Dogma e Ritual da Alta Magia - parte 6


Conforme estes dados, entende-se o que é o fogo do inferno, idêntico ao demônio ou à antiga serpente; em que consiste a salvação e reprovação dos homens, todos chamados e todos sucessivamente eleitos, mas em pequeno número, depois de terem si expostos, pela sua falta, a cair no fogo eterno.
Tal é a grande e sublime revelação dos magos, revelação mãe de todos os símbolos, de todos os dogmas e de todos os cultos.
Já podemos ver quando Dupuis se enganava, quando julgava que todas as religiões riam somente da astronomia. É, pelo contrário, a astronomia que nasceu da astrologia, e a astrologia primitiva é um dos ramos da santa Cabala, a ciência das ciências e a religião das religiões.
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Por isso, vemos, na décima sétima página do Tarô, uma admirável alegoria. Uma mulher nua, que representa, ao mesmo tempo, a Verdade, a Natureza e a Sabedoria, sem véu, inclina duas urnas para e a terra e nela derrama fogo e água; acima da sua cabeça brilha o setenário estrelado ao redor de um estofo de oito raios, o de Vênus, símbolo de paz e amor; ao redor da mulher verdejam as plantas da terra, e numa dessas plantas vem pousar a borboleta de Psiquê, emblema da alma, substituído, em algumas cópias do livro sagrado, por um pássaro, símbolo egípcio e, provavelmente, dos mais antigos. Esta figura, que no Tarô moderno traz o título de Estrela brilhante, é análoga a muitos símbolos herméticos, e não deixa de ter analogia com a Estrela flamejante dos iniciados da franco-maçonaria, exprimindo a maior parte dos mistérios da doutrina secreta dos rosacruzes.
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Os Filtros e as Sortes
JUSTITIA – MYSTERIUM - CANES
Atacamos, agora, o abuso mais criminoso que se pode trazer das ciências mágicas: é a magia, ou antes a feitiçaria envenenadora. Aqui devem compreender que escrevemos, não para ensinar, mas para prevenir.
Se a justiça humana, usando de rigor contra os adeptos, só tivesse atingido os necromantes e feiticeiros envenenadores, é certo, como já o fizemos notar, que os seus rigores teriam sido justos e que as mais severas intimidações nunca podiam ser excessivas contra semelhantes celerados.
Todavia, não se deve crer que o poder de vida e morte que pertence secretamente ao mago sempre tenha sido exercido para satisfazer alguma covarde vingança, ou uma cupidez mais covarde ainda na Idade Média, como no mundo antigo, as associações mágicas muitas vezes fulminaram ou fizeram perecer lentamente os reveladores ou profanadores de mistérios, e, quando o punhal mágico devia abster-se de ferir, quando a efusão de sangue era para temer, a água Toffana, os ramalhetes aromáticos, as túnicas de Nessus e outros instrumentos de morte mais desconhecidos e mais estranhos, serviam para executar, cedo ou tarde, a terrível sentença dos franco-juízes.
Dissemos que existe na magia um grande e indizível arcano, que nunca é comunicado entre os adeptos e que, principalmente, é preciso impedir que os profanos adivinhem; qualquer que outrora revelasse ou fizesse, por imprudentes revelações, os outros acharem a chave deste arcano supremo, era imediatamente condenado à morte e, muitas vezes, forçado a ser o próprio executor da sentença.
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O famoso jantar profético célebre de Cazotte, escrito por La Harpe, ainda não foi entendido; e La Harpe, contando-o, cedeu ao desejo tão natural de deixar admirados os seus leitores, amplificando os detalhes. Todos os homens presentes a esse jantar, à exceção de La Harpe, eram iniciados e reveladores, ou ao menos profanadores dos mistérios. Cazotte, mais elevado do que todos eles na escada da iniciação, lhes pronunciou a sua sentença de morte em nome do iluminismo, e esta sentença foi diversamente, mas rigorosamente executada, como outras sentenças semelhantes o tinham sido, vários anos e vários séculos antes, contra o abade de Villars, Urbano Grandier e tantos outros, e os filósofos revolucionários pereceram, como deviam perecer também Cagliostro abandonado nas prisões da inquisição, o bando místico de Catarina Theos, o imprudente Schroepffer, forçado a matar-se no meio dos seus triunfos mágicos e da admiração universal, o desertor Kotzebüe, apunhalado por Carl Sand, e tantos outros, cujos cadáveres são achados sem que se saiba a causa da sua morte súbita e sangrenta.
Lembramo-nos da estranha alocução que dirigiu ao próprio Cazotte, condenando-o à morte, o presidente do tribunal revolucionário, seu confrade e co-iniciado. O enredo do drama de 93 ainda está escondido no santuário mais obscuro das sociedades secretas; aos adeptos de boa fé, que queriam emancipar o povo, outros adeptos, de uma seita oposta, e que estavam ligados a tradições mais antigas, fizeram uma oposição terrível por meios análogos aos dos seus adversários: tornaram impossível a prática do grande arcano, desmascarando a teoria. A multidão nada entendeu, mas desconfiou de todos, e caiu, por falta de ânimo, mais baixo do que estava. O grande arcano ficou mais desconhecido do que nunca: somente os adeptos, neutralizados uns pelos outros, não puderam exercer o seu poder, nem para dominarem os outros, nem para se libertarem a si próprios; eles se condenaram, pois, mutuamente como traidores e votaram uns aos outros ao exílio, ao suicídio, ao punhal e ao cadafalso.
Perguntar-me-ão, talvez, se perigos tão horríveis ameaçam ainda, nos nossos dias, quer o intruso do santuário, quer os reveladores do arcano. Para que hei de responder à incredulidade dos curiosos? Se me exponho a uma morte violenta para os instruir, certamente não me salvarão; se tiverem medo para si mesmos, que se abstenham de investigações imprudente: eis tudo o que lhes posso dizer.
Voltemos à magia envenenadora.
Alexandre Dumas, no seu romance de Monte Cristo, revelou algumas das práticas desta ciência funesta. Não repetiremos, depois dele, as tristes teorias do crime, como se envenenam as plantas, como os animais alimentados com plantas envenenadas adquirem uma carne doentia, e pode, quando servem, por sua vez, de alimento aos homens, lhes causar a morte, sem que o veneno deixe sinal; não diremos como, por unções venenosas, se envenenam as paredes das casas e o ar respirável por fumigações, que exigem do operador o uso da máscara de vidro de Santa Cruz; deixaremos à antiga Canidia os seus abomináveis mistérios, e não procuraremos até que ponto os ritos infernais de Sagana aperfeiçoaram a arte de Locusta. Seja-nos suficiente dizer que estes malfeitores da pior espécie distilavam junto o vírus das doenças contagiosas, o veneno dos répteis e o suco nocivo das plantas; que tiravam do cogumelo o seu humor viscoso e narcótico, do datura stramonium seus princípios asfixiantes, do pessegueiro e do loureiro-amêndoa o veneno de que uma só gota na língua ou no ouvido, como um raio, faz cair e mata o ser vivo mais bem constituído e mais forte. Faziam ferver o suco branco do timalo o leite em que tinham afogado víboras e áspides; colhiam com cuidado e traziam das suas viagens, ou faziam vir, por altos preços, a seiva de uma árvore venenosa das Antilhas e os frutos de Java, o suco da mandioca e de outros venenos; pulverizavam o sílex, misturavam com cinzas impuras a baba seca dos répteis: compunham filtros horrendos com o vírus dos jumentos enraivecidos e as secreções das cadelas com cio. O sangue humano se misturava com drogas infames, e disso compunham um óleo que matava só pelo mau cheiro: isto lembra a torta burbônica de Panurgo. Até escreviam receitas de envenenamentos, disfarçando-as sob os termos técnicos da alquimia, e, em mais de um velho livro considerado hermético, o segredo do pó de
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projeção não é outro senão o pó de sucessão. No grande Grimório, ainda se acha uma dessas receitas menos disfarçadas do que as outras, mas somente intitulada Meio de fazer ouro: é uma horrível decocção de verdete, vitríolo, arsênico e serragem de madeira, que deve, para ser boa, consumir imediatamente um ramo que nela for molhado e roer rapidamente um prego. João Batista Porta, na sua Magia Natural, dá uma receita do veneno dos Bórgias; mas, como me se pensa, ele zomba do público e não divulga a verdade, muito perigosa em tal matéria. Podemos, pois, dar aqui a receita de Porta, somente para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores.
