A Ciência dos Espíritos - parte 6


CAPÍTULO 2
A última palavra sobre o espiritismo. Alguma coisa de estranho e inaudito está acontecendo no mundo,
neste momento. O Cristianismo, colocando todas as nossas esperanças na morte, havia feito os
homens se desgostarem da vida: e eis que uma crença nova parece querer nos ligar à vida
aniquilando a morte. Para a seita espírita, com efeito, a morte não existe mais. A vida presente e a
vida futura, separadas apenas por uma barreira insignificante que os espíritos podem atravessar, são
agora apenas uma única e mesma vida. Estamos cercados daqueles que amamos, eles nos vêem,
tocam-nos, fazem-nos sinal, escrevem-nos, caminham conosco e carregam metade de nossos fardos.
Algumas vezes, suas mãos tornam-se visíveis e palpáveis para se unirem às nossas. O milagre se
vulgariza e podemos reproduzi-lo à vontade. Quanto mais lágrimas correm sobre as tumbas, mais luto,
mais coroas funerárias em memória daqueles que não estão mais, porque, em verdade, longe de ter
deixado de ser, aqueles estão mais vivos que nós. O berço da criancinha eleva-se sozinho
balançando-se e diz à pobre desolada que seu pobre anjo ficou sempre perto de seu coração. A antiga
barreira desabada que separava outrora, para sempre, as duas existências do homem é como a
divisão que separava as moradas de Píramo e Tisbe: deixa passar as palavras, não detém nem
mesmo os beijos. Que sonho divino, que doce loucura! Também é aos milhares que é preciso contar
os adeptos da nova ciência. Não seria muito cruel desenganá-los se todavia eles se enganam, porque
se apóiam em raciocínios aos quais nada se pode responder e caminham cercados de prodígios. Sua
moral aparentemente é pura e sua doutrina só contradiz o dogma católico por opor humildes
esperanças a tão excessivos rigores. Tudo isso é tão precioso, tão surpreendente, tão belo, que
facilmente nos deixamos invadir por uma credulidade lisonjeira, e não refletimos o suficiente para ver
que a pretensa nova religião aniquila o culto e a hierarquia, torna o sacerdote inútil, destrói o templo
em proveito da tumba, substitui os sacramentos dos vivos pelo contato duvidoso e problemático dos
mortos. Nessas evocações multiplicadas, a razão se cansa, a fé se materializa, os poderes austeros
da teologia transformam-se em pequenezas romanescas e sentimentais, fala-se de um Cristo quase
tão ridículo quanto o de Renan e de uma Virgem Maria que vem todas as noites beijar a boca do velho
Girard de Caudemberg. Por outro lado, esse mau Mirville, que não nos perdoa por lhe termos
chamado de bom, emboca a trompa infernal e proclama o reino de Satã. Seu sacristão, M. Gougenot
Desmousseaux, apresenta-lhe o hissope para exorcizar o príncipe das trevas. As injúrias caem ao
invés da água benta. Os prud’hommes volterianos negar estupidamente os fatos por não se
preocuparem com as causas. O respeitável Velpeau explica por um leve estalido dos músculos da
barriga da perna pancadas que quebram as mesas e parecem demolir muralhas. Para muitas
pessoas, o americano Home é apenas um hábil malabarista; são em maior número ainda as que riem,
dão de ombros e não querem nem mesmo ouvir falar disso, e no meio desse caos a verdadeira
ciência, grave, silenciosa e triste, estuda, observa e espera. Ela não saberia todavia guardar um
silêncio eterno, pois senão ela seria a morte. É chegado o tempo em que é preciso, obrigatoriamente,
que ela fale para tomar a defesa dessa eterna razão que é a base de toda justiça. É necessário que
ela fale para anunciar ao mundo a maior e a mais necessária de suas revoluções, aquela que deve
derrubar o despotismo da loucura para fundar o império da sabedoria, aquela que deve reconciliar
para sempre a inteligência com a fé. A adesão firme do espírito às hipóteses necessárias e razoáveis
é a fé; pode-se também dizer que essa fé é a razão. A adesão obstinada do espírito às hipóteses
impossíveis e irracionais é a superstição, o fanatismo, a loucura. O Deus dos sábios é a razão viva e
universal; o Deus dos fanáticos e dos supersticiosos é a loucura absoluta. Mas a loucura absoluta é a
mentira absoluta, é o mal, é o diabo: os supersticiosos adoram o diabo. A religião dos supersticiosos
pode pois ser rejeitada sem exame. Quando se diz que o verdadeiro cristão deve sacrificar a razão à
fé, não se fala de uma maneira exata. Sacrificar a razão à fé é submeter, em matéria de religião, seu
próprio julgamento à autoridade universal, o que é mais sábio e mais racional. São Paulo não pede
uma obediência racional? Todo mundo sabe disso, mas ninguém quer compreender, e em todos os
tempos os homens de má fé, para terem o pretexto de lutar entre eles, cultivam o mal-entendido. A fé
