Dogma e Ritual da Alta Magia - parte 12


“Refere o certificado dado pelo Sr. Nicolau de Harlay, muito hábil em linguagem hebraica, que reconhece que a Senhora Ranfaing era realmente possessa, e que ele tinha respondido somente com o movimento dos lábios e sem que tivesse pronunciado palavra alguma, e ela havia dado várias provas da sua possessão. O Sr. Garnier, doutor da Sorbonne, tendo-lhe dado também várias ordens em língua hebraica, ela lhe respondeu pertinazmente, dizendo que o pacto era que só falaria língua ordinária. O demônio acrescentou: “Não é bastante que te mostre que entendo o que dizes?” O mesmo Sr. Garnier, falando-lhe em grego, empregou por distração um caso por outro. A possessa, ou antes o diabo, lhe disse: Tu erraste. O doutor disse-lhe em grego: Mostra o meu erro. O diabo respondeu: Contenta-te que denuncie o teu erro: não te falarei mais nada dele. O doutor dizendo-lhe que se calasse, ele lhe respondeu: Ordenas-me que me cale, e eu não me quero calar.
Este notável exemplo de afecção histérica levada até ao êxtase e a demonomania, depois de um filtro administrado por um homem que se julgava feiticeiro, prova, mais do que tudo o que poderíamos dizer da onipotência da vontade e da imaginação reagindo uma sobre a outra e a estranha lucidez dos extáticos e sonâmbulos, que entendem a palavra lendo-a no pensamento, sem ter a ciência das palavras. Não ponho, de modo algum, em dúvida a sinceridade das testemunhas mencionadas por Dom Calmet; admiro-me somente de que homens tão sérios não tivessem notado esta dificuldade que tinha o pretenso demônio em lhes responder numa língua estranha à da doente. Se o meu interlocutor fosse o que entendiam por um demônio, não somente teria entendido o grego, mas também teria falado em grego; um não custaria mais do que o outro para um espírito tão sábio e maligno.
Dom Calmet não diz só isso a respeito da história da Senhora Ranfaing; conta uma série de perguntas insidiosas e de ordens pouco sérias da parte dos exorcistas, e uma série de respostas mais ou menos confusas da pobre doente, sempre extática e sonâmbula. Este bom padre não deixa de tirar disso as conclusões luminosas deste outro bom Sr. de Mirville. As coisas que se passavam estando acima da inteligência dos assistentes, deve-se concluir que tudo isso era obra do inferno. Bela e sábia conclusão! O mais sério do negócio é que o médico Poirot foi julgado como mago e, posto em torturas, confessou a sua falta, sendo queimado. Se realmente, por meio de um filtro qualquer, tinha atentado contra a razão desta mulher, merecia ser punido como envenenador: é tudo o que podemos dizer.
Mas os filtros mais terríveis são as exaltações místicas de uma devoção mal entendida. Que impurezas igualarão os pesadelos de Santo Antonio e os tormentos de Santa Teresa e de Santa Ângela de Foligny. Esta última aplicava um ferro em brasa à sua carne revoltada, e achava que o fogo material era um refrigério para os seus ardores ocultos. Com que violência a natureza pede o que lhe recusam dar, pensando continuamente em o detestar! É pelo misticismo que começaram os pretensos enfeitiçamentos das Madalenas de Bavan, das senhoritas De la Palud e De la Cadière. O temor excessivo de uma coisa quase sempre a torna inevitável. Seguindo as duas curvas de um círculo chega-se ao mesmo ponto. Nicolau Remigius, juiz criminal em Lorena, que fez queimar vivas oitocentas mulheres como feiticeiras, via a magia em toda parte; era a sua idéia fixa, a sua loucura. Queria pregar uma cruzada contra os feiticeiros, de que via cheia a Europa; desesperado por não ser acreditado sobre palavra, quando afirmava que quase todos eram culpados de magia, acabou por declarar feiticeiro a si próprio e foi queimado pelas suas próprias afirmações.
Para se preservar das más influências, a primeira condição seria, pois, evitar que a imaginação se exalte. Todos os exaltados são mais ou menos loucos, e sempre é fácil dominar um louco, tomando-o pela sua loucura. Ponde-vos, pois, acima dos temores pueris e desejos vagos; crede na sabedoria suprema e ficai convencido de que esta sabedoria, tendo-vos dado a inteligência para único meio de a conhecer, não pode querer armar laços à vossa inteligência ou razão. Vedes em toda parte, ao redor de vós, efeitos proporcionados às causas; vedes as causas dirigidas e modificadas no domínio do homem pela inteligência; vedes, em suma, o bem ser mais forte e mais preferido que o mal: por
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que suporeis, no infinito, uma imensa irracionalidade, se há razão no finito? A verdade não se oculta a ninguém. Deus é visível nas suas obras, e nada pede aos seres contra as leis da natureza deles, da qual ele próprio é autor. A fé e a confiança; tende confiança não nos homens que vos falam mal da razão, porque são loucos ou impostores, mas sim na eterna razão que é o verbo divino, esta luz verdadeira oferecida, como o sol, à intuição de toda criatura humana que vem a este mundo.
Se acreditardes na razão absoluta e se desejais mais do que tudo a verdade e a justiça, não deveis temer ninguém, e só amareis os que são amáveis. A vossa luz natural repelirá instintivamente a dos malvados, porque ela será dominada pela vossa vontade. Assim, até as substâncias venenosas que poderiam vos ser administradas não afetarão a vossa inteligência. Poderão tornar-vos doente, mas nunca vos farão ficar criminoso.
O que contribui para tornar histéricas as mulheres é a sua educação débil e hipócrita. Se fizessem mais exercícios, se lhes ensinassem as coisas do mundo, franca e liberalmente, elas seriam menos caprichosas, menos vaidosas, menos fúteis e, por conseguinte, menos acessíveis às más seduções. A fraqueza sempre se simpatiza com o vício, porque o vício é uma fraqueza que se dá aparência de uma força. A loucura tem horror à razão e se compraz em todas as coisas com as exagerações da mentira. Curai, pois, primeiramente a vossa inteligência doente. A causa de todos os enfeitiçamentos, o veneno de todos os filtros e a força de todos os feiticeiros estão aí.
