Dogma e Ritual da Alta Magia - parte 11


Os votos dos pais empenhando o futuro dos seus filhos são enfeitiçamentos assaz condenáveis: as crianças votadas ao branco, por exemplo, não prosperam quase nunca; os que eram votados os celibato caíam ordinariamente na depravação ou no desespero e na loucura. Não é permitido ao homem violentar o destino, e ainda menos impor obstáculos ao legítimo emprego da liberdade.
Acrescentaremos aqui, à maneira de suplemento e apêndice a este capítulo, algumas palavras sobre as mandrágoras e os andróides, que vários magistas confundem com as figurinhas de cera que servem às práticas dos enfeitiçamentos.
A mandrágora natural é uma raiz cabeluda que apresenta, mais ou menos, no seu conjunto, quer a figura de um homem, quer a das partes viris da geração. Esta raiz é levemente narcótica, e os antigos lhe atribuíam uma virtude afrodisíaca que a fazia ser procurada pelas feiticeiras de Tessália para a composição dos filtros.
Esta raiz será, como o supõe um certo misticismo mágico, o vestígio umbilical da nossa origem terrestre? É o que não ousaríamos afirmar seriamente. É certo, não obstante, que o homem saiu do barro da terra; teve, pois, de se formar aí em primeiro esboço sob a forma de uma raiz. As analogias da natureza exigem absolutamente que admitamos esta noção, ao menos como uma possibilidade. Os primeiros homens teriam, pois, sido uma família de gigantescas mandrágoras sensitivas que o sol animou e que por si mesmas se teriam desprendido da terra, o que não exclui em nada e até supõe, pelo contrário, de um modo positivo, a vontade criadora e a cooperação providencial da primeira causa, que temos Razão de chamar Deus.
Alguns antigos alquimistas, surpreendidos por esta idéia, sonharam a cultura da mandrágora, procuraram reproduzir artificialmente um barro bastante fecundo e um sol bastante ativo para humanizar de novo esta raiz e criar assim homens, sem o concurso das mulheres.
Outros, que julgavam ver na humanidade a síntese dos animais, desesperaram de animar a mandrágora; mas realizaram copulações monstruosas e lançaram a semente humana em terra animal, sem produzir outras coisas senão crimes vergonhosos e monstros sem posteridade.
A terceira maneira de formar o andróide pe pelo mecanismo galvanizado. Atribui-se a Aberto, o Grande, um destes autômatos quase inteligentes, e acrescenta-se que São Tomás o quebrou com um só golpe de bastão, porque ficou embaraçado com suas respostas. Este conto é uma alegoria. O andróide de Alberto, o Grande, é a teologia aristotélica da escolástica primitiva, que foi destruída pela Summa de São Tomás, este ousado inovador que foi o primeiro a substituir a lei absoluta da razão ao arbitrário divino, ousando formular este axioma, que não tememos repetir demais, porque provém de um tal mestre: “Uma coisa não é justa porque Deus a quer; mas Deus a quer porque ela é justa”.
O andróide real, o andróide sério dos antigos, era um segredo que escondiam a todas as vistas, e que Mesmer foi o primeiro que ousou divulgar nos nossos dias: era a extensão da vontade do mago num outro corpo, organizado e servido por um espírito elementar; noutros termos mais modernos e inteligíveis, era um paciente magnético.
CAPÍTULO XVII
A ESCRITURA DAS ESTRELAS
Acabamos com o assunto do inferno respiramos a plenos pulmões, voltando à luz depois de ter atravessado os antros da magia negra. Retira-te Satã! renunciamos a ti, às tuas pompas, às tuas
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obras, mas ainda mais às tuas baixezas, às tuas misérias, a teu nado, às tuas mentiras! O grande iniciador viu-te cair do céu como o raio. A lenda cristã converteu-te, fazendo-te pousar docemente a cabeça de dragão sob os pés da mãe de Deus. É para nós a imagem da ignorância e do mistério; tu és a irracionalidade e o fanatismo cego; tu és a inquisição e o seu inferno; tu ficaste, agora, como brinquedo das nossas crianças e teu último lugar é ao lado do Polichinelo; agora não és mais do que um personagem grotesco dos nossos teatros ambulantes e um motivo de ensino para algumas lojas que se dizem religiosas.
Depois da décima sexta chave do Tarô, que representa a ruína do templo de Satã, encontramos, na décima sétima página, um magnífico e gracioso emblema.
