consigo mesmo. As definições lhe dirão
que êxtase é um estado no qual a alma se liga em coisas
espirituais e se desliga de coisas materiais.
Mas há uma outra interpretação do êxtase, esta sim tem a
ver com Magia. Na Antigüidade, os gregos cultuavam um deus
chamado Dioniso. Dioniso é o deus do prazer, do conhecimento
através do prazer. Dizem que ele era um deus temperamental,
lavando ora sofrimento, ora alegria para os homens na Terra.
Até o dia em que sua avó lhe iniciou nos mistérios da Terra.
Então ele se tornou o deus do conhecimento através do êxtase.
Este êxtase era um estado de inspiração e entusiasmo em que
os devotos entravam durante os rituais. O vinho era uma
prática comum nestes rituais, bem como o sexo. O entusiasmo
era de um tipo espiritual, um estado em que a alma era elevada
a um ponto de prazer absoluto e sagrado. Entusiasmo também
é uma palavra usada para definir aquela exaltação que se
expressa como criação. Ou seja, este entusiasmo produz
mudanças, e mudanças são a essência da Magia.
O uso de drogas não é aconselhado, porque os resultados
podem facilmente fugir ao controle. Homens como Aleister
Crowley usaram drogas em experimentos mágicos e os
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resultados, ainda que espetaculares no início, pareciam sempre
tender para uma tensão excessiva e desnecessária. Ele
escreveu um texto sobre cocaína, e os resultados talvez sejam
desanimadores para aqueles que se dispuserem a lê-lo. Mesmo
o vinho em excesso pode levar apenas ao alcoolismo, ao invés
de levar ao êxtase. E, se com a Magia estamos tentado
controlar as nossas vidas, nada parece mais estranho do que se
embriagar. Eu mesmo tentei rituais com vários tipos de
substâncias, e os resultados me deixaram a impressão de que
ninguém deveria tentar usar drogas para experimentos
mágicos, a menos que, como eu, queiram queimar os dedos
para descobrir que isto não vale a pena.
Uma técnica simples para entrar em êxtase é a própria
técnica de respiração descrita no capítulo sobre técnicas básicas
de Magia no Livro Zero. Mas há um inconveniente, pois o
exagero produz mais cansaço do que prazer, e ninguém vai
querer desmaiar no meio de um ritual por ter forçado os
pulmões até o limite.
A música é uma técnica muito útil, e uma das minhas
preferidas junto com o êxtase sexual. Para usar música você
deveria encontrar algo que seja ritmado e contínuo, como o
som de tambores. Música étnica é uma boa opção, e techno se
você gosta deste tipo de música. Mas piano, como Bartók e
Chopin, pode ser uti para aqueles que gostam deste tipo de
música. O rock’n’roll é uma escolha comum. Kiss, Nine Inch
Nails, Marilyn Manson, KMFDM, Ministry são sons que contêm
um pouco de ritmo contínuo e produzem um estado alterado de
consciência se forem usados com este propósito. O propósito é
muito importante, pois a música por si só é música pra se
divertir ao ouvi-la, mas música no contexto de um ritual é algo
diferente. Daí a utilidade do Ritual Menor de Banimento do
Pentagrama, pois a música teria um efeito mágico apenas
durante rituais, continuando como algo comum e normal
durante todo o tempo restante.
Mas há uma técnica para ouvi-la. Você deveria senti-la em
seu próprio corpo, vibrando cada átomo que você possui. Isto é
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muito mais fácil com sons graves e ritmados, como tambores e
baterias de bandas de rock pesado. A vibração deveria ser
sentida como uma alegria perpassando todo o seu corpo, ou
como poder. Então, quando você estiver num estado de êxtase
puro, sentido-se ligado à música, olhe fixamente para o
desenho que fez. Você pode imaginá-lo com um brilho
poderoso, e a cor do brilho pode ser a cor da Sephirah ao qual
o seu desejo está ligado. Mas uma coisa é essencial: durante a
prática do êxtase você deve esquecer o significado do
Sigilo. Esta costuma se a parte mais difícil. Você deve vê-lo
como um símbolo de poder e nada mais. Não deve esperar que
o desejo se manifeste, não deve interferir com os poderes da
mente. Tem que simplesmente entrar em êxtase.