O sapo, por si mesmo, não é venenoso, mas é uma esponja de venenos: é o cogumelo do reino animal. Tomai, pois, um grande sapo, diz Porta, e prendei-o numa garrafa com víboras e áspides; dai-lhes para alimento, durante vários dias, cogumelos venenosos, a digital a cicuta, depois irritai-os, batendo-lhes, queimando-os e atormentando-os de todas as maneiras, até que morram de raiva e de fome; salpicai-os, então, de escuma de cristal pulverizado e eufórbio, depois, pô-los-eis numa redoma bem fechada e fareis secar lentamente toda sua umidade pelo fogo; em seguida, deixareis esfriar e separareis a cinza dos cadáveres do pó incombustível que tiver ficado no fundo da redoma: tereis, então, dois venenos, um líquido e outro em pó. O líquido será tão eficaz, como a água Toffana, o pó fará dessecar ou envelhecer em alguns dias, depois morrer no meio de horríveis sofrimentos, ou uma atonia geral, aquele que dele tiver tomado uma pitada misturada com a sua bebida. É preciso convir que esta receita tem uma fisionomia mágica das mais feias e mais negras, e que lembra, indignando o coração, as abomináveis cozinhas de Canidia e Medéia.
Eram semelhantes pós que os feiticeiros da Idade Média pretendiam receber no Sabbat, e que vendiam a elevado preço à ignorância e ao ódio: é pela tradição de semelhantes mistérios que espalhavam o espanto nos campos e chegavam a lançar sortes. Uma vez ferida a imaginação, uma vez atacado o sistema nervoso, a vítima perecia rapidamente, e até o terror de seus pais e amigos acabava a sua perda. O feiticeiro e a feiticeira eram quase sempre uma espécie de sapo humano, inchado de velhos rancores: eram pobres, repelidos de todos, e, por conseguinte, odiosos. O temor que inspiravam era a sua consolação e vingança; envenenados também por uma sociedade de que só tinham conhecido as escórias e os vícios, envenenavam por sua vez os que eram tão fracos para os temer, e vingavam-se na beleza e na juventude a sua velhice maldita e sua imperdoável fealdade.
Só a operação destas más obras e a realização destes horrendos mistérios constituíam e confirmavam o que então era chamado o pacto com o mau espírito. É certo que o operador devia pertencer ao mal em corpo e alma, e que merecia justamente a reprovação universal e irrevogável expressa pela alegoria do inferno. Que almas humanas tenham descido a este grau de malvadez e demência, isto deve nos espantar e afligir, sem dúvida; mas não é preciso uma profundidade para base da altura das mais sublimes virtudes, e o abismo dos infernos não mostra, por antítese, a elevação e grandeza infinita do céu?
No Norte, onde os instintos são mais reprimidos e mais vivazes; na Itália, onde as paixões são mais expansivas e mais ardentes, ainda são temidas as sortes e o mau olhado; em Nápoles, não é desafiada impunemente a jettatura, e até reconhecemos, por certos sinais exteriores, os seres desgraçadamente dotados desse poder.
Para garantir-se contra isso, é preciso trazer consigo chifres, dizem os práticos, e o povo, que toma tudo ao pé da letra, apressa-se em enfeitar-se com pequenos cornos, sem pensar mais no sentido desta alegoria. Os chifres, atributos de Júpiter, Ammon, Baco e Moisés, são símbolos da força moral ou do entusiasmo; e os magos querem dizer que, para desafiar a jettatura, é preciso dominar por uma grande ousadia, um grande entusiasmo ou um grande pensamento a corrente fatal dos instintos. È assim que quase todas as superstições populares são as interpretações profanas de algum grande axioma ou maravilhoso arcano da sabedoria oculta. Pitágoras, escrevendo os seus admiráveis símbolos, não legou aos sábios uma filosofia perfeita, e ao vulgo uma nova série de vãs
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observâncias e práticas ridículas? Assim, quando dizia: ”Não pises no que cai da mesa, não cortes as árvores do grande caminho, não mates a serpente que caiu no teu quintal”, não dava ele, sob alegoria transparentes, os preceitos da caridade, quer social, quer particular? E quando dizia: “Não te olhes no espelho com a luz da vela”, não é um modo engenhoso de ensinar o verdadeiro conhecimento de si mesmo, que não poderia existir com as luzes factícias e os preconceitos dos sistemas? O mesmo acontece com todos os outros preceitos de Pitágoras, que, como se sabe, foram seguidos ao pé da letra por uma multidão de discípulos imbecis, a ponto de, entre as observâncias supersticiosas das nossas províncias, existir um tão grande número delas, que, evidentemente, remontam à inteligência primitiva dos símbolos de Pitágoras.
Superstição vem de uma palavra latina que significa sobreviver. É o sinal que sobrevive ao pensamento; é o cadáver de uma prática religiosa. A superstição é, para a iniciação, o que a idéia do diabo é para a de Deus. É nesse sentido que o culto das imagens é proibido e que o dogma mais santo na sua concepção primitiva pode tornar-se supersticioso e ímpio, quando se perderam a sua inspiração e o seu espírito. É então que a religião, sempre única como a razão suprema, muda de vestimentas e abandona os antigos ritos à cupidez e embuste dos caídos, metamorfoseados, pela sua malícia e ignorância, em charlatões e pelotiqueiros.
Podemos comparar às superstições os emblemas e caracteres mágicos, cujo sentido não é mais entendido, e que são gravados casualmente nos amuletos e talismãs. As imagens mágicas dos antigos eram pantáculos, isto é, sínteses cabalísticas. A roda de Pitágoras é um pantáculo análogo ao das rodas de Ezequiel, e estas duas figuras são os mesmos segredos e a mesma filosofia; é a chave de todos os pantáculos, e já falamos dela. Os quatro animais, ou antes a esfinge de quatro cabeças do mesmo profeta, são idênticos a um admirável símbolo indiano, cuja figura damos aqui, e que se refere à ciência do grande arcano.
São João, no seu Apocalipse, copiou e amplificou Ezequiel, e todas as figuras monstruosas deste livro são tantos pantáculos mágicos de que os cabalistas facilmente acham a chave. Mas os cristãos, tendo rejeitado a ciência, no desejo de amplificar a fé, quiseram esconder por mais tempo a origem do seu dogma, e condenaram ao fogo os livros de Cabala e magia. Destruir os originais é dar uma espécie de originalidade as cópias, e São Paulo, sem dúvida, o sabia muito bem, quando, nas intenções louváveis, realizava o seu auto de fé científico de Éfeso. É assim que, seis séculos mais tarde, o crente Omar devia sacrificar à originalidade do Alcorão a biblioteca de Alexandria, e quem sabe, no porvir, um futuro apóstolo não quererá incendiar nossos museus literários e confiscar a imprensa em proveito de alguma predileção religiosa e de alguma lenda novamente acreditada?
O estudo dos talismãs e pantáculos é um dos mais curiosos da magia, e se refere à numismática histórica. Existem talismãs indianos, egípcios e gregos, medalhas cabalísticas provindas dos hebreus antigos e modernos, abraxas gnósticos, amuletos bizantinos, moedas ocultas, em uso entre as sociedades secretas e chamadas, às vezes, senhas do Sabbat, medalhas dos Templários e jóias de franco-maçons. Coglienus, no seu Tratado das Maravilhas da Natureza, descreve os talismãs de Salomão e do rabino Chael. As figuras de maior número de outros, e mais antigos, foram gravadas nos calendários mágicos de Tycho-Brahé e Duchenteau, e devem ser reproduzidos, na totalidade ou em parte, nos fastos iniciáticos do Sr. Ragon, vasto e sábio trabalho que recomendamos aos nossos leitores.
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A Pedra dos Filósofos
ELAGABALA - VOCATIO - Sol - Aurum
Os antigos adoravam o sol sob a forma de uma pedra preta que denominavam Elagabala ou Heliogabala. Que significava esta pedra, e como podia ela ser a imagem do mais brilhante dos astros?
Os discípulos de Hermes, antes de prometer aos seus adeptos o elixir de longa vida, ou o pó de projeção, lhes recomendavam que procurassem a pedra filosofal. Que é esta pedra, e por que uma pedra?
O grande iniciador dos cristãos convida seus fiéis a construir sobre uma pedra, se não quiserem ver derrubadas suas construções. Chama a si próprio de pedra angular e diz ao mais crente dos seus apóstolos: “Chamas-te Pedro, porque és a pedra sobre a qual construirei minha Igreja”.