Quanto aos narcóticos ou outros venenos que nos poderiam ser administrados, é negócio de medicina e de justiça; mas não pensamos que tais barbaridades se reproduzam muito atualmente. Os Lovelaces não adormecem mais as Clarisses a não ser pelas suas galanterias, e as beberagens, como os raptos por homens mascarados e as prisões em subterrâneos, não teriam mais lugar nem mesmo nos nossos romances modernos. É preciso deixar tudo para o confessionário dos penitentes negros ou nas ruínas do castelo de Udolph.
CAPÍTULO XIX
O MAGISTÉRIO DO SOL
Chegamos ao número que, no Tarô, é marcado pelo signo do Sol. O denário de Pitágoras e o ternário multiplicado por si mesmo representam, com efeito, a sabedoria aplicada de modo absoluto. É, pois, do absoluto que vamos falar aqui.
Achar o absoluto no infinito, no indefinido e no finito, tal é a grande obra dos sábios, o que Hermes chama a obra do Sol.
Achar as bases inabaláveis da verdadeira fé religiosa, da verdade filosófica e da transmutação metálica, é todo o segredo de Hermes, é pedra filosofal. Esta pedra é uma e múltipla. É decomposta pela análise e recomposta pela síntese. Na análise, é um pó, o pó de projeção dos alquimistas; antes da análise e na síntese é uma pedra.
A pedra filosofal, dizem os mestres, não deve ser exposta ao ar, nem aos olhares dos profanos; é preciso tê-la oculta e conservá-la com cuidado no lugar mais secreto do seu laboratório e trazer sempre consigo a chave do lugar em que está guardada.
Aquele que possui o grande arcano é um rei verdadeiro e mais que um rei, porque é inacessível a todos os temores e a todas as esperanças vãs. Em todas as doenças da alma ou do corpo, uma única parcela destacada da preciosa pedra, um só grão do divino pó, é mais que suficiente para o curar Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!, como dizia o Mestre.
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O sal, o enxofre e o mercúrio, são apenas elementos acessórios e instrumentos passivos da grande obra.
Tudo depende, como dissemos, do magnes interior de Paracelso. A obra está totalmente na projeção, e a projeção se realiza perfeitamente pela inteligência efetiva e realizável de uma só palavra. Há uma só operação importante na obra: ela consiste na sublimação, que não é outra coisa, conforme Geber, senão a elevação da coisa seca por meio do fogo, com aderência ao seu próprio vaso.
Aquele que quer chegar à inteligência da grande palavra e à posse do grande arcano, deve, depois de ter meditado no princípio do nosso Dogma, ler com atenção os filósofos herméticos, e, sem dúvida, chegará à iniciação como outros chegaram a ela; mas é preciso tomar por chave das suas alegorias o dogma único de Hermes, contido na sua tábua de esmeralda, e seguir, para classificar os conhecimentos e dirigir a operação, a ordem indicada no alfabeto cabalístico do Tarô, de que damos a explicação total e absoluta no último capítulo desta obra.
Entre os livros raros e preciosos que contêm os mistérios o grande arcano, é preciso contar em primeira linha, o Caminho Químico ou Manual de Paracelso, que contém todos os mistérios da física demonstrativa e da mais secreta Cabala. Este livro manuscrito, precioso e original, só se acha na biblioteca do Vaticano. Sandivogius tirou dele uma cópia de que o barão de Tschoudy se serviu para compor o catecismo hermético contido na sua obra intitulada: A Estrela Flamejante. Este catecismo, que indicamos aos sábios cabalistas como podendo substituir o tratado incomparável de Paracelso, contém todos os princípios verdadeiros da grande obra, expressos de um modo tão satisfatório e tão claro, que é preciso ter falta absoluta de compreensão especial do ocultismo para não chegar à verdade absoluta, meditando-o. Vamos dar uma análise sucinta dele, com algumas palavras de comentário.
Raimundo Lullo, um dos grandes e sublimes mestres da ciência, disse que, para fazer ouro, é preciso primeiramente possuir ouro. Do nada, nada se faz; a pessoa não cria absolutamente a riqueza: aumenta-a e multiplica-a. Que os aspirantes da ciência entendam, pois, que não se pode pedir ao adepto nem escamoteações, nem milagres. A ciência hermética, como todas as ciências reais, é matematicamente demonstrável. Seus resultados, mesmo materiais, são tão rigorosos como o de uma equação bem feita.
O ouro hermético não é somente um dogma verdadeiro, uma luz sem sombra, uma verdade sem mistura de mentira; é também um ouro material, real e puro é mais precioso do que aquele que se encontra nas minas da terra.
Mas o ouro vivo, o enxofre vivo ou o verdadeiro fogo dos filósofos devem ser procurados na casa do mercúrio. Este fogo alimenta-se do ar; para exprimir a sua força atrativa e expansiva não é possível dar-lhe uma melhor comparação que a do raio, que é primeiramente uma exalação seca e terrestre unida ao vapor úmido, mas que, por tanto se exaltar, vindo a adquirir a natureza ígnea, age sobre o úmido que lhe é inerente, que atrai a si e transmuta na sua natureza; depois do que se precipita com rapidez para a terra, onde é atraído por uma natureza fixa semelhante à sua.
Estas palavras enigmáticas pela forma, mas claras quanto ao fundo, exprimem claramente o que os filósofos entendem pelo seu mercúrio fecundado pelo enxofre, que se faz senhor e regenerador do sal: é o Azoth, a magnésia universal, o grande agente mágico, a luz astral, a luz de vida, fecundada pela força anímica, pela energia intelectual, que eles comparam ao enxofre por causa das suas afinidades com o fogo divino. Quanto ao sal, é a matéria absoluta. Tudo o que é matéria contém sal, e todo sal pode ser mudado em ouro puro pela ação combinada do enxofre e do mercúrio, que, às vezes, age tão rapidamente que a transmutação pode ser feita num instante, numa hora, sem fadiga
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para o operador e quase sem gasto; outras vezes, e conforme as disposições mais contrárias dos meios atmosféricos a operação exige vários dias, vários meses, e até vários anos.
