Guia alimentar para crianças menores de 2 anos - parte 5


9 4 5 > 2
Acredita-se que, no Brasil, em geral, as crianças pequenas ingerem
quantidades adequadas de vitamina A, com exceção na região Nordeste e
em algumas comunidades fora dessa região, onde o alimento complementar
passa a ter vital importância como fonte dessa vitamina. O Estudo
Multicêntrico de Consumo Alimentar (Brasil, 1999b) revelou que a média
de ingestão de vitamina A foi adequada em crianças menores de dois anos
nos municípios pesquisados, com exceção de Ouro Preto, onde 50% das
crianças não atingem as recomendações de ingestão do micronutriente
(Tabela 27).
74
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D&G
Salvador 191,0 146,8
Goiânia 201,1 135,1
Ouro Preto 92,4 66,0
São Paulo 170,6 109,6
Curitiba 147,0 105,5
8 Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar – 1996 / 97 (Brasil, 1999b)
Todavia, quando os dados
' *
foram categorizados por classe de renda (São Paulo, Goiânia, Ouro Preto)
observou-se que as famílias com renda de dois ou menos salários mínimos
apresentaram dietas deficientes em vitamina A (Galeazzi at al., 1997).
O Estudo Qualitativo Nacional de Práticas Alimentares (Brasil,
1998a) observou, nas entrevistas, que existe por parte das mães a
identificação de alimentos M& . K como legumes, verduras e
frutas. No Nordeste, embora as mães tenham essa mesma opinião, elas não
reconhecem esses alimentos como fontes de vitamina A. Os dados de todas as
regiões sugerem que esses alimentos não são prioridades de compra e nem de
consumo. As mães referem que os alimentos da família são adquiridos
periodicamente (semanal, quinzenal ou mensal, conforme o ingresso de
recursos familiares), sendo feita inicialmente uma compra, em
supermercados, sendo dada prioridade aos alimentos considerados básicos:
arroz, feijão, açúcar, macarrão, leite e óleo. As frutas, verduras e legumes são
adquiridos semanalmente em supermercados, feiras ou mercados menores,
dependendo da disponibilidade de recursos. Dentre os legumes (ricos em
vitamina A) citados como parte da sopa das crianças, a cenoura apareceu com
mais freqüência nas quatro regiões onde foram realizados estudos
qualitativos. A beterraba também compõe o cardápio das crianças das regiões
Sul, Sudeste e Centro-Oeste, bem como a abóbora (moranga).
9 4 5 B 2?@ '
São limitadas as informações sobre o número de refeições diárias em
crianças pequenas no Brasil. O Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar
(Brasil, 1999b) abordou essa questão e revelou que é grande o número de crianças
que faz de cinco a seis refeições por dia a partir dos seis meses (Tabelas 28 e 29).
75
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< Quatro 9,6 0,0 5,9 0,0
Quatro 15,5 19,6 15,5 5,5
Cinco 34,3 25,5 31,6 28,8
Seis 40,6 54,9 47,0 65,7
8 Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar – 1996 / 97 (Brasil, 1999b)
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< Quatro 4,6 7,8 3,1 1,4
Quatro 13,2 10,4 12,0 7,9
Cinco 38,2 37,7 43,6 33,6
Seis 44,1 44,1 41,3 57,1
8 Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar – 1996 / 97 (Brasil, 1999b)
O estudo sobre práticas alimentares de crianças menores de dois
anos da região Sul indica uma média de cinco refeições por dia entre
crianças de seis a 23 meses (Almeida et al., 1998).
O Estudo Qualitativo Nacional de Práticas Alimentares (Brasil,
1998a) demonstrou que é bastante difícil precisar a freqüência de refeições
das crianças, mesmo porque a definição do que vem a ser uma refeição pode
ter variações. A informação dada pelas mães sobre a freqüência de refeições
das crianças é influenciada pela sua capacidade de lembrar quantas vezes
alimentou a sua criança e pela sua própria concepção sobre o que é uma
refeição para a criança pequena. Isso tem implicações diretas na precisão
com que este dado pode ser coletado através de métodos apenas
quantitativos.
Muitas vezes, a freqüência com que a criança é alimentada depende
da disponibilidade do alimento e do tempo da mãe para preparar e oferecer
o alimento para a criança. Outro elemento fundamental para a decisão das
mães sobre a freqüência de alimentação é a fome da criança. As mães
reconhecem a fome por diferentes sinais, que variam conforme a faixa
etária: entre zero e cinco meses, o principal sinal é o choro; dos seis aos
onze meses, além do choro já há algumas formas de manifestação da
76
criança (esperneia, pede) ou sinais percebidos pela própria mãe, como
& $ ) ; entre doze e 24 meses, a maioria das mães refere que as
próprias crianças solicitam o alimento e várias explicam o horário da fome
em função do horário das refeições.
O bebê que mama no peito, segundo as mães, come toda hora e vai
espaçando mais o intervalo entre suas refeições à proporção que cresce. Já as
crianças maiores comem de três a quatro vezes por dia, mas podem comer
“alguma coisinha” como fruta ou biscoito, nos intervalos, se a criança sentir
fome. O horário parece não ser importante na faixa etária dos zero aos cinco
meses, visto que o alimento é oferecido segundo a manifestação de fome da
criança. O horário começa a funcionar como marcador, para um maior
número de mães, para as crianças entre seis e 24 meses, seguindo o horário
das refeições principais da família (café, almoço e jantar), com os quais são
intercalados lanches, mamadeiras ou peito, perfazendo uma média de cinco a
seis ofertas de alimento (refeições / lanches) por dia. No estudo da região
Sul, ficou claro que as mães buscam intercalar as refeições, entendidas como
café, almoço e jantar, com alimentos mais leves – frutas, papinhas, iogurtes,
mingaus – e mamadeiras ou peito.
Os dados atualmente disponíveis não permitem conclusões seguras
sobre a freqüência de refeições das crianças menores de dois anos no País,
até porque a diferença no conceito de refeição, lanche e/ou merenda, entre as
mães, não é uniforme. Estudos adicionais que incluem um maior número de
locais representativos das diversas regiões do País são desejáveis, se possível
com sub-amostras para observação direta da freqüência de alimentação.
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9 4 5 I !
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É provável que deficiências nas práticas de higiene dos alimentos
complementares desempenhem um papel importante no risco de morbidade e
mortalidade infantil por doenças diarréicas, no Brasil (Barros e Victora, 1990).
Existem poucos estudos epidemiológicos populacionais sobre as
práticas de higiene dos alimentos complementares ou estudos bacteriológicos
que mostrem o nível de contaminação destes alimentos dentro do domicílio.
No entanto, encontrou-se um risco cinco vezes maior de diarréia coincidindo
77
com a introdução dos alimentos complementares em bebês residentes em área
de favela em Fortaleza. (Guerrant et al.,1983).
Também em população menos favorecida em Fortaleza, Monte
