A Ciência dos Espíritos - parte 8


uma aos pobres, outra ao templo, e conservando a terceira para prover as necessidades de sua casa.
Quando ele tinha vinte e um anos desposou Ana, que era muito caridosa, fazendo bem aos pobres e
mesmo aos doentes e aflitos; ela morava em Nazaré, pequena cidade da Galiléia, na qual o anjo
Gabriel anunciou à Maria, sua filha, que ela conceberia e daria à luz o filho de Deus; dessa forma,
pois, Ana levava uma vida muito pura. Aconteceu-lhe certa vez que lia como Tobias instruía seu filho,
no caso de Deus destinar-lhe bens temporais, que ele desse livremente aos pobres, palavras que a
assustaram, pensando em seu coração: Ó Deus! como tenho bens e possuo todas as coisas
necessárias! Oh! fui ingrata e não cumpri meu dever como este escrito ordena. Enquanto estava assim
pensativa, chegou Joaquim, seu marido, e a vendo triste lhe disse: Ó minha querida amada! por que
estás triste? Ela respondeu: Porque faz muito tempo que não obedecemos às ordens da Santa
Escritura, e o fez ler o que havia lido de Tobias. Quando terminou de ler, ele lhe disse: O que te parece
que devemos fazer? Ela lhe respondeu: Parece-me que, como Deus nos conferiu bens, devemos
reparti-los em três partes, que as duas primeiras partes sejam distribuídas à honra de Deus, e a
terceira parte a guardaremos para nossas necessidades. Ele lhe respondeu que assim faria porque já
desejava fazer algo semelhante antes de estarem juntos. Quando Ana ouviu isso ficou alegre e
mandou preparar uma mula, montou nela e foi com seus criados aos campos e aos lugares onde
estava o gado pastando, para reconduzi-los para casa. O gado era de duas mil e duzentas cabeças.
Após o reconduzirem, dividiram-no em três partes iguais; uma das partes foi dada ao templo, outra aos
pobres e a terceira eles a conservaram para se alimentar, e com essa parte Ana ajudava ainda os
pobres, viúvas e órfãos, onde os encontrasse, e o fazia com consentimento de seu marido Joaquim,
porque ele era igualmente misericordioso para com eles; desse modo viviam na crença de Deus, em
paz e amor conjuntamente, observando os mandamentos de Deus cuidadosamente. Oh! como é
preciso hoje que as pessoas unidas em matrimônio caminhem desse modo! Deus o conceda. Assim
seja. Como Ana ficou casada com Joaquim vinte anos sem ter fruto e como foi censurada pelo
soberano sacerdote a oferta de Joaquim. Quando Joaquim completou com Ana o tempo de 20 anos
de casados, vivendo segundo Deus, não tinham nenhum fruto, o que era grande desonra diante das
pessoas, porque, naquele tempo, zombava-se daqueles que eram infrutuosos e que não aumentavam
o povo, e, por esse motivo, foram menosprezados por muitos. Por isso faziam suas orações a Deus
com fervor para que ele olhasse essa exprobação e lhes enviasse um fruto, que lhe ofereceriam para
servi-lo no templo de Jerusalém. Um dia em que Joaquim foi a uma grande festa com outros de sua
linhagem em Jerusalém para fazer oferenda segundo a lei, ao se aproximar do altar, colocou a
oferenda em cima. O sacerdote o interpretou mal, jogando a oferenda para fora do altar em presença
de todo o povo, repreendendo sua infrutuosidade, dizendo: Que não era decente receber sua oferenda
como daqueles que eram frutuosos, porque seu casamento não multiplicava a descendência do povo
de Israel. Diante dessas palavras Joaquim ficou triste e aborrecido; inclinando a cabeça, não ousava,
de vergonha, olhar ninguém no rosto. Como Joaquim vai ver seus pastores guardando seu gado, e
como o anjo o conforta. Como Joaquim na presença de seus amigos e de todo o povo havia sido
rejeitado, porque era sua culpa, e de desgosto não ousava retornar a Nazaré, temendo que seus
vizinhos lhe lançassem no rosto o que lhe havia acontecido no templo, ficou com seus pastores e
resolveu morar com eles sem ir a Nazaré, como fez, esperando que Deus o consolasse e lhe desse a
entender o que deveria fazer. E quando lá estava há algum tempo, aconteceu-lhe uma vez que,
estando só, o anjo de Deus, com uma grande luz, veio visitá-lo, consolando-o e exortando-o a não
ficar espantado, e lhe disse: Sou o anjo de Deus, por ele enviado para te anunciar que tua oração foi
ouvida por Deus e que tuas esmolas subiram ao céu; ele viu a vergonha e a exprobação de tua
infrutuosidade; porque Deus é o vingador dos pecados, e não da natureza. E quando ele torna uma
mulher infecunda, faz isso a fim de mais milagrosamente dar-lhe a fecundidade quando ela lhe
implora, como fez com Sara, a mulher de Abraão, que em sua velhice deu à luz Isaac. Igualmente
Raquel foi infecunda, e em sua velhice deu à luz José, que se tornou grande Senhor do Egito. Depois
há Sansão e Samuel, que eram ambos de mães que foram por muito tempo estéreis; assim é preciso
crer que os nascimentos postergados são tanto mais maravilhosos quanto mais forem postergados.
Sabe que tua mulher conceberá uma menina que se chamará Maria. Essa menina consagrada a
Deus, e ao ventre materno, será iluminada pelo Espírito Santo; é a razão pela qual ela não morará
entre o povo comum, mas no templo, para que ninguém suspeite dela, e igualmente nascerá de uma
mãe infértil; dessa forma dela nascerá o Filho de Deus, que se chamará Jesus, e por ele toda criatura
receberá a salvação. Para sinal de verdade, tua mulher Ana te encontrará em Jerusalém na porta
dourada, porque ela deseja que retornes. Quando o anjo assim falou a Joaquim, ele se alegrou; e
como Ana, sua mulher, estava desgostosa, esperando sua vinda, esse anjo apareceu para ela, e a
consolou, dizendo-lhe o que havia anunciado a Joaquim, e que ela fosse a Jerusalém, na porta
dourada, onde o encontraria, o que ela fez. Quando se encontraram ficaram cheios de alegria pela
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promessa do anjo, em razão da filha que deveriam ter. Depois de estarem no templo servindo a Deus
devotamente, retornaram juntos a Nazaré, onde esperaram com alegria a promessa divina.