Uma mulher nua, uma jovem imortal, derrama na terra a seiva da vida universal que corre de dois vasos, um de ouro e outro de prata; junto a ela está um arbusto em flor, no qual vem pousar a borboleta de Psiquê; em cima dela está uma estrela brilhante de outros raios, ao redor da qual estão em ordem outras sete estrelas.
Creio na vida eterna! Tal é o último artigo do símbolo dos cristãos, e este artigo é, por isso só, uma inteira profissão de fé.
Os antigos, comparando a calma e tranqüila imensidade do céu, todo esmaltado de imóveis luzes, com as agitações e trevas deste mundo, julgaram achar nesse belo livro de letras de ouro a última palavra do enigma dos destinos; eles traçaram, pela imaginação, linhas de correspondência entre estes pontos brilhantes da escritura divina, e dizem que as primeiras constelações observadas pelos pastores da Caldéia foram também os primeiros caracteres da escritura cabalística.
Estes caracteres, expressos primeiramente por linhas, depois encerrados em figuras hieroglíficas, teriam, conforme o Sr. Moreau Dammartin, autor de um tratado muito curioso sobre a origem dos caracteres alfabéticos, determinado os antigos magos na escolha das figuras do Tarô, que este sábio reconhece como nós por um livro essencialmente hierático e primitivo.
Assim, na opinião deste sábio, o tseu chinês, o aleph dos hebreus e o alfa dos gregos, expressos hieroglificamente pela figura do pelotiqueiro, seriam tirados da constelação austral próxima do peixe austral da esfera oriental.
O tcheu chinês, o beth hebreu e o B latino, correspondentes à papiza ou a Juno, foram formados da cabeça do carneiro; o yn chinês, o ghimel hebreu e o G latino, figurados pela imperatriz, seriam tirados da constelação da grande Ursa, etc.
O cabalista Gaffarel, que já citamos mais de uma vez, fez um planisfério no qual todas as constelações formam letras hebraicas; mas confessemos que a sua configuração nos parece, muitas vezes, muito arbitrária e que não entendemos por que, sobre a indicação de uma única estrela, por exemplo, Gaffarel traça antes um r do que um w ou um ]; quatro estrelas dão igualmente um t, um h, um t, tão bem como um a. É o que desviou da idéia de darmos aqui uma cópia do planisfério de Gaffarel, cujas obras, aliás, não são extremamente raras. Este planisfério foi reproduzido na obra de Padre Montfaucon sobre as religiões e superstições do mundo, e encontra-se igualmente uma cópia dele na obra sobre magia, publicada pelo místico Eckartshausen.
Aliás, os sábios não estão de acordo sobre a configuração das letras do alfabeto primitivo. O Tarô italiano, cujos tipos góticos merecem que desejemos a sua conservação, se refere, pela disposição das suas figuras, ao alfabeto hebreu que esteve em uso depois do cativeiro, e que chamamos alfabeto assírio; mas existem fragmentos de outros Tarôs anteriores àquele, nos quais a disposição
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não é mais a mesma. Como nada se deve tratar ao acaso, em meteria de erudição, esperamos, para fixar nosso juízo, novas e mais conclusivas descobertas.
Pelo que diz respeito ao alfabeto das estrelas, cremos que é facultativo, como a configuração das nuvens, que parecem tomar todas as formas que a nossa imaginação lhes dá. Com os grupos de estrelas dá-se o mesmo que com os pontos da geomancia e da reunião das castas na moderna cartomancia. É um pretexto para magnetizar a si próprio e um instrumento que pode fixar e determinar a intenção natural. Assim, um cabalista, habituado com os hieroglíficos místicos verá, nas estrelas, sinais que um simples pastor não descobrirá; mas o pastor, por sua vez, encontrará nela combinações que escapariam ao cabalista.
As pessoas da roça vêem um rato na cintura e na espada de Órion; um cabalista hebreu veria no mesmo Órion, considerado na sua totalidade, todos os mistérios de Ezequiel, as dez sephiroth dispostas em ternário, um triângulo central formado de quatro estrelas, depois uma linha de três formando o iod, e as duas figuras juntas exprimindo todos os mistérios de Bereschit, depois quatro estrelas formando as rodas de Mercavah e completando o carro divino. Olhando de um outro modo e dispondo outras linhas ideais, veria aí um g, ghimel, perfeitamente formado e colocado em cima de um y, iod, num grande d, daleth, voltado para baixo; figura que representa a luta do bem e do mal, com o triunfo definitivo do bem. Com efeito, o g (ghimel), fundado sobre o iod, é o ternário produzido pela unidade, é a manifestação divina do Verbo, ao passo que o daleth virado para baixo é o ternário composto de mau binário multiplicado por si mesmo. A figura de Órion, considerada assim, pois, idêntica à do anjo o Mikael lutando contra o dragão, e a aparição deste signo, apresentando-se sob esta forma, seria, para o cabalista, um presságio de vitória e de felicidade.
