Dogma e Ritual da Alta Magia - parte 7


Mas, parece aos habitantes da terra, que o sol se levanta novo e tímido, que brilha ao meio-dia em toda a sua força, e que à tarde deita fatigado. Contudo, é a terra que gira, e o sol é imóvel.
Tendo, pois, fé no progresso humano e na estabilidade de Deus, o homem livre respeita a religião nas suas formas passadas e não blasfemaria mais Júpiter do que Jeová; saúda ainda com amor a irradiante imagem do Apolo Pythio, e lhe acha uma semelhança fraterna com o rosto glorioso do Redentor ressuscitado.
Crê na grande missão da hierarquia católica e se compraz em ver os pontífices da Idade Média oporem a religião como dique ao poder absoluto dos reis; mas protesta, com todos os séculos
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revolucionários, contra a escravidão da consciência que as chaves pontifícias queriam prender: é mais protestante que Lutero, porque nem mesmo crê na confissão de Augsburgo, e mais católico do que o papa, porque não tem medo que a unidade religiosa será rompida pela malevolência das cortes.
Confia em Deus mais do que na política de Roma para a salvação da idéia unitária; respeita a velhice da Igreja, mas não teme que morra; sabe que a sua morte aparente será uma transformação e uma assunção gloriosa.
O autor deste livro faz um novo apelo aos magos do Oriente para que venham reconhecer, ainda uma vez, no Mestre divino, cujo berço saudaram, o grande iniciador de todos os tempos.
Todos os seus inimigos caíram; todos os que o condenavam morreram; os que o perseguiam estão deitados para sempre, e ele sempre está de pé!
Os homens de inveja se coligaram contra ele e concordaram num só ponto; os homens de divisão se uniram para destruí-lo; fizeram-se reis, e os proscreveram; fizeram-se juízes, e lhe deram a sua sentença de morte; fizeram-se algozes, e o executaram; fizeram-lhe beber a cicuta, crucificaram-no, lapidaram-no e deitaram suas cinzas ao vento; depois, coraram de espanto: ele estava de pé, diante deles, acusando-os pelas suas chagas e fulminando-os com o brilho das suas cicatrizes.
Crêem degolá-lo no berço de Belém, e está vivo no Egito! Arrastam-no sobre a montanha para o precipitar; a multidão dos seus assassinos o rodeia e já triunfa da sua perda certa: um grito se faz ouvir; não é, então, ele que acaba de quebrar-se nos rochedos do precipício? Empalidecem e olham-se; mas ele, calmo e sorridente, passa no meio deles e vai-se embora.
Eis uma outra montanha que acabam de tingir com o seu sangue; eis uma cruz e um sepulcro, e soldados guardam o seu túmulo. Insensatos! O túmulo está vazio, e aquele que julgavam morto, caminha tranqüilamente, entre dois viajantes, no caminho de Emmaús.
Onde está ele? Aonde vai? Adverti os senhores da terra! Dizei aos Césares que o seu poder está ameaçado! Por quem? Por um pobre que nem tem uma pedra para descansar sua cabeça, por um homem do povo, condenado à morte dos escravos. Que insulto ou que loucura! Não importa, os Césares vão desenvolver todo o seu poder: sangrentos editos proscrevem o fugitivo, em toda parte se levantam cadafalsos, abrem-se circos repletos de leões e gladiadores, acendem-se fogueiras, correm torrentes de sangue, e o Césares, que se crêem vitoriosos, ousam acrescentar um nome àqueles com que blasonam seus troféus, depois morrem, e sua apoteose desonra os deuses que acreditaram defender. O ódio do mundo confunde, num mesmo desprezo, Júpiter e Nero; os templos, de que a adulação fez túmulos são derrubados sobre cinzas proscritas, e sobre os restos dos ídolos, sobre as ruínas dos impérios, ele só, aquele que os Césares proscreviam, aquele que tantos satélites perseguiam, aquele que tantos algozes torturavam, ele só está de pé, ele só reina, ele só triunfa!
Não obstante, os seus próprios discípulos logo abusam do seu nome; o orgulho penetra no santuário; os que deviam anunciar a sua ressurreição querem imortalizar a sua morte, a fim de se nutrir, como corvos, da sua carne sempre renascente. Em vez de imitá-lo no eu sacrifício e dar seu sangue para seus filhos na fé, prendem-no no Vaticano, como num novo Cáucaso, e fazem-se abutres deste divino Prometeu. Mas que lhe importa do seu mau sonho? Só prenderam a sua imagem; quanto a ele, sempre está de pé, e caminha de exílio em exílio e de conquista em conquista.
É que se pode prender um homem, mas não se retém cativo o Verbo de Deus. A palavra é livre e nada pode comprimi-la.
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Esta palavra viva é a condenação dos maus, e é por isso que queriam fazê-la morrer; mas, enfim, são eles que morrem, e a palavra de verdade fica para julgar a sua memória!
Pôde Orfeu ser despedaçado pelas bacantes; Sócrates bebeu o copo de veneno; Jesus e seus apóstolos morreram pelo último suplício; João Huss, Jerone de Praga e tantos outros foram queimados; a noite de São Bartolomeu e os massacres de setembro fizeram, por sua vez, mártires; o imperador da Rússia tem ainda à sua disposição cossacos, cnutes e os desertos da Sibéria; mas o espírito de Orfeu, Sócrates, Jesus e todos os mártires fica sempre vivo, no meio dos perseguidores, mortos por sua vez; fica de pé no meio das instituições que caem e dos impérios que se desmoronam!
É este espírito divino, o espírito do Filho único de Deus, que São João representa, no seu Apocalipse, de pé, no meio dos candelabros de ouro, porque é o centro de todas as luzes, tendo sete estrelas na sua mão, como a semente de um céu inteiramente novo, e fazendo descer a sua palavra à terra sob a figura de uma espada de dois gumes.
Quando os sábios, desanimados, adormecem na noite da dúvida, o espírito do Cristo está em pé e vigia.
Quando os povos, cansados do trabalho que liberta, se deitam e se enfraquecem nos seus grilhões, o espírito do Cristo fica de pé e protesta.
Quando os sectários cegos das religiões já estéreis se prosternam no pó dos velhos tempos e se arrastam servilmente num temor supersticioso, o espírito do Cristo fica de pé e ora.
Quando os fortes se enfraquecem, quando as virtudes se corrompem, quando tudo se inclina e se envilece para procurar um mísero alimento, o espírito do Cristo fica de pé, olhando para o céu e espera a hora do seu Pai.
Cristo quer dizer sacerdote e rei por excelência.
O Cristo, iniciador dos tempos modernos, veio ao mundo para formar, pela ciência e principalmente pela caridade, novos reis e novos sacerdotes. Os antigos magos eram sacerdotes e reis.
A vinda do Salvador tinha sido anunciada aos antigos magos por uma estrela. Esta estrela era o pentagrama mágico que traz em cada uma das suas pontas uma letra sagrada.
Esta estrela é a figura da inteligência que rege, pela unidade da força, as quatro forças elementares. É o pentagrama dos magos. É a estrela flamejante dos filhos de Hiram. É o protótipo da luz equilibrada. Para cada uma das suas pontas um raio de luz sobe. De cada uma das suas pontas um raio de luz desce.
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Esta estrela representa o grande e supremo athanor da natureza, que é o corpo humano.
A influência magnética parte em dois raios da cabeça, de cada mão e de cada pé.
Um raio positivo é equilibrado por um raio negativo.
A cabeça corresponde aos dois pés; cada mão com uma das mãos e um pé, os dois pés com a cabeça e uma das mãos.
Este signo regular da luz equilibrada representa o espírito de ordem e harmonia. É o sinal da onipotência do mago.
Por isso, este mesmo signo, quebrado ou irregularmente traço, representa a embriaguez astral, as projeções anormais e desregradas do grande agente mágico, por conseguinte, os enfeitiçamentos, a perversidade, a loucura, e é o que os magistas chamam a assinatura de Lúcifer.
Existe uma outra assinatura que representa também os mistérios da luz: - é a assinatura de Salomão.
Os talismãs de Salomão traziam, de um lado, a impressão do seu selo, cuja figura demos no final do 5º capítulo do nosso Dogma. Do outro lado, estava a assinatura, cuja forma é figurada na página precedente.
Esta figura é a teoria hieroglífica da composição dos ímãs e representa a lei circular do raio.
Prendemos os espíritos desregrados, mostrando-lhes, quer a estrela flamejante do pentagrama, quer a assinatura de Salomão, porque fazemos ver, assim, a prova da sua loucura, ao mesmo tempo em que os ameaçamos com um poder soberano capaz, de os atormentar, chamando-os à ordem.
Nada atormenta os maus como o bem. Nada é mais odioso à loucura do que a razão.
Mas se um operador ignorante se servir destes signos sem os conhecer, é um cego que fala da luz aos cegos. É um burro que quer ensinar a ler às crianças.
Se o cego guiar o cego, disse o grande e divino Hierofante, ambos cairão no fosso.
Uma última palavra para resumir toda esta introdução.
Se fordes cegos como Sansão, quando sacudirdes as colunas do templo, as ruínas vos esmagarão.
Para mandar na natureza, é preciso ter-se tornado superior à natureza pela resistência às suas atrações.
Se vosso espírito está perfeitamente livre de todo preconceito, toda superstição e de toda incredulidade, mandareis nos espíritos.
