amor ao belo, ao bom, ao honesto, é natural; é um dom que deve ser desenvolvido pela educação e
vivificado pela fé religiosa. Tudo é confusão de palavras. Produzimos um Deus de fantasia que
achamos absurdo, e acabamos por declarar que Deus não é. Chamam-se católicos os fariseus
modernos, e conclui-se daí que o catolicismo é apenas ostentação e hipocrisia. Tomam-se os
hipócritas por devotos e confundem-se depois facilmente os verdadeiros devotos com os hipócritas. -
Encontra-se por acaso um mau sacerdote, e rompe-se por isso com todo o clero. É justo tudo isso, há
nisso tudo uma sombra de lógica e de razão? Ninguém ataca a verdadeira religião, a verdadeira
piedade, o verdadeiro Deus, mas todo mundo luta contra moinhos de vento. Só conhecemos Deus
pelo espírito de Jesus Cristo que é o espírito de caridade manifestado pelos seus ensinamentos e por
suas obras; nisso consiste toda a revelação, evidentemente divina, assim como a caridade é divina. A
ciência contesta os milagres e discute as profecias, mas há alguma coisa mais forte que a ciência e
mais maravilhosa que os milagres: é a caridade. (Ver o texto de São Paulo.) O espírito de Jesus Cristo
está sempre vivo na terra, senão tudo morreria; e onde se encontra o espírito de Jesus Cristo, Deus
está presente, diligente, e de algum modo visível. Aquele que, sem crer em Jesus Cristo, pronuncia a
palavra Deus, não sabe certamente o que diz. Não há nenhum artigo de fé referente ao diabo. Tudo o
que se diz sobre ele é da crença e da tradição. O diabo é o espírito oposto ao de Deus, eis o princípio.
Que esse infeliz espírito existe, os erros e os crimes dos homens o demonstram bem. Representa-se o
diabo disforme, ainda que um espírito não tenha formas, para fazer compreender que é o espírito de
desordem. Ele é eternamente acusado porque o mal é sempre inconciliável com o bem. Dizer que
Deus é impessoal, é tirar toda idéia possível da inteligência. Fazê-lo impessoal seria fazer algo de
limitado e de incompleto. - Ele é formado por três pessoas, para ser um em muitos e tudo em todos. O
arianismo procurava fazer de Jesus Cristo um ídolo vivo, uma espécie de subdeus; - o monoteísmo
aniquilava nele a humanidade. Duas naturezas distintas em Jesus Cristo, mas não duas pessoas;
duas naturezas são em todos nós, espiritual e corporal; - duas pessoas seria um conflito. A religião é
um conjunto de assistências organizadas para ajudar os homens a viver segundo a sabedoria. A
unidade de religião só se pode estabelecer pelo espírito de caridade. Isso será a comunhão universal
dos homens, e no momento em que o espírito de caridade tiver triunfado, no seio da própria Igreja,
sobre todos os vícios que lhe fazem guerra, ele se espalhará no mundo inteiro que o chama e que tem
sede dele. Os mártires dos primeiros séculos manifestaram o espírito de caridade pela coragem nos
suplícios; as testemunhas da renovação da fé deverão por sua vez passar pela sua prova, pela
abnegação, pela pobreza, pela resignação às calúnias, ao desprezo, aos abandonos, e
freqüentemente pelas mais imerecidas e cruéis perseguições. Se podemos conhecer o bem e praticálo
ao fazer uma idéia justa de Deus, se só podemos conhecer Deus por Jesus Cristo, e Jesus Cristo
por sua Igreja, é rigorosamente correto dizer: fora da Igreja não há salvação. Mas a Igreja é universal,
isto é, estende a influência de suas graças e o poder de suas preces sobre todos aqueles que lhe
pertencem pela boa vontade, pela retidão do coração e dos desejos. Sobre todos aqueles que seriam
dela, se pudessem conhecê-la, não há um batismo de desejo? e a luz da verdade tem sempre um
longo caminho a fazer para iluminar uma alma e tocar um coração? Antes da vinda de Jesus Cristo,
todos aqueles que desejavam a verdadeira luz acreditavam implicitamente nele. A alma da Igreja é
mais extensa que seu corpo, ela preenche o mundo e atrai sobre ela tudo o que é de boa fé e de bons
costumes. Rousseau riu dos anjos missionários de São Tomás, porque não era digno de sentir tudo o
que há de fé e de caridade nesse pensamento; é belo pensar que se mais de quatrocentos ou
quinhentos milhões de nossos irmãos ignoram a verdadeira religião, um número incalculável entra
moribundo no seio da verdadeira Igreja, instituído e batizado pelos anjos! Os protestantes não têm
mais razão de ser, nem mesmo aparente. Contra o que de fato eles protestam? Contra abusos que
jamais existiram ou que não existem mais? Contra perseguições que cessaram? - Não, mas protestam
contra a unidade hierárquica que sanciona as leis da Igreja. - Protestam sem o saber contra o espírito
de caridade.