Como já dissemos, existem na natureza duas leis primordiais, duas leis essenciais, que produzem, pelo seu contrabalanço, o equilíbrio universal das coisas: é a fixidez e o movimento, análogos, em filosofia, à verdade e à invenção, e, em concepção absoluta, à necessidade e à liberdade, que são a própria essência de Deus. Os filósofos herméticos dão o nome de fixo a tudo o que é ponderável, a tudo o que tende, pela sua natureza, ao repouso central e à imobilidade; chamam volátil tudo o que obedece mais natural e facilmente à lei do movimento, e formam a sua pedra da análise, isto é, da volatização do fixo, depois da síntese, isto é, da fixação do volátil, o que operam aplicando ao fixo que chamam o seu sal, o mercúrio sulfurado ou a luz de vida, dirigida e tornada onipotente por uma operação secreta. Apoderam-se, assim, de toda a natureza e a sua pedra se acha em toda parte onde há sal, o que faz dizer que nenhuma substância é estranha à grande obra e que é possível mudar em ouro até as matérias mais desprezíveis e em aparência mais vis, o que é verdade neste sentido, como dissemos, é que todas elas contêm o sal principiante, representado nos nossos emblemas pela própria pedra cúbica, como se vê no frontispício simbólico e universal das chaves de Basílio Valentino.
Saber extrair de qualquer matéria o sal puro que nela está oculto é ter o segredo da pedra. Esta pedra é, pois, uma pedra salina que o od ou luz universal astral decompõe ou recompõe; ela é única e múltipla, porque pode dissolver-se como o sal ordinário e incorporar-se a outras substâncias. Obtida pela análise, poderíamos chamá-la o sublimado universal; achada pelo caminho da síntese, é a verdadeira panacéia dos antigos, porque cura todas as doenças, quer da alma, quer do corpo, e foi chamada a medicina por excelência de toda a natureza. Quando a pessoa dispõe, pela iniciação absoluta, das forças do agente universal, tem sempre à sua disposição esta pedra, porque a extração da pedra é, então, uma operação simples e fácil, bem distinta da projeção ou realização metálica. Esta pedra, no estado de sublimado, não deve ser deixada em contato com o ar atmosférico, que poderia dissolvê-lo em parte e fazer-lhe perder a sua virtude. Aliás, não seria sem perigo respirar as suas emanações. O sábio a conserva voluntariamente nos seus envoltórios naturais, porque está certo de extraí-la por um só esforço da sua vontade e uma só aplicação do agente universal nos envoltórios, que os cabalistas chamam cascas. É para exprimir hieroglificamente esta lei de prudência que davam ao seu mercúrio, personificado no Egito por Hermanubis, uma cabeça de cão, e ao seu enxofre, representado pelo Baphomet do templo, ou o príncipe do Sabbat, esta cabeça de bode que fez desacreditar tanto as associações ocultas da Idade Média.
CAPÍTULO XX
A TAUMATURGIA
Definimos os milagres como efeitos naturais de causas excepcionais.
A ação imediata da vontade humana sobre os corpos, ou ao menos esta ação exercida sem meio visível, constitui um milagre na ordem física.
A influência exercida sobre as vontades ou inteligências, quer repentinamente, quer num tempo dado, capaz de prender os pensamentos, mudar as resoluções mais firmes, paralisar as paixões mais violentas, constitui um milagre na ordem moral.
O erro comum, relativamente aos milagres é, considerá-los como efeitos sem causas, como contradições da natureza, como resoluções repentinas da imaginação divina; e ninguém pensa que um único milagre desta sorte romperia a harmonia universal e mergulharia o universo no caos.
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Há milagres impossíveis ao próprio Deus: são os milagres absurdos. Se Deus pudesse ser absurdo um único instante, nem ele nem o mundo não existiriam mais no instante seguinte. Esperar do arbitrário divino um efeito cuja causa se desconhece ou não existe é o que se chama tentar Deus; precipitar-se no vácuo.
Deus age pelas suas obras: no céu opera pelos anjos e na terra pelos homens. Logo, no círculo de ação dos anjos, os anjos podem tudo o que é possível a Deus, e no círculo de ação dos homens, os homens dispõem igualmente da onipotência divina.
No céu das concepções humanas é a humanidade que cria Deus, e os homens pensam que Deus os fez à sua imagem, porque o fazem à sua.
O domínio do homem é toda natureza corporal e visível na terra, e, se não rege os grandes astros e as estrelas, pode ao menos calcular o seu movimento, medir a sua distância e identificar a sua vontade com a sua influência; pode modificar a atmosfera, agir até certo ponto sobre as estações, curar e fazer ficar doentes seus semelhantes, conservar a vida e dar a morte, e pela conservação da vida entendemos, como dissemos, em certos casos, até a ressurreição.
O absoluto em razão e vontade é o maior poder que seja dado ao homem alcançar, e é por meio deste poder que opera o que a multidão admira sob o nome de milagres.
A mais perfeita pureza de intenção é indispensável ao taumaturgo; depois lhe é necessária uma corrente favorável e uma confiança ilimitada.
O homem que chegou a nada desejar e a nada temer é o senhor de tudo. É o que é expresso por esta bela alegoria do Evangelho, em que se vê o Filho de Deus, três vezes vitorioso do espírito impuro, ser servido no deserto pelos anjos.
Nada resiste, na terra, a uma vontade razoável e livre. Quando o sábio diz: “Eu quero”, é o próprio Deus que quer, e tudo o que ordena se realiza.
É a ciência e confiança do médico que fazem a virtude dos remédios, e não existe outra medicina eficaz e real a não ser a taumaturgia.
