Dogma e Ritual da Alta Magia - parte 9


A iniciação pela luta e pelas provas é, pois, indispensável para chegar à ciência prática da magia. Já dissemos como se pode triunfar das quatro formas elementais: não voltaremos mais a isso, e para os nossos leitores que quiserem conhecer as cerimônias das iniciações antigas, aconselhamos a leitura das obras do barão Tschoudy, autor da Estrela Flamejante da maçonaria adonhiramita e de vários outros opúsculos maçônicos muito valiosos.
Devemos insistir, aqui, sobre uma reflexão: é que o caos intelectual e social no meio do qual perecemos, tem por causa a negligência da iniciação, das suas provas e dos seus mistérios. Homens nos quais o zelo era mais forte que a paciência, impressionados pelas máximas populares do Evangelho, acreditaram na igualdade primitiva e absoluta dos homens. Um alucinado célebre, o eloqüente e infeliz Rousseau, propagou, com toda a magia do seu estilo, este paradoxo: que só a
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sociedade deprava os homens, como se disséssemos que a concorrência e a emulação do trabalho fazem preguiçosos os operários. A lei essencial da natureza e da iniciação pelas obras e do progresso laborioso e voluntário foi fatalmente desconhecida; a maçonaria teve seus desertores, como o catolicismo tiveram os seus. Que resultou disso? O nível de aço substituído ao nível intelectual e simbólico. Pregar a igualdade àquele que está embaixo, sem lhe dizer como a pessoa se eleva, não é obrigar-se a descer? Pois desceram e houve o reino da carmagnole, dos sans-culottes e de Marat.
Para revelar a sociedade vacilante e decaída é preciso estabelecer de novo a hierarquia e a iniciação. A tarefa é difícil, mas todas as pessoas inteligentes já sentem a necessidade de empreendê-la. Será preciso, para isso, que o mundo passe por um novo dilúvio? Desejamos vivamente que não seja assim, e este livro, a maior, talvez, mas não a última das nossas ousadias, é um apelo a tudo o que ainda vive, para reconstituir a vida até no meio da decomposição da morte.
CAPÍTULO X
A CHAVE DO OCULTISMO
Penetremos, agora, na questão dos pantáculos, porque neles está toda a virtude mágica, pois o segredo da força está na inteligência que a dirige.
Não voltaremos a tratar dos pantáculos de Pitágoras e de Ezequiel, cuja explicação e figura já demos; provaremos, no outro capítulo, que todos os instrumentos do culto hebraico eram pantáculos e que Moisés tinha escrito em ouro e zinco, no tabernáculo e em todos os seus acessórios, a primeira e a última palavra da Bíblia. Mas cada magista pode e deve ter seu pantáculo particular, porque um pantáculo, bem entendido, é o resultado perfeito de um espírito.
É por isso que achamos, nos calendários mágicos de Ticho-Brahé e Duchenteau, os pantáculos de Adão, Jó, Jeremias, Isaías e todos os outros grandes profetas que foram, cada qual em sua época, os reis da Cabala e grandes rabinos da ciência.
O pantáculo, sendo uma síntese completa e perfeita, expressa por um único signo, serve para reunir toda a força intelectual num olhar, numa lembrança, num contato. É como que um ponto de apoio para projetar a vontade com força. Os necromantes e goécios traçavam seus pantáculos infernais na pele das vítimas que imolavam. Encontram-se em várias clavículas e engrimanços as cerimônias da imolação, o modo de degolar, o cabrito, depois salgar, secar e branquear a pele. Alguns cabalistas hebreus caíram nas mesmas loucuras, sem se lembrar das maldições pronunciadas na Bíblia contra os que sacrificam nos altos lugares ou nas cavernas da terra. Todas as efusões de sangue operadas cerimoniosamente são abomináveis e ímpias, e, desde a morte a Adonhiram, a sociedade dos verdadeiros adeptos tem horror ao sangue: Ecclésia abhórret a sánguine.
O simbolismo iniciático dos pantáculos adotados em todo o Oriente é a chave de todas as mitologias antigas e modernas. Se não conhecermos o seu alfabeto hieroglífico, nós nos perderemos nas obscuridades dos Vedas, do Zend-Avesta e da Bíblia. A árvore geradora do bem e do mal, fonte única dos quatro rios, um dos quais rega a terra do outro, isto é, a luz e o outro corre na Etiópia ou no reino da noite; a serpente magnética que seduziu a mulher, e a mulher que seduziu o homem, revelando assim a lei da atração; depois o Querubim ou a Esfinge colocada à porta do santuário edênico com a espada flamejante dos guardas do símbolo; daí a regeneração pelo trabalho e a parturição pela dor, lei das iniciações e das provas; a divisão de Caim e Abel, idêntica ao símbolo da luta de Anteros e Eros; a arca levada sobre as águas do dilúvio como o cofre de Osíris, o corvo preto que não volta, e a pomba branca que volta, nova emissão do dogma antagônico e equilibrado; todas estas magníficas alegorias cabalísticas do Gênese, que, tomadas ao pé da letra e aceitas como
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histórias reais, mereceriam ainda mais riso e desprezo do que lhe deu Voltaire, tornam-se luminosas para o iniciado, que saúda, então, com entusiasmo e amor, a perpetuidade do verdadeiro dogma e a universalidade da mesma iniciação em todos os santuários do mundo.
Os cinco livros de Moisés, a profecia de Ezequiel e o Apocalipse de São João, são as três chaves cabalísticas de todo edifício bíblico. As esfinges de Ezequiel, idênticas às do santuário e da arca, são uma quádrupla reprodução do quaternário egípcio; as suas rodas, que giram umas nas outras, são as esferas harmoniosas de Pitágoras; o templo novo cujo plano dá sob medidas inteiramente cabalísticas é o tipo dos trabalhos da maçonaria primitiva. São João, no seu Apocalipse, reproduz as mesmas imagens e os mesmos números, e reconstitui idealmente o mundo edênico na nova Jerusalém; mas, na fonte dos quatro rios, o cordeiro solar substituiu a árvore misteriosa. A iniciação pelo trabalho e pelo sangue está realizada, e não há mais templo porque a luz da verdade está universalmente espalhada e o mundo ficou sendo o templo da justiça.
Este belo sonho final das Sagradas Escrituras, esta utopia divina, cuja realização a Igreja mandou, com razão, para uma vida melhor, foram o escolho de todos os heresiarcas antigos e de um grande número de ideólogos modernos. A emancipação simultânea e a igualdade absoluta de todos os homens supõem a cessação do progresso e, por conseguinte, da vida: na terra dos iguais não pode haver crianças nem velhos; o nascimento e a morte não poderiam, pois, ser admitidos nela. É bastante para provar que a nova Jerusalém não é mais deste mundo do que o paraíso primitivo, onde o homem não devia conhecer nem o bem, nem o mal, nem a liberdade, nem a geração, nem a morte; é, pois, na eternidade que começa e acaba o ciclo do nosso simbolismo religioso.
