Dogma e Ritual da Alta Magia - parte 4


A Kabalah
MALKUTHH – PRINCIPIUM - PHALLUS
Todas as religiões conservaram a lembrança de um livro primitivo escrito em figuras pelos sábios dos primeiros séculos do mundo, e cujos símbolos, simplificados e vulgarizados mais tarde, forneceram à Escritura suas letras, ao Verbo seus caracteres, à Filosofia oculta seus signos misteriosos e seus pantáculos.
Este livro, atribuído a Enoque, o sétimo senhor do mundo depois de Adão, pelos hebreus; a Hermes Trismegisto pelos egípcios; a Cadmo, o misterioso fundador da Cidade Santa, pelos gregos, - este livro era o resumo simbólico da tradição primitiva, chamada, depois de Cabala, uma palavra hebraica que é equivalente a tradição.
Esta tradição repousa inteiramente sobre o dogma único da magia: o visível é para nós a medida proporcional do invisível. Ora, os antigos, tendo observado que o equilíbrio é, em física, a lei universal, e que resulta da oposição aparente de duas forças, concluíram que em Deus, isto é, na primeira causa vivente e ativa, se deviam reconhecer duas propriedades necessárias uma à outra: a estabilidade e o movimento, a necessidade e a liberdade, a ordem racional e a autonomia volitiva, a justiça e o amor, e, por conseguinte, também a severidade e a misericórdia; e são estes dois atributos que os cabalistas judeus personificam de algum modo sob os nomes de Geburah e Chesed.
Acima de Geburah e Chesed reside a coroa suprema, o poder equilibrante, princípio do mundo ou do reino equilibrado, que vemos designado sob o nome de Malkuth no versículo oculto e cabalístico do Pater de que já falamos.
Mas Geburah e Chesed, mantidos em equilíbrio, em cima pela coroa e embaixo pelo reino, são dois princípios que podem ser considerados, quer na sua abstração, quer na sua realização. Abstratos ou idealizados, tomam os nomes superiores de Hocmah, a sabedoria, e de Binah, a inteligência.
Realizados, chamam-se à estabilidade e o progresso, isto é, a eternidade e a vitória: Hod e Netsah.
Tal é, conforme a Cabala, o fundamento de todas as religiões e de todas as ciências, a idéia prima e imutável das coisas: um tríplice triângulo e um círculo, a idéia do ternário explicada pela balança multiplicada por si mesma nos domínios do ideal, depois a realização desta idéia nas formas. Ora, os antigos uniram as noções primárias desta simples e grandiosa teologia à própria idéia dos números, e qualificaram, assim, todos os algarismos da década primitiva.
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1. Kether - A Coroa, o poder equilibrante.
2. Hocmah – A Sabedoria, equilibrada na sua ordem imutável pela iniciativa da Inteligência.
3. Binah – A Inteligência ativa, equilibrada pela Sabedoria.
4. Chesed – A Misericórdia, segunda concepção da Sabedoria, sempre benévola, porque é forte.
5. Geburah – O Rigor necessitado pela própria Sabedoria e pela Bondade. Sofrer o mal e é impedir o bem.
6. Tiphereth – A Beleza, concepção luminosa do equilíbrio nas formas, o intermediário entre a coroa e o reino, o princípio mediador entre o criador e a criação. (Que sublime idéia não achamos aqui da poesia e do seu soberano sacerdócio!)
7. Netsah – A Vitória, isto é, o triunfo eterno da inteligência e da justiça.
8. Hod - A Eternidade das vitórias do espírito sobre a matéria, do ativo sobre o passivo, da vida sobre a morte.
9. Yesod - O Fundamento, isto é, a base de toda crença e de toda verdade, é o que chamamos em filosofia o Absoluto.
10. Malkuth - O Reino, é o universo, é a criação inteira, a obra e o espelho de Deus, a prova da razão suprema, a conseqüência formal que nos força a remontar às premissas virtuais, o enigma cuja palavra é Deus, isto é: razão suprema e absoluta.
Estas dez noções primárias, unidas aos dez primeiros caracteres do alfabeto primitivo, significando, ao mesmo tempo, princípios e números, são os que os mestres da Cabala chamam as dez Sephiroth.
O tetragrama sagrado, traçado deste modo:
Indica o número, a origem e as relações dos nomes divinos. É ao nome de Iodchavad, escrito com estes vinte e quatro sinais coroados de um tríplice florão de luz, que devem ser referidos os vinte e quatro anciãos coroados do Apocalipse. Na Cabala, o princípio oculto é chamado de ancião, e este princípio, multiplicado e como que refletido nas causas segundas, cria suas imagens, isto é, tantos anciãos quantas concepções diversas há da sua única essência. Estas imagens menos perfeitas, ao se afastarem da sua fonte, lançam nas trevas um último reflexo ou um último clarão que representa um velho horrível e desfigurado: é o que vulgarmente é chamado o diabo. Por isso, um iniciado ousou dizer: “O diabo é Deus compreendido pelos malvados”; e um outro, em termos mais estranhos, mas não menos enérgicos, acrescentou: “O diabo é formado dos fragmentos de Deus”. Podemos resumir e explicar estas asserções tão novas, fazendo notar que, até no simbolismo, o demônio é um anjo caído do céu por ter querido usurpar a divindade. Isso pertence à linguagem alegórica dos profetas e lendários. Filosoficamente falando, o diabo é uma idéia humana da divindade sobrepujada e despojada do céu pelo progresso da ciência e da razão. Moloch, Adramelek, Baal, foram, entre os orientais primitivos, as personificações do deus único, desonradas por atributos bárbaros. O deus dos jansenistas, criando para o inferno a maioria dos homens e comprazendo-se com as torturas eternas dos que não quis salvar, é uma concepção ainda mais bárbara do que a de Moloch; por isso, o deus dos jansenistas já é para os cristãos sábios e esclarecidos um verdadeiro Satã caído do céu.
Os cabalistas, multiplicando os nomes divinos, uniram todos, quer à unidade do tetragrama, quer à figura do ternário, quer à escada sefírica da década: traçam assim a escada dos nomes e dos números divinos.
y
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h y
c r y
h w h y
m y l h a
t w a k x
a t y r a r a
t u d h w l a
d b y g m y h l a
t w a b x m y h l a
triângulo que se pode traduzir assim, em letras romanas:
I
IA
SDI
JEHV
ELOIM
SABAOT
ARARITA
ELVEDAAT
ELIM GIBOR
ELIM SABAOT
O conjunto de todos estes nomes divinos, formado do único tetragrama, mas fora do próprio tetragrama, é uma das bases do Ritual hebreu, e compõe a força oculta que os rabinos cabalistas invocam sob o nome de Semhamphorash.