Depois de atingir o estado de êxtase e estar olhando
fixamente o Sigilo, você deve sentir um poder enorme dentro
de você, e esta sensação é um resultado natural do próprio
êxtase. Então você deve tentar passar toda esta energia para o
Sigilo, como se você o estivesse enchendo do êxtase que está
em seu corpo, vendo-o brilhar. Feche os olhos e deixe-se ser
tocado pelo êxtase da música ainda mais, então visualize-o em
sua mente, lá ele deve ser uma figura brilhante na cor da
Sephirah apropriada ou em branco puro. Você sentir que o
Sigilo é algo vivo, enérgico e vibrante. O processo está
realizado. Claro que será necessário um bom tempo de
concentração para que o Sigilo seja energizado corretamente.
Repetições são encorajadas dentro de uma mesma sessão, mas
um trabalho bem feito – que pode durar uma hora ou mais –
deveria ser feito em uma única sessão, sem a necessidade de
repetições.
Outra técnica é a concentração no vazio. Comece repetindo
para si mesmo a palavra “vazio”. Depois comece a meditar no
vazio em várias situações. O espaço vazio entre as paredes de
sua casa, o espaço vazio no forno de um fogão, o espaço vazio
em um vaso. Continue até chegar ao vazio em si, e isto é
extremamente abstrato para ser descrito em uma imagem. Uma
sensação de êxtase deveria percorrer o seu corpo, incentive-a
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sem se desgrudar do vazio. Então faça que o símbolo, brilhante
e vivo seja absorvido dentro do vazio. Há conotações sexuais
nisto, como o útero absorvendo o esperma. Assis a sua mente
absorverá o Sigilo e lhe dará vida, por um processo de criação.
Esta meditação no vazio não deveria se limitar a 10 minutos,
mas no mínimo 30 minutos, tempos inferiores costumam
produzir apenas fracasso e, raramente, algum mínimo sucesso.
Dançar até sentir um prazer percorrer o corpo pode ser uma
escolha. Coloque uma música de seu agrado e comece a dançar
num local reservado. Não importa se você acha que não sabe
dançar, você não está participando de um concurso de dança.
Apenas faça como gosto e, ao ficar exausto, sente no chão e
comece a olhar o Sigilo, então o visualize em sua mente, de
olhos fechados, com um brilho adequado ou branco. Se o
símbolo desaparecer de sua mente, olhe novamente para o
lugar onde desenhou o Sigilo e reconstrua a imagem mental,
repita isto tantas vezes quantas forem necessárias. Se sentir
que o prazer da dança saiu de seu corpo, recomece a dançar
tendo deixado o Sigilo de lado por um momento. Quando
novamente seu coração estiver um pouco agitado e você estiver
sentindo um grande prazer, olhe novamente e repita o processo
de visualização.
Olhar para um espelho é uma técnica curiosa e interessante.
Desenhe previamente num espelho qualquer uma cópia do seu
sigilo, faça isto com algum cuidado para criar uma figura que
não seja medonha, mas igual ao desenho terminado de seu
Sigilo. Use uma tinta a base de água, como guache ou
aquarela. Então olhe fixamente para os seus olhos refletidos no
espelho. Pisque normalmente, você não precisa forçar seus
olhos. Se quiser acenda uma vela ao fundo, ou use uma
lanterna. Produza um ambiente de mistério. Esta técnica pode
ser misturada com a técnica anterior da música, mas são em
seus olhos que você deve se concentrar, e o êxtase deve ser
dirigido à imagem de seus olhos refletidos, ou seja, para você
mesmo. Agora dá para entender um pouco mais o porquê de
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Austin Osman Spare ter dado o subtítulo de Auto-Amor ao seu
O Livro do Prazer. É uma técnica interessante e fácil.
O êxtase sexual é, por unanimidade, a técnica espiritual de
êxtase mais utilizada. Não importa o tipo de ato sexual.
Masturbação genital ou anal, sexo anal hetero ou homossexual,
sexo oral ou masturbação mútua. Todas as formas de sexo
podem ser utilizadas para produzir êxtase espiritual.