Por isso, a terapêutica oculta é isenta de qualquer medicamentação vulgar. Emprega principalmente as palavras, as insuflaçãos, e comunica pela vontade uma virtude variada às substâncias mais simples: a água, o óleo, o vinho, a cânfora e o sal. A água dos homeopatas é verdadeiramente uma água magnetizada e encantada que opera pela fé. As substâncias que a ela se acrescentam em quantidades, por assim dizer, infinitesimais, são consagrações e como que sinais da vontade do médico.
O que vulgarmente é chamado charlatanismo é um meio de sucesso real na medicina, se este charlatanismo é bastante hábil para inspirar uma grande confiança e formar um círculo de fé. Em medicina, é principalmente a fé que salva. Não há quase vila que não tenha o seu ou a sua praticante de medicina oculta, e estas pessoas têm, em quase toda parte e sempre, um sucesso incomparavelmente maior que o dos médicos aprovados pela Faculdade. Os remédios que prescrevem são, muitas vezes, ridículos ou bizarros, e têm ainda mais sucesso, porque exigem e realizam mais fé da parte dos pacientes e operadores.
Um antigo negociante nosso amigo, homem de um caráter bizarro e um sentimento religioso muito exaltado, depois de se ter retirado do comércio, pôs-se a exercer gratuitamente e por caridade cristã a medicina oculta, num departamento da França. Só empregava, para específicos, o óleo, as
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insuflaçãos e as preces. Um processo, que lhe foi intentado por exercício ilegal da medicina, pôs o público em condições de verificar que, mais ou menos no espaço de cinco anos, lhe eram atribuídas dez mil curas, e que o número dos crentes aumentava sem cessar, em proporções capazes de alarmar seriamente todos os médicos do país.
Vimos em Mans uma pobre religiosa, que diziam ser um pouco idiota, a qual curava todos os doentes dos campos vizinhos com um elixir e um esparadrapo de sua invenção. O elixir era para uso interno, o esparadrapo para uso externo; deste modo, nada escapava a esta panacéia universal. O emplastro nunca era pregado na pele a não ser nos lugares em que era necessária a sua aplicação; aliás, em toda parte, ele se enrolava e caía; não menos é o que pretendia a boa irmã e o que afirmavam seus doentes. Essa taumaturga teve também processos de concorrência, porque empobrecia a clientela de todos os médicos do país. Foi rigorosamente enclausurada, mas logo foi preciso dá-la, o menos uma vez por semana, ao desejo e à fé das populações. Vimos, no dia das consultas da irmã Joana Francisca, pessoas do campo, chegadas na véspera, esperar a sua ocasião, deitadas à porta do convento; aí tinham dormido sobre a pedra, e esperavam, para voltar, só o elixir e o emplastro da boa irmã. O remédio sendo o mesmo para todas as doenças, pareceria que ela não tinha necessidade de conhecer os sofrimentos dos seus doentes. Todavia, os escutava com atenção e só confiava o seu específico com conhecimento de causa. Aí estava o segredo mágico. A direção de intenção dava ao remédio a sua virtude especial. Este remédio era insignificante por si mesmo. O elixir era aguardente aromatizada e misturada com suco de ervas amargas; o emplastro era feito de uma mistura muito análoga à teriaga, pela cor e pelo cheiro: era, talvez, resina de Borgonha misturada com ópio. Seja o que for, o específico fazia maravilhas e a gente ficaria mal vista, entre as pessoas do campo se pusesse em dúvida os milagres da boa irmã.
Conhecemos, perto de Paris, um velho jardineiro, taumaturgo, que fazia também curas maravilhosas e que punha nas suas garrafinhas o suco de todas as ervas de São João. Este jardineiro tinha um irmão, de espírito forte, que zombava do feiticeiro. O pobre jardineiro, abalado pelos sarcasmos deste incrédulo, começou, então, a duvidar de si mesmo: os milagres cessaram; os doentes perderam a sua confiança e o taumaturgo caído, desesperado, morreu louco.
O abade Thiers, cura de Vibraie, no seu curioso Tratado das Superstições, refere que uma mulher, atingida por uma oftalmia de aparência desesperada, tendo sido repentina e misteriosamente curada, veio confessar-se a um padre por ter recorrido à magia. Ela importunara, por muito tempo, um clérigo que supunha ser mago, para que lhe desse um caráter para trazer consigo, e o clérigo lhe entregara um pergaminho enrolado, recomendando-lhe que se lavasse três vezes por dia com água fresca. O padre pediu o pergaminho e nele achou estas palavras: Eruat diabolus oculos tuos e repleat stercoribus loca vacantia. Traduziu estas palavras à ingênua mulher, que ficou estupefata; mas não era menos verdade que estava curada.
A insuflação é uma das mais importantes práticas da medicina oculta, porque é um sinal perfeito da transmissão da vida. Inspirar, com efeito, quer dizer soprar em alguém ou em alguma coisa, e sabemos, pelo dogma único de Hermes, que a virtude das coisas criou as palavras e que existe uma proporção exata entre as idéias e as palavras, que são formas primárias e realizações verbais das idéias.
Conforme o sopro é quente ou frio, é atrativo ou repulsivo. O sopro quente corresponde à eletricidade positiva e o sopro frio, à eletricidade negativa. Por isso, os animais elétricos e nervosos temem o sopro frio, como se pode fazer a experiência soprando num gato, cujas familiaridades são inoportunas. Olhando fixamente um leão ou um tigre e soprando sobre a sua face, a pessoa os assustaria a ponto de forçá-los a se retirarem e recuarem diante de nós.