Temos de falar agora dos Taros, sob o ponto de vista cabalístico. Já indicamos a fonte oculta de seu nome. Este livro hieroglífico se compõe de um alfabeto cabalístico e de uma roda ou círculo de quatro décadas, especificadas por quatro figuras simbólicas e típicas, tendo cada uma, para raio, uma escada de quatro figuras progressivas representando a Humanidade: homem, mulher, moço e criança; senhor, senhora, combatente e criado. As vinte e duas figuras do alfabeto representam primeiramente os treze dogmas, depois as nove crenças autorizadas pela religião hebraica, religião forte e fundada sobre a mais alta razão.
Eis a chave religiosa e cabalística dos Taros, expressa em versos técnicos à maneira dos antigos legisladores:
1 a Tudo mostra uma causa inteligente, ativa.
2 b O número dá prova da unidade viva.
3 g Nada pode limitar aquele que tudo contém.
4 d Só, antes de qualquer princípio, está presente em toda parte.
5 h Como é único senhor, é o único adorável.
6 w Revela aos corações puros seu dogma verdadeiro.
7 z Mas é preciso um só chefe às obras da fé.
8 j É por isso que só temos um altar, uma lei.
9 f E nunca o Eterno mudará a sua base.
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10 y Dos céus e dos nossos dias regula cada fase.
11 k Rico em misericórdia e enérgico no punir.
12 l Promete a seu povo um rei no porvir.
13 m O túmulo é a passagem para a terra nova. Só a morte acaba, a vida é eterna.
Tais são os dogmas puros, imutáveis, sagrados. Completemos, agora, os números reverenciados:
14 n O bom anjo é aquele que acalma e tempera.
15 s O mau é o espírito de orgulho e cólera.
16 u Deus manda no raio e governa o fogo.
17 p Vésper e o seu orvalho obedecem a Deus.
18 x Coloca sobre nossas torres a Lua como sentinela.
19 q O seu sol é a fonte em que tudo se renova.
20 r O seu sopro faz germinar o pó dos túmulos.
0 ou 21 c Onde os mortais sem freio descem em multidão.
21 ou 22 t Sua coroa cobriu o propiciatório.
E sobre os querubins faz pairar sua glória.
Com o auxílio desta explicação, puramente dogmática, já se pode entender as figuras do alfabeto cabalístico do Tarô. Assim a figura nº 1, chamada o Pelotiqueiro, representa o princípio ativo na unidade de autotelia divina e humana; o nº 2, chamado vulgarmente a Papisa, figura a unidade dogmática dos números, é a Cabala ou a Gnose personificada; o nº 3 representa a Espiritualidade divina sob o emblema de uma mulher alada, que tem numa das mãos a águia apocalíptica, e, na outra, o mundo suspenso na ponta do seu cetro. As outras figuras são tão claras e tão facilmente explicáveis como estas primeiras.
Voltemos, agora, aos quatro signos, isto é, aos Paus, às Copas, às Espadas e aos Círculos ou Pantáculos,, vulgarmente chamados Ouros. Estas figuras são hieróglifos do tetragrama; assim, o Pau é o phallus dos egípcios ou iod dos hebreus; a Copa é o octeis ou o hê primitivo; a Espada é a conjunção de ambos ou o lingham figurado no hebreu anterior ao cativeiro pelo vô, e o Círculo ou Pantáculo, imagem do mundo, é o hê final do nome divino.
Agora, tomemos um Tarô e reunamos, quatro por quatro, todas as páginas que formam a Roda ou ROTA de Guilherme Postello; ponhamos juntos os quatro ases, os quatro dois, etc., e teremos dez montes de cartas que dão a explicação hieroglífica do triângulo dos nomes divinos, de acordo com a escada do denário que demos precedentemente. Poderemos, pois, lê-los assim, referindo cada número à Sephirot correspondente:
h w h y
Quatro letras do nome que contém todos os nomes.
1. - KETHER. Os quatro ases:
A coroa de Deus tem quatro florões.
2. – CHOCMAH Os quatro dois:
A sua sabedoria se espalha e forma quatro rios.
3. - BINAH Os quatro três:
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Da sua inteligência dá quatro provas.
4. - CHESED Os quatro quatro:
Da sua misericórdia há quarto benefícios.
5. - GEBURAH Os quatro cinco:
O seu rigor quatro vezes pune quatro erros.
6. - TIPHERET Os quatro seis:
Por quatro raios puros a sua beleza se revela.
7. – NETSAH Os quatro sete:
Celebremos quatro vezes a sua vitória eterna.
8. - HOD Os quatro oito:
Quatro vezes triunfa na sua eternidade.
9. - YESOD Os quatro nove:
Por quatro fundamentos seu trono é suportado.
10. - MALCHUT Seu único reino é quatro vezes o mesmo:
E conforme os florões do divino diadema.
Vê-se, por este arranjo tão simples, o sentido cabalístico de cada lâmina. Assim, por exemplo, o cinco de paus significa rigorosamente Geburah de Jod, isto é, justiça do Criador ou cólera do homem; o sete de copas significa vitória da misericórdia ou vitória da mulher; o oito de espada significa conflito ou equilíbrio eterno; e assim outras. Assim podemos compreender como faziam os antigos pontífices para fazer este oráculo; as lâminas lançadas à sorte davam sempre um sentido cabalístico novo, mais rigorosamente verdadeiro na sua combinação, unicamente a qual era fortuita; e, como a fé dos antigos nada dava ao acaso, eles liam as respostas da Providência nos oráculos do Tarô, que eram chamados Theraph ou Theraphims entre os hebreus, como o pressentiu primeiramente o sábio cabalista Gaffarel, um dos magos habituais do cardeal Richelieu.
Quanto às figuras, eis um último dístico para explicá-las:
REI, DAMA, CAVALEIRO, VALETE
Esposo, moço, criança, toda a humanidade,
Sobem por estes quatro degraus à unidade.