Uma longa contemplação do céu exalta a imaginação; as estrelas, então, respondem aos nossos pensamentos. As linhas traçadas mentalmente de uma a outra pelos primeiros contempladores deviam ter dado aos homens as primeiras idéias da geometria. Conforme a nossa alma está agitada ou tranqüila, as estrelas parecem rutilantes de ameaças ou cintilantes de esperanças. O céu é, assim, o espelho da alma humana, e quando julgamos ler nos astros é em nós mesmos que lemos.
Gaffarel, aplicando aos destinos dos impérios os presságios da Escritura celeste, diz que os antigos não figuraram inutilmente na parte setentrional do céu todos os sinais de mau agouro e que, assim, em todos os tempos, as calamidades foram consideradas como devendo vir do norte para se espalhar na terra, invadindo o sul.
“É por isso – diz ele – que os antigos figuraram nestas partes setentrionais do céu uma serpente ou um dragão bem perto das suas ursas, porque estes animais são os verdadeiros hieróglifos da tirania, da pilhagem e de toda espécie de opressão. E, de fato, percorrei os anais, e vereis que todas as grandes desolações que sempre têm acontecido são vindas das partes do setentrião. Os Assírios ou Caldeus, animados por Nabucodonosor ou Salmanassar, fizeram muito bem ver esta verdade pelo incêndio de um templo e de uma cidade, mais suntuosos e mais santos do universo, e pela ruína total de um povo de que o próprio Deus tinha tomado a singular proteção, e do qual particularmente se dizia pai. E a outra Jerusalém, a feliz Roma, não sofreu ela, diversas vezes, as fúrias desta
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malvada raça do setentrião, quando, pela crueldade de Alarico, Genserico, Átila e o resto dos príncipes godos, hunos, vândalos e alanos, viu seus altares derribados e os cimos dos seus soberbos edifícios igualados ao nível dos cardos... Muito bem, pois nos segredos desta escritura celeste lê-se do lado do setentrião as desgraças e os infortúnios, pois que a septentrione pandetur omne malum. Ora, o verbo h t p h, que traduzimos por pandetur, significa também depingetur ou scribetur, e a profecia significa igualmente: todos os males do mundo estão escritos no céu do lado do norte”.
Transcrevemos por inteiro esta passagem de Gaffarel, porque é oportuna no nosso tempo, em que o norte parece ameaçar ainda toda a Europa: mas está também nos destinos dos nevoeiros serem vencidos pelo sol e as trevas devem dissipar-se por si mesmas, chegando à luz. Eis, para nós, a última palavra da profecia e o segredo do futuro.
Gaffarel acrescenta ainda alguns prognósticos tirados das estrelas, por exemplo, o do enfraquecimento progressivo do império otomano; mas, como já dissemos, as suas figuras das letras consteladas são muito arbitrárias. Ele declara, de resto, ter tirado estas predições de um cabalista hebreu chamado Rabi Chomer, que nem mesmo ele se lisonjeia de entender bem.
Damos, a seguir, o quadro dos caracteres mágicos que foram traçados pelos antigos astrólogos, conforme as constelações zodiacais; cada um destes caracteres representa o nome de um gênio, bom ou mau. Sabemos que os signos do Zodíaco se referem a diversas influências celestes, e, por conseguinte, exprimem uma alternativa de bem e de mal.
Os nomes dos gênios designados por estes caracteres são:
Para Áries, Sataaran e Sarahiel;
Para Touro, Bagdal, e Araziel;
Para Gêmeos, Sagras e Saraiel;
Para Câncer, Rahdar e Phakiel;
Para Leão, Sagham e Seratiel;
Para Virgem, Iadara e Schaltiel;
Para Libra, Grasgarben e Hadakiel;
Para Escorpião, Riehol e Saissaiel;
Para Sagitário, Vhnori e Saritaiel;
Para Capricórnio, Sagdalon e Samekiel;
Para Aquário, Archer e Ssakmakiel;
Para Peixes, Rasamasa e Vacabiel.
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O sábio que quer ler no céu deve observar também os dias da lua, cuja influência é muito grande na astrologia. A lua atrai e repele sucessivamente o fluido magnético da terra, e é assim que produz o fluxo e o refluxo do mar: é preciso, pois, conhecer bem as suas fases e saber discernir os seus dias e as suas horas. A lua nova é favorável ao começo de todas as obras mágicas, desde o quarto crescente até a lua cheia, a sua influência é quente; da lua cheia até o quatro minguante, é seca; do quarto minguante até o fim, é fria.