encontrou, através da observação direta das práticas de preparo dos alimentos
infantis, no domicílio de 300 mães de bebês menores de um ano, que o
padrão de práticas de higiene dos alimentos complementares era muito
desfavorável. Cerca de 95% das mães não lavavam as mãos antes de preparar
o alimento; 83% adicionavam, após a fervura de leites e mingaus, água
previamente estocada e que não havia sido fervida; 83% não usavam sabão
para lavar utensílios e mãos, quando do preparo dos alimentos; e mais de 99%
das mães não ferviam os utensílios usados para alimentar os bebês que, em
90% dos casos, era mamadeira. A estocagem de alimentos preparados há mais
de uma hora foi referida por apenas 10% das mães mas, na observação,
identificou-se essa prática em cerca de 22% dos domicílios estudados. Em
nenhum dos domicílios o alimento foi reaquecido antes de ser dado ao
bebê.(Monte, 1993).
Nesse mesmo estudo, com a mesma população, foi observado que
cerca de 36% dos bebês tinham tido diarréia nas últimas duas semanas e 11%
estavam com diarréia no dia da entrevista. Destes, 26% tinham menos de seis
meses. (Monte,1993).
Mais recentemente, (Mesquita, 2000) encontrou, em área periurbana
pobre de Fortaleza, que, dentre 129 crianças menores de dois anos estudadas,
todas em alimentação complementar, 27% estavam com diarréia no dia da
entrevista. Estocagem de alimentos complementares já preparados foi
praticada por 24% das mães. Dessas, 47% estocavam leite e mingaus e 33%
estocavam macarrão e arroz, depois de preparados.
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78
No Brasil, as informações existentes sobre as práticas de higiene na
manipulação dos alimentos complementares são escassas. As mães não estão
usando os procedimentos de processamento domiciliar simples que previnem
a contaminação bacteriana dos alimentos complementares. Portanto, esses
estudos indicam que as tais práticas são desfavoráveis.
9 4 5 H F / C A
As mães, com muita freqüência, usam mamadeira para oferecer
chás, sucos e água desde os primeiros dias de vida dos bebês.
A PNDS-1996 mostrou que, mesmo entre as crianças amamentadas,
é alta a porcentagem de crianças que usam mamadeiras (Tabela 30). Cerca de
1/3 das crianças usa mamadeira já no primeiro mês de vida. Para as crianças
de dois a sete meses, esse percentual chega a atingir quase 60%. No segundo
ano de vida, o uso de mamadeira persiste em 30% das crianças, apesar das
mesmas já estarem consumindo alimentos da família.
2#3 4# A
  " ( "
$ C
- 1
L 1
0-1 115 33,6
2-3 115 57,1
4-5 100 58,3
6-7 83 59,2
8-9 66 54,5
10-11 70 52,6
12-13 70 35,1
14-15 41 30,3
16-17 44 52,0
18-23 85 28,6
8 Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil -1997
Um estudo realizado com 441 bebês, menores de doze meses de
idade, em área de favela em Fortaleza, detectou o uso de mamadeira em
mais de 90% das crianças estudadas. Observação direta da preparação e
administração dos alimentos mostrou que as mamadeiras são uma importante
fonte de contaminação dos alimentos dos bebês e que são consideradas, pelas
mães, impossíveis de serem limpas (Monte et al., 1997).
79
Outros riscos do uso de mamadeiras como o preparo de dietas
muito diluídas ou concentradas, o desmame precoce por confusão gerada
pela exposição a diferentes técnicas de sucção e o aumento nos riscos de
mortalidade – já foram descritos no item “Importância do Aleitamento
Materno Exclusivo”, deste Guia.
9 4 5 6N
C /
O Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar mostrou que 70%
das calorias ingeridas por crianças de seis a doze meses nas cidades de Ouro
Preto, São Paulo e Curitiba são provenientes de oito produtos (em ordem
decrescente: em
– açúcar, leite fluido, leite em pó integral, leite
materno, fubá e derivados, biscoitos, arroz e feijão; em – leite em
pó integral, leite fluido, açúcar, espessantes, leite materno, batata, carne
bovina e macarrão; em
& – leite fluido, sopa, leite em pó integral,
açúcar, leite materno, arroz, biscoitos e leite em pó modificado). A
alimentação das crianças nessa faixa de idade é basicamente láctea (leite
materno e/ou de vaca), acrescido de açúcar e espessantes. A contribuição da
dieta láctea (leite, açúcar e espessante) do total do consumo energético das
dietas nessa faixa etária varia de 45% em Curitiba a 68% em Salvador. O
consumo de outros alimentos varia de acordo com o local, mas quase
sempre inclui biscoito, arroz, feijão, macarrão e batata. A laranja aparece
nesse grupo apenas na cidade de Curitiba. Em Salvador, a dieta das crianças
parece ser menos diversificada, uma vez que cinco produtos são
responsáveis por 70% das calorias ingeridas (em ordem decrescente: leite
em pó integral, espessantes, açúcar, leite materno e laranja). O consumo de
frutas, verduras e folhosos verdes variados não constitui um hábito entre as
crianças no primeiro ano de vida.
A dieta das crianças no segundo ano de vida é mais diversificada:
onze produtos fornecem em torno de 70% do consumo energético total da
dieta em Ouro Preto, São Paulo e Curitiba, e oito em Salvador. A
contribuição da dieta láctea como fonte de energia nessa faixa etária
continua elevada, variando de 34% em Curitiba a 58% em Salvador. Entre
as dez principais fontes de energia, oito são comuns em São Paulo, Ouro
Preto e Curitiba (leite
  , leite em pó integral, açúcar, espessante,
arroz, carne bovina, biscoitos e macarrão). Nesse grupo, já observamos o
uso da carne bovina, de frango, de cereais e derivados e de frutas. Nessa
faixa etária permanece o baixo consumo de frutas, verduras e legumes.
80
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1
2
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No Brasil, existem muitas crenças e tabus relacionados ao consumo
de alimentos e, em especial, à alimentação da criança pequena. Esse é um
aspecto importante a ser considerado na discussão com a mãe sobre a
alimentação de seu filho.
Entende-se por crença a opinião adotada com fé e convicção, e por
tabu a proibição convencional imposta por tradição ou costume a certos
atos, modo de se alimentar, de se vestir, etc.
As crenças e tabus, muitas vezes, trazem prejuízo às crianças por
limitar o uso de alimentos importantes para o seu crescimento e
desenvolvimento, apesar de, esses alimentos, muitas vezes, estarem
localmente disponíveis e serem consumidos por outros membros da família.
Essa questão deve ser trabalhada com a mãe, procurando-se contornar (e
não combater) a situação, tendo-se em mente que crenças e tabus não se
desfazem facilmente, por estarem arraigados à cultura.
É grande a lista de alimentos que, segundo as mães, devem ser
evitados na alimentação das crianças pequenas pela possibilidade de causarem
efeitos indesejáveis no funcionamento do corpo e na saúde da criança:
• M K (que provocam inflamação) – +
: camarão,
caranguejo, carne de porco, jacaré, ovo, pato, peixe de couro,
pirarucu; +