Daremos, no fim do Ritual, outros detalhes, e documentos completos sobre o maravilhoso livro do Tarô, e demonstraremos que é o livro primitivo, a chave de todas as profecias e de todos os dogmas; numa palavra, o livro inspirador dos livros inspirados, o que não pressentiram nem Court de Gebelin, na sua ciência, nem Alliette ou Eteilla, nas suas singulares intuições.
As dez Sephiroth e as vinte e duas lâminas do tarô formam o que os cabalistas chamam os trinta e dois caminhos da ciência absoluta. Quanto às ciências particulares, dividem-nas em cinqüenta capítulos, que chamam as cinqüenta portas. (Sabemos que porta significa governo ou autoridade entre os orientais). Os rabinos dividem a Cabala também em Bereschit ou Gênese universal, e Mercavah, ou carro de Ezequiel; depois, das duas maneiras de interpretar os alfabetos cabalísticos, formam duas ciências, chamadas Gematria e a Temurah, e compõem delas a arte notória, que fundamentalmente nada mais é que a ciência completa dos signos do Tarô e a sua aplicação
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complexa e variada à adivinhação de todos os segredos, quer da filosofia, quer da natureza, quer do futuro. Falaremos disso no vigésimo primeiro capítulo desta obra.
11 k L
A Cadeia Mágica
Manus – A Força
O grande agente mágico, que denominamos luz astral, que outros chamam a alma da terra, que os antigos químicos designavam sob os nomes de Azoth e Magnésia, esta força oculta, única e incontestável é a chave de todos os impérios, o segredo de todos os poderes; é o dragão volante de Média, a serpente do mistério Edênico; é o espelho universal das visões, o laço das simpatias, a fonte dos amores, da profecia e da glória. Saber apoderar-se deste agente é ser depositário do próprio poder de Deus; toda magia real, efetiva, todo o verdadeiro poder oculto. Está aí, e todos os livros da verdadeira ciência só têm o fim de o demonstrar.
Para apoderar-se do grande agente mágico, duas operações são necessárias: concentrar e projetar; em outros termos, fixar e mover. O autor de todas as coisas deu para base e garantia do movimento a fixidez; o mago deve agir da mesma forma.
O entusiasmo é contagioso, dizem. Por que? É que o entusiasmo não se produz sem crenças firmes. A fé produz a fé; crer é ter uma razão de querer; querer com razão é querer com ma força, não direi infinita, mas indefinida.
O que se opera no mundo intelectual e moral, com maior razão se realiza no mundo físico; e quando Arquimedes pedia um ponto de apoio para levantar o mundo, ele procurava simplesmente o grande arcano mágico.
Num dos braços do andrógino de Henri Khunrath lê-se esta palavra: Coagula, e no outro: Solve.
Reunir e espalhar são os dois verbos da natureza; mas como reunir, como espalhar a luz astral ou alma do mundo? Reúne-se pelo isolamento, e espalha-se por meio da cadeia mágica.
O isolamento consiste, para o pensamento, numa independência absoluta; para o coração, numa liberdade completa; para os sentidos, numa continência perfeita.
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Todo homem que tem preconceitos e temores, todo indivíduo apaixonado e escravo das suas paixões é incapaz de reunir ou coagular, conforme a expressão de Khunrath, a luz astral ou a alma da terra.
Todos os verdadeiros adeptos foram independentes até o suplício, sóbrios e castos até a morte; e a razão desta anomalia é que, para dispor de uma força, não deveis ser dominado por esta força de modo que disponha de vós.
Mas então, vão exclamar os homens que procuram na magia um meio de contentar os desejos da natureza, para que serve um poder que não se pode usar para se satisfazer? As pérolas nada são, pois, porque não tem preço alguma para o rebanho de Epicuro? Cúrcio não achava mais bonito mandar nos que têm ouro do que possuí-lo?
Não é preciso ser um pouco mais do que um homem ordinário, quando se tem a pretensão de ser quase Deus? Aliás, sinto afligir-vos e desanimar-vos, mas não invento aqui as altas ciências; eu as ensino e constato as suas rigorosas necessidades, estabelecendo as suas primeiras e mais inexoráveis condições.
Pitágoras era um homem livre, sóbrio e casto; Apolônio de Thyana e Júlio César foram homens de uma espantosa austeridade; Paracelso fazia duvidar do seu sexo, tanto era estranho às fraquezas amorosas; Raimundo Lullo levava os rigores da vida até o ascetismo mais exaltado; Jerome Cardan exagerou a prática do jejum a ponto de morrer de fome, se dermos crédito à tradição; Agrippa, pobre e correndo de cidade em cidade, quase morreu de miséria, para não se sujeitar aos caprichos de uma princesa que insultava a liberdade da ciência. Qual foi, pois, a felicidade destes homens? A inteligência dos grandes segredos e a consciência do poder. Era bastante para estas grandes almas. É preciso ser como eles para saber o que souberam? Não, certamente, e este livro que escrevo é, talvez, a prova disso; mas para fazer o que fizeram é absolutamente necessário empregar os meios que usaram.
Mas que fizeram realmente eles? Admiraram e subjugaram o mundo, reinaram verdadeiramente mais do que os reis. A magia é um instrumento de bondade divina ou de orgulho diabólico, mas é a morte das alegrias da terra e dos prazeres da vida mortal.
- Então, para que estudar? – perguntarão os vivedores.
- Simplesmente para conhecer, e depois, talvez, também para aprender a desconfiar da incredulidade estúpida ou da credulidade pueril. Homens de prazer (e como metade destes homens conto por muitas mulheres), não é um prazer muito grande o da curiosidade satisfeita? Lede, pois, sem temor; não ficareis magos apesar da vossa curiosidade.
Aliás, estas disposições de renúncia absoluta só são necessárias para estabelecer correntes universais e mudar a face do mundo; há operações mágicas relativas e limitadas a um certo círculo, que não exigem tão heróicas virtudes. Pode-se agir sobre as paixões pelas paixões, determinar as simpatias e antipatias, até afligir e curar, sem ter a onipotência do mago; somente é preciso estar prevenido do risco que se corre de uma reação proporcional à ação e de que facilmente se poderia ser vítima.Tudo isto será explicado no Ritual.
