Dogma e Ritual da Alta Magia - parte 3


Selo de Salomão
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O Equilíbrio Mágico
TIPHERETH - UNCUS
A inteligência suprema é necessariamente razoável. Deus, em filosofia, pode não ser mais do que uma hipótese imposta pelo bom senso bom à razão humana. Personificar a razão absoluta é determinar o ideal divino.
Necessidade, liberdade e razão, eis o grande do e supremo triângulo dos cabalistas, que chamam a razão Kether, a necessidade Hocmah e a liberdade Binah, no seu primeiro ternário divino.
Fatalidade, vontade e poder, tal é o ternário mágico que, nas coisas humanas, corresponde ao triângulo divino.
A fatalidade é o encadeamento inevitável dos efeitos e causas numa ordem, dada.
A vontade é a faculdade diretora das forças inteligentes para conciliar a liberdade das pessoas com a necessidade das coisas.
O poder é o sábio emprego da vontade, que faz servir a própria fatalidade à realização dos desejos do sábio.
Quando Moisés fere a rocha, não cria a fonte de água; ele a revela ao povo, porque uma ciência oculta lha revelou a ele próprio por meio da baqueta adivinhatória.
O mesmo acontece com todos os milagres da magia: existe uma lei, o vulgo a ignora, o iniciado serve-se dela.
As leis ocultas são, muitas vezes, diametralmente opostas às leis comuns. Assim, por exemplo, o vulgo crê na simpatia dos semelhantes e na guerra dos contrários; é a lei oposta que é verdadeira.
Diziam outrora: a natureza tem horror ao vácuo; era preciso dizer: a natureza é amante do vácuo, se o vácuo não fosse, em física, a mais absurda das ficções.
O vulgo toma, habitualmente, em todas as coisas, a sombra pela realidade. Volta as costas à luz e se mira na obscuridade que projeta.
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As forças da natureza estão à disposição daquele que lhes sabe resistir. Se sois tão senhor de vós mesmo para nunca ficar bêbado, disponde do terrível e fatal poder do embebedamento. Se quiserdes embebedar os outros, dai-lhes de beber à vontade, mas não bebais.
Dispõe do amor dos outros, quem é senhor do seu. Quereis possuir, não vos deis. O mundo está imantado da luz do sol, e estamos imantados da luz astral do mundo. O que se opera no corpo do planeta se repete em nós. Há, em nós, três mundos análogos e hierárquicos, como na natureza inteira.
O homem é o microcosmo ou pequeno mundo, e conforme o dogma das analogias, tudo o que está no grande mundo se reproduz no pequeno. Há, pois, em nós, três centros de atração e de projeção fluídica: o cérebro, o coração ou o epigastro e o órgão genital. Cada um destes órgãos é único e duplo, isto é: nele se encontra a idéia do ternário. Cada um destes órgãos atrai de um lado e repele do outro. É por meio desses aparelhos que nós nos pomos em comunicação com o fluido universal, transmitido em nós pelo sistema nervoso. São Também estes três centros que são a sede da tríplice operação magnética, como explicaremos alhures.
Quando o mago chegou à lucidez, quer por intermédio de uma pitonisa ou sonâmbula, quer por seus próprios esforços, comunica e dirige à vontade vibrações magnéticas em toda a massa da luz astral, cujas correntes adivinha com o auxílio da baqueta mágica, que é uma baqueta adivinhatória aperfeiçoada. Por meio destas vibrações, influi no sistema nervoso das pessoas submetidas à sua ação, precipita ou suspende as correntes da vida, acalma ou atormenta, cura ou faz adoecer, mata, enfim, ou ressuscita... Mas, aqui paramos, diante do sorriso da incredulidade. Deixemos-lhe o triunfo fácil de negar o que não sabe.
Demonstraremos, mais tarde, que a morte é sempre precedida de um sono letárgico e só opera por graus; que a ressurreição, em certos casos, é possível; que a letargia é uma morte real, mas não acabada, e que muitos mortos acabam de morrer depois do seu enterro. Mas não é disso que se trata neste capítulo. Dizemos, pois, que uma vontade lúcida pode agir sobre a massa da luz astral, e, com o concurso de outras vontades que absorve e arrasta, determinar grandes e irresistíveis correntes. Digamos também que a luz astral se condensa ou se rarifica, conforme as correntes a acumulam, mais ou menos, em certos centros. Quando falta energia suficiente para alimentar a vida, causa doenças de decomposição súbita, que fazem o desespero da medicina. O cólera-morbo, por exemplo, não tem outra causa, e as colunas de animálculos observados os supostos por certos sábios podem ser o efeito dele, antes que a causa. Era, pois, preciso tratar o cólera por insuflação, se, em tal tratamento, o operador não se expusesse a fazer com o paciente uma troca muito perigosa para o primeiro.
Todo esforço inteligente da vontade é uma projeção de fluido ou luz humana, e aqui importa distinguir a luz humana da luz astral, e o magnetismo animal do magnetismo universal.