: ata / pinha, carne de porco, peixe de água
doce, peixe de couro, peru;
(
: carne de porco;
: lingüiça.
• M C '
K – +
0 feijão;
(
: carne
gorda, feijão, fritura, ovo, peixe;
: carne de porco,
carnes salgadas, comida gordurosa; : carne de porco,
goiaba, comida gordurosa, leguminosas, mamão, manga,
mingau de milho, pepino, ovo.
• M $ K –
: sardinha, robalo
• M $
K – +
: jaca, jambo; 0 banana, carne de
porco, frango, iogurte, maionese, morango, pepino, pimentão.
• M K – +
: folhas verdes em geral;
+
: batata doce, folhas verdes em geral, jerimum /
abóbora.
• M & $ K – +
: camarão, carne de porco.
Há também os alimentos que são evitados pela crença de que
podem causar doenças. No Norte, acredita-se que o pirarucu cause dermatose
81
e os óleos vegetais, diarréia; no Nordeste, o óleo é tido como causador de
diarréia e a semente de tomate faz mal à vesícula; no Sudeste, muito doce
causa verminose, a batata causa constipação, a gema de ovo causa
e o feijão e outras comidas '
dão diarréia e desidratação; e no Sul, vários
alimentos estão associados a alergia (alimentos ácidos, azeitona, carne de
porco, chocolate, farinha láctea, fígado de boi, peixe, pimentão, queijo,
repolho, salsicha, suco artificial, tomate), a diarréia (beterraba, iogurte, leite
de vaca, lentilha, tangerina / mimosa / bergamota / mixirica); a cólicas
(alimentos ácidos, fubá, maçã, tomate), a constipação (banana, batata,
chocolate, feijão, amido de milho) e assaduras (cebola, chocolate, tangerina /
mimosa / bergamota / mixirica).
Não é menor a lista de mistura de alimentos considerados
prejudiciais à criança. Existem algumas variações regionais, mas alguns
tabus são comuns em praticamente todo o Brasil, como, por exemplo, a
mistura de leite com algumas frutas como manga, considerada fatal. A
seguir, são apresentadas algumas misturas que, segundo a percepção das
mães, fazem mal:
• Norte – leite com manga, caju, goiaba, açaí; açaí com outras
frutas; peixe com carne.
• Nordeste – leite com manga.
• Centro-Oeste – leite com manga, beterraba, ovo; ovo com
manga, abacaxi, peixe; maçã com banana.
• Sul – leite com uva, melancia, mamão, laranja, amido de
milho, pepino; laranja com cenoura; melancia com uva; frutas
misturadas; salada com comida quente.
Além dos alimentos e das misturas alimentares evitadas em
crianças menores de dois anos, existem crenças e tabus relacionados às
circunstâncias em que os alimentos são ingeridos. Por exemplo, na região
Norte acredita-se que fruta ou feijão quando ingeridos à noite causa má
digestão, e que alimentos gemelares (ex. gema, banana ) não podem ser
comidos por mulheres, pois causam gestação gemelar. No Nordeste,
banana, se ingerida à tarde, é . No Sudeste, frutas à tarde e feijão à
noite fazem mal. Na região Sul, a banana consumida após o almoço é tida
por alguns como indigesta.
Evidentemente, as crenças e os tabus não são compartilhados por
toda a população. O Estudo Qualitativo Nacional de Práticas Alimentares
(Brasil, 1998a) mostrou que, na região Sudeste, 1/3 das entrevistadas
(principalmente as que tem filhos entre seis e doze meses) não sabiam quais
82
alimentos que fazem mal e outras responderam que não existe comida que
faz mal, ou apontaram alguma situação em que a comida pode fazer mal,
como comida pesada à noite. No entanto, é importante o conhecimento das
crenças e tabus de cada região para se ter uma visão mais compreensiva das
práticas alimentares das crianças brasileiras menores de dois anos e para
melhor atuar no sentido de melhorar essas práticas.
Esse mesmo Estudo demonstrou que a percepção das mães quanto
aos alimentos que devem ser evitados na alimentação das crianças é correta
no que se refere às suas condições sanitárias. Na região Sul, a percepção da
mãe sobre alimento ruim está associado ao estado de conservação dos
alimentos (estragados, podres), ao tempo de preparo (requentados), à
quantidade ingerida (em excesso) e à temperatura (muito gelado). Nas
regiões Nordeste e Centro-Oeste, as mães consideram alimentos ruins
aqueles com as seguintes características:
$ (azedos, fermentados,
apodrecidos, impróprios para consumo), (preparado em um dia e
dado no outro), , , ) $ , 2 !
M
K e queK K (provoca gazes, demora a digerir).
É importante também no aconselhamento da escolha dos alimentos
ter conhecimento dos alimentos reconhecidos pelas mães como
aconselháveis para a alimentação das crianças pequenas. As razões
apontadas por elas para a escolha dos alimentos podem ser usadas como
conteúdo motivacional das mensagens repassadas nos aconselhamentos
(Monte e Sá, 1998). As preferências e as razões indicadas pelas mães para a
escolha dos alimentos, bem como para o preparo dos mesmos, variam entre
as diversas populações e devem ser conhecidas pelos profissionais de saúde
envolvidos na promoção de uma alimentação infantil saudável.
Na região Sudeste, foram considerados bons para a saúde as
carnes, principalmente de alguns tipos de peixe (parati, cará), frango (carne
branca, fígado), legumes, verduras, arroz e feijão. Esses alimentos são
considerados fortes no sentido de que têm ferro. Há também referência a
alimentos frescos como alimentos bons.
Na região Sul, observa-se que os alimentos considerados bons são
aqueles que
, as . Considera-se também a
temperatura ideal dos alimentos infantis que não devem ser nem muito
quentes, nem muito gelados, mas mornos.
Na região Centro-Oeste, são considerados bons os seguintes
alimentos: hortaliças (destacando-se a cenoura e a beterraba), frutas, carne,
leite e derivados.
No Nordeste (Piauí) as preferências de alimentos para crianças
pequenas e as razões indicadas pelas mães foram: acerola, rica em vitamina C,
combate a gripe; beterraba e feijão – fonte de ferro; arroz, macarrão – fácil
83
preparo e digestão; iogurte – alimento que tem status; leite de vaca – bom
para a saúde, criança cresce forte, fácil de ser oferecido (por mamadeira,
diversas preparações); e vegetais – alimentos suaves (Monte e Sá, 1998).
Na região Norte, os alimentos considerados pelas mães como “
. ”, são os seguintes: frutas, com destaque à laranja
e banana, sopas e mingaus principalmente o mingau de massa de carimã,
(subproduto da mandioca) que faz parte da cultura tradicional da região.
O Estudo Qualitativo Nacional de Práticas Alimentares (Brasil,
1998a) permite inferir que, embora a alimentação humana possa referir-se a
uma necessidade básica para a sobrevivência, ela não se limita a um
fenômeno natural, na medida em que as práticas alimentares encontram-se
vinculadas tanto à disponibilidade de alimentos quanto à escolha dos
mesmos dentro de uma gama de possibilidades. Nesse sentido, tanto a
desnutrição quanto a supernutrição devem ser entendidas como efeitos de
um conjunto de práticas inseridas em um sistema sociocultural mais
abrangente. As escolhas de alguns alimentos em detrimento de outros, nos