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A insuflação quente e prolongada restabelece a circulação do sangue, cura as dores reumáticas e gotosas, restabelece o equilíbrio nos humores e dissipa a fraqueza. Da parte de uma pessoa simpática e boa, é um calmante geral. A insuflação fria apazigua as dores que têm por princípio as congestões e acumulações fluídicas. É preciso, pois, alternar estes dois sopros, observando a polaridade do organismo humano e agindo de um modo oposto sobre os pólos, que devem ser submetidos, um depois do outro, a um magnetismo contrário. Assim, para curar levemente o olho são, depois praticar no olho inflamado insuflações frias, a distância e em proporções exatas com os sopros quentes. Os próprios passes magnéticos agem como o sopro, e são um sopro real por transpiração e irradiação do ar interior, todo fosforescente de luz vital; os passes lentos são um sopro quente que reúne e exalta as energias; os passes rápidos são um sopro frio que dispersa as forças e neutraliza as tendências à congestão. O sopro quente deve fazer-se transversalmente ou de baixo para cima; o sopro frio tem mais força se for dirigido de cima para baixo.
Não respiramos somente pelas narinas e pela boca: a porosidade geral do nosso corpo é um verdadeiro aparelho respiratório, insuficiente, sem dúvida, mas muito útil à vida e à saúde. As extremidades dos dedos, nas quais todos os nervos terminam, fazem irradiar a luz astral ou a aspiram conforme a nossa vontade. Os passes magnéticos sem contato são um simples e ligeiro sopro: o contato acrescenta ao sopro a impressão simpática equilibrante. O contato é bom e até necessário para prevenir as alucinações no começo do sonambulismo. É uma comunhão de realidade física que adverte o cérebro e chama a imaginação que se desvia; mas não deve ser muito prolongado quando se quer magnetizar só. Se o contato absoluto e prolongado é útil em certos casos, a ação que deveis exercer então sobre o paciente se referiria antes à incubação ou à massagem do que ao magnetismo propriamente dito.
Apresentamos exemplos de incubações tirados do livro mais respeitado entre os cristãos; estes exemplos se referem todos à cura das letargias reputadas incuráveis, pois que concordamos em chamar assim as ressurreições. Quanto à massagem, ainda está em grande uso entre os orientais, que a praticam nos banhos públicos e se sentem muito bem com isso. É um sistema de fricções, trações e pressões, exercidas longa e lentamente sobre todos os membros e músculos, e cujo resultado é um equilíbrio novo das forças, um sentimento completo de repouso e bem-estar, com um renovamento muito sensível de agilidade e vigor.
Todo o poder do médico ocultista está na consciência da sua vontade, e toda sua arte consiste em produzir a fé no seu doente. Se podeis crer, dizia o Mestre, tudo é possível àquele que crê. É preciso dominar o seu paciente pela fisionomia, pelo tom, pelo gesto; inspirar-lhe a confiança por alguns modos paternais, fazê-los rir por algum bom e alegre discurso. Rabelais, que era mais mago do que parecia, tinha tomado por panacéia especial o pantagruelismo. Fazia seus doentes rirem-se, e todos os remédios que depois tomavam tinham mais sucesso; estabelecia, entre si e eles, uma simpatia magnética por meio da qual lhes comunicava a sua confiança e o seu bom humor; lisonjeava-os nos seus prefácios e lhes dedicava suas obras. Por isso, estamos convencidos que Gargantua e Pantagruel curaram mais humores negros, mais disposições à loucura, mais manias atrabiliárias, nesta época de ódios religiosos e guerras civis, do que a Faculdade de Medicina inteira teria podido constatar e estudar então.
A medicina oculta é essencialmente simpática. É preciso que uma afeição recíproca ou ao menos uma boa vontade real se estabeleça entre o médico e o doente. Os xaropes e julepos não têm virtude alguma por si mesmos; são aquilo que a opinião comum do agente e do paciente julga deles; por isso a medicina homeopática os suprime sem graves inconvenientes. O óleo e o vinho combinados, quer com sal, quer com a cânfora, poderiam bastar para a cura de todas as chagas e para todas as fricções ou aplicações calmantes. O óleo e o vinho são os medicamentos por excelência da tradição evangélica. É o bálsamo do Samaritano, e no Apocalipse, o profeta, descrevendo grandes flagelos, pede às potências vingadoras que poupem o óleo e o vinho, isto é, que deixem um remédio para
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tantas feridas. O que se chama, entre nós, a extrema-unção, era, entre os primeiros cristãos e na intenção do apóstolo São Tiago, que consignou o preceito na sua Epístola aos fiéis do mundo inteiro, a prática pura e simples da medicina do Mestre. “Se alguém dentre vós estiver doente – escreve ele – faça vir os anciãos da Igreja, que orarão sobre ele e lhe farão unções de óleo, invocando o nome do Mestre”. Esta terapêutica divina perdeu-se progressivamente e tornou-se o hábito de considerar a extrema-unção como uma formalidade religiosa necessária antes de morrer. Contudo, a virtude taumaturga do óleo santo não poderia ser posta completamente em esquecimento pelo dogma tradicional, e dele se faz referência na passagem do catecismo que se refere à extrema-unção.
O que principalmente curava entre os primeiros cristãos era a fé e a caridade. A maior parte das doenças têm a sua fonte em desordens morais: é preciso começar por curar a alma, e o corpo será, depois, facilmente curado.
CAPÍTULO XXI
A CIÊNCIA DOS PROFETAS
Este capítulo é consagrado à adivinhação.
A adivinhação, no seu sentido mais amplo e conforme a significação gramatical da palavra, é o exercício do poder divino e a realização da ciência divina. É o sacerdócio do mago.
Mas a adivinhação, na opinião geral, se refere mais especialmente ao conhecimento das coisas ocultas.
Conhecer os pensamentos mais secretos dos homens, penetrar nos mistérios do passado e do futuro, evocar, de século em século, a revelação rigorosa dos efeitos pela ciência exata das causas, eis o que se chama universalmente a adivinhação.
De todos os mistérios da natureza, o mais profundo é o do coração do homem; e, entretanto, a natureza não permite que a sua profundeza seja inacessível. Apesar da dissimulação mais profunda, apesar da política mais hábil, ela própria traça e deixa observar nas formas do corpo, na luz dos olhares, nos movimentos, no andar, na voz, mil indícios reveladores.
O iniciado perfeito nem mesmo tem necessidade destes indícios; vê a verdade na luz, ressente uma impressão que manifesta o homem inteiro, atravessa os corações com seu olhar e até deve fingir ignorar, para desarmar assim o medo ou o ódio dos malvados que conhece bastante.