sem razão é a loucura. Um certo pensionista de Bicêtre crê firme e obstinadamente que é o rei da
França. Por que ele é louco por acreditar nisso? Porque não tem razão em acreditar, ou porque
acredita sem razão. Vintras crê firmemente que é o profeta Elias e que o arcanjo São Miguel,
disfarçado em velho mendigo, conversa familiarmente comele. Seus discípulos sustentam que ele tem
razão em acreditar nisso; e se valem de provas de pretensas profecias e de pretensos milagres. Ora,
reconhecemos que as profecias são divagações e declamações confusas, e os milagres, fenômenos
fastidiosos e de natureza a ridicularizar as coisas santas. Aqui a razão pública corrige a razão privada
e julgamos que Vintras e seus discípulos são, não direi sectários que é preciso combater, mas doentes
que é preciso curar. A fé é a confiança da alma humana em uma razão maior que sua própria razão. A
fé eleva pois a razão do homem, ao invés de diminui-la; o abismo do céu começa para nós onde
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termina a altura das montanhas, a fé começa necessariamente onde a ciência acaba. Não posso
acreditar no contrário do que sei, e não posso saber o contrário do que acredito sem renunciar
imediatamente seja à minha ciência, seja à minha fé. O objetivo da fé é pois, necessariamente, a
hipótese; mas o objetivo da fé racional é a hipótese necessária. Não nos digam que a fé é uma graça
e não uma dedução filosófica: o bom senso também é uma graça, e uma graça infelizmente muito
mais rara do que a fé. Nossas paixões funestas corrompem nosso julgamento. Um mau não é nunca
razoável, e o céu só concede a verdadeira razão aos homens de boa vontade. Crede, e sereis
inteligentes, dizia o Cristo aos pobres de espírito e aos humildes, chamando-os à salvação pela fé.
Sejai verdadeiramente inteligente, e ireis crer, podemos dizer agora aos sábios e pensadores. Isto
significa: crede sabiamente, ao invés de crer insensatamente, porque, por bem ou por mal, é
necessário sempre que o homem creia. Providência ou fatalidade, existe uma causa primeira. Ordem
ou caos, existe alguma coisa no infinito. Mas a ordem em uma só parte do universo é a negação do
caos. A vida essencialmente diretriz e dirigida em todos os seus fenômenos é a negação da fatalidade.
O verdadeiro credo quia absurdum é aquele do homem que nega. Em face do ser, com efeito, é
preciso ser louco para chegar a afirmar o nada. O ser, sendo infinito, pode ser conhecido em suas
manifestações finitas. O conhecido conduz, pela hipótese - seja necessária, seja somente racional -, à
divinização do desconhecido relativo; mas além de toda hipótese possível, resta sempre o
desconhecido infinito, do qual não se pode pensar nada e nem dizer nada. É nesse desconhecido
insondável, indeterminado, indizível, que os antigos cabalistas adoravam Deus sem jamais procurar
compreendê-lo. Onde a ciência termina, a fé começa, e a fé coloca suas revelações hipotéticas nas
aspirações do coração sempre mais insaciável e mais corajoso que o espírito. Ora, o coração humano
pode se apoiar numa força ou se deixar perder por uma fraqueza. - A força é o sentimento heróico do
sacrifício. - A fraqueza é o sonho debilitante do egoísmo satisfeito. Para suprir a insuficiência da
ciência, pode-se apelar ou à exaltação dos sentimentos generosos, ou à superexcitação dos instintos
fracos. A exaltação dos sentimentos generosos leva à fé no sacrifício e, por conseguinte, no trabalho
regular, na obediência, na hierarquia, na abnegação do próprio sentido, para se submeter ao sentido
comum. A Igreja então se eleva, a sociedade é uma milícia, com sua hierarquia e sua disciplina
obrigatória para todos. A mais poderosa inteligência manifesta-se então pela maior docilidade. Nada
há de mais perspicaz, com efeito, do que a obediência cega, nada de mais digno da liberdade do que
o sacrifício da própria liberdade. Um soldado que já não pode obedecer já não pode viver, e quando
seu general lhe ordena algo que conscientemente não poderia fazer, ele não deserta, morre. O
sentimento exaltado, mas justo, que crê na obediência à bandeira, chama-se honra. O sentimento
exaltado, mas justo, que crê na obediência à Igreja, chama-se fé. O sonho egoísta oposta à fé é a
heresia. É o soldado que quer vencer se isolando, é o crente excêntrico que quer guardar só para si as
vantagens da sociedade. É o homem que se quer comunicar com Deus sem intermediário e quer uma
revelação só para si. Como se o Deus da humanidade pudesse ser excomungado, como se a base da
religião não fosse o espírito de caridade, e como se o espírito de caridade não estivesse em outro