Dupuis e Volney empregaram uma grande erudição para descobrir esta identidade relativa de todos os símbolos e concluíram daí pela negação de todas as religiões. Chegamos, pelo mesmo caminho, a uma afirmação diametralmente oposta e reconhecemos, com admiração, que nunca houve falsas religiões no mundo civilizado; que a luz divina, este esplendor da razão suprema do Logos, do Verbo, que ilumina todo homem que vem a este mundo, não faltou mais aos filhos de Zoroastro do que às fiéis ovelhas de São Pedro; que a revelação permanente, única e universal, está escrita na natureza visível, explica-se na razão e completa-se pelas sábias analogias da fé; que, enfim, não há mais que uma religião verdadeira, mais que um dogma e uma crença legítima, como só há um Deus, uma razão e um universo; que a revelação não é obscura para ninguém, pois que todos entendem, pouco ou muito, a verdade e a justiça, e, portanto, que tudo o que pode ser, deve ser simplesmente analógico ao que é. O ser é o ser, היהא רשא היהא .
As figuras, tão bizarras em aparência, que o Apocalipse de São João apresenta, são hieróglifos, como as de todas as mitologias orientais, e podem ser contidas numa série de pantáculos. O iniciador vestido de branco, de pé entre os sete candelabros de ouro e tendo na sua mão sete estrelas, representa o dogma único de Hermes e as analogias universais a Luz.
A mulher revestida do sol e coroada de doze estrelas é a Ísis celeste; é a gnosis, cujo filho a serpente da vida material quer devorar; porém, ela toma as asas de uma águia e foge para o deserto, protestação do espírito profético contra o materialismo da religião oficial.
O anjo colosal, cuja cabeça é um sol, cuja auréola é um arco-íris; o vestuário uma nuvem, cujas pernas são colunas de fogo, e que põe um pé na terra e outro no mar, é um verdadeiro Panteu cabalístico.
Seus pés representam o equilíbrio de Briah ou do mundo das formas; suas pernas são as duas colunas do templo maçônico, Jakin e Bohas; seu corpo, coberto de nuvens, das quais sai uma mão que segura um livro, é a esfera de Jesirah ou das provas iniciáticas; a cabeça solar, coroada com o setenário luminoso, é o mundo de Aziluth ou da revelação perfeita, e é muito para admirar que os
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cabalistas hebreus não tenham reconhecido e divulgado este simbolismo, que une tão estreita e inseparavelmente os mais elevados mistérios do cristianismo ao dogma secreto, mais invariável, de todos os mestres em Israel.
A besta de sete cabeças, no simbolismo de São João, a negação material e antagonista do setenário luminoso; a prostituta da Babilônia corresponde, do mesmo modo, à mulher revestida do sol; os quatros cavaleiros são análogos aos quatro animais alegóricos; os sete anjos, com suas sete trombetas, seus sete copos e suas sete espadas, caracterizam o absoluto da luta do bem contra o mal pela palavra, pela associação religiosa e pela força. Assim, os sete selos do livro oculto são abertos sucessivamente e a iniciação universal se realiza. Os comentadores que procuraram outra coisa neste livro de alta Cabala perderam o seu tempo e o seu trabalho para chegarem a fazerem-se ridículos. Ver Napoleão no anjo Apollyon, Lutero na estrela que cai, Voltaire e Rosseau nos gafanhotos armados para a guerra, é alta fantasia. O mesmo acontece com todas as violências feitas em nome de personagens célebres para fazê-los conter em quaisquer algarismos o fatal 666 que explicamos suficientemente; e quando a pessoa pensa que homens chamados Bossuet e Newton se entretiveram nestas quimeras, compreende que a humanidade não é tão maliciosa no seu gênio como poderíamos supor pelo aspecto de seus vícios.
CAPÍTULO XI
A TRÍPLICE CADEIA
A grande obra, em magia prática, depois da educação da vontade e da criação pessoal do mago, é a formação da cadeia magnética, e este segredo é verdadeiramente o do sacerdócio e da realeza.
Formar a cadeia magnética é fazer nascer uma corrente de idéias que produza a fé e arraste um grande número de vontades num círculo dado de manifestações pelos atos. Uma cadeia bem formada é como um turbilhão que arrasta e absorve tudo.
Podemos estabelecer a cadeia de três modos: pelos sinais, pela palavra e pelo contato. A pessoa estabelece a cadeia pelos sinais, fazendo adotar um sinal pela opinião, como representando uma força. É assim que todos os cristãos se comunicam mutuamente pelo sinal da cruz, os maçons pelo esquadro sob o sol, os magistas pelo do microcosmo, que se faz com os cinco dedos estendidos.
Os sinais, uma vez recebidos e propagados, adquirem força por si mesmos. A vista e a imitação do sinal da cruz eram suficientes nos primeiros séculos, para fazer prosélitos ao cristianismo. A medalha dita milagrosa operou, ainda em nossos dias, um grande número de conversões pela mesma lei magnética. A visão e a iluminação do jovem israelita Afonso Ratisbonna foram o fato mais notável deste gênero. A imaginação é criadora, não somente em nós, mas também fora de nós, pelas nossas projeções fluídicas e, sem dúvida, não é preciso atribuir a outras causas os fenômenos do lábaro de Constantino e da cruz de Migné.
A cadeia mágica pela palavra era representada, entre os antigos, por estas cadeias de ouro que saem da boca de Hermes. Nada iguala à eletricidade da eloqüência. A palavra cria a inteligência mais elevada no seio das massas mais grosseiramente compostas. Até os que estão muito longe para ouvi-la compreendem por comoção e são arrastados como a multidão. Pedro, o eremita, abalou a Europa, gritando: “Deus o quer!” Uma só palavra do Imperador eletrizava o seu exército e fazia a França invencível. Proudhon matou o socialismo pelo seu célebre paradoxo: A propriedade é o roubo. Muitas vezes, basta uma palavra que corre para derribar uma potência. Voltaire o sabia bem, ele que transtornou o mundo com sarcasmos. Por isso, ele que não temia papas, nem reis, nem parlamentos, nem bastilhas, tinha medo de um jogo de palavras.
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Vivemos sempre na iminência de realizar as vontades da pessoa cujas palavras repetimos.
O terceiro modo de estabelecer a cadeia mágica é pelo contato. Entre pessoas que muitas vezes se vêem, a cabeça da corrente se revela logo, e a mais forte vontade não tarda em absorver as outras; o contato direto e positivo, de mão a mão, completa a harmonia das disposições, e é por isso que é sinal de simpatia e intimidade. As crianças, que são guiadas instintivamente pela natureza, fazem a cadeia magnética, que jogando a barra, quer formando a roda. Então a alegria circunda e o riso desabrocha. As mesas redondas são também mais favoráveis aos alegres banquetes do que as de qualquer outra forma. A grande roda do Sabbat, que encerrava as reuniões misteriosas dos adeptos da Idade Média, era uma cadeia mágica que unia a todos eles nas mesmas vontades e obras; formavam-na colocando-se ombro a ombro e segurando-se pelas mãos, com a frente para dentro do círculo, à imitação dessas antigas danças sagradas de que ainda se encontram imagens nos baixos-relevos dos antigos templos. Os forros elétricos de lince, pantera e até de gato doméstico, eram à imitação das antigas bacanais, pregados nos seus vestidos. Daí veio esta tradição que os ímpios no Sabbat trazem cada qual um gato pendurado à cintura e que dançam com este traje.