Imediatamente depois Ana concebeu, e nove meses depois deu à luz uma menina, que foi chamada
Maria, como o anjo havia ordenado. Ora, que alegria foi no céu e na terra esse nascimento Quem
poderia explicar a felicidade recebida pelos humanos! Do nascimento de Maria. No dia em que Ana
deveria dar à luz a bem-aventurada criança que o anjo havia anunciado a Joaquim, seu marido foi
procurar parteiras para assistir Ana em seu parto; do mesmo modo foi à montanha procurar Elizabeth,
a mulher de Zacarias, e Ysmaria, irmã de Ana que tinha oitenta e um anos. Quando chegaram ao
quarto de Ana parecia-lhes que sentiam uma grande alegria no coração, e quanto mais se
aproximavam de Ana, mais sentiam alegria e perfumes. Quando chegou a hora de Ana dar à luz, ela
foi envolvida subitamente por uma grande claridade e deu à luz uma linda menina, resplandecente
como o sol, e imediatamente veio uma multidão de espíritos celestes cantando melodiosamente:
Vedes aqui a rainha dos céus e a futura mãe do Filho de Deus. Enquanto as parteiras estiveram
reunidas no quarto de Ana, lá ficando por seis dias, viram coisas maravilhosas e renderam louvor a
Deus. Um milagre. No mesmo instante em que Maria nasceu, surgiu uma águia voando sobre a casa
onde Ana estava dando à luz, segurando no bico muitos ramos, e fez um ninho em cima dessa casa, o
qual durou muitos anos, mesmo depois da ressurreição de Jesus Cristo.
Outro milagre. Ao mesmo tempo, num deserto, perto dali, havia um unicórnio muito grande, como
jamais se havia visto igual, e que freqüentemente fora perseguido em caça pelos reis, mas eles não
puderam pegá-lo; quando Maria nasceu, ele veio à sua porta e ninguém conseguiu caçá-lo. Então um
cavalheiro chamado Adrianes, que morava perto de Nazaré, trepassou-o com uma lança e o matou,
oferecendo-o ao soberano sacerdote de Jerusalém, que lhe agradeceu muito. Outro milagre. Naquele
tempo, todos aqueles dos arredores de Jerusalém e do país da Judéia estavam oprimidos por maus
espíritos e soltavam gritos tão horríveis, que o povo ficou muito apavorado, temendo que Deus
quisesse confundir todo o país. Havia em Jerusalém um santo homem, que conjurou um dos oprimidos
a dizer-lhe por que se fazia esse tumulto. Então o mau espírito disse pela boca de um demoníaco que
nesse dia havia nascido em Nazaré uma menina, os anjos estavam muito felizes e eles não mais
podiam manter-se em possessão dos corpos, e seriam obrigados a sair dali para serem colocados nas
profundezas do inferno pela virtude dessa divina criatura. Outro milagre. Nessa época foram libertados
do inimigo duzentas e cinqüenta pessoas demoníacas no país da Judéia e em Samaria. Como o Anjo
anunciou a Joaquim o nascimento de Maria. Quando Ana deu à luz Maria, Joaquim estava fora de
casa, esperando as novas alegrias do parto. No instante em que a criança chegou, o anjo veio a ele,
dizendo: Anuncio-te grande alegria, porque hoje nasceu o fruto que te havia prometido, e ordeno-te
que durante dezesseis dias não entres onde Ana deu à luz, para que as parteiras que ali estão
reunidas não sejam perturbadas no lugar de regozijo; esse dia será tua alegria e a de todo mundo.
Dito isso, o anjo desapareceu, e Joaquim prosternou-se imediatamente por terra, agradecendo a
Deus, depois levantou-se e chegou em sua casa, cheio de alegria, e ordenou a todos aqueles de sua
família que durante dezesseis dias ninguém entrasse onde sua mulher estava deitada. Depois disso,
Joaquim vestiu-se com suas melhores roupas, pegou donativos e oferendas e foi com sua família a
Jerusalém entregar a Deus sua oferenda. Quando os sacerdotes do templo souberam que Deus lhes
havia enviado uma filha ficaram muito felizes louvando a Deus através de cânticos e dando a Joaquim
e sua família honra e reverência. Joaquim permaneceu no templo com sua família por oito dias, para
solenizar o nascimento da menina recém-nascida; depois retornaram à hospedaria. E quando os
dezesseis dias se passaram, Joaquim enviou uma de suas criadas ao quarto de Ana, onde estavam
ainda as parteiras, e lhes fez saber que os dezesseis dias haviam passado; elas não podiam crer,
porque não lhes parecia que ali tivessem ficado nem por meio dia; também não haviam percebido as
noites, de modo que não podiam crer no que a criada lhes dizia; mas para ficarem mais seguras,
perguntaram a Joaquim, que lhes disse que os dezesseis dias haviam passado. Então saíram e cada
uma retornou à sua casa. Como Joaquim visitou Ana, sua mulher, que dera à luz e beijou com grande
alegria sua filha recém-nascida. Depois da permanência das parteiras na casa de Ana durante
dezesseis dias, elas retornaram às suas casas. Neste momento, Joaquim foi para junto de Ana, sua
mulher, e a cumprimentou. Imediatamente ela lhe deu entre os braços sua filha, que ele recebeu
alegremente agradecendo a Deus; de tão grande alegria começou a chorar vendo a beleza dessa
criança, depois a entregou a Ana e a chamou de Maria, como o anjo lhe havia ordenado. Quando lhe
impuseram esse nome, vieram nove anjos que se prosternaram nove vezes de joelhos dizendo:
Bendito é o doce nome de Maria; hoje nos é manifestado o nome de nossa rainha; é por isso que nos
congratulamos esperando esse doce nome. Então desapareceram cantando melodiosamente. Quando
Maria ouviu o melodioso canto dos anjos, olhou-os sorridente, e seus pais se alegraram muito,
admirando as coisas maravilhosas que Deus fazia na terra, e então ouviram uma voz do céu, dizendo:
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Joaquim e Ana, não fiqueis surpresos do que vistes e olvistes, como se fosse algo novo, porque isso
foi previsto pela Santa Trindade, e agora chega conforme a vontade de Deus, para ser manifestado a
todas as criaturas sobre a terra. Joaquim e Ana surpreenderam-se do que fora dito; colocaram-se de
joelhos rendendo bênção e louvor a Deus todo-poderoso. Como Maria está representada no antigo
testamento. São Jerônimo dizia num sermão da Assunção de Maria: Ela foi retratada aos patriarcas,
anunciada pelos profetas, mostrada aos evangelistas; Maria é essa senhora de quem se faz menção
no primeiro livro do Antigo Testamento, diz a Gênese, que esfacelou a cabeça da serpente, que é o
inimigo que coloca a concupiscência carnal e o orgulho do coração; é também a luz que Deus ordena
que se faça e da qual ele saiu.