O espírito nacional dos judeus os censura muito por essa união que é a alma da Igreja, e eles serão a
força do santuário quando tiverem compreendido:
Que os cristãos não adoram três deuses;
Que não atribuem à natureza humana as honras divinas;
Que não destroem a lei de Moisés, mas que a cumprem;
Que o Messias chegou, e que é nosso Senhor Jesus Cristo,
Jesus Cristo, mostrando-se a nós, mostrou-nos também seu pai; Deus tornou-se visível, evidente,
palpável. A Igreja, mostrando-se a nós, deve também nos mostrar seu chefe visivelmente sucessor de
Jesus Cristo, e animado do mesmo espírito. (Objeção dos maus papas fácil de resolver: houve maus
homens no trono de São Pedro, nunca houve maus papas.) O espírito de caridade é uma verdade,
porque é uma luz, um calor e uma força. O sobrenatural visível é o espírito de caridade; os verdadeiros
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milagres, os milagres incontestáveis, são aqueles do espírito de caridade. O espírito de caridade dá à
vida uma plenitude e um júbilo bem superiores a todos os prazeres da vida. Assim, Deus é visível aos
homens, a verdadeira religião é evidente e não tem mesmo necessidade de ser demonstrada. O dever
é claramente traçado, e fácil de seguir em todas as condições da vida. Não é verdade que o mundo
esteja sem religião; a sociedade é mais católica do que se pensa: todo mundo adora, deseja e espera
o espírito de caridade. Quanto maiores são as misérias, mais a renovação por esse espírito está
próxima. Ninguém amou o sofrimento pelo próprio sofrimento, nem mesmo Jesus Cristo; ama-se o
sofrimento pela caridade, cujos méritos e júbilos obtêm-se a esse preço. Se querem tomar tua veste,
abandona também teu manto. O Mestre disse isso aos indivíduos, não à sociedade; a propriedade é
um princípio, e as sociedades são guardiãs dos princípios sob pena de morte. O cristão Mastai deve
se deixar despojar, mas o papa Pio IX não deve permitir que se despoje a Igreja. - Fazei concessões,
ou vos tomarão tudo, diz-se ao soberano pontífice. Non possumus, responde o papa, e dizendo isso é
um princípio que ele defende; ele sabe que se expõe a perder tudo e persiste. Não é correto sacrificar
o espiritual pelo temporal. A justiça é eterna, e o papa defende a justiça. Teria sido mais proveitoso
morrer no seu trono dizendo non possumus do que deixar correr o sangue (para não dizer mais) de
Perouse e de Castelfidardo. Mas todos os homens cometem faltas, e os papas também são homens.
Certas parábolas do Evangelho não parecem concluídas, a do filho pródigo, por exemplo. Ei-lo de
volta à casa de seu pai, e matam o novilho gordo para festejá-lo; mas ele não tem mais nada, e seu
pai, que dividiu bens entre os dois filhos, não tem mais nada para dar ao pródigo. O que acontecerá?
O irmão sábio emprestará ao pródigo arrependido; este último trabalhará e fará por merecer, voltará a
ser rico graças a seu irmão e a seu próprio esforço; eis o que Jesus Cristo não quis dizer, sem dúvida
porque ainda não era tempo. Um homem é retirado da sala do festim porque não tem veste nupcial;
mas se um dos convidados sai e lhe dá a sua, não poderia ele entrar? E o pai de família deixará à
porta aquele que terá sido generoso? Creio, ao contrário, que ele próprio dará uma de suas vestes ao
convidado caridoso. Eis uma dessas coisas que se podem esperar, mas que não se devem ensinar.
Se os espíritos do outro mundo podem se comunicar com os homens deste mundo, por que não o têm
feito sempre? Por que um Cristo? Por que uma Igreja? Por que concílios? Por que nossos trabalhos?
Por que nossas ciências? Por que nossa razão? Mas sabemos que houve em todos os tempos
visionários e impostores; todos os heresiarcas acreditavam-se inspirados. Lutero conversava
familiarmente com o diabo, e esse diabo de Lutero era um teólogo manhoso e brutal como seu mestre.