lugar que não a associação dos sacrifícios e o concurso hierárquico à criação e à conservação social e
eclesiástica da fé! Esta razão elevada a que chamamos Igreja absorve e deixa absorver todos os
raciocínios individuais. O Cristo, ao revelar-se ao mundo, fez calar os oráculos, porque os oráculos
não são a razão. Que importa, com efeito, um fenômeno que a ciência ainda não explica, e que pode
ele contra uma razão? Se eu visse um absurdo ser escrito em letras de fogo no céu, admiraria o
fenômeno, mas não seria suficientemente louco para admitir o absurdo. Agora que a voz do Cristo não
é mais ouvida, ressuscitam-se os oráculos. As mesas falam, as canetas escrevem por si mesmas, as
pedras gritam, e o que gritam? que dizem as mesas? o que escrevem os lápis dos médiuns? Tudo
isso repete em todos os tons e em todas as línguas que os homens estão loucos quando têm por base
a sabedoria de Deus, que está no espírito de caridade. Lutero, certo dia, recebeu a visita de um
espírito; era branco ou era preto? E o que o reformador não poderia dizer; no entanto ele tende a
pensar que o espírito era o diabo. E eis o diabo que argumenta contra o monge, e eis o monge
convencido pelos argumentos do diabo, e foi assim que a reforma chegou ao mundo. Espíritos e
giradores de mesa, eis toda a vossa história. Uma voz vos fala, não sabeis qual voz. Mais de uma vez
vossas pretensas revelações pululam de contradições e de mentiras. Mas eis-vos livres da hierarquia,
sois mais astutos que vosso cura e que o papa. O outro mundo revela-se a vós diretamente ou por
intermédio de seres inferiores a vós, de seres ignorantes e doentes, de pobres alienados que dormem
ou não sabem o que escrevem, e eis-vos como Israel fortes contra Deus. Arranjais à vossa maneira o
dogma eterno. Negais isso, admitis aquilo, fazeis paraísos de fantasia e de infernos suportáveis; com
isso podeis vender a moral, isso sempre faz bom efeito e sabe-se, como vós, que isso não obriga a
nada. Porque: a conseqüência de uma proposição absurda não poderia ser examinada, porque não
existe. Dizeis: Deus desaprova a razão e encoraja a loucura. É como se dissésseis: o diabo desaprova
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a loucura e encoraja a razão; ora, o pecado é a loucura, e a virtude é a razão. Virtude louca e pecado
sábio são termos que não combinam. Como pois não vedes que tomais Deus pelo diabo e o diabo por
Deus? E Deus seria o demônio da loucura! Entrai em vós mesmos e refleti. Assim, depois dos raios
dos profetas, depois da auréola dos apóstolos, depois dos esplendores dos padres, depois da
paciência laboriosa mas razão incompleta dos escolásticos, depois dos corajosos desesperos da
reforma e da filosofia, Deus, como último recurso, envia mesas falantes para soletrar em cambalhotas
a palavra pouco decente de Cambronne, tempero obrigatório de uma doutrina idiota, estímulo a
práticas a que se poderia chamar o onanismo do pensamento. E é Deus, não, é vosso Deus que está
reduzido a semelhantes expedientes! E passais diante de Bicêtre sem erguer o chapéu e sem
cantarolar o refrão de Béranger: Salve minha pátria! A fé em Deus é a firme adesão do espírito às
hipóteses necessárias da inteligência. São Paulo as formula nestes termos: Accedentem ad Deum
oportet credere, quia est et inquirentibus se remunerator sit. Que Deus é, e que recompensa aqueles
que o procuram. A fé em Jesus Cristo e em sua Igreja é a firme adesão da alma às hipóteses
necessárias do coração. Se Deus é, ele é bom; se ele é bom, ele nos ama; se nos ama, deve remediar
eficazmente nossos males. Ele deve vir a nós que não podemos ir a ele. A encarnação, a redenção, os
sacramentos, o dogma imutável, a hierarquia infalível, tornam-se então necessárias, e tudo isso se
prova ainda pela existência real e sempre presente na Igreja de um poder evidentemente divino que
transforma os ignorantes em sábios, os fracos em heróis, as mulheres mais simples e até as crianças
pobres, em verdadeiros anjos da terra. Esse poder, desgraça a quem o desconhece, vergonha a quem
lhe resiste e o nega:
É o espírito de caridade!
A fé da inteligência que afirma só Deus é a fé de Moisés.
A fé do coração que afirma a Igreja é a fé de Jesus Cristo.
A fé de Moisés, é Deus inacessível ao homem.
A fé de Jesus Cristo é Deus presente na humanidade.
Inacessível ao pensamento, mas sempre presente ao amor, eis, com efeito, Deus por inteiro.
O mosaísmo e o cristianismo são inseparáveis como o espírito e o coração, como a inteligência e o
amor.
A Igreja é a humanidade cristã, conseqüência necessária e complemento forçado do judaísmo
mosaico.