Ela é a cópia fiel de Jesus na plenitude das graças de Deus; o homem que ela gerou quando
concebeu do Espírito Santo e deu à luz sem dor e permaneceu Virgem imaculada. É por isso que é
chamada apenas de Eva mãe dos mortos, amiga dos moribundos, tanto da morte da alma como do
corpo; mas Maria a nós todos libertou dessas duas mortes, porque Jesus, seu Filho, é a verdadeira
vida da alma e do corpo dos fiéis, que por ele foram salvos e serão daqui por diante; mas ela é
também a arca de Noé, que é feita de uma maneira íncorruptível, do verdadeiro Noé Jesus Cristo, que
só se fez justo no seu nascimento; ela é esta Rebeca, cujo filho Jacó lutou contra o anjo que pediu e
obteve a bênção paterna para todos aqueles que lutaram contra o mau inimigo. Ela é também a
escada que Jacó, o bom patriarca, viu em visão, e pela qual os anjos subiam e desciam. Ela é
igualmente a bela Raquel, que Deus amou como Jacó amou, e desceu do céu para tornar-se carne
humana, e humilhou-se sofrendo grande dor por amor a ela. Ela é também a bela Raquel tendo dado
à luz o verdadeiro José, que não foi somente senhor de seus irmãos, mas de todo o Egito, e também é
o príncipe dos anjos, Senhor de todas as criaturas, Jesus Cristo sempre abençoado. Ela é também
figurada pela árvore ardente de Moisés que parecia queimar, mas não queimava, porque concebeu um
Filho e permaneceu Virgem imaculada. Ela é ainda representada pelo bastão florido de Arão com
humildade, porque gerou Jesus Cristo. É igualmente figurada pelo tosão de Gedeão, do qual desceu o
orvalho da noite sem umedecer a terra; porque o Filho de Deus desceu nele sem nenhuma quebra
nem mácula de sua pureza. É ainda representada pela vara de Moisés que separa o mar em duas
partes, por onde os filhos de Israel passaram com os pés secos, e de onde Moisés tirou a pedra que
deu grande abundância de água, da qual o povo e todo o gado beberam e se saciaram. É também
representada pelo verdadeiro escudo de Josué, com o qual venceu os inimigos de Deus; porque só
ela exterminou todas as heresias. Maria é também o trono do verdadeiro rei Salomão e uma cadeira
de marfim; porque sua pura virgindade preparou para Jesus Cristo um trono e uma cadeira em seu
ventre virginal, onde repousou pelo espaço de nove meses. Ela é ainda o renome do templo de
Jerusalém, que se edificou sem instrumentos, machados nem martelos, porque deu à luz Jesus Cristo
sem dor. Maria é também a bem-aventurada Virgem, que profetizaram Isaías e Jeremias; o primeiro
disse: Ele sairá de uma virgem da origem de Jessé, e uma jovem dará à luz um filho; e o outro disse
que o Senhor faria coisa nova sobre a terra, porque uma mulher envolvia um homem. Se ele tivesse
dito uma criança, isso não seria algo novo a se admirar, se era Jesus Cristo um homem no seio de sua
mãe, não em idade, mas em sabedoria; não em força corporal, mas em força espiritual, tanto colocado
na manjedoura, como com a idade de trinta e três anos, que pregou e que está agora onde está,
sentado à direita de seu pai eterno; mas ele não usou essa sabedoria por um tempo, como de
sabedoria mundana, para fazer ver que realmente ele havia tomado forma humana. Ela é também a
montanha da alta perfeição, da qual foi cortada uma pedra sem mãos de homens, e por essa pedra
entendemos Jesus Cristo, que nasceu pela Virgem sem obra viril. É também a porta fechada em que
só o Senhor passou e tornou a passar; porque Maria permaneceu Virgem concebendo e dando à luz,
e permanecerá sempre. Maria é também o candelabro de ouro, que, diz o profeta Zacarias, tinha sete
lâmpadas ardentes no templo de Jerusalém, que significam as sete obras de misericórdia em Maria, e
o exemplo luminoso de sua vida santa e de bons costumes. Ela é também a arca do Testamento onde
foram colocados os mandamentos da lei, e as duas tábuas de Moisés onde foram escritos pela mão
de Deus os doze mandamentos que Maria guarda cuidadosamente, vivendo segundo eles: nessa arca
estava também o bastão de Arão, que, florido, produziu o fruto de vida, Jesus Cristo, que nos nutre de
sua divina carne e precioso sangue no santo sacramento do altar; essa arca continha também maná,
que os filhos de Israel receberam no deserto, e Maria carregou o verdadeiro maná do céu durante
nove meses, o verdadeiro pão dos anjos, e a carne dos doentes; essa arca possuía também madeira
imputrescível; assim foi Maria, sem corrupção, transferida ao céu em corpo e alma; a arca tinha quatro
argolas de ouro dos lados, pelos quais a seguravam; Maria tinha nela as quatro virtudes fundamentais,
que são as origens de todas as virtudes. A arca tinha dois fustes, que se prendiam entre as quatro
argolas de ouro quando as seguravam; estes são figurados pela caridade que estava em Maria, isto é,
o amor de Deus e de seu próximo. A arca era dourada por dentro e por fora; Maria é ornada
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igualmente, sendo resplandecente em todas as virtudes. Maria é representada pela filha do rei
Astiages, que, como está contido na história escolástica, via em visão como se uma videira crescesse
do ventre dessa jovem, estendendo-se muito, envolvendo todo o seu reino, e lhe foi dito que de sua
filha sairia um rei, e depois ela gerou o rei Ciro, que libertou os filhos de Israel do cativeiro da
Babilônia; também o anjo disse a Joaquim e Ana que deles viria uma filha que nos livraria da paixão
do diabo, também representada pela fonte saindo do jardim fechado; porque ela estava envolvida no
ventre de sua mãe, ela foi santificada pelo Espírito Santo e pela Santa Trindade, prevenida de que
nenhum pecado podia entrar nela; ela é ainda figurada pelo profeta Balaão, que disse que da