Servindo-nos da palavra fluido, empregamos uma expressão generalizada e procuramos fazer-nos compreender por este meio; mas estamos longe de dizer que a luz latente seja um fluido. Tudo nos levaria, pelo contrário, a preferir, na explicação deste ente fenomenal, o sistema das vibrações. Seja como for, esta luz, sendo o instrumento da vida, se fixa naturalmente em todos os centros vivos. Ela se prende ao centro dos planetas como ao coração do homem (e por coração entendemos, em magia, o grande simpático), mas se identifica à vida própria do ser que anima, e é por esta propriedade de assimilação simpática que ela se divide sem confusão. Assim, ela é terrestre nas suas relações com o globo da terra e exclusivamente humana nas suas relações com os homens.
É por isso que eletricidade, o calórico, a luz e a imantação produzidas pelos meios físicos ordinários, não somente não produzem, mas, ao contrário, tendem a neutralizar os efeitos do
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magnetismo animal. A luz astral, subordinada a um mecanismo cego, e procedendo dos centros dados de autotelia, é uma luz morta, e opera matematicamente, conforme os impulsos dados ou conforme leis fatais; a luz humana, pelo contrário, só é fatal no ignorante que faz tentativas ao acaso; no vidente, ela é subordinada à inteligência, submetida à imaginação e dependente da vontade. É esta luz que, projetada sem cessar pela nossa vontade, forma o que Swedenborg chama as atmosferas pessoais. O corpo absorve o que o rodeia e irradia sem cessar, projetando seus miasmas e suas moléculas invisíveis; o mesmo acontece com o espírito, de modo que este fenômeno, chamado por alguns místicos o respiro, tem realmente a influência que lhe é atribuída, quer no físico, quer no moral. É realmente contagioso respirar o mesmo ar que os doentes, e achar-se no círculo de atração e expansão dos malvados.
Quando a atmosfera magnética de duas pessoas é de tal modo equilibrada que o atrativo de uma aspira a expansão da outra, produz-se uma atração que se chama a simpatia; então, a imaginação, evocando a ela todos os raios ou reflexos análogos ao que experimenta, se faz um poema de desejos que arrastam a vontade, e se as pessoas são de sexo diferente, produz-se nelas ou geralmente na mais fraca das duas um embebedamento completo de luz astral, que se chama a paixão propriamente dita ou amor.
O amor é um dos grandes instrumentos do poder mágico; mas é formalmente interdito ao mago, ao menos como embebedamento ou como paixão. Desgraçado do Sansão da Cabala, se deixar adormecer por Dalila! O Hércules da ciência, que muda o seu cetro real contra o fuso de Omphale, sentirá logo as vinganças de Dejanira, e só lhe restará a fogueira do monte Eta para escapar ao apertamento devorador da túnica de Nesso. O amor sexual é sempre uma ilusão, porque é o resultado de uma miragem imaginária. A luz astral é o sedutor universal, figurado pela serpente do Gênese. Este agente sutil, sempre ativo, sempre luxuriante de seiva, sempre florido de sonhos sedutores e inebriantes imagens; esta força cega por si mesma e subordinada a todas as vontades, quer para o bem, quer para o mal; este circulus sempre renascente de vida indômita que dá vertigem aos imprudentes; este corpo ígneo; este éter impalpável e presente em toda parte; esta imensa esta sedução da natureza, como defini-la inteiramente e como qualificar a sua ação? De algum modo indiferente por si mesma, ela serve para o bem como para o mal; ela leva a luz e propaga as trevas; pode-se chamá-la igualmente Lúcifer e Lucífugo: é uma serpente, mas pode pertencer aos tormentos do inferno como às oferendas de incenso prometidas ao céu. Para apoderar-se dela, é preciso, como a mulher predestinada, pôr o pé sobre sua cabeça.
O que corresponde à mulher de cabalística, no mundo elementar, é a água, e o que corresponde à serpente é o fogo. Para dominar a serpente, isto é, para dominar o círculo da luz astral, é preciso chegar a pôr-se fora das suas correntes, isto é, isolar-se. É por isso que Apolônio de Thyana se envolvia inteiramente num manto de lã fina, no qual punha os pés, e cuja ponta punha em cima da cabeça; depois, arcava em semicírculo a sua coluna vertebral e fechava os olhos, após ter realizado certos ritos de deviam ser passes magnéticos e palavras sacramentais, tem por fim fixar a imaginação e determinar a ação da vontade. O manto de lã é de grande uso em magia, e é o veículo ordinário dos feiticeiros que vão ao sabbat, o que prova que os feiticeiros não iam realmente ao sabbat, mas sim que o sabbat vinha achar os feiticeiros isolados nos seus mantos e trazia ao seu translúcido as imagens análogas às suas preocupações mágicas, misturadas com os reflexos de todos os atos do mesmo gênero que se tinham realizado antes deles no mundo.
Esta corrente da vida universal é também figurada, nos dogmas religiosos, pelo fogo expiatório do inferno. É o instrumento da iniciação, é o monstro a dominar, é o inimigo a vencer; é ela que envia às nossas evocações e conjurações da goecia tantas larvas e fantasmas; é nela que se conservam todas as formas cujo conjunto fantástico e fortuito povoa nossos pesadelos de tão abomináveis monstros. Deixar-se arrastar para baixo por este rio que dá viravoltas é cair nos abismos da loucura,
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mais terríveis que os da morte: afastar as sombras deste caos e fazer-lhe dar formas perfeitas aos nossos pensamentos é ser homem de gênio, é criar, é ter triunfado do inferno!
