Os cabalistas comparam o espírito a uma substância que fica fluida no meio divino e sob a influência da luz essencial, mas cujo exterior se endurece como a cera exposta ao ar, nas regiões mais frias do raciocínio ou das formas visíveis. Essas cascas ou envoltórios petrificados (diríamos melhor, carnificados, se o termo fosse francês) são a causa do erro e do mal, que provêm do peso e da dureza dos envoltórios anímicos. No livro de Zohar e no da revolução das almas, os espíritos perversos, ou maus demônios, não são denominados de outro modo senão de cascas, cortices.
As cascas do mundo dos espíritos são transparentes, as do mundo material são opacas; os corpos são mais do que só cascas temporárias e de que as almas devem ser liberadas; mas os que nesta vida obedecem ao corpo, fazem para si um corpo interior ou uma casca fluídica, que fica sendo a sua prisão e o seu suplício depois da morte, e até o momento em que chega a fundi-la no calor da luz divina, aonde o seu peso lhe impede de subir; eles chegam aí só com esforços infinitos e o auxílio dos justos que lhes dão a mão, e durante todo esse tempo são devorados pela atividade interior do espírito cativo, como que numa fornalha ardente. Os que chegam à fogueira da expiação aí se queimam como Hércules no monte Eta e se libertam, assim, do seu incômodo; mas a maioria tem falta de coragem diante desta última prova, que lhe parece uma segunda morte, mais horrível do que a primeira, e ficam assim, no inferno, que é eterno de direito e de fato, mas no qual as almas nunca são precipitadas nem retidas contra sua vontade.
Os três mundos se correspondem mutuamente pelos trinta e dois caminhos de luz, que são os degraus da escada santa; todo pensamento verdadeiro corresponde a uma graça divina no céu, e a uma obra útil na terra. Toda graça de Deus suscita uma verdade e produz um ou vários atos, e reciprocamente todo ato move nos céus uma verdade ou uma mentira, uma graça ou um castigo. Quando um homem pronuncia o tetragrama, escrevem os cabalistas, os nove céus recebem um abalo, e todos os espíritos gritam uns aos outros: “Quem, pois, perturba assim o reino do céu?" Então, a terra revela ao primeiro céu os pecados do temerário que toma em vão o nome do eterno, e o verbo acusador é transmitido de círculo em círculo, de estrela em estrela, de hierarquia em hierarquia.
Toda palavra tem três sentidos, toda ação um tríplice valor, toda forma uma tríplice idéia, porque o absoluto corresponde, de mundo em mundo, com suas formas. Toda determinação da vontade humana modifica a natureza, interessa a filosofia e se escreve no céu. Há, pois, duas fatalidades, uma que resulta da vontade do incriado e de acordo com a sua sabedoria, e outra que resulta das vontades criadas e de acordo com a necessidade das causas segundas, nas suas relações com a causa primeira.
29
Nada, pois é indiferente na vida e as nossas determinações, aparentemente mais simples, provocam muitas vezes uma série incalculável de bens ou de males, principalmente nas relações do nosso diáfano com o grande agente mágico, como explicaremos alhures.
O ternário, sendo o princípio fundamental de toda a Cabala ou tradição sagrada de nossos antepassados, teve de ser o dogma fundamental do cristianismo, de que explica o dualismo aparente pela intervenção de uma harmoniosa e onipotente unidade. O Cristo não escreveu o seu dogma, e só o revelou em segredo ao seu discípulo favorito, único cabalista, e grande cabalista entre os apóstolos. Por isso, o Apocalipse é o livro da gnose ou doutrina secreta dos primeiros cristãos, doutrina cuja chave é indicada por um versículo secreto do Pater, que a Vulgata não traduz, e que no rito grego (conservador das tradições de São João) só é permitido aos padres pronunciar. Este versículo, perfeitamente cabalístico, se acha no texto grego do evangelho conforme São Mateus e em vários exemplares hebraicos. Ei-lo nestas duas línguas sagradas:
הבוּבג איר ןוּא תבוּלמ איר אּ ןי וייד ןער
ןמא גיבּײא ףױא טײקביל ר עה איר ןוּא
Διότι ι ναι ή βα ιλ ία αι ή δύναμις αι ή δ ξα, ς τ ς α νας. Άμήν.
A palavra sagrada Malkuthh, substituída por Kether, que é seu correspondente cabalístico, e a balança de Geburah e Chesed, repetindo-se nos círculos ou céus que os gnósticos chamavam Eones, dão, nesse versículo oculto, a chave de arco de todo o templo cristão. Os protestantes traduziram-no e o conservaram no seu Novo Testamento, sem achar a sua alta e maravilhosa significação, que lhes teria desvendado todos os mistérios do Apocalipse; mas é uma tradição na Igreja que a revelação destes mistérios está reservada para últimos tempos.