diferentes grupos, refletem sistemas de classificação de alimentos que estão
baseados em valores socioeconômicos e culturais que indicam o que deve
ou não ser consumido nos diferentes contextos.
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A família deve receber orientação quanto à alimentação das crianças
nos períodos de doença e de convalescença. Por isso, para um adequado
84
aconselhamento nessas circunstâncias, é imprescindível conhecer as práticas
alimentares locais das crianças pequenas, na vigência de doenças.
No Nordeste, a criança doente recebe uma dieta insatisfatória do
ponto de vista qualitativo e quantitativo. Apesar de a necessidade de
líquidos e nutrientes ser maior nesta fase, a ingestão é reduzida pela
anorexia e/ou não administração, devido à falta de informação das mães, às
orientações dadas por profissionais de saúde para suspender a alimentação
e/ou aos tabus alimentares.
Nas regiões Sudeste e Nordeste, durante os períodos de doença, as
mães oferecem preferencialmente os alimentos que as crianças gostam,
como mamadeira, leite do peito, frutas e biscoitos. Os alimentos são
oferecidos em forma mais líquida ou mais para as crianças, de forma a
facilitar sua deglutição. As mães tendem a não valorizar a falta de apetite
durante as doenças, concentrando-se no tratamento da causa da anorexia, o
que pode dificultar a orientação alimentar da criança doente.
Na região Sul, evidenciou-se que nos episódios de doença as mães
percebem que há uma diminuição do apetite da criança, mas isso não é
considerado grave, principalmente se a criança aceita algum tipo de
alimento, mesmo que muito pouco, como sopas leves ou leite do peito. Ou
seja, é considerado normal pelas mães que uma criança com gripe, dor de
garganta, ou mesmo com 2 &
, & 7
ou vermes (& ) ) não
sinta tanta vontade de comer. A busca de recurso médico só é acionada em
função da doença. Importa ainda ressaltar a diferença estabelecida por
muitas das mães entrevistadas entre a diminuição do apetite que ocorre em
caso de doença, e a perda do apetite. Essa última implica na não aceitação
de qualquer tipo de alimento, uma condição considerada extremamente rara
e desconhecida para muitas.
Na região Centro-Oeste, verificou-se que o alimento mais aceito
durante a doença é o leite (materno ou não humano) e a água de coco. É
comum a suspensão da alimentação nas diarréias e o não-consumo de certos
alimentos (carne de porco, feijão, mamão, ovo, gordura, doces, suco de
limão, banana e caju) nas gripes e tosse.
Na região Norte, verificou-se que durante episódios de doenças, as
crianças apresentam redução do apetite, e nestas ocasião, segundo as mães,
o alimento de melhor aceitação é o leite materno.
O Estudo Qualitativo das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste
indicaram que as avós e as vizinhas são procuradas em busca de conselhos
quando as crianças não querem comer, constituindo-se em uma importante
fonte de informações. O médico é procurado mais para tratar das doenças
que podem estar causando a diminuição do apetite.
85
Na região Nordeste, alimentos especiais são dados à criança doente
tais como chás, água de coco e sopas ralas. Alimentos que “prendem o
intestino” tais como água de arroz e banana, são dados se a criança está com
diarréia. As preferências alimentares da criança são habitualmente
respeitadas pelas mães.
Na região Norte, há relato de suspensão da alimentação e uso de
chás, água de arroz e banana nos casos de diarréia e de algumas frutas
(coco, melancia, pupunha) e verduras em episódios de gripe / tosse. Manga
e peixe de pele são evitados na vigência de febre, caldo de cana na malária,
camarão e caranguejo nas alergias e açaí nas doenças em geral.
Os estudos mostram que a atual alimentação da criança doente é
inadequada. As crianças não são estimuladas a comer adequadamente e não
há reconhecimento das mães quanto à necessidade de uma maior oferta de
alimentos, durante o período de convalescença. Esses são importantes
aspectos a serem considerados na promoção da nutrição das crianças
menores de dois anos de idade.
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5 Síntese dos Problemas Nutricionais e Alimentares Identificados
Os dados apresentados neste documento sobre a situação
nutricional e as práticas alimentares de crianças brasileiras menores de dois
anos permitem as seguintes conclusões:
= - "
1 – A desnutrição energético-protéica em crianças continua sendo
um problema de saúde pública, especialmente nas regiões
Norte e Nordeste, nas áreas rurais e em grupos menos
privilegiados.
86
2 – O principal tipo de desnutrição é o retardo no crescimento
linear, reflexo de períodos prolongados de alimentação
deficiente e episódios freqüentes de infecções.
3 – A proporção de crianças com baixo peso ao nascer é alta.
4 – Os índices de obesidade estão aumentando.
5 – A anemia é altamente prevalente em todas as regiões,
especialmente em populações de baixa renda.
6 – A deficiência de vitamina A é um problema de saúde pública
no Nordeste e em algumas comunidades de outras regiões
= &   ! "
#
1 – Apesar do aumento das taxas de aleitamento materno, a
prevalência e a duração dessa prática estão abaixo do
recomendado atualmente.
2 – A amamentação exclusiva ainda é pouco praticada em todas
as regiões.
3 – É comum a introdução precoce dos alimentos complementares.
4 – As dietas são, em geral, adequadas quanto ao conteúdo protéico e
de vitamina A. No caso dessa vitamina, pode haver deficiência
na dieta de famílias com menos de dois salários mínimos de
renda mensal, nas diferentes áreas geográficas.  
2
  *" * &
' ' 7
' " "
5 – As dietas são, em geral, consideradas adequadas quanto ao
conteúdo energético. No entanto, dados que correlacionem a
adequação energética de dietas com as faixas de renda
familiar não são disponíveis.
6 – As dietas com freqüência, possuem baixa densidade energética,
o que pode estar relacionada com a sua pouca consistência.
7 – As dietas são deficientes em ferro.
8 – As dietas tendem a ser monótonas, especialmente para o
grupo de seis a onze meses.
9 – A oferta diária de alimentos à criança é compatível com as
recomendações, muito embora não se possa afirmar que a
qualidade e a consistência da dieta oferecida sejam adequados.
10 – A mamadeira é amplamente utilizada, mesmo em crianças
pequenas amamentadas.
11 – Existem muitas crenças e tabus relacionados à alimentação da
criança, alguns deles prejudiciais.
87
12 – Algumas práticas alimentares adotadas com as crianças
doentes ou convalescentes são prejudiciais.
6 Recomendações Para Uma Alimentação Saudável
As evidências científicas, associadas aos resultados do Estudo
Qualitativo Nacional de Práticas Alimentares e do Estudo Multicêntrico de
Consumo Alimentar permitiram sistematizar as recomendações para a
obtenção de uma alimentação saudável para crianças menores de dois anos,
sintetizadas, a seguir, em:
> I C