O que resultou de tudo isso? Confusão, anarquia e definitivamente ceticismo ou demência. As
mesmas causas produzirão sempre os mesmos efeitos. Reconhece-se a árvore pelos seus frutos. Se
um anjo de Deus, dizia São Paulo, vos anunciar um outro evangelho que não aquele que vos foi
anunciado, que seja excomungado! Não se reflete suficientemente sobre a profundidade dessa
parábola. Se o próprio Deus, com efeito, pudesse perturbar a ordem que ele mesmo estabeleceu, tudo
recairia numa confusão, e o próprio Deus não seria mais Deus. Enquanto houver abusos na Igreja
legítima, os protestantes terão uma razão para existir; mas se os abusos forem suprimidos, o protesto
cairá por si mesmo. Quando os judeus puderem compreender que adoramos Deus em Jesus Cristo, e
não Jesus Cristo no lugar de Deus, lembrarão que Jesus Cristo foi o mais santo dos judeus, e serão
cristãos como nós, e seremos judeus como eles. Quando os filhos forem tão experientes como os
pais, quando os homens nascerem todos sábios e todos formados, quando não houver mais espíritos
fracos e incompletos, a hierarquia, não mais existindo na natureza, deixará de ser necessária na
Igreja. A liberdade de consciência será então somente uma verdade, e poder-se-á dispensar os padres
e o papa. Mas qual é pois o pai de família que, sem ser um monstro, permitiria que seus filhos se
envenenassem sob pretexto de serem livres? Não, não é livre aquele que, entregue a si mesmo, faz
necessariamente o mal. Não impedir, mesmo pela força, um louco de suicidar-se, é ser mesmo um
assassino. Sabeis qual é o crime dos cristãos de nossos dias? É o de não serem suficientemente
cristãos. O dos católicos é igualmente o de não serem suficientemente católicos. Os verdadeiros
protestantes devem julgar-se mais cristãos e mais católicos que o papa. Eles são então arquipapistas,
ou não são nada. O homem não pode abster-se da autoridade, e quem julga abaixo da razão fraca
consultar a Igreja, irá seriamente consultar sua mesa ou seu chapéu. O espiritismo é uma fotografia
das idéias correntes. Os livros de Allan Kardec estão repletos de saint-simonismo, de swedenborgismo
e de mormonismo; mas é menos sábio que Saint-Simon, menos elevado que Swedenborg, menos
lógico que Joë Smith. Teríamos então que acreditar que ainda se envelhece após a morte e que se
lançam sobre a terra as caducidades do além-túmulo. Que triste perspectiva para os grandes homens!
Que infelicidade para os vivos! Bela e santa monarquia do céu, Jesus homem-Deus, e Maria mãe de
Deus! Anjos de frei Angélico, santos da lenda dourada, virgens do paraíso de Dante, quanto sois
superiores, mais poéticos, mais belos que os espectros de Cahaguet e as larvas errantes de Allan
Kardec! Dogma severo e incorruptível, bela e santa caridade que distribuem os eleitos na escala de
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ouro da hierarquia, doutrina profunda cheia de luz para a doçura do espírito e cheia de trevas para o
orgulho, sol de glória e de justiça, os homens não mais vos vêem porque têm os olhos doentes. Que
eles voltem à razão, e retomarão à fé, porque a fé e a verdadeira razão são irmãs, e ambas são filhas
queridas de Deus. Infeliz aquele que não as distingue, mas três vezes pior aquele que as quer
separar! Estamos às vésperas de uma transformação religiosa, disse o conde de Maistre e todos o
sabem; mas qual seria esta transformação? A ciência e a fé bem nos dizem que será a passagem da
análise à síntese, do cristianismo ao messianismo, do catolicismo cego ao catolicismo esclarecido.