O homem que tem má consciência crê sempre que o acusam ou que desconfiam dele; se se reconhecer num rasgo de uma sátira coletiva, tomará para si a sátira inteira e dirá bem alto que o caluniam. Sempre desconfiado, mas tão curioso como medroso, ele é diante do mago como o Satã da parábola ou como estes escribas que o interrogavam para o tentar. Sempre teimoso e sempre fraco, o que teme acima de tudo é reconhecer seus erros. O passado o inquieta, o futuro o amedronta; quereria fazer transigências para consigo e crer que é um homem de bem, de condições cômodas. A sua vida é uma luta contínua entre boas inspirações e maus hábitos; julga-se filósofo à maneira de Aristippo ou Horácio, aceitando toda a corrupção do seu século como uma necessidade que deve sofrer; depois se distrai com algum passatempo filosófico, e de boa vontade apresenta-se com o sorriso protetor de Mecenas, para se persuadir que não é simplesmente um explorador da fome em cumplicidade com Verre ou um complacente de Trimalcion.
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Tais homens são sempre exploradores, até quando fazem boas obras. Se resolverem fazer um donativo à assistência pública, adiam o seu benefício para reter o juro. Este tipo, sobre o qual demoro propositalmente, não é o de um particular: é o de uma classe inteira de homens, com os quais o mago está exposto, principalmente no nosso século, a achar-se muitas vezes em relação. Que ele se conserve na desconfiança de que eles mesmos lhe darão o exemplo, porque encontrará sempre neles seus amigos mais comprometedores e seus inimigos mais perigosos.
O exercício público da adivinhação é não poderia, na nossa época, convir ao caráter de um verdadeiro adepto, porque seria, muitas vezes, obrigado a recorrer ao charlatanismo e às habilidades para conservar a sua clientela e admirar o seu público. Os adivinhos e as advinhas de fama têm sempre uma polícia secreta que as instrui de certas coisas relativas à vida íntima ou aos hábitos dos consultantes. Uma telegrafia de sinais é estabelecida entre a antecâmara e o gabinete; dá-se um número ao cliente que não é conhecido e que vem pela primeira vez; indica-se-lhe um dia e o faz ser seguido; fazem-se as porteiras, vizinhas e criadas falarem, e chega-se, assim, a estes detalhes que transformam o espírito dos simples e lhes dão para um charlatão a estima que deveria ser reservada à ciência sincera e à adivinhação conscienciosa. A adivinhação dos acontecimentos vindouros só é possível para aqueles cuja realização já está contida na sua causa. A alma, olhando pelo aparelho nervoso, inteiramente contido no círculo de luz astral que influi sobre um homem e recebe uma influência dele, a alma do adivinhador, dizemos, pode abraçar numa só intuição tudo o que este homem levantou ao redor de si de amor ou ódio; pode ler suas intenções no seu casamento, prever os obstáculos que vai encontrar no seu caminho, talvez a morte violenta que o espera; mas não pode prever suas determinações privadas, voluntárias, caprichosas, do momento que se seguirá à consulta, a menos que a habilidade do adivinho prepare a realização da profecia. Exemplo: dizeis a uma mulher que deseja encontrar um marido: “Ireis esta tarde ou amanhã de tarde a tal espetáculo, e aí vereis um homem que vos agradará. Este homem não sairá sem vos ter notado e, por um concurso bizarro de circunstâncias, disso resultará, mais tarde, um casamento”. Podeis ficar certo de que, acabando todo o serviço, a senhora irá ao espetáculo indicado, ai verá um homem pelo qual se julgará notada e esperará um próximo casamento. Se o casamento não se faz, ela não vos acusará por isso, porque não quererá perder a esperança de uma nova ilusão e, pelo contrário, virá consultar-vos assiduamente.
Dissemos que a luz astral é o grande livro da adivinhação; os que têm a aptidão para ler neste livro têm-na naturalmente ou adquirida. Há, pois, duas classes de videntes: os instintivos e os iniciados. É por isso que as crianças, os ignorantes, os pastores e até os idiotas têm mais disposições à adivinhação natural do que os sábios e pensadores. Davi, simples pastor, era profeta como depois o foi Salomão, o rei dos cabalistas e magos. As percepções do instinto são, muitas vezes, tão certas como as da ciência; os menos clarividentes na luz astral são os que mais raciocinam.
O sonambulismo é um estado de instinto puro: por isso os sonâmbulos têm necessidade de serem dirigidos por um vidente da ciência; os céticos e raciocinadores só podem desviá-los.
A visão adivinhatória só se opera no estado de êxtase e para chegar a este estado é preciso tornar impossível a dúvida e a ilusão, prendendo ou adormecendo o pensamento.
Os instrumentos de adivinhação são, pois, simples meios de magnetizar a si próprio e distrair-se da luz exterior para se fazer atento unicamente à luz interior. É por isso que Apolônio se envolvia inteiramente num manto de lã e fixava na obscuridade o olhar sobre seu umbigo. O espelho mágico de Du Potet é um maio análogo ao de Apolônio. A hidromancia e a visão no polegar, bem igualado e pintado de preto, são variedades de espelho mágico. Os perfumes e as evocações adormecem o pensamento; a água ou a cor preta absorvem os raios visuais; produz-se, então, um ofuscamento, uma vertigem, que é seguida de lucidez nas pessoas que têm para isso uma aptidão natural ou que estão convenientemente dispostas.
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A geomancia e cartomancia são outros meios para chegar aos mesmos fins: as combinações dos símbolos e números, sendo ao mesmo tempo fortuitas e necessárias, dão uma imagem muito exata das sortes e dos destinos para que a imaginação possa ver a realidade em vez dos símbolos.
Quanto mais o interesse é excitado, tanto mais o desejo de ver é grande, tanto mais a confiança na intuição é completa e tanto mais a visão é clara. Jogar ao acaso pontos de geomancia ou tirar as cartas de modo leviano é brincar como as crianças que tiram a letra mais bonita. As sortes são oráculos somente quando não são magnetizadas pela inteligência e dirigidas pela fé.