# !' % 1
3
I
#
Estes Dez Passos deverão nortear os conteúdos das mensagens a serem
repassadas para a população alvo. São eles:
PASSO 1 –
'
!$ )! 2 2  
• O leite materno contém tudo o que a criança necessita até o 6o
mês de idade, inclusive água, além de proteger contra infecções.
• A criança que recebe outros alimentos além do leite materno
antes dos seis meses, principalmente através de mamadeira,
incluindo água e chás, adoece mais e pode ficar desnutrida.
PASSO 2 –
' '
$

• A partir dos seis meses, o organismo da criança já está
preparado para receber alimentos diferentes do leite materno,
que são chamados de alimentos complementares.
• Mesmo recebendo outros alimentos, a criança deve continuar a
mamar ao peito até os dois anos ou mais, pois o leite materno
continua alimentando a criança e protegendo-a contra doenças.
• Com a introdução da alimentação complementar, é importante
que a criança beba água nos intervalos das refeições.
88
PASSO 3 –
J  
 & $ '  
$ =

@ " &
"
"
• Se a criança está mamando ao peito, três refeições por dia com
alimentos adequados são suficientes para garantir uma boa
nutrição e crescimento, no primeiro ano de vida. No segundo
ano de vida, devem ser acrescentados mais dois lanches, além
das três refeições.
• Se a criança não está mamando no peito, deve receber cinco refeições
ao dia, com alimentos complementares já a partir do sexto mês.
• Algumas crianças precisam ser estimuladas a comer (nunca
forçadas).
PASSO 4 –
" ' $
) !
( "
• Crianças amamentadas no peito em livre demanda desenvolvem
muito cedo a capacidade de autocontrole sobre a ingestão de
alimentos, aprendendo a distinguir as sensações de saciedade
após as refeições e de fome após o jejum (período sem oferta de
alimentos). Esquemas rígidos de alimentação interferem nesse
processo de autocontrole pela criança.
• Este aprendizado precoce é fundamental na formação das
diferenças nos estilos de controle de ingestão de alimentos nos
primeiros anos de vida.
• O tamanho da refeição está relacionado positivamente com os
intervalos entre as refeições. Grandes refeições estão associadas
a longos intervalos e vice-versa.
• É importante que as mães desenvolvam a sensibilidade para
distinguir o desconforto do bebê por fome de outros tipos de
desconforto (sono, frio, calor, fraldas molhadas ou sujas, dor,
necessidade de carinho) para que elas não insistam em oferecer
alimentos à criança quando esta não tem fome.
• Sugere-se que para as crianças em aleitamento materno sejam
oferecidas, sem esquema rígido de horário, três refeições
complementares: uma no período da manhã, uma no horário do
almoço e outra no final da tarde ou no início da noite.
• Para as crianças já desmamadas, devem ser oferecidas três
89
refeições e dois lanches, assim distribuídos: no período da
manhã (desjejum), meio da manhã (lanche), almoço, meio da
tarde (segundo lanche), final da tarde ou início da noite (jantar).
PASSO 5 –
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' ) O
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J C
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"
@
) $
' *
• No início da alimentação complementar, os alimentos
oferecidos à criança devem ser preparados especialmente para
ela, sob a forma de papas / purês de legumes / cereais / frutas.
São os chamados alimentos de transição.
• A partir dos oito meses, podem ser oferecidos os mesmos
alimentos preparados para a família, desde que amassados,
desfiados, picados ou cortados em pedaços pequenos.
• Sopas e comidas ralas / moles não fornecem energia suficiente
para a criança.
• Deve-se evitar o uso da mamadeira, pois a mesma pode
atrapalhar a amamentação e é importante fonte de
contaminação e transmissão de doenças.
• Recomenda-se o uso de copos (copinhos) para oferecer água ou
outros líquidos e dar ao alimentos semi-sólidos e sólidos com
prato e com a colher.
PASSO 6 – ' '
F
"
• Desde cedo a criança deve acostumar-se a comer alimentos
variados.
• Só uma alimentação variada evita a monotonia da dieta e
garante a quantidade de ferro e vitaminas que a criança
necessita, mantendo uma boa saúde e crescimento adequados.
• O ferro dos alimentos é melhor absorvido quando a criança
recebe, na mesma refeição, carne e frutas ricas em vitamina C.
• A formação dos hábitos alimentares é muito importante e
começa muito cedo. É comum a criança aceitar novos
alimentos apenas após algumas tentativas e não nas primeiras.
O que pode parecer rejeição aos novos alimentos é resultado do
processo natural da criança em conhecer novos sabores e
90
texturas e da própria evolução da maturação dos reflexos da
criança.
• Os alimentos devem ser oferecidos separadamente, para que a
criança aprenda a identificar as suas cores e sabores. Colocar
as porções de cada alimento no prato, sem misturá-los.
PASSO 7 – 8
! '  
" $
' %
• As crianças devem acostumar-se a comer frutas, verduras e
legumes desde cedo, pois esses alimentos são importantes
fontes de vitaminas, cálcio, ferro e fibras.
• Para temperar os alimentos, recomenda-se o uso de cebola,
alho, óleo, pouco sal e ervas (salsinha, cebolinha, coentro).
PASSO 8 – 8"
. '
'
  ' $
&
$ )  
$ "
F
• Açúcar, sal e frituras devem ser consumidos com moderação,
pois o seu excesso pode trazer problemas de saúde no futuro. O
açúcar somente deve ser usado na alimentação da criança após
um ano de idade.
• Esses alimentos não são bons para a nutrição da criança e
competem com alimentos mais nutritivos.
• Deve-se evitar dar à criança alimentos muito condimentados
(pimenta, mostarda, “catchup”, temperos industrializados).
PASSO 9 – ) $
O
$
" 2
• Para uma alimentação saudável, deve-se usar alimentos frescos,
maduros e em bom estado de conservação.
• Os alimentos oferecidos às crianças devem ser preparados pouco
antes do consumo; nunca oferecer restos de uma refeição.
• Para evitar a contaminação dos alimentos e a transmissão de
doenças, a pessoa responsável pelo preparo das refeições deve
lavar bem as mãos e os alimentos que vão ser consumidos,
assim como os utensílios onde serão preparados e servidos.
91
• Os alimentos devem ser guardados em local fresco e
protegidos de insetos e outros animais.
• Restos de refeições que a criança recusou não devem ser
oferecidos novamente.
PASSO 10 – 8
"
'
) &
 