Será a reconciliação da razão judaica com a fé cristã: o retorno aos estudos cabalísticos preparará o
grande acontecimento profetizado pelos apóstolos e esperado universalmente por todos os pais da
Igreja. Os mais esclarecidos judeus, os que conheciam e que estudaram o Zohar, esperam essa
reconciliação. Franck, em seu livro sobre a Cabala, fala de uma escola de Zoharistas em que quase
todos se fizeram cristãos, mas, acrescenta ele, consideravam o cristianismo atual apenas como uma
transição necessária do antigo dogma de Moisés a uma síntese religiosa universal. Esta síntese, todas
as inteligências elevadas de nosso tempo a pressentiram. Goethe a sonhou magnificamente;
Lamennais queria torná-la aceita pela Igreja oficial; Chateaubriand a deixa adivinhar sob os véus de
poesia com os quais cobre a sacerdotisa de Homero, a cristã Cymodocée. Michelet a canta em prosa
ritmada na Bíblia da humanidade, mas sente-se nele o filho de Voltaire indisposto contra o cristianismo
pelas barbaridades teológicas da Idade Média. De qualquer maneira, a síntese se faz. Michelet explica
os símbolos da índia, da Pérsia e da Grécia, mas compreende menos os da Roma cristã, talvez
porque a própria Roma cristã tinha acabado por não mais compreendê-los. O espírito que inspirava os
evangelhos apócrifos perderam-se com os mistérios do gnosticismo, e a crítica eclesiástica moderna,
tiranizada pela fria e rigorosa razão protestante, preferiu mutilar as lendas ou apagá-las a procurar o
seu significado alegórico. Encontramos uma entre os pequenos livros da biblioteca azul, e esta lenda,
evidentemente antiga, parece remontar à época dos evangelhos gnósticos; ela é repleta de alegorias
comoventes e de nomes que vêm do grego. É a lenda de Santa Ana, mãe da santa Virgem; Ana, cujo
nome significa a graciosa ou a graça. Seu nascimento é anunciado por um ancião chamado Archos,
nome que significa o princípio ou o começo; ela nasceu de uma senhora chamada Emerantiana, ou a
dama de nossos dias. Sua lenda é uma verdadeira epopéia alegórica, e a colocamos aqui como
complemento de nosso trabalho sobre os evangelhos apócrifos, e como uma peça justificativa em
favor de nossa opinião sobre o gênio das primeiras épocas cristãs e sobre a significação filosófica de
nossos livros sagrados.
A VIDA DE SANTA ANA
Mãe da Santa Virgem De que pais nasceu Santa Ana
Outrora, no país da Judéia, numa cidade chamada Zéphor, situada a duas léguas de Nazaré, havia
uma moça chamada Emerantiana, descendente da raça de Davi e devota de Nosso Senhor. Esta
moça consagrou seu coração a viver apenas no temor de Deus com pureza corporal, e sozinha por
toda a vida, se isso fosse do agrado de Nosso Senhor. Ela tinha o hábito de visitar as pessoas
devotas, os profetas Elias e Eliseu, que moravam no monte Carmelo, e conversava com eles sobre a
vida espiritual e coisas prodigiosas que Nosso Senhor fazia no tempo passado, a doze léguas de
Israel; também conversavam sobre os diversos profetas a quem Nosso Senhor fez muitas promessas,
da mesma forma como o Filho de Deus, para remediar a natureza humana, devia nascer de uma
jovem Virgem, e porque demorava tanto tempo para realizar isso. Como Emerantiana assim
conversasse com os discípulos de Elias e de Eliseu, aconteceu que um dia falou a um desses
discípulos, chamado Archos, com cento e trinta e três anos: Ó venerável Pai! apelo à tua paternidade
para pedir-te uma coisa com a qual meu coração está em dúvida e inquieto. Ele respondeu:
Emerantiana, minha doce filha, pede corajosamente e não me ocultes nada, porque tua doce palavra
me apraz muito e me alegra. Então ela lhe disse: Pai venerável, meu coração não pode compreender
porque jamais nesse mundo transitório foi encontrada uma mulher em condições de se casar, da qual
será gerada a santa virgem que merecerá conceber o Filho de Deus, que o céu e a terra não podem
cingir, e como ela o carregará em corpo no seu seio e terno corpo. Ora, como se pode compreender
isso? Porque ao que me parece, segundo meu entendimento, se é possível que a santidade de todos
aqueles que existiram desde o começo do mundo, e existirão ainda até o fim dele, fosse acumulada
em uma só pessoa, que esta não se poderia comparar a tal mulher, da qual procederá a futura Mãe do
Filho de Deus. Ó meu querido pai, quando refleti sobre tudo isso, fiquei perplexa: não posso todavia
compreender por que nosso Redentor teria esperado mais de quatro mil anos para vir. E enquanto as
lágrimas caíam dos olhos dessa jovem, ela falou repentinamente, e disse: Ai! temo que muitos anos
ainda se passem antes que possa acontecer um casamento tão santo sobre a terra. O santo pai
Archos, ouvindo essas palavras, considerando o profundo pensamento dessa santa jovem,