Fazer a cadeia mágica é estabelecer uma corrente magnética, que se torna mais forte conforme a extensão da cadeia. Veremos no Ritual, como estas correntes podem ser produzidas e quais são as diferentes maneiras de formar a cadeia. A tina de Mesmer era uma cadeia mágica muito imperfeita; vários grandes círculos de iluminados, em diferentes países do Norte, têm cadeias mais poderosas. Até a sociedade de certos padres católicos, célebres pelo seu poder oculto e sua impopularidade, é
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estabelecida pelo plano e conforme as condições das cadeias mais poderosas, e é o segredo da sua força, que atribuem unicamente à graça ou à vontade de Deus, solução vulgar e fácil de todos os problemas de força em influência ou adestramento. Teremos de apreciar, em nosso Ritual, a série de cerimônias e evocações verdadeiramente mágicas que compõem a grande obra da vocação, sob o nome de exercícios de Santo Inácio.
Todo entusiasmo propagado numa sociedade, por uma continuidade de comunicações e práticas firmes, produz uma corrente magnética e se conserva ou aumenta pela corrente. A ação da corrente é arrastar e, muitas vezes, exaltar fora das medidas as pessoas impressionáveis e fracas, nervosas, os temperamentos dispostos ao histerismo ou às alucinações. Estas pessoas logo se tornam poderosos veículos da força mágica, e projetam com força a luz astral na própria direção da corrente; opor-se, então, às manifestações de força, seria, de algum modo, combater a fatalidade. Quando o jovem fariseu Saul, ou Schôl veio lançar-se, como todo fanatismo e toda teimosia de um sectário, através do cristianismo invasor, punha-se, contra sua vontade, à mercê da força que acreditava combater; por isso foi fulminado por um formidável raio magnético, que foi, sem dúvida, mais instantâneo pelo efeito combinado de uma congestão cerebral e de uma queimadura solar. A conversão do jovem israelita Afonso de Ratisbona, é um fato contemporâneo absolutamente da mesma natureza. Conhecemos uma seita de entusiastas da qual se ri a distância e na qual entram contra vontade os que dela se aproximam, mesmo para combatê-la. Direi mais, os círculos mágicos e as correntes magnéticas se estabelecem por si mesmos e influem, conforme leis fatais, sobre os que são submetidos à sua ação. Cada um de nós é atraído para um círculo de relações que é seu mundo e cuja influência sofre. Jean Jacques Rousseau, este legislador da revolução francesa, este homem que a nação mais espiritual no mundo aceitou como a encarnação de razão humana, Jean Jacques Rousseau foi arrastado à mais triste ação da sua vida, o abandono de seus filhos, pela influência magnética de um círculo de libertinos, pela corrente mágica de uma mesa de hotel. Ele o conta simples e ingenuamente nas suas Confissões, e é um fato que ninguém notou. Muitas vezes, são os grandes círculos que fazem os grandes homens, e reciprocamente. Não há gênios incompreendidos; há homens excêntricos, e a palavra parece ter sido inventada por um adepto. O homem excêntrico em gênio é aquele que procurar formar para si um círculo, lutando contra a força de atração central das cadeias e correntes estabelecidas. O seu destino é de ser despedaçado ou ter sucesso. Qual é a dupla condição de sucesso em tal caso? Um ponto central de fixidez e uma ação circular perseverante de iniciativa. O homem de gênio é aquele que descobriu uma lei real, e que, por conseguinte, possui uma força invencível de ação e direção. Pode morrer na obra; mas o que o ele quis realizar se realiza, apesar da sua morte e, muitas vezes, mesmo por causa da sua morte: porque a morte é uma verdadeira assunção para o gênio. Quando me elevar da terra, dizia o maior dos iniciadores, arrastarei tudo após mim.
A lei das correntes magnéticas é a do próprio movimento da luz astral. Este movimento é sempre duplo e se multiplica em sentido contrário. Uma grande ação prepara sempre uma reação igual, e o segredo dos grandes sucessos está inteiramente na presciência das reações. É assim que Chateaubriand, inspirado pelo desgosto das saturnais revolucionárias, pressentiu e preparou o imenso sucesso do seu Gênio do Cristianismo. Opor-se a uma corrente que começa seu círculo é querer ser despedaçado como o foi o grande e infeliz Juliano; opor-se à corrente que percorreu todo o círculo da sua ação é tomar a chefia da corrente contrária. O grande homem é aquele que chega a tempo e que sabe inovar o propósito. Voltaire, no tempo dos apóstolos, não teria achado eco para a sua palavra, e, talvez, teria sido simplesmente um parasita engenhoso dos festins de Trimalcyon. Na época em que vivemos, tudo está pronto para uma nova explosão do entusiasmo evangélico e do desinteresse cristão, precisamente por causa do desengano universal, do positivismo egoísta e do cinismo público do interesses mais grosseiros. O sucesso de certos livros e as tendências místicas dos espíritos são sintomas inequívocos desta disposição geral. Restauram-se as igrejas e constróem-se novas; quanto mais acham falta de crenças, mais esperam-nas; o mundo inteiro espera ainda uma vez o Messias, e não tardará a vir. Por exemplo, que haja um homem de posição elevada, pela sua
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classe ou por sua fortuna, um papa, um rei ou até um judeu milionário judeu, e que este homem sacrifique pública e solenemente todos os todos seus interesses materiais à salvação da humanidade, que se faça redentor dos pobres, propagador e até vítima das doutrinas de devotamento e caridade, e fará, ao redor de si, uma concorrência imensa, e dar-se-á uma transformação completa no mundo. Porém, a alta posição do personagem é, antes de tudo, necessária, porque nos nossos tempos de miséria e charlatanismo, todo Verbo proveniente de baixo é suspeito de ambição e velhacaria interessada. Vós, pois, que nada sois e que nada tendes, não espereis ser apóstolos ou messias. Tendes a fé e quereis agir na razão da vossa fé; chegai primeiramente aos meios de ação, que são a influência da posição e o prestígio da fortuna. Outrora se fazia ouro com a ciência; hoje é preciso refazer a ciência com o ouro. Fixaram o volátil, é preciso volatilizar o fixo; em outros termos, materializaram o espírito; é preciso, agora, espiritualizar a matéria. A palavra mais sublime não é ouvida nos nossos dias, se não for produzida sob a garantia de um nome, isto é, de um sucesso que representa um valor material. Quanto vale um manuscrito? O que vale, na livraria, a assinatura do autor. A razão social Alexandre Dumas & Cia., por exemplo, representa uma das garantias literárias da nossa época., mas a Casa Dumas só vale pelos seus produtos habituais: os romances. Que Dumas ache uma utopia magnífica ou uma solução admirável do problema religioso, considerado a sua descoberta como caprichos divertidos do romancista, e ninguém o tomará a sério, apensar da celebridade européia do Panurgo da literatura moderna. Estamos no século das posições conquistadas: cada qual na razão do que é social e comercialmente falando. Al liberdade ilimitada da palavra produziu um tal conflito de discursos, que hoje não se pergunta mais: “Que dizem?” mas sim: “Quem disse isso?” Se foi Rothschild, ou a sua santidade Pio IX, ou mesmo Monsenhor Dupanloup, é alguma coisa. Se foi Tartempion, muito embora este seja (o que, afinal de contas, é possível) um prodígio ainda ignorado de gênio, ciência e bom senso, nada é.