Eis aqui, agora, os caracteres especiais de todos os dias da lua, marcados pelas vinte e duas chaves do Tarô e pelos signos dos sete planetas:
1. O PELOTIQUEIRO OU O MAGO
O primeiro dia da lua é o da criação da própria lua. Este dia é consagrado às iniciativas do espírito, e deve ser propício às inovações felizes.
2. A PAPIZA OU A CIÊNCIA OCULTA
O segundo dia, cujo gênio é Enediel, foi o quinto da criação, porque a lua foi criada no quarto dia. Os pássaros e peixes, que foram criados neste dia, são os hieróglifos vivos das analogias mágicas e do dogma universal de Hermes. A água e o ar, que foram então enchidos pelas formas do Verbo, são as figuras elementares do Mercúrio dos sábios, isto é, da inteligência e da palavra. Este dia é propício para as revelações, iniciações e grandes descobertas da ciência.
3. A MÃE CELESTE OU A IMPERATRIZ
O terceiro dia foi o da criação do homem. Por isso, a lua, em Cabala, é chamada Mãe, quando é representada seguida do número 3. Este dia é favorável Pa geração e geralmente a todas as produções, quer do corpo, quer do espírito.
4. O IMPERADOR OU O DOMINADOR
O quarto dia é funesto: foi o do nascimento de Caim; mas é favorável às empresas injustas e tirânicas.
5. O PAPA OU O HIEROFANTE
O quinto é feliz; foi o do nascimento de Abel.
6. O APAIXONADO OU O DOMINADOR
O sexto dia é um dia de orgulho: foi o do nascimento de Lameth, aquele que dizia às suas mulheres: “Matei um homem que me bateu e um moço que me feriu. Maldito seja quem pretender castigar-me!” Este dia é próprio para as conspirações e revoltas.
7. O CARRO
No sétimo dia, nascimento de Hebron, aquele que deu seu nome à primeira cidade santa de Israel. Dia de religião, de preces e de sucesso.
8. A JUSTIÇA
Assassinato de Abel. Dia da expiação.
9. O VELHO OU O ERMITÃO
Nascimento de Matusalém. Dia de bênção para os filhos.
10. A RODA DA FORTUNA DE EZEQUIEL
Nascimento de Nabucodonosor. Reino da besta. Dia funesto.
11. A FORÇA
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Nascimento de Noé. As visões deste dia são enganosas, mas é um dia de saúde e longevidade para os filhos que nascem.
12. O SACRIFICADO OU O SUSPENSO
Nascimento de Samuel. Dia profético e cabalístico, favorável à realização da grande obra.
13. A MORTE
Dia do nascimento de Chanaã, o filho maldito de Cham. Dia funesto e número fatal.
14. O ANJO DA TEMPERANÇA
Benção de Noé, no décimo quarto dia da lua. A este dia preside o anjo Cassiel, da hierarquia de Uriel.
15. TYPHON OU O DIABO
Nascimento de Ismael. Dia de reprovação e exílio.
16. A TORRE FULMINADA
Dia do nascimento de Jacó e Esaú e da predestinação de Jacó para a ruína de Esaú.
17. A ESTRELA RUTILANTE
O fogo do céu queima Sodoma e Gomorra. Dia de salvação para os bons e de ruína para os maus, perigoso se cair num sábado. Está sob a influência de Escorpião.
18. A LUA
Nascimento de Isaac, triunfo da esposa. Dia de afeição conjugal e de boa esperança.
19. O SOL
Nascimento de Faraó. Dia benéfico ou fatal para as grandezas do mundo, conforme os diferentes méritos dos grandes.
20. O JULGAMENTO
Nascimento de Jonas, órgão dos julgamentos de Deus. Dia propício às revelações divinas.
21. O MUNDO
Nascimento de Saul, realeza material. Perigo para o espírito e a razão.
22. INFLUÊNCIA DE SATURNO
Nascimento de Jó. Dia de prova e dores.
23. INFLUÊNCIA DE VÊNUS
Nascimento de Benjamim. Dia de amor e ternura.
24. INFLUÊNCIA DE JÚPITER
Nascimento de Jafet.
25. INFLUÊNCIA DE MERCÚRIO
Décima praga do Egito.
26. INFLUÊNCIA DE MARTE
Libertação dos Israelitas e passagem do mar Vermelho.