Malkuthh, apoiado em Geburah e Chesed, é o templo de Salomão, tendo por colunas Jakin e Boaz. É o dogma de adâmico, apoiado, de um lado, sobre a resignação de Abel, e, de outro, sobre o trabalho e os remorsos de Caim; é o equilíbrio universal do ser, baseado sobre a demonstração da alavanca universal, procurada inutilmente por Arquimedes. Um sábio que empregou todo o seu talento para fazer-se obscuro e que morreu sem ter querido fazer-se compreender, tinha resolvido esta suprema equação, achada por ele na Cabala, e temia antes de tudo que, exprimindo-se mais claramente, pudessem saber a origem das suas descobertas. Ouvimos um dos seus discípulos e admiradores indignar-se, talvez de boa fé, ouvindo chamá-lo de cabalista, e, entretanto, devemos dizer, para a glória deste sábio, que as suas investigações abreviaram consideravelmente o nosso trabalho sobre as ciências ocultas, e que a chave da alta Cabala, que acabamos de criar, foi doutamente aplicada a uma reforma absoluta de todas as ciências nos livros de Hoené Wronski.
A virtude secreta dos Evangelhos está, pois, contida em três palavras e essas três palavras fundaram três dogmas e três hierarquias. Toda ciência repousa sobre três princípios, como o silogismo sobre três termos. Há também três classes distintas ou três classes originais e naturais entre homens, que são todos chamados a subir da mais inferior à mais elevada. Os hebreus chamam estas séries ou graus do progresso dos espíritos, Asiah, Jezirah e Briah. Os gnósticos, que eram os cabalistas cristãos, chamavam-nas Hylé, Psiquê e Gnosis; o círculo supremo chamava-se, entre os hebreus, Aziluth, e entre os gnósticos, Pleroma.
No tetragrama, o ternário, tomado no começo da palavra, exprime a copulação divina; tomado no fim, exprime o feminino e a maternidade. Eva tem um nome de três letras, mas o Adão primitivo é
30
expresso pela única letra Jod, de modo que Jeová devia ser pronunciado Iéva. Isto nos leva ao grande e supremo mistério da magia, expresso pelo quaternário.
4 d D
O Tetragrama
GEBURAH CHESED - PORTA LIBRORUM - ELEMENTA
Há, na natureza, duas forças que produzem um equilíbrio, e os três são simplesmente uma única lei. Eis o ternário resumindo-se na unidade, e, ajuntando a idéia à unidade à do ternário, chega-se ao quaternário, primeiro número quadrado e perfeito, fonte de todas as combinações numéricas e princípio de todas as formas.
Afirmação, negação, discussão, solução, tais são as quatro operações filosóficas do espírito humano. A discussão concilia a negação com a afirmação, fazendo-as necessárias uma à outra. É assim que o ternário filosófico, produzindo-se do binário antagônico se completa pelo quaternário, base quadrada de toda verdade. Em Deus, conforme o dogma consagrado, há três pessoas, e estas três pessoas são um só Deus. Três e um, dão a idéia de quatro, porque a unidade é necessária para explicar os três.
Por isso, em quase todas as línguas, o nome de Deus é de quatro letras, e, em hebreu, estas quatro letras fazem três, porque há uma delas que se repete duas vezes: a que exprime o Verbo e a criação do Verbo.
Duas afirmações tornam possíveis ou necessárias duas negações correspondentes. O ente é significado, o nada não o é. A afirmação, como Verbo, e cada uma destas afirmações corresponde à negação do seu contrário.
É assim que, conforme o dizer dos cabalistas, o nome do demônio ou do mal se compõe das letras invertidas do próprio nome de Deus ou do bem.
Este mal é o reflexo perdido ou a miragem imperfeita da luz na sombra.
Mas tudo o que existe, quer em bem, quer em mal, quer na luz, quer na sombra, existe e se revela pelo quaternário.
A afirmação da unidade supõe o número quatro, se esta afirmação volta à unidade como num círculo vicioso. Por isso, o ternário, como já observamos, se explica pelo binário e se resolve pelo
31
quaternário, que é a unidade quadrada dos números pares e a base quadrangular do cubo, unidade de construção, de solidez e de medida.
O tetragrama cabalístico: Jodhéva, exprime Deus na humanidade e a humanidade em Deus. Os quatro pontos cardeais astronômicos são, relativamente a nós, o sim e o não da luz: o oriente e o ocidente, e o sim e o não do calor: o sul e o norte.