Se não obedecerdes às forças fatais, as forças fatais vos obedecerão.
Se fordes sábios como Salomão, fareis as obras de Salomão.
Se fordes santos como Cristo, fareis as obras do Cristo. Para dirigir as correntes da luz móvel, é preciso estar fixo numa luz imóvel. Para mandar nos elementos, é preciso ter dominado seus furacões, seus raios, seus abismos e suas tempestades.
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É preciso saber para ousar.
É preciso ousar para querer.
É preciso querer para ter o Império.
E para reinar, é preciso calar.
CAPÍTULO I
AS PREPARAÇÕES
Toda intenção que não se manifesta por atos é uma intenção vã, e a palavra que a exprime é uma palavra ociosa. É a ação que prova a vida, e é também a ação que prova e demonstra a vontade. Por isso, está escrito nos livros simbólicos e sagrados, que os homens serão julgados, não conforme seus pensamentos e suas idéias, mas segundo suas obras. Para ser é preciso fazer.
Temos, pois, de tratar agora da grande e terrível questão das obras mágicas. Não se trata mais, aqui, de teorias e abstrações; chegamos às realidades, e vamos pôr entre as mãos do adepto a baqueta dos milagres, dizendo-lhe: Não confies somente nas nossas palavras; age tu mesmo.
Trata-se aqui das obras de uma onipotência relativa e do meio de apoderar-se dos maiores segredos da natureza e fazê-los servir a uma vontade esclarecida e inflexível.
A maioria dos rituais mágicos conhecidos são mistificações ou enigmas, e vamos rasgar, pela primeira vez, depois de tantos séculos, o véu do santuário oculto. Revelar a santidade dos mistérios é remediar a sua profanação. Tal é o pensamento que sustenta a nossa coragem e nos faz afrontar todos os perigos desta obra, a mais ousada talvez que tenha sido dado ao espírito humano conceber e realizar.
As operações mágicas são o exercício de um poder natural, mas superior às forças ordinárias da natureza. São o resultado de uma ciência e de um hábito, que exaltam a vontade humana acima dos seus limites habituais.
O sobrenatural é simplesmente o natural extraordinário ou natural exaltado: um milagre é um fenômeno que impressiona a multidão, porque é inesperado; o maravilhoso e o que admira são efeitos que surpreendem os que ignoram suas causas ou lhes atribuem causas não proporcionais a semelhantes resultados. Só há milagres para os ignorantes; mas como não existe ciência absoluta entre os homens, o milagre ainda pode existir, e existe para todos.
Comecemos por dizer que cremos em todos os milagres, porque estamos convencidos e certos, até pela nossa própria experiência, da sua inteira probabilidade.
Existem os que não explicamos, mas que nem por isso deixamos de considerar como explicáveis. De o mais ao menos e do menos ao mais, as conseqüências são identicamente as mesmas e as proporções progressivamente rigorosas.
Mas, para fazer milagres, é preciso estar fora das condições comuns da humanidade; é preciso estar ou abstraído pela sabedoria, ou exaltou pela loucura, acima de todas as paixões, ou fora das paixões, pelo êxtase ou frenesi. Tal é a primeira e mais indispensável das preparações do operador.
Assim, por uma lei providencial ou fatal, o mago só pode exercer a onipotência na razão inversa do seu interesse material; o alquimista faz tanto mais ouro, quanto mais se resigna às privações e estima a pobreza, protetora dos segredos da grande obra.
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Só o adepto de coração sem paixão disporá do amor ou ódio daqueles que quiser fazer de instrumentos da sua ciência: o mito do Gênese é eternamente verdadeiro, e Deus só permite que se aproximem da árvore da ciência os homens tão abstinentes e tão fortes para não cobiçar os frutos.
Vós, pois, que procurais na magia o meio de satisfazer vossas paixões, parai nesse caminho funesto; só achareis nele a loucura ou a morte. É o que exprimiam outrora por esta tradição vulgar: que o diabo acabava, mais cedo ou mais tarde, por torcer o pescoço dos feiticeiros.
O magista deve, pois, ser impassível, sóbrio e casto, desinteressado, impenetrável e inacessível a toda espécie de preconceitos ou terror. Deve ser sem defeitos corporais e estar à prova de todas as contradições e de todos os sofrimentos. A primeira e mais importante das obras mágicas é chegar a esta rara superioridade.
Dissemos que o êxtase apaixonado pode produzir os mesmos resultados que a superioridade absoluta, e isto é verdade no que diz respeito ao sucesso, mas não no que se refere ao governo das operações mágicas.
A paixão projeta com força a luz vital e imprime movimentos imprevistos no agente universal: mas não pode reter tão facilmente como lançou, e o seu destino é, então, semelhante ao de Hipólito arrastado pelos seus próprios cavalos, ou ao de Phalaris experimentando o próprio instrumento de suplícios que inventara para outros.
A vontade humana realizada pela ação é semelhante à bala de canhão que nunca recua diante do obstáculo. Ela o atravessa, ou entra e perde-se nele, quando é lançada com violência; mas, se caminhar com paciência e perseverança, nunca se perde, e é como a onda que sempre volta e acaba por corroer o ferro.
O homem pode ser modificado pelo hábito, que, conforme o provérbio, nele se torna uma segunda natureza. Por meio uma ginástica perseverante e graduada, as forças e a agilidade do corpo se desenvolvem ou se criam numa proporção que admira. O mesmo se dá com as forças da alma. Quereis vós reinar sobre vós mesmos e os outros? Aprendei a querer.
Como se pode aprender a querer? Aqui está o primeiro arcano da iniciação mágica, e é para fazer compreender a própria essência deste arcano que os antigos, depositários da arte sacerdotal rodeavam os acessos do santuário de tantos terrores e prestígios. Só davam crédito a uma vontade, quando tinha dado suas provas, e tinham razão. A força só pode afirmar-se por vitórias.
A preguiça e o esquecimento são os inimigos da vontade, e é por isso que todas as religiões multiplicaram as práticas e tornaram minucioso e difícil o seu culto. Quanto mais a pessoa se preocupa por uma idéia, tanto mais adquire força no sentido dessa idéia.
As mães mão preferem os filhos que lhes causaram mais dores e lhes custaram mais cuidados? Por isso, a força das religiões está inteiramente na inflexível vontade dos que a praticam. Enquanto houver um fiel crente do santo sacrifício da missa, haverá um padre para dizê-la, e enquanto houver um padre que reze todos os dias o seu breviário, haverá um papa no mundo.
As práticas mais insignificantes em aparência e mais estranhas em si mesmas, ao fim que nos propomos, levam, não obstante, a esse fim pela educação e o exercício da vontade. Um camponês que se levantasse todas as manhãs, às duas ou três horas, e que fosse bem longe colher, todos os dias, um ramo da mesma erva, antes do levantar do sol, poderia, levando consigo a erva, operar um
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grande número de prodígios. Esta erva seria o sinal da sua vontade e tornar-se-ia, para esta própria vontade, tudo o que ele quisesse que se tornasse no interesse dos seus desejos.
Para poder é preciso crer que se pode, e esta fé deve traduzir-se imediatamente em atos. Quando uma criança diz: “Não posso”, sua mãe lhe responde: “experimenta”. A fé nem mesmo experimenta; ela começa com a certeza de acabar, e trabalha com calma, como tendo a onipotência às suas ordens e a eternidade diante de si.
Vós, pois, que vos apresentais diante da ciência dos magos, que lhes pedis? Ousai formular vosso desejo, seja qual for, depois ponde-vos imediatamente à obra, e não cesseis mais de agir no mesmo sentido e para o mesmo fim; o que quereis será feito, e já está começado para vós e por vós.
Sixto V, apascentando suas ovelhas, tinha dito: “Quero ser papa”.
Sois pedinte e quereis fazer ouro: ponde-vos à obra e não cesseis mais. Eu vos prometo, em nome da ciência, todos os tesouros de Flamel e Raimundo Lullo.
Que é preciso fazer primeiramente? – É preciso crer que podeis, e, depois, agir. – Agir como? – Levantar-vos todos os dias à mesma hora e cedo; lavar-vos, em qualquer estação, antes do dia, numa fonte; nunca trazer roupas sujas, e, para isso, lavá-las vós mesmos, se for preciso; exercer-vos às privações voluntárias, para melhor suportar as involuntárias; depois impor silêncio a todo desejo que não seja o da realização da grande obra. – Como? Lavando-me todos os dias, numa fonte, farei ouro? – Trabalhareis para fazê-lo. – É uma zombaria! – Não, é um arcano. – Como posso servir-me de um arcano que não sei compreender? – Crede e fazei; compreendereis depois.
Uma pessoa me disse um dia: - Queria ser um fervoroso católico, mas sou um volteriano. Quanto não daria para ter a fé! – Pois bem, lhe respondi, não digais mais: Queria; dizei: Quero, e fazeis as obras da fé; eu vos asseguro que acreditareis. Vós sois voltaireano, dizeis, e entre os diferentes modos de entender a fé, o dos jesuítas vos é o mais antipático, e vos parece, entretanto, o mais desejável e forte... Fazei, e recomeçai, sem vos desanimar, os exercícios de Santo Inácio, e ficareis crentes como um jesuíta. O resultado é infalível, e, se então tiverdes a ingenuidade de crer que é um milagre, vós já vos enganais, crendo-vos voltaireano.