De todos os oráculos, o Tarô é o mais surpreendente nas suas respostas, porque todas as combinações possíveis desta chave universal de Cabala dão como soluções oráculos de ciência e verdade. O Tarô era o livro único dos antigos magos; é a Bíblia primitiva, como provaremos no capítulo seguinte, e os antigos o consultavam como os primeiros cristãos consultaram, mais tarde, a Sorte dos Santos, isto é, versículos da Bíblia tirados ao acaso e determinados pelo pensamento de um número.
A senhorita Lenormand, a mais célebre das nossas adivinhas modernas, ignorava a ciência do Tarô ou só a conhecia conforme Etteilla, cujas explicações são obscuridades lançadas sobre a luz. Ela não conhecia nem a alta magia, nem a Cabala, e tinha a cabeça falsificada por uma erudição mal dirigida; mas era intuitiva por instinto, e este instinto a enganava raramente. As obras que deixou são um galamatias legitimista, esmaltado de citações clássicas; mas seus oráculos, inspirados pela presença e o magnetismo dos consultantes, tinham muitas vezes, coisas surpreendentes! Era uma mulher em que o desvanecimento da imaginação e a divagação do espírito se substituíram sempre às afeições naturais do seu sexo. Ela viveu e morreu virgem, como as antigas druidas da ilha de Sayne. Se a natureza a dotara de alguma beleza, facilmente teria, em épocas mais afastadas, representado nos Gálias o papel de uma Veleda ou Melusina.
Quanto mais se empregam cerimônias no exercício da adivinhação, tanto mais é excitada a própria imaginação e a dos consultantes. A conjuração dos quatro, a oração de Salomão, a espada mágica para afastar os fantasmas, podem então, ser empregadas com sucesso; deve-se também evocar o gênio do dia e da hora em que se opera e lhe oferecer o seu perfume especial; depois o operador se põe em relação magnética e intuitiva com a pessoa que consulta, perguntando-lhe que animal lhe é simpático e qual outro lhe é antipático, que flor gosta e que cor prefere. As flores, as cores, os animais referem-se, em classificação analógica, aos sete gênios da Cabala. Os que gostam do azul são idealistas e sonhadores; os que gostam do vermelho são materialistas e coléricos; os que gostam do amarelo são fantásticos e caprichosos; os amadores do verde têm, geralmente, um caráter mercantil e disfarçado; os amigos do preto são fluídos por Saturno; a cor rósea pertence a Vênus, etc. Os que gostam do cavalo são laboriosos, nobres de caráter e, portanto, flexíveis e dóceis; os amigos do cão são amantes fiéis; os do gato são independentes e libertinos. As pessoas francas têm, principalmente, medo de aranhas; as almas ativas são antipáticas à cobra; as pessoas probas e delicadas não podem suportar os ratos e morcegos; os voluptuosos têm horror ao sapo, porque é frio, solitário, feio e triste. As flores têm simpatias análogas às dos animais e das cores, e, como a magia é a ciência das analogias universais, um gosto único, uma única disposição de uma pessoa, faz adivinhar todas as outras. É uma aplicação aos fenômenos da ordem moral da anatomia analógica de Cuvier.
A fisionomia da fronte e do corpo, as rugas da fronte, as linhas da mão fornecem igualmente aos magistas indícios preciosos. A metoposcopia e a quiromancia tornaram-se ciências à parte, cujas observações arriscadas e puramente conjeturais, foram comparadas, discutidas e depois reunidas em corpos de doutrina por Goglieno, Belot, Romphilo, Indagino e Taisnier. A obra deste último é a mais considerável e completa; reúne e comenta as observações e conjeturas de todas as outras.
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Um observador moderno, o cavalheiro D'Arpentigny, deu à quiromancia um novo grau de exatidão pelas suas notas sobre as analogias que existem realmente entre os caracteres das pessoas e a forma, quer total, quer detalhada, das suas mãos. Esta ciência nova foi desenvolvida e fixada, depois, por um artista e ao mesmo tempo um literato cheio de originalidade e fineza. O discípulo ultrapassou o mestre, e já é citado como um verdadeiro mago em quiromancia o amável e espirituoso Desbarrolles, um dos viajantes de que gosta de rodear-se nos seus romances cosmopolitas, o nosso grande narrador Alexandre Dumas.
É preciso também interrogar o consultante sobre seus sonhos habituais: os sonhos são os reflexos da vida, quer interior, quer exterior. Os filósofos antigos faziam grande caso deles; os patriarcas viam neles revelações certas e a maior parte das revelações religiosas foram feitas em sonho. Os monstros do inferno são os pesadelos do cristianismo e, como nota espirituosamente o autor de Smarra, nunca o pincel ou o cinzel teriam reproduzido tais fealdades se não tivesses sido vistas em sonho.
É preciso desconfiar das pessoas cuja imaginação reflete habitualmente coisas feias.
O temperamento também se manifesta pelos sonhos e, como o temperamento exerce sobre a vida uma influência contínua, é necessário conhecê-lo bem para conjeturar com certeza os destinos de uma pessoa. Os sonhos de sangue, prazer e luz são indícios de um temperamento sangüíneo; os sonhos de água, barro, chuva, lágrimas são resultado de uma disposição fleumática; o calor noturno, as trevas, os terrores e fantasmas pertencem aos biliosos e melancólicos.
Sinésio, um dos maiores bispos cristãos dos primeiros séculos, discípulo da bela e pura Hypathia, que foi massacrada por fanáticos depois de ter sido mestra desta bela escola de Alexandria, cuja herança o cristianismo devia partilhar; Sinésio, poeta lírico como Píndaro e Calímaco, religioso como Orfeu, cristão como Esperidião de Tremithonte, deixou um tratado dos sonhos que foi comentado por Cardan. Atualmente, ninguém se ocupa destas magníficas investigações do espírito, porque os fanatismos sucessivos quase forçaram o mundo a desesperar do racionalismo científico e religioso. São Paulo queimou Trismegisto; Omar queimou os discípulos de Trismegisto e São Paulo. Ó perseguidores! ó incendiários! ó zombadores! Quando, pois, tereis terminado as vossas obras de trevas e destruição?