Vamos começar pela masturbação. Você deve se masturbar
por um tempo razoavelmente longo, no mínimo uns trinta
minutos. Sempre visualizando o Sigilo. Quando sentir que o
orgasmo está próximo pare, e visualize o Sigilo, tentando enviar
a energia do prazer que está sentindo para o Sigilo. Durante a
masturbação deveria haver micro orgasmos, uma pequena
sensação percorrendo todo o seu corpo. Não importa o tipo de
manipulação que escolheu, o importante é manter em mente
que você está enviando aquela energia para dentro do Sigilo. O
clímax é o momento do orgasmo, embora ele não seja
obrigatório – eu mesmo consegui efeitos interessantes sem
precisar atingir o orgasmo. No momento do orgasmo sinta
como se o Sigilo estivesse criando vida, uma vida poderosa. O
resultado do orgasmo pode ser usado para por em cima do
papel onde o Sigilo foi executado, ou para banhar a figura
sólida que foi criada, embora isto também não seja obrigatório.
Algumas pessoas reabsorvem oralmente o resultado do
orgasmo, mas na prática do Sigilo isto não é necessário, pois é
o êxtase que estamos usando, e não os fluidos sexuais, como
nas práticas tradicionais de Magia Sexual. Mas reabsorver o
Sacramento é uma boa idéia, muito boa.
No sexo entre parceiros há vários métodos que podem ser
utilizados. Num deles o parceiro (a) pode masturbar você, e
você dá um sinal pra ele de que seu orgasmo está chegando,
para que depois de um breve descanso ele (a) comece a
manipular você novamente. A penetração também pode ser
usada como uma fonte de prazer, independente de o praticante
estar sendo penetrado ou estar penetrando alguém. Neste caso
um único membro do ato está executando a Magia, e o outro é
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auxiliar, ou os outros são auxiliares, já que não há restrições
nesta forma de Magia. Mas dois, ou mais, parceiros podem
decidir que vão fazer um mesmo sigilo para um determinado
objetivo. Neste caso cada um deveria fazer seu próprio Sigilo
para o mesmo objetivo – não apenas um objetivo comum, mas
um mesmo objetivo. Digamos que um casal seja dono de uma
loja de tecidos e esteja esperando um telefonema que nunca é
dado, ambos têm o mesmo objetivo. Então um dos dois Sigilos
é apresentado para aquele que não o executou, e o casal
mistura os dois Sigilos em um só. Outra maneira é o casal criar
um Sigilo juntos, o que é muito mais poderoso e pode ter
efeitos muito rápidos. Daí o casal visualiza o Sigilo um na testa
do outro e imagina que ele está descendo até a área genital. O
homem imagina que ele está em seus escrotos e a mulher que
ele está dentro dela, como um óvulo esperando ser fecundado.
O orgasmo resultante pode ser usado para abençoar um local,
ou pode ser, apenas em parte reabsorvido pelo homem, ele
fazendo sexo oral na parceira (o). Mas este final para a
substância não é uma regra, e não é uma necessidade que seja
executado, é apenas uma opção. Embora isto eu jamais
deixaria de reabsorver a substância que é gerada, ou pela
masturbação ou pelo sexo com parceiras (os), porque há
energia nesta substância, e, assim sendo, ela se tornou um
sacramento, o que é algo sagrado (mas faça isto com alguém
que você conheça muito bem, pois as doenças sexualmente
transmissíveis são uma realidade, e, no caso de dúvida, evite a
reabsorção e utilize ou exija preservativo). Muitas pessoas
fazem alarde quanto a este negócio de reabsorver as secreções
sexuais, mas não fariam alarde nenhum em comer um último
pedaço de doce que caiu no chão (isto sim é algo nojento). As
secreções sexuais são um material sagrado, são advindas de
você, por isso deixe de lado a idéia de que elas são coisas ruins,
porque elas são essências mágicas cheias de Vida, Amor, Luz e
Vontade.
O caminho das emoções também é uma possibilidade.
Fortes emoções podem ser usadas para energizar o Sigilo.
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Raiva e ódio, bem como amor, podem ser usados como um
meio de poder. Tente descobrir as raízes de suas raiva, depois
de ter executado o Ritual Menor de Banimento do Pentagrama,
e sinta-a forte. Então transforme-a em algo em si, não em algo
contra alguém – nem mesmo contra você. Use aquela energia
para energizar o Sigilo. Imagine a sua raiva virando uma
espécie de impulso, poder e direção, enfim, força. Então
canalize a força para o Sigilo e sinta como ele se tornou algo
vivo e poderoso. Para o amor é a mesma coisa, imagine como o
Sigilo encheu-se do poder do amor que você estiver sentindo.