'
• As crianças doentes, em geral, têm menos apetite. Por isso, devem
ser estimuladas a se alimentar, sem, no entanto, serem forçadas a
comer.
• Para garantir uma melhor nutrição e hidratação da criança doente,
aconselha-se oferecer os alimentos de sua preferência, sob a forma
que a criança melhor aceite, e aumentar a oferta de líquidos.
• Para a criança com pouco apetite oferecer um volume menor de
alimentos por refeição e aumentar a freqüência de oferta de
refeições ao dia.
• Para que a criança doente alimente-se melhor, é importante
sentar-se ao lado dela na hora da refeição e ser mais flexível
com horários e regras.
• No período de convalescença, o apetite da criança encontra-se
aumentado. Por isso, recomenda-se aumentar a oferta de
alimentos nesse período, acrescentando pelo menos mais uma
refeição nas 24 horas.
• Enquanto a criança come com sua própria colher, a pessoa
responsável pela sua alimentação deve ir oferecendo-lhe
alimentos com o uso de outra.
> &   O # (
1 !%
/ I
> 5 6 /
$
O desenvolvimento de pesquisas sobre o perfil de consumo
alimentar e nutricional da população infantil deve ser parte integrante das
estratégias de políticas governamentais, trazendo informação e suporte para
orientação nutricional aos diferentes grupos populacionais. Para o
desenvolvimento do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de
Dois Anos, além das bibliografias consultadas, foram consideradas as
necessidades e recomendações nutricionais vigentes, assim como hábitos e
92
comportamentos alimentares das crianças. O Estudo Multicêntrico de
Consumo Alimentar (Galeazzi et al., 1997), realizado em cinco cidades
brasileiras, contribuiu com informações sobre os padrões de alimentação
nos dois primeiros anos de vida da criança.
Desta forma, a Pirâmide Alimentar e as sugestões de cardápios ou
dietas aqui propostas são baseados na prática dos diferentes profissionais
de saúde que atuam na área de alimentação e nutrição, e nos resultados das
pesquisas mais recentes na área de Nutrição e Alimentação. Suas
possibilidades de adaptação são numerosas, cabendo ao diferentes níveis de
atenção à saúde a tarefa de avaliá-los e adaptá-los, adequando-os às
diferentes populações.
A apresentação destes resultados constitui, portanto, um guia
prático para orientação nutricional, principalmente por trazer os alimentos
referidos em porções equivalentes (gramas e medidas caseiras). Vale
destacar que, em relação às dietas aqui apresentadas, essas objetivam,
basicamente, a ilustrar o uso da Pirâmide Alimentar Infantil, havendo
inúmeras possibilidades de cardápios a serem planejados por profissionais
capacitados e adequados às diferentes realidades sociais, culturais e
econômicas das famílias das crianças.
É importante ressaltar que, ao se planejar um cardápio, existem
dificuldades em se atingir conjuntamente todos os aspectos técnicos tais
como: a distribuição percentual em relação ao Valor Calórico Total (VCT),
as recomendações para energia e para os principais micronutrientes (cálcio,
ferro e retinol), a densidade energética da refeição, a capacidade gástrica da
criança, os alimentos habitualmente consumidos pela família e pela criança,
além de respeitar a individualidade, a disponibilidade dos alimentos e as
limitações de escolaridade e renda dos pais. No entanto, essas dificuldades
não invalidam as propostas apresentadas neste Guia.
Os aspectos metodológicos referentes à construção da Pirâmide
Alimentar Infantil para a criança menor de dois anos de idade, bem como
para a elaboração das dietas sugeridas, são discutidos a seguir.
> 5 5 #
3 '
A Pirâmide Alimentar é a representação gráfica do Guia Alimentar
e constitui uma ferramenta prática que permite aos indivíduos a seleção de
uma alimentação adequada e saudável. Entende-se por alimentação
saudável aquela planejada com alimentos de todos os tipos, de procedência
conhecida, preferencialmente naturais, preparados de forma a preservar o
valor nutritivo e os aspectos sensoriais. Os alimentos selecionados devem
ser do hábito alimentar da família, adequados em quantidade e qualidade
93
para suprir as necessidades nutricionais, e calóricas. As refeições devem ser
realizadas em ambiente calmo. É, portanto, instrumento útil na educação
alimentar de populações e indivíduos, sendo possível a sua adaptação às
diferentes culturas alimentares existentes nas diversas sociedades (Philippi
e Fisberg, 1998).
Um Guia Alimentar pode incluir dois elementos: mensagens e
gráficos. O propósito do Gráfico é facilitar a transmissão e a memorização
de mensagens contidas nos Guias.
Para o presente Guia Alimentar adotou-se o gráfico na forma de
Pirâmide. A Pirâmide Alimentar ilustra os três principais conceitos dos
Guias Alimentares que são: a variedade, a moderação e a proporcionalidade
(Martins e Abreu, sd). A variedade visa ao consumo de diferentes e
variados tipos de alimentos dentro e entre os níveis da pirâmide; a
moderação visa ao consumo dos alimentos nas porções com os tamanhos
recomendados, bem como ao consumo esporádico de gorduras, óleos e
doces; e a proporcionalidade objetiva ao consumo maior de grupos
alimentares como cereais, situados na base da pirâmide e a gradativa
redução da proporção à medida que se avança em direção ao topo da
pirâmide (óleos e açúcares).
A  W I #4 -2# -8#-2 4 proposta neste Guia
está composta por oito grupos de alimentos, distribuídos em quatro níveis,
apresentados da base ao topo da pirâmide, considerando a sua participação
na dieta em quantidades respectivamente maiores ou menores de porções.
$
&
3 '
# ' $
&
0
Nível 1 – Grupo 1 - cereais, pães e tubérculos (de três a cinco porções);
Nível 2 – Grupo 2 - verduras e legumes (três porções);
Grupo 3 - frutas (de três a quatro porções);
Nível 3 – Grupo 4 - leites, queijos e iogurtes (três porções);
Grupo 5 - carnes e ovos (duas porções);
Grupo 6 - feijões (uma porção);
Nível 4 – Grupo 7 - óleos e gorduras (duas porções);
Grupo 8 - açúcares e doces (uma porção).
94
  W I #4 -2# -8#-2 4
1 #-X# I > # &
0 ) % EY
95
Os alimentos representativos de cada nível da pirâmide foram
selecionados pelos macro e micronutrientes – os carbohidratos (grupo 1), as
vitaminas e os minerais (grupos 2 e 3), as proteínas (grupos 4, 5, 6) e os
lipídios e açúcares (grupo 7 e 8) – e quantificados em função do valor
calórico total diário.
Os alimentos de um mesmo grupo podem ser substituídos entre si
(ex.: arroz por pão); porém, alimentos de diferentes grupos não devem ser
substituídos pelos de outros. Por exemplo, arroz por fruta. Isto porque todos
os oito grupos são importantes e todos são necessários (Philippi et al, 1999a).
O nome dos grupos (cereais / pães / tubérculos, feijões, etc.) deve
ser considerado de forma genérica pois, por exemplo, no grupo dos cereais,
foram colocados alimentos como batata, aipim, macarrão, arroz, pão,
biscoito e, no grupo dos feijões, incluídas as demais leguminosas como:
ervilha seca, grão de bico e soja. O chamado grupo das carnes deve incluir
carnes de todas as naturezas e todos os tipos de cortes: carne bovina (ex.:
filé, acém, coxão mole, etc.), frango, peixes, frutos do mar, fígado e outras.
O critério nem sempre foi agrupar somente os alimentos da mesma família
botânica, mas os alimentos com afinidade na forma de consumo.
Para cada um dos oito grupos foram calculados os equivalentes em
energia (caloria) e os alimentos substitutos dos componentes de uma dieta
equilibrada, baseada na Pirâmide Alimentar Adaptada (Philippi et al., 1999b).
Para compor a P
82 "
D #
3 '
(ANEXO I), com 163 diferentes alimentos divididos nos
oito grupos e com os seus substitutos e equivalentes, foi utilizado o banco
de dados do '
Q “Virtual Nutri” (PHILIPPI et al., 1996).
Os alimentos ou o ingrediente principal das % foram
classificados em um dos oito grupos citados pelas suas principais
características, considerando também a forma de consumo. Exemplo: arroz
– grupo dos cereais; couve – grupo das verduras e legumes; iogurte – grupo
dos leites). Por “ ” entende-se os alimentos elaborados com
modificação na sua estrutura – como, carne cozida, frango assado, etc, ou
alimentos reunidos como em uma salada – por exemplo; de batata com
alface e tomate.
Os alimentos de cada refeição foram quantificados em % em
função do valor energético. Exemplo: duas colheres de sopa de arroz, que
pertence ao grupo dos cereais, corresponde a uma porção. Entende-se por
a quantidade de alimento em sua forma usual de consumo, expressa
em medidas caseiras (xícaras, fatias, etc.), unidades ou na forma de
consumo (quatro gomos de laranja, uma fatia de mamão, quatro unidades de
biscoito). Essas quantidades foram estabelecidas em função dos grupos de
alimentos e dos alimentos substitutos, componentes de uma alimentação
96
harmônica, adequada, quantitativa e qualitativamente equilibrada, baseada
na Pirâmide Alimentar Adaptada (Philippi et al., 1999b). Exemplo: cinco
porções, no mínimo, de cereais significa que se pode adicionar a
alimentação da criança, distribuídos nas diversas refeições do dia, duas
colheres de sopa de macarrão ou arroz, 1/2 pão francês, um biscoito
recheado, 1 ½ colher de sopa de farinha de mandioca durante o dia,
compondo as refeições. No ; 6
a seguir, são apresentados outros
exemplos da equivalência calórica dos alimentos.
Z #I
$ '
1 T "
% 5 % #
O
 
1
2 0 "
2 colheres de
sopa
de arroz
cozido
ou ½ pão francês ou
1 ½ colher de
sopa de
mandioca cozida
ou
1colher de
sopa de amido
de milho
(maisena)
ou
4 biscoitos
tipo
“maisena”
8

½ banana
nanica
ou ½ maçã ou 1 laranja ou 1/3 mamão papaia ou ½ fatia de abacaxi
R
4 (
4 fatias de
cenoura
cozida
ou
1 colher de
sopa
de couve
ou
1 ½ colher de
sopa de
abobrinha
cozida
ou
2 colheres de
sopa
de brócolis
cozido
ou
1 ½ colher de
sopa
de chuchu
8 H
1 colher de sopa
de
feijão cozido
ou
1 colher de sopa
de
lentilha cozida
ou
½ colher de
sopa de
grão de bico
cozido
ou
½ colher de
sopa
de feijão
branco cozido
ou
1 colher de
sopa de
soja cozida
1
'
2 colheres de
sopa
de carne moída
ou
1/3 de filé de
frango grelhado
ou 1 ovo ou
1/3 de filé de
peixe cozido
ou
¼ de bife
de fígado
bovino
97
4
Z H
(
1 xícara de
leite
tipo C
ou
2 colheres de
sopa de
leite em pó
integral
ou
1 ½ colher de
sopa de
requeijão
ou
1 pote de
iogurte
natural
ou
1 ½ fatia
de queijo
minas
[
5