Àqueles, pois, que me disserem: “Se tens o segredo dos grandes sucessos e da força que pode mudar o mundo, por que não te serves dele?” responderia: - Esta ciência me veio muito tarde para mim mesmo, e perdi, para adquiri-la, o tempo e os expedientes que, talvez, me teriam posto em condições de fazer uso dela; mas ofereço-a aos que estão em posição de servirem-se dela. Homens ilustres, ricos, grandes do mundo, que não estais satisfeitos do que tendes, e que sentis, no coração, uma ambição mais nobre e mais vasta, quereis ser os pais do mundo novo, os reis de uma civilização rejuvenescida? Um sábio, pobre e obscuro, achou a alavanca de Arquimedes, e vô-la oferece unicamente pelo bem da humanidade, e sem nada vos pedir em troca.
Os fenômenos que ultimamente agitaram a América e a Europa, a propósito das mesas falantes e das manifestações fluídicas, outra coisa não são senão correntes magnéticas que começam a formar-se, e solicitações da natureza que nos convida, para a salvação da humanidade, a reconstituir as grandes cadeias simpáticas e religiosas. Com efeito, a estagnação da luz astral seria a morte do gênero humano, e os entorpecimentos deste agente secreto já se manifestaram por espantosos fantasmas de decomposição e morte. O cólera-morbo, por exemplo, as doenças das batatas e uvas não têm outra causa, como viram, obscura e simbolicamente, em sonho, os dois pastorinhos de La Salette.
A fé inesperada que a sua narração provocou e a imensa concorrência de peregrinos, determinada por uma narração tão singular e tão vaga como a destas duas crianças sem instrução e quase sem moralidade, são provas da realidade magnética do fato e da tendência fluídica da própria terra em operar a cura dos seus habitantes.
As superstições são instintivas, e tudo o que é instintivo tem uma razão de ser na própria natureza das coisas; é nisso que os céticos de todos os não refletiram bastante.
Atribuímos, pois, todos os fatos estranhos do movimento das mesas ao agente magnético universal, que procura uma cadeia de entusiasmo para formar novas correntes. É uma força cega por si mesma, mas que pode ser dirigida pela vontade dos homens e que é influída pelas opiniões correntes. Este
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fluido universal, se quiserdes que seja um fluido, sendo o meio comum de todos os organismos nervosos e o veículo de todas as vibrações sensitivas, estabelece, entre as pessoas impressionáveis, uma verdadeira solidariedade física, e transmite, de umas às outras, as impressões da imaginação e do pensamento. O movimento da coisa inerte, determinado pelas ondulações do agente universal, obedece, pois, à impressão dominante, e reproduz, nas suas revelações, ora toda a bizarria e toda a mentira dos sonhos mais incoerentes e mais vagos.
Os golpes dados nos móveis, a agitação ruidosa da louça, os instrumentos de música tocando por si mesmos, são ilusões produzidas pelas mesmas causas. Os milagres dos convulsionários de Saint-Medard eram da mesma ordem e pareciam, às vezes, interromper as leis da natureza. Exageração, de um lado, produzida pela fascinação, que é a o embevecimento especial ocasionado pelas congestões de luz astral; e, de outro, oscilações ou movimentos reais imprimidos à matéria inerte pelo agente universal e sutil do movimento e da vida: eis tudo o que há no fundo destas coisas tão maravilhosas, como se poderão convencer facilmente, reproduzindo à vontade, por meios indicados no Ritual, os mais admiráveis destes prestígios, e constatando nisso a ausência, facilmente apreciável, superstição, alucinação ou erro.
Muitas vezes me aconteceu, depois de experiências de cadeias magnéticas feitas com pessoas sem boa intenção e sem simpatia, ser acordado em sobressalto, à noite, por impressões e contatos verdadeiramente horríveis. Uma noite, entre outras senti realmente a pressão de uma mão que me estrangulava; levantei-me, acendi a luz, e pus-me tranqüilamente a trabalhar para utilizar a minha insônia e afastar os fantasmas do sono. Então, os livros se deslocavam perto de mim, com ruído, os papéis se agitavam e batiam uns contra os outros, a lenha estalava como se fosse partir-se, e golpes surdos eram dados no forro do quarto. Eu observava com curiosidade, mas também com tranqüilidade, todos estes fenômenos, que não eram menos maravilhosos se só a minha imaginação fosse a sua causa, tanta realidade havia nas suas aparências. Aliás, acabo de dizer que de modo algum estava atemorizado, e que me ocupava de outra coisa muito diversa das ciências ocultas, no momento, em que se produziam.
Foi pela repetição de semelhantes fatos que fui levado a tentar experiências de evocação, com o auxílio do cerimonial mágico dos antigos, e que obtive os resultados extraordinários que revelarei no décimo terceiro capítulo desta obra.
12 l M
A Grande Obra
DISCITE - CRUX
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A grande obra é, antes de tudo, a criação do homem por si mesmo, isto é, a conquista plena e total que faz das suas faculdades e do seu futuro; é, principalmente, a emancipação perfeita da sua vontade, que lhe assegura o império universal do Azoth e do domínio da Magnésia, isto é, um pleno poder sobre o agente universal.
Este agente mágico, que os antigos filósofos herméticos encobriam sob o nome de matéria-prima, determina formas da substância modificável, e pode-se, realmente, chegar, por seu meio, à transmutação metálica e à medicina universal. Isto não é uma hipótese, é um fato científico já experimentado e rigorosamente demonstrável.
Nicola Flamel e Raimundo Lullo, ambos pobres, distribuíram, riquezas imensas.