Você pode construir seus próprios rituais, bem como
somente usar a concentração. Muito se especula sobre a
simplicidade da Magia Sigicular, e que ela não necessita de
rituais para que os Sigilos sejam ativados. Mas a própria
construção do Sigilo e a concentração sobre ele, usando uma
técnica de êxtase sem rituais de abertura e fechamento, é
Magia Ritual – não há como negar isto. Assim a idéia de alguns
grupos mágicos de que o Sigilo não necessita de um ritual é
pura besteira, porque ele é um Ritual – sua construção e
energização seguem os passos de um ritual. A simples idéia de
fazê-lo bane alguns conceitos da mente, o envolvimento é um
verdadeiro ritual de purificação. Depois a concentração sobre o
símbolo é uma invocação, bem como o próprio Sigilo se torna
um meio de proteger o desejo tanto da intervenção da mente
consciente quanto da intervenção de “forças” que não sejam
bem-vindas.
Por fim resta o que fazer com o Sigilo depois que ele foi
realizado. Instruções comuns dizem que ele deveria ser perdido,
ou queimado. Enterrá-lo (com solenidade), como se ele fosse
uma semente que vai germinar no mundo, é uma idéia
interessante. Eu costumo guardá-lo, desenhá-lo em meu diário
mágico com anotações completas sobre o horário em que foi
realizado e tudo o mais. Isto também me lembra que nem
sempre esqueci do significado do Sigilo durante os rituais de
energização – e eles funcionaram. Só que, quando esqueci o
significado do Sigilo durante o ritual, me pareceu que o Sigilo
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agia de forma mais rápida e eficiente – aqueles dos quais eu
insistentemente lembrava do significado dias a fio, parecem ter
acontecido de maneira incompleta.
Claro que guardar o Sigilo como um ímã é uma boa idéia,
principalmente em alguns casos. Digamos que você tenha feito
um Sigilo para combater a insônia; seria interessante colocá-lo
acima da cabeceira de sua cama e imaginar que dele emana
uma energia que produz sono em você. Mas lembre-se de não
achar que todo o poder está no Sigilo: o poder está dentro de
você!
Usando sua imaginação você pode criar maneiras de lidar
com o Sigilo, todas elas serão boas, se você sentir que são boas
para você.
Voltando ao assunto do êxtase há um texto muito
interessante de Marcilio Ficino. Ficino foi um místico medieval,
ligado ao movimento do Neoplatonismo. Suas idéias eram
muitos interessantes. O texto abaixo dará um bom
entendimento sobre o êxtase.
Sobre o Frenesi Divino
(De divino furore)
Uma carta de Masilio ficino
Marsílio Ficino para Peregrino Agli: Saudações
Em 29 de Novembro, meu pai, Ficino o médico, trouxe-me
a Figline duas cartas suas, uma em verso e a outra em prosa.
Tendo lido estas, eu entusiasticamente congratulo sua era por
produzir um jovem homem cujo nome e fama são tão ilustres.
Sem dúvida, meu mui querido Peregrino, quando eu
considero sua idade e as coisas que emanam de você a cada
dia, eu não somente me regozijo mas muito mais me
maravilho por tão grandes dons em um amigo. Eu não sei
qual dos autores cuja memória eu venero, sem mencionar os
homens de nosso próprio tempo, realizaram tanto em uma
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idade como a sua. Eu não me refiro apenas ao estudo e
técnica, mas muito mais ao frenesi divino. Sem este, disseram
Demócrito e Platão, nenhum homem jamais teria sido grande.
A emoção poderosa e o desejo ardente os quais os seus
escritos provam, como eu já disse, que você é inspirado e
intimamente possuído por aquele frenesi, e este poder, que é
manifestado em movimentos externos, os antigos filósofos
afirmaram que era a mais potente prova da força divina que
habita em nossas almas. Mas já que eu mencionei este
frenesi, eu relatarei a opinião de Platão sobre isto em algumas
palavras, com aquela brevidade que uma carta demanda; que
então você possa compreender facilmente o que isto é,
quantos tipos deste há, e qual deus é responsável por cada.
Eu estou certo de que esta descrição não somente lhe
agradará, mas também lhe será de grande uso. Platão
considera, como Pitágoras, Empédocles e Heráclito afirmaram
primeiramente, que nossa alma, antes de descer dentro dos
corpos, habitava nas residências do céu onde, como Sócrates
disse em Fedro, se nutriam e regozijavam na contemplação da
verdade.