Um preguiçoso nunca será mago. A magia é um exercício de todas as horas e de todos os instantes. É preciso que o operador das grandes obras seja senhor absoluto de si mesmo; que saiba vencer as atrações do prazer, o apetite e o sono; que seja insensível ao sucesso como à afronta. A sua vida deve ser uma vontade dirigida por um pensamento e servida pela natureza inteira, que terá subordinada ao espírito nos seus próprios órgãos e por simpatia em todas as forças universais que lhe são correspondentes.
Todas as faculdades e todos os sentidos devem tomar parte na obra, e nada no sacerdote de Hermes tem direito de estar ocioso; é preciso formular a inteligência por signos e resumi-la por caracteres ou pantáculos; é preciso determinar a vontade por palavras e realizar as palavras por atos; é preciso traduzir a idéia mágica em luz para os olhos, em harmonia para os ouvidos, em perfumes para o olfato, em sabores para a boca, e em formas para o tato; é preciso, numa palavra, que o operador realize na sua vida inteira o que quer realizar fora de si no mundo; é preciso que se torne um imã para atrair a coisa desejada; e, quando estiver suficientemente imantado, saiba que a coisa virá sem que ele pense por si mesma.
É importante que o mago saiba os segredos da ciência; mas pode conhecê-los por intuição e sem os ter aprendido. Os solitários que vivem na contemplação habitual da natureza, adivinham, muitas vezes, as suas harmonias e são mais instruídos, no seu simples bom senso, do que os doutores, cujo
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sentido natural é falseado pelo sofismas das escolas. Os verdadeiros magos práticos se acham quase sempre no sertão e são, muitas vezes, pessoas sem instrução ou simples pastores.
Existem também certas organizações físicas mais dispostas do que outras às revelações do mundo oculto; existem naturezas sensitivas e simpáticas às quais a intuição na luz astral é, por assim dizer, inata; certos desgostos e doenças podem modificar o sistema nervoso, e fazer dele, sem o concurso da vontade, um aparelho de adivinhação mais ou menos perfeito; mas estes fenômenos são excepcionais, e geralmente o poder mágico deve e pode ser adquirido pela perseverança e o trabalho.
Existem também substâncias que produzem êxtase e dispõem ao sono magnético; existem as que põem ao serviço da imaginação todos os reflexos mais vivos e coloridos da luz elementar; mas o uso dessas substâncias é perigoso, porque, em geral, produzem a estupefação e a embriaguez. Todavia, empregamo-las, mas em proporções rigorosamente calculadas e em circunstâncias excepcionais.
Aquele que quer entregar-se seriamente às obras mágicas, depois de ter firmado o seu espírito contra qualquer perigo de alucinação e temor, deve purificar-se, exterior e interiormente, durante quarenta dias. O número quarenta é sagrado, e até a sua figura é mágica. Em algarismos árabes, compõem-se do círculo, imagem do infinito, e do 4, que resume o ternário pela unidade. Em algarismos romanos, dispostos do modo seguinte, representa o signo do dogma fundamental de Hermes e o caráter do selo de Salomão:
A purificação do mago deve consistir na abstinência das voluptuosidades brutais, num regime vegetariano e brando, na supressão dos licores fortes e na regularidade das horas de sono. Esta preparação foi indicada e representada, em todos os cultos, por um tempo de penitência e privações que precede as festas simbólicas da renovação da vida.
É preciso, como já dissemos, observar, para o exterior, a limpeza mais escrupulosa: o mais pobre pode achar água nas fontes. É preciso também lavar ou mandar lavar com cuidado as roupas, os móveis e os vasos que se usam. Toda sujidade atesta uma negligência, e, em magia, a negligência é mortal.
É preciso purificar o ar, ao levantar-se e deitar-se, com um perfume composto de seiva de louro, sal, cânfora, resina branca e enxofre, e recitar, ao mesmo tempo, as quatro palavras sagradas, voltando-se para as quatro partes do mundo.
Não devemos falar a ninguém das obras que realizamos; e, como dissemos bastante no Dogma, o mistério é a condição rigorosa e indispensável de todas as operações da ciência. É preciso desviar os curiosos, alegando outras ocupações e investigações, como experiências químicas para resultados industriais, prescrições higiênicas, a investigação de alguns segredos naturais, etc.; mas a palavra proibida de magia nunca deve ser pronunciada.
O mago deve isolar-se, no começo, e mostrar-se muito difícil em relações, para concentrar em si a sua força e escolher os pontos de contato; mas quanto mais for selvagem e inacessível nos primeiros
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tempos, tanto mais vê-lo-ão, mais tarde, rodeado e popular, quando tiver imantado a sua cadeia e escolhido o seu lugar numa corrente de idéias de luz.
Uma vida trabalhosa e pobre é de tal modo favorável à iniciação pela prática, que os maiores mestres a procuraram, até quando podiam dispor das riquezas do mundo. É então que Satã, isto é, o espírito de ignorância, que ri, duvida e odeia a ciência, porque a teme, vem tentar o futuro senhor do mundo, dizendo-lhe: “Se és o filho de Deus, faz com que estas pedras se tornem pães”. As pessoas de dinheiro procuram, então, humilhar o príncipe da ciência, obstando, desapreciando ou explorando miseravelmente o seu trabalho; partem em dez pedaços, para que estenda a mão dez vezes, o pedaço de pão de que parece ter necessidade. O mago nem mesmo se digna sorrir desta inépcia, e prossegue na sua obra com acalma.
É preciso evitar, tanto quanto possível, a vista das coisas horrendas e das pessoas feias; não comer em casa de pessoas que não se estimam, evitar todos os excessos e viver do mudo mais uniforme e organizado.
Ter o maior respeito por si mesmo e considerar-se como um soberano desconhecido que assim faz para reconquistar a sua coroa. Ser dócil e digno com todos; mas, nas relações sociais, nunca deixar-se absorver e retirar-se dos círculos em que não haja nenhuma iniciativa.
Podemos, enfim, e mesmo devemos fazer as obrigações e praticar os ritos do culto a que pertencemos. Ora, de todos os cultos, o mais mágico é aquele que realiza mais milagres, que apóia, nas mais sábias razões, os mais inconcebíveis mistérios, que tem luzes iguais às suas sombras, que populariza os milagres e encarna Deus nos homens pela fé. Esta religião sempre existiu, e sempre houve no mundo, sob diversos: é a religião única e dominante. Agora, ela tem, entre os povos da terra, três formas em aparência hostis umas às outras, que se reunirão logo numa única para constituir uma Igreja universal. Quero falar da ortodoxia russa, do catolicismo romano e de uma última transfiguração da religião de Buda.
Cremos ter feito compreender bem, pelo que precede, que a nossa magia é oposta à dos goécios e necromantes. A nossa magia é, ao mesmo tempo, uma ciência e uma religião absoluta, que deve não destruir e absorver todas as opiniões e todos os cultos, mas regenerá-los e dirigi-los, reconstituindo o círculo dos iniciados, e dando, assim, às massas cegas, condutores sábios e clarividentes.
Vivemos num século em que não há nada para destruir; mas tudo está para refazer, porque tudo está destruído. – Refazer o quê? O passado? – Não se refaz o passado. – Reconstruir o quê? Um templo e um trono? - Para que, se os antigos caíram? – É como se dissésseis: A minha casa acaba de cair de velhice; para que serve construir uma outra? – Mas a casa que ides construir será semelhante à que caiu? – Não; aquela que caiu era velha, e esta será nova. – Mas, enfim, será sempre uma casa? – Que queríeis, pois, que fosse?
CAPÍTULO II
O EQUILÍBRIO MÁGICO
O equilíbrio é a resultante de duas forças.
Se as duas forças são absolutamente e sempre iguais, o equilíbrio será a imobilidade, e, por conseguinte, a negação da vida. O movimento é o resultado de uma preponderância alternada.
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O impulso dado a um dos pratos de uma balança determina necessariamente o movimento do outro. Os contrários agem, assim, sobre os contrários, em toda a natureza, por correspondência e por conexão analógica.
A vida inteira compõe-se de uma aspiração e de um sopro; a criação é a suposição de uma sombra para servir de limite à luz, de um vácuo para servir de espaço à plenitude do ente, de um princípio passivo fecundado para apoiar e realizar a força do princípio ativo gerador.
Toda a natureza é bissexual, e o movimento que produz as aparências da morte e da vida é uma contínua geração.
Deus ama o vácuo que fez para encher; a ciência ama a ignorância que alumia; a força ama a fraqueza que sustenta; o bem ama o mal aparente que o glorifica; o dia é apaixonado pela noite e a persegue sem cessar, girando ao redor do mundo; o amor é, ao mesmo tempo, uma sede e uma plenitude que tem necessidade de expansão. Aquele que dá recebe, e aquele que recebe dá; o movimento é uma troca perpétua.
Conhecer a lei desta troca, saber a proporção alternativa ou simultânea destas forças é possuir os primeiros princípios do grande arcano mágico, que constitui a verdadeira divindade humana.
Cientificamente, podemos apreciar as diversas manifestações do movimento universal pelos fenômenos elétricos ou magnéticos. Os aparelhos elétricos revelam principalmente, material e positivamente, as afinidades e antipatias de certas substâncias. A união do cobre com o zinco, a ação de todos os metais na pilha galvânica, são revelações perpétuas e irrecusáveis. Que os físicos procurem e descubram; os cabalistas explicarão as descobertas da ciência.