27. INFLUÊNCIA DE DIANA OU DE HECATE.
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Vitória brilhante alcançada por Judas Macabeu.
28. INFLUÊNCIA DO SOL
Sansão carrega as portas de Gaza. Dia de força e libertação.
29. O LOUCO DO TARÔ
Dia de abortamento e insucesso em todas as coisas.
Por esta tábua rabínica, que João Belot e outros tiraram dos cabalistas hebreus, pode-se verificar que estes antigos mestres concluíam a posteriori fatos de influências presumíveis, o que está perfeitamente na lógica das ciências ocultas. Vêem-se também quantos significados diversos se acham contidos nessas vinte e duas chaves que formam o alfabeto universal do Tarô; é a verdade das nossas asserções, quando pretendemos que todos os segredos da Cabala e da magia, todos os mistérios do mundo antigo, toda a ciência dos patriarcas, todas as tradições históricas, dos tempos primitivos, estão contidos neste livro hieroglífico de Tot, Henoque ou Cadmo.
Um meio muito simples de achar horóscopos celestes por onomancia é o que vamos indicar; concilia Gaffarel conosco e pode dar resultados muito admiráveis de exatidão e profundeza.
Tomai de um papel preto no qual dividireis de dia o nome da pessoa para quem consultais; colocai esta carta na ponta de um tubo afinado do lado do olho do observador e mais largo do lado do papel; depois, olhareis para os quatro pontos cardeais alternativamente começando pelo oriente e acabando pelo norte. Tomareis nota de todas as estrelas que virdes através das letras, depois convertereis as letras em números, e, com a soma da adição escrita da mesma forma, renovareis a operação; contareis quantas estrelas tendes; depois, ajuntando este número ao nome, adicionareis de novo e escrevereis o total dos dois números em caracteres hebraicos. Renovareis, então, a operação e inscrevereis à parte as estrelas que tiverdes encontrado; depois procurareis no planisfério celeste os nomes de todas as estrelas; fareis a classificação delas conforme sua grandeza e seu brilho, escolhereis para estrela polar da vossa operação astrológica a maior e mais brilhante de todas; procurareis, depois, no planisfério egípcio (encontra-se um, muito completo e bem gravado, no Atlas da grande obra de Dupuis); procurais os nomes e a figura dos gênios a que as estrelas pertencem. Conhecereis, então, quais são os sinais felizes ou infelizes que entram no nome da pessoa e qual será a sua influência, quer na infância (é o nome traçado no oriente), quer na juventude (é o nome do sul), quer na idade madura (é o nome do ocidente), quer na velhice (é o nome do norte), quer, enfim, em toda a vida (são as estrelas que entram no número total formado pela adição das letras e estrelas). Esta operação astrológica é simples, fácil e necessita poucos cálculos; ela nos leva à mais alta antiguidade e pertence evidentemente, como podereis vos convencer lendo as obras de Gaffarel e as de seu mestre Rabi Chomer, à magia primitiva dos patriarcas.
Esta astrologia onomântica era a de todos os antigos cabalistas hebreus, como o provam as suas observações conservadas por Rabi Chomer, Rabi Kapol, Rabi Abjudam e outros mestres em Cabala. As ameaças dos profetas aos diversos impérios do mundo eram fundadas nos caracteres das estrelas que se achavam verticalmente em cima deles, na relação habitual da esfera celeste para a esfera terrestre. É assim que, escrevendo no próprio céu da Grécia o seu nome em hebraico ךוי ou נוי e traduzindo-o em números, tinham encontrado a palavra כדח , que significa destruído, desolado.
כ ד ח נ ו י
2 2 8 5 6 1
CHARAB JAVAN
Destruído, Desolado Grécia
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Soma 12 Soma 12
Concluíram disso que, depois de um ciclo de doze períodos, a Grécia seria desolada e destruída.
Um pouco antes do incêndio e da destruição do templo de Jerusalém por Nabuzardan, os cabalistas tinham notado verticalmente, em cima do templo, onze estrelas, assim dispostas:
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e que entram todas as palavras חישבח , escrita do setentrião ao ocidente: Hibschich, o que significa reprovação e abandono sem misericórdia. A soma do número das letras é 325, justamente o tempo da duração do templo.
Os impérios da Pérsia e da Assíria eram ameaçados de destruição por 4 estrelas verticais que entraram nestas 3 letras: בוד , Rob, e o número fatal indicado pelas letras era 208 anos.