Ao lado dessa fé razoável, sempre tentou elevar-se a fé louca e imaginária, anárquica como a loucura,
caprichosa como os sonhos. É a fé dos visionários que tomam por revelações divinas os fantasmas de
sua imaginação; Dos que pedem sabedoria ao êxtase, à embriaguez, ao sono, à catalepsia, a todos os
estados, enfim, que suprimem o livre arbítrio do homem e o tornam mais ou menos alienado. E eles
não vêem que a alienação é a decadência do homem. E não compreendem que o espírito de vertigem
é o espírito da mentira e do mal. E não sentem que ao abandonarem-se aos desfalecimentos
automáticos do sonambulismo ou do hipnotismo, às impulsões fatais e duvidosas do espírito das
mesas giratórias, abandonam ao desconhecido tenebroso a direção de seu pensamento, e tornam-se,
o que é horrível e completamente contra a natureza, alienados voluntários. Tornam-se, então, os
profetas do turbilhão, os videntes da vertigem, os oráculos do grande caos, os intérpretes da
fatalidade. Eles se olham num espelho despedaçado e crêem perceber a multidão dos espíritos
celestes que já serviam de alimento a seu espírito, e seus sonhos de doutrina assemelham-se aos
pesadelos de uma digestão difícil. Em que diferem essencialmente nossos hipnotizados modernos dos
antigos gnósticos da Índia, que, com os olhos fixos nos seus umbigos, esperavam a aparição da luz
incriada? Muito tempo antes de nós, os brâmanes magnetizavam as mesas e as suspendiam da terra
colocando nelas somente as mãos. A pitonisa de Endor era o que chamaríamos hoje de um poderoso
médium e ela evocava os mortos; ora, a evocação dos mortos, estou cansado de vos dizer, é a
necromancia, a mais negra das ciências do abismo, a mais maldita das operações sacrílegas. A
necromancia substituindo o cristianismo, a luz dos mortos substituindo a palavra do Deus vivo, o fluído
espectral descendo sobre nós ao invés da graça, a comunicação eucarística esquecida por não sei
quais banquetes, onde a alma se asfixia aspirando o fósforo dos cadáveres; eis, pobres insensatos, o
que tomais por uma renovação religiosa; eis vossa fé e vosso culto, eis enfim o Deus negro que
adorais! Mirville não está completamente errado ao atribuir ao diabo as divagações espíritas.
Mas, se Deus envia o diabo em missão, o diabo é forçado então a obedecer a Deus? O diabo é,
então, o servidor de Deus? O diabo é o missionário de Deus?
Então é Deus que responde pelo diabo.
Então tudo o que atribuís ao diabo é Deus que faz.
O diabo já não tem livre arbítrio, e faz contra a vontade tudo o que Deus o faz fazer.
Então o diabo mentiroso é Deus mentiroso;
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O diabo algoz é Deus algoz; o diabo grotesco é Deus grotesco.
Blasfemadores que sois! e não estremeceis! Não é à imaginação doente do homem, não é à sua
loucura nem a seus sonhos, é à sua inteligência e à sua razão que Deus se revela. Se um padre da
Igreja escreve o famoso Credo quia absurdum, é porque queria indicar por esse paradoxo o domínio
real da fé que começa nos limites extremos da ciência. Ora, nesses limites extremos a ciência cai no
absurdo se quer ir adiante; a alma racional, então, só pode encontrar um refúgio na fé. É pois, de certa
forma, o absurdo que torna a fé necessária: Credo quia absurdum, creio porque seria absurdo
raciocinar sobre o que posso saber, creio sobretudo porque seria ainda mais absurdo não crer. A alma
adere invencivelmente a suas hipóteses quando elas são rigorosamente necessárias, pode amá-las e
ligar-se a elas quando são racionais; mas as almas insensatas apaixonam-se facilmente pelas
hipóteses ridículas e impossíveis. Creio na vida eterna, eis a hipótese necessária; a vida eterna não
permite que nossas almas se apaguem quando morremos, eis a hipótese racional. Mas no que se
transformam essas almas desprendidas de nossos corpos? Vós me respondeis que elas ficam na
nossa espessa atmosfera todas arrepiadas e nuas, ou ainda que se ocultam nos madeiramentos que
elas fazem estalar, nas mesas que elas fazem girar, nos lápis que parecem traçar sozinhos lugarescomuns
de moral vulgar, dignos quando muito do gênio de Mme. Prudhomme, e das divagações e
injúrias: eis a hipótese ridícula e, por conseguinte, impossível. Produz-se um fato ínexplicável para
vós. Vossa imaginação prevenida explica-o à sua maneira. Fizestes ato de fé? Não, fizestes ato de
temeridade, ou, se quiserdes mesmo, de puerilidade. Uma voz sai do muro e nos fala: não sabemos
de onde vem. É São Miguel, diz o pobre Vintras; é o diabo! exclama o mau Mirville, que se indigna por
ser chamado de bom, e ambos escrevem livros volumosos. Mas, afinal, o que dizia essa voz?
Pobrezas, então não é São Miguel; vulgaridades, então não é o diabo. Mas, afinal, alguém falou,
porque ouvimos a voz e sabemos que as paredes não falam. Muito bem, mas o que concluímos?