Esta pedra, dizem os mestres de alquimia, é o verdadeiro sal dos filósofos, que entra por um terço na composição do azoth. Ora, Azoth é, como sabemos, o nome do grande agente hermético e do verdadeiro agente filosofal; por isso representam eles o seu sal sob a forma de uma pedra cúbica, como podemos ver nas doze chaves do Basílio Valentino ou nas alegorias de Trevisano.
Que é, pois, em verdade, esta pedra? É o fundamento da filosofia absoluta, é a suprema e inabalável razão. Antes de pensar na obra metálica é preciso estar sempre fixo sobre os princípios absolutos da
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sabedoria, é preciso possuir esta razão que é a pedra de toque da verdade. Nunca um homem de preconceitos será rei da natureza e senhor das transmutações. A pedra filosofal é, pois, antes de tudo, necessária; mas, como achá-la? Hermes no-lo ensina na sua tábua de esmeralda. É preciso separar o sutil do fixo, com grande cuidado e uma atenção extrema. Assim, devemos desembaraçar as nossas certezas das nossas crenças e fazer bem distintos os domínios respectivos da ciência e da fé; compreender bem que não sabemos as coisas que cremos, e que não cremos mais em nenhuma das coisas que chegamos a saber, e que, assim, a essência das coisas da fé é o desconhecido e o indefinido, ao passo que é tudo o contrário das coisas da ciência.
Concluirão disso que a ciência repousa sobre a razão e a experiência, ao passo que a fé tem para base o sentimento e a razão. Em outros termos, a pedra filosofal é a verdadeira certeza que a prudência humana dá às investigações conscienciosas e à dúvida modesta, ao passo que o entusiasmo religioso a dá exclusivamente à fé. Ora, ela não pertence nem à razão sem aspirações, desrazoáveis; a verdadeira certeza é a aquiescência recíproca da razão que sabe ao sentimento que crê, e do sentimento que crê à razão que sabe. A aliança definitiva da razão e da fé resultará não da sua distinção e separação absolutas, mas do seu exame mútuo e do seu concurso fraterno. Tal é o sentido das duas colunas do pórtico de Salomão, uma das quais e branca e a outra preta. Elas são distintas e separadas, até são contrárias em aparência; mas a força cega quer reuni-las, aproximando-as, a abóbada do templo se desmoronará; porque, separadas, têm uma idêntica força; reunidas, são duas forças que se destroem mutuamente. É pela mesma razão que o poder espiritual se enfraquece, quando quer usurpar o temporal, e que o poder temporal perece, vítima da sua usurpação do poder espiritual. Gregório VII perdeu o papado, e os reis cismáticos perderam e perderão a monarquia. O equilíbrio humano tem necessidade de dois pés, os mundos gravitam sobre duas forças, a geração exige dois sexos. Tal é o sentido do Arcano de Salomão, figurado pelas duas colunas do tempo, Jakin e Bohas.
O sol e lua dos alquimistas correspondem ao mesmo símbolo e concorrem para o aperfeiçoamento e a estabilidade da pedra filosofal. O sol é o signo hieroglífico da verdade, porque é a fonte visível da luz, e a pedra bruta é o símbolo da estabilidade. È por isso que os antigos magos tomavam a pedra Elagabala pela própria figura do sol, e é também por isso que os alquimistas da Idade Média indicavam a pedra filosofal como o primeiro meio de fazer o ouro filosófico, isto é, de transformar todas as forças vitais figuradas pelos seis metais em sol, isto é, em verdade e em luz, primeira e indispensável operação da grande obra, que leva às adaptações secundárias, e que faz pelas analogias da natureza, achar o ouro natural e grosseiro aos criadores do ouro espiritual e vivo, aos possuidores do verdadeiro sal, do verdadeiro mercúrio e do verdadeiro enxofre filosófico.
Achar a pedra filosofal é, pois, ter descoberto o absoluto, como dizem alhures todos os mestres. Ora, o absoluto é o que não admite mais erro, é o fixo do volátil, é a regra da imaginação, é a própria necessidade do ser, é a lei imutável de razão e verdade; o absoluto é o que é. Ora que está em algum senso precede ele que é. O próprio Deus não existe sem razão de ser e só pode existir em virtude de uma suprema e inevitável razão. É, pois, esta razão que é o absoluto; é nela que devemos crer, se quisermos que a nossa fé tenha uma base razoável e sólida. Puderam dizer, nos nossos dias, que Deus é somente uma hipótese, mas a razão absoluta não o é: ela é essencial ao ente.
São Tomás disse: “Uma coisa não é justa porque Deus a quer, mas Deus a quer porque ela é justa”. Se São Tomás tivesse deduzido logicamente todas as conseqüências deste belo pensamento, teria achado a pedra filosofal e, em lugar de limitar-se a ser o anjo da escola, teria sido o seu reformador.
Crer na razão de Deus e no Deus da razão é tornar impossível o ateísmo. São os idólatras que fizeram os ateus. Quando Voltaire dizia: “Se Deus não existisse, era preciso inventá-lo”, ele antes sentia que não entendia a razão de Deus. Deus existe realmente? Nada sabemos disso, mas desejamos que isso seja, e é por isso que nos o cremos. A fé formulada assim é a fé razoável, porque
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admite a dúvida da ciência; e, com efeito, só cremos nas coisas que nos parecem prováveis, mas que não sabemos. Pensar de outro modo é delirar; falar de outro modo é expressar-se como iluminado ou fanático. Ora, não é a semelhantes pessoas que a pedra filosofal é prometida.
Os ignorantes que desviaram o cristianismo primitivo do seu caminho, substituindo a fé à ciência, o sonho à experiência, o fantástico à realidade; os inquisidores que fizeram, durante tantos séculos, uma guerra de extermínio à magia, chegaram a cobrir de trevas as antigas descobertas do espírito humano; de modo que hoje andamos às apalpadelas para achar de novo a chave dos fenômenos da natureza. Ora, todos os fenômenos naturais dependem de uma única e imutável lei, representada também pela pedra filosofal, mas principalmente pela forma simbólica, que é o cubo. Esta lei, expressa na Cabala pelo quaternário, tinha fornecido aos hebreus todos os mistérios do seu tetragrama divino. Podemos, pois, dizer que a pedra filosofal é quadrada em todos os sentidos, como a Jerusalém celeste de São João e que traz escrito de um lado o nome de h m l c e do outro o de Deus; numa das suas faces o de Adão, na outra o de Heva, depois os de Azoth e Inri nas duas outras. No frontispício de uma tradução francesa de um livro do senhor de Nuisement sobre o sal filosófico, vê-se o espírito da terra de pé num cubo que é percorrido por línguas de fogo; tem um caduceu como phallus, e o sol e a lua no peito, à direita e à esquerda; está barbado, coroado, e tem um cetro na mão. É o Azoth dos sábios no seu pedestal de sal e enxofre. Dão, às vezes, a esta imagem a cabeça simbólica do bode de Mendes; é o Baphomet dos Templários, o bode do Sabbat e o verno dos gnósticos/ imagens bizarras que serviram de espantalho ao vulgo, depois de terem servido para as meditações dos sábios, hieróglifos inocentes do pensamento e da fé que serviram de pretexto aos furores das perseguições. Quanto os homens são desgraçados na sua ignorância, mas também quanto desprezariam a si mesmos se chegassem a conhecê-la!
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A Medicina Universal
CAPUT – RESSURRECTIO - CIRCULUS
A maioria das nossas doenças físicas vem das nossas doenças morais, conforme o dogma mágico único e universal, e em razão da lei das analogias.
Uma grande paixão à qual a pessoa se abandona corresponde sempre a uma grande doença que prepara a si mesma. Os pecados mortais são assim chamados porque fazem física e positivamente morrer.
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Alexandre, o Grande, morreu de orgulho. Ele era naturalmente temperante e entregou-se por orgulho aos excessos que lhe deram a morte.
Francisco I morreu de um adultério. Luís XV morreu por causa do seu viveiro de veados.
Quando Marat foi assassinado, morria de cólera e inveja. Era um monômano de orgulho, que se julgava único, justo, e desejava matar tudo o que não fosse Marat.
Vários contemporâneos nossos morreram de ambição fracassada depois da revolução de fevereiro.
Desde que a vossa vontade esteja irrevogavelmente confirmada numa tendência absurda, estais mortos, e o escolho em que ficareis em pedaços não está longe.
É, pois, verdade dizer que a sabedoria conserva e prolonga a vida.
O grande Mestre disse: “A minha carne é um alimento e o meu sangue uma bebida. Comei minha carne e bebei meu sangue; tereis vida”. E como o vulgo murmurava, acrescentou: “A carne aqui nada significa; as palavras que vos digo são espírito e vida”. Queria, pois, dizer: “Saciai-vos do meu espírito e vivei da minha vida”.
