Ervas do Sítio - parte 2


Egito
A civilizaç ão egípcia teve seu apogeu em mais ou menos 3000 a.C. Já nessa é poca os
egípcios tinham uma alimentaç ão elaborada. Ao que parece, foram eles que inventaram a
forma moderna de preparar pães e, nas grandes comemoraç ões, chegavam a apresentar
mais de 40 tipos, feitos com trigo, leite, ovos, mel e outros ingredientes.
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Os governos do Antigo Egito deixaram registrados nos papiros a especial atenç ão que
davam à alimentaç ão. Os alimentos eram quase sempre preparados de forma ritualística
e as refeiç ões constituíam momentos muito especiais, onde todas as pessoas se reuniam,
discutiam assuntos e comiam calmamente.
Essa característica peculiar pode ser comprovada pelas inscriç ões nas paredes das
tumbas, feitas de forma cuidadosa, mostrando grandes recipientes cheios de alimentos,
sempre ligados a símbolos espirituais. Na prá tica, os egípcios construíram câmaras
especiais em homenagem aos seus deuses, onde eram colocadas oferendas de alimentos
como grãos, bebidas e ervas de alta qualidade.
No Antigo Egito, a medicina sempre esteve vinculada à astrologia, e havia uma forte
relaç ão entre as plantas medicinais, planetas e signos correspondentes. Os egípcios
utilizavam as plantas condimentares de muitas formas, deixando-as até mesmo nas
tumbas dos faraós e personalidades importantes para que estes fizessem uma viagem
segura aos outros planos de existência.
São comuns as citaç ões dos papiros relatando a adoraç ão que o povo tinha pelas plantas.
O mais famoso deles é o Papiro Ebers, datado de 1550 a.C., que contém centenas de
fórmulas má gicas e remé dios populares usados na é poca. Esse papiro está exposto no
Museu de Leipzig, na Alemanha, e contém uma coletânea de aproximadamente 125
plantas, entre elas o anis, a alcaravia, a canela, o cardamomo, a mostarda, as sementes
de gergelim, o aç afrão e as sementes de papoula.
A história da aspirina também pode ser traç ada a partir do Antigo Egito, onde se
combatiam inflamaç ões com um extrato obtido da casca do salgueiro. Esse extrato é que,
mais tarde, permitiu a síntese do á cido acetilsalicílico – lanç ado comercialmente pela
empresa alemã Bayer, em 1899, com o nome de aspirina.
Na civilizaç ão egípcia, a cosmé tica também atingiu o nível de arte, voltada
exclusivamente para engrandecer a beleza e o refinamento exótico que já reinava em
todo o povo. Nos grandes templos, as essências perfumadas e os incensos eram oferecidos
diariamente como presentes aos deuses para que estes, por sua vez, mantivessem a
proteç ão sobre o grande faraó e todo o seu povo.
As mulheres dessa é poca já dispunham de grande quantidade de elementos para seu
embelezamento, o qual era extremamente valorizado em todos os estratos da sociedade.
Óleos e bá lsamos perfumados eram dispersos no corpo ou misturados ritualisticamente
em banhos.
Muitas plantas eram cadastradas como elementos ricos de promoç ão do bem-estar físico,
tais como a camomila, que era usada em óleos de massagem para acalmar dores
musculares ou simplesmente para se obter um profundo relaxamento. Suas flores eram
dispersas també m nas á guas mornas das banheiras, proporcionando momentos ú nicos de
prazer.
De acordo com o historiador e egiptólogo francês Pierre Montet, os cuidados com a
aparência física tiveram seu auge no reinado dos Ramsé s (por volta de 800-700 a.C.).
Nesse período, era comum banhar-se em á guas perfumadas pelo menos de manhã e
antes das principais refeiç ões. Os habitantes tinham o há bito de despejar a á gua sobre a
cabeç a e ficar dentro de uma bacia com areia e ervas aromá ticas purificadoras.
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Juntavam, então, substâncias dissolventes das gorduras da pele, provavelmente
contendo cinzas e argila.
A toalete diá ria era usada com requinte, e havia uma preocupaç ão excessiva com o asseio
geral e com a maquilagem. As mulheres costumavam pintar ao redor dos olhos fazendo
com que parecessem mais alongados. A tinta tinha aç ões anti-sé pticas eficazes, que, alé m
de embelezar, impediam o desenvolvimento de inflamaç ões nos olhos, tão comuns
naquela é poca.