maravilhou-se; e, por longo tempo, observou-a como que extasiado, e de tão grande admiração não
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pôde proferir nenhuma palavra. Pouco depois a palavra lhe voltou, e ele disse: Ó Emerantiana! muito
nobre senhora, jovem de idade, mas madura no senso e no entendimento, tu me pareces a raiz do dito
leito santo e incontaminado de casamento do qual falaste, santa menina, futura mãe, da qual deve
nascer o Filho de Deus. Antes de partirmos deste mundo isso acontecerá; porque em verdade te digo
que dentre as jovens de Jerusalém não existiu ninguém semelhante a ti, com uma convicção tão
profunda como tiveste, pela qual te deves rejubilar; porque o Espírito Santo repousa em ti; em ti serão
abençoados todos os poderes acima da terra. Emerantiana, ouvindo esse ancião falar, ficou
consolada, e, chorando, ajoelhou-se e disse: Ó Deus de Israel! quanto será para nós vossa face
oculta, e para nossos padres colocados nos limbos, clamando por vós incessantemente em grande
tédio, esperando de vós o que nos foi prometido pelos profetas e pelas Santas Escrituras. Contraímos
a mancha do pecado; quem nos absolverá, exceto vós, Virgem profetizada? Quando poderemos
transpor as portas das trevas livremente? Ó meu Deus! quando virá o cordeiro imaculado que apagará
os pecados dos homens e pagará as dívidas de nossos primeiros pais, esse forte leão que dilacerará
as portas de metal e romperá as portas do inferno? Quando cantaremos com júbilo: Nosso Senhor
chegou, e todas as escuridões tenebrosas se iluminaram? Sou uma pobre donzela, segura de que
necessitaremos descer até nossos pais nos limbos, os quais sempre foram mais perfeitos durante
suas vidas que eu; entretanto algo me alegra, porque tenho confiança de que aqueles que de minha
linhagem forem procriados, não se aproximarão do lugar das trevas do inferno, visto que depois de
mim uma luz infalível se elevará e iluminará toda a escuridão. Quando os discípulos de Elias e de
Eliseu, com o ancião pai Archos, ouviram as palavras da jovem Emerantiana, ficaram muito felizes
com ela em Jesus Cristo, rendendo-lhe louvores, dos quais se faz menção no livro dos milagres. Dos
hábitos e exercícios de Emerantiana. Emerantiana era de grande beleza e bem formada de corpo; era
também muito rica em bens temporais, de descendência nobre, mas mais nobre de virtudes; porque
com penitência ela punia seu corpo, e guardava tal silêncio, que, desde a hora de véspera até o dia
seguinte à hora de noa, não queria falar uma única palavra; três dias por semana abstinha-se de
carne, e só bebia e comia senão duras e amargas raízes de ervas que cresciam nos desertos; não
visitava nenhuma pessoa viciosa; só procurava pessoas virtuosas e espirituais, homens ou mulheres
devotos; visitava igualmente os profetas Elias e Eliseu, que residiam austeramente no Monte Carmelo.
Freqüentemente servia e orava a Deus, no quarto fechado, e fugia de qualquer ociosidade, persistindo
no serviço divino; assistia aos pobres cuidadosamente, desde tenra idade, quando começou a ter
entendimento, até o tempo em que, a conselho de seus pais, casou-se e jamais olhou nenhum homem
no rosto, a não ser que fossem pessoas piedosas e devotas, às quais falava com os olhos voltados
para o chão. É por isso que a fama de sua santidade espalhou-se por toda a Judéia. Não é nenhum
prodígio que de boa árvore e de boa raiz proceda um bom fruto; porque é o que está escrito no
Evangelho, que uma boa árvore não pode produzir mau fruto. Como Emerantiana casou-se. Quando a
jovem Emerantiana estava com dezoito anos, seus pais e amigos reuniram-se e deliberaram quanto a
casá-la com um homem honesto, coisa que não quis prometer. Antes de consentir, quis, através dos
servidores de Deus, saber sua vontade; porque antes se propusera a permanecer casta por toda a
vida; e porque não sabia que estado Deus queria que ela aceitasse; foi ao Monte Carmelo consultar os
santos personagens, para que suplicassem a Deus que manifestasse por alguns sinais sua divina
vontade. No mesmo instante os santos padres oraram a Deus, persistindo em orações contínuas. No
final do terceiro dia, apareceu para eles um grande galho de árvore com apenas um fruto, e no
momento em que o fruto foi colhido, o galho secou. Imediatamente depois, um fruto muito bonito de se
ver foi colocado no galho seco e envolvido por uma grande claridade divina. Esse fruto era tão
resplandecente, que a vista humana não o podia olhar. Os santos padres ficaram emocionados e
admirados por tal visão; pois esses sinais miraculosos não puderam interpretar o querer divino; por
isso fizeram suas orações rogando a Deus que lhes manifestasse o que representava esse signo.