descendência de Jacó sairia uma estrela do grande mar desse mundo perigoso, e sem ajuda dessa
estrela não se poderia passar sem naufrágio, nem chegar ao porto da salvação. A santa Igreja a
saúda diariamente pelo hino: Ave maris stella, isto é, salve, estrela do mar, da qual também São
Bernardo escreveu a homilia do anjo, dizendo: Maria é a estrela brilhante desse grande mar do
mundo, resplandecente pelas virtudes, obras e exemplos de boa vida e de bons costumes. Maria é
também figurada pelo templo de Salomão, edificado a Deus com pedra branca, de mármore, dourada
por cima; assim Maria é branca e santa na pureza, virgem no corpo e na alma, ornada de amor e
caridade. Como Joaquim e Ana alimentavam Maria, sua filha. Depois do parto, Ana ofereceu Maria ao
templo segundo a lei, e depois de tê-la reconduzido à sua casa, Ana e Joaquim alimentaram-na
cuidadosamente em grande reverência e não a deixaram ser tocada por ninguém além deles e Fine, a
irmã de Ana. Quem poderia explicar a grande alegria que tinham ao olhar essa crianca bendita, ao
beijá-la e brincar com ela? Creio que nada o poderia exprimir. Joaquim e Ana olhavam-na com tanta
admiração, que esqueciam às vezes de beber e comer, e parecia-lhes que esse tempo era apenas um
instante. Haviam ordenado a sua família que, quando estivessem com a criança no quarto, ninguém os
interrompesse, o que foi atendido. Da apresentação de Maria ao templo. Quando Maria tinha a idade
de três anos, Joaquim disse a Ana: Minha querida Ana, lembra da promessa que fizemos, porque não
podíamos ter fruto juntos, quando rogamos a Deus que nos enviasse esse fruto, que o ofereceríamos
ao templo. Então Ana lhe respondeu: Meu querido amigo, por mais duro que seja deixar nossa filha,
ainda nos seria mais afrontoso não cumprir nossa promessa e ofender Deus. Por isso estou pronta a
cumprir teu conselho e executá-lo. Ele se preparou e fez reunir seus amigos mais próximos e as
honestas parteiras de sua família, levando com ele ricos presentes e uma rica veste cor-de-mel que
era trabalhada em filetes de ouro brilhante como estrela do céu, e havia feito uma coroa de belas
flores, que Maria levava na cabeça, na qual foram colocadas cinco pedras preciosas, com esplendor
superior ao de todas as pedras; e quando eles estavam todos preparados, ela com seu marido, sua
filha e seus bons amigos, saíram em direção a Jerusalém e foram três dias de caminhada: de Nazaré
a Jerusalém há trinta e cinco léguas; fizeram esse caminho com grande alegria, porque estavam em
companhia dos anjos. Quando chegaram a Jerusalém, Joaquim mandou dizer aos sacerdotes do
templo que se preparassem para receber sua filha, do que se regozijaram; eles se prepararam,
tomando ricos hábitos com os quais se vestiram. Como Maria foi recebida no templo. Quando Joaquim
e Ana, com Maria sua filha, e seus amigos, vestiram-se com seus melhores hábitos e ajustaram em
sua filha Maria o hábito e a coroa, foram juntos para diante do templo, porque o templo era edificado
sobre uma montanha; havia ali quinze degraus a subir. Assim que começaram a subir e que pensavam
carregar sua filha até o alto, ou levá-la pela mão, Maria subiu os degraus sozinha, tão rapidamente
como se tivesse doze anos, o que causou grande admiração aos sacerdotes, a seus pais e amigos, e
a todos aqueles que a viram e que ouviram falar, porque ela tinha apenas três anos. Quando se
aproximaram do templo, tinham sua oferenda preparada, e entraram dirigindo-se ao sacerdote e
apresentaram-lhe sua filha Maria com ricos presentes, como haviam prometido. Então o sacerdote a
recebeu com grande reverência, com cantos e louvores, e a conduziram para a companhia das outras
virgens que moravam no templo, servindo noite e dia. Como Maria foi apresentada ao templo três
vezes. Todavia, assim como dizem os santos bispos Epifânio, Carísio e Basílio, Maria foi apresentada
ao templo três vezes; mas Vicente, à luz da história, e muitos outros, escrevem que quando ela tinha
três anos foi apresentada ao templo, onde morou um bom tempo, porque primeiramente foi
apresentada ao templo por sua mãe oitenta dias depois do seu nascimento, como dádiva à
purificação, porque, segundo o mandamento da lei, quando uma mulher tinha uma filha, ela moraria
oitenta dias fora do templo, e se fosse um filho, deveria morar quarenta dias; o porquê de ser dessa
maneira é que, os mestres da natureza assim escreviam, um filho recebe a vida no ventre de sua mãe,
a metade do tempo mais cedo que uma menina. Quando Ana apresentou Maria ao templo, segundo o
costume, ela a reconduziu imediatamente com ela à sua casa. A segunda apresentação foi feita no
templo quando Maria tinha três anos, como está dito acima. Pouco tempo depois, mais uma vez
levada de volta à casa de seus pais, lá ficou até completar sete anos; e pela terceira vez foi
novamente apresentada ao templo, onde morou até os catorze anos, Como a apresentação de Maria
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ao templo foi representada primeiramente. A apresentação de Maria foi representada no templo pela
tábua que foi encontrada em Sorbion, de que fala Scholastica Historia. Como os pescadores jogassem
um dia suas redes ao mar, quando as trouxeram à tona, ali encontraram uma tábua de ouro, que
ofertaram ao sol natural, porque tinham e adoravam o sol como seu Deus no templo do sol, que estava
edificado às margens do mar. Por essa tábua Maria é plenamente representada; quanto à filha de
Jephté, que está escrito na Bíblia, no livro dos juízes, ela foi apresentada indiscretamente, e depois
disso não podia mais servir a Deus; mas Maria foi apresentada com discrição, servindo a Deus todos
os dias de sua vida.