Os cabelos, por sua vez, eram perfumados com essências nobres. Os cabeleireiros eram
há beis em inventar penteados exuberantes, criar tinturas ú nicas e produzir bonitas
perucas coloridas. Alé m de tudo isso, eram correntes ainda os cuidados com as unhas dos
pé s e das mãos e o uso de verniz para cobri-las.
Os egípcios preocupavam-se muito com o odor de seus corpos e, além de perfumes
diversos, costumavam fazer uma mistura de terebentina e incenso contra os cheiros
fortes do suor. Essa preocupaç ão deu origem ao desenvolvimento da arte da perfumaria.
No reinado da rainha Cleópatra, amante do imperador romano Jú lio Cé sar, o Egito era
salpicado de perfumes raros e delicados, feitos à base de ingredientes exóticos que eram
trazidos de outras regiões do Oriente.
A rainha Cleópatra obrigava suas servas a espalhar diariamente em todo o seu corpo
determinados aromas que, por fim, acabaram seduzindo o grande general romano Marco
Antônio, que se tornou seu marido. Existiu na é poca um perfume especial chamado de
"cyprinum", feito com o óleo essencial extraído das flores da hena.
Outra rainha apaixonada pelos óleos e aromas foi Hatshepsut, da 18a Dinastia, que
esfregava em suas pernas uma loç ão à base de mirra para perfumá -las.
O olíbano também era tido em alta consideraç ão e usado no Egito em perfumes,
fragrâncias ambientais, fumigaç ões, incensos e receitas mé dicas. Conta a história que o
olíbano era proveniente da Terra de Punt, atual Somá lia. Um conhecido cosmé tico antigo
para tratar das rugas era um creme feito à base de olíbano, cera, óleo de moranga fresca
e grama ciperá cea.
Europa/Idade mé dia
Com a queda de Alexandria, até então o empório de especiarias mais famoso do Oriente,
a Europa saiu do domínio do Impé rio Romano e entrou na Idade Mé dia, muitas vezes
chamada de Idade das Trevas. Nessa é poca, a Europa Medieval sofreu uma forte
mudanç a dos há bitos alimentares. Os vegetais passaram a ser muito pouco consumidos,
dando-se preferência para as carnes, os pães e as frutas. Contudo, há algumas citaç ões
de condimentos que ainda permaneceram na culiná ria nesse período. Eram empregados
sobretudo para disfarç ar o forte salgado das carnes em conserva, além de servirem de
recheios, refogados e decoraç ão de pratos culiná rios.
O conhecimento das ervas e dos condimentos ficou retido nas mãos dos religiosos, que os
utilizavam apenas para a medicina e a prá tica espiritual. As especiarias antes usadas na
alimentaç ão foram praticamente esquecidas, devido ao seu alto preç o no mercado, que as
tornava um artigo de luxo. Os religiosos acreditavam que esses produtos eram oriundos
do Jardim do É den, do Paraíso. Isso porque a origem dos melhores condimentos era
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sempre um misté rio, provocando as mais diversas especulaç ões, histórias fantá sticas e
lendas, que tentavam explicar de alguma forma sua procedência.
Para ilustrar isso, no sé culo XVI, Bartholomeu de Glanville, um enciclopedista inglês,
acreditava que a pimenta-do-reino era resultante do chamuscamento da pimenta-branca
no fogo. De acordo com ele, a pimenta-branca era o fruto de uma á rvore que nascia numa
grande floresta próxima às montanhas dos Cá ucasos, cheia de serpentes; dizia ainda que
o fogo havia expulsado as cobras para que as pimentas pudessem ser colhidas,
escurecidas então pelo fogo!
De qualquer forma, foi o trabalho minucioso dos religiosos dos grandes mosteiros que
permitiu que o conhecimento das plantas pudesse ser passado para as geraç ões
seguintes. Dentre outras coisas, os monges cultivavam as ervas em hortos e passavam
grande parte do tempo fazendo cópias de manuscritos antigos que guardavam a história
e a utilizaç ão das plantas medicinais.
Na Idade Mé dia, as plantas seguiram seu uso na beleza, restringindo-se porém sua
conotaç ão mística. Nessa é poca, as folhas de salsa eram usadas para fazer crescer os
cabelos, curar a caspa e eliminar piolhos. Além disso, eram empregadas na pele do rosto
para clarear e eliminar sardas.