Simplesmente isso: que não foi a parede que falou; mas então o que foi? Eu vos diria se soubesse:
mas se vos digo não o sabendo, sou um mentiroso ou um imbecil. Ó, simples bom senso, como és
raro! Mas aqui alguém me interromperá. Moisés, dir-me-ão, ouviu uma voz no Sinai; como pôde ele
saber se era a voz de Deus, do diabo, ou de um sonho? Era talvez a alma física da terra; era talvez o
gênio irritado do Egito que queria, enganando os hebreus, vingar os desastres do Mar Vermelho.
Moisés acreditou que era Deus. Mas que razão infalível tinha para acreditar nisso? Por que, ao afirmar
que era Deus, não estava sendo nem mentiroso nem imbecil? Por quê? Eu vos direi: é que as leis do
Sinai são a expressão da mais alta e pura razão; é que o Decálogo era gravado na consciência dos
homens antes de ser esculpido na pedra pelos dedos de Deus, que, como se sabe, não tinha dedos; é
que os relâmpagos e os trovões dos quais rugia e se desgrenhava a montanha eram, nesta primeira
cena do grande drama da revelação positiva, apenas decorações e acessórios. Eu vos pergunto que
diferença pode fazer, na proclamação do dogma da unidade de Deus, uma trombeta a mais ou a
menos? Quando Jesus, pelo heroísmo divino de sua morte, prova ao mundo a imortalidade da alma,
quando, vitorioso da agonia, solta um grito de triunfo, e depois inclina a cabeça docemente e morre, o
que me importa que as pedras se partam e que os túmulos se abram? Deixai-me ignorar esses
prodígios; não disponho de toda a minha alma para admirar o último suspiro do justo. Tirai-me esses
fantasmas, não tenho tempo de vê-los; meu pensamento está inteiramente absorvido numa sublime
realidade! Não procuro mais, como certos escritores modernos, explicar ridiculamente os milagres do
Evangelho, não me esforço para supor, por exemplo, que Lázaro, doente, foi amortalhado vivo e
abandonado durante quatro dias no túmulo por suas irmãs, para atrair para essa armadilha estranha a
vaidade cúmplice ou ingênua de algum taumaturgo duvidoso. História ou lenda, a narracão evangélica
impõe-me a veneração, lembro-me do magnífico quadro do profeta Ezequiel, em pé no meio das
ossaturas. Pensas tu, ó profeta, que esses restos poderiam reviver? E eis no entanto que à palavra do
homem obedecendo a Deus, a vida estremece e se move em todo esse campo de morte. O espírito do
Verbo soprou, e a humanidade renascerá. O mesmo acontecerá a Lázaro. Lázaro, o grande leproso
humano, o doente da terra, morreu depois de quatro dias, isto é, após quatro mil anos, porque, diante
de Deus, diz aliás a Escritura, mil anos são como um dia. Já está em putrefação, esse gênero humano
que o imperador de Capri governa. Salvador do mundo, chegaste muito tarde. Se estivesses estado lá,
Lázaro não estaria morto. Jesus não responde nada, mas chora, e dizemos: Vede como ele o amava!
Depois ele faz remover a pedra, chama o morto à vida, e o morto levanta-se, ainda preso em seu
sudário. Eis as origens do cristianismo. Desatai-o, diz o Salvador, e deixai-o ir em liberdade; eis aí o
cumprimento e o fim. Esta não é a história de um homem, é a lenda profética do mundo, é o
complemento e a explicação da visão de Ezequiel. Respira-se nessa narração o sopro divino em pleno
peito. Chora-se com Jesus, estremece-se e levanta-se com Lázaro; estendem-se em direção ao céu
as mãos ainda cativas. Lázaro são os escravos da América, são os oprimidos da Irlanda, são os
mártires da Polônia. Dizei, oh! dizei, Senhor, que os libertem e que os deixem caminhar! Preciso
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procurar outra coisa nessa página que me impressione tão vivamente? Sinto que ela é verdadeira,
cedo à emoção que ela me inspira; mas é simplesmente uma parábola, é a narração de um
acontecimento? Nada sei, e, por conseguinte, seria temerário afirmar a esse respeito alguma coisa
contrária ao ensinamento da Igreja. Aqui a tradição dos primeiros padres da Igreja é como a minha
concepção; eles compreenderam o símbolo como eu os compreendo e se reservam o direito de negar
a história que serve de base a esse símbolo. Devo imitar sua sabedoria, mas a pobre crítica de Renan
inspira-me uma profunda piedade. A força do Evangelho não está nos milagres que se relatam nesse
livro sagrado, mas na razão suprema, no LOGOS, que é a luz de todo homem vindo no mundo, como
diz São João. "Não me pergunteis quem sou, dizia Jesus, sou o princípio que fala." Estando oposto às
leis comuns da natureza, o milagre parece um erro; mas a verdade, sempre a mesma, faz empalidecer