O corpo humano está submetido, como a terra, a uma dupla lei: atrai e irradia; está imantado com um magnetismo andrógino e reage sobre as duas potências da alma, a intelectual e a sensitiva, em razão inversa, mas proporcional, das preponderâncias alternadas dos dois sexos no seu organismo físico.
A arte do magnetizador está inteiramente no conhecimento e no emprego desta lei. Polarizar a ação e dar ao agente uma força bissexual e alternada é o meio ainda desconhecido e vãmente procurado de dirigir à vontade os fenômenos do magnetismo; mas é preciso um tato muito exercitado e uma grande exatidão nos movimentos interiores para não confundir os sinais de aspiração magnética com os da expiração; é preciso também conhecer perfeitamente a anatomia oculta e o temperamento especial das pessoas sobre as quais se age.
O que traz maior obstáculo à direção do magnetismo é a má fé ou má vontade dos pacientes. As mulheres, principalmente, que são essencialmente e sempre comediantes, as mulheres que gostam de se impressionar, impressionado os outros e que são as primeiras que se enganam, quando representam o seu melodrama nervoso, as mulheres são a verdadeira magia negra do magnetismo. Por isso, será impossível a magnetizadores não iniciados nos supremos arcanos e não assistidos com as luzes da Cabala, dominar este elemento refratário e fugidio. Para ser senhor da mulher é preciso distraí-la e enganá-la habilmente, deixando-lhe supor que é ela que vos engana. Este conselho, que aqui damos especialmente aos médicos magnetizadores, talvez pudesse ter também sua utilidade e sua aplicação na política conjugal.
O homem pode produzir à vontade dois sopros, um quente e outro frio; pode, igualmente, projetar à vontade a luz ativa ou a luz passiva; mas é preciso que adquira a consciência desta força pelo hábito de pensar nela. Um mesmo gesto da mão pode, alternativamente, expirar e aspirar o que, por conveniência, chamamos fluido; e o próprio magnetizador será advertido do resultado da sua
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intenção por uma sensação alternativa de calor e frio na mão, ou nas duas mãos, se operar com as duas mãos ao mesmo tempo, sensação que o paciente deverá sentir ao mesmo tempo, mas em sentido contrário, isto é, com uma alternativa totalmente oposta.
O pentagrama, ou signo do microcosmo, representa, entre outros mistérios mágicos, a dupla simpatia das extremidades humanas entre si e a circulação da luz astral no corpo humano. Assim, figurando um homem na estrela do pentagrama, como podemos ver na filosofia oculta de Agrippa, deve-se notar que a cabeça corresponde, em simpatia masculina, com o pé direito e em simpatia feminina com o pé esquerdo; que a mão direita corresponde, do mesmo modo, com a mão e o pé esquerdos, e a mão esquerda, reciprocamente: o que é preciso observar nos passes magnéticos, se quisermos chegar a dominar o organismo inteiro e a prender todos os membros pelas suas próprias cadeias de analogia e de simpatia natural.
Este conhecimento é necessário para o uso do pentagrama, nas conjurações dos espíritos e evocações das formas errantes na luz astral, chamadas vulgarmente necromancia, como explicaremos no quinto capítulo deste Ritual; mas é bom observar, aqui, que toda ação provoca uma reação, e que, magnetizando ou influenciando magicamente os outros, estabelecemos deles para nós uma corrente de influência contrária, mas análoga, que pode submeter-nos a eles em vez de os submeter a nós, como muitas vezes acontece nas operações que têm por objeto a simpatia e o amor. É por isso que é essencial defendermo-nos, ao mesmo tempo em que atacamos, a fim de não aspirarmos com a esquerda, ao mesmo tempo em que sopramos com a direita.
O andrógino mágico traz escrito, no braço direito: solve, e, no braço esquerdo: coagula, o que corresponde à figura simbólica dos trabalhadores do segundo templo, que numa das mãos tinham a espada e na outra a régua. Ao mesmo tempo em que se constrói é preciso defender a sua obra, dispersando os inimigos: a natureza nada mais faz, quando destrói ao mesmo tempo em que regenera. Ora, conforme a alegoria do calendário mágico de Duchenteau, o homem, isto é, o iniciado, é o macaco da natureza, que o conserva preso, mas também o faz agir incessantemente em imitações dos processos e das obras da sua divina senhora e do seu imperecível modelo.
O emprego alternado das forças contrárias, o quente depois do frio, a afabilidade depois da severidade, o amor depois da cólera, etc., é o segredo do movimento perpétuo e do prolongamento do poder; é o que instintivamente sentem as namoradeiras, que fazem passar seus adoradores da esperança ao temor e da alegria à tristeza. Agir sempre no mesmo sentido e do mesmo modo é sobrecarregar um único prato da balança, e disso logo resultará a destruição absoluta do equilíbrio. A perpetuidade das carícias engendra logo a saciedade, o desgosto e a antipatia, do mesmo modo que uma frialdade e uma severidade constante afasta e desanima aos poucos a afeição. Em alquimia, um fogo é sempre o mesmo e continuamente ardente, calcina a matéria-prima e faz, às vezes, rebentar o vaso hermético: é preciso substituir, em intervalos regulados, pelo calor do fogo ou da cal ou do adubo mineral. É assim que é preciso, em magia, temperar as obras de cólera ou de rigor por operações de benevolência e de amor, e que, se o operador conservar a tensão da sua vontade sempre no mesmo sentido e da mesma forma, resultará disso uma grande fadiga para ele e logo uma espécie de impotência moral.
O mago não deve, pois, viver exclusivamente no seu laboratório, entre seu Athanor, seus elixires e seus pantáculos. Por mais devorador que seja o olhar desta Circe, que chamamos a força oculta, é preciso saber apresentar-lhes a propósito a espada de Ulisses e afastar a tempo, dos nossos lábios, o copo que ela nos apresenta. Sempre uma operação mágica deve ser seguida de um repouso igual à sua duração e de uma distração análoga, mas contrária ao seu objeto. Lutar continuamente contra a natureza para dominá-la e vencê-la é expor a sua razão e a sua vida. Paracelso ousou fazê-lo, e, não obstante, até nesta luta, empregava forças equilibradas e substituída a embriaguez pela fadiga corporal, e a fadiga corporal por um novo trabalho da inteligência. Por isso, Paracelso era um
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homem de inspiração e de milagres; mas gastou a sua vida nesta atividade devoradora, ou antes, fatigou e rasgou rapidamente a sua vestimenta porque os homens semelhantes a Paracelso podem usar e abusar, sem nada temer; sabem muito bem que não poderiam morrer, assim como não devem envelhecer neste mundo.
Nada predispõe mais à alegria do que a dor e nada está mais perto da dor do que a alegria. Por isso, o operador ignorante fica admirado de chegar sempre a resultados contrários aos que se propõe, porque não sabe nem cruzar nem alternar sua ação; quer enfeitiçar seu inimigo, e torna a si próprio infeliz e doente; quer fazer-se amar, e apaixona-se miseravelmente por mulheres que zombam dele; quer fazer ouro, e gasta seus últimos haveres: o seu suplício é eternamente o de Tântalo, a água se retira sempre, quando quer beber.
Os antigos, nos seus símbolos e nas suas operações mágicas multiplicavam os signos do binário, para não esquecerem a sua lei, que é a do equilíbrio. Nas suas evocações, sempre construíram dois altares diferentes e imolavam duas vítimas, uma branca e outra negra; o operador ou a operadora, tendo numa das mãos a espada e na outra a baqueta, devia ter um pé calçado e outro descalço. Todavia, como o binário seria a imobilidade e a morte sem o motor equilibrante, só podiam ser um ou três, nas obras de magia; e quando um homem e uma mulher tomavam parte na cerimônia, o operador devia ser uma virgem, um andrógino ou uma criança.
Perguntar-me-ão se a bizarria destes ritos é arbitrária e se ela tem por fim exercitar a vontade, multiplicando a seu bel-prazer as dificuldades da obra mágica. Responderei que, em magia, nada há de arbitrário, porque tudo é regulado e determinado adiantadamente pelo dogma único e universal de Hermes, o da analogia nos três mundos. Todo signo corresponde a uma idéia e tem a forma especial de uma idéia; todo ato exprime uma vontade correspondente a um pensamento e formula as analogias desse pensamento e dessa vontade. Os ritos são determinados adiantadamente pela própria ciência. O ignorante , que não sabe o seu tríplice poder, sofre a sua fascinação misteriosa; o sábio os entende e faz deles o instrumento da sua vontade; mas, quando são realizados com exatidão e fé, nunca fiam sem efeito.
Todos os instrumentos mágicos devem ser duplos; é preciso ter duas espadas, duas baquetas, dois copos, dois fogareiros, dois pantáculos e duas lâmpadas; trazer duas vestimentas superpostas e de cores contrárias, como ainda o praticam os padres católicos; é preciso não ter consigo nenhum metal ou ter dois. As coroas de loureiro, arruda, artemísia ou verbena devem ser igualmente duplas; nas evocações, guarda-se uma das coroas e queima-se a outra, observando como augúrio o ruído que faz ao queimar e as ondulações da fumaça que produz.