Também era muito conhecido o uso da alfazema, para limpar e perfumar os dedos
engordurados de carne. Sua infusão era colocada em potes charmosos nas mesas de
refeiç ão logo após os grandes banquetes. Esse costume estendeu-se até o começ o do
sé culo XX e abriu um grande espaç o para a utilizaç ão dessa planta em diversos produtos.
Apesar de o mundo estar passando por um período sombrio para a cultura e a ciência, o
imperador dos francos e lombardos, Carlos Magno (768-814 d.C.), fez uma interessante
definiç ão do que era para ele uma erva aromá tica: "...é a amiga do mé dico e o prazer do
cozinheiro". Sua atuaç ão foi ainda maior quando ordenou que todas as "plantas ú teis"
passassem a ser cultivadas nas hortas imperiais da Alemanha.
Europa/Renascimento
Com o fim da Idade Mé dia e o início do Renascimento, por volta de 1500 d.C., a botânica
deu um grande salto, pois as plantas voltaram a ser catalogadas em grandes arquivos.
Muitas preciosidades antigas haviam sido destruídas na é poca da Inquisiç ão,
principalmente com os incêndios provocados em diversas bibliotecas secretas. O que
sobrou da Idade Média foram apenas retalhos de uma grande história má gica e
científica.
No sé culo XVI, um suíç o chamado Philippus Aureolus Theophrastus – mais tarde
conhecido como Paracelso – viajou por toda a Europa à procura de plantas e minerais,
mas principalmente ouvindo feiticeiros, curandeiros e parteiras. Para grande escândalo
das pessoas cultas, ele não escrevia suas observaç ões em latim, mas em linguagem
comum, e tinha a audá cia de comparar importantes estudos mé dicos com a sabedoria
popular.
Paracelso, fundador da alquimia, foi o precursor dos conceitos modernos da influência
cósmica sobre as plantas e suas relaç ões com os quatro elementos – á gua, terra, fogo e ar.
A botânica secreta de Paracelso até hoje exerce grande atraç ão sobre estudiosos do
assunto e foi base, juntamente com a filosofia teosófica, para o desenvolvimento dos
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conceitos biodinâmicos da agricultura antroposófica, elaborados mais tarde por Rudolf
Steiner.
No final da Idade Mé dia, os europeus haviam entrado em decadência em relaç ão aos
há bitos de higiene. Começ ou uma fase ascé tica, em que os cuidados com a alma inibiram
o gosto pelo tratamento e pela beleza física. Nesse período, no entanto, houve a maior
evoluç ão da arte da perfumaria, que era necessá ria para disfarç ar o mau cheiro e há lito
das pessoas.
Um famoso creme de beleza feito à base de polpa de maç ã e folhas de alecrim,
denominado "pomatum", surgiu nessa é poca e se tornou muito popular por volta do
sé culo XVI na Europa.
Com o fim da Idade das Trevas, muitos estudiosos, a exemplo de Paracelso, voltaram a se
dedicar de corpo e alma ao estudo da botânica, medicina e beleza. O mé dico e astrólogo
inglês Nicholas Culpeper (?-1654) desenvolveu estudos vastos que atravessaram os
tempos até chegar a nós. Ele afirmava, incondicionalmente, que os condimentos eram
capazes de curar todos os tipos de doenç as com seus potentes óleos essenciais. Dentre
outras coisas, dizia que as pimentas, quando misturadas ao nitrato, eram capazes de
fazer desaparecer as manchas, as marcas e o descoloramento da pele.
Na Franç a, o ponto forte foi o desenvolvimento da perfumaria. Por volta de 1379, em
Paris, as monjas da Abadia de Saint-Juste criaram a famosa Á gua de Carmen, elaborada
à base de folhas de erva-cidreira, limão, noz-moscada e cravo-da-índia.
Na Grã-Bretanha, a família anglo-galesa Tudor, que reinou de 1485 a 1603, tinha grande
devoç ão às ervas e plantas. A dedicaç ão aos estudos das ervas e aromas é hoje um ponto
muito forte da atual Inglaterra, que herdou muitos conhecimentos importantes de seus
ancestrais. Nessa região desenvolveram-se exímios jardineiros, com lindos projetos de
jardins, que envolviam plantas aromá ticas perenes, como o alecrim, o tomilho, a lavanda
e o hissopo. Essas plantas eram utilizadas na preparaç ão de apetitosas saladas, feitas
com folhas, flores e frutos, frescos ou desidratados.