Agrippa só chegou à primeira parte da grande obra, e morreu de sofrimento, lutando para possuir unicamente a si próprio e fixar sua independência.
Há, pois, duas operações herméticas: uma espiritual, outra temporal, e que dependem uma da outra.
Aliás, toda a ciência hermética está contida no dogma de Hermes, gravado primitivamente, dizem, numa tábua de esmeralda. Já explicamos os seus primeiros artigos; eis aqui os que se referem à operação da grande obra:
“Separarás a terra do fogo, o sutil do espesso suavemente, com grande indústria”.
“Ele sobe da terra ao céu, e logo desce a terra, e recebe a força das coisas superiores e inferiores”.
“Terás por este meio a glória de todo mundo, e, por isso, toda obscuridade desaparecerá de ti”.
“É a força fonte de toda força, porque ela vencerá todas as coisas sutis e penetrará em todas as coisas sólidas”.
“Assim o mundo criado”.
Separar o sutil do espesso, na primeira operação, que é totalmente interior, é libertar a alma de todo preconceito e de todo vício, o que se faz pelo uso do sal filosófico, isto é, da sabedoria; do mercúrio, isto é, da habilidade pessoal e do trabalho; depois, enfim, do enxofre, que representa a energia vital e espiritual até as coisas menos preciosas, e até as imundícies da terra. É neste sentido que é preciso entender a turba dos filósofos, Bernardo Trevisano, de Basílio Valentino, de Maria Egipcíaca e dos outros profetas da alquimia; mas, nas suas obras, como na grande obra, é preciso separar habilmente o sutil do espesso, o místico do positivo, a alegoria da teoria. Se os quiserdes ler com prazer e inteligência, deveis primeiramente ouvi-los alegoricamente no seu conjunto, depois descer das alegorias às realidades por meio das correspondências ou analogias indicadas no dogma único: “O que está em cima é como o que está embaixo, e reciprocamente”.
A palavra Art, voltada ou lida à maneira das escrituras sagradas e primitivas, isto é, da direita para a esquerda, exprime, por três iniciais, os diferentes graus da grande obra. T significa ternário, teoria e trabalho; R, realização; A, adaptação. Daremos, no duodécimo capítulo do Ritual, as receitas dos grandes mestres para a adaptação, e especialmente a que se acha na fortaleza hermética de Henri Khunrath.
Recomendamos aqui, às investigações dos nossos leitores, um admirável tratado atribuído a Hermes Trismegisto, e que tem o título de Minerva Mundi. Este tratado se acha somente em algumas edições de Hermes, e contém, sob alegorias cheias de poesias e profundidade, o dogma da criação dos seres por si mesmos, ou da lei de criação que resulta do acordo de duas forças, a que os alquimistas chamavam o fixo e o volátil, e que são, no absoluto, a necessidade e a liberdade. Aí, se explica a diversidade das formas espalhadas na natureza pela diversidade dos espíritos e as monstruosidades pelas divergências dos esforços. A leitura e a meditação desta obra são
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indispensáveis a todos os adeptos que querem aprofundar os mistérios da natureza e se entregar seriamente à investigação da grande obra.
Quando os mestres da alquimia dizem que é preciso pouco tempo e pouco dinheiro para realizar as obras da ciência, quando, principalmente, afirmam que é necessário um só vaso, quando falam do grande e único athanor que todos podem usar, que está nas mãos de todos e que os homens possuem sem saber, fazem alusão à alquimia filosófica e moral. Com efeito, uma vontade forte e decidida pode chegar, em pouco tempo, à independência absoluta, e todos nós possuímos o instrumento químico, o grande e único athanor que serve para separar o sutil do espesso e o fixo do volátil. Este instrumento, completo como o mundo, e preciso como as próprias matemáticas, é designado, pelos sábios, sob o emblema do pentagrama ou da estrela de cinco pontas, que é o signo absoluto da inteligência humana. Imitarei os sábios não o designando: é muito fácil adivinhá-lo.
A figura do Tarô, que corresponde a este capítulo, foi mal entendida por Court de Gebelin e Etteilla, que acreditavam ver nela um erro cometido por um fabricante de cartas alemão. Esta figura representa um homem com as mãos amarradas atrás das costas, dois sacos de dinheiro presos sob as axilas e suspensos por um pé a uma potência composta de dois troncos de árvore, tendo em cada uma a raiz de seus ramos cortados e uma travessa que completa a figura do Tav hebreu t; as pernas do paciente estão cruzadas e seus cotovelos formam um triângulo com a sua cabeça. Ora, o triângulo remontado por uma cruz significa, em alquimia, o fim e a perfeição da grande obra, significação hebraica idêntica à da letra t, que é a última letra do alfabeto sagrado.
Este supliciado é, pois, o adepto, ligado por seus empenhos, espiritualizado ou com os pés voltados para o céu; é também o antigo Prometeu, sofrendo, numa tortura imortal, a pena de seu glorioso roubo. É vulgarmente Judas traidor, e o seu suplício ameaça os reveladores do grande arcano.Enfim, para os cabalístas judeus, este supliciado, que corresponde ao seu duodécimo dogma, o do Messias prometido, e um protesto contra o Salvador reconhecido pelos cristãos, e parece dizer-lhe ainda: “Como salvarias os outros, tu que não pudeste salvar-te a ti mesmo?”
No Sepher Toldos-Jeschu, compilação rabínica anticristã, encontra-se uma singular parábola: Jeschu, diz o rabino autor da lenda, viajava com Simão Barjonas e Judas Iscariotes. Chegaram tarde, e cansados, a uma casa isolada; tinham muita fome e nada mais encontraram para comer senão um pato muito pequeno e muito magro. Era muito pouco para três pessoas: reparti-lo teria sido somente aguilhoar a fome, sem satisfazê-la. Convieram em tirá-lo à sorte; mas, como caíam de sono, disse Jeschu: “Vamos dormir primeiro, enquanto se prepara a comida; ao acordar, nos contaremos os sonhos e aquele que tiver o mais belo sonho, comerá sozinho o pato”. Assim foi feito. Dormiram e depois despertaram. “Eu, disse Simão, sonhei que era vigário de Deus”. “E eu, retomou hipocritamente Judas, sonhei que, sendo sonâmbulo, me levantava, descia de mansinho, tirava o pato do espeto e o comia”. Desceram imediatamente; mas o pato tinha efetivamente desaparecido; Judas tinha sonhado acordado.