o brilho efêmero de todos os prodígios diante dos esplendores da ordem eterna! Não se poderia
encerrar a verdade numa tumba, e por conseguinte ela não poderia de lá sair. É a vida que irradia
sobre a morte, e não é a morte que pode irradiar sobre a vida. O espírito dos grandes homens não tem
necessidade de voltar para perto de nós do além-túmulo; ele fica sempre sobre a terra. Consultadores
de oráculos fúnebres, vós vos assemelhais a homens que passariam a existência a olhar o fundo de
um poço para perceber o sol. Sacrificar a vida presente a uma existência futura é o espírito do
Cristianismo, definido por todos os ascetas. Encontrar nesse sacrifício a maior felicidade da vida
presente é o gênio do cristianismo, não menos argutamente pressentido do que magnificamente
sonhado pela alma de Chateaubriand: mas o coração do cristianismo, sua essência, sua lei
fundamental, é a hierarquia diretamente oposta à anarquia. Pela hierarquia, com efeito, a sociedade
se constitui e se eleva; pela anarquia, divide-se e se destrói. A hierarquia é a comunhão; a anarquia é
a excomunhão voluntária. A hierarquia é o homem devotado à sociedade e protegido por ela; a
anarquia é o homem proscrito pela sociedade e conspirando contra ela. A hierarquia, enfim, é o
homem onipotente porque é múltiplo; a anarquia é o homem impotente porque está só. "Se Deus
falou, diz Rousseau, por que não ouvi nada?" É a tua consciência que é preciso perguntar, tu que
queres caminhar só, e que te fazes de surdo quando a sociedade fala. Deus deveria ter uma redenção
para a humanidade e uma outra redenção para Rousseau? Rousseau é mais, ou menos, que um
homem? Se é mais, onde estão seus títulos? Se é menos, onde estão seus direitos?
Mas, direis vós, se a sociedade quer impor à minha fé absurdos que revoltam minha razão, posso
abjurr minha razão para nela acreditar? Não, a sociedade não te comanda pela fé, mas te proíbe de
perturbar a paz das crenças comuns pelas revoltas de teu espírito ou de teus sonhos; duvida, se é tua
desgraça, mas cala-te, porque é teu dever. As inspirações sociais. O homem de gênio é aquele que
pensa melhor que ninguém o que todo mundo pensa ou gostaria de pensar. O pensador excêntrico,
que não encontra a simpatia de ninguém, não é um homem de gênio; e, se ele se obstina, é um louco.
Nem Lutero e nem mesmo Savonarola poderão reformar a Igreja, enquanto ela queimar Savonarola e
excomungar Lutero: separar-se de um doente não é curá-lo; e o Concílio de Trento nada tem a
esperar e a receber dos fantasistas da Confissão de Augsburgo. A mesma lei que obriga o fiel a
caminhar com a Igreja, obriga a Igreja a caminhar com a humanidade, sob pena de não mais ser
Igreja. É assim que a Igreja judaica não foi mais do que a sinagoga, quando se deixou ultrapassar pelo
progresso cristão. Deus não muda; mas o ideal divino pode mudar, e ele muda necessariamente com
o gênio das nações: "Quando o homem cresce, Deus eleva-se", disse o salmista; e quando Deus
eleva-se, sua Igreja transfigura-se; mas está sempre se aproximando da razão suprema. Admitindo o
que não admitimos, que o Cristianismo já cumpriu seu tempo, compreendo o deísmo de Voltaire, mas
não compreendo a teurgia de Máximo de Éfeso e de Juliano. O que prova, com efeito, uma visão,
senão a existência de visionários? Vós me dizeis que Jesus Cristo está ultrapassado: - e por quem?
grande Deus! Vós me mostrais Allan Kardec. Ora! decididamente estais gracejando. Não admitimos,
dizemos, que o cristianismo já cumpriu seu tempo e que seja uma árvore morta, porque não deu ainda
seus frutos. O Evangelho não foi compreendido, a verdade não foi totalmente ensinada; crianças
soletraram a letra, mas o espírito ficou no fundo do texto, como a esperança no fundo da caixa de
Pandora. Acreditamos pois que não se trata de ensinar alguma coisa de novo, mas de explicar melhor
o que foi ensinado. Esse melhor ensinamento, é somente da Igreja que o esperamos; e é por isso que
depositamos a seus pés o resultado de nossas buscas e de nossos estudos, para que ela leia e
julgue. Aprovados ou não pela Igreja, nossos trabalhos serão úteis ao mundo; porque, se a Igreja pode
proibir o crente excêntrico de dogmatizar, não pode impedir o sábio de ensinar. Ora, não é sobre a
religião, mas sobre a ciência dos espíritos que chamamos hoje a atenção dos pensadores. Nosso
objetivo, ao escrever esta obra, não é unicamente colocar um obstáculo à epidemia do espiritismo.