Europa/Idade moderna
Na Idade Moderna, a história dos condimentos foi marcada por muito sangue, guerras e
lutas pelo poder e monopólio. Os países do continente europeu estavam cansados dos
altos preç os das especiarias e saíram em busca de novas partes do mundo. Afirmam
alguns historiadores que foi o alto preç o da pimenta-do-reino no mercado europeu que
estimulou a expediç ão do navegador português Vasco da Gama, assim como a inveja do
poder de Veneza foi o motivo pelo qual Espanha e Portugal saíram em busca do cravo-daíndia,
do gengibre, da noz-moscada e da pimenta-do-reino.
A quebra do monopólio veneziano, portanto, se iniciou com as grandes navegaç ões.
Assim, os portugueses e espanhóis, quando encontraram o caminho que levava às Índias,
fizeram chegar ao continente europeu muitos condimentos exóticos, que logo se
espalharam por vá rias regiões, incorporando-se à culiná ria de muitos povos.
Mas foi um explorador francês, de nome Pierre Poivre (1719-1786), que definitivamente
acabou com o poderio dos comerciantes do Oriente. Pesquisador exímio de especiarias,
fez muitas viagens pelo mundo e acabou alcanç ando a Ilhas Maurício, onde encontrou
milhares de sementes de noz-moscada e de muitas outras espé cies. Conclusão: os
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condimentos se espalharam velozmente pela Europa, os preç os no mercado baixaram e,
enfim, as plantas aromá ticas se tornaram disponíveis para todas as classes sociais. Foi o
início da popularizaç ão dos condimentos.
Nessa é poca, a alimentaç ão era considerada monótona e desinteressante e as especiarias
acabaram tendo um papel importante na inovaç ão de sabores e aromas, em todas as
cozinhas. Não se pode negar que os condimentos exerceram grande influência na cozinha
europé ia, pois é muito difícil imaginar uma paella espanhola sem aç afrão, um goulash
hú ngaro sem a pá prica ou ainda um steak au poivre francês sem a pimenta-do-reino.
Gré cia
As plantas da Europa, mais precisamente da região mediterrânea, influenciaram de
forma considerá vel os há bitos alimentares e terapêuticos de algumas civilizaç ões. A
primeira a receber essa influência foi a civilizaç ão grega, com a introduç ão na dieta de
condimentos que nasciam de forma espontânea nos campos, vales e montanhas, como o
alecrim, o manjericão, a manjerona e a salsa.
As especiarias trazidas da Índia e de outras civilizaç ões distantes também tiveram um
papel importante na culiná ria da Gré cia Antiga, pois havia na é poca um intenso
intercâmbio de produtos com o Oriente, por meio dos navegadores e comerciantes.
Para os gregos, as plantas aromá ticas tinham o seu simbolismo: cada erva possuía um
significado especial, como fidelidade, nobreza, amor e prazer. Esses conceitos mais tarde
foram levados para a Europa Ocidental e para as cortes da Franç a medieval.
A medicina da Gré cia Antiga tinha um cará ter má gico e sacerdotal, normalmente
envolvida em fá bulas e mitos. Os filósofos eram extremamente interessados no estudo do
espírito e do corpo. Os há bitos de higiene corporal e mental eram sempre baseados no uso
e experimentaç ão de misturas das mais diversas plantas. As folhas de louro eram usadas
tanto em banhos para limpar o corpo como na forma de incensos para purificar o ar dos
grandes templos, permitindo a meditaç ão profunda dos religiosos.
Os cuidados de saú de da populaç ão eram feitos em santuá rios de cura espalhados por
todos os lugares que dispunham de banhos especiais, alamedas cobertas de flores,
aromas diversos pairando no ar e mú sicas melodiosas que acalmavam os ânimos mais
agitados. Nessa é poca, era comum o emprego de ervas na preparaç ão de ungü entos e
bá lsamos para massagear a pele dos heróis e guerreiros quando retornavam das
batalhas. Era o caso, por exemplo, da alfazema, com seu perfume embriagador e
delicado.
O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) e seu discípulo e amigo Teofrasto (370-286 a.C.)
criaram o primeiro sistema científico de classificaç ão botânica. De acordo com esse
sistema, as plantas eram divididas segundo seu porte, em ervas, arbustos e á rvores.
O historiador grego Heródoto (484-426 a.C.), conhecido como o Pai da História, descreveu
em seus documentos diversos alimentos que eram conservados com vinagre e especiarias.
Acreditava ele, por exemplo, que a utilizaç ão de flores secas de cardo-mariano teria o
poder de coagular o leite para a fabricaç ão de queijo.


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