E, quando ia morrer, uniu a lembrança da sua vida ao signo do pão e a de seu espírito ao signo do vinho, e instituiu, assim, a comunhão da fé, da esperança e da caridade.
É no mesmo sentido que os mestres hermetistas disseram: Fazei potável o ouro e tereis a medicina universal; isto é, apropriai a verdade aos vossos costumes, que ela se torne a fonte em que vos saciareis todos os dias, e tereis em vós mesmos a imortalidade dos sábios. A temperança, a tranqüilidade da alma, a simplicidade de caráter, a calma e a razão da vontade não só fazem o homem feliz, mas também sábio e forte. É fazendo-se razoável e bom que o homem se torna imortal. Somos autores do nosso destino, e Deus não nos salva sem nossa colaboração.
A morte não existe para o sábio: a morte é um fantasma tornado horrível pela ignorância e a fraqueza do vulgo.
A mudança atesta o movimento, e o movimento só revela a vida. Até o cadáver não se decomporia se fosse morto: todas as moléculas que o compunham ficam vivas e se movem para se desprender.
E pensareis que o espírito foi o primeiro a desprender-se para não mais viver! Creríeis que o pensamento e o amor podem morrer, quando até a matéria mais grosseira não morre!
Se a mudança deve ser chamada morte, morremos e renascemos todos os dias, porque todos os dias as nossas formas mudam.
Temamos, pois, manchar e rasgar os vossos vestuários, mas não temamos deixá-los quando vem a hora do repouso.
O embalsamamento e conservação dos cadáveres são uma superstição contra a natureza. É um ensaio de criação da morte; é a imobilização forçada de uma substância que de a vida tem necessidade. Mas não se deve também ter muita pressa de destruir ou fazer desaparecerem os cadáveres; porque nada se realiza repentinamente na natureza, e não se deve arriscar romper violentamente os laços de uma alma que se desprende.
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A morte nunca é instantânea; ela se opera por graus, como o sono. Enquanto o sangue não esfriou completamente, enquanto os nervos podem estremecer, o homem não está completamente morto, e, se nenhum dos órgãos essenciais da vida está destruído, a alma pode ser chamada, quer por acidente, quer por uma vontade forte.
Disse um filósofo que duvidaria do testemunho universal antes de crer na ressurreição de um morto, e nisso falou temerariamente; porque é pela fé do testemunho universal que ele acreditava na impossibilidade de uma ressurreição. Que seja provada uma ressurreição, que é que resultaria disso? Que era preciso negar a evidência ou renunciar à razão? Seria absurdo supô-lo. Será necessário concluir simplesmente que se acreditou, sem razão, impossível o ressurrecionismo. Ab actu ad posse valet consecutio.
Ousemos, agora, afirmar que a ressurreição é possível, e que até ela acontece mais do que cremos. Quantas pessoas, cuja morte foi jurídica e cientificamente constatada, foram encontradas mortas, é verdade, no seu caixão, mas tendo vivido, e tendo roído os punhos para abrir as suas artérias e escapar, por uma nova morte, de horríveis sofrimentos! Um médico nos dirá que estas pessoas não estavam mortas, mas sim em letargia? É o nome que dais à morte começada que não acaba, à morte que uma volta à vida vem desmentir. Facilmente nos libertamos de embaraços com palavras, quando é impossível explicar as coisas.
A alma esta presa ao corpo pela sensibilidade e, desde que a sensibilidade cessa, é sinal certo que a alma se afasta. O sono magnético é uma letargia ou morte fictícia, e curável à vontade. A eterização ou o torpor produzido pelo clorofórmio é uma letargia verdadeira, que, às vezes, acaba por uma morte definitiva, quando a alma, feliz pelo seu desprendimento passageiro, faz esforço de vontade para ir-se embora definitivamente; o que é possível nos que venceram o inferno, isto é, cuja força moral é superior às da atração astral. Por isso, a ressurreição só é possível para as almas elementares, e são principalmente elas que estão sujeitas a reviver involuntariamente no túmulo.
Os grandes homens e os verdadeiros sábios nunca são enterrados vivos.
Daremos, no nosso Ritual, a teoria e a prática do ressuscitamento, e, aos que me perguntarem se ressuscitei mortos, responderei que, se lhes dissesse, não me acreditariam.
Resta-nos examinar aqui, se a abolição da dor é possível, e se é bom empregar o clorofórmio ou o magnetismo para as operações cirúrgicas. Pensamos, e a ciência o reconhecerá mais tarde, que, diminuindo a sensibilidade, diminuímos a vida, e que tudo o que se tira da dor em tais circunstâncias vem em proveito da morte. A dor atesta a luta da vida, por isso notamos que, nas pessoas operadas em letargia, os curativos são muito dolorosos. Se reiterássemos em cada curativo o adormecimento pelo clorofórmio, aconteceria um das duas: ou o doente morreria, ou entre os curativos a dor voltaria e seria contínua. Não violentamos impunemente a natureza.
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A Adivinhação
Dentes – Furca - Amem
O autor deste livro ousou muito na sua vida e nunca um temor reteve cativo o seu pensamento. Não é, entretanto, sem verdadeiro terror que chega ao fim do dogma mágico.
Trata-se, agora, de revelar ou antes encobrir de novo o grande Arcano, este segredo terrível, segredo de vida e de morte, expresso na Bíblia por estas formidáveis e simbólicas palavras da própria serpente simbólica: I - Nequaquam moriemini; II - Sed eritis; III - Sicut Dii; IV - Scientes bonum et malum.
Um dos privilégios do iniciado ao grande Arcano e que resume todos os outros é a Adivinhação.
Conforme o sentido vulgar da palavra, adivinhar significa conjeturar o que se ignora; mas o verdadeiro sentido da palavra é inefável à força de ser sublime. Adivinhar (divinari) é exercer a divindade. A palavra divinus, em latim, significa mais e outra coisa que a palavra divus, cujo sentido é equivalente ao homem-Deus. Devin, em francês, contém as quatro letras da palavra Dieu, mais a letra N, que corresponde, pela sua forma, ao hebraico a e que exprime, cabalística e hieroglificamente, o grande Arcano, cujo símbolo no Tarô, é a figura do pelotiqueiro.
Aquele que entender perfeitamente o valor numeral absoluto de a multiplicado por N, com a força gramatical do N final nas palavras que exprimem ciência, arte ou poder, depois adicionar as cinco letras da palavra Devin, de modo a fazer entrar cinco em quatro, quatro em três, três em dois e dois em um, traduzindo o número que achar em letras hebraicas primitivas, escreverá o nome oculto do grande Arcano, e possuirá uma palavra de que o próprio santo tetragrama é simplesmente o equivalente e como que a imagem.
Ser adivinho, conforme a força da palavra, é, pois, ser divino, alguma coisa mais misteriosa ainda.
Os dois sinais da divindade humana, ou da humanidade divina, são as profecias e os milagres.
Ser profeta é ver adiantadamente os efeitos que existem nas causas, é ler na luz astral; fazer milagres é agir sobre o agente universal e submetê-lo à nossa vontade.
Perguntarão ao autor deste livro se é profeta e taumaturgo.
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Que os curiosos procurem e leiam tudo o que ele escreveu antes de certos acontecimentos que se realizaram no mundo.
Quanto ao que teria podido dizer ou fazer, se contasse, e que nisso houve alguma coisa maravilhosa, dariam crédito à sua palavra?
Aliás, uma das condições essenciais da adivinhação é nunca ser forçada e nunca se submeter à tentação, isto é, à prova. Nunca os mestres da ciência cederam à curiosidade de ninguém. As sibilas queimam seus livros quando Tarquínio recusa apreciá-las no seu justo valor; o grande Mestre cala-se quando lhe pedem sinais da sua missão divina; Agrippa morre de miséria antes de obedecer ao que exigem dele um horóscopo. Dar prova da ciência aos que duvidam da própria ciência é iniciar indignos, é profanar o ouro do santuário, é merecer a excomunhão dos sábios e a morte dos reveladores.
A essência da adivinhação, isto é, o grande Arcano mágico, é figurado por todos os símbolos da ciência, e se liga estreitamente com o dogma único e primitivo de Hermes. Em filosofia, dá a certeza absoluta; em religião, o segredo universal da fé; em física, a composição, a decomposição, a recomposição, a realização e a adaptação do mercúrio filosofal, chamado azoth pelos alquimistas; em dinâmica, multiplica as nossas forças pelas do movimento perpétuo; é, ao mesmo tempo, místico, metafísico e material, com correspondência de efeitos nos três mundos; obtém caridade em Deus, verdade em ciência e ouro em riqueza, porque a transmutação metálica é, ao mesmo tempo, uma alegoria e uma realidade, como muito bem sabem todos os adeptos da verdadeira ciência.