Como Maria foi apresentada ao templo, e ali permaneceu até os catorze anos. Então Maria foi
apresentada ao templo; ela ali permaneceu até os catorze anos, e foi colocada com outras donzelas,
que também eram agradáveis a Deus; aprendeu a lei de Moisés, servidor de Deus. Deliberou em seu
coração tomar Deus por seu pai, e poder dizer com Davi: Pai e mãe abandonaram-me, mas o Senhor
me recebeu. Ela se deixou iniciar pelos sacerdotes na lei mosaica, pensou em seu coração o que
poderia fazer para ser mais agradável a Deus, e nesse ano rogou incessantemente ao Senhor que lhe
fizesse e desse a graça de poder fazer sua vontade, que ela pudesse guardar os mandamentos da lei,
e que sua vontade fosse unida à sua, e pudesse amar tudo o que Deus amasse, e também odiar o
que ele odiasse, e havia nela todas as virtudes para que pudesse agradar a Deus; prosseguia e
crescia diariamente em todas as virtudes e em sabedoria, acima de todas as jovens virgens que lá
estavam; contemplava sempre a infinita bondade divina em relação à reparação do gênero humano.
Orava a Deus freqüentemente e às vezes lia a Santa Escritura, outras vezes costurava as vestimentas
do templo, fazendo novos ornamentos e recompondo os velhos hábitos e os limpando, conforme os
sacerdotes do templo ordenassem; porque era nessa obra que se exercitavam as donzelas do templo.
Quando chegavam na idade de casar, aos catorze anos, conduziam-nas a seus pais para casá-las.
Maria também costumava exercitar a leitura da Santa Escritura e da vinda de Nosso Senhor, e foi
julgada a mais sábia de todas aquelas que estavam no templo, crescendo em humildade, mais ainda
em caridade, mais servindo em castidade, e mais perfeita em todas virtudes; era também constante
em todos benefícios e inamovível em coragem. Jamais a viam com raiva, suas palavras eram cheias
de doçura; de modo que pela língua podia-se reconhecê-la como sendo de Deus. Era diligente com
suas companheiras, evitando que ofendessem a Deus ou ao próximo, ou dando maus exemplos, ou
provocando alguém para dizer, ou fazendo injustiça a alguém. Louvava Deus sem cessar, e orava pela
saúde do gênero humano; e quando a saudavam, respondia: Deo gratias. Parece verdade que dela
tenha vindo esse costume, de quando as pessoas de bem são cumprimentadas, responderem: Deo
gratias. Maria consagrou também a Deus sua castidade, de que não tinha tido exemplo, porque
nenhuma jovem, desde o início do mundo, tinha feito isso, de modo que foi a primeira a consagrar a
Deus sua castidade. Ela se comportava em todas as suas ocupações tão sabiamente, que sua vida
era para todos um espelho de bons-costumes e virtudes, como escreve sobre ela Santo Ambrósio;
crescia diariamente em santidade, e era todos os dias visitada pelos anjos, e tinha visões divinas. São
Jerônimo escreve numa epístola aos santos bispos Cramario e Heliodato, que Maria se organizara de
tal modo que desde a manhã até a prima estava em oração, e depois ficava fazendo algumas obras
manuais até a hora da terça e da sexta, em que o anjo levava sua refeição; depois retomava à sua
oração, de tal forma que jamais ficava ociosa, seja porque estivesse orando a Deus, ou meditando ou
fazendo algumas boas obras; morou no templo nesse exercício até catorze anos. Depois de
apresentarem sua filha ao templo, Joaquim e Ana retornaram a Nazaré. Depois que Joaquim e Ana
apresentaram sua filha Maria a Deus, no templo, e ficaram um pouco perto dela, louvando e
bendizendo o Senhor por suas bênçãos que lhes havia mostrado, retornaram a Nazaré, e estiveram
três dias a caminho de Jerusalém, e igualmente três noites, e foram para a mesma casa de antes; no
caminho aconteceram muitos milagres, que pareciam ser contra o curso da natureza. Eu os deixarei
passar em silêncio. Como Joaquim morreu no mesmo ano em que Maria foi apresentada ao templo.
Logo depois que Joaquim e Ana apresentaram sua filha Maria a Deus, no templo, e voltaram para
casa, no mesmo ano Joaquim adoeceu, e rogou a Deus que o recebesse como havia feito com seus
antepassados; quando estava doente no leito e sentiu aproximar-se a morte, chamou Ana, sua mulher,
dizendo: Minha mulher Ana, a hora chegou em que repousarei com nossos pais. Rogo-te que me
faças colocar no túmulo de meu pai Barphanter, e que caminhes o resto de tua vida segundo os
mandamentos do Senhor. Tem sempre gratidão para com Deus pelos benefícios que nos mostrou aqui
embaixo; tem também lembrança da promessa de nosso fruto à salvação de todo mundo, porque irei
aos limbos e anunciarei a nossos pais a misericórdia de nosso Deus, a fim de que sejam consolados,
esperando sua liberdade, e quando tu anunciares minha morte a nossa filha Maria, dize-lhe que grave
em seu coração minha memória como o sol no firmamento. E ao dizer isso, entregou seu espírito a
Deus; Ana então prosternou-se no chão chorando com a afeição e o amor cordial que lhe tinha. Ela
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ordenou que o untassem com preciosos ungüentos e o colocassem junto de seu pai, segundo seu
desejo, e ficou por algum tempo em sua sepultura, lamentando e lastimando sua morte; depois voltou
para casa, onde continuou a chorar por quarenta dias. Como Ana, após a morte de seu marido, por
ordem do anjo, casou-se com outro homem chamado Cleófas. Um ano após a morte de Joaquim, Ana
pegou seus hábitos solenes querendo destruí-los e dá-los aos pobres, dizendo: De hoje em diante não
será encontrado nenhum de meus hábitos solenes, assim vestirei roupas de viúva e de luto, chorando
a morte de meu marido por toda a minha vida. E quando pegou uma faca para cortar suas
vestimentas, o anjo lhe apareceu dizendo: Ana, não destruas tuas vestimentas, mas lembra como
Deus te tornou fecunda quando eras estéril e enviou-te um fruto muito saudável, como não existe e
jamais existirá outro igual, do qual nascerá o Filho de Deus eterno, para a salvação de todo mundo.