Aconteceu ainda, no terceiro dia que estavam em prece, que uma voz foi ouvida do céu, esclarecendo
o significado do signo, dizendo: O galho verde significa o casamento que será consumado em
Emerantiana; o fruto mostra a criança que em breve dela nascerá; a secura do galho denota a
esterilidade; a luz pela qual o fruto uniu-se ao galho significa o poder divino, pelo qual Emerantiana,
em sua velhice infecunda, acima do curso da natureza, conceberá e produzirá um fruto, o qual trará a
salvação ao mundo universal, cujo nome expulsará os espíritos maus; os bons anjos o reverenciarão,
ele será anunciado e manifestado por todo mundo. E quando os santos padres ouviram essa voz
miraculosa, renderam louvor e graças a Deus, o Criador, chorando de alegria, e deram a conhecer a
Emerantiana que em pouco tempo, pela vontade divina e conselho de seus amigos, ela se casaria, e
como, através de seu casamento, poderia mostrar ao mundo sua grande misericórdia. Emerantiana,
vendo isso, rendeu graças a Deus, rogando-lhe muito humildemente que tivesse a bondade de uni-la
em matrimônio a um marido bom, justo e leal, que fosse temente a Deus; pedia apenas aquilo que no
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estado de matrimônio pertence ao louvor de Deus, para multiplicar a família em honra do Criador.
Enfim, rendeu-se a todas essas apuradas solicitações. Da família de Santa Ana. Naquele tempo, havia
um jovem rico e de boa estima, chamado Estolano, descendente de sangue real, nobre desde o
começo de sua infância, educado na crença de Deus, que foi dado, pelos amigos de Emerantiana, a
ela, em legítimo matrimônio, do qual teve uma filha que foi chamada Ysmaria. Quando ela tinha quinze
anos, casou-se com Élnne, e teve uma filha chamada Elisabeth, que teve por marido Zacvarias, o
soberano sacerdote do qual descendeu João Batista. Ysmaria concebeu também uma outra filha que
foi chamada Enim, mãe do santo bispo Servais. Em suma, quando Emerantiana tinha sessenta e um
anos, pensava que certamente, segundo o curso da natureza, não teria mais filhos; no entanto ela
estava esperando, segundo a promessa que lhe havia sido feita pelo santo padre Archos. Alguns dias
depois, quando estava orando no quarto, foi cercada por uma grande claridade, e ouviu uma voz que
lhe disse: Emerantiana, anuncio-te hoje uma grande alegria que virá neste mundo; porque Deus todopoderoso
quer mostrar sua bondade infinita aos filhos do gênero humano; o tempo que prometeu aos
profetas está próximo; porque a raiz de Jessé florirá e a semente de Abraão receberá benção, o trono
de Davi terá quem nele se sente. Por isso, querida amiga, escuta-me, porque o espírito de Deus vivo
está em mim. Da maravilhosa natividade de Santa Ana. Assim que Emerantiana viu a grande
claridade, ficou muito assustada, e ouviu uma Voz que lhe dizia assim: Emerantiana, não tenhas medo
nem temor, mas honra teu Criador com todo teu poder; porque por sua graça conceberás acima do
curso natural, de Estolano teu marido, e terás uma menina, da qual nascerá uma menina que foi
predestinada antes da criação do mundo, preciosa e acima de todas as criaturas humanas; porque
Deus quer operar nela coisas incompreensíveis excedendo os entendimentos angélicos e humanos
acima da obra natural. Então Emerantiana respondeu: Sou filha de Adão, velha em idade, o fruto do
casamento falta em mim; é porque naturalmente não posso conceber: todavia sei bem e confesso que
a Deus nada é impossível. Fazei de mim segundo vossa vontade e segundo vossas grandes
misericórdias; porque nossos pais e eu vos temos ofendido gravemente e nada merecemos. Então ela
ouviu repentinamente a voz lhe dizendo: Filha, fica em paz, porque é preciso que eu faça saber o
poder e a vontade divina também a Estolano, teu marido. Naquela hora, Estolano saíra para ver seu
gado pastar nos campos; da mesma forma quando estava em sua oração, subitamente foi envolvido
por uma luz, e ouviu uma voz que lhe disse: Estolano, que a paz esteja contigo, levanta-te e vai para
tua casa, deita-te com tua mulher Emerantiana, cujo nome será manifestado pelo mundo universal.