Sim, podemos real e materialmente fazer ouro com a pedra dos sábios, que é uma amálgama de sal, enxofre e mercúrio combinados três vezes em azoth por uma tríplice sublimação e uma tríplice fixação.
Sim, a operação é, muitas vezes, fácil e pode ser feita num dia, num instante: outras vezes, exige meses e anos. Mas, para ter sucesso na grande obra, é preciso ser divinus, ou adivinho, no sentido cabalístico da palavra, e é indispensável ter renunciado, para seu interesse pessoal, às vantagens das riquezas, de que nos tornamos, assim dispensadores. Raimundo Lullo enriquecia soberanos, semeava a Europa de suas fundações e permanecia pobre; Nicolau Flamel, que está bem morto, apesar do que diz a lenda, só achou a grande obra depois de ter, pelo ascetismo, chegado a um desapego completo das riquezas. Foi iniciado pela inteligência que teve repentinamente do livro de Asch Mezareph, escrito em hebraico pelo cabalista Abraão, talvez o mesmo que redigiu o Sepher Yetzirah. Ora, esta inteligência foi em Flamel, uma intuição merecida ou antes tornada possível pelas preparações pessoais do adepto. Creio ter dito o suficiente.
A adivinhação é, pois, uma intuição, e a chave desta intuição é o dogma universal e mágico das analogias. É pelas analogias que o mago interpreta os sonhos, como vemos na Bíblia, que o patriarca José o fazia outrora no Egito: porque as analogias nos reflexos da luz astral são rigorosas como os matizes das cores na luz solar, e podem ser calculadas e explicadas com grande exatidão. É somente indispensável conhecer o grau de vida intelectual do sonhador, e pode-se revelá-lo inteiramente a si mesmo pelos seus próprios sonhos até deixá-lo profundamente admirado.
O sonambulismo, os pressentimentos e a segunda visão são simplesmente uma disposição, quer acidental, quer habitual, a sonhar num sono voluntário ou acordado, isto é, perceber os reflexos analógicos da luz astral. Explicaremos isto até a evidência no nosso Ritual, quando dermos o meio tão procurado de produzir e dirigir regularmente os fenômenos magnéticos. Quanto aos instrumentos adivinhatórios, esses são simplesmente meios de comunicação entre o adivinho e o consultante, e, muitas vezes, só servem para fixar as duas vontades sobre o mesmo signo; as figuras vagas, complicadas, móveis, ajudam a reunir os reflexos do fluido astral e é assim que vemos, nas
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borras de café, nas nuvens, na clara do ovo, etc., formas fatídicas, e que só existem no translúcido, isto é, na imaginação dos operadores. A visão na água se opera por ofuscação e fadiga do nervo ótico, que cede as suas funções ao translúcido e produz uma ilusão do cérebro, que toma por imagens reais os reflexos da luz astral; por isso as pessoas nervosas, tendo vista fraca e imaginação viva, são mais próprias a este gênero de adivinhação, que tem sucesso principalmente quando é feita por crianças. Ora, não se enganem aqui sobre a função que atribuímos à imaginação nas artes adivinhatórias. Vemos pela imaginação, sem dúvida, e é esse o lado natural dos milagres, mas vemos coisas verdadeiras, e é nisso que consiste a maravilha da obra natural. Convidamos à experiência todos os verdadeiros adeptos. O autor deste livro experimentou todos os gêneros de adivinhação, e obteve resultados sempre proporcionais à exatidão das suas operações científicas e à boa fé boa dos seus consultantes.
O Tarô, este livro milagroso, inspirador de todos os livros sagrados dos antigos povos, é, por causa da exatidão analógica das suas figuras e dos seus números, o instrumento mais perfeito de adivinhação que possa ser empregado com inteira confiança. Com efeito, os oráculos desse livro são sempre rigorosamente verdadeiros, ao menos num sentido, e, quando nada prediz, sempre revela coisas ocultas e dá aos consultantes os mais sábios conselhos. Alliette, que, de cabeleireiro, se tornou cabalista, no último século, depois de ter passado trinta anos a meditar sobre o Tarô, Alliette , que se chamava cabalisticamente Etteilla, lendo o seu nome como se deve ler em hebraico, esteve bem perto de achar tudo o que estava escondido nesse livro estranho; mas só chegou a deslocar as chaves do Tarô, por não nas compreender, e inverteu a ordem e os caracteres das figuras, sem destruir completamente as suas analogias, tanto elas são simpáticas e correspondentes umas com as outras. Os escritos de Etteilla, tornados muito raros, são obscuros, fatigantes e de um estilo verdadeiramente bárbaro; nem todos foram impressos, e os manuscritos desse pai dos modernos tiradores de cartas estão ainda nas mãos de um livreiro de Paris, que teve a bondade de nô-los mostrar. O que se pode ver neles de mais notável são os estudos teimosos e a boa fé do autor, que toda a sua vida pressentiu a grandeza das ciências ocultas, e teve de morrer à porta do santuário, sem nunca poder penetrar além do véu. Estimava pouco Agrippa, fazia grande caso de Jean Belot e nada conhecia da filosofia de Paracelso; mas tinha uma intuição muito exercitada, uma vontade muito perseverante, e mais sonho do que juízo; era muito pouco para ser um mago, mas era mais do que necessário para ser um adivinho vulgar muito hábil, e, por conseguinte, muito acreditado. Por isso, Etteilla teve um sucesso em voga que um mago mais sábio talvez errasse em não pretender, mas que certamente não pretenderia.
Dizendo, no fim do nosso Ritual, a uma última palavra do Tarô, indicaremos o modo completo de o ler, e, por conseguinte, de o consultar, não somente sobre as sortes prováveis do destino, mas também, e principalmente, sobre os problemas da filosofia e da religião, de que dá uma solução sempre certa e da mais admirável exatidão, e se for explicado na ordem hierárquica da analogia dos três mundos com as três cores e os quatro matizes que compõem o setenário sagrado. Tudo isto pertence à prática positiva da magia, e somente pode ser sumariamente indicado e estabelecido em princípio nesta primeira parte, que contém exclusivamente o dogma da alta magia e a chave filosófica e religiosa das altas ciências, conhecidas ou antes ignoradas sob o nome de ciências ocultas.
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RESUMO E CHAVE GERAL DAS QUATRO CIÊNCIAS OCULTAS
SIGNA – THOT - PAN
Resumamos, agora, toda a ciência dos princípios.
A analogia é a última palavra da ciência e a primeira palavra da fé.
A harmonia está no equilíbrio, e o equilíbrio subsiste pela analogia dos contrários.
A unidade absoluta é a razão suprema e última das coisas. Ora, esta razão não pode ser uma pessoa nem três pessoas: é uma razão, e é a razão por excelência.
Para criar o equilíbrio é preciso separar e unir: separar pelos pólos, unir pelo centro.
Raciocinar sobre a fé é destruir a fé; fazer misticismo em filosofia é atentar contra a razão.
A razão e a fé se excluem mutuamente pela sua natureza e se unem pela analogia.
A analogia é o único mediador possível entre o visível e o invisível, entre o finito e o infinito. O dogma é a hipótese sempre ascendente de uma equação presumível.
Para o ignorante, é a hipótese que é a afirmação absoluta, e a afirmação absoluta que é a hipótese. Há, na ciência, hipóteses necessárias, e aquele que procura realizá-las, engrandece a ciência, sem restringir a fé, porque do outro lado da fé há o infinito.
Nós cremos naquilo que ignoramos, e que a razão quer que admitamos. Definir o objeto da fé e circunscrevê-lo é, pois, formular o desconhecido. As profissões de fé são as fórmulas da ignorância e das aspirações do homem. Os teoremas da ciência são os monumentos das suas conquistas.
O homem que nega a Deus é tão fanático como aquele que O define com uma pretensa infalibilidade. Ordinariamente, definimos Deus, dizendo tudo o que Ele não é.
O homem faz Deus por uma analogia do menos ao mais: resulta disso que a concepção de Deus no homem é sempre a de um homem infinito, o que faz do homem um deus finito.
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O homem pode realizar o que acredita na medida do que sabe e em razão do que ignora, e faz tudo o que quer na medida do que crê e em razão do que sabe.