Desse modo é preciso que sejas obediente a Deus e tomes como marido aquele que te nomearei, que
diante de Deus parece justo, chamado Cleófas; terás uma filha da qual nascerão grandes homens que
defenderão a fé cristã e combaterão até derramar seu sangue; depois receberão a coroa do martírio;
deles ele quer fazer os iniciados de todo mundo; estarão sentados nos tronos, julgando as doze
descendências de Israel. Ana, acredita em mim, segue meu conselho, pois para isso Deus enviou-me
a ti; tira teus hábitos de luto e te veste solenemente e cumprirás o querer de Deus. Quando Ana ouviu
o que o anjo lhe disse, ajoelhou-se louvando a Deus, e desposou Cleófas, do qual concebeu e deu à
luz naquele mesmo ano uma menina, como o anjo lhe profetizara, que foi chamada Maria, para
reverência de sua primeira filha que teve com Joaquim; e antes que desse à luz, Cleófas, seu segundo
marido, morreu, deixando sua mulher grávida. Ana com esse evento ficou muito triste, dizendo: Como
estou desolada! quando serei regozijada pelo fruto que carrego? Sobrevem-me grande aborrecimento,
porque a filha que de mim nascerá não conhecerá e não verá jamais seu pai; e nesse tédio ficou Ana,
esperando o dia de seu parto; a hora chegou e ela deu à luz uma menina que fez chamar-se Maria.
Quando essa menina estava na idade de se casar, por conselho de sua mãe casou-se com um
homem crente em Deus, chamado Alfeu, do qual são descendentes São Tiago, o Menor, Santo Alfeu,
ou Judas, seu outro nome, e José, o Justo, que foram apóstolos de Jesus Cristo. E igualmente Ana
chorou a morte de seu marido Cleófas, e um ano depois disse a si mesma: cumpri agora a vontade de
Deus, e de agora em diante não quero estar na companhia de homem. E imediatamente o anjo veio a
ela dizendo: Ana, sabes bem que teu testemunho está fixado em número ternário; por isso é
necessário que te cases com um terceiro marido, que foi reconhecido justo diante de Deus, chamado
Salomé, do qual conceberás e darás à luz uma menina a que chamarás Maria, como as outras; dela
nascerão dois príncipes que reinarão sobre as doze descendências de Israel, e Deus fará coisas
maravilhosas por eles diante de todo mundo. Por isso Ana, regozija-te de teus filhos; porque Deus
quer fazer coisas maravilhosas na terra através deles, e o que descender de ti receberá bênção
eterna; pelo consentimento em minhas palavras, após a morte do terceiro marido tu continuarás viúva
como ele te ordenou. Como Ana casou-se com seu terceiro marido, chamado Salomé, segundo a
ordem do anjo. Quando Ana compreendeu a ordem do anjo, bendisse Deus, que em todas as suas
obras é maravilhoso, casou-se com o terceiro marido, chamado Salomé, e viveram juntos justamente e
na crença de Deus, guardando seus mandamentos. Quando completaram um ano juntos, Ana
concebeu e deu à luz uma menina, que fez chamar-se Maria, que em idade de casar fizeram casar-se
com uma pessoa muito piedosa, chamada Zebedeu, do qual concebeu e deu à luz duas crianças,
apóstolos de Deus, Tiago, o Maior e São João, o Evangelista. Algum tempo depois, Salomé morreu e
Ana chorou-o como havia chorado seus outros maridos; após a morte deste, Ana deixou todos os seus
hábitos joviais e bonitos, propondo-se a viver o resto de sua vida em austera penitência, o que fez.
Como Maria foi dada em casamento a José. Maria estava na idade de treze anos, e até então havia
servido ao templo, ao qual fora ofertada; o soberano sacerdote ordenava que todas as jovens que
atingissem essa idade se retirassem, o que em geral faziam, exceto Maria, filha de Ana. O soberano
sacerdote perguntou-lhe por que não obedecia à sua ordem. Ela respondeu que havia consagrado sua
virgindade e por isso não podia casar-se. O soberano sacerdote, ouvindo isso, ficou surpreso, porque
sabia que a Escritura ordenava reservar para Deus os votos e promessas; mas não queria consentir,
porque era algo novo; é por isso que estava em dúvida sobre o que faria. Pediu a Ana, mãe de Maria,
para lhe dar conselho, porque ele sabia ser ela mulher conforme Deus; e quando chegou diante dele,
ela lhe deu a conhecer muitos fatos milagrosos que lhe haviam acontecido no último retorno, quando
ela ofereceu essa sua filha ao templo, o que deixou o sacerdote ainda mais em dúvida sobre o que
deveria fazer; enfim ele resolveu fazer vir os sacerdotes e foi com eles ao templo, prosternando-se ao
chão, orando a Deus para que o inspirasse sobre o que deviam fazer. Surgiu, então, uma voz vinda do
grande altar chamado Sancta Sanctorum, dizendo: Sairá uma flor sobre a qual repousará o Espírito
Santo, assim como profetizou Isaías. Quando o sacerdote ouviu isso, fez reunir todos os homens da
linhagem de Davi em idade de se casarem, ordenou que cada um deles levasse um bastão ao templo,
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e aquele cujo bastão florescesse e sobre o qual pousasse o Espírito Santo desposaria Maria; o que
cada um fez, exceto José. E porque não houvesse ali nenhum bastão que florescesse, foi dito a José
que pegasse seu bastão colocando-o como os outros sobre o altar; imediatamente dele nasceu uma
flor sobre a qual desceu o Espírito Santo, em forma de pomba branca. Quando Ana soube que José
tomaria sua filha Maria em casamento ficou muito feliz, porque sabia que ele era crente em Deus e
que a queria honrar; freqüentemente ele comia e bebia com ela; após a morte de seu marido ele ia
sempre aliviar sua perda, como se fosse seu filho; tinha ela também ainda uma filha viva e por isso a
amizade entre Ana e José foi mais forte que anteriormente. Como Maria foi dada em casamento a
José pelo soberano sacerdote. José, vendo que a divina Providência queria que desposasse Maria, e
sabendo que ela havia consagrado a Deus sua castidade, ficou regozijado, louvando a Deus que o
havia unido a essa pessoa, que fora por seus pais ofertada e presenteada a Deus o criador, e lhe
havia oferecido sua virgindade, a fim de viver em castidade, e que lhe havia também proposto
permanecer e viver em castidade. Quando Maria viu que o soberano sacertode e os amigos de José
falavam em fazer o casamento entre os dois, pensou no voto que havia feito e baixou os olhos.