Esta observância não é vã, porque, na obra mágica, todos os instrumentos da arte são magnetizados pelo operador; o ar está carregado dos seus perfumes, o fogo consagrado por ele está submetido à sua vontade, as forças da natureza parecem ouvi-lo e responder-lhe; lê em todas as formas as modificações e os complementos do seu pensamento. É então que vê a água turvar-se e como que ferver por si mesma, o fogo dar grande luz ou se extinguir, as folhas das grinaldas agitarem-se, a baqueta mágica mover-se por si mesma, e que ouve passar, no ar, vozes estranhas e desconhecidas.
Foi em semelhantes evocações que Juliano viu aparecerem os fantasmas muito amados dos seus deuses decaídos e, contra sua vontade, espantou-se da decrepitude e palidez deles.
Sei que o cristianismo suprimiu para sempre a magia cerimonial e proscreve severamente as evocações e os sacrifícios do mundo antigo: por isso, a nossa intenção não é dar-lhes uma nova razão de ser, vindo revelar, depois de tantos séculos, os seus antigos mistérios. As nossas experiências, até nesta ordem de fatos, foram investigações sábias e nada mais. Constatamos fatos para apreciar causas, e nunca tivemos a pretensão de renovar ritos para sempre destruídos.
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A ortodoxia israelita, esta religião tão racional, tão divina e tão pouco conhecida, não reprova menos que o cristianismo os mistérios da magia cerimonial. Até para a tribo de Levi, o exercício da alta magia, devia ser considerado como uma usurpação do sacerdócio, e é a mesma razão que fará proscrever, por todos os meios oficiais, a magia operadora, adivinhatória e milagrosa.
Mostrar o natural do maravilhoso e produzi-lo à vontade é destruir para o vulgo a prova conclusiva dos milagres que cada religião reivindica como sua propriedade exclusiva e seu argumento definitivo.
Respeito às religiões estabelecidas, mas há também lugar para a ciência. Não estamos mais, graças a Deus, no tempo dos inquisidores e das fogueiras; não se assassinam mais infelizes sábios, pela crença de alguns fanáticos alienados ou de algumas moças histéricas. Aliás, seja entendido que fizemos estudos curiosos, e não uma propaganda impossível, insensata. Os que nos criticarem de ousarmos chamar-nos magos, nada têm a temer de um tal exemplo, e é mais que provável que nunca se tornarão feiticeiros.
CAPÍTULO III
O TRIÂNGULO DE PANTÁCULOS
O abade Trithemo, que foi, em magia, o mestre de Cornélio Agrippa, explica, na sua Estenografia, o segredo das conjurações e evocações de um modo muito filosófico e muito natural, mas, talvez por isso mesmo, muito simples e muito fácil.
Evocar um espírito, diz ele, é entrar no pensamento dominante desse espírito e, se nos elevarmos moralmente mais alto na mesma linha, arrastaremos esse espírito conosco e ele nos servirá; de outro modo, ele nos arrastará no seu círculo e nós o serviremos.
Conjurar é opor a um espírito isolado a resistência de uma corrente e de uma cadeia: cum jurare, jurar mutuamente, isto é, fazer ato de uma fé comum. Quanto mais esta fé tem entusiasmo e força, tanto mais a conjuração é eficaz. É por isso que o cristianismo nascente fazia calarem-se os oráculos: só ele possuía, então, a inspiração e a força. Mais tarde, quando São Pedro envelheceu, isto é, quando o mundo acreditou ter acusações legítimas a fazer ao papado, o espírito de profecia veio substituir os oráculos; e os Savanarola, Joaquim de Flora, os João Huss e tantos outros agitaram por sua vez os espíritos e traduziram em lamentos e ameaças as inquietações e revoltas secretas de todos os corações.
Podemos, pois, estar sós para evocar um espírito, mas para o conjurar é preciso falar em nome de um círculo ou de uma associação; e é o que representa o círculo hieroglífico traçado ao redor do mago, durante a operando, e do qual não deve sair, se não quiser perder, no mesmo instante, todo o seu poder.
Examinemos claramente, aqui, a questão principal, a questão importante: são possíveis a evocação real e a conjuração de um espírito, e esta possibilidade pode ser cientificamente demonstrada? À primeira parte da questão pode-se responder, primeiramente, que todas as coisas cuja impossibilidade não é evidente podem e devem ser admitidas, provisoriamente, como possíveis. À segunda parte, dizemos que, em virtude do grande dogma mágico da hierarquia e da analogia universal, podemos demonstrar, cabalisticamente, a possibilidade das evocações reais; quanto à realidade fenomenal do resultado das operações mágicas conscienciosamente realizadas, é uma questão de experiência, e, como já dissemos, verificamos por nós mesmos esta realidade, e
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poremos, por este Ritual, os nossos leitores em condições de renovar e confirmar as nossas experiências.
Nada perece na natureza e tudo o que viveu continua a viver sempre sob formas novas; mas até as formas anteriores não são destruídas, porque as achamos na nossa memória. Não vemos, em imaginação, a criança que conhecemos e que agora é um velho? Até os traços que acreditamos apagados na nossa lembrança não o estão realmente, porque uma circunstância fortuita os evoca e nô-los faz lembrar. Mas, como os vemos? Já dissemos que é na luz astral, que os transmite ao nosso cérebro pelo mecanismo do aparelho nervoso.
De outro lado, todas as formas são proporcionais e analógicas à idéia que as determinou; são o caráter natural, a assinatura desta idéia, como dizem os magistas, e desde que evocamos ativamente a idéia, a forma se realiza e se produz.
Schroepffer, o famoso iluminado de Leipzig, tinha lançado, pelas suas evocações, o terror em toda a Alemanha, e a sua ousadia nas operações mágicas fora tão grande, que a sua reputação se lhe tornou um fardo insuportável; depois deixou-se arrastar pela imensa corrente de alucinações que deixara formar-se; as visões do outro mundo o desgostaram deste mundo, e ele suicidou-se.
Esta história deve deixar circunspetos os curiosos de magia cerimonial. Não violentamos impunemente a natureza, e não jogamos sem perigo com forças desconhecidas e incalculáveis.
É por esta consideração que nós nos recusamos, e que nos recusaremos sempre, à vã curiosidade dos que querem ver para crer; e responder-lhes-emos o que dizíamos a um personagem eminente da Inglaterra, que nos ameaçava com a sua incredulidade: “Tendes perfeitamente o direito de não crer; da nossa parte, não ficaremos, por isso, mais desanimados nem menos convencidos”.
Aos que viessem dizer-nos que realizaram, escrupulosamente e corajosamente, todos os ritos e que nada se produziu, diremos que farão bem de ficar nisso, e que é, talvez uma advertência da natureza que recusa para eles estas obras excêntricas, mas também que, se persistirem na sua curiosidade, só tem de recomeçar.
O ternário, sendo a base do dogma mágico, deve necessariamente ser observado nas evocações; por isso, é o número simbólico da realização e do efeito. A letra c é ordinariamente traçada nos pantáculos cabalísticos que têm por objeto a realização de um desejo. Esta letra é também a marca do bode emissário na Cabala mística, e Saint-Martin observa que esta letra, intercalada no incomunicável tetragrama, fez dele o nome do Redentor dos homens: h w c h y.
É que os mistagogos da Idade Média representaram, quando, nas suas assembléias noturnas, exibiam um bode simbólico, trazendo na cabeça, entre os dois chifres, um facho aceso. Este animal monstruoso, cujas formas alegóricas e culto bizarro descreveremos no décimo quinto capítulo deste Ritual, representava a natureza votada ao anátema, mas resgatada pelo sinal da cruz. Os ágapes gnósticos e as priapéias pagãs que se faziam em sua honra revelavam bastante as conseqüências morais que os adeptos queriam tirar desta exibição. Tudo isso será explicado com os ritos, proibidos e considerados, agora, como fabulosos, do grande Sabbat da magia negra.
No grande círculo das evocações, ordinariamente é traçado um triângulo, e é preciso observar bem de que lado deve ser posto o seu cimo.. Supõe-se que o espírito vem do céu, o operador deve ficar no cimo e colocar o altar das fumigações na base; deve-se subir do abismo, o operador ficará na base e o fogareiro será colocado no cimo. Além disso, é preciso ter na fronte, no peito e na mão direita o símbolo sagrado dos dois triângulos reunidos, formando a estrela de seus raios, cuja figura reproduzimos, e que é conhecida, em magia, sob o nome de pantáculo ou selo de Salomão.
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Independentemente destes signos, os antigos faziam uso, nas suas evocações, das combinações místicas dos nomes divino que demos no dogma conforme os cabalistas hebreus. O triângulo mágico dos teósofos pagãos é o célebre ABRACADABRA, ao qual atribuíam virtudes extraordinárias, e que figuravam assim:
ABRACADABRA
ABRACADABR
ABRACADAB
ABRACADA
ABRACAD
ABRACA
ABRAC
ABRA
ABR
AB
A
Esta combinação de letras é uma chave do pentagrama. O A que começa é repetido cinco vezes e reproduzido trinta vezes, o que dá os elementos e números destas duas figuras:
O A isolado representa a unidade do primeiro princípio ou do agente intelectual ou ativo. O O A unido ao B representa a fecundação do binário pela unidade. O R é o sinal do ternário, porque representa hieroglificamente a efusão que resulta da união dos dois princípios. O número 11 das letras da palavra ajunta a unidade do iniciado ao denário de Pitágoras; e o número 66, total de todas as letras adicionadas, forma cabalisticamente o número 12, que é o quadrado do ternário e, por conseguinte, a quadratura mística do círculo. Notemos, de passagem, que o autor do Apocalipse, esta clavícula da Cabala cristã, compôs o número da besta, isto é, a idolatria, acrescentando um 6 ao duplo senário do Abracadabra: o que dá cabalisticamente 18, número assinado no Tarô como signo hieroglífico da noite e dos profanos, a lua com as torres, o cão, o lobo e o caranguejo; número misterioso e obscuro, cuja chave cabalística é o 9, o número da iniciação.