O que está na natureza visível revela, como já o sabemos, conforme o dogma único da Cabala, o que está no domínio da natureza invisível, ou das causas segundas, todas proporcionais e análogas às manifestações da causa primeira.
Por isso, esta causa primeira sempre se revelou pela cruz: a cruz, esta unidade composta de dois, que se dividem um ao outro, para formar quatro; a cruz, esta chave dos mistérios da Índia e do Egito, o Tau dos patriarcas, o signo divino de Osíris, o Stauros dos gnósticos, a chave de arco do templo, o símbolo da maçonaria oculta; a cruz, este ponto central da junção dos ângulos retos de dois triângulos infinitos; a cruz que, na língua nacional, parece ser a raiz primitiva e o substantivo fundamental do verbo crer e do verbo crescer, reunindo, assim, as idéias de ciência, religião e progresso.
O grande agente mágico se revela por quatro espécies de fenômenos, e foi classificado, pelas experiências das ciências profanas sob quatro nomes: calórico, luz, eletricidade, magnetismo.
Deram-lhe também os nomes de tetragrama, inri, azoth, éter, od, fluido magnético, alma da terra, serpente, lúcifer, etc.
O grande agente mágico é a quarta emanação da vida-princípio de que o sol é a terceira forma (ver os iniciados da escola de Alexandria e o dogma de Hermes Trismegisto).
De modo que o olho do mundo (como o chamavam os antigos) é a miragem do reflexo de Deus e a alma da terra é um olhar permanente do sol que a terra recebe e guarda por impregnação.
A lua concorre para esta impregnação da terra, repelindo para ela uma imagem solar durante a noite, de sorte que Hermes teve razão de dizer, falando do grande agente: “O sol é seu pai, a lua é sua mãe”. Depois, acrescenta: "O vento o trouxe no seu ventre, porque a atmosfera é o recipiente e como que o cadinho dos raios solares, por meio dos quais se forma esta imagem viva do sol que penetra a terra inteira, vivifica-a, fecunda-a e determina tudo o que se produz na sua superfície, por seus eflúvios e suas correntes contínuas, análogas às do próprio sol”.
Este agente solar é vivente por duas forças contrárias: uma força de atração e uma forma de projeção, o que faz Hermes dizer que ele sempre sobe e desce.
A força de atração se fixa sempre no centro dos corpos, e a forma de projeção nos seus contornos ou na sua superfície.
É por esta dupla força que tudo é criado e tudo subsiste.
Seu movimento é um enrolamento e um desenrolamento sucessivos e indefinidos, ou antes simultâneos e perpétuos, por espirais de movimentos contrários que nunca se encontram.
É o mesmo movimento que o sol, que atrai e repele, ao mesmo tempo, todos os astros do seu sistema.
32
Conhecer o movimento deste sol terrestre, de modo a poder aproveitar das suas correntes e dirigi-las, é ter realizado a grande obra, e é ser senhor do mundo.
Armado de uma tal força, podeis vos fazer adorar e o vulgo vos julgará Deus.
O segredo absoluto desta direção foi possuído por alguns homens, e pode ainda ser achado. É o grande arcano mágico; depende de um axioma incomunicável e de um instrumento que é o grande e único athanor dos hermetistas do mais alto grau.
O axioma incomunicável está contido cabalisticamente nas quatro letras do tetragrama, dispostas do modo como está representado na página seguinte, nas letras das palavras Azoth e Inri, escritas cabalisticamente, e no monograma do Cristo, tal como estava bordado no lábaro, e que o cabalista Postello interpreta pela palavra Rota, da qual os adeptos formaram o seu Tarô ou Tarot, repetindo duas vezes a primeira letra, para indicar o círculo e fazer compreender que a palavra está invertida.
Toda a ciência mágica consiste no conhecimento deste segredo. Conhecê-lo e ousar servir-se dele é a onipotência humana; mas revelá-lo a um profano é perdê-lo; revelá-lo até a um discípulo é abdicar em favor desse discípulo, que, a partir desse momento, tem direito de vida e morte sobre o seu iniciador (fá-lo no ponto de vista mágico), e o matará certamente, temendo a si próprio a morte. (Isto nada tem de comum com os atos qualificados de assassinato em legislação criminal, desde que a filosofia prática, que serve de base e ponto de partida às nossas leis não admite os fatos de enfeitiçamento e influências ocultas).