Quando Ana o percebeu, afastou-a das jovens do templo que desejavam ser suas companheiras, e
foram juntas a Nazaré onde ela permaneceu. José foi à sua casa para preparar o necessário para as
bodas. Alguns dias depois, o soberano sacerdote os casou. Quando Maria foi dada a José em
matrimônio, foram com sua mãe Ana a Nazaré, ali permanecendo por bom tempo, durante o qual
deviam preparar-se para celebrar as bodas; José se retirou com diligência, e preparou-se para receber
Maria, sua esposa, em sua casa. Como o anjo Gabriel anunciou a Maria que ela conceberia o filho de
Deus. Quando José se preparava com diligência para receber Maria, sua esposa, em sua casa, o anjo
Gabriel apareceu, como testemunha São Lucas, enviado de Deus a Nazaré, à virgem desposada por
um homem chamado da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria. Parece, como escreve São
Bernardo, que a virgem Maria estava encerrada em seu quarto e exercitava-se na leitura da Santa
Escritura: o anjo Gabriel entrou dirigindo-se a ela e lhe disse: Eu te saúdo, Maria, cheia de graça, o
Senhor está contigo: bendita és tu entre todas as mulheres. Quando ela ouviu isso, ficou perturbada,
pensando o que representava essa saudação. O anjo lhe disse: Não temas, Maria, tu encontraste
graça diante de Deus, conceberás e darás à luz um filho, que chamarás Jesus; ele será grande e se
chamará o Filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, ele reinará na casa de
Jacó eternamente, e seu reino não terá fim. Maria disse ao anjo: Como isso acontecerá se não
conheço nenhum homem? O anjo lhe disse: O Espírito Santo virá a ti, e a virtude do Soberano te
ocultará, e a criança que nascerá de ti se chamará Filho de Deus; Elizabeth, tua prima, concebeu um
filho em sua velhice, e eis o sexto mês de sua gravidez; nada é impossível a Deus. Então Maria disse
ao anjo: Eis a serva do Senhor, que seja feito segundo tua palavra. Assim, com o consentimento de
Maria, essa mensagem foi colocada em execução pelo Espírito Santo, e ela concebeu o Filho de
Deus. Como Maria visita sua prima Elizabeth. Pouco depois de Maria ter sido saudada pelo anjo
Gabriel, ficando submissa à vontade do Senhor, foi, como escreve São Lucas, às pressas atravessar
as montanhas para ir à casa de Zacarias, saudar sua prima. Ouvindo Elizabeth a saudação de Maria,
o filho que estava em seu seio tremeu de alegria. Elizabeth foi tomada pelo Espírito Santo e exclamou
em voz alta: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre, de onde me vem essa
felicidade, de que a mãe de meu Salvador venha a mim? À tua vista, a criança que está em meu seio
estremeceu de alegria; tu és muito feliz, porque as coisas profetizadas estão cumpridas. Logo Maria
compôs esse belo cântico, Magnificat. Maria lá permaneceu quase três meses, depois retornou à sua
casa. José, vendo grávida Maria, sua esposa, queria secretamente abandoná-la, e como o anjo o fez
mudar de idéia. Quando Maria foi dada a José como esposa, e quando ela voltou da casa de
Elizabeth, como escreve São Mateus, José, percebendo que ela estava grávida, não a queria difamar,
mas resolveu deixá-la; e como tinha esse intento, o anjo lhe apareceu em sonho dizendo: José, filho
de Davi, por favor não temas em receber Maria, tua esposa, porque o que nela está é do Espírito
Santo; ela dará à luz um filho que se chamará Jesus, e será aquele que salvará seu povo. Diante
dessas palavras, José foi consolado pelo anjo, e recebeu sua esposa Maria em sua casa, guardandoa
cuidadosamente. Por que Nosso Senhor queria que Maria, sua mãe futura, desposasse José. É
necessário saber, por muitas razões, que Nosso Senhor queria que sua mãe desposasse um marido.
Primeiramente, como escreve Santo Ambrósio, para evitar toda suspeita maldosa por vê-la grávida se
ela não tivesse marido, Deus querendo que esse mistério fosse coberto pelo sacramento do
matrimônio, para impedir a calúnia, porque se acreditaria que Maria estava grávida de seu marido
José; de outro modo, sem esse casamento, os espíritos maldosos haveriam de julgá-la adúltera, e
tudo isso foi evitado através do casamento; foi também para que José fosse o esposo que socorreria
Maria e o Menino Jesus como vemos na fuga ao Egito, e no seu retorno depois da perseguição de
Herodes, como escrevem São Jerônimo e Santo Ambrósio, para que este mistério não fosse
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conhecido pelos espíritos maus para que não soubessem ao certo que ele era o Filho de Deus. Ana
alegrou-se sabendo que Maria, sua filha, concebera o filho de Deus. Quando Ana ouviu falar de Maria,
sua filha, e também da saudação que o anjo lhe havia feito, e como ela havia concebido o Filho de
Deus, regozijou-se, bendizendo o Senhor por todos os seus dons e graças, dizendo: Ó Deus! se
tivesse tantas línguas como tenho partes em meu corpo, eu as empregaria todas para louvar vossa
infinita bondade, pelas grandes maravilhas que operais em minha filha pela salvação de todo mundo.