Os fenômenos das mesas giratórias e falantes foram uma fortuita manifestação da comunicação fluídica por meio da cadeia circular; depois a mistificação misturou-se a isso, e até personagens instruídos e inteligentes se apaixonaram por esta novidade a ponto de se mistificarem a si próprios e de ficarem enganados por essa predileção. Os oráculos das mesas eram respostas sugeridas mais ou menos voluntariamente ou tiradas à sorte; se pareciam com os discursos que se fazem ou se ouvem nos sonhos. Os outros fenômenos mais estranhos podiam ser produtos exteriores da imaginação comum. Não negamos, sem dúvida, a intervenção possível dos espíritos elementais nestas manifestações, como nas da adivinhação pelas cartas ou pelos sonhos; mas não cremos que seja provada de modo algum, e que, por conseguinte, nada possa obrigar-nos a admiti-la.
Um dos poderes mais estranhos da imaginação humana é o da realização dos desejos da vontade ou até dos seus temores e apreensões. A pessoa crê facilmente no que teme ou no que deseja, diz o provérbio, e tem razão, porque o desejo e o temor dão à imaginação uma força realizadora, cujos efeitos são incalculáveis.
Como é a pessoa atingida, por exemplo, pela doença que teme? Já nos referimos às opiniões de Paracelso a este respeito, e estabelecemos, no nosso Dogma, as leis ocultas verificadas pela experiência; mas, nas correntes magnéticas e por intermédio da cadeia, as realizações são tanto mais estranhas, quanto são quase sempre inesperadas, quando a cadeia não é formada por um chefe inteligente, simpático e forte. Com efeito, elas resultam de combinações puramente fatais e fortuitas. O terror vulgar dos convivas supersticiosos, quando se acham treze à mesa, e a convicção que têm de que uma desgraça ameaça o mais moço e o mais fraco dentre eles, é, como a maior parte das superstições, um resto de ciência mágica. O duodenário, sendo um número completo e cíclico nas analogias universais da natureza, arrasta sempre e absorve o décimo terceiro, número considerado como infeliz e supérfluo. Se o círculo de uma mó de moinho é representado por doze, o número treze será o do grão que deve moer. Os antigos tinham estabelecido, sobre semelhantes considerações, a distinção dos números felizes e infelizes, do que provinha a observância dos dias de bom e mau augúrio. É principalmente em semelhante matéria que a imaginação é criadora, e os números e dias não deixam de ser favoráveis ou funestos aos que crêem na sua influência. É, pois, com razão que o cristianismo proscreveu as ciências adivinhatórias, porque, diminuindo assim o número das sortes fatais, deu mais expedientes e mais império à liberdade.
A imprensa é um admirável instrumento para formar a cadeia magnética pela propagação da palavra. Com efeito, nenhum livro é perdido, os escritos vão sempre onde devem ir e as aspirações do pensamento atraem a palavra. Experimentamo-lo muitas vezes durante o curso da nossa iniciação mágica; os livros mais raros se nos ofereciam sempre, sem procura da nossa parte, desde que se nos
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tornavam indispensáveis. É assim que achamos intacta esta ciência universal que muitos eruditos acreditaram enterrada sob vários cataclismos sucessivos; é assim que penetramos na grande cadeia mágica que começou em Hermes ou Enoque para só acabar com o mundo. Então pudemos evocar e fazer presentes os espíritos de Apolônio, Plotino, Sinésio, Paracelso, Cardan, Cornélio, Agrippa e tantos outros menos conhecidos, ou mais conhecidos, mas muito religiosamente célebres para mencioná-los à ligeira.
Continuaremos a sua grande obra, que outros continuarão depois de nós. Mas a quem será dado acabar?
CAPÍTULO XII
A GRANDE OBRA
Ser sempre rico, sempre moço e nunca morrer; tal foi, em todos os tempos, o sonho dos alquimistas.
Mudar em ouro o chumbo, o mercúrio e todos os outros metais, possuir a medicina universal, e o elixir de vida, tal é o problema a resolver para alcançar este desejo e realizar este sonho.
Como todos os mistérios mágicos, os segredos da grande obra têm uma tríplice significação: são religiosos, filosóficos e naturais.
O ouro filosofal, em religião, é a razão absoluta e suprema; em filosofia, é a verdade; na natureza visível, é o sol; no mundo subterrâneo e mineral, é o ouro mais perfeito e mais puro.
É por isso que chamam a procura da grande obra a investigação do absoluto, e que designam esta mesma obra pelo nome de obra do sol.
Todos os mestres da ciência reconhecem que é impossível chegar aos resultados materiais, se a pessoa não achou, nos dois graus superiores, todas as analogias da medicina universal e da pedra filosofal.
Então, dizem eles, o trabalho é simples, fácil e pouco dispendioso; noutro caso, consome a fortuna e a vida dos sopradores.
A medicina universal, para a alma, é a razão suprema e a justiça absoluta; para o espírito, é a verdade matemática e prática; para o corpo, é a quintessência, que é uma combinação de luz e de ouro.
A matéria-prima da grande obra, no mundo superior, é o entusiasmo e a atividade; no mundo intermediário, é a inteligência e a indústria; no mundo inferior, é o trabalho; e na ciência, é o enxofre, o mercúrio e o sal, que, alternativamente volatizados e fixados, compõem o azoth dos sábios.
O enxofre corresponde à forma elementar do fogo, o mercúrio ao ar e a água, e o sol a terra.
Todos os mestres de alquimia que escreveram sobre a grande obra, empregaram expressões simbólicas e figuradas, e deviam fazê-lo, tanto para afastar os profanos de um trabalho perigoso para eles, como para fazer-se entender bem dos adeptos, revelando-lhes todo o mundo das analogias que rege o dogma único e soberano de Hermes.
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Assim, para eles, o ouro e a prata são o rei e a rainha, ou a lua e o sol; o enxofre é a águia voadora; o mercúrio é o andrógino alado e barbado, montado num cubo e coroado de chamas; a matéria ou o sal é o dragão alado; os metais em ebulição são leões de diversas cores; enfim, a obra inteira tem por símbolo o pelicano e a fênix.
A arte hermética é, pois, ao mesmo tempo, uma religião, uma filosofia e uma ciência natural. Como religião, é a dos antigos magos e iniciados de todos os tempos; como filosofia, podemos encontrar os seus princípios na escola de Alexandria e nas teorias de Pitágoras; como ciência, é preciso pedir os seus processos a Paracelso, Nicolau Flamel e Raimundo Lullo.
A ciência só é real para os que admitem e entendem a filosofia e a religião, e os seus processos só podem ser bem sucedidos para o adepto que chegou à vontade soberana e tornou-se, assim, rei do mundo elementar; porque o grande agente da operação do sol é esta força descrita no símbolo de Hermes da tábua de esmerando; é a força mágica universal; é o motor espiritual ígneo; é o od, conforme os hebreus, é a luz astral, conforme a expressão que adotamos nesta obra.