Não somos, de antemão, adversários de ninguém: amamos os que procuram, porque muito tempo
temos procurado, e é a eles sobretudo que queremos levar o conhecimento de nossas curiosas
descobertas. A grande hipótese necessária dos destinos futuros foi trabalhada e conduzida, de
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dedução em dedução, pelos sábios do velho mundo. A pneumática cabalística é verdadeiramente uma
ciência, porque procede metódica e exatamente, indo do conhecimento ao desconhecido pelo
caminho das analogias menos duvidosas, porque os fatos lhe revelam leis, e sobre essas leis ela fixa
solidamente a base de suas hipóteses sempre prudentes. É pois a pneumática cabalística que
revelamos a nossos leitores. Juntamos a isso a análise do profundo tratado de Isaac de Loria sobre o
progresso circular das almas (De Revolutionibus animarum); a do Sepher Druschim pelo mesmo
doutor. Tiramos das trevas do ocultismo esses livros prodigiosos dos quais o mundo moderno não tem
mais a chave, e acreditamos ter prestado serviços relevantes à ciência e à razão. Através do auxílio
dessas luzes poderosas explicamos os fenômenos estranhos que os semi-sábios julgam tão cômodo
negar, e que no entanto os aniquilam por sua evidência. Sim, as estátuas estremecem, os mármores
choram, os pães sagrados se injetam de sangue; sim, uma mão pôde sair da muralha para aterrorizar
com uma inscrição ameaçadora o banquete ímpio de Baltazar. Vimos, ouvimos e tocamos prodígios
como esses; também não diremos que acreditamos nisso, visto que sabemos de ciência segura que
isso acontece. O milagre não é um fato contrário às leis da natureza, pois senão ele não poderia
acontecer sem que a natureza sofresse uma reviravolta. Mas é um fato excepcional e fora dos hábitos
da natureza, se nos podemos permitir falar desse modo. O milagre, em uma palavra, como tudo o que
existe, não pode existir sem razão; ele não prova pois nada contra a razão, e é isso que nosso livro
deve estabelecer claramente, assim como nossas outras obras. Uma vez reconhecida essa verdade, a
superstição torna-se impossível; o fanatismo se vai, a verdadeira religião empresta todo seu brilho à
razão suprema e menospreza prodígios vãos. A fé não mais perturba as almas; ela as sustenta e as
consola, enquanto a ciência as esclarece. A humanidade sai da infância; e rejeita sorrindo e faz
mergulhar nas trevas os fantasmas e os vampiros. As forças secretas da natureza tornam-se as
conquistas da inteligência; o simbolismo ilumina-se por ele mesmo, as alegorias falam, a história
emerge das nuvens da fábula. É dessa forma, dizem nossos profetas, que um dia o Filho do Homem,
abaixando as nuvens do céu, aparecerá em toda a glória e em toda a simplicidade de sua humanidade
santa, e, abrindo o livro das consciências, julgará os vivos e os mortos. O autor deste livro não teme
confessar que ele próprio teve as mais assombrosas e as mais formidáveis visões: viu e tocou os
demônios e os anjos como faziam seus adeptos vê-los e tocá-los Máximo de Êfeso e Schroepfer e
Leipsick. Ele pôde comparar as alucinações da vigília com as ilusões dos sonhos, e de tudo isso
concluiu que a razão dirigindo a fé e a fé sustentando a razão são as únicas luzes verdadeiras de
nossas almas, que tudo o mais é apenas cansaço inútil do cérebro, aberração dos sentidos e delírios
do pensamento. Ele não escreve pois somente o que supõe, ensina ousadamente o que sabe.
Também seu livro é intitulado A Ciência dos Espíritos, e não Conjeturas ou Ensaios sobre os espíritos.
Foi depois de ter descido, de abismo em abismo e de terror em terror, até o fundo do sétimo círculo do
abismo, e depois de ter atravessado em toda a sua extensão a sombra da cidade lastimosa, que
Dante, voltando e tomando, por assim dizer, o diabo despropositadamente, volta vitorioso e consolado
em direção à luz. Fizemos a mesma viagem, e nos apresentamos ao mundo com a segurança no rosto
e a paz no coração. Acabamos de dizer aos homens que o inferno, que o demônio, que o abismo sem
esperança, que as quimeras, as sátiras, as gulas, os pecados personificados, o dragão de três
cabeças e todo o resto da fantasmagoria tenebrosa são apenas um pesadelo da loucura, mas que só
Deus vivo, real, presente em tudo, preenche sem deixar vazios, preenche, repetindo, a imensidão sem
limites dos esplendores e das consolações eternas da razão soberana.
O Leitor
Mas o senhor será perseguido.
O Autor
Já estou acostumado com isso.
O Leitor
Mirville dirá ainda que os livros do senhor são abomináveis.
O Autor
Sou muito educado para responder-lhe que os dele são lastimáveis.
O Leitor
Mais do que nunca organizarão contra o senhor a conspiração do silêncio.
O Autor
Tratar-me-ão então como Alexandre diante de quem a terra se calava: siluit terra in conspectu ejus.
O Leitor
Adeus, pois vejo que o senhor é incorrigível.
O Autor
Até breve, porque espero sempre que você queira corrigir-se.
O Leitor
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Mas afinal o senhor afirma uma espécie de catolicidade universal que excluiria somente a Igreja
romana.
O Autor
Disse positivamente o contrário: seria tão absurdo colocar Roma fora do universo como pretender
fechar o universo em Roma.