A luz astral dirige os instintos animais e dá combate à inteligência do homem, que tende a perverter pelo luxo de seus reflexos e a mentira das suas imagens; ação fatal e necessária, que os espíritos elementares e as almas sofredoras dirigem e tornam mais funestas ainda, com suas vontades inquietas, que procuram simpatias nas nossas fraquezas e nos tentam, menos para nos perder do que para adquirir amigos.
Esse livro das consciências que, conforme p dogma cristão, deve ser manifestado no último dia, não é outro senão a luz astral, na qual se conservam as impressões de todos os verbos, isto é, de todas as ações e de todas as formas. Os nossos atos modificam o nosso respiro magnético, de modo que um vidente pode dizer, aproximando-se de uma pessoa pela primeira vez, se esta pessoa é inocente ou culpada, e quais suas virtudes e seus crimes. Esta faculdade, que pertence à adivinhação, era chamada, pelos místicos cristãos da Igreja primitiva, o discernimento dos espíritos.
As pessoas que renunciam ao império da razão e gostam de desviar sua vontade em perseguição dos reflexos da luz astral, estão sujeitas a alternativas de furor e tristeza que fizeram imaginar todas as maravilhas da possessão do demônio; é verdade que, por meio destes reflexos, os espíritos impuros podem agir sobre tais almas, fazer delas instrumentos dóceis e mesmo habituar-se a atormentar o seu organismo, no qual vêm residir por obsessão ou embrionato. Estas palavras cabalísticas são explicadas no livro hebreu da Revolução das Almas, de que nosso décimo terceiro capítulo conterá a análise detalhada.
É, pois, extremamente perigoso divertir-se com os mistérios da magia; é, principalmente, temerário praticar seus ritos por curiosidade, por ensaio e como que para tentar as forças superiores. Os curiosos que, sem serem adeptos, se preocupam de evocações ou magnetismo oculto, parecem crianças que brincam com fogo perto de um barril de pólvora fulminante; serão, mais cedo ou mais tarde, vítimas de alguma terrível explosão.
Para isolar-se da luz astral, não basta rodear-se de pano de lã; é preciso ainda, e principalmente, ter imposto uma quietação absoluta ao seu espírito e ao seu coração, ter saído do domínio das paixões e estar seguro na perseverança dos atos espontâneos de uma vontade inflexível. É preciso também reiterar muitas vezes os atos desta vontade, como veremos na nossa introdução Ritual, a vontade fica certa de si mesma só por atos, como as religiões só têm império e duração pelas suas cerimônias e seus ritos.
Existem substâncias inebriantes que, exaltando a sensibilidade nervosa, aumentam o poder e por das representações e, por conseguinte, das seduções astrais; pelos mesmos meios, mas seguindo uma direção contrária, pode-se amedrontar e perturbar os espíritos. Estas substâncias, magnéticas por si mesmas e magnetizadas ainda pelos práticos, são o que se chamam filtros ou beberagens encantadas. Mas não trataremos desta perigosa aplicação da magia envenenadora. Não existem mais, é verdade, fogueiras para os feiticeiros, mas há sempre, e mais do que nunca, castigos para os malfeitores. Limitemo-nos, pois, a constatar, na ocasião, a realidade deste poder.
Para dispor da luz astral é preciso também compreender a sua dupla vibração e conhecer a balança das forças, que se chama o equilíbrio mágico, e que, em Cabala, se exprime pelo senário.
Este equilíbrio, considerado na sua causa primeira, é a vontade de Deus; no homem, é a liberdade, na matéria, é o equilíbrio matemático.
O equilíbrio produz a estabilidade e a duração.
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A liberdade produz a imortalidade do homem, e a vontade de Deus põe em ação as leis da razão eterna.
O equilíbrio é rigoroso. Se for observada a lei, ele existe; se for violada, por mais levemente que seja, ele não existe mais.
É por isso que nada é inútil ou perdido. Toda palavra e todo movimento são pró ou contra o equilíbrio, pró ou contra a verdade; porque o equilíbrio representa a verdade, que se compõe de pró e do contra conciliados, ou, ao menos, mutuamente equilibrados.
Dizemos, na introdução do Ritual, como o equilíbrio mágico deve ser produzido, e por que ele é necessário para o sucesso em todas as operações.
A onipotência é a liberdade mais absoluta. Ora, a liberdade absoluta não poderia existir sem um equilíbrio perfeito. O equilíbrio mágico é, pois, uma das condições primárias do sucesso nas operações da ciência, e deve-se procurá-lo até na química oculta, aprendendo a combinar os contrários sem os neutralizar um por outro.
É pelo equilíbrio que se explica o grande e antigo mistério da existência e da necessidade relativa do mal.
Esta necessidade relativa dá, em magia negra, a medida do poder dos demônios ou espíritos impuros, aos quais as virtudes que são praticadas na terra dão mais furor, e, em aparência, até mais força.
Nas épocas em que os santos e anjos fazem abertamente milagres, os feiticeiros e diabos fazem, por sua vez, maravilhas e prodígios.
È a rivalidade que, muitas vezes, faz o sucesso; sempre se acha apoio no que resiste.