Quando Estolano ouviu essa voz, ficou muito assustado e surpreendeu-se muito; porque tinha setenta
anos, e porque ambos estavam incapacitados para gerar segundo o curso da natureza. Ouviu então
subitamente a voz dizendo: Estolano, não queiras duvidar, porque nada é impossível a Deus, e como
sinal do que estou dizendo, quando entrares em teu quarto, onde deves deitar, observa na cabeceira
do leito, e encontrarás impressas quatro letras de ouro que ninguém escreveu. Tendo dito isso, a
claridade desapareceu. Depois disso, Estolano levantou-se de sua cela, louvando a Deus, e foi até
sua mulher Emerantiana; contaram um ao outro o que tinham visto e ouvido; no quarto, encontraram o
sinal de quatro letras de ouro escritas na cabeceira do leito, dois A e dois N, que unidos fazem Anna,
que Emerantiana conceberia em breve e daria à luz. Então louvaram e agradeceram a Deus,
esperando a promessa do Criador feita a eles. Pouco tempo depois, Emerantiana concebia de
Estolano seu marido, um fruto pela graça especial de Deus, e com grande desejo aguardava a hora de
dar à luz. Quando a hora se aproximava, ela foi ter com os discípulos, pedindo muito humildemente
que orassem a Deus por ela, para que ele pudesse preservar do inimigo o fruto que trazia, e que na
hora e lugar pudesse dar à luz salutarmente. Nesse tempo havia um discípulo chamado Francisco; ao
ver Emerantiana, ajoelhou-se, gritando em voz alta, e dizendo: Quem é esta santa matrona que está
junto a mim? Emerantiana lhe respondeu: Muito venerável padre, não me conheces? Sou a velha
Emerantiana, tua humilde serva. Ele lhe disse: Emerantiana, vejo em ti grande mistério acima do curso
da natureza. Em verdade te digo que, como um círio ou uma lâmpada clareiam as trevas, também
percebo em teu seio uma menina resplandecente em luz, da qual não posso maravilhar-me
suficientemente, porque excede o entendimento humano. Emerantiana lhe disse: Reverendo Pai, as
obras de Deus são incompreensíveis, e suas misericórdias são impenetráveis, é isso que ele quer
mostrar brevemente a seu povo. Por favor, ora por mim; porque a bondade divina quer manifestar-se e
foi prometida há muito. Quando o bom padre Francisco e seus companheiros compreenderam isso,
oraram com fervor por ela e disseram-lhe: Emerantiana, rejubila-te, porque tua prece será ouvida;
retorna à tua casa e prepara-te para dar à luz. Em que época Santa Ana nasceu. Quando chegou a
hora em que Emerantiana, segundo a promessa do anjo, daria a luz à uma menina, isso aconteceu
como havia sido profetizado; e apareceram sobre o peito da criança quatro letras de ouro, formando o
nome de Anna. Esse nome resplandecia como pedras preciosas. Fez-se um milagre por causa desse
nome. Quando o belo milagre desse nome foi visto pelas mulheres que haviam assistido o parto, a
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notícia desse milagre espalhou-se por toda parte, e grande número de pessoas lá foram para ver esse
prodígio; entre outros foi lá um cavalheiro cego, e como seus olhos não podiam ver o nome de Santa
Ana, ele pediu para tocá-lo com suas mãos, o que lhe foi permitido. Emerantiana, considerando que
ele era um dos bons personagens de Jerusalém, não lhe ousou recusar, e permitiu. Quando tocou seu
nome, e em grande devoção o beijava, aconteceu que a mão de Ana tocou seus olhos, que se abriram
subitamente, e lá recuperara a visão de que estava privado antes, tendo nascido cego. Quando ele viu
o nome de Santa Ana em tão grande luz, exclamou com grande alegria: Bendito seja o Deus de Israel.