Nós entramos, aqui, em revelações estranhas, e nos preparamos para todas as incredulidades e todos os desprezos do fanatismo incrédulo; porque a religião de voltariana tem também seus fanáticos, muito embora contra a vontade das grandes sombras que devem amuar-se, agora, de um modo lastimoso, nas carneiras do Pantheon, enquanto catolicismo, sempre forte com suas práticas e seu prestígio, canta o ofício sobre suas cabeças.
A palavra perfeita, aquela que é adequada ao pensamento que exprime, contém sempre virtualmente ou supõe um quaternário: a idéia e suas três formas necessárias e correlativas, depois também a imagem da coisa expressa com os três termos do juízo que a qualifica. Quando digo: “O ente existe", afirmo implicitamente que o nada não existe.
Uma altura, uma largura que a altura divide geometricamente em dois, e uma profundidade separada da altura pela intersecção da largura, eis o quaternário natural composto de duas linhas que se cruzam. Há também, na natureza, quatro movimentos produzidos por duas forças que se sustêm uma à outra por sua tendência contrária. Ora, a lei que rege os corpos é análoga e proporcional àquela que governa os espíritos, e a que governa os espíritos é a própria manifestação do segredo de Deus, isto é, do mistério da criação. Suponde um relógio de duas molas paralelas, com uma endentação que as faça mover em sentido contrário, de modo que, uma afrouxando-se, aperte a
33
outra: assim, o relógio se dará corda por si mesmo, e tereis achado o movimento perpétuo. Esta endentação deve ser para dois fins e de grande precisão. Será impossível de se achar? Não o cremos. Mas quando um homem a tiver descoberto, este homem poderá compreender, por analogia, todos os segredos da natureza: o progresso em razão direta da resistência.
O movimento absoluto da vida é, assim, o resultado perpétuo de duas tendências contrárias que nunca são opostas. Quando uma das duas parece ceder à outra, é uma mola que recebe corda, e podeis esperar uma reação de que é muito possível prever o momento e determinar o caráter; é assim que, na época do maio fervor do cristianismo, o reino do Anticristo foi conhecido e predito. Mas o Anticristo preparará e determinará a nova vinda e o triunfo definitivo do Homem-Deus. Ainda isto é uma conclusão rigorosa e cabalística contida nas premissas evangélicas.
Assim, a profecia cristã contém uma quádrupla revelação:
1ª - a queda do mundo antigo e o triunfo do Evangelho sob a primeira vinda;
2ª - grande apostasia e vinda de Anticristo;
3ª -queda do Anticristo e volta às idéias cristãs;
4ª - triunfo definitivo do Evangelho ou segunda vinda, designada sob o nome de juízo final. Esta quádrupla profecia contém, como se pode ver, duas afirmações e duas negações, a idéia de duas ruínas ou mortes universais e de dois renascimentos; porque a toda idéia que aparece no horizonte social se pode assinar, sem temor de erro, um oriente e um ocidente, um zênite e um nadir. É assim que a cruz filosófica é a chave da profecia, e que se podem abrir todas as portas de ciência com o pantáculo de Ezequiel, cujo centro é uma estrela formada pelo cruzamento de duas cruzes.
A vida humana também não é formada destas quatro fases ou transformações sucessivas: nascimento, vida, morte, imortalidade? E notai que a imortalidade da alma, necessitada como complemento do quaternário, é cabalisticamente provada pela analogia, que é o dogma único da religião verdadeiramente universal, como é a chave da ciência e a lei inviolável da natureza.
A morte, com efeito, não pode ser um fim absoluto, do mesmo modo que o nascimento não é um começo real. O nascimento prova a preexistência do ente humano, pois que nada se produz do nada, e a morte prova a imortalidade, porque o ente não pode cessar de existir, do mesmo modo que o nada não pode cessar de não existir. Ente e nada são duas idéias absolutamente inconciliáveis, com esta diferença: que a idéia do nada (idéia inteiramente negativa) sai da própria idéia do ente, de que o nada nem mesmo pode ser compreendido como uma negação absoluta, ao passo que a idéia do ente nem mesmo pode ser aproximada do nada, e ainda menos sair dele.
Dizer que o mundo saiu do nada é proferir um monstruoso absurdo. Tudo o que existe procede do que existia; por conseguinte, tudo que existe nunca poderá não existir mais. A sucessão das formas é produzida pelas alternativas do movimento: são fenômenos da vida que se substituem uns aos outros, sem de destruírem. Tudo muda, porém nada perece. O sol não está morto quando desaparece no horizonte; até as formas mais móveis são imortais e sempre substituem na permanência da sua razão de ser, que é a combinação da luz com os poderes agregativos das moléculas da substância
34
prima. Por isso, elas se conservam no fluido astral, e podem ser evocadas e reproduzidas conforme a vontade do sábio, como o veremos ao tratar da Segunda vista e da evocação das lembranças na necromancia e noutras operações mágicas.