Aqueles filósofos que eu mencionei aprenderam de
Mercurius Trimegistus (Hermes Trimegistus), o mais sábio de
todos os egípcios, que Deus é a suprema fonte e luz dentro do
qual brilham os modelos de todas as coisas, modelos os quais
são chamados de idéias. Assim, eles acreditavam, a isto
seguia que a alma, contemplando eternamente a mente de
Deus, olhava com grande claridade para a natureza de todas
as coisas. Então, de acordo com Platão, a alma via a justiça
em si mesma, a sabedoria, a harmonia e a maravilhosa beleza
da natureza divina. E algumas vezes eles chamam todas estas
naturezas de “idéias”, às vezes de “essências divinas”, e
algumas vezes de “primeiras naturezas que existem na mente
eterna de Deus”. As mentes dos homens, enquanto eles estão
lá, são alimentadas com conhecimento perfeito. Mas as almas
decrescem para corpos pelo pensar e desejar coisas
mundanas. Então estes que eram previamente alimentados
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com ambrosia e néctar, que são o perfeito conhecimento e
bem-aventurança de Deus, em sua queda passaram a beber
do rio Letes, que é o esquecimento do divino. Eles não voam
em retorno para o céu, de onde eles caíram pelo peso de seus
pensamentos mundanos, até que uma vez mais eles comecem
a contemplar aquelas naturezas divinas que eles esqueceram.
O filósofo divino considera que nós alcançamos isto por duas
virtudes, uma relacionada com a conduta moral e a outro com
a contemplação; uma ele nomeou com o termo “justiça”, e a
outra por “sabedoria”. Por esta razão, diz ele, as almas voltam
para o céu com duas asas, querendo dizer, como eu entendo,
sobre estas duas virtudes; e do mesmo modo Sócrates ensina
em Fedro que nós alcançamos estas duas partes da Filosofia,
chamadas de atividade e contemplação. Por esta razão, ele diz
novamente em Fedro que somente a mente do filósofo
recupera as asas. Na recuperação destas asas, a alma é
separada do corpo pelo poder delas. Preenchida com Deus,
ela se esforça com toda a força pra alcançar os céus, e para lá
ela é puxada. Platão chama esta atração e esforço de “frenesi
divino”, e o divide em quatro partes. Ele acha que os homens
nunca lembram o divino a menos que eles sejam afetados
pelas sombras ou imagens, como elas podem ser definidas,
que são percebidas pelos sentidos corporais.
Paulo e Dionísio, os mais sábios entre os teólogos cristãos,
afirma que as coisas invisíveis de Deus são entendidas pelo
que foi feito e é visto por aqui, mas Platão dia que a sabedoria
dos homens é a imagem da sabedoria divina. Ele acha que a
harmonia que nós fazemos com instrumentos musicais e vozes
é a imagem da harmonia divina, e que a simetria e beleza que
se origina da perfeita união das partes e membros do corpo
são uma imagem da beleza divina. Desde que a verdadeira
sabedoria é inexistente no homem, ou com alguma raridade
está em muitos poucos, e não pode ser percebida pelos
sentidos corporais, segue-se que imagens da sabedoria divina
são muito raras entre nós, escondidas dos nossos sentidos e
totalmente ignoradas. Por causa disto, Sócrates disse em
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Fedro que a imagem da sabedoria não pode ser vista por
todos os olhos, porque se assim fosse acordar-se-ia
profundamente para o maravilhoso amor para com a
sabedoria divina através de sua imagem.
Mas nós, sem dúvida, percebemos a reflexo da beleza
divina com nossos olhos e notamos a ressonância da harmonia
divina com nossos ouvidos – aqueles sentidos corporais que
Platão considera os mais perceptíveis de todos. Assim, quando
a alma percebe através dos sentidos físicos aquelas imagens
que estão dentro dos objetos materiais, nós lembramos o que
nós sabíamos quando nós existíamos fora da prisão de nosso
corpo. A alma é inflamada por esta recordação e, balançando
suas asas, purga gradualmente a si mesma do contato com o
corpo e torna-se totalmente possuída pelo frenesi divino. Da
parte destes dois sentidos eu mencionei apenas dois tipos de
frenesi que surgem. Recuperando a memória da beleza divina
e verdadeira pela aparência da beleza que os olhos percebem,
nós desejamos a matriz com um secreto e inalterável ardor da
mente. A isto Platão chama “amor divino”, o qual ele define
como o desejo de retornar à contemplação da beleza divina;
um desejo originado da semelhança física. Além disso, é
necessário a ele que seja movido em direção ao desejo da
beleza superior, mas também é necessário que ele se delicie
completamente na aparência que é revelada aos seus olhos.