É este o fogo secreto, vivo e filosofal, de que todos os filósofos herméticos falam com as mais misteriosas reservas; é este o esperma universal cujo segredo guardaram e que somente representam sob a figura do caduceu de Hermes.
Eis, pois, o grande arcano hermético e nós o revelamos aqui, pela primeira vez, claramente e sem figuras místicas; o que os adeptos chamam matérias mortas são os corpos tais como se acham na natureza; as matérias vivas são substâncias assimiladas e magnetizadas pela ciência e a vontade do operador.
De sorte que a grande obra é alguma coisa mais do que uma operação química: é uma verdadeira criação do verbo humano, iniciado ao poder do próprio Deus.
Este texto hebraico que transcrevemos como prova de autenticidade e da realidade da nossa descoberta, é do rabino judeu Abraão, o mestre de Nicolau Flamel, e se acha no seu começo oculto sobre o Sepher Yetzisah, o livro sagrado da Cabala. Este comentário é muito raro; mas as forças simpáticas da nossa cadeia nos fizeram achar um exemplar dele, que foi conservado até 1643, na biblioteca da igreja protestante de Ruão. Lê-se aí, escrito na primeira página: Ex dono; depois um nome ilegível Dei magni.
׃רבאדּה
יריּטתּ לבש ירקב אלּה ביתנה
הריהו שמשה ביהנמח אוּה יבּ
לב וּעהיתןר סיבבוּבה ראשו
לבּל ןתןנו וּלבבּ סהמ רהא
לא סתב רעממ סיארבנה
׃תורוּצהו לוּמהתו
A criação do ouro na grande obra se faz por transmutação e multiplicação.
Raimundo Lullo diz que, para fazer ouro, é preciso ouro e mercúrio; que, para fazer prata, é preciso prata e mercúrio. Depois acrescenta: “Entendo por mercúrio este espírito mineral tão fino e tão purificado que doura até a semente do ouro e prateia a da prata”. Não há dúvida que fala, aqui, do od ou luz astral.
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O sal e o enxofre só servem na obra para a preparação do mercúrio, e é principalmente ao mercúrio que é preciso assimilar e como que incorporar o agente magnético. Só Paracelso, Raimundo Lullo e Nicolau Flamel parecem ter conhecido perfeitamente este mistério. Basílio Valentino e o Trevisano o indicam de um modo imperfeito e que pode ser interpretado de outro modo. Mas as coisas mais curiosas que encontramos a este respeito são indicadas pelas figuras místicas e as legendas mágicas de um livro de Henri Khunrath, intitulado: “Amphitheatrum sapientitae aeternae”.
Khunrath representa e resume as escolas gnósticas mais sábias, e refere-se, na simbólica, ao misticismo de Sinésio. Afeta o cristianismo nas expressões e nos signos; mas é fácil reconhecer que o seu Cristo é o dos Abraxas, o pentagrama luminoso irradiante da cruz astronômica, a encarnação na humanidade do rei Sol, celebrado pelo imperador Juliano; é a manifestação luminosa e viva deste Ruach-Elohim que, conforme Moisés, cobria e elaborava a face das águas ao nascimento do mundo; é o homem-sol, é o rei da luz, é o mago supremo senhor e vencedor da serpente, e ele encontra na quádrupla lenda dos evangelistas a chave alegórica da grande obra. Num dos pantáculos do seu livro mágico, representa a pedra filosofal de pé, no meio de uma fortaleza rodeada por uma cerda de vinte e uma portas sem saída. Uma única leva ao santuário da grande obra. Em cima da pedra está um triângulo apoiado num dragão alado, e na pedra está gravado o nome do Cristo, que ele qualifica de imagem simbólica da natureza inteira. “É por ele só – acrescenta – que podeis chegar à medicina universal para os homens, vegetais e minerais”. O dragão alado, dominado pelo triângulo, representa, pois, o Cristo de Khunrath, isto é, a inteligência soberana da luz e da vida: é o segredo do pentagrama, é o mais elevado mistério dogmático e prático da magia tradicional. Daí ao grande e para sempre incomunicável arcano há um só passo. As figuras cabalísticas do judeu Abraão, que deram a Flamel a iniciativa da ciência, nada mais são senão as vinte e duas chaves do Tarô, aliás, imitadas e resumidas nas doze chaves de Basílio Valentino. O sol e a lua aí reaparecem sob as figuras do imperador e da imperatriz; Mercúrio é pelotiqueiro; o grande Hierofante é o adepto ou o separador da quintessência; a morte, o juízo, o amor, o dragão ou o diabo, o eremita ou o velho coxo e, enfim, todos os símbolos aí se encontram com seus principais atributos e quase na mesma ordem. Não poderia ser de outro modo, porque o Tarô é o livro primitivo e a chave de arco das ciências ocultas: deve ser hermético como pe cabalístico, mágico e teosófico. Por isso, achamos, na reunião da sua duodécima e vigésima segunda chave, sobrepostas uma à outra, a revelação hieroglífica da nossa solução dos mistérios da grande obra.
A duodécima chave representa um homem suspenso por um pé e uma forca composto de três árvores ou paus, que formam a figura da letra hebraica t, os braços do homem formam um triângulo com a sua cabeça, e a sua forma hierática inteira é a de um triângulo invertido, tendo como remonte uma cruz, símbolo alquímico conhecido por todos os adeptos e que representa a realização da grande obra. A vigésima segunda chave, que tem o número 21, porque o louco, que a precede na ordem cabalística, não tem número, representa uma jovem divindade levemente velada e que corre numa coroa florescente, suportada nos quatro cantos pelos quatro animais da Cabala. No Tarô italiano, esta divindade tem uma baqueta em cada mão; e no Tarô de Besançon, reúne numa só mão duas baquetas e põe a outra mão sobre a sua coxa, símbolos igualmente notáveis da ação magnética, quer alternada da sua polarização, quer simultânea por oposição e transmissão.
A grande obra de Hermes é, pois, uma operação essencialmente mágica, e a mais elevada de todas, porque supõe o absoluto em ciência e vontade. Há luz no ouro, ouro na luz e luz em todas as coisas. A vontade inteligente que assimila a si a luz dirige, assim, as operações da forma substancial, e serve-se da química só como de um instrumento muito secundário. A influência da vontade e da inteligência humanas sobre as operações da natureza, dependentes em parte do seu trabalho, é, aliás, um fato tão real que todos os alquimistas sérios tiveram sucesso em razão dos seus conhecimentos e da sua fé, e reproduziram o seu pensamento no fenômeno da fusão, da salificação e da recomposição dos metais. Agrippa, homem de imensa erudição e de um belo gênio, mas puro
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filósofo e cético não pôde ultrapassar os limites da análise e da síntese dos metais. Etteilla, cabalista confuso, embrulhado, fantástico, porém perseverante, reproduzia, em alquimia, as bizarrias do seu Tarô mal compreendido e desfigurado; os metais tomavam, nos seus alambiques, formas singulares que excitavam a curiosidade de Paris inteira, sem outro resultado para a fortuna do operador a não ser os honorários que exigia dos seus visitantes. Um soprador obscuro do nosso tempo, que morreu louco, o pobre Luiz Cambriel, curava realmente seus vizinhos, e ressuscitou, pelo que diz todo o seu quarteirão, um ferreiro seu amigo. Viu, um dia, nos seus alambiques, o próprio Deus, incandescente como o Sol, transparente como o cristal, e tendo um corpo feito de ajuntamentos triangulares que Cambriel compara ingenuamente a um monte de pequenas pêras.