½ colher de
sopa
de óleo de soja
ou
½ colher de
sopa de óleo de
girassol
ou
¼ colher de
sopa de
margarina
ou
¼ colher de
sopa
de manteiga
ou
½ colher de
sopa
de azeite de
oliva
# ,"
"

½ colher de
sopa
de açúcar
refinado
ou
1 colher de sopa
de açúcar
mascavo grosso
ou
1 ½ colher de
sobremesa
de geléia
ou
¼ de fatia
de goiabada
ou
1 colher de
sopa
de doce de
leite
Cálculos obtidos no software Virtual Nutri (Philippi e col.,1996)
A leitura da Pirâmide Alimentar Infantil, que traduz as orientações
do Guia Alimentar para as crianças de seis a 23 meses, deve ser
acompanhada de orientações com relação aos grupos de alimentos, o
tamanho das porções e as tabelas com os equivalentes de alimentos, para
melhor compreensão e utilização do Guia (vide anexos).
Como orientação geral e sempre que possível, na alimentação diária
das crianças, devem ser incluídos os alimentos da região onde vivem,
respeitando-se os hábitos alimentares e estimulando-se o uso de todos os
alimentos-fonte de nutrientes que são importantes para o crescimento e o
desenvolvimento infantis e para a prevenção das carências específicas.
> 5 4 ! C
$
Utilizando a mesma metodologia de Philippi et al. (1999b) para o
Guia Alimentar dos Adultos, foram estabelecidos três cardápios que podem
ser chamados também de dietas: dois cardápios com aproximadamente
850kcal – o primeiro para crianças de seis a onze meses que consomem
leite materno e alimentos complementares; e o segundo, para crianças de
seis a onze meses de idade que não recebem leite materno – e um cardápio
com aproximadamente 1.300 kcal para crianças de doze a 23 meses.
As refeições/dia da criança de seis a onze meses (Cardápio 1)
foram divididas em três momentos: almoço, lanche da tarde e jantar, sendo
98
o leite materno oferecido nos diferentes horários do dia. Ainda, para as
crianças de seis a onze meses, foi calculada uma dieta com leite de vaca
considerando a impossibilidade da criança receber leite materno (Cardápio
2). Para as crianças de doze a 23 meses de idade (Cardápio 3) foram
consideradas cinco refeições/dia (café da manhã, almoço, lanche da tarde,
jantar e lanche da noite).
Neste Guia, para o cálculo da dieta das crianças amamentadas de
seis a onze meses, considerou-se o leite materno em livre demanda, sendo
estimada uma quantidade média de 452 ml/dia. Não existem trabalhos
brasileiros com as reais quantidades de leite materno consumidas, por idade
e sexo, devido, principalmente, às dificuldades metodológicas para
obtenção de tais dados. Desta forma, foram utilizadas as mesmas
estimativas para o Estudo Multicêntrico, baseadas em trabalho da
Organização Mundial da Saúde (Organizacion Mundial de la Salud, 1985),
considerando variáveis como a idade da criança em dias, o consumo médio
de leite materno e o número médio de mamadas (Tabela 31).
2#3 4#
-, 0
' 0
(
&G )
% + !
8 + ! 6
7 -,
6 0 7
Z / 6(
7
0-15 12,04 590
15-45 11,89 642
45-75 12,63 745
75-105 12,32 776
105-135 11,98 791
135-165 9,78 675
165-195 7,78 560
195-225 7,28 524
225-255 6,78 488
>255 6,28 452
8 Organización Mundial de la Salud, 1985
Os cardápios sugeridos e calculados para o Guia como exemplos
encontram-se a seguir:
99
I " % "
C
6<=A ?" 7 "
%
6(
7
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%
( %
#
/
 
6(7
1
-
/ 5 %
#
4 N G=& /
4 ' I
#
Macarrão cozido 60 2 colheres de sopa 1 Cereais
Molho de tomate 20 1 colher de sopa ½ Verduras e legumes
Carne moída refogada 20 1 colher de sopa 1 Carnes
Cenoura e chuchu
refogados:
Cenoura 20 4 fatias 1 Verduras e legumes
Chuchu 35 1 ½ colher de sopa ½ Verduras e legumes
Óleo de soja 4 1 colher de sobremesa 1 Óleos e gorduras
Laranja pêra 75 1 unidade 1 Frutas
4 ") 2
Banana nanica amassada 43 ½ unidade 1 Frutas
Aveia em flocos 12 1 colher de sopa 1 Cereais
\
Arroz branco cozido 62 2 colheres de sopa 1 Cereais
Feijão cozido (50% grão /
50% caldo)
26 1 colher de sopa 1 Feijões
Frango desfiado 25 2 colheres de sopa 1 Carnes
Brócolis picado cozido 26 2 colheres de sopa 1 Verduras e legumes
Óleo de soja 4 1 colher de sobremesa 1 Óleos e gorduras
Mamão formosa 80 ½ fatia 1 Frutas
Calculado pelo '
Q “Virtual Nutri” (Philippi et al., 1996).
3 R#X] o grupo dos Açúcares e Doces não está incluido uma vez que não se
recomenda a sua introdução antes dos 12 meses de idade.
100
& I " ' " % "

C
6<=A ?" 7 "
%
6(
7
"
%
( %
#
/
 
6(7
1
-
/ 5 %
#
1 0 )
Leite tipo “C” 200 1 xícara de chá 1 Leite
Amido de milho (maisena) 16 1 colher de sobremesa 1 Cereais
#
Macarrão cozido 60 2 colheres de sopa 1 Cereais
Molho de tomate 20 1 colher de sopa ½ Verduras e legumes
Carne moída refogada 20 1 colher de sopa 1 Carnes
Cenoura e chuchu refogados:
Cenoura 20 4 fatias 1 Verduras e legumes
Chuchu 35 1 ½ colher de sopa ½ Verduras e legumes
Óleo de soja 4 1 colher de sobremesa 1 Óleos e gorduras
Laranja pêra 75 1 unidade 1 Frutas
4 ") 2
Banana nanica amassada 43 ½ unidade 1 Frutas
Leite tipo “C" 200 1 xícara de chá 1 Leite
\
Arroz branco cozido 62 2 colheres de sopa 1 Cereais
Feijão cozido (50% grão /
50% caldo)
26 1 colher de sopa 1 Feijões
Frango desfiado 25 2 colheres de sopa 1 Carnes
Brócolis picado cozido 26 2 colheres de sopa 1 Verduras e legumes
Óleo de soja 4 1 colher de sobremesa 1 Óleos e gorduras
Mamão formosa 80 ½ fatia 1 Frutas
4 ") -
Leite tipo “C” 100 ½ xícara de chá 1 Leite
Calculado pelo '
Q “Virtual Nutri” (Philippi et al., 1996).
3 R#X] o grupo dos Açúcares e Doces não está incluido uma vez que não se
recomenda a sua introdução antes dos 12 meses de idade.
101
I % "
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6 AA ?" 7 "
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7
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%
( %
#
/
 