Esta lenda é um protesto do positivismo judeu contra o misticismo cristão. Com efeito, enquanto os crentes se entregavam a belos sonhos, o israelita proscrito, o Judas da civilização cristã, trabalhava, vendia, agiotava, ficava rico, apoderava-se das realidades da vida presente, e punha-se em condições de dar meios de existência aos próprios cultos que por muito tempo o proscreveram.
Os antigos adoradores da arca, sempre fiéis ao culto da burra, têm, agora, a Bolsa por templo e é por isso que governam o mundo cristão. Judas pode, com efeito, rir e felicitar-se de não ter dormido como Simão.
Nas antigas escrituras anteriores ao cativeiro, o Tav hebreu tem a figura de uma cruz, o que confirma ainda a nossa interpretação d duodécima lâmina do Tarô cabalístico. A cruz, geradora de
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quatro triângulos, é também o sinal sagrado do Duodenário, e, por isso, os Egípcios a chamavam a chave do céu. Por isso, Etteilla, embaraçado nas suas longas investigações para conciliar as necessidades analógicas da figura com sua opinião pessoal (ele tinha sofrido, nisso, a influência do sábio Court de Gebelin), colocou na mão do seu supliciado, de cabeça para cima, do qual fez a Prudência, um caduceu hermético, formado por duas serpentes e um Tav grego. Desde que compreendera a necessidade do Tav ou da cruz, na duodécima pagina do livro de Thot, deveria ter entendido o múltiplo e magnífico símbolo do supliciado hermético, o Prometeu da ciência, o homem vivo que só toca na terra pelo pensamento e cujo apoio está no céu, o adepto livre e sacrificado, o revelador ameaçado de morte, a conjuração do Judaísmo contra o Cristo, que parece um reconhecimento involuntário da divindade oculta do crucificado, afinal o signo da obra realizada, do ciclo terminado, o Tav intermediário, que resume uma primeira vez, antes do último denário, os signos do alfabeto sagrado.
13 m N
A Necromancia
EX IPSIS - MORS
Dissemos que na luz astral se conservam as imagens de pessoas e coisas. É também nesta luz que se podem evocar as formas daqueles que não estão mais neste mundo, e é por meio dela que se realizam os mistérios tão contestados como reais da necromancia. Os cabalistas que falaram do mundo dos espíritos, contaram simplesmente o que viram nas suas evocações.
Eliphas Levi Zahed, que escreve este livro, evocou e viu.
Digamos, primeiramente, o que os mestres escreveram das suas visões ou intuições no que chamavam a luz de glória.
Lê-se no livro da Revolução das Almas, que há almas de três espécies: as filhas de Adão, as filhas dos anjos e as filhas do pecado. Há, também, conforme o mesmo livro, três sortes de espíritos: os espíritos cativos, os espíritos errantes e os espíritos livres. Há, pois, almas de homens que nascem viúvas, e cujas esposas estão retidas em cativeiro por Lilith e Naemah, as rainhas do estriges: são as almas que têm de expiar a temeridade de um voto de celibato. Assim, quando um homem renuncia desde a infância ao amor das mulheres, faz escrava dos demônios da depravação a esposa que lhe estava destinada. As almas crescem e multiplicam-se no céu, assim como os corpos na terra. As almas imaculadas são filhas dos beijos dos anjos.
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Nada pode entrar no céu, a não ser o que saiu do céu. Depois da morte, pois, o espírito divino que animava o homem volta sozinho ao céu e deixa na terra e na atmosfera dois cadáveres: um terrestre e elementar, outro aéreo e sideral; um já inerte, o outro ainda animado pelo movimento universal da alma do mundo, mas destinado a morrer lentamente, absorvido pelas forças astrais que o produziram. O cadáver terrestre é visível; o outro é invisível aos olhos dos corpos terrestres e vivos, e só pode ser percebido pelas aplicações da luz astral ao translúcido, que comunica as suas impressões ao sistema nervoso, e afeta, assim, o órgão da vista até fazer-lhe ver as formas que são conservadas e as palavras que estão escritas no livro da luz vital.
Quando o homem viveu bem, o cadáver astral se evapora como um incenso puro, subindo para as regiões superiores; mas se o homem viveu no crime, o seu cadáver astral, que o retém prisioneiro, procura ainda os objetos das suas paixões e quer retomar a vida. Atormenta os sonhos das moças, banha-se no vapor do derramado, e arrasta-se para os lugares onde se passaram os prazeres da sua vida; vela ainda sobre os tesouros que possuía e escondeu: esgota-se em esforços dolorosos para fazer para si órgãos materiais e reviver. Mas os astros o aspiram e bebem; sente a sua inteligência se enfraquecer, a sua memória perder-se lentamente, todo o seu ser dissolver-se... Os seus antigos vícios lhe aparecem e o perseguem sob figuras monstruosas: eles o atacam e o devoram... O desgraçado perde, assim, sucessivamente, todos os membros que serviram para as suas iniqüidades; depois, morre pela segunda vez e para sempre, porque, então, perde a sua personalidade e a sua memória. As almas que devem viver, mas que ainda não estão inteiramente purificadas, ficam mais ou menos cativas no cadáver astral, em que são queimadas pela luz ódica que procura assimilá-lo a si e dissolvê-lo. É para desembaraçar-se deste cadáver que as almas sofredoras, às vezes, entram nos vivos e ali ficam em estado que os cabalistas chamam embrionato. São esses cadáveres aéreos que evocamos pela necromancia. São larvas, substâncias mortas ou moribundas, com as quais nós nos relacionamos; ordinariamente, só podem falar pelo zumbido dos nossos ouvidos, produzido pela agitação de que falei, e, de ordinário, raciocinam refletindo nossos pensamentos ou nossos sonhos.