Quatro estrelas anunciaram também aos rabinos cabalistas daquele tempo a queda e divisão do império de Alexandre, entrando na palavra דדפ para dividir, cujo número 284 indica a duração desse reino, quer desde sua origem, quer nos seus ramos.
Conforme Rab Chomer, os destinos da potência otomana em Constantinopla seriam fixados adiantadamente e anunciados por quatro estrelas que, arranjadas na palavra, האכ , caah, significam ser fraco, doente, tirado do seu fim. As estrelas que na letra א, eram mais brilhantes indicam um
grande א e dão a esta letra o valor de mil. As três letras reunidas fazem 1025, que é preciso contar
da tomada de Constantinopla por Maomé II, cálculo que promete ainda vários séculos de existência ao império enfraquecido dos sultões, agora sustentado pela Europa reunida.
O Mane Thecel Phares, Baltazar, no seu arrebatamento, viu escrito na parede do seu palácio pela irradiação das luzes, era uma intuição onomântica do gênero da dos rabinos. Baltazar, iniciado, sem dúvida, pelos seus adivinhos hebreus à leitura das estrelas, operava maquinal e instintivamente sobre as lâmpadas da sua festa noturna, como poderia fazê-lo sobre as estrelas do céu. As três palavras que formara na sua imaginação tornaram-se logo inapagáveis aos seus olhos e fizeram empalidecer todas as luzes da sua festa. Não era difícil predizer a um rei que, numa cidade assaltada, se entregava às orgias, um fim semelhante ao de Sardanapalo.
Dissemos e repetimos, para concluir este capítulo, que só as intuições magnéticas dão valor e realidade a todos estes cálculos cabalísticos e astrológicos, pueris talvez e completamente arbitrários, se a pessoa os fizesse sem inspiração, por curiosidade fria e sem uma poderosa vontade.
CAPÍTULO XVIII
FILTROS E MAGNETISMO
Viajemos, agora, na Tessália, no país dos encantamentos. É aqui era Apuleio foi enganado como os companheiros de Ulisses e sofreu uma vergonhosa metamorfose. Aqui tudo é mágico, os pássaros que voam, os insetos que zunem na erva, e até as árvores e flores; aqui se compõem ao clarão da lua os venenos que fazem amar; aqui as estriges inventam encantos que as fazem jovens e belas como as Charites. Jovens tomai cuidado convosco.
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A arte dos envenenamentos da razão ou dos filtros parece, com efeito, conforme as tradições, ter desenvolvido com mais luxo na Tessália, que em qualquer outra parte a sua eflorescência venenosa; mas, ainda nisso, o magnetismo representou o papel mais importante, porque as plantas excitantes ou narcóticas, as substâncias animais maleficiadas e doentias, travam toda a sua força nos encantamentos, isto é, dos sacrifícios realizados pelas feiticeiras e das palavras que pronunciavam, preparando os seus filtros e suas beberagens.
As substâncias excitantes e as que contêm mais fósforos são naturalmente afrodisíacas. Tudo o que age vivamente sobre o sistema nervoso pode determinar a sobreexcitação passional e se uma vontade hábil e perseverante sabe dirigir e influir sobre estas disposições naturais, ela se servirá das paixões dos outros em proveito das suas, e reduzirá logo as personalidades mais altivas a tornarem-se, num tempo dado, instrumentos dos seus prazeres.
É de uma tal influência que é importante se preservar e é para dar armas ao fracos que escrevemos este capítulo.
Eis, primeiramente, quais são as práticas do inimigo:
Aquele que se quer fazer amar (atribuímos somente a um homem todas estas manobras ilegítimas, não supondo que uma mulher tenha necessidade delas), aquele, pois, que se quer fazer amar, deve, primeiramente, fazer-se notar e produzir uma impressão qualquer na imaginação da pessoa que deseja. Que a encha de admiração, espanto ou terror, de horror até, se só tiver este expediente; mas é preciso a todo o preço que, para ela, ele saia da posição dos homens comuns e que tome, de boa ou má vontade, um lugar na sua memória, nas suas apreensões e nos seus sonhos. O Lovelace não é, certamente, o ideal escolhido das Clarisses; elas, porém, pensam nele sem cessar, para o reprovar, amaldiçoar, lamentar suas vítimas, desejar sua conversão e seu arrependimento; depois quereriam regenerá-lo pelo devotamento e o perdão; depois a vaidade secreta lhes diz que seria bonito fixar o amor de um Lovelace, ama-lo e resistir-lhe. E eis minha Clarisse que se surpreende a amar o Lovelace; ela não o quer amar, ela cora por isso, ela o renuncia mil vezes e o ama mil vezes mais; depois, quando vem o momento supremo, ela se esquece de lhe resistir.