Um cabalista nosso amigo, que é sábio, mas pertencente a uma iniciação que cremos errôneas, fez, ultimamente, as operações químicas da grande obra; chegou a enfraquecer a sua vista pela incandescência do athanor, e criou um novo metal que se assemelha ao ouro, mas não é ouro, e, por conseguinte, não tem nenhum valor. Raimundo Lullo, Nicolau Flamel e, muito provavelmente, Henri Khunrath, fizeram ouro verdadeiro e não levaram o seu segredo consigo, pois que o consignaram nos seus símbolos e indicaram as fontes onde procuraram para o descobrirem e realizar seus efeitos. É este mesmo segredo que publicamos hoje.
CAPÍTULO XIII
A NECROMANCIA
Enunciamos ousadamente o nosso pensamento ou antes a nossa convicção sobre a possibilidade do ressurrecionismo em certos casos; é preciso completar, aqui, a revelação deste arcano e expor a sua prática.
A morte é um fantasma da ignorância; ela não existe: tudo é vivo na natureza, e é porque tudo é vivo que tudo se move e muda incessantemente de formas.
A velhice é o começo da regeneração; é o trabalho da vida que se renova, e o mistério do que chamamos a morte era figurado entre os antigos por esta fonte de Juvência onde a pessoa entra decrépita e de onde sai criança.
O corpo é uma vestimenta da alma. Quando esta vestimenta está completamente gasta ou grave e irreparavelmente despedaçada, a alma a deixa e não mais a toma. Mas quando, por um acidente qualquer, esta vestimenta lhe escapa, sem estar gasta ou destruída, a alma pode, em certos casos, retoma-la, quer pelo seu próprio esforço, quer pela assistência de uma outra vontade mais forte e mais ativa do que a sua.
A morte não é nem o fim de vida nem o começo da imortalidade; é a continuação e a transformação da vida.
Ora, uma transformação sendo sempre um progresso, há poucos mortos aparentes que consentem em reviver, isto é, em retomar a vestimenta que acabam de deixar. É o que faz da ressurreição uma das obras mais difíceis da alta iniciação. Por isso, o seu sucesso nunca é infalível e deve ser considerado quase sempre como acidental e inesperado. Para ressuscitar um morto, é preciso fechar repentina e energicamente a mais forte das cadeias de atração que possa uni-lo novamente à forma que acaba de deixar. É, pois, necessário conhecer primeiramente esta cadeia, depois de apoderar-se dela e produzir um esforço de vontade tão grande para fechá-la instantaneamente e com uma força irresistível.
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Tudo isto, dizemos nós, é extremamente difícil, mas nada tem de absolutamente impossível. Já que em preconceitos da ciência materialista não admitindo, hodiernamente, a ressurreição na ordem natural, há tendências para explicar todos os fenômenos desta ordem pelas letargias mais ou menos complicadas com os sintomas mais ou menos longos da morte. Lázaro ressuscitaria, hoje, diante dos nossos médicos, e eles simplesmente apontariam, no seu relatório para as academias competentes, o caso estranho de uma letargia acompanhada de um começo aparente de putrefação e de um odor cadavérico bastante forte; dariam um nome a este acidente excepcional, e tudo ficaria dito.
Não gostamos de contrariar ninguém e se para respeitar os homens condecorados que representam oficialmente a ciência é preciso considerar as nossos teorias ressurrecionistas como a arte de curar as letargias excepcionais e desesperadas, nada nos impedirá, espero, de lhes fazer esta concessão.
Se, porventura, uma ressurreição foi feita no mundo, é incontestável que a ressurreição é possível. Ora, os corpos constituídos protegem a religião; a religião afirma positivamente o fato das ressurreições: logo, as ressurreições são possíveis. É difícil sair daí. Dizer que são possíveis fora das leis da natureza e por uma influência contrária à harmonia universal, é afirmar que o espírito de desordem, trevas e morte pode ser o árbitro soberano da vida. Não disputemos com os adoradores do diabo, e passemos.
Não é, porém, só a religião que atesta os fatos da ressurreição; colhemos vários exemplos deles. Um fato que tinha ferido a imaginação do pintor Greuze foi reproduzido por ele num dos seus quadros mais notáveis: um filho indigno, junto do leito de morte de seu pai, surpreende e rasga um testamento que não lhe era favorável; o pai se reanima, sobressalta-se, amaldiçoa o filho, depois se deita e morre uma segunda vez. Um fato análogo e mais recente foi atestado por testemunhas oculares: um amigo, traindo a confiança do seu amigo que acabava de morrer, tomou e rasgou uma atestação de fideicomisso subscrita por ele; à vista disso, o morto ressuscitou e ficou vivo para defender os direitos dos herdeiros escolhidos que este infiel ia prejudicar; o culpado ficou louco, e o morto ressuscitado foi bastante compassivo para lhe dar uma pensão.
Quando o Salvador ressuscita a filha de Jairo, entra só com seus três discípulos fiéis e favoritos; afasta os que faziam barulho e choravam, dizendo-lhes: “Esta moça não morreu, ela dorme”. Depois, somente na presença do pai, da mãe e dos três discípulos, isto é, um círculo perfeito de confiança e desejo, toma a mão da moça, levanta-a bruscamente e lhe diz: “Menina, levantai-vos!” A moça, cuja alma indecisa errava, sem dúvida, junto a seu corpo, de que talvez lamentasse a extrema mocidade e beleza, surpreendida pelo acento desta voz, que seus pais e sua mãe ouvem de joelhos e com estremecimentos de esperança, entra no seu corpo, abre os olhos, levanta-se, e o Mestre logo ordena que lhe dêem de comer, para que as funções da vida comecem um novo ciclo de absorção e regeneração.
A história de Eliseu, ressuscitando o filho de Sunamita, e a de São Paulo, ressuscitando Eutíquio são fatos da mesma ordem; a ressurreição de Dorcas por São Pedro contada com tanta simplicidade nos Atos dos Apóstolos, é igualmente uma história cuja verdade não poderia ser razoavelmente contestada. Apolônio de Thyana parece também ter realizado semelhantes maravilhas. Nós mesmos fomos testemunhas de fatos que não deixam de ter analogia com estes, mas o espírito do século no qual vivemos nos impõe, a este respeito, a mais discreta reserva, os taumaturgos estando expostos a ter, em nossa época, um acolhimento muito medíocre diante do bom público: o que não impede a terra de girar e Galileu de ser um grande homem.
A ressurreição de um morto é a obra-prima do magnetismo, porque é preciso, para realizá-la, exercer uma espécie de onipotência simpática. É possível no caso de morte por congestão, afogamento, languidez, histerismo.