Emerantiana ficou comovida com esse milagre, temendo que, se o povo comum fosse informado
disso, viesse como louco ver sua filha, e com isso a criança pudesse adoecer gravemente por causa
do incômodo de tantas pessoas; rogou ao cavalheiro que não divulgasse o que acontecera. Quando o
cavalheiro ouviu isso, e vendo Emerantiana em tão grande inquietação, prometeu-lhe não dizer nada a
ninguém, e a beijou em grande reverência, conservando os olhos fechados como se estivesse ainda
cego; e se fez conduzir por seu servo a Jerusalém, lugar onde morava. Como Santa Ana foi durante
cinco anos serva no templo de Jerusalém com as outras jovens. Depois que Emerantiana e sua filha
Ana foram morar em Belém, vieram nove sacerdotes ao templo de Jerusalém, que receberam Santa
Ana de sua mãe com grandes honras; ela só tinha três anos e conduziram-na com grande reverência
ao templo de Jerusalém, para servir os outros devotos que ali moravam, entre os quais Ana
desenvolvia-se e crescia no amor e em todas as espécies de virtude; dia e noite devota em todas suas
preces, era igualmente diligente nos trabalhos manuais que lhe eram ordenados, porque as jovens
que serviam no templo tinham que lavar, costurar e limpar os ornamentos do templo. Quando se
encontrava só, lançava-se de joelhos para orar a Deus em grande devoção; um dos sacerdotes do
templo percebeu isso e se espantou com a grande devoção da moça. Para informar-se melhor, ele se
escondeu secretamente no quarto em que ela costumava fazer essa devoção, para ver e ouvir a
maneira como fazia suas preces. Quando chegou meia-noite, Ana levantou de seu leito, como estava
habituada, orando com as mãos juntas, os joelhos ao chão, os olhos fixos na direção do céu dizendo:
Ó Deus de Israel! minha consciência me dá testemunho de que vos temos ofendido grandemente, por
causa disso estais afastado de nós; certamente, Senhor, quanto tempo passará ainda até a libertação
de nossa dura escravidão? Vivemos na esperança, segundo as promessas que fizestes a nosso pai
Abraão, de nos dar um libertador. Senhor, não recordeis nossos erros passados; mas permiti que
vossa misericórdia nos venha consolar. Lembrai-vos de nossos pais Abraão, Isaac e Jacó, e da
misericórdia que lhes prometesses. Rogo-vos, Senhor, que acolhais a prece de meu delicado coração,
e não rejeiteis minha oração, porque sois meu Pai e me criastes; é por isso que meus lábios vos
louvarão na minha juventude, e quando tiver mais idade, dar-vos-ei maiores louvores, confessando-me
a vós, e lembrar-me-ei de vossa misericórdia, e pregá-la-ei àqueles que não crêem em vós. Quando
Ana acabou de rezar, prosternou-se no chão, e repousou um pouco. O sacerdote, que estava
escondido para ver e ouvir as ferventes preces dessa jovem, ficou extasiado de admiração diante de
tão grande devoção; dizia a si mesmo: Se todos os sábios de Jerusalém vissem a prece dessa
donzela, não ficariam menos admirados que eu. E porque o dia se aproximava, esse sacerdote não
ousou ficar por mais tempo, com medo de ser percebido, e secretamente se retirou. A premência que
ele tinha em saber quem era essa moça fez com que ali fosse muitas vezes, até que fitou Ana no
rosto, juntando as mãos, dizendo: Ó Deus todo-poderoso! eu não podia viver tranqüilo enquanto não
tivesse conhecido esta santa donzela, e creio que é esta a donzela de quem está escrito que chegará
a um grau eminente de santidade. Ana continuou seus exercícios de devoção e tornou-se cada vez
mais agradável a Deus, Como morreu Emerantiana e foi colocada na sepultura perto de Estolano, seu
marido. Quando Emerantiana, mãe de Santa Ana, tinha setenta e oito anos, disse a sua filha Ana:
Olha, meus dias passaram, e está na hora de descansar com meus pais e ser sepultada junto de
Estolano, teu pai. Ó minha filha muito querida! Lembra da misericórdia que Deus nos mostrou e espera
ainda pacientemente o tempo de graça que Deus nos prometeu. Guarda os mandamentos de Deus,
tem compaixão dos pobres, consola os desolados, pede conselhos às pessoas piedosas e sábias, lê a
Santa Escritura, rende graças ao Criador de todos os bens que ele te fez, e com todas as pessoas sê
humilde, e não esquece o último dia de tua vida, mas está sempre pronta. No momento em que
Emerantiana instruía Ana dessa forma, a morte veio lhe tirar a vida. Ana chorou amargamente a morte
de sua mãe, orando devotamente a Deus por ela. Quando Ana reuniu todos seus parentes, eles
cercaram Emerantiana em grande reverência, e enterraram-na junto de seu marido, como ela havia
pedido. Ana chorou sua mãe tantos dias quantos anos ela tinha. Como Santa Ana, com a idade de
dezoito anos, casou-se. Quando Ana tinha dezoito anos, por conselho de seus amigos, casou-se com
um homem crente em Deus, nobre de sangue, como da linha do rei Davi, chamado Joaquim, que vivia
santamente na crença de Deus, observava seus mandamentos e era misericordioso para com os
pobres; porque se diz dele que quando tinha quinze anos, repartiu seus bens em três partes, dando
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