7 z G
A Espada Flamejante
Netsah - Glaudius
O setenário é o número sagrado em todas as teogonias e em todos os símbolos, porque é composto do ternário e do quaternário. O número sete representa o poder mágico em toda a sua força; é o
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espírito protegido por tidas as potências elementares; é a alma servida pela natureza; é o sanctum regnum de que falam as Clavículas de Salomão, e que é representado, no Tarô, por um guerreiro coroado, trazendo um triângulo na sua couraça, e de pé, em cima de um cubo, ao qual estão atreladas duas esfinges, uma branca e outra preta, que puxam em sentido contrário e voltam a cabeça, olhando uma à outra. Este guerreiro está armado com uma espada flamejante, e tem, na outra mão, um cetro rematado por um triângulo e uma bola.
O cubo é a pedra filosofal. As esfinges são as duas forças do grande agente, correspondentes a Jakin e Bohas, que são as duas colunas do templo; a couraça é a ciência das coisas divinas, que faz o sábio invulnerável aos golpes humanos; o cetro é a baqueta mágica; a espada flamejante é o sinal da vitória sobre os vícios, que são em número de sete, como as virtudes; as idéias dessas virtudes e desses vícios eram figuradas, pelos antigos, pelos símbolos dos sete planetas então conhecidos.
Assim, a fé, esta aspiração ao infinito, esta nobre confiança em si mesmo, sustentada pela crença em todas as virtudes, a fé, que, nas naturezas fracas, pode degenerar em orgulho, era representada pelo Sol; a esperança, inimiga da avareza, pela Lua; caridade, oposta à luxúria, por Vênus, a brilhante estrela da manhã e da tarde; a força, superior à cólera, por Marte; a prudência, oposta à preguiça, por Mercúrio; a temperança, oposta à gula, por Saturno, a quem se dá uma pedra para comer ao invés de seus filhos; e a justiça, enfim, oposta à inveja, por Júpiter, vencedor dos Titãs. Tais são os símbolos que a astrologia tira do culto helênico. Na Cabala dos Hebreus, o Sol representa o anjo de luz; a Lua, o anjo das aspirações e dos sonhos; Marte, o anjo exterminador; Vênus, o anjo dos amores; Mercúrio, o anjo civilizador; Júpiter, o anjo do poder; Saturno, o anjo das solidões. Chamam-nos também: Mikael, Gabriel, Samael, Anael, Rafael, Zacariel e Orifiel. Estas potências dominadoras das almas partilham a vida humana por períodos, que os astrólogos mediam sobre as revoluções dos planetas correspondentes.
Porém, não se deve confundir a astrologia cabalística com a astrologia judiciária. Explicaremos esta distinção. A infância é votada ao Sol, a adolescência à Lua, a juventude a Marte e Vênus, a virilidade a Mercúrio, a idade madura a Júpiter e a velhice a Saturno. Ora, a humanidade inteira vive sob leis de desenvolvimento análogas às da vida individual. É sobre esta base que Trithemo estabelece a sua clavícula profética dos sete espíritos de que falamos alhures, e por meio da qual se pode, seguindo as proporções analógicas dos acontecimentos sucessivos, predizer com certeza os grandes acontecimentos futuros, e fixar adiantadamente, de período em período, os destinos dos povos e do mundo.
São João, depositário da doutrina secreta do Cristo, consignou esta doutrina no livro cabalístico do Apocalipse, que ele representa fechado com sete selos. Acham-se aí os sete gênios das mitologias antigas, com as copas e espadas do Tarô. O dogma escondido sob estes emblemas é a pura Cabala, já perdida pelos fariseus, na época da volta do Salvador; os quadros que se sucedem nesta maravilhosa epopéia profética são tantos pantáculos que o ternário, o quaternário, o setenário e o duodenário são as chaves. As suas figuras hieroglíficas são análogas às do livro de Hermes ou da Gênese de Enoque, para nos servir de arriscado título que exprime somente a opinião pessoal do sábio Guilherme Postello.
O querubim ou touro simbólico que Moisés coloca à porta do mundo edênico, e que tem na mão uma espada flamejante, é uma esfinge, tendo um corpo de touro e uma cabeça humana; é a antiga esfinge assíria, de que o combate e a vitória de Mitra eram a análise hieroglífica. Esta esfinge armada representa a lei do mistério que vigia à porta da iniciação para desviar dela os profanos. Voltaire, que nada sabia de tudo isso, riu muito de ver um boi armado de espada. Que teria ele dito se tivesse visitado as ruínas de Mênfis e Tebas, e que teria a responder aos seus insignificantes sarcasmos, tão apreciados em França, este eco dos séculos, que dorme nos sepulcros de Psammético e Ramsés?
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O querubim de Moisés representa também o grande mistério mágico, de que o setenário exprime todos os elementos, sem, todavia, dar a sua última palavra. Este verbum inenarrabile dos sábios da escola de Alexandria, esta palavra que os cabalistas hebreus escrevem h w h y e traduzem por a t y r a r a, exprimindo, assim, a triplicidade do princípio secundário, o dualismo dos meios e a unidade tanto do primeiro princípio como do fim, depois também a aliança do ternário com o quaternário numa palavra composta de quatro letras, que formam sete, por meio de uma tríplice e uma dupla repetição; esta palavra se pronuncia Ararita.
A virtude do setenário é absoluta em magia, porque o número é decisivo em todas as coisas; por isso, as religiões o consagraram nos seus ritos. O sétimo ano, entre os Judeus, era jubilar; o sétimo dia é consagrado ao repouso e à prece, há sete sacramentos, etc.