Voltaremos a tratar do grande agente mágico no quarto capítulo do Ritual, onde acabaremos de indicar os caracteres do grande arcano e os meios de prender este formidável poder.
Digamos, aqui, duas palavras dos quatro elementos mágicos e dos espíritos elementares.
Os elementos mágicos são: em alquimia, o sal, o mercúrio, o enxofre, e o azoth; em Cabala, o macrocosmo, o microcosmo e as duas mães; em hieróglifos, o homem, o águia, o leão e o touro; em física antiga, conforme os termos e as idéias vulgares, o ar, a água, a terra e o fogo.
Em magia, sabe-se que a água não é a água ordinária; que o fogo não é simplesmente fogo, etc. Estas expressões ocultam um sentido mais elevado. A ciência moderna decompôs os quatro elementos dos antigos e encontrou neles muitos corpos considerados simples. O que é simples é a substância prima e propriamente dita; só há, pois, um elemento material e este elemento se manifesta sempre pelo quaternário, nas suas formas. Conservaremos, pois, a sábia distinção das aparências elementares, admitida pelos antigos, e reconheceremos o ar, o fogo, a terra e a água pelos quatro elementos positivos e visíveis da magia.
O sutil e o espesso, o dissolvente rápido e o dissolvente lento, ou os instrumentos do calor e do frio, formam, em física oculta, os dois princípios positivos e os dois princípios negativos do quaternário, e devem ser figurados assim:
O Azoth
A Águia
O Ar
O Enxofre A Água
O Fogo O Homem
O Leão O Mercúrio
O Sal
O Touro
A Terra
O ar e a terra representam, assim, o princípio masculino, o fogo e a água se referem ao princípio feminino, pois que a cruz filosófica dos pantáculos é, como já dissemos, um hieróglifo primitivo e elementar do lingham dos ginosofistas.
A estas quatro formas elementares correspondem as quatro idéias filosóficas seguintes:
O Espírito
A Matéria
O Movimento
O Repouso
A ciência inteira, com efeito, está na inteligência destas quatro coisas, que a alquimia reduzia a três:
O Absoluto
35
O Fixo
O Volátil
e que a Cabala refere à própria idéia de Deus, que é razão absoluta, necessidade e liberdade, tríplice noção expressa nos livros ocultos dos Hebreus.
Sob os nomes de Kether, Hocmah e Binah para o mundo divino, de Tiphereth, Hesed e Geburah no mundo moral, e, enfim, de Yesod, Hod e Netsah no mundo físico, que, com o mundo moral, está contido na idéia do reino ou Malkuth, explicaremos, no décimo capítulo deste livro, esta teogonia, tão racional quanto sublime.
Ora, os espíritos criados, sendo chamados à emancipação pela prova, são colocados, desde o seu nascimento, entre estas quatro forças, duas positivas e duas negativas, e são postos em condições de afirmar ou negar o bem, de escolher a vida ou a morte. Achar o ponto fixo, isto é, o centro moral da cruz, é o primeiro problema que lhe é dado para resolverem; a sua primeira conquista deve ser a da sua própria liberdade.
Começam, pois, por ser arrastados uns ao norte, outros ao sul; uns à direita, outros à esquerda, e, enquanto não são livres, não podem ter o uso da razão, nem se encarnarão a não ser em formas animais. Estes espíritos não emancipados, escravos dos quatro elementos, são o que os cabalistas chamam os demônios elementares, e povoam os elementos que correspondem ao seu estado de servidão. Existem, pois, realmente silfos, ondinas, gnomos e salamandras, uns errantes e procurando encarnarem-se, outros encarnados e vivendo na terra. Estes são os homens viciosos e imperfeitos.
Voltaremos a este assunto no décimo quinto capítulo, que trata dos encantamentos e dos demônios.
É também uma tradição de física oculta que fez ser admitida, pelos antigos, a existência das quatro idades do mundo; somente que não se dizia ao vulgo que essas quatro idades deviam ser sucessivas, como as quatro estações do ano e renovar-se também. Assim, a idade de ouro passou e ainda está para vir. Mas isto se refere ao espírito de profecia, e falaremos disso no capítulo nono, que trata do iniciado e do vidente.