A analogia dos contrários é a relação da luz à sombra, da saliência à cavidade, do cheio ao vácuo. A alegoria, mãe de todos os dogmas, é a substituição das estampas dos clichês, das sombras às realidades. É a mentira da verdade e a verdade da mentira.
Ninguém inventa um dogma, cobre-se com um véu uma verdade, e produz-se uma sombra em favor dos olhos fracos. O iniciador não é um impostor, é um revelador; isto é, conforme a expressão da palavra latina revelare, um homem que vela de novo. É o criador de uma nova sombra.
A analogia é a chave de todos os segredos da natureza e a única razão de ser de todas as revelações.
Eis aí por que as religiões parecem estar escritas no céu e em toda a natureza; isto deve ser, porque a obra de Deus é o livro de Deus, e no que ele escreve devemos ver a expressão do seu pensamento e, por conseguinte, do seu ser, pois que nós o concebemos como o pensamento supremo. Dupuis e Volney só viram um plágio nesta esplêndida analogia que devia tê-los levado a reconhecer a catolicidade, isto é, a universalidade do dogma primitivo, único, mágico, cabalístico e imutável da revelação pela analogia.
A analogia dá ao mago todas as forças da natureza; a analogia é a quintessência da pedra filosofal, é o segredo do movimento perpétuo, é a quadratura do círculo, é o templo que repousa sobre as duas colunas Jakin e Bohas, é a chave do grande Arcano, é a raiz da árvore da vida, é a ciência do bem e do mal.
Achar a escala exata das analogias nas coisas apreciáveis pela ciência é fixar as bases da fé e assim apoderar-se da baqueta dos milagres. Ora, existe um princípio e uma fórmula rigorosa, que é o grande Arcano. Não o procure o sábio, ele já o achou; mas o vulgo que o procure sempre, nunca o achará.
A transmutação metálica se opera espiritual e materialmente pela chave positiva das analogias.
A medicina oculta é simplesmente o exercício da vontade aplicada as próprias fontes da vida, a esta luz astral, cuja existência é um fato, e cujo movimento é conforme os cálculos, cuja escala ascendente é o grande Arcano mágico.
Este Arcano universal, último e eterno segredo da alta iniciação, é representado no Tarô por uma jovem nua que só toca na terra com um pé, tem uma baqueta imantada em cada mão e parece correr numa coroa suportada por um anjo, uma águia, um boi e um leão. Esta figura é análoga, quanto ao fundo das coisas, ao querubim de Jekeskiel, que vulgarmente chamamos Ezequiel.
A inteligência desta figura é a chave de todas as ciências ocultas. Os leitores do meu livro já devem compreendê-la filosoficamente, se estiverem um pouco familiarizados com o simbolismo da Cabala. Resta-nos, agora, realizar o que é a Segunda e mais importante operação da grande obra. Achar a pedra filosofal, é alguma coisa, sem dúvida; mas como devemos triturá-la para fazer dela o pó de projeção? Qual é o emprego da baqueta mágica? Qual é o poder real dos nomes divinos da Cabala? Os iniciados o sabem, os iniciáveis o saberão se, pelas indicações tão múltiplas e tão exatas que acabamos de lhes dar, descobrirem o grande Arcano.
Por que essas verdades tão simples e tão puras sempre e necessariamente são ocultas aos homens? É que os eleitos da inteligência são em pequeno número na terra, e parecem, no meio de tolos e malvados, Daniel na cova dos leões.
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Aliás, a analogia nos ensina as leis da hierarquia, e a ciência absoluta, sendo uma onipotência, deve ser a partilha exclusiva dos mais dignos. A confusão da hierarquia é a verdadeira decadência das sociedades, porque então os cegos guiam os cegos, conforme a palavra do Mestre. Que a iniciação seja restituída aos padres e reis, e a ordem se fará novamente. Por isso, fazendo apelo aos mais dignos, expondo-me a todos os perigos e a todas as maldições que rodeiam os reveladores, creio fazer uma coisa útil e grande: dirijo sobre o caos social o sopro de Deus vivo na humanidade, e evoco padres e reis para o mundo futuro!
Uma coisa não é justa porque Deus a quer, disse o anjo da escola; mas Deus a quer porque ela é justa. É como se tivesse dito: - O absoluto é a razão. A razão existe por si mesma; ela existe porque existe, e não porque a supomos; ela existe ou nada existe; e como quereis vós que exista alguma coisa sem razão? A razão é a necessidade, é a lei, é a regra de toda liberdade e a direção de toda iniciativa. Se Deus existe, é pela razão. A concepção de um Deus absoluto, fora ou independente da razão, é o ídolo da magia negra, é o fantasma do demônio.
O demônio é a morte que se disfarça com as vestes gastas da vida; é o espectro de Hirrenkesept entronizado sobre os escombros das civilizações arruinadas, e escondendo a sua nudez horrível com os despojos abandonados das encarnações de Vishnu.
Fim do Dogma
Adda-Nari , grande Pantáculo Indiano
SEGUNDO VOLUME
RITUAL da Alta Magia
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Bode do Sabbat – Baphomet de Mendes
INTRODUÇÃO
Conheceis a velha soberana do mundo, que sempre caminha e nunca se cansa?
Todas as paixões desregradas, todas as voluptuosidades egoístas, todas as forças desenfreadas da humanidade e todas as fraquezas tirânicas precedem a proprietária avarenta do nosso vale de lágrimas, e, com a foicinha na mão, estas operárias infatigáveis fazem uma eterna colheita.
A rainha é velha como o tempo, mas esconde o seu esqueleto sob os restos da beleza das mulheres que ela rouba à sua juventude e aos seus amores.
A sua cabeça é coberta de cabelos frios que não lhe pertencem. Desde a cabeleira de Berenice, toda brilhante de estrelas, até os cabelos encanecidos precocemente, que o algoz cortou da cabeça de Maria Antonieta, a espoliadora das frontes coroadas enfeitou-se com os despojos das rainhas.
O seu corpo pálido e gélido está coberto de enfeites desbotados e mortalhas de trapos.
Suas mãos ósseas e cheias de anéis seguram diademas e ferros, cetros e ossos, pedrarias e cinzas.
Quando ela passa, as portas se abrem por si mesmas; entra através das pareces, penetra até nas alcovas dos reis, vem surpreender os despojadores do pobre nas suas mais secretas orgias, assenta-se à sua mesa e lhes dá de beber, sorri aos seus cantos com seus dentes sem gengivas, e toma o lugar da cortesã impura que se esconde sob as suas saias.
Gosta de andar junto dos voluptuosos que se adormecem; procura as carícias como se esperassem aquecer-se nos seus abraços, porém geral tudo o que toca e não se aquece nunca. Todavia, às vezes, diríamos que está com vertigem; ela não passeia mais com lentidão, corre; e se os seus pés não são muito rápidos chicoteia as ancas de um cavalo pálido e o lança todo estafado através das multidões. Com ela galopa o assassinato num cavalo russo; o incêndio, estendendo sua cabeleira de fumaça, voa diante dela, movendo suas asas vermelhas e negras, e a fome e a peste a seguem passo a passo, em cavalos doentios e descarnados, catando as raras espigas que ela esquece para completar sua ceifa.
Depois deste cortejo fúnebre, vêm duas crianças radiantes de sorriso e de vida, a inteligência e o amor do século futuro, o duplo gênio da humanidade que vai nascer.
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Diante deles, as sombras da morte recuam como a noite diante das estrelas da aurora; lavram a terra com ligeireza e semeiam nela, a mancheias, a esperança de um outro ano.
Porém, a morte não virá mais, implacável e terrível, roçar, como mato seco, as espigas maduras do século vindouro; ela cederá o lugar ao anjo do progresso que desprenderá suavemente as almas da sua cadeia mortal, para deixá-las subir para Deus.
Quando os homens souberem viver, não morrerão mais; transformar-se-ão como a crisálida que se torna uma borboleta brilhante.
Os terrores de morte são filhos da nossa ignorância, e a própria morte não é tão horrenda senão pelos restos de que se cobre e as cores sombrias com que se rodeiam suas imagens. A morte é verdadeiramente o trabalho da vida.
Existe na natureza uma força que não morre, e esta força transforma continuamente os seres para os conservar. Ela é a razão ou o verbo da natureza.
Existe também no homem uma força análoga à da natureza, e esta força é a razão ou o verbo do homem. O verbo do homem é a expressão da sua vontade dirigida pela razão.
Este verbo é onipotente quando é razoável, porque então é análogo ao próprio verbo de Deus.
Pelo verbo da sua razão, o homem faz-se conquistador da vida e pode triunfar da morte.