(...)
A carta completa é mais extensa e descreve as relações das
musas com as diferentes artes e o poder das diferentes artes
para despertar o frenesi divino, o êxtase. A forma que ele
defende é a poesia, transformada em música que enleva a alma
até as alturas da sabedoria divina. Poético como isto é, possui,
entretanto, um sentido prático.
O uso da arte é uma forma de produzir o estado de êxtase
para que a alma se desvencilhe do “comum”.
Agora, alguém deve estar provavelmente se perguntado,
porque este êxtase é necessário.
100
Em primeiro lugar o êxtase conduz a um estado alterado de
consciência. Vivemos os nossos dias criando um programa de
auto-sabotagem, acreditando que todos os nossos planos irão,
necessariamente falhar. Este sistema é um sistema de crença, e
sistemas de crenças moldam o nosso dia-a-dia. Até um ateu é
movido por sistemas de crença, porque isto não envolve,
necessariamente, uma idéia religiosa. Cremos que é melhor
comer com garfo, cremos que é bom andar com roupas, cremos
que é necessário dormir em camas com colchões macios.
Outras sociedades têm outras crenças, outros costumes
(ethos), outras maneiras de ser – originada em crenças de
como as coisas devem ser. Muitíssimas pessoas acreditariam
que os Sigilos terão que falhar, por isto é que criamos novos
símbolos que escapem ao condicionamento da auto-sabotagem.
Estes novos símbolos não estão carregados de idéias obtusas,
provindas de informações repetidas com freqüência. Então é
necessário preencher o símbolo de novos significados. Para isto
nós utilizamos o êxtase, ou frenesi – dos quais o sexo parece
ser o mais potente.
Esta visão do ritual em relação ao símbolo não deve ser
seguida de maneira estática, mas apenas como um início. Com
o tempo você pode desenvolver seus próprios rituais, e
descobrirá que efeitos menores podem ser causados (ou
sincronizados) sem o uso de um ritual complexo, apenas pelo
ato de chegar ao êxtase. No entanto eu aconselharia a sempre
fazer uso de um ritual de abertura e fechamento, para evitar
que as coisas saiam do controle.
E há uma outra forma de se chegar ao êxtase com o uso do
Sigilo. Ao invés de tentar esquecer o que o Sigilo representa é
possível mergulhar no que ele representa, mergulhar fundo.
Isto em si também é uma forma de êxtase, mas pode requerer
um pouco mais de habilidade.
Esquecer o que fez e seguir calmamente
Depois de ter executado o Sigilo você não deveria ficar
mexendo nele o tempo todo, a menos que sinta que o ritual
que fez não foi suficiente e que seria melhor repetir. Depois de
101
repetir, o Sigilo deveria ser deixado em paz, sem tensão. Até o
exemplo do Sigilo para a insônia necessita disto. E isto tudo
porque o Sigilo não deve ser ligado ao programa de autosabotagem,
achando que ele não vai funcionar. Se ele vai
funcionar, vai e pronto! Não deveria ficar havendo medo de que
a coisa não dê certo, porque isto pode realmente atrapalhar
tudo.
Algumas precauções foram tomadas para evitar o programa
de auto-sabotagem. O Ritual Menor de Banimento do
Pentagrama foi usado no começo para evitar a entrada de
“coisas indesejadas”, incluindo pensamentos de fracasso.
Depois o próprio Sigilo foi executado com símbolos novos, que
escapam ao entendimento da mente consciente e do
inconsciente próximo que, diferente do inconsciente profundo
ou do superior, acostumou-se à regra da auto-sabotagem.
Depois uma sensação de êxtase foi ligada ao símbolo, ele
ganhou vida. Então deveria apenas haver esquecimento, tudo já
foi encaminhado da maneira correta.
Logo após o ritual que executou para energizar o Sigilo você
deve buscar uma atividade diferente, de preferência sem
nenhuma conotação esotérica. Assistir uma comédia, ler um
livro ou simplesmente dar um passeio são boas idéias.
Tudo bem! Você executou o Sigilo, fez os rituais, se
esqueceu e ficou calmo. E, então, o que é que vai acontecer.
A Magia Sigicular, como toda forma de Magia, tem uma
infinidade de meios para atuar. Vou dar um exemplo que
aconteceu comigo.