Ajuntaremos, agora, a unidade ao quaternário, e teremos conjunta e separadamente as idéias da síntese e da análise divinas, o deus dos iniciados e dos profanos. Aqui o dogma se populariza e torna-se menos abstrato; o grande hierofante intervém.
5 h E
36
O Pentagrama
GEBURAH - Ecce
Até agora expusemos o dogma mágico no que tem de mais árido e mais abstrato; aqui começam os encantamentos; aqui podemos anunciar os prodígios e revelar as coisas ocultas.
O pentagrama exprime a dominação do Espírito sobre os elementos, e é por este signo que encadeamos os Silfos do ar, as salamandras do fogo, as Ondinas da água e os Gnomos da terra.
Armado deste signo e convenientemente disposto, podeis ver o infinito através daquela faculdade que é como que o olho de vossa alma, e vós vos fareis servir por legiões de anjos e colunas de demônios.
E, primeiramente, estabeleçamos princípios:
Não há mundo invisível, há somente vários graus de perfeição nos órgãos.
O corpo é a representação grosseira e como que a casca passageira da alma.
A alma pode perceber de si mesma e sem intermédio dos órgãos corporais, por meio da sua sensibilidade e do seu diáfano, as coisas quer espirituais, quer corporais, que existem no universo.
Espiritual e corporal são palavras que somente exprimem os graus de tenuidade ou densidade da substância.
37
O que se chama, em nós, imaginação, não é mais que propriedade inerente à nossa alma de se assimilar as imagens e os reflexos contidos na luz viva, que é o grande agente magnético.
Estas imagens e estes reflexos são revelações, quando a ciência intervém para nos revelar o seu corpo ou a sua luz. O homem de gênio difere do sonhador e do louco somente nisto: as suas criações são análogas à verdade, ao passo que a dos sonhadores e loucos são reflexos perdidos e imagens desviadas.
Assim, para o sábio, imaginar é ver, como, para o mago, falar é criar.
Podem-se, pois, ver realmente e em verdade os demônios, as almas, etc., por meio da imaginação; mas a imaginação do adepto é diáfana, ao passo que a do vulgo é opaca; a luz de verdade atravessa uma como por janela esplêndida, e se refrata na outra como uma massa vítrea cheia de escórias e corpos estranhos.
O que contribui mais para os erros do vulgo e as extravagâncias da loucura são os reflexos das imaginações depravadas umas nas outras.
Mas o vidente sabe, com certeza, que as coisas imaginadas por ele são verdadeiras, e a experiência sempre confirma as suas visões.
Dizemos, no Ritual, por que processo se adquire esta lucidez.
É por meio desta luz que os visionários extáticos se põem em comunicação com todos os mundos, como isso acontecia tão freqüentemente a Emanuel Swedenborg, que, não obstante, não era perfeitamente lúcido, pois que não discernia os reflexos dos raios e misturava, às vezes, ilusões aos seus mais admiráveis sonhos.
Dizemos sonhos, porque o sonho é o resultado de um êxtase natural e periódico que se chama sono. Estar em êxtase é dormir; o sonambulismo magnético é uma reprodução do êxtase.
Os erros do sonambulismo são ocasionados pelos reflexos do diáfano das pessoas acordadas, e principalmente do magnetizador.
O sonho é a visão produzida pela refração de um raio de verdade; a ilusão é a alucinação ocasionada por uma reflexão.
A tentação de Santo Antonio, com seus pesadelos e monstros, representa a confusão dos reflexos com os raios diretos. Enquanto a alma luta, ela é razoável; quando sucumbe a esta espécie de embebedamento invasor, é louca.
Distinguir o raio direto e o separar do reflexo, tal é a obra do iniciado.
Agora, digamos alto que esta obra sempre foi realizada por alguns homens de “elite” no mundo; que a revelação por intuição é, assim, permanente, e que não há barreira intransponível que separe as almas, porque na natureza não há nem interrupções repentinas nem muralhas abruptas que possam separar os espíritos. Tudo é transição e matizes e, se supusermos a perfectibilidade, se não infinita, ao menos indefinida das faculdades humanas, veremos que todo homem pode chegar a tudo ver, e, por conseguinte, a tudo saber, ao menos num círculo que pode alargar indefinidamente.
Não há vácuo na natureza, tudo é povoado. Não há morte real na natureza, tudo está vivo.
38
"Vedes esta estrela?" - dizia Napoleão ao cardeal Fresch. - "Não, Senhor" - "Pois bem, eu a vejo!” E, certamente, ele a via.
É por isso que acusam os grandes homens de terem sido supersticiosos: é que eles viram o que o vulgo não vê.