O cabalista sagrado diz expressamente a este respeito: “Que aquele que tem a inteligência (isto é, a chave dos números cabalísticos) calcule o número da besta, porque é o número do homem, e este número é 666”. É, com efeito, a década de Pitágoras multiplicada por si mesma e ajuntada à soma
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do Pantáculo triangular de Abracadabra; é, pois, o resumo de toda a magia do mundo antigo, o programa inteiro do gênio humano, que o gênio divino do Evangelho queria absorver ou suplantar.
Estas combinações hieroglíficas de letras e números pertencem à parte prática da Cabala, que, sob este ponto de vista, se subdivide em gematria e temurah. Estes cálculos, que agora nos parecem arbitrários ou sem interesse, pertenciam, então, ao simbolismo filosófico do Oriente e tinham a maior importância no ensino das coisas sagradas emanadas das ciências ocultas. O alfabeto cabalístico absoluto, que unia as idéias primárias às alegorias, as alegorias às letras e as letras aos números, era o que se chamava, então, as chaves de Salomão. Já vimos que estas chaves, conservadas até nossos dias, mas completamente desconhecidas, outra coisa não são que o jogo do Tarô, cujas alegorias antigas foram notadas e apreciadas pela primeira vez, nos tempos atuais, pelo sábio arqueólogo Court de Gebelin.
O duplo triângulo de Salomão é explicado por São João de um modo notável. Há, diz ele, três testemunhos no céu: o Pai, o Logos e o Espírito Santo, e três testemunhos na terra: o enxofre, a água e o sangue. São João está, assim, de acordo com os mestres da filosofia hermética, que dão ao seu enxofre o nome de éter, ao seu mercúrio o nome de água filosófica, e ao seu sal a qualificação de sangue do dragão ou mênstruo da terra: o sangue ou o sal corresponde por oposição ao Pai, a água azótica ou mercúrio ao Verbo ou Logos, e o enxofre ao Espírito Santo. Mas as coisas de alto simbolismo só podem ser bem entendidas pelos verdadeiros filhos da ciência.
As combinações triangulares uniam-se, nas cerimônias mágicas, às repetições dos nomes por três vezes, e com entonações diferentes.
A baqueta mágica era, muitas vezes, remontada por uma forquilha imantada, que Paracelso substituía por um tridente, cuja figura damos abaixo.
O tridente de Paracelso é um pantáculo que exprime o resumo do ternário na unidade, que completa, assim, o quaternário sagrado. Ele atribuía a esta figura todas as virtudes que os cabalistas hebreus atribuem ao nome de Jeová, e as propriedades taumatúrgicas do Abracadabra dos hierofantes de Alexandria. Reconheçamos, aqui, que é um pantáculo e, por conseguinte, um signo concreto e absoluto de uma doutrina inteira que foi a de um círculo magnético imenso, tanto para os filósofos antigos como para os adeptos da Idade Média. Dando-lhes, moderadamente, o seu valor primitivo pela inteligência dos seus mistérios, não poderíamos restituir-lhe toda a sua virtude milagrosa e todo o seu poder contra as doenças humanas?
As antigas feiticeiras, quando passavam, à noite, por uma encruzilhada de três caminhos, uivavam três vezes, em honra à tríplice Hécate.
Todas estas figuras, todos estes atos análogos às figuras, todas estas disposições de números e caracteres nada mais são, como já dissemos, senão instrumentos de educação para a vontade, cujos hábitos fixam e determinam. Servem também para reunir conjuntamente, na ação, todas as forças da alma humana, e para aumentar a força criadora da imaginação. È a ginástica do pensamento que se
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exercita na realização: por isso, o efeito destas práticas é infalível como a natureza, quando são feitas com uma confiança absoluta e uma perseverança inabalável.
Com a fé, dizia o grande Mestre, transportar-se-iam árvores ao mar e se deslocariam montanhas. Uma prática, mesmo insensata, mesmo supersticiosa, é eficaz, porque é uma realização da vontade. É por isso que uma oração é mais poderosa, se formos fazê-la na igreja, do que se a fizéssemos em nossa casa, e que ela alcançará milagres se, para fazê-la num santuário milagroso, isto é, magnetizado em grande corrente pela afluência dos visitantes, fizermos cem ou duzentas léguas, pedindo esmolas com os pés descalços.
Riem-se da mulher pobre que se priva de alguns centavos de leite, de manhã, e que vai levar os triângulos mágicos das capelas uma pequena vela, que deixa acesa. São os ignorantes que riem, e a mulher pobre não paga muito caro o que compra, assim, de resignação e coragem. Os abastados mostram bastante altivez para passar levantando os ombros; eles se insurgem contra as superstições com um barulho que faz estremecer o mundo; e que resulta disso? As casas dos abastados se desmoronam, e os restos delas são vendidos aos fornecedores e compradores de quinquilharias, que deixam gritar de boa vontade, em toda parte, que o seu reino acabou para sempre, contanto que governem sempre.
As grandes religiões só tiveram a temer uma rival séria, e esta rival é a magia.
A magia produziu as associações ocultas, que trouxeram a revolução chamada Renascença; mas aconteceu ao espírito humano, cego pelos loucos amores, realizar em todos os pontos a história alegórica do Hércules hebreu: desmoronando as colunas do tempo, sepultou-se a si mesmo debaixo das ruínas.
As sociedades maçônicas não conhecem, agora, a alta razão dos seus símbolos mais do que os rabinos compreendem o Sepher Yetzirah e o Zohar na escala ascendente dos três graus, com a progressão transversal da direita para a esquerda e da esquerda para a direita do setenário cabalístico.
O compasso do GAe o esquadro de Salomão vieram a ser o nível grosseiro e material do jacobismo ininteligente, representado por um triângulo de aço: eis para o céu e para a terra.
Os adeptos profanadores, aos quais o iluminado Cazotte tinha predito uma sangrenta morte, ultrapassaram, atualmente, o pecado de Adão: depois de ter colhido temerariamente os frutos da árvore da ciência, de que não souberam alimentar-se, lançaram-nos aos animais e répteis da terra. Por isso, o reino da superstição começou e deve durar até o tempo em que a verdadeira religião se reconstituir nas bases eternas da hierarquia de três graus e do tríplice poder que o ternário exerce fatal ou providencialmente nos três mundos.
CAPÍTULO IV
A CONJURAÇÃO DOS QUATRO
As quatro formas elementais separam e especificam, por uma espécie de esboço, os espíritos criados que o movimento universal desembaraça do fogo central. Em toda parte, o espírito elabora e fecunda a matéria pela vida; toda matéria é animada; o pensamento e a alma estão em toda parte.
Apoderando-se do pensamento, que produz as diversas formas, a pessoa se torna senhora das formas e as faz servir ao seu uso.
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A luz astral está saturada de almas, que desprende na geração incessante dos seres. As almas têm vontades imperfeitas que podem ser dominadas e empregadas por vontades mais poderosas; então formam, então, grandes correntes invisíveis e podem ocasionar ou determinar grandes comoções elementares.
Os fenômenos observados nos processos de magia, e, muito recentemente, pelo Senhor Eudes de Mirville, não têm outras causas.
Os espíritos elementais são como as crianças: atormentam mais os que se ocupam deles, a não ser que sejam dominados por uma elevada razão e uma grande severidade.
São estes espíritos que designamos sob o nome de elementos ocultos. São eles, muitas vezes, que determinam para nós os sonhos inquietantes ou bizarros; são eles que produzem os movimentos da baqueta adivinhatória e os golpes dados nas paredes ou nos móveis; mas nunca podem manifestar outro pensamento que não seja o nosso, e se não pensamos, nos falam com toda a incoerência dos sonhos.
Reproduzem indiferentemente o bem e o mal, porque não têm livre-arbítrio e, por conseguinte, não têm responsabilidade; mostram-se aos extáticos e sonâmbulos sob formas incompletas e fugitivas. É o que deu lugar aos pesadelos de Santo Antonio e, muito provavelmente, às visões de Swedenborg; não são condenados nem culpados; são curiosos e inocentes. Podemos usar ou abusar deles como dos animais e das crianças. Por isso, o magista que emprega o seu concurso assume sobre si uma responsabilidade terrível, porque deverá expiar todo o mal que lhes fizer praticar, e a grandeza dos seus tormentos será proporcionada à extensão do poder que tiver exercido por meio deles.
Para dominar os espíritos elementais e tornar-se, assim, rei dos elementos ocultos, é preciso ter primeiramente sofrido as quatro provas das antigas iniciações e, como estas iniciações não existem mais, é necessário substituí-las por ações análogas, como: expor-se, sem temor, num incêndio; atravessa um abismo sobre um tronco de árvore ou sobre uma tábua; subir ao cimo de uma montanha durante um tempestade; passar a nado uma cascata ou redemoinho perigoso. O homem que tem medo da água nunca reinará sobre as ondinas; aquele que teme o fogo nada pode ordenar às salamandras; enquanto podemos sentir vertigem é preciso deixarmos em paz os silfos e não irritarmos os gnomos, porque os espíritos inferiores só obedecem a um poder que lhes provamos, mostrando-nos seus senhores até no seu próprio elemento.