Se os anjos fossem também mulheres, como os representa o misticismo moderno, Jeová teria agido como pai bem prudente e bem sábio, quando pôs Satã à porta do céu.
Uma grande decepção para o amor-próprio de certas mulheres honestas é achar bom e irreprovável, no íntimo, o homem pelo qual se tinham apaixonado, tomando-o por um bandido. O anjo deixa, então, o bonachão com desprezo, dizendo-lhe: “Tu não és o diabo!” Disfarçai-vos, pois, em diabo o mais perfeitamente possível, vós que quereis seduzir um anjo.
Nada é permitido a um homem virtuoso. “Por quem, com efeito, aquele homem nos toma? – dizem as mulheres – acaso acredita que a gente tem menos moralidade que ele?” Mas tudo é perdoado a um mandrião: “Que quereis esperar de melhor de uma tal pessoa?”
O papel do homem de grandes princípios e caráter rígido só pode ser um poder junto a mulheres que nunca há necessidade de seduzir; todas as outras, sem exceção, adoram os maus homens.
É tudo o contrário nos homens, e é este contraste que fez do pudor o apanágio das mulheres: é nela o primeiro o mais natural dos galanteios.
Um dos médicos mais distintos e um dos mais amáveis sábios de Londres, o doutor Ashburner, contou-me que um dos seus clientes, saindo da casa de uma grande dama, lhe dissera um dia:
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- Acabo de receber um estranho cumprimento. A marquesa de *** me disse, olhando-me face a face: “Senhor, não me fareis abaixar os olhos com vosso terrível olhar”.
- Pois bem! – respondeu-lhe o doutor, sorrindo. – Sem dúvida, vos lançastes imediatamente ao seu pescoço e a abraçastes?
- Não, porém fiquei muito admirado com o apóstrofe.
- Pois então, meu caro, não ides mais à casa dela; estais perdido no seu espírito.
Dizem ordinariamente, que os ofícios de algoz se transmitem de pai a filho. Os algozes têm, pois, filhos? Sem dúvida, pois que nunca faltam mulheres. Marat tinha uma amante que o amava ternamente, a ele, o horrível leproso; mas também era o terrível Marat, que fazia tremer a todos.
Podia-se dizer que o amor , principalmente na mulher, é uma verdadeira alucinação. Apesar de um outro motivo insensato, ela se determinará quase sempre para o absurdo. Enganar Joconda por causa de um tesouro oculto, que horror! – Ora, pois, se é um horror, por que não o fazer? Deve ser tão agradável fazer, de tempos em tempos, um pequeno horror.
Sendo dado este conhecimento transcendental da mulher, há uma segunda manobra a operar para atrair a sua atenção: é não se ocupar dela ou ocupar-se de um modo que humilhe o seu amor-próprio, tratando-a como uma criança e afastando bem longe a idéia de lhe fazer corte. Então, os papéis mudarão: ela fará tudo para vos tentar, ela vos iniciará nos segredos que as mulheres se reservam, vestir-se-á e despir-se-á de vós, dizendo-vos coisas como estas: “Entre mulheres - entre velhos amigos – não vos temo – não sois homem para mim”, etc., etc. Depois observa os vossos olhares, e se os acha calmos e indiferentes, ela ficará irritada; aproximar-se-á de vós sob um pretexto qualquer, vos roçará com seus cabelos, deixará o seu roupão se abrir... Viram-se até algumas, em tais circunstâncias, arriscar um assalto, não por ternura, mas por curiosidade, por impaciência e porque estavam excitadas.
Um mago que tem espírito não tem necessidade de outros filtros a não ser esses; dispõe também das palavras enganosas, dos sopros magnéticos e contatos ligeiros, mas voluptuosos, com uma espécie de hipocrisia, como se não pensasse nisso. Os que dão beberagens devem ser velhos tolos, feios, impotentes; e, então, para que serve o filtro? Todo homem que é verdadeiramente um homem tem sempre à sua disposição os meios de se fazer amar, contanto que não procure obter um lugar já ocupado. Seria soberanamente mal feito tentar a conquista de uma jovem casada por amor, durante as primeiras doçuras da sua lua de mel, ou de uma Clarisse que já tenha um Lovelace que a torna muito infeliz e cujo amor reprova amargamente.