Os homens de gênio diferem dos simples videntes pela faculdade que possuem de fazer sentir aos outros homens o que vêem e de se fazer crer por entusiasmo e simpatia.
São os médiuns do Verbo divino.
Digamos, agora, como se opera a visão. Todas as formas correspondem a idéias, e não há idéia que não tenha sua forma própria e particular.
A luz primordial, veículo de todas as idéias, é a mãe de todas as formas, e transmite-as de emanação em emanação, apenas diminuídas ou alteradas por causa da densidade dos meios.
As formas secundárias são reflexos que voltam ao foco da luz emanada.
As formas dos objetos, sendo uma modificação da luz, ficam na luz onde o reflexo as envia. Por isso, a luz astral ou o fluido terrestre, que chamamos o grande agente mágico, está saturado de imagens ou reflexos de toda espécie os quais a nossa alma pode evocar e submeter ao seu diáfano, como falam os cabalistas. Estas imagens sempre nos estão presentes e somente se acham apagadas pelas impressões mais fortes da realidade durante a vigília, ou pelas preocupações do nosso pensamento, que deixa a nossa imaginação desatenta ao panorama móvel da luz astral. Quando dormimos, este espetáculo se apresenta por si mesmo a nós, e é assim que se produzem os sonhos: sonhos incoerentes e vagos, se alguma vontade dominante não fica ativa no sono e não dá, mesmo contra a vontade da nossa inteligência, uma direção ao sonho, que, então, se transforma em visão.
O magnetismo animal não é nada mais do que um sono artificial produzido pela união, quer voluntária, quer forçada, de duas almas, uma das quais está acordada, enquanto a outra dorme, isto é, uma das quais dirige a outra na escolha dos reflexos para mudar os sonhos em visões e saber a verdade por meio das imagens. Assim, as sonâmbulas não vão realmente aos lugares aonde o magnetizador as manda; elas evocam as suas imagens na luz astral, e nada podem ver do que não existe nesta luz.
A luz astral tem uma ação direta sobre os nervos, que são os condutores, na economia animal, e que a levam ao cérebro; por isso, no estado de sonambulismo, pode-se ver pelos nervos, e sem mesmo ter necessidade da luz irradiante, o fluido astral sendo uma luz latente, como a física reconheceu que existe um calórico latente.
O magnetismo entre dois é, sem dúvida, uma descoberta maravilhosa; mas o magnetismo de um só, dirigindo-se a si mesmo, ficando lúcido à vontade, é a perfeição da arte mágica; e o segredo desta grande obra não está para ser achado: foi conhecido e praticado por um grande número de iniciados, e principalmente pelo célebre Apolônio de Thyana, que deixou dele uma teoria, como veremos no nosso Ritual.
O segredo da lucidez magnética e da direção dos fenômenos do magnetismo provém de duas coisas: da harmonia das inteligências e da união perfeita das vontades numa direção possível e determinada pela ciência; isto é, para o magnetismo operado entre diversos. O magnetismo solitário exige preparações de que falamos no nosso primeiro capítulo, quando enumeramos e fizemos ver, em toda a sua dificuldade, as qualidades exigidas para ser um verdadeiro adepto.
39
Esclareceremos cada vez mais este ponto importante e fundamental nos capítulos que vão seguir.
Este império da vontade sobre a luz astral, que é a alma física dos quatro elementos, é figurado em magia, pelo pentagrama, cuja figura colocamos no frontispício deste capítulo.
Assim, os espíritos elementais são submissos a este signo, quando é empregado com inteligência, e pode-se, colocando-o no círculo ou na mesa das evocações, fazê-los dóceis, o que, em magia se chama prendê-los.
Expliquemos, em poucas palavras, esta maravilha. Todos os espíritos criados comunicam entre si por sinais e aderem a um certo número de verdades expressas por certas formas determinadas.
A perfeição das formas aumenta em razão do desembaraço dos espíritos, e os que não estão presos pelas cadeias da matéria reconhecem, à primeira intuição, se um signo é a expressão de um poder real ou de uma vontade temerária.
A inteligência do sábio dá, pois, valor ao seu pantáculo, como a sua ciência dá peso à sua vontade, e os espíritos compreendem imediatamente este poder.
Assim, com o pentagrama, pode-se forçar os espíritos a aparecerem em sonho, quer durante a vigília, quer durante o sono, trazendo eles mesmos, diante do nosso diáfano, o seu reflexo, que existe na luz astral, se viveram, ou um reflexo análogo ao seu verbo espiritual, se não viveram na terra. Isto explica todas as visões e demonstra, principalmente, por que os mortos aparecem sempre aos videntes, quer como eram na terra, quer como estão ainda no túmulo, nunca como estão numa existência que escapa às percepções do nosso organismo atual.