Quando tivermos adquirido, pela ousadia e o exercício, este poder incontestável, é preciso impormos aos elementos o verbo da nossa vontade, por consagrações especiais do ar, do fogo, da água e da terra, e é este o começo indispensável de todas as operações mágicas.
Exorcizamos o ar, soprando para os quatro pontos cardeais dizendo:
Spiritus dei ferebátur súper áquas, et inspirávit in fáciem hóminis spiráculum vitae. Sit Michael dux meus, et Sabtabiel sérvus meus in luce et per lucem.
Fiat verbum hálitus meus; et imperábo spiritibus áeris hujus, et refroenábo équos solis voluntáte cordis méis, et cogitatóne mentis meae et nutu óculi déxtri
Exorciso ígitur te, creatúra deris, Pentagrámmaton et in nómine Tetragrámmaton, in quibus sunt volúntas firma et fides recta. Sela Fiat.
Que assim seja.
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Recita-se, em seguida, a oração dos silfos, depois de ter traçado no ar o seu signo com uma pena de águia.
ORAÇÃO DOS SILFOS
“Espírito de sabedoria, cujo sopro dá e retoma a forma de todas as coisas; tu, diante de quem a vida dos seres é uma sombra que muda a um vapor que passa; tu, que sobres às nuvens e que caminhas nas asas dos ventos; tu, que expiras, e os espaços sem fim são povoados; tu, que aspiras, e tudo o que de ti vem a ti volta: movimento sem fim na estabilidade eterna, sê eternamente bendito. Nós te louvamos e te bendizemos no império móvel da luz criada, das sombras, dos reflexos e das imagens, e aspiramos incessantemente à tua imutável e imperecível claridade. Deixa penetrar até nós o raio da tua inteligência e o calor do teu amor: então o que é móvel ficará fixo, a sombra será um corpo, o espírito do ar será uma alma, o sonho será um pensamento. E nós não seremos mais arrastados pela tempestade, porém seguraremos as rédeas dos cavalos alados da manhã e dirigiremos o curso dos ventos da tarde, para voarmos diante de ti. Ó espírito dos espíritos, ó alma eterna das almas, ó sopro imperecível de vida, ó suspiro criador, ó boca que aspiras e expiras a existência de todos os entes, no fluxo e refluxo da tua eterna palavra, que é o oceano divino do movimento e da verdade. Amém”.
Exorcizamos a água pela imposição das mãos, pelo sopro e pela palavra, misturando-lhe o sal consagrado com um pouco de cinza que fica na caixinha de perfumes. O aspersório se faz com ramos de verbena, pervinca, salsa, hortelã, valeriana, freixo e manjericão, ligados por um fio tirado das colunas do leito de uma virgem, com um cabo de amendoeiro que ainda não tenha dado frutos, e no qual gravareis, com a pinça mágica, os caracteres dos sete espíritos. Benzereis e consagrareis separadamente o sal e a cinza dos perfumes, dizendo:
SOBRE O SAL
In isto sale sit sapiéntia, et ómne corruptióne sérvet mentes nostras et corpora nostra, per Hochmael et in virtúte Ruach-Hochmael, recédant ab isto phantásmata hylae ut sit sal coeléstis, sal térrae et térra salis, ut nutriétur bos tritúrans et áddat spei nostrae córnua tauri volántis. Amen”.
SOBRE A CINZA
“Revértátur cinis ad fóntem aquárium vivéntium, e fiat térra fructificans, et germinet árborem vitae per tria nómina, quae sunt Netsah et Yesod, in principio et in fine, per Alpha et Omega qui sunt in spiritu AZOTH. Amen”.
MISTURANDO A ÁGUA, O SAL E A CINZA
“In sale sapientiae aeternae, et in áqua regeneratiónis, et cínere germinante térram novam, ómnia fíant per Elohim, Gabriel, Raphael et Uriel, in saecula et aeónas. Amen”.
EXORCISMO DA ÁGUA
“Fiat firmaméntum in médio aquárium et sepáret áquas ab aquis, quae supérius sicut inférius, et quae inférius sicut quae supérius, ad perpetránda mirácula rei uníus. Sol ejus pater est, luna máter et ventus hanc gestávit in útero suo, ascéndit a térra ad coelum et rúrsus a coelo in térram descéndit. Exórciso te, creatúra áquae, ut sis mihi spéculum Dei vivi in opéribus ejus, et fons vitae, et ablútio peccatórum. Amen”.
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ORAÇÃO DAS ONDINAS
“Rei terrível do mar, vós que tendes as chaves das cataratas do céu e que encerrais as águas subterrâneas nas cavernas da terra; rei do dilúvio e das chuvas da primavera, a vós que abris as nascentes dos rios e das fontes, a vós que ordenais à umidade, que é como que o sangue da terra, de tornar-se seiva das plantas, nós vos adoramos e vos invocamos. A nós, vossas móveis e variáveis criaturas, falai-nos nas grandes comoções do mar, e tremeremos diante de vós; falai-nos também no murmúrio de límpidas águas, e desejaremos o vosso amor. Ó imensidade na qual vão perder-se todos os rios do ser, que sempre renascem em vós! Ó oceano das perfeições infinitas! Altura que vos mirais na profundidade; profundidade que exalais na altura, levai-nos à verdadeira vida pela inteligência e pelo amor! Levai-nos à imortalidade pelo sacrifício, a fim de que sejamos considerados dignos de vos oferecer, um dia, a água, o sangue e as lágrimas, para remissão dos erros. Amém”.
Exorcizamos o fogo, pondo nele sal, incenso, resina branca, cânfora e enxofre, e pronunciando três vezes os três nomes dos gênios do fogo: Michael, rei do sol e do raio; Samael, rei dos vulcões, e Anael, príncipe da luz astral; depois recitando a oração das salamandras.
Oração das Salamandras
“Imortal, eterno, inefável e incriado pai de todas as coisas, que és levado no carro sem cessar rodante dos mundos que giram sempre; dominador das imensidades etéreas, onde está ereto o trono do teu poder, e cima do qual teus olhos formidáveis descobrem tudo e teus belos e santos ouvidos escutam tudo, atende aos teus filhos, que amaste desde o nascimento dos séculos; porque a tua dourada, grande e eterna majestade resplandeça acima do mundo e do céu das estrelas; estás elevado acima delas, ó fogo faiscante; aí, tu te acendes e te conservas a ti mesmo pelo teu próprio esplendor, e saem da tua essência regatos inesgotáveis de luz, que nutrem teu espírito infinito. Este espírito infinito alimenta todas as coisas e faz este tesouro inesgotável de substância sempre pronta à geração que elabora e que se apropria das formas de que a impregnaste desde o princípio. Deste espírito tiram também sua origem estes reis mui santos que estão ao redor do teu trono e que compõem a tua corte, ó pai universal! Ó único! Ó pai dos felizes mortais e imortais.
“Criaste, em particular, potências que são maravilhosamente semelhantes ao teu eterno pensamento e à tua essência adorável; tu as estabeleceste superiores aos anjos, que anunciam ao mundo as tuas vontades; enfim, nos criaste na terceira ordem no nosso império elementar. Aqui, o nosso contínuo exercício é louvar e adorar os teus desejos; aqui, ardemos incessantemente aspirando a possuir-te. Ó pai! Ó mãe! Ó mais terna das mães! Ó arquétipo admirável da maternidade e do puro amor! Ó filho, flor dos filhos! Ó forma de todas as formas, alma, espírito, harmonia e número de todas as coisas! Amém”.
Exorcizamos a terra pela aspersão da água, pelo enxofre e pelo fogo, com os perfumes próprios para cada dia, e proferimos a oração dos gnomos.
ORAÇÃO DOS GNOMOS
“Rei invisível, que tomastes a terra para apoio e que cavastes os seus abismo para enchê-los com a vossa onipotência; vós, cujo nome faz tremerem as abóbadas do mundo, vós que fazeis correr os sete metais nas veias das pedras, monarca das sete luzes, remunerador dos operários subterrâneos, levai-nos ao ar desejável e ao reino da claridade. Velamos e trabalhamos sem descanso, procuramos e esperamos, pelas doze pedras da cidade santa, pelos talismãs que estão escondidos, pelo cravo de ímã que atravessa o centro do mundo. Senhor, Senhor, Senhor, tende piedade dos que sofrem,
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desabafai os nossos peitos, desembaraçai e elevai as nossas cabeças, engrandecei-nos. Ó estabilidade e movimento, ó dia envolto de noite, ó obscuridade coberta de luz! Ó senhor, que nunca retendes convosco o salário dos vossos trabalhadores! Ó brancura Argentina, ó esplendor dourado! ó coroa de diamantes vivos e melodiosos! Vós que levais o céu no vosso dedo, com um anel de safira, vós que escondeis em baixo da terra, o reino das pedrarias, a semente maravilhosa das estrelas, vivei, reinai e sede o eterno dispensador das riquezas de que nos fizestes guardas. Amém”.