As sete cores do prisma, as sete notas da música, correspondem também aos sete planetas dos antigos, isto é, às sete cordas da lira humana. O céu espiritual nunca mudou, e a astrologia ficou mais invariável que a astronomia. Os sete planetas, com efeito, não são mais do que símbolos hieroglíficos dos laços de nossas afeições. Fazer talismãs do Sol, da Lua ou de Saturno, é prender magneticamente a vontade a signos que correspondem aos principais poderes da alma; consagrar alguma coisa a Vênus ou a Mercúrio é magnetizar esta coisa numa intenção direta, quer de prazer, quer de ciência ou proveito. Os metais, animais, plantas ou perfumes análogos são, nisso, nossos auxiliares. Os animais mágicos são: entre os pássaros, correspondentes ao mundo divino, o cisne, a coruja, o gavião, a pomba, a cegonha, a águia e a poupa; entre os peixes, correspondentes ao mundo espiritual ou científico, a foca, o celerus, o lúcio, o timalo, o mugem, o delfim, e a siba; entre os quadrúpedes, correspondentes ao mundo natural, o leão, o gato, o lobo, o bode, o macaco, o veado e a toupeira. O sangue, a gordura, o fígado e o fel destes animais servem para os encantamentos; o seu cérebro se combina com os perfumes dos planetas, e é reconhecido, pela prática dos antigos, que possuem virtudes magnéticas correspondentes às sete influências planetárias.
Os talismãs dos sete espíritos se fazem, quer em pedras preciosas, tais como o carbúnculo, o cristal, o diamante, a esmeralda, a ágata, a safira e o ônix, quer nos metais, como o ouro, a prata, o ferro, o cobre, o mercúrio fixo, o estanho e o chumbo. Os símbolos cabalísticos dos sete espíritos são: para o Sol, uma serpente, com cabeça do leão; para a Lua, um globo ocupado por dois crescentes; para Marte, um dragão mordendo o cabo de uma espada; para Vênus, um lingam; para Mercúrio, o caduceu hermético e o cinocéfalo; para Júpiter, o pentagrama flamejante nas garras ou no bico de uma águia; para Saturno, um velho coxo uma serpente enlaçada ao redor da pedra helíaca. Todos estes signos se acham nas pedras gravadas dos antigos, e particularmente nos talismãs das épocas gnósticas, conhecidos sob o nome de Abraxas. Na coleção dos talismãs de Paracelso, Júpiter é representado por um padre com hábito eclesiástico, e no Tarô é figurado por um grande hierofante vestido com a tiara de três diamantes, tendo na mão a cruz de três braços, formando o triângulo mágico e representando, ao mesmo tempo, o cetro e a chave dos três mundos.
Resumindo tudo o que dissemos da união do ternário e do quaternário, teremos tudo o que nos restaria a dizer do setenário, esta grande e completa unidade mágica, composta de 4 e 3.
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A Realização
HOD - VIVENS
As causas se revelam pelos efeitos, e os efeitos são proporcionais às causas. O verbo divino, a palavra única, o tetragrama, se afirmou pela criação quaternária. A fecundidade humana prova a fecundidade divina: o iod do nome divino é a virilidade eterna do primeiro princípio. O homem compreendeu que foi feito à imagem de Deus, quando compreendeu que Deus era a idéia que se fazia de si mesmo engrandecida até o infinito.
Compreendendo Deus como o homem infinito, o homem disse a si mesmo: - Eu sou o Deus finito.
A magia difere do misticismo em não julgar a priori mas, sim, depois de ter estabelecido a posteriori a própria base dos seus julgamentos, isto é, só depois de ter compreendido a causa pelos efeitos contidos na própria energia da causa, por meio da lei universal da analogia; por isso, nas ciências ocultas, tudo é real, e as teorias são estabelecidas somente sobre as bases da experiência. São as realidades que constituem as proporções do ideal, e o mago só admite como certo, no domínio das idéias, o que é demonstrado pela realização da palavra; é o verbo propriamente dito. Um pensamento se realiza tornando-se palavra; esta se realiza pelos sinais, sons e figuras dos sinais: é este o primeiro grau de realização. Depois, ela se imprime na luz astral por meio dos sinais da escrita ou da palavra; ela influi sobre outros espíritos, refletindo-se neles; se reflete atravessando o diáfano dos outros homens, aí toma formas e proporções novas, depois se traduz em ato e modifica a sociedade e o mundo; é este o último grau de realização. Os homens que nascem num mundo modificado por uma idéia, trazem consigo a sua impressão e é assim que o verbo se faz carne. A impressão da desobediência de Adão, conservada na luz astral, só pode ser apagada pela impressão mais forte da obediência do Salvador, e é assim que se pode explicar o pecado original e a redenção, num sentido natural e mágico.
A luz astral, representada nos antigos símbolos pela serpente que morde a sua cauda, representa, ao mesmo tempo, a malícia e a prudência, o tempo e a eternidade, o tentador e o Redentor. É que esta luz, sendo o veículo da vida, pode servir de auxiliar tanto ao bem como ao mal, e pode ser tomada pela forma ígnea de Satã como pelo corpo do Espírito Santo. É a arma universal da batalha dos anjos, e ela alimenta tão bem as chamas do inferno como o raio de São Miguel. Poderíamos compará-la a um cavalo de natureza análoga à que é atribuída ao camaleão, e que sempre refletisse a armadura do seu cavaleiro.