As mulheres grávidas estão, mais que os outros, sob a influência da luz astral, que concorre para a formação dos seus filhos, e que lhes apresenta, sem cessar, as reminiscências de formas de que está cheia. É assim que as mulheres muito virtuosas enganam por semelhanças equívocas a malignidade dos observadores. Elas imprimem, muitas vezes, ao fruto do seu casamento uma imagem que as comoveu em sonho, e é assim que as mesmas fisionomias se perpetuam, de século em século.
O uso cabalístico do pentagrama pode, pois, determinar a figura dos filhos a nascer, e uma mulher iniciada pode dar a seu filho as feições de Nereu ou de Aquiles, como as de Luiz XIV ou de Napoleão. Nós indicamos no nosso Ritual o modo de o fazer.
O pentagrama é o que se chama, em Cabala, o signo do microcosmo, o signo cujo poder Goethe exalta no belo monólogo do Fausto:
"Ah! como a esta vista todos meus sentidos estremeceram! Sinto a juvenil e santa volúpia da vida ferver nos meus nervos e nas minhas veias. Será um Deus aquele que traçou este signo que acalma a vertigem de minh’alma, enche de alegria meu pobre coração, e, numa impulsão misteriosa, desvenda ao redor de mim as forças da natureza? Sou um Deus? Tudo se torna tão claro para mim; vejo, nestes simples traços, a natureza ativa se revelar à minh’alma. Agora, pela primeira vez, reconheço a verdade desta palavra do sábio: - O mundo dos espíritos não está fechado! Teu sentido está obtuso, teu coração está morto. Levanta-te! Banha, ó adepto da ciência, o teu peito, ainda envolto de um véu terrestre, nos esplendores do dia nascente!" - (Fausto, 1 parte, cena 1).
Foi em 24 de Julho de 1854 que o autor deste livro, Eliphas Levi, fez em Londres a experiência da evocação pelo pentagrama, depois de se ter preparado, para isso, por todas as cerimônias que estão marcadas no Ritual. O sucesso desta experiência, cujas razões e detalhes damos no 13º capítulo do
40
Dogma e as Cerimônias no 13º capítulo do Ritual, estabelecem um novo fato patológico que os homens de verdadeira ciência admitirão sem dificuldade. A experiência, reiterada até três vezes, deu resultados verdadeiramente extraordinários, mas positivos e sem mistura alguma de alucinação. Convidamos os incrédulos a fazerem um ensaio consciencioso e razoável, antes de levantar os ombros e sorrir.
A figura do Pentagrama, aperfeiçoada conforme a ciência e que serviu ao autor para esta prova, é a que está no começo deste capítulo e que não se acha tão completa nem nas clavículas de Salomão, nem nos calendários mágicos de Tycho-Brahé e Duchenteau.
Observemos somente que o uso do pentagrama é muito perigoso para os operadores que não tem completa e perfeita inteligência dele. A direção das pontas da estrela não é arbitrária, e pode mudar o caráter de toda operação, como explicaremos no Ritual.
Paracelso, este inovador em magia, que sobrepujou todos os outros iniciados pelos sucessos de realização obtidos por ele só, afirma que todas as figuras mágicas e todos os signos cabalísticos dos pantáculos aos quais os espíritos obedecem, se reduzem a dois, que são a síntese de todos os outros; o signo do macrocosmo ou do selo de Salomão, cuja figura já demos e reproduzimos na página seguinte, e o do microcosmo, ainda mais poderoso que o primeiro, isto é, o pentagrama, do qual dá, na sua filosofia oculta, uma minuciosa descrição.
Se perguntarem como um signo pode ter tanto poder sobre os espíritos elementais, perguntaremos, por nossa vez: por que o mundo cristão se prosternou diante do sinal da cruz? O sinal por si mesmo nada é, e só tem força pelo dogma de que é resumo e verbo. Ora, um signo que resume, exprimindo-as, todas as forças ocultas da natureza, um signo que sempre manifestou aos espíritos elementares e outros um poder superior à sua natureza, naturalmente os enche de respeito e temor e os força a obedecer, pelo império da ciência e da vontade sobre a ignorância e a fraqueza.
É também pelo pentagrama que se medem as proporções exatas do grande e único athanor necessário à confecção da pedra filosofal e à realização da grande obra. O alambique mais perfeito que possa elaborar a quintessência é conforme esta figura, e a própria quintessência é figurada pelo signo do pentagrama.
Comentários
Postar um comentário