Mas para ver essas formas estranhas é preciso pôr-se num estado excepcional, que participa do sono e da morte, isto é, é necessário magnetizar a si próprio e chegar a uma espécie de sonambulismo lúcido e acordado. A necromancia obtém, pois, resultados reais, e as evocações da magia podem produzir visões verdadeiras. Dissemos que, no grande agente mágico que é a luz astral, se conservam todas as impressões das coisas, todas as imagens formadas, quer pelos raios, quer pelos reflexos; é nesta luz que os nossos sonhos nos aparecem, é esta luz que embebeda os alienados e arrasta o seu juízo adormecido à perseguição dos fantasmas mais bizarros. Para ver sem ilusão nesta luz é preciso saber separar os reflexos por uma vontade poderosa e atrair a si só os raios. Sonhar acordado é ver na luz astral; e as orgias do sabbat, contadas por tantos feiticeiros nos seus juízos criminais, não se apresentavam a eles de outra maneira. Muitas vezes, as preparações e substâncias empregadas para chegar a este resultado eram horríveis, como veremos no Ritual; mas os resultados nunca eram duvidosos. Viam, ouviam e tocavam nas coisas mais abomináveis, mais fantásticas, mais impossíveis. Voltaremos a este assunto no nosso décimo quinto capítulo; aqui só nos ocupamos da evocação dos mortos.
Na primavera do ano 1854, eu tinha ido a Londres para escapar de desgostos íntimos e entregar-me, sem distração, à ciência. Tinha cartas de recomendação para pessoas eminentes e curiosos de revelações do mundo sobrenatural. Vi muitos deles, e achava neles, com muita polidez, um grande fundo de indiferença ou leviandade. Pediam-me primeiramente prodígios como a um charlatão, Estava um pouco desanimado, porque, para dizer a verdade, longe de estar disposto a iniciar os outros nos mistérios da magia cerimonial, sempre temi para mim mesmo as suas ilusões e fadigas; aliás, estas cerimônias exigem um material dispendioso e difícil de adquirir. Encerrava-me, pois, no estudo da alta Cabala, e não pensava mais nos adeptos ingleses, quando um dia, ao entrar no meu hotel, encontrei um sobrescrito com meu endereço. Este sobrescrito continha a metade de um cartão, cortado transversalmente, e no qual reconheci primeiramente o caráter do selo de Salomão e um
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papel muito pequeno no qual estava escrito a lápis: “Amanhã, às três horas, diante da abadia de Westminster, vos será apresentada a outra metade deste cartão”. Fui a essa singular entrevista. Uma carruagem estacionava na praça. Tinha, sem afetação, o meu pedaço de cartão na mão; um criado aproximou-se de mim e me fez sinal, abrindo a portinhola da carruagem, na qual vi uma senhora de preto, cujo chapéu estava coberto com um véu muito espesso; ela fez sinal de subir junto a si, mostrando-me a outra metade do cartão que tinha recebido. A portinhola fechou-se, a carruagem rodou e a senhora, tendo levantado o seu véu, pude ver que tratava com uma pessoa idosa, com sobrancelhas cinzentas e olhos pretos, extremamente vivos e de uma fixidez estranha.
- Senhor – disse-me ela, com um acento inglês muito pronunciado – sei que a lei do segredo é rigorosa entre os adeptos; uma amiga de Sir B*** L***, que vos viu, sabe que vos pediram experiências e que recusastes satisfazer esta curiosidade. Talvez não tínheis as coisas necessárias: vou mostrar-vos um gabinete mágico completo; mas vos peço, antes de tudo, o mais inviolável segredo. Se não me fizerdes esta promessa pela vossa honra, vou dar ordem para que vos levem à vossa casa.
Fiz a promessa que exigiam de mim e sou fiel a ela, não dizendo o nome, nem a qualidade, nem a residência desta senhora, que reconheci logo como iniciada, não precisamente de primeira ordem, mas de um grau muito elevado. Tivermos diversas conversações extensas, durante as quais ela sempre insistia sobre a necessidade das práticas para completar a iniciação. Mostrou-me uma coleção de vestimentas e instrumentos mágicos, e até me emprestou alguns livros curiosos que me faltavam; em breve, me determinou a tentar na sua casa a experiência de uma evocação completa, à qual me preparava durante vinte e um dias, observando escrupulosamente as práticas indicadas no trigésimo capítulo do Ritual.
Tudo estava terminado em 24 de julho. Tratava-se de evocar o fantasma do divino Apolônio e interrogá-lo sobre dois segredos: um que se referia a mim, outro que interessava àquela senhora. A princípio ela contava assistir à evocação com uma pessoa de confiança; mas, no último momento, essa pessoa teve medo e, como o ternário ou a unidade é rigorosamente exigido para os ritos mágicos, fiquei só. O gabinete preparado para a evocação era feito numa pequena torre: nele tinham sido dispostos quatro espelhos côncavos, uma espécie de altar, cuja parte de cima era de mármore branco e estava rodeada por uma corrente de ferro imantado. No mármore branco, estava gravado o dourado o signo do pentagrama, tal como se acha representado no quinto capítulo destra obra; e o mesmo signo estava traçado, em diversas cores, numa pele de carneiro, branca e nova, que estava estendida no altar. No centro da mesa de mármore, havia um pequeno fogareiro de cobre com carvão de pau de aulno e loureiro; um outro fogareiro estava colocado, diante de mim, sobre uma trípode. Eu estava vestido com uma roupa branca muito semelhante às vestimentas dos padres católicos, porém mais ampla e mais longa, e trazia na cabeça uma coroa de folhas de verbena, entrelaçadas numa cadeia de ouro. Numa das mãos, tinha uma espada nova e na outra o Ritual. Acendi os dois fogos com as substâncias exigidas e preparadas, e começava, primeiramente em voz baixa, depois elevando a voz gradativamente, as invocações do Ritual. A fumaça estendeu-se, a chama fez vacilar todos os objetos que alumiava, depois se extinguiu. A fumaça se elevava, branca e lenta, sobre o altar de mármore; pareceu-me ouvir um abalo de estremecimento de terra, os meus ouvidos zumbiam e meu coração palpitava com força. Pus alguns ramos e perfumes nos fogareiros, e quando a chama se elevou, vi distintamente, diante do altar, uma figura de homem maior que o natural, que se decompunha e se esvaía. Recomecei as evocações e coloquei-me num círculo que tinha traçado antecedentemente entre o altar e a trípode: vi, então, alumiar-se, pouco a pouco, o fundo do espelho que estava na minha frente, atrás do altar, e uma forma esbranquiçada desenhou-se nele, crescendo e parecendo aproximar-se pouco a pouco. Chamei três vezes Apolônio, fechando os olhos; e, quando os abri, um homem estava diante de mim, envolto inteiramente por uma espécie de lençol, que me pareceu ser mais cinzento do que branco; a sua forma era magra, triste e sem barba, o que não combinava exatamente com a idéia que primeiramente tinha de Apolônio. Experimentei


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