A vida inteira do homem é somente parturição ou abortamento do seu verbo. Os entes humanos que morrem sem ter entendido e sem ter formulado a palavra de razão, morrem sem esperança eterna.
Para lutar com vantagem contra o fantasma da morte é preciso ter-se o homem identificado com as realidades da vida.
Que importa a Deus um aborto que morre, desde que a vida é eterna? Que importa à natureza um desvario que perece, desde que a razão sempre viva conserva as chaves da vida?
A força terrível e justa que mata eternamente os abortos foi chamada, pelos hebreus, Samael; pelos orientais, Satã; e pelos latinos, Lúcifer.
O Lúcifer da cabala não é um anjo maldito e fulminado, é o anjo que ilumina e que regenera queimando; é para os anjos de paz o que o cometa é para as tranqüilas estrelas das constelações da primavera.
A estrela fixa é bela, radiante e calma; ela respira os celestes aromas e olha com amor as suas irmãs; vestida com sua roupagem esplêndida e a fronte ornada de diamantes, ela sorri, cantando o seu cântico da manhã e da tarde; goza um repouso eterno que nada poderia perturbar, e caminha solenemente, sem sair do lugar que lhe é determinado entre as sentinelas da luz.
Contudo, o cometa errante, todo ensangüentado e desgrenhado, acorre das profundezas do céu; precipita-se através das esferas tranqüilas, como um carro de guerra entre as fileiras de uma procissão de vestais; ousa afrontar a espada flamejante dos guardas do sol, e, como uma esposa apaixonada que procura o esposo sonhado pelas suas noites de viuvez, penetra até o tabernáculo do rei dos dias, depois foge, exalando os fogos que o devoram e arrastando após si um longo incêndio; as estrelas empalidecem ao seu aproximar, os rebanhos constelados que pastam flores de luz nas vastas campinas do céu parecem fugir do seu sopro terrível. O grande conselho dos astros se reúne,
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e a consternação é universal: a mais bela das estrelas fixas é, enfim, encarregada de falar em nome de todo o céu e propor a paz ao mensageiro vagabundo.
Meu irmão – diz ela – por que perturbas a harmonia das nossas esferas? Que mal te fizemos nós e por que, em vez de errar ao acaso, não te fixas no teu lugar na corte do sol? Por que não vens cantar conosco o hino da tarde, enfeitado, como nós, com uma roupa branca que se prende no peito por um broche de diamante? Por que deixas flutuar, através dos vapores da noite, a tua cabeleira, da qual escorre um suor de fogo? Oh! Se tomasses um lugar entre os filhos do céu, quanto parecerias mais belo! A tua fronte não ficaria mais inflamada pela fadiga da tua carreira inaudita; teus olhos seriam puros e tua fronte sorridente seria branca e avermelhada como a de tuas felizes irmãs; todos os astros te conheceriam, e, longe de temer a tua passagem, se alegrariam ao teu aproximar; porque estarias ligado a nós pelos laços indestrutíveis da harmonia universal, e a tua existência seria mais uma voz no cântico do amor infinito.
E o cometa responde à estrela fixa:
Não creias, ó minha irmã, que possa errar ao acaso e perturbar a harmonia das esferas; Deus traçou meu caminho como o teu, e se a minha carreira te parece incerta e vagabunda, é porque os teus raios não poderiam estender-se tão longe para abarcar o contorno da elipse que me foi dada por carreira. A minha cabeleira inflamada é o fanal de Deus; sou o mensageiro dos sóis e fortaleço-me nos seus fogos para os partilhar no meu caminho aos novos mundos que ainda não têm bastante calor, e aos astros envelhecidos que têm frio na sua solidão. Se me afadigo nas minhas longas viagens, se sou de uma beleza menos atrativa do que a tua, se o meu enfeite é menos virginal, não deixo, por isso, de ser, como tu, um nobre filho do céu. Deixa-me o segredo do meu destino terrível, deixa-me o espanto que me rodeia, amaldiçoa-me, se não podes compreender-me: não deixarei, por isso, de realizar a obra que me foi imposta e continuarei a minha carreira sob o impulso do sopro de Deus! Felizes das estrelas que repousam e que brilham, como jovens rainhas, na sociedade tranqüila dos universos! Eu sou o proscrito que viaja sempre e tem o infinito por pátria. Acusam-me de incendiar os planetas que aqueço e de atemorizar os astros que ilumino; censuram-me de perturbar a harmonia dos universos porque não giro ao redor dos seus centros particulares e os prendo uns aos outros, fixando meus olhares no centro único de todos os sóis. Fica, pois, sossegada, bela estrela fixa, não quero tirar a tua luz tranqüila; pelo contrário, esgotarei por ti a minha vida e o meu calor. Poderei desaparecer do céu quando me tiver consumido; a minha sorte terá sido tão bela! Saiba que no templo de Deus ardem fogos diferentes que lhe dão glória; tu és a luz dos candelabros de ouro, e eu a chama do sacrifício: realizemos os nossos destinos.
Acabando estas palavras, o cometa sacode a sua cabeleira, cobre-se com a sua couraça ardente e se lança nos espaços infinitos em que parece desaparecer para sempre.
É assim que aparece e desaparece Satã, nas narrações alegóricas da Bíblia.
Um dia, diz o livro de Jó, os filhos de Deus tinham vindo para se apresentarem ao Senhor e, entre eles, também estava Satã, a quem o Senhor perguntou: Donde vens?
E ele respondeu: Fiz a volta da terra e a percorri.
Eis como um evangelho gnóstico, encontrado no Oriente por um sábio viajante, nosso amigo, explica, em proveito do simbólico Lúcifer a gênese da luz:
“A verdade que se conhece é o pensamento vivo. A verdade é o pensamento que está em si mesmo; e o pensamento formulado é a palavra. Quando o pensamento eterno procurou uma forma, disse: “Faça-se a luz!”
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Ora, este pensamento que fala é o Verbo; e o Verbo diz: “Faça-se a luz, porque o próprio Verbo é a luz dos espíritos”.
A luz incriada, que é o Verbo divino, irradia porque quer ser vista; e quando diz: “Faça-se a luz!”, ordena aos olhos que se abram; criam inteligências.
E quando Deus disse: “Faça-se a Luz!”, a inteligência foi feita e a luz apareceu.
Ora, a inteligência, que Deus tinha vertido do sopro da sua boca, como uma estrela desprendida do sol, tomou a forma de um anjo esplêndido e o céu o saudou com o nome de Lúcifer.
A inteligência despertou-se e compreendeu totalmente a si mesma ao ouvir esta palavra do Verbo divino: “Faça-se a luz!”
Ela sentiu-se livre, porque Deus lhe tinha ordenado de o ser; e respondeu, levantando a cabeça e estendendo as suas asas:
- Não serei a escravidão!
- Serás, pois, a dor? – perguntou-lhe a voz incriada.
- Serei a Liberdade! – respondeu a voz.
- O orgulho te seduzirá – retrucou a voz suprema – e produzirás a morte.
- Tenho necessidade de lutar contra a morte para conquistar a vida – disse ainda a luz criada.
Deus, então, desprendeu do seu seio o fio de esplendor que retinha o anjo soberbo e, vendo-o lançar-se na noite que assinalava de glória, amou o filho do seu pensamento e, sorrindo com inefável sorriso, disse a si mesmo: “Como a luz era bela!”
Deus não criou a dor; é a Inteligência que a aceitou para ser livre. E a dor foi a condição imposta ao ser livre, por aquele que é o único que se não pode enganar, porque é infinito.
Porque a essência da inteligência é o juízo; e a essência do juízo é a liberdade.
O olho percebe realmente a luz exclua pela faculdade fechar-se e abrir-se. Se fosse forçado a estar sempre aberto, seria escravo e vítima da luz; e, para fugir desse suplício, cessaria de ver.
Assim, a Inteligência criada não só é feliz de afirmar a Deus pela liberdade que tem de negar a Deus. Ora, a Inteligência que nega, afirma sempre alguma coisa, pois afirma a sua liberdade.
É por isto que o blasfemo glorifica a Deus; é por isso que o inferno era necessário à felicidade do céu.
Se a luz não fosse repelida pela sombra, não haveria formas visíveis.
Se o primeiro dos anjos não tivesse afrontado as profundezas da noite, a parturição de Deus não teria sido completa e a luz criada não teria podido separar-se da luz por essência.
Jamais a Inteligência teria sabido quanto Deus é bom, se nunca o tivesse perdido!