Trithemo, um dos maiores magistas do período cristão, abade irrepreensível de um monastério de beneditinos, sábio teólogo e mestre de Cornélio Agrippa, deixou, entre as suas obras inapreciadas e inapreciáveis, um tratado intitulado: De septem secundeis, id est intelligentiis sive spíritibus orbes post Deum moventibus. É uma chave de todas as profecias antigas e novas e um meio matemático, histórico e fácil de ultrapassar Isaías e Jeremias na previsão de todos os grandes acontecimentos vindouros. O autor esboça, em grandes rasgos, a filosofia da história, e divide a existência do mundo inteiro entre os sete gênios da Cabala. É a maior e mais larga interpretação que porventura tenha sido feita destes sete anjos do Apocalipse, que aparecem alternativamente com trombetas e copos para espalharem o verbo e a realização do verbo sobre o mundo. O reino de cada anjo é de 354 anos e 4 meses. O primeiro é Orifiel, o anjo de Saturno, que começou o seu reino em 13 de março do primeiro ano do mundo (porque o mundo, conforme Trithemo, foi criado no dia 13 de março): o seu reino foi o da selvageria e da noite primitiva. Depois, veio o império de Anael, o espírito de Vênus, que começou em 24 Junho do ano 354 do mundo; então o amor começou a ser o preceptor dos homens; criou a família, e a família conduziu à associação e à cidade primitiva. Os primeiros civilizadores foram os poetas inspirados pelo amor, depois a exaltação da poesia produziu a religião, o fanatismo e a depravação, que, mais tarde, trouxeram o dilúvio. E tudo isso durou até o ano 708 do mundo, no oitavo mês, isto é, até 25 de outubro; e então começou o reino de Zacariel, o anjo de Júpiter, sob o qual os homens começaram a conhecer e disputar entre si a propriedade dos campos e das habitações. Esta foi a época da fundação das cidades e da circunscrição dos impérios,
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a civilização e a guerra foram suas conseqüências. Depois, a necessidade do comércio se fez sentir, e é então que, no ano de 1063 do mundo, em 24 de fevereiro, começou o reino de Rafael, o anjo de Mercúrio, o anjo da ciência e do verbo, o anjo da inteligência e da indústria. Então, as letras foram inventadas. A primeira língua foi hieroglífica e universal, e o monumento que nos resta dela é o livro de Enoque, Cadmo, Tot ou Palamedes, a clavícula cabalística adotada mais tarde por Salomão, o livro místico dos faz Theraphim, Urim e Thumim, a Gênese primitiva do Zohar e de Guilherme Postello, a roda mística de Ezequiel, a rota dos cabalistas, o Tarô, dos magistas e boêmios. Então, foram inventadas as artes, a navegação foi ensinada pela primeira vez; as relações se estenderam, as necessidades se multiplicaram, e chegou logo, isto é, em 26 de junho do ano 1417 do mundo, o reino de Samael, o anjo de Marte, época de corrupção de todos os homens e do dilúvio universal.
Depois de um grande desfalecimento, o mundo esforçou-se em renascer sob Gabriel, o anjo da Lua, que começou o seu reino em 28 de março do ano 1371 do mundo: então, a família de Noé se multiplicou e povoou todas as partes da terra, depois da confusão de Babel, até o reino de Mikael; o anjo do Sol, que começou em 24 de fevereiro do ano 2126 do mundo; e é a esta época que é preciso atribuir a origem das primeiras dominações, o império dos filhos de Nemrod, o nascimento e os primeiros conflitos do despotismo e da liberdade.
Trithemo prossegue este curioso estudo através das idades e mostra, nas mesmas épocas, a volta das ruínas, depois a civilização renascendo pela poesia e o amor, os impérios restabelecidos pela família, engrandecidos pelo comércio, destruídos pela guerra, reparados pela civilização universal e progressiva, depois absorvidos por grandes impérios que são a síntese da história. O trabalho de Trithemo é, sob este ponto de vista, mais universal e independente que o de Bossuet, e é uma chave absoluta da filosofia da história. Os seus cálculos rigorosos e conduzem até o mês de novembro no ano 1879, época do reino de Mikael e da fundação de um novo reino universal. Este reino terá sido preparado por três séculos e meio de angústias e três séculos e meio de esperanças: épocas que coincidem exatamente com o décimo sexto, décimo sétimo, décimo oitavo, e metade do décimo nono para o crepúsculo lunar e a esperança; com o décimo quarto, o décimo terceiro, o duodécimo e metade do undécimo para as provas, a ignorância, as angústias e os flagelos de toda natureza. Vemos, pois, conforme este cálculo, que em 1879, isto é, em 24 anos, um império universal será fundado e dará a paz ao mundo. Este império será político e religioso; dará uma solução a todos os problemas agitados nos nossos dias e durará 254 anos e 4 meses; depois virá de novo o reino de Orifiel, isto é, uma época de silêncio e noite. O próximo império universal estando sob o reino do Sol, pertencerá àquele que tiver as chaves do Oriente, que, neste momento, são disputadas pelos príncipes das quatro partes do mundo; mas a inteligência e a ação são, nos reinos superiores, as forças que governam o Sol, e a nação que, na terra, tem agora a iniciativa da inteligência terá também as chaves do Oriente e fundará o reino universal.
Talvez terá se sofrer, para isso, uma cruz e um martírio análogos aos do Homem-Deus; porém morto ou vivo entre as nações, o seu espírito triunfará e todos os povos do mundo reconhecerão, em 24 anos, a bandeira da França, sempre vitoriosa ou milagrosamente ressuscitada. Tal é a profecia de Trithemo, confirmada por todas as nossas previsões e apoiada por todos os nossos desejos.


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