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Eutíquio, que foi ressuscitado por São Paulo, depois de ter caído do terceiro andar, sem dúvida não tinha nada rompido interiormente, e havia sucumbido seja pela asfixia ocasionada pelo movimento do ar durante a queda, seja pela surpresa e o temor. É preciso, em tal caso, e quando o operador sente a força e a fé necessárias para realizar semelhante obra, praticar como o apóstolo, a insuflação boca contra boca, ajuntando a isso o contato das extremidades para lhe dar calor. Se se tratasse simplesmente do que os ignorantes chamam um milagre, Elias e São Paulo, cujos processos, em tal caso, foram os mesmos, teriam simplesmente falado em nome de Jeová ou do Cristo.
Ás vezes, pode ser suficiente tomar a pessoa pela mão e levanta-la vivamente, chamando-a com voz forte. Este processo, que, de ordinário, é bem-sucedido nos desmaios, pode ter ação sobre a morte, quando o magnetizador que o exerce é dotado de uma palavra poderosamente simpática e possui o que poderíamos chamar a eloqüência da voz. É preciso também que seja ternamente amado ou respeitado pela pessoa sobre a qual quer agir, e que faça a sua obra por um grande impulso de fé e vontade, que nem sempre a pessoa acha em si mesma no primeiro susto de uma grande dor.
O que, vulgarmente, é chamado de necromancia nada tem de comum com ressurreição, e é, ao menos, muito duvidoso que, nas operações relativas a esta aplicação do poder mágico, a pessoa se ponha realmente em relação com as almas dos mortos que invoca. Há duas espécies de necromancia: a necromancia de luz e a necromancia das trevas; a evocação pela prece, o pantáculo e os perfumes, e a evocação pelo sangue, as imprecações e os sacrilégios. É somente a primeira que praticamos, e não aconselhamos a ninguém que se entregue à segunda.
É certo que as imagens dos mortos aparecem às pessoas magnetizadas que as evocam; é certo também que nunca lhes revelam coisa alguma dos mistérios da outra vida. As pessoas vêem-nas tais como podem estar nas lembranças dos que as conheceram, tais como, sem dúvida, os seus reflexos as deixaram impressas na luz astral. Quando os espectros evocados respondem às perguntas que lhes dão dirigidas, é sempre pelos sinais ou a impressão interior e imaginária, nunca com uma voz que realmente fere os ouvidos; e isto se compreende bem: como uma sombra falará? Com que instrumento faria vibrar o ar, ferindo-o de modo a fazer distinguir os sons?
Todavia, a pessoa sente contatos elétricos na ocasião das aparições, e estes contatos parecem, às vezes, serem produzidos pela própria mão do fantasma; mas este fenômeno é inteiramente interior e deve ter por causa única a força da imaginação e as afluências locais da força oculta que chamamos luz astral. O que prova é que os espíritos ou, ao menos, os espectros como são considerados, às vezes nos tocam realmente, mas não seria possível toca-los, e é uma das circunstâncias mais espantosas das aparições, porque as visões têm, às vezes, uma aparência tão real, que não podemos, sem ficar comovidos, sentir que a mão passa através do que nos parece um corpo, sem poder tocar em coisa alguma ou encontrá-la.
Lê-se nos historiadores eclesiásticos que Esperidião, bispo de Tremithonte, que mais tarde foi invocado como santo, evocou o espírito de sua filha Irene, para saber dela onde se achava escondida uma soma de dinheiro que ela tinha recebido de um viajante. Swedenborg comunicava-se habitualmente com os pretensos mortos, cujas formas lhe apareciam na luz astral. Conhecemos várias pessoas dignas de fé, que nos asseguravam ter visto, durante anos inteiros, defuntos que lhes eram caros. O célebre ateu que Silvano Marechal apareceu à sua viúva e a uma amiga desta última, para lhes dar conhecimento de uma soma de 1.500 francos em ouro que tinha guardado numa gaveta secreta de um móvel. Obtivemos esta informação de uma antiga amiga da família.
As evocações devem ser sempre motivadas e ter um fim louvável; de outro modo, são operações de trevas e de loucura, muito perigosas para a razão e a saúde. Evocar por pura curiosidade e para saber se a pessoa verá alguma coisa, é estar já disposto a afadigar-se só com prejuízo. As altas ciências não admitem nem as dúvidas nem as puerilidades.
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O motivo louvável de uma evocação pode ser de amor ou de inteligência.
As evocações de amor exigem menos aparato e são, em todas as maneiras, mais fáceis. Eis como é preciso proceder nelas:
Devemos primeiramente recolher com cuidado todas as lembranças daquele ou daquela que desejamos tornar a ver, os objetos que lhe serviram e guardaram a sua impressão, e mobiliar, quer um quarto em que a pessoa tenha habitado em sua vida, quer um lugar semelhante, onde poremos o seu retrato, coberto de branco, no meio das flores que a pessoa gostava e as quais renovaremos todos os dias.
Depois, é preciso observar uma data fixa, um dia do no que tenha sido, quer a sua festa, quer o dia mais feliz para a nossa afeição e a dela, um dia do qual supomos que sua alma, por mais feliz que seja, não pôde perder a lembrança: é este mesmo dia que é preciso escolher para a evocação, à qual nos prepararemos durante catorze dias.
Durante este tempo, será preciso observar em não dar a ninguém as mesmas provas de afeição que o defunto ou a defunta tinha direito de esperar de nós; será preciso observar uma castidade rigorosa, viver no retiro e só fazer uma refeição modesta e uma leve colação por dia.
Todas as tardes, à mesma hora, será preciso fechar-se com uma única luz pouco clara, tal como uma pequena lanterna funerária ou uma vela, no quarto consagrado à memória da pessoa de quem se tem saudades; a pessoa colocará a luz atrás de si e descobrirá o retrato, em presença do qual ficará uma hora em silêncio; depois perfumará o quatro com um pouco de bom incenso e sairá dele recuando.
No dia fixado para a evocação, será preciso preparar-se desde a manhã como para uma festa; não ser o primeiro a dirigir uma palavra a ninguém, só fazer uma refeição composta de pão, vinho e raízes ou frutas; a toalha de mesa deve ser branca; a pessoa porá dois talheres e cortará uma parte do pão que deverá ser servido inteiro; porá também algumas gotas de vinho no copo da pessoa que se quer evocar. Esta refeição deve ser feita em silêncio, no quarto das evocações, em presença do retrato coberto; depois a pessoa tirará tudo o que serviu para isso, exceto o copo do defunto e a sua parte de pão, que serão deixados diante do seu retrato.
De tarde, fora da visita habitual, a pessoa irá ao quarto em silêncio; acenderá um fogo claro com pau de cipreste e porá nele incenso sete vezes, pronunciando o nome da pessoa que se quer tornar a ver; apagará, depois, a lâmpada e deixará o fogo apagar-se. Neste dia, não descobrirá o retrato.
Quando a chama ficar apagada, porá incenso nas brasas e invocará a Deus conforme as fórmulas da religião à qual pertencia a pessoa falecida e conforme as idéias que ela tinha de Deus.