6(7
1
-
/ 5 %
#
1 0 I )
Leite tipo “C” 200 1 xícara de chá 1 Leite
Pão francês 25 ½ unidade 1 Cereais
Geléia 23 1 ½ colher de sobremesa 1 Açúcares
#
Macarrão cozido 70 1 escumadeira 1 Cereais
Molho de tomate 60 3 colheres de sopa 1 Verduras e Legumes
Carne moída refogada 40 2 colheres de sopa 1 Carnes
Brócolis picado cozido 26 2 colheres de sopa 1 Verduras e Legumes
Óleo de soja 4 1 colher de sobremesa 1 Óleos e gorduras
Salada de frutas: 3 Frutas
Banana nanica 43 ½ unidade
Maçã 33 ¼ unidade
Laranja 69 ½ unidade
Mamão 50 1/3 fatia
4 ") 2
Iogurte natural 120 1 pote 1 Leite
\
Arroz branco 62 2 colheres de sopa 1 Cereais
Feijão (50% grão / 50%
caldo)
26 1 colher de sopa 1 Feijões
Espetinho de fígado com: 34 ¼ unidade 1 Carnes
Batata cozida 90 ¾ unidade 1 Cereais
Cenoura cozida 22 2 colheres de sopa 1 Verduras e Legumes
Óleo de soja 4 1 colher de sobremesa 1 Óleos e gorduras
Suco de laranja 85 ½ copo 1 Frutas
4 ") -
Leite tipo “C” 200 1 xícara de chá 1 Leite
Aveia em flocos 18 1 ½ colher de sopa 1 Cereais
Calculado pelo '
Q “Virtual Nutri” (Philippi et al., 1996).
Os cálculos da adequação nutricional das três dietas sugeridas,
encontram-se no Anexo 2.
Para a estimativa dos valores energéticos (kcal) foi feita uma
média das recomendações (National Research Council, 1989). As dietas
102
foram divididas em refeições, com os alimentos / preparações, os pesos dos
alimentos em gramas, as medidas caseiras, os grupos de alimentos e o
número de porções. Em função dos equivalentes em energia (kcal), foram
definidos os números de porções para cada nível da Pirâmide Alimentar,
sendo os valores mínimos os da dieta de 850 kcal e os valores máximos
para a dieta de 1.300 kcal, conforme mostrado próximo quadro (Quadro 2):
Z #I &
-, %
/ $ '
*
"

C
6<=A@" 7 C &
6 AA@" 7
( ( %
O #
5 %
O I <=A@" /
%
I AA ?" /
%
Pães e Cereais 3 5
Verduras e Legumes 3 3
Frutas 3 4
Leites, Queijos e Iogurtes 3 3
Carnes e Ovos 2 2
Feijões 1 1
Óleos e Gorduras 2 2
Açúcares e Doces 0 1
O Quadro 2 deve ser utilizado em associação à Pirâmide Alimentar
proposta. Por exemplo, no primeiro nível da Pirâmide, está o Grupo dos Pães,
Cereais e Tubérculos, compondo com três a cinco porções/dia a dieta de
crianças de seis a 23 meses. Para a dieta de crianças de seis a onze meses,
totalizando 850 kcal/dia, seriam necessárias três porções desse mesmo grupo;
já para as crianças de doze a 23 meses, cujo valor calórico corresponde a
1300kcal/dia, o consumo diário necessário seria de cinco porções desse grupo
alimentar. No segundo nível da pirâmide está o grupo das Verduras e Legumes
que recomenda três porções para ambas as idades. A mesma análise deve ser
feita para os demais grupos de alimentos da Pirâmide.
Com relação aos óleos e gorduras, houve a preocupação de incluir,
em todos os cardápios sugeridos, a quantidade de, no mínimo, oito gramas de
óleo, correspondendo a aproximadamente uma colher de sopa (duas porções),
cerca de 74 kcal para o dia.
Deve-se ressaltar que o grupo dos Doces e Açúcares não foi incluído
na dieta de 850Kcal, pois, conforme definido nas orientações para uma
alimentação saudável, não se recomenda a sua inclusão na alimentação infantil
antes de um ano de idade. Já na dieta das crianças de doze a 23 meses, incluiu103
se esse grupo alimentar na quantidade de uma porção (por exemplo, ½ colher
de sopa de açúcar = 14 gramas ou equivalente), o que corresponde a 55 kcal.
Os alimentos e preparações foram classificados de acordo com os
grupos da pirâmide alimentar em função dos nutrientes básicos dos
alimentos.
Os alimentos incluídos nos três cardápios estão apresentados na
forma
  , preparados ou industrializados (sem identificação de
marca comercial), e são aqueles mais consumidos pelas crianças. Para essa
inclusão, considerou-se o valor nutritivo, a forma de preparo e o hábito
alimentar da família.
Para cada alimento ou foram informadas as medidas
caseiras com os respectivos pesos médios em gramas. A inclusão dessas
informações se deve a grande variabilidade das medidas caseiras, utilizadas
pelas mães, com relação ao tamanho, tipo e material (exemplos: colheres,
pratos, copos).
Para os alimentos citados na forma de unidades, foram
considerados sempre os valores médios em gramas (por exemplo, ½
unidade de cenoura igual a 41 gramas, significando que foi adotado o peso
de uma cenoura média). As informações relativas às medidas caseiras
utilizadas (como pequena, grande, cheia, rasa) foram evitadas, pois, na
maioria das vezes, fica dificultado o entendimento do tamanho real da
porção. Na decisão pela adoção do valor médio foi levado em consideração
a disponibilidade destes dados, no “Virtual Nutri” (Philippi et al.,1996),
'
Q utilizado nas análises e, também, a facilidade de entendimento das
informações pelos usuários do Guia Infantil.
As porções dos alimentos e preparações foram definidas (medidas
caseiras e pesos em gramas) de acordo com os grupos de alimentos da
Pirâmide Infantil, para facilitar a compreensão e as possíveis substituições
entre os diversos alimentos de cada grupo.
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Para o cálculo da distribuição percentual dos macronutrientes, em
função do valor calórico total, adotou-se Philippi et al. 1999b:
• 10 a 15% para proteína
• 20 a 30% para lipídio
• 50 a 60% para carbohidrato
104
Nas dietas, estes valores propostos foram alcançados mostrando
um bom equilíbrio na distribuição percentual de proteínas, lipídios e
carboidratos, conforme se pode verificar nos cálculos de adequação
nutricional presentados no Anexo 2. Foram ainda calculadas as densidades
energéticas, por refeição, das dietas apresentadas. Para a dieta das crianças
de 6-11 meses, sem o leite materno, obteve-se 1,00 Kcal/g no almoço e 1,40
Kcal/g no jantar. Já para a dieta das crianças dos 12 aos 23 meses, a
densidade energética do almoço foi de 0,94 Kcal/g e a do jantar, 1,35
Kcal/g .
Com relação à adequação dos teores de ferro, cálcio e retinol,
considerou-se a A
3 " J A3= (National
Academy of Sciences / Institute of Medicine, 1998). No Anexo 4,
encontram-se tabelas contendo uma lista de alimentos (em porções), de
acordo com os teores de ferro, cálcio e vitamina A.
• Ferro
Para o ferro total (DRI= 10mg/dia) os alimentos-fonte (n=17) foram
divididos em Feijões (n=3), Carnes e Ovos (n=10) e Frutas (n=1),
observando-se também as variações entre os valores de ferro total presentes
nos alimentos. Destaca-se que ¼ de bife de fígado bovino (34 gramas),
contém 2,125 mg de ferro, atingindo 21,5% da DRI.
As questões referentes à biodisponibilidade do ferro são conhecidas,
assim como os problemas do consumo de alimentos fonte de cálcio, limitando
a absorção do mineral. Recomenda-se, portanto, distanciamento entre as
refeições lácteas e refeições com ferro-heme. Por outro lado, recomenda-se o
consumo, em uma mesma refeição, de alimentos-fonte de ferro e de vitamina
C (fator estimulante), para otimização na absorção do mineral.


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