Certa vez eu estava muito, muito mesmo, interessado no
trabalho de Aleister Crowley. Eu queria um livro chamado
Magick in Theory and Practice (Magia em Teoria e
Prática), só que estava sem dinheiro para comprar este caro
volume importado. O Sigilo foi feito com a frase “eu tenho o
livro tal”. Durante dois meses nada aconteceu, até que um dia
um primo me convidou para assinar junto com ele a Internet.
Na época eu nem possuía um computador. Lá pelo quarto ou
quinto endereço que visitei na Rede, escrevi o nome errado e
102
fui dar de cara com o livro que queria, só que em versão ebook.
Isto aconteceu com uma série de livros que acabei
encontrando por acaso. Mesmo aqueles que eu compro em
edição normal, quando executo um Sigilo, me chegam às mãos
por meios inesperados. Um presente de aniversário, um
catálogo com o livro recém lançado – tudo de maneira
inesperada, sem que eu tenha pedido o livro de presente ou
solicitado o catálogo.
Certa vez eu tive um problema no joelho e decidi fazer um
Sigilo. Foi então que descobri que o ortopedista que me tratava
havia tratado vários outros casos e não tinha encontrado
nenhuma solução, alguns até pioraram. Troquei para um que
foi muito melhor, e cujo nome e qualidade vieram a cair em
meus ouvidos enquanto eu estava dentro de um ônibus e duas
fofoqueiras comentavam – bastante bem – sobre ele.
Você também não deve esperar soluções teatrais. Por
exemplo, alguém faz um Sigilo para encontrar um bom
emprego. Não deveria esperar que alguém em cima de um
palco, cheio de luzes coloridas e efeitos cinematográficos venha
lhe oferecer uma oportunidade. Tampouco deveria pedir um
emprego se não tem a mínima idéia de onde procurar. Deveria,
então, primeiro pedir para descobrir um lugar interessante – e
começar a relembrar o próprio dia, pois acontecerá que num dia
o inesperado vai acontecer.
Se alguém pede uma cura, então deveria ficar atento, pois
ela virá através de um médico habilitado e competente. E não
deve se iludir, às vezes o Sigilo ainda não funcionou, então
deve ficar atento.
Encontrar objetos perdidos é uma coisa interessante com os
Sigilos, bem como tentar saber quem originou um boato contra
você. Acontecer comigo uma certa vez que alguém, uma mulher
muito má e que prejudicou várias pessoas, dissesse para meu
pai um falso boato a meu respeito, e ele – é claro – não tardou
em me contar tudo que ouvira. Eu tinha feito um Sigilo para
este caso.
103
CAPÍTULO 3
A Estrutura do Milagre
Corretamente compreendido o processo de criação do Sigilo
já é um ritual. Há um símbolo físico (Malkuth), um processo
mental e emocional que derruba as barreiras (Hod e Netzach),
um contato consigo mesmo em Tiphareth, um despertar de
poder e glória (Geburah e Chesed), uma ligação com os
processos espirituais de criação (Binah e Chokmah), e um
contato com a força espiritual adormecida em nós mesmos
(Yechidah e Kether). Daí o processo se inverte. A força do Eu
Superior foi contatada e ele possui todas as melhores
qualidades e capacidades. No texto sobre o frenesi divino o
autor diz que a mente de Deus possui todas as coisas, sendo a
matriz de tudo. Isto é o macrocosmo, o grande Universo. Mas
as mesmas leis do macrocosmo são as leis do microcosmo, que
é o universo menor, mas completo em si mesmo, também
chamado de ser humano – nós (assim como é acima, é
embaixo). Assim como Deus possuiria a matriz de todo o
universo em sua mente, assim nós – sendo sua imagem e
semelhança, segundo inúmeras lendas – também possuímos
todas as possibilidades futuras presentemente. Estas
possibilidades tornam-se energia direcionada para um fim
(Chokmah), recebida em um manancial em nós mesmos, a
pequena Neshamah (Binah). Esta força da Grande Neshamah,
sendo poder e forma, possui em si mesma a glória (Chesed), e
esta glória é tornada poder de realização (Geburah). Este poder
se manifesta em nós mesmos, produzindo uma primeira
mudança em nossa consciência (Tiphareth). Esta energia tornase
então Vitória sobre os outros sentimentos que temos em
nós, pois é uma outra coisa, algo mudou e tornou-se uma
possibilidade à beira da realização, uma vitória (Netzach). Então
um plano de mudança toma forma em nossas profundezas, um
esquema inteligente e poderoso, ainda assim funcionando
dentro de nós (Hod). Tudo isto provoca uma mudança no plano
104
astral, a energia que forma toda a existência e pela qual todas
as coisas estão conectadas, a maquinaria do Universo
modificou-se (Yesod). Uma manifestação acontece no mundo,
de maneira objetiva (Malkuth).