Será preciso, ao fazer esta prece, identificar-se com pessoa evocada, falar como ela falaria, acreditar ser, de algum modo, ela mesma; enfim, depois de um quarto de hora em silêncio, falar-lhe como se estivesse presente, com afeição e fé, pedindo-lhe que se mostre a nós; renovar esta prece mentalmente e cobrindo a fronte com ambas as mãos, depois chamar três vezes, em alta voz, a pessoa; esperar de joelhos e com os olhos fechados ou cobertos, durante alguns minutos, falando-lhe mentalmente; chamá-la ainda três vezes, com voz agradável e afetuosa, e abrir lentamente os olhos. Não vendo nada, será preciso renovar esta experiência no ano seguinte, e, assim, até três vezes. É certo que, ao menos na terceira vez, obterá a aparição desejada, e quanto mais viver tardado, tanto mais será visível e surpreendente de realidade.
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As evocações de ciência e de inteligência se fazem com cerimônias mais solenes. Se se tratar de uma personagem célebre é preciso meditar durante vinte e um dias a sua vida e os seus escritos, fazer uma idéia da sua pessoa, das suas afeições e da sua voz; falar-lhe mentalmente e imaginar as suas respostas, trazer consigo o seu retrato ou ao menos o seu nome, sujeitar-se a um regime vegetal durante dos vinte e um dias, e a um jejum severo durante os últimos sete; depois construir o oratório mágico tal como o descrevemos no décimo terceiro capítulo do nosso Dogma. O oratório deve ser inteiramente fechado; mas, se a pessoa deve esperar de dia, pode deixar uma estreita abertura ao lado em que bate o sol à hora da evocação e colocar diante desta abertura um prisma triangular; depois, diante do prisma, um globo de cristal, cheio de água. Se tiver de operar à noite, é preciso dispor a lâmpada mágica de modo a fazer cair o seu único raio sobre a fumaça do altar. Estes preparativos têm por fim fornecer ao agente mágico elementos de uma aparência corporal e aliviar a tensão da nossa imaginação, que não poderia, sem perigo, ser exaltada até a ilusão absoluta do sonho. Aliás, entende-se bastante que um raio de sol ou de lâmpada diversamente colorida, caindo sobre uma fumaça móvel, não pode, de modo algum, criar uma imagem perfeita. O fogareiro do fogo sagrado deve estar no centro do oratório, e o altar dos perfumes a pouca distância. O operador deve voltar-se para o oriente a fim de orar, e para o ocidente a fim de evocar; deve estar só ou ser assistido por duas pessoas que observarão o mais rigoroso silêncio; usará os vestuários mágicos tais como os descrevemos no sétimo capítulo; será coroado de verbena e de ouro. Deverá ter-se lavado antes da operação e todas as suas roupas deverão ser de uma intacta e rigorosa limpeza.
A pessoa começará por uma operação apropriada ao gênio do espírito que quer evocar, e que ele mesmo, se ainda vivesse, poderia aprovar. Assim, por exemplo, nunca seria possível evocar Voltaire, recitando orações do gosto de Santa Brígida. Para os grandes homens dos tempos antigos é preciso dizer os hinos de Cleanto ou de Orfeu, com o juramento que termina os versos áureos de Pitágoras. Por ocasião de nossa evocação de Apolônio, tomamos, como ritual, a magia filosófica de Patrício, que contém os dogmas de Zoroastro e as obras de Hermes Trismegisto. Lemos em alta voz o Nuctemeron de Apolônio, em grego, e acrescentamos a conjuração seguinte:
, μέ μ . ε ί μ μἧ ά Ό με ὤ έ . Ο ί εбά ε . έ ά ε , μ ύ .
Ό ά ύ μ , έμὦ ε . Тὦ άμμ ὦ ά μέ έ ἄ έ ϑ ά ε ε
Μά ε ὧ ὧ ὧ ά ε ά μά έ ε ε ά ε
Para a evocação dos espíritos pertencentes às religiões emanadas de judaísmo é preciso dizer a invocação cabalística de Salomão, quer em hebreu, quer em qualquer outra língua que sabemos ter sido familiar ao espírito que evocamos:
“Potências do reino, ficai sob meu pé esquerdo e na minha mão direita; glória e eternidade, tocai nos meus ombros e dirigi-me nos caminhos da vitória; Misericórdia e Justiça, sede o equilíbrio e o esplendor da minha vida; espíritos de Malchut, levai-me entre as duas colunas nas quais se apóia todo o edifício do templo; anjos de Netsah e de Hod, firmai-me na pedra cúbica de Yesod.
Ó Gedulael! ó Geburael! ó Tiphereth! Binael, sê meu amor; Ruach Hochmael, sê minha luz; sê o que és e o que serás, ó Ketheriel!
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“Ischim, assisti-me em nome de Saddai”.
“Querubim, sede minha força em nome de Adonai”.
“Beni-Elohim,” sede meus irmãos em nome do filho e pelas virtudes de Zebaoth“.
“Elohim, combatei por mim em nome de Tetragrammaton”.
“Malachim, protegei-me em nome de h w h y”.
“Serafim, purificai meu amor em nome de Elvoh”.
“Hasmalim, iluminai-me com os esplendores de Eloi e da Schechinah”.
“Aralim, agi; Ophanim, girai e resplandecei”.
“Haioth ha Kadosch, gritai, falai, roncai, daí mugidos; Kadosch, Kadosch, Kadosch, Saddai, Adonai, Jotchavah, Eiazereie, Alleluiah, Alleluiah, Alleluiah. Amem. ” ןמא
É preciso principalmente lembrar-se bem, nas conjurações, que os nomes de Satã, Belzebute, Adrameleque e outros, não designam personalidades espirituais, mas sim legiões de espíritos impuros. Chamo-me legião, diz no Evangelho o espírito das trevas, porque somos em grande número. No inferno, reina a anarquia, e o número que faz a lei e o progresso aí se realiza em sentido inverso, isto é, que os mais adiantados em desenvolvimento satânico, os mais degradados, por conseguinte, são os menos inteligentes e os mais fracos. Assim, uma lei fatal leva os demônios a descerem quando crêem e querem subir. Por isso, os que se dizem chefes são os mais impotentes e desprezados de todos. Quanto à multidão dos espíritos perversos, ela treme diante de um chefe desconhecido, invisível, incompreensível, caprichoso, implacável, que nunca explica suas leis e que tem sempre o braço armado para ferir os que não puderam adivinha-lo. Dão a este fantasma os nomes de Baal, Júpiter ou outros mais veneráveis, e que no inferno não são pronunciados sem haver profanação; mas este fantasma é simplesmente a sombra e a lembrança de Deus, desfiguradas pela sua perversidade voluntária e que ficaram na imaginação deles como uma vingança da justiça e um remorso da verdade.
Quando o espírito de luz que a pessoa evocou se mostra com feição triste ou irritada, é preciso oferecer-lhe um sacrifício moral, isto é, estar interiormente disposto a renunciar ao que o ofende; depois é preciso, antes de sair do oratório, despedi-lo, dizendo-lhe:
“A paz esteja contigo! Eu não quis perturbar-te, não me atormentes; trabalharei pare me reformar em tudo o que te ofende; oro e orarei contigo e por ti; ora comigo e volta ao teu grande sono, esperando o dia em que nos despertaremos juntos. Silêncio e adeus!”