A luz astral é a realização ou a forma da luz intelectual, como esta é a realização ou forma da luz divina.
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O grande iniciador do Cristianismo, compreendendo que a luz astral estava sobrecarregada dos reflexos impuros da depravação romana, quis separar seus discípulos da esfera ambiente dos reflexos e fazê-los atentos unicamente à luz interior, a fim de que, por meio de uma fé comum, pudesse comunicar-se mutuamente por meio de novos cordões magnéticos a que chamou graça, e vender, assim, as correntes transbordadas do magnetismo universal, ao qual dava os nomes de diabo ou Satã, para exprimir a sua putrefação. Opor uma corrente a outra é renovar o poder da vida fluídica. Por isso, os reveladores nada mais fizeram do que adivinhar, pela exatidão de seus cálculos, a hora própria das reações morais.
A lei de realização produz o que chamamos o respiro magnético, de que são impregnados os objetos e lugares, o que lhes comunica uma influência conforme com nossas vontades dominantes, principalmente com as que são confirmadas e realizadas por atos. Com efeito, o agente universal, ou a luz astral latente, sempre procura o equilíbrio; enche o vácuo e aspira o cheio, o que faz contagioso o vício, como certas doenças físicas, e serve poderosamente ao proselitismo da virtude. É por isso que a coabitação com seres antipáticos é um suplício; é por isso que as relíquias, quer dos santos quer dos grandes celerados, podem produzir efeitos maravilhosos de conversão ou perversão súbita; é por isso que o amor sexual, muitas vezes, se produz por um sopro ou contato, e não somente pelo contato da própria pessoa, mas até por meio dos objetos que ela tocou e magnetizou sem o saber.
A alma aspira e respira exatamente como o corpo. Ela aspira o que crê ser felicidade, e respira idéias que resultam das suas sensações íntimas. As almas doentes têm mau hálito e viciam a sua atmosfera moral, isto é, misturam seus reflexos impuros com a luz astral que as penetra e nela estabelecem correntes deletérias.
Muitas vezes ficamos admirados de sermos assaltados, na vida social, por pensamentos maus que não julgamos possíveis, e não sabemos que isso é devido a alguma vizinhança mórbida. Este segredo é de grande importância, porque leva à manifestação das consciências, um dos poderes mais incontestáveis e mais terríveis da arte mágica.
O respiro magnético produz em redor da alma uma irradiação de que ela é o centro, e ela rodeia-se do reflexo de suas obras, que lhe fazem um céu ou um inferno. Não há atos solitários e não poderia haver atos ocultos; tudo o que realmente queremos, isto é, tudo o que confirmamos pelos nossos atos, fica escrito na luz astral, onde se conservam os nossos reflexos; estes reflexos influem continuamente sobre o nosso pensamento por meio do diáfano, e é assim que cada um se torna e permanece filho das suas obras.
A luz astral, transformada em luz humana no momento da concepção, é o primeiro envoltório da alma, e, combinando-se com os fluidos mais sutis, forma o corpo etéreo ou o fantasma sideral dos que fala Paracelso na sua filosofia intuitiva (Philosophia sagax). Este corpo sideral, desprendendo-se na hora da morte, atrai a sim e conserva por muito tempo, pela simpatia dos homogêneos, os reflexos da vida passada; se uma vontade poderosamente simpática o atrai numa corrente particular, ele se manifesta naturalmente, porque nada há mais natural do que os prodígios. É assim que se produzem as aparições. Mas desenvolveremos isto mais completamente no capítulo especial da Necromancia.
Este corpo fluídico, submetido, como a massa da lua astral; a dois movimentos contrários, atrativo à esquerda, e repulsivo à direita, ou reciprocamente, nos dois sexos, produz em nós as lutas dos diferentes atrativos e contribui para a ansiedade da consciência; muitas vezes é influído pelos reflexos dos outros espíritos e é assim que se produzem quer as tentações, quer as graças sutis e inesperadas. É também a explicação do dogma tradicional dos dois anjos que nos assistem e
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experimentam. As duas forças da luz astral podem ser figuradas por uma balança em que são pesadas as nossas boas intenções para a vitória da justiça e a emancipação da nossa liberdade.
O corpo astral nem sempre é do mesmo sexo que o corpo terrestre, isto é, as proporções das duas forças, variando da direita para a esquerda, parecem, muitas vezes, contradizer a organização visível; é o que produz os erros aparentes das paixões humanas, e pode explicar, sem as justificar de modo algum diante da moral, as singularidades amorosas de Anacreonte ou Safo.
Um magnetizador hábil deve apreciar todos estes matizes, e damos, no nosso Ritual, os meios de os reconhecer.
Há duas espécies de realizações, a verdadeira e a fantástica. A primeira é o segredo exclusivo dos magos, a outra pertence aos encantadores e feiticeiros.
As mitologias são realizações fantásticas do dogma religioso, as superstições são o sortilégio da falsa piedade; mas mesmo as mitologias e superstições são mais eficazes sobre a vontade humana do que uma filosofia puramente especulativa e exclusiva de toda prática. É por isso que São Paulo opõe as conquistas da loucura da Cruz à inércia da sabedoria humana. A religião realiza a filosofia adaptando-a às fraquezas do vulgo; tal é, para os cabalistas, a razão secreta e a explicação oculta dos dogmas da encarnação e da redenção.