Não falaremos aqui das imundícies da magia negra a respeito dos filtros; acabamos com elas com as cozinhas de Canidia. Pode-se ver, nos Epodos de Horácio, como esta abominável feiticeira de Roma compunha os venenos, e pode-se, para os sacrifícios e encantamentos de amor, ler as Eglogas e Teócrito e Virgílio, nas quais as cerimônias dessas espécies de obras mágicas são minuciosamente descritas. Não transcreveremos aqui as receitas dos engrimanços, nem as do Pequeno Alberto, que todos podem consultar. Todas estas diferentes práticas participam do magnetismo ou da magia envenenadora, e são ingênuas ou criminosas.
As beberagens, que enfraquecem o espírito e perturbam a razão, podem assegurar o império já conquistado por uma vontade má e é assim que, conforme dizem, a imperatriz Cesônia fixou o amor feroz de Calígula. O ácido prússico é o mais terrível agente destes envenenamentos do pensamento. É por isso que é preciso evitar qualquer distilação que tenha o gosto de amêndoa, afastar do seu
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quarto de dormir as amendoeiras e os daturas, os sabonetes de amêndoas, os leites de amêndoas e, em geral, todas as composições de perfumaria em que o cheiro das amêndoas dominarem, principalmente se a sua ação sobre o cérebro for ajudada pela do âmbar.
Diminuir a ação da inteligência é aumentar, igualmente, as forças de uma paixão insensata. O amor, tal como o querem inspirar os malfeitores de que falamos aqui, seria um verdadeiro embrutecimento e a mais vergonhosa de todas as escravidões morais.
Quanto mais excitarmos um escravo, mais o tornamos incapaz de se libertar, e é este verdadeiramente o segredo da magia de Apuleio e das beberagens de Circe.
O emprego do fumo, quer como tabaco, quer para fumar, é um auxiliar perigoso dos filtros entorpecedores e dos envenenamentos da razão. A nicotina, como se sabe, não é um veneno menos violento que o ácido prússico e se acha em maior quantidade no fumo do que este ácido nas amêndoas.
A absorção de uma vontade por outra muda, muitas vezes, uma série inteira de destinos, e não é somente para nós mesmos que devemos velar sobre nossas relações e aprender a discernir as atmosferas puras das atmosferas impuras; porque os verdadeiros filtros, os filtros mais perigosos, são invisíveis, são as correntes de luz irradiante que, misturando-se e substituindo-se, produzem as atrações e simpatias, como as experiências magnéticas não permitem duvidar disso.
Fala-se, na história da Igreja, de um heresiarca chamado Marco, que deixava todas as mulheres loucas por si, soprando nelas; mas o seu poder foi destruído por uma corajosa cristã que foi a primeira a soprar nele, dizendo-lhe: “Que Deus te julgue!”
O Cura Gaufredy, que foi queimado como feiticeiro, pretendia deixar apaixonadas por si todas as mulheres que fossem atingidas pelo seu sopro.
O celebérrimo padre Girard, jesuíta, foi acusado pela Senhora Cadière, sua penitente, de lhe ter feito perder completamente o juízo, soprando sobre ela. Era-lhe muito necessária esta desculpa para atenuar o horror e o ridículo das suas acusações contra este padre, cuja culpabilidade, aliás, nunca foi bem provada, porém que, de boa ou má vontade, tinha certamente inspirado uma bem vergonhosa paixão a essa infeliz moça.
“A Senhora Ranfaing, tendo ficado viúva em 16... - diz Dom Calmet, no seu Tratado sobre as Aparições - foi pedida em casamento por um médico chamado Poirot. Não tendo sido ouvido no seu pedido, ele lhe deu primeiramente filtros para se fazer amar por ela, o que causou estranhos desarranjos na saúde da Senhora Ranfaing. Logo, coisas tão extraordinárias aconteceram a esta senhora, que a julgaram possessa, e os médicos, declarando nada entender do seu estado, a recomendaram aos exorcismos da Igreja”.
“Depois disso, por ordem do Sr. De Porcelets, bispo de Toul, nomearam para seus exorcistas o Sr. Viardin, doutor em teologia, conselheiro de Estado do duque de Lorena, um jesuíta e um capuchinho; mas, no decorrer desses exorcismos, quase todos os religiosos de Nancy, inclusive o bispo, o bispo de Tripoli, sufragante de Strasburgo, o Sr. De Sancy, embaixador do rei cristianíssimo em Constantinopla, e então padre do Oratório, Carlos de Lorena, bispo de Verdun, dois doutores da Sorbonne enviados expressamente para assistirem aos exorcismos, a exorcizaram muitas vezes em hebreu, grego e latim, e ela, que apenas sabia ler o latim, sempre respondeu pertinazmente:


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