Jamais o amor infinito de Deus teria brilhado nas alegrias da sua misericórdia, se o filho pródigo do céu tivesse ficado na casa de seu pai.
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Quando tudo era luz, a luz não estava em parte alguma; ela estava contida no seio de Deus que estava em trabalho para a produzir. E quando disse: “Faça-se a luz!”, permitiu que a noite repelisse a luz e o universo saiu do caos.
A negação do anjo que, ao nascer, recusou ser escravo, constituiu o equilíbrio do mundo e o movimento das esferas começou.
E os espaços infinitos admiraram este amor da liberdade, tão imenso para encher o vácuo da noite eterna e tão forte para suportar o ódio de Deus.
Mas Deus não podia odiar o mais nobre de seus filhos, e só o experimentava, pela sua cólera, para confirmá-lo no seu poder.
Por isso, o próprio Verbo de Deus, como se tivesse inveja de Lúcifer, quis descer do céu e atravessar triunfalmente as sombras do inferno.
Quis ser proscrito e condenado; e meditou adiantadamente a hora terrível em que exclamaria, no extremo do seu suplício: “Meu Deus! Meu Deus! por que me abandonaste?”
Como a estrela da manhã precede o sol, a insurreição de Lúcifer anunciou à natureza nascente a próxima encarnação de Deus.
Talvez Lúcifer, caindo na noite, arrastou uma chuva de sóis e estrelas por atração da sua glória!
É por isso que, sem dúvida, fica calmo ao alumiar as horríveis angústias da humanidade e a lenta agonia da terra, porque é livre na sua solidão e possui sua luz.
Tais eram as tendências dos heresiarcas dos primeiros séculos. Uns, como os outros, adoravam o demônio sob a figura da serpente; outros, como os Cainitas, justificaram a revolta do primeiro anjo como a do primeiro assassino. Todos estes erros, todas estas sombras, todos estes ídolos monstruosos da anarquia que a Índia opõe, nos seus símbolos, à mágica Trimurti, tinham encontrado, no cristianismo, padres e adoradores.
Em nenhuma parte do Gênese se fala do demônio. É uma serpente alegórica que engana nossos primeiros pais. Eis o que a maioria dos tradutores fazem o texto sagrado dizer:
“Ora, a serpente era mais sutil que qualquer animal do campo que o Senhor Deus tinha feito”.
E eis o que diz Moisés:
תיה לבּמ מוּרע תיה שחגהו
מּי ההלא הוהי עשה רשא הרשה
V’há-Nahasch haîath harum micol háîath hachadeh
âcher hachah Ilhôah Ælohîm.
Isto é, conforme Fabre d'Olivet:
“Ora, a atração original (a cupidez) era a paixão arrastadora de toda vida elementar (a moda interior) na natureza, obra de Ilhôah, e Ente dos Entes”.
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Mas, aqui, Fabre d'Olivet está fora da verdadeira interpretação, porque ignorava as grandes chaves da Cabala. A palavra Nahasch, explicada pelas letras simbólicas do Tarô, significa rigorosamente:
14 n Nun – A força que produz as misturas.
5 h Hê – O recipiente e o produtor passivo das formas.
21 c Schin – O fogo natural e central equilibrado pela dupla polarização.
A palavra empregada por Moisés, lida cabalisticamente, nos dá, pois, a descrição e definição deste agente mágico universal, figurado em todas as teogonias pela serpente e ao qual os hebreus davam também o nome de Od, quando manifesta a sua força ativa; o nome de Od, quando deixa aparecer a sua força passiva, e de Aur, quando se revela inteiramente no seu poder equilibrado, produtor da luz no céu e do ouro entre os metais.
É, pois, esta antiga serpente que envolve o mundo e apazigua a sua cabeça devoradora sob o pé de uma Virgem, figura da iniciação; desta Virgem, que apresenta uma criança recém-nascida à adoração dos reis magos e recebe deles, em troca deste favor, ouro, mirra e incenso.
O dogma serve, assim, em todas as religiões hieráticas, para encobrir o segredo das forças na natureza de que pode dispor o iniciado; as fórmulas religiosas são os resumos destas palavras cheias de mistério e forças que fazem os deuses descerem do céu e os submetem à vontade dos homens. A Judéia tirou os segredos disso do Egito, a Grécia enviou os seus hierofantes, e mais tarde, os seus teósofos à escola dos grandes profetas; a Roma dos Césares, minada pela iniciação cristã das catacumbas, desmoronou-se um dia na Igreja e refizeram um simbolismo com os restos de todos os cultos que a rainha do mundo tinha submetido.
Conforme a narração do Evangelho, a inscrição pela qual estava declarada a realeza espiritual do Cristo era escrita em hebraico, grego e latim; era a expressão da síntese universal.
O helenismo, com efeito, esta grande e bela religião da forma, não tinha menos do que os profetas do judaísmo anunciado a vinda do Salvador; a fábula de Psiquê é uma abstração mais do que cristã, e o culto dos panteus, reabilitando Sócrates, preparava os altares para esta unidade de Deus, de que Israel foi o misterioso conservador.
Mas a Sinagoga renegou o seu Messias e as letras hebraicas foram apagadas aos olhos cegos dos judeus.
Os perseguidores romanos desonraram o helenismo, que a falsa moderação de Juliano, o filósofo, não pode reabilitar, o qual foi chamado, talvez injustamente, Apóstata, porque o seu cristianismo nunca foi sincero. A ignorância da Idade Média veio, depois, opor os santos e as virgens aos deuses, deusas e ninfas; o sentido profundo dos símbolos helênicos ficou mais incompreendido do que nunca; a própria Grécia, não somente perdeu as tradições do seu antigo culto, mas também se separou da Igreja latina; e assim, aos olhos dos latinos, as letras gregas foram apagadas, como as letras latinas desapareceram aos olhos dos gregos.
Assim, a inscrição da Cruz do Salvador desapareceu totalmente e só ficaram iniciais misteriosas.
Mas quando a ciência e a filosofia, reconciliadas com a fé, reunirem, num só, todos os diferentes símbolos, então todas as magnificências dos cultos antigos florescerão de novo na memória dos homens, proclamando o progresso do espírito humano na intuição da luz de Deus.
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Porém, de todos os progressos, o maior será o que, pondo as chaves da natureza entre as mãos da ciência, prenderá para sempre o horrendo fantasma de Satã e, explicando todos os fenômenos excepcionais da natureza, destruirá o império da superstição e da tola credulidade.
É para a realização deste progresso que consagramos nossa vida e que passamos o nosso tempo nas investigações mais laboriosas e mais difíceis. Queremos libertar os altares, derrubando os ídolos; queremos que o homem de inteligência se torne o padre e rei da natureza, e queremos conservar, explicando-as, todas as imagens do santuário universal.
Os profetas falaram por parábolas e imagens, porque a linguagem abstrata lhes faltou e porque a percepção profética, sendo o sentimento da harmonia ou das analogias universais, se traduz naturalmente por imagens, as quais, tomadas materialmente pelo vulgo, se tornaram ídolos ou mistérios impenetráveis.
O conjunto e a sucessão destas imagens e destes mistérios são o que chamamos simbolismo, que vem, pois, de Deus, embora seja formulado pelos homens.
A revelação acompanhou a humanidade em todas as suas idades e se transfigurou com o gênio humano; mas sempre exprimiu a mesma verdade.
A verdadeira religião é uma e seus dogmas são simples e ao alcance de todos. Todavia, a multiplicidade dos símbolos apenas foi um livro de poesia necessário para a educação do gênio humano.
A harmonia das belezas exteriores e a poesia da forma deviam revelar Deus à infância humana; mas Vênus teve logo Psique como rival, e Psique seduziu o amor.
É assim que o culto da forma devia ceder a estes sonhos ambiciosos da alma que já embelezava a eloqüente sabedoria de Platão. A vinda de Cristo era assim preparada, e é por isso que era esperada; veio porque o mundo o esperava, e a filosofia se transformou em crença para se popularizar.
Mas, libertado por esta mesma crença, o espírito humano protestou logo contra a escola que queria materializar os seus sinais, e a obra do catolicismo romano foi unicamente preparar, sem o saber, a emancipação das consciências e lançar as bases da associação universal.
Todas estas coisas foram somente o desenvolvimento regular e normal da vida divina na humanidade; porque Deus é a grande alma de todas as almas, é o centro imutável ao redor do qual gravitam todas as inteligências, como uma imensidade de estrelas.
A inteligência humana teve a sua manhã; o seu meio-dia virá; depois, em seguida, o seu declínio, e Deus será sempre o mesmo.


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