Os pensamentos que não se traduzem em palavras são pensamentos perdidos para a humanidade; as palavras que não são confirmadas por atos são palavras ociosas, e não há grande distância da palavra ociosa à mentira.
É o pensamento formulado por palavras e atos que constitui a boa obra ou o crime. Logo, quer em vício, quer em virtude, não há palavra da qual não sejamos responsáveis; principalmente, não há atos indiferentes. As maldições e bênçãos sempre têm seus efeitos e qualquer ação, seja qual for, quando é inspirada pelo amor ou pelo ódio, produz efeitos análogos ao seu motivo, ao seu valor e à sua direção.
O imperador cujas imagens tinham sido mutiladas e que, levando a mão à fronte, dizia: “Não me sinto ferido”, fazia uma falsa apreciação e diminuía nisso o mérito da sua clemência. Qual homem de bem veria com sangue frio os insultos feitos ao seu retrato? E se realmente semelhantes insultos, feitos mesmo contra a vontade, caíssem sobre nós por uma influência fatal, se a arte dos enfeitiçamentos fosse real, como não é permitido a um adepto duvidá-lo, quanto não seria mais imprudente, e até mais temerária ainda, a palavra deste bom imperador!
Existem pessoas quem nunca são ofendidas impunemente, e, se a injúria que se lhes fez é mortal, começa-se desde então a morrer. Existem outras que até não a encontrais em, vão, e cujo olhar muda a direção de vossa vida. O basilisco que mata pelo olhar não é uma fábula, é uma alegoria mágica. Em geral, é ruim para a saúde ter inimigos, e qualquer pessoa não desafia impunemente a reprovação de quem quer que seja. Antes de se opor a uma corrente, é preciso que a pessoa se assegure bem se possui a força ou se é levada pela corrente contrária; aliás será destruída ou fulminada, e muitas mortes súbitas não têm outras causas. As mortes terríveis de Nadab e Abiu, de Osa, Ananias e Safira, foram causadas pelas correntes elétricas das crenças que ultrajavam; os tormentos das ursulinas de Loudun, das religiosas de Louviers e dos convulsionários de jansenismo, tinham o mesmo princípio e se explicam pelas mesmas leis naturais ocultas. Se Urbano Grandier não tivesse sido supliciado, teria acontecido uma das duas: ou as freiras possessas morreriam em espantosas convulsões, ou os fenômenos de frenesi diabólica teriam ganho, multiplicando-se, tantas vontades e tanta força, que o próprio Grandier, apesar da sua ciência e sua razão, teria ficado
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alucinado a ponto de caluniar a si próprio, como fizera o infeliz Gaufridy, ou teria morrido de repente, com todas as circunstâncias terríveis de um envenenamento ou de uma vingança divina.
O infeliz poeta Gilberto foi, no século XVIII, vítima da sua ousadia em desafiar a corrente da opinião e até do fanatismo filosófico da sua época. Culpado de lesa-filosofia, morreu louco furioso, assaltado pelos mais incríveis terrores, como se o próprio Deus o tivesse punido por ter sustentado a sua causa fora de propósito, mas, com efeito, perecia vítima de uma lei da natureza que não podia conhecer; tinha-se oposto a uma corrente elétrica e caiu fulminado.
Se Marat não tivesse sido assassinado por Carlota Corday, teria infalivelmente sido morto por uma reação da opinião pública. O que o fizera leproso era a execração das pessoas de bem, e devia sucumbir a isso.
A reprovação causada pela Saint-Berthelemy foi a causa única da horrível doença e da morte de Carlos IX; e Henrique IV, se não fosse sustentado por uma imensa popularidade, que devia à força simpática de sua vida astral, Henrique IV, dizemos nós, não teria sobrevivido à sua conversão e teria perecido pelo desprezo dos protestantes, combinado com a desconfiança e a raiva dos católicos.
A impopularidade pode ser uma prova de integridade e de coragem, mas nunca é prova de prudência ou política; os golpes dados contra a opinião são mortais para os homens de Estado. Podemos ainda lembrarmo-nos do fim prematuro e violento de vários homens ilustres, que não convém mencionar aqui.
Os descréditos diante da opinião podem ser grandes injustiças, mas sempre não são menores causas de insucessos e, muitas vezes, sentenças de morte.
Do mesmo modo, as injustiças feitas a um só homem podem e devem, se não forem reparadas, causam a perda de um povo ou de uma sociedade inteira: é o que se chama o grito do sangue, porque, no fundo de toda injustiça, há o germe de um homicídio.
É por causa destas leis terríveis de solidariedade que o cristianismo tanto recomenda o perdão das injúrias e a reconciliação. Aquele que morre sem perdoar, lança-se na eternidade armado de um punhal e se devota aos horrores de uma eterna matança.
É uma tradição e uma crença invencível entre o povo a da eficácia das bênçãos ou maldição paternas ou maternas. Com efeito, quanto mais os laços que unem duas pessoas são estreitos, tanto é mais terrível nos seus efeitos o ódio entre elas. O tição de Altheu queimando o sangue de Meleagra é, na mitologia, o símbolo deste poder temível.