Ó vós, céu e terra, e todas as criaturas que aqui estão, e aqueles que estão colocados nos limbos e
trevas, regozijai-vos comigo, louvando e bendizendo Deus pela sua imensa misericórdia para conosco.
Como Ana, na noite em que Jesus Cristo nasceu, procurou Maria, sua filha. Ana esperava com grande
desejo a hora em que Maria, sua filha, daria à luz Jesus Cristo, e muito diligentemente preparava o
que faltava. Ela preparou um rico leito para Maria e seu filho, fez também um berço de madeira de
cedro, que lhe havia dado o Cavalheiro de Jerusalém, em reconhecimento por ter recobrado a visão
por ocasião de seu nascimento, como já foi dito. Enfim, aproximando-se a hora em que Maria deveria
dar à luz, Ana foi a Jerusalém para procurar tudo o que uma mulher tem necessidade quando está
para dar à luz. Quando Ana estava em Jerusalém, chegou um decreto do imperador Augusto
ordenando que todo mundo de seu vasto império fosse recenseado, como narra São Lucas; assim
cada um se retirou para a cidade de onde era natural, para ser recenseado. Por esse motivo José foi
para Belém; porque Ana não estava em sua casa, e ele não ousava deixar Maria, sua esposa, só, pois
estava quase dando à luz; ele a colocou sobre um asno, porque ela não podia caminhar; pegou
também um boi para vender, para saciar suas necessidades enquanto estivessem fora, porque não
sabiam quando poderiam regressar; e assim foi José com Maria para Belém. Quando Ana voltou de
Jerusalém à sua casa não mais encontrou Maria, o que no primeiro instante a afligiu. Seus vizinhos lhe
disseram que ela estava com José em Belém, para cumprir a lei de César. Ana temia que o parto de
sua filha acontecesse no caminho, ou antes de seu retorno a Nazaré; por isso foi para Belém.
Acontece que durante a caminhada surpreendeu-se perdida do seu caminho; quando percebeu,
sentou-se no chão para repousar; começou a chorar amargamente, temendo que pudesse ocorrer
algum inconveniente e ficou muito triste e aborrecida até meia-noite; então ouviu um canto melodioso,
ressoando no ar, e além disso ouviu uma manifestação de grande alegria: Gloria in excelsis Deo,
glória a Deus Altíssimo, e paz na terra aos homens de boa vontade. Quando os anjos vieram consolála,
asseguraram-lhe que Maria, sua filha, havia se tornado mãe do Filho de Deus todo-poderoso. Com
essas palavras, Ana ficou maravilhosamente consolada e regozijada, bendizendo Deus de todo o seu
coração. Como Ana foi a Belém para procurar Maria, sua filha, com Jesus. Ana, tendo ouvido dos
anjos esse canto melodioso e essas palavras de paz que anunciavam aos homens, retomou o
caminho certo que havia perdido e foi em direção a Belém. Lá chegando, perguntou de casa em casa
por Maria e José, mas ninguém lhe pode informar; entretanto alguém lhe disse que os havia visto e
que procuravam alojamento, e que não encontraram e que não sabiam o que lhes iria acontecer. Ana,
ouvindo isso, ficou muito triste, e retornou a Nazaré, acreditando que eles tivessem voltado para lá
depois de ela ter partido; chegando lá, não os encontrou e não sabia o que fazer de tão aborrecida; foi
a Jerusalém para procurá-los, pensando que podiam ter sido devorados, ou que havia acontecido
alguma coisa de extraordinário. Quando Ana chegou em Jerusalém, procurou Maria e José pela
cidade e não ouviu sobre eles nenhuma notícia, pôs-se a se lamentar e a gemer, não sabendo o que
fazer nem dizer. Como Ana encontrou os três reis, e lhes perguntou se não haviam visto nem
encontrado sua filha Maria e José. Ora, assim Ana ficou muito desconfortada, pois por tanto tempo
longamente procurara sua filha e não encontrara; não podia ficar satisfeita sem procurá-los ainda, até
que fossem encontrados; por isso foi imediatamente a Belém, procurando-os no outro extremo da
cidade, onde já os havia procurado; encontrou os três Reis aos quais perguntou chorando se no
caminho não haviam encontrado um homem e uma mulher, descrevendo-lhes a figura e o modo como
estavam; um deles considerando que Ana parecia uma mulher piedosa e virtuosa, de compaixão
desceu de sua montaria, perguntando-lhe a causa de sua aflição. Ana, vendo que um grande
personagem por compaixão a interrogava, contou-lhe toda a qualidade de Maria; disso imediatamente
ele concluiu que Maria, de quem ela falava, era mãe do novo Rei nascido, o qual ele e os outros dois,
seus companheiros, haviam visitado e a ele ofertado seus dons, e adorado, e estavam felizes por tê-la
visto e falado com ela; contaram-lhe que tinham vindo de um país distante para adorar o Rei recémnascido,
e honrá-lo com suas oferendas; disseram-lhe também que estavam reunidos os três pela
ordem de Deus. Ana, ouvindo narrar todas essas coisas, transformou sua tristeza em alegria,
admirando-se de ouvir anunciar o nascimento desse grande Rei; e ele narrou que os três tinham
conhecimento de astronomia, e que viram uma estrela nova, na qual viram maravilhados uma criança
recém-nascida, carregando uma cruz nos ombros; e lhes disseram que fossem ao país da Judéia, que
lá encontrariam a Criança. Quando chegamos orientamo-nos por nossa estrela-guia, que nos conduziu


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