Não acabaremos este capítulo sem acrescentar, para os curiosos, alguns detalhes sobre as cerimônias da necromancia negra. Encontramos em vários autores antigos como a praticavam as feiticeiras da Tessália as Canídias de Roma. Cavavam um buraco, perto do qual degolavam uma ovelha preta; depois afastavam com a espada mágica as psilas e larvas que se supunham presentes e prestes a beber o sangue; invocavam a tríplice Hécate e os deuses infernais, chamando três vezes a sombra que queriam ver aparecer.
Na Idade Média, os necromantes profanavam os túmulos, compunham filtros e ungüentos com a gordura e o sangue dos cadáveres; misturavam a isso o acônito, a beladona, e o cogumelo venenoso; depois cozinhavam estas horrendas misturas em fogos acesos com ossos humanos e crucifixos roubados das igrejas; misturavam a isso pós de sapatos dessecados e a cinza de hóstias consagradas; depois untavam as têmporas, as mãos e o peito com o ungüento infernal; traçavam o pantáculo diabólico, evocavam os mortos em baixo dos patíbulos ou nos cemitérios abandonados. Ouviam-se de longe os seus uivos, e os viajantes atrasados acreditavam ver sair da terra legiões de fantasmas; até as árvores tomavam a seus olhos figuras que davam medo; viam-se cintilar olhos de fogo nas moitas, e as rãs dos charcos pareciam repetir com voz rouca as palavras misteriosas do Sabbat. Era o magnetismo da alucinação e contágio da loucura.
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Os processos da magia negra têm por fim perturbar a razão e produzir todas as exaltações febris que dão a coragem para os grandes crimes. Os engrimanços que, outrora, a autoridade fazia tomar e queimar não eram certamente livros inocentes. O sacrilégio, o assassinato e o roubo são indicados de modo obscuro como meio de realização em quase todas essas obras. É assim que, no Grande Grimório e no Dragão Vermelho, falsificação mais moderna do Grande Grimório, lê-se uma receita intitulada: Composição de morte ou Pedra filosofal. É uma espécie de extrato de água forte, cobre, arsênico e verdete; encontram-se também nele processos de necromancia que consistem em cavar a terra dos túmulos com suas unhas, tirar deles ossos que devem ser conservados no peito em forma de cruz e assistir, assim, a missa da meia-noite, na noite de Natal, numa igreja, e no momento da elevação, levantar-se e fugir, exclamando: “Que os mortos saiam de seus túmulos!”; depois, voltar ao cemitério, tomar um punhado de terra que se ache bem perto do caixão, voltar correndo à porta da igreja, cujos assistentes terá espantado com o clamor, depor aí os dois ossos em cruz, exclamando ainda: “Que os mortos saiam dos seus túmulos!”, e, se não houver aí ninguém para vos prender e levar para o hospício, afastar-vos a passos lentos e contar quatro mil e quinhentos passos, sem voltar para trás, e o faz supor que seguis um grande caminho e escalais as muralhas. No fim deste quatro mil e quinhentos passos, deitar-vos-eis no chão; depois de ter espalhado em cruz a terra que trazeis na mão, colocar-vos-eis como o cadáver fica no caixão e repetireis ainda,com voz lúgubre: “Que os mortos saiam dos seus túmulos!”, e chamareis três vezes aquele que desejais que apareça.
Não é para se duvidar que a pessoa tão tola e tão perversa para se entregar a tais obras já esteja disposta a todas as quimeras e a todos os fantasmas. A receita do Grande Grimório é, pois, certamente muito eficaz, mas não aconselhamos a nenhum dos nossos leitores que faça uso dela.
CAPÍTULO XIV
AS TRANSMUTAÇÕES
Santo Agostinho, dissemos, pergunta a si próprio se Apuleio podia ter sido mudado em asno e depois retornado à sua primeira forma. O mesmo doutor podia ocupar-se igualmente da aventura dos companheiros de Ulisses, transformados em porcos por Circe. As transmutações e metamorfoses foram sempre, na opinião do vulgo, a própria essência da magia. Ora, o vulgo, que se faz eco da opinião, rainha do mundo, nunca tem perfeitamente razão, nem erro total.
A magia muda realmente a natureza das coisas ou, antes, modifica à sua vontade as aparências, conforme a força de vontade do operador e a fascinação dos adeptos aspirantes. A palavra cria a sua forma, e, quando uma personagem, reputada infalível, deu a alguma coisa um nome qualquer, transforma realmente esta coisa na substância significada pelo nome que lhe dá. A obra-prima da palavra e da fé, neste gênero, é a transmutação real de uma substância cujas aparências não mudam. Se Apolônio tivesse dito aos seus discípulos, dando-lhes um copo cheio de vinho: “Eis aqui o meu sangue que bebereis, para sempre, a fim de perpetuar a minha vida em vós”, e se os discípulos tivessem, durante séculos, acreditado continuar esta transformação, repetindo as mesmas palavras,
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e, tomando o vinho, apesar do seu cheiro e sabor, pelo sangue real, humano e vivo de Apolônio, seria necessário reconhecer este mestre de teurgia como o mais hábil dos fascinadores e o mais poderoso de todos os magos. Só nos falta adorá-lo.
É sabido que os magnetizadores dão a água, todos os sabores que lhes agradam, para os seus sonâmbulos e se supusermos um magista assaz poderoso sobre o fluido astral para magnetizar ao mesmo tempo uma assembléia de pessoas, aliás preparadas por uma sobreexcitação suficiente, facilmente explicaremos, não o milagre evangélico de Cana, mas outras obras do mesmo gênero.
As fascinações do amor, que resultam da magia universal da natureza, não são verdadeiramente prodigiosas e não transformam, realmente, as pessoas e coisas? O amor é um sonho de encantamentos que transfigura o mundo: tudo se torna música e perfumes, tudo se torna embriaguez e felicidade. O ente amado é belo, é bom, é sublime, é infalível, é resplandecente; irradia a saúde e o bem-estar... E, quando o sonho se dissipa, a pessoa julga cair das nuvens; vêm com desgosto a feiticeira imunda que tomou o lugar da bela Melusina, Tersita que era tomado por Aquiles ou Nereu. Que não seria possível fazer crer à pessoa pela qual somos amados? Mas, também, que razão e que justiça podemos fazer entender aquela que já nos ama? O amor começa por ser mago e acaba por ser feiticeiro. Depois de ter criado as mentiras do céu na terra, realiza as do inferno; o seu ódio é tão absurdo como o seu entusiasmo, porque ele é passional, isto é, submetido a influências fatais para si. É por isso que os sábios o proscreveram, declarando-o inimigo da razão. Os sábios eram dignos de inveja ou de lástima, quando condenavam assim, sem o ter ouvido, o mais sedutor dos culpados? Tudo o que se pode dizer é que, quando falavam assim, ainda não tinham amado ou não amavam mais.


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