É preciso observar que o reino especial dos gnomos é ao norte, o das salamandras ao sul, o dos silfos ao oriente e o das ondinas ao ocidente. Eles influem sobre os quatro temperamentos do homem, isto é, os gnomos sobre os melancólicos, as salamandras sobre os sangüíneos, as ondinas sobre os fleumáticos e os silfos sobre os biliosos. Os seus signos são: os hieróglifos do touro para os gnomos, e os governamos com a espada; do leão para as salamandras, e os dirigimos com a baqueta bifurcada ou o tridente mágico; da águia para os silfos, e os mandamos com os santos pantáculos; enfim, do aquário para as ondinas, e as evocamos com o copo de libações. Os seus soberanos respectivos são: Gob para os gnomos, Djîn para as salamandras, Paralda para os silfos e Nicksa para as ondinas.
Quando um espírito elemental vem atormentar ou ao menos inquietar os habitantes deste mundo, é preciso conjurá-lo pelo ar, pela água, pelo fogo e pela terra, soprando, aspergindo, queimando perfumes e traçando no chão a estrela de Salomão e o pentagrama sagrado. Estas figuras devem ser perfeitamente regulares e feitas, quer com carvão do fogo consagrado, quer com um caniço, molhado em tinta de diversas cores, misturadas com ímã pulverizado. Depois, tendo na mão o pantáculo de Salomão e tomando, cada qual por sua vez, a espada, a baqueta e o copo, pronunciaremos nestes termos em voz alta a conjuração dos quatro:
“Caput mórtuum imperet tibi Dóminus per vivum et devótum serpentem”.
“Cherub, imperet tibi Dóminus per Adam Iotchavah”!
“Quila érrans, imperet tibi Dóminus per alas Tauri. Serpens, imperet tibi”.
“Dóminus tetrámmaton per ángelum et leónem”!
“Michael, Gabriel, Raphael, Anael”!
“FLÚAT ÚDOR per spiritum ELOHIM”.
“MÁNEAT TERRA per Adam IOT-CHAVAH”.
“FIAT FIRMAMÉNTUM per IAHUVEHU-ZEBAOTH”.
“FIAT JUDÍCIUM per ígnem in virtude MICHAEL”.
“Anjo de olhos mortos, obedece, ou escorre-te com está água santa”.
“Touro alado, trabalha ou volta à terra, se não queres que te aguilhoe com esta espada”.
“Águia acorrentada, obedece a este signo, ou retira-te diante deste sopro”.
“Serpente móvel, arrasta-te a meus pés ou sê atormentada pelo fogo sagrado e evapora-te com os perfumes que queimo nele”.
“Que a água volte à água; que o fogo queime; que o ar circule; que a terra caia na terra, que a virtude do pentagrama, que é a estrela da manhã, e em nome do tetragrama, que está escrito no centro da cruz luminosa. Amém”.
O sinal da cruz adotado pelos cristãos não lhes pertence exclusivamente. É também cabalístico e representa as oposições e o equilíbrio quaternário dos elementos. Vemos, pelo versículo oculto do Pater que assinalamos no nosso Dogma, que, primitivamente, havia duas maneiras de o fazer ou, ao menos, duas fórmulas bem diferentes para o caracterizar; uma reservada aos padres e iniciados; a outra oferecida aos neófitos e profanos. Assim, por exemplo, o iniciado, levando a mão à sua testa, dizia:
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A ti; depois acrescentava: pertencem; e continuava, levando a mão ao peito: o reino; depois, ao ombro esquerdo: a justiça; ao ombro direito: e a misericórdia. Depois ajuntava as duas mãos, acrescentando: nos ciclos geradores. Tibi sunt Malchut et Geburah et Chesed per aeonas. Sinal da cruz absoluta e magnificamente cabalístico, que as profanações do gnosticismo fizeram a Igreja militante e oficial perder completamente.
Este sinal, feito deste modo, deve preceder e terminar a conjuração dos quatro.
Para dominar e submeter os espíritos elementais é preciso nunca se abandonar aos defeitos que os caracterizam. Assim, nunca um espírito leviano e caprichoso governará os silfos. Nunca uma natureza débil, fria e inconstante será senhora das ondinas; a cólera irrita aas salamandras e a grosseria cupida faz dos que domina joguetes dos gnomos.
Porém, é preciso ser pronto e ativo como os silfos; flexível e atento às imagens como as ondinas; enérgico e forte como as salamandras, laborioso e paciente, como os gnomos; numa palavra, é preciso vencê-los nas suas forças, sem nunca se deixar subjugar pelas suas fraquezas. Quando estiver bem firme nesta disposição, o mundo inteiro estará a serviço do sábio operador. Ele passará durante a tempestade, e a chuva não tocará na sua cabeça; o vento nem mesmo desarranjará uma dobra do seu vestuário; atravessará o fogo sem ser queimado; caminhará sobre a água, e verá os diamantes através da espessura da terra. Estas promessas, que podem parecer hiperbólicas, são-no somente na inteligência do vulgo, porque, se o sábio não faz material e exatamente as coisas que estas palavras exprimem, fará outras muito maiores e mais admiráveis. Todavia é indubitável que podemos, pela vontade, dirigir os elementos numa certa medida, e mudar ou fazer parar realmente os seus efeitos.
Por que, por exemplo, se foi verificado que pessoas, no estado de êxtase, perdem momentaneamente o seu peso, não se poderia andar ou deslizar sobre a água? Os convulsionários de Saint-Medard não sentiam nem o fogo nem o ferro, e solicitavam, como alívio, os golpes mais violentos e as torturas mais incríveis. As estranhas ascensões e o equilíbrio prodigioso de certos sonâmbulos, não são uma revelação destas forças ocultas da natureza? Mas vivemos num século em que ninguém tem coragem de confessar os milagres de que é testemunha, e se alguém vem dizer: “Vi ou fiz por mim mesmo as coisas que vos conto”, dir-lhe-ão: “Quereis divertir-vos à nossa custa, ou estais doente”. É melhor calar-se e agir.
Os metais correspondentes às quatro formas elementais são o ouro e a prata para o ar, o mercúrio para a água, o ferro e o cobre para o fogo, e o chumbo para a terra. Compõem-se com eles talismãs relativos às forças que representam e aos efeitos que nos propusermos obter delas.
A adivinhação pelas quatro formas elementares, que chamamos aeromancia, hidromancia, piromancia e geomancia, se faz de diversas maneiras, a quais dependem todas da vontade e do translúcido ou da imaginação do operador.
Com efeito, os quatro elementos são simplesmente instrumentos para ajudar a segunda vista.
A segunda vista é a faculdade de ver na luz astral.
Esta segunda vista é natural como a primeira vista ou vista sensível e ordinária; porém, ela só pode operar-se pela abstração dos sentidos. Os sonâmbulos e extáticos gozam naturalmente da segunda vista; mas esta vista é mais lúcida quando a abstração é mais completa.
A abstração produz-se pela embriaguez astral, isto é, por uma superabundância de luz que satura completamente e, por conseguinte, deixa inerte o instrumento nervoso.
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Os temperamentos sanguíneos são mais dispostos a aeromancia, os biliosos a piromania, os pituitosos a hidromancia, e os melancólicos a geomancia.
A aeromancia confirma-se pela oniromancia ou adivinhação por sonhos; supre-se a piromania pelo magnetismo, a hidromancia pela cristalomancia, e a geomancia pela cartomancia. São transposições e aperfeiçoamentos de métodos.
Mas a adivinhação, de qualquer modo que a operemos, é perigosa ou, ao menos, inútil, porque desanima a vontade e embaraça, por conseguinte, a liberdade e fatiga o sistema nervoso.
CAPÍTULO V
O PENTAGRAMA FLAMEJANTE
Chegamos à explicação e à consagração do santo e misterioso pentagrama.
Que o ignorante e o supersticioso fechem o livro aqui: pois só verão nele trevas ou ficarão escandalizados.
O pentagrama, que é chamado, nas escolas gnósticas, a estrela flamejante, é o sinal da onipotência e da autocracia intelectuais.
É a estrela dos magos; é o sinal do Verbo feito carne; e, conforme a direção dos seus raios, este símbolo absoluto em magia representa o bem ou o mal, a ordem ou a desordem, o cordeiro de Ormuz e de São João, ou o bode maldito de Mendes.
É a iniciação ou a profanação; é Lúcifer ou Vésper, a estrela da manhã ou da tarde.
É Maria ou Lilith; é a vitória ou a morte, é a luz ou à noite.
O pentagrama elevando ao ar duas das suas pontas representa Satã ou o bode do Sabbat, e representa o Salvador quando eleva ao ar um só dos seus raios.
O pentagrama é a figura do corpo humano com quatro membros e uma ponta única que deve representar a cabeça.
Uma figura humana com a cabeça para baixo representa naturalmente um demônio, isto é,a subversão intelectual, a desordem ou a loucura.
Ora, se a magia é uma realidade, se esta ciência oculta é a lei verdadeira dos três mundos, este signo absoluto, este signo tão antigo como a história e até mais que a história, deve exercer, com efeito, uma influência incalculável sobre os espíritos desembaraçados dos seus envoltórios materiais.
O signo do pentagrama chama-se também o signo do microcosmo, e representa o que os cabalistas do livro de Zohar chamam o microprósopo.
A interpretação completa do pentagrama é a chave dos dois mundos. É a filosofia e a ciência natural absolutas.


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