Todavia, que os pais tomem cuidado com isso, porque não se acende o inferno no seu próprio sangue e não se vota os seus à desgraça, sem queimar e tornar infeliz a si próprio. Nunca é um crime perdoar, e sempre é um perigo e uma ação má amaldiçoar.
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A Iniciação
YEsod – Bonum
O iniciado é aquele que possui a lâmpada de Trismegisto, o manto de Apolônio, e o bastão dos patriarcas.
A lâmpada de Trismegisto é a razão esclarecida pela inteligência; o manto de Apolônio é a posse plena e total de si mesmo, que isola o sábio das correntes instintivas; e o bastão dos patriarcas é o auxílio das forças ocultas e perpétuas da natureza.
A lâmpada de Trismegisto alumia o presente, o passado e o futuro, mostra claramente a consciência dos homens, ilumina os recônditos do coração das mulheres. A lâmpada brilha com tríplice chama, o manto se redobra três vezes, e o bastão se divide em três partes.
O número nove é o dos reflexos divinos: ele exprime idéia divina em toda sua força abstrata, mas também exprime o luxo na crença e, por conseguinte, a superstição e a idolatria.
É por isso que Hermes fez dele o número da iniciação, porque o iniciado reina sobre a superstição e pela superstição, e só ele pode caminhar nas trevas, apoiado como está no seu bastão, envolto no seu manto e iluminado pela sua lâmpada.
A razão foi dada a todos os homens, mas nem todos sabem fazer uso dela; é uma ciência que é preciso aprender. A liberdade é oferecida a todos, mas nem todos sabem apoiar-se nela; é um poder de que é preciso apoderar-se.
A nada chegamos que não nos custe mais de um esforço. O destino do homem é que se enriqueça do que ganha e que depois tenha, como Deus, a glória e o prazer de dar.
A ciência mágica se chamava, outrora, arte sacerdotal e arte real, porque a iniciação dava ao sábio o império sobre as almas e a aptidão para governar as vontades.
A adivinhação é também um dos privilégios do iniciado; ora, adivinhação é simplesmente o conhecimento dos efeitos contidos nas causas e a ciência aplicada aos fatos do dogma universal da analogia.
Os atos humanos não se escrevem somente a luz astral; deixam também os seus traços na fronte, modificam as feições e o andar, mudam o acento da voz.
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Cada homem traz, pois, consigo a história da sua vida, legível para o iniciado. Ora, o futuro é sempre a conseqüência do passado, e as circunstâncias inesperadas não mudam quase nada dos resultados racionalmente esperados. É possível, pois, predizer a cada homem o seu destino.
É possível julgar de uma existência inteira por um só movimento; um só desacerto pressagia uma série de desgraças. César foi assassinado porque amava as poesias de Ossian; Luiz Filipe devia deixar o trono como o fez, porque usava um guarda-chuva. São paradoxos para o vulgo, que não compreende as relações ocultas das coisas; mas são razões para o iniciado, que compreende tudo e de nada se admira.
A iniciação preserva das falsas luzes de misticismo; ela dá à razão humana o seu valor relativo e a sua infalibilidade proporcional, unindo-a à razão suprema pela cadeia das analogias.
O iniciado não tem, pois, esperanças duvidosas, nem temores absurdos, porque não tem crenças desarrazoáveis; sabe o que pode e nada lhe custa ousar. Por isso, para ele, ousar é poder.
Eis, pois, uma nova interpretação dos atributos do iniciado; a sua lâmpada representa o saber, o manto que o envolve representa a sua discrição, o seu bastão é o emblema da sua força e da sua audácia. Ele sabe, ousa e cala-se.
Sabe os segredos do futuro, ousa no presente e cala-se sobre o passado.
Sabe as fraquezas do coração humano, ousa servir-se delas para fazer a sua obra, e cala-se sobre os seus projetos.
Sabe a razão de todos os simbolismos e de todos os cultos, ousa praticá-los ou abster-se deles sem hipocrisia e sem impiedade, e cala-se sobre o dogma único da alta iniciação.
Sabe a existência e a natureza do grande agente mágico, ousa fazer os atos e pronunciar as palavras que o submetem à vontade humana, e cala-se sobre os mistérios do grande arcano.
Por isso, podeis vê-lo muitas vezes triste, nunca abatido nem desesperado; muitas vezes pobre, nunca envilecido nem miserável; muitas vezes perseguido, nunca abandonado nem vencido.
Ele se lembra muitas vezes da viuvez e do assassinato de Orfeu, do exílio e da morte solitária de Moisés, do martírio dos profetas, das torturas de Apolônio, da cruz do Salvador; sabe em que abandono morreu Agrippa, cuja memória ainda é caluniada; sabe a que fadigas sucumbiu o grande Paracelso, e tudo o que teve de sofrer Raimundo Lullo para, enfim, chegar a uma morte sanguinolenta. Lembra-se de Swedenborg fazendo-se de louco ou mesmo perdendo a razão, a fim de fazer perdoar a sua ciência; de Saint-Martin, que se ocultou toda a sua vida; de Cagliostro, que morreu abandonado nos calabouços da Inquisição; de Cazotte, que subiu ao cadafalso. Sucessor de tantas vítimas, não ousa menos, mas compreende ainda mais a necessidade de calar-se.
Imitemos o seu exemplo, aprendamos com perseverança; quando soubermos, ousemos e calemo-nos.
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