Por si só, o Sigilo já é um ritual completo, e deve ser este o
motivo de algumas organizações ocultistas não darem o devido
valor ao processo do ritual para ativar o Sigilo. Mas o ritual tem
o poder de afastar dúvidas quanto à realização do que foi
sigilizado, fazendo com que a pessoa se centralize mais.
Centralizar-se é a idéia chave. O Ritual Menor do Pentagrama
tem um efeito poderoso para que a pessoa se alinhe consigo
mesma e se centralize e concentre em algo que vai fazer. O
ritual, sendo repetido no final do trabalho mágico, bane as
incertezas e o medo de fracasso. Não deve haver ânsia pelo
resultado, pois isto pode afetar seriamente todo o trabalho. O
ritual de purificação executado no final dos trabalhos mágicos
evita a “mistura de estações” quando a pessoa esquece de
voltar para a realidade cotidiana e canalizar as forças poderosas
para a realização. Esta canalização para o mundo não deve ser
confundida com memória do Sigilo, mas com viver normalmente
e deixar as coisas acontecerem.
A teoria do caos e as leis da Física e suas relações
com a Magia Sigicular, também sobre os sistemas de
interpretação
Um campo inteiro de pesquisa, que começou a ganhar força
no final de 1960, veio a revolucionar muitas teorias e
paradigmas científicos. Um paradigma é um modelo pelo qual
construímos a realidade, um exemplo é o modelo de que a
Terra era plana e agora o paradigma mudou para um modelo
de Terra redonda. Outro exemplo era o paradigma de que os
objetos simplesmente caíam no chão, mais tarde descobriu-se
que a Terra os atraía como um ímã, e todo um conjunto de
outras teorias da Física se desenvolveu a partir daí, houve uma
mudança de paradigma.
A teoria do caos tenta pesquisar conjuntos erráticos,
aparentemente caóticos e que não respondem a leis
105
conhecidas. A bolsa de valores (onde um boato pode fazer uma
empresa quase falir) é um exemplo.
Entre as muitas teorias da nova ciência do caos (nem tão
nova assim) está o que é chamado de efeito borboleta. Ela
diz, como ilustração, que uma borboleta batendo asas na Índia
pode provocar tempestades em Nova York. Claro que isto é
somente uma ilustração (espera-se), mas alguns sistemas,
como um cometa, podem sofrer modificações drásticas com o
uso de pequenas quantias. Um exemplo disto é quando países
do Oriente aumentaram a produção de arroz e mudanças
climáticas puderam ser sentidas no Ocidente. Uma coisa
despropositada e simples, como uma plantação maior de arroz,
pode realmente modificar todo o mundo. Pense nisto por um
momento. Se, por exemplo, as chuvas aumentam num período
em que deveriam ser menores por causa de uma plantação de
arroz do outro lado do mundo, então as plantas daquela safra
sofrem danos. A safra sendo menor faz com que produtos
específicos subam de preço, e talvez produtores com safras que
não foram arruinadas e de outras culturas queiram aumentar
seus preços. Os supermercados podem perder fregueses para
outros que ofereçam um produto substituto. As bolsas se
desequilibram, caminhoneiros ficam sem empregos, agricultores
ganham dívidas e seus filhos podem passar a ir mal nas
escolas. Outros colegas se desanimam com os problemas dos
colegas cujos pais dependem da agricultura. E certamente
outras coisas vão acontecer num efeito explosivo em cadeia. No
primeiro do século 21 o atentado terrorista contra o World
Trade Center em Nova York causou muito mais do que isso,
somente com a queda de dois prédios que eram o centro
financeiro do mundo – e claro que havia a perda humana.
Cometas são afetados em suas órbitas pelo campo
gravitacional de pequenos planetas.
O efeito borboleta pode, e faz, mudanças drásticas em
determinados sistemas. O Sigilo, pequeno e simples como é,
não pode ser desprezado. O seu efeito é uma verdadeira
avalanche, desde que esteja nas mãos certas. É como se a vida


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