O Leitor
Permita-me preferir as crenças de minha avó a todas as suas razões.
O Autor
Você tem liberdade de pensar como as avós, ou mesmo de não pensar nada. Mas o mundo sofre por
estar sem religião, e eu gostaria, mesmo correndo riscos e perigos, de mostrar a conciliação possível
entre a razão e a fé. Deixe-me esperar que algum dia eu tenha netos que pensarão como o avô.
O Leitor
Mas o senhor acha que Roma o aprovará?
O Autor
Aprovou ela Galileu? No entanto, a terra gira.
O Leitor
Agora ela já não o condena.
O Autor
Era uma questão de tempo. Você vê que tenho alguma razão em esperar.
O Leitor
O senhor rejeita o diabo e o inferno de Mirville; não são eles matérias de fé?
O Autor
O Credo de Mirville poderia ser este:
Creio no diabo, o destruidor onipotente, perturbador do céu e da terra, e no anticristo, seu filho único,
nosso perseguidor, que será concebido do mau espírito, nascerá de uma virgem sacrílega, será
glorificado, reinará e se sentará no altar de Deus, o pai onipotente, de onde insultará os vivos e os
mortos. Creio no espírito do mal, na sinagoga satânica, na união dos maus, na persistência dos
pecados, na perdição da carne e na morte eterna.
Quem ousará dizer assim seja? Quem não vê que o Credo negro é totalmente oposto àquele da Igreja,
e que o crente que afirma um deve necessariamente negar o outro?
O Leitor
Entretanto o Evangelho e a Igreja não falam do diabo e do inferno?
O Autor
Sim, simbolicamente, e são esses símbolos que venho explicar pela ciência e pela razão.
O Leitor
Mas, afinal, a fé da Igreja...
O Autor
A Igreja jamais tomou o diabo por objeto de sua fé.
Diálogo entre o leitor e o autor
O Leitor
Assim, o que fica bem entendido, o senhor rejeita a autoridade da Igreja católica romana?
O Autor
Eu disse isso? Pelo contrário, eu a respeito, e creio que é preciso retornar a ela como ao princípio
único de hierarquia e de unidade.
O Leitor
Seu ensinamento difere, no entanto, do ensinamento da Igreja. O senhor acha que sabe mais do que
ela?
O Autor
Em matéria de ciência, sim. Porque a Igreja só é infalível em matéria de fé.
Suplemento
Poder da idéia católica Unida ao espírito e não à letra dos livros santos, e como é preciso opô-la às
fantasias dos inovadores modernos As doutrinas espíritas cometem o erro imenso, depois daquele de
ser o resultado da vertigem e do êxtase, de romper a cadeia de ouro da tradição, de suprimir o
sacerdócio e a hierarquia, e de separar da moral sua sanção eterna. Para nós, que admiramos a
Cabala e seus dogmas secretos tão plenos de consolação e de esperança, não cremos que uma
Igreja nova possa fazer deles o objeto de um ensinamento novo. Eles pertencem essencialmente à
filosofia oculta, e tornam-se condenáveis desde que divulgados. Se detestamos de todo o coração a
imundície farisaica que os séculos deixaram estender-se e se acumular sobre o ouro puro do
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santuário, não somos menos partidários devotados da autoridade e da hierarquia; e se nosso
messianismo fosse apenas um ensaio de seita nova, se não fosse o próprio fundo da ciência judaica e
do dogma cristão, se não o submetêssemos sem restrição ao julgamento da autoridade legítima em
tudo o que concerne à compreensão e ao modo dos ensinamentos que ele contém, teríamos somente
acrescentado um sonho àquele dos saint-simonianos e dos furieristas; não teríamos encontrado a
verdadeira ciência e a eterna verdade. Que este livro seja pois o que deve ser, uma compilação de
pesquisas curiosas destinadas a esclarecer os espíritos suficientemente fortes para pensarem
livremente e continuarem submissos. Que os espíritos vulgares o ignorem, que os homens
preconceituosos o condenem, é o que desejamos. Os revolucionários do pensamento são como
aqueles da política: avançam correndo riscos; deixam-nos perecer, negam-nos, e a reação que os
mata emerge do fruto de seus trabalhos. São os bodes expiatórios do progresso, são os párias da
conquista; seus corpos servem de entulho para preencher o abismo que separa o passado do futuro;
as soberanias legítimas voltam triunfantes pelo caminho que abriram, mas voltam transformadas. Os
condenados trabalharam para os santos, e chega enfim um dia tardio em que nos aventuramos a
supor que esses condenados, por tanto tempo desdenhados ou amaldiçoados, talvez fossem mártires.
Sem dúvida, não são essas minhas pretensões; mas se ouso tudo, é porque reconheço uma
inabalável autoridade, e porque não creio que ela se perca, mesmo me condenando. A autoridade
absoluta, com efeito, é necessária para deter as divagações do erro. Uma autoridade é uma razão
coletiva; os sonhos nada representam diante dela, e uma razão particular não pode ter uma pretensão
mais alta do que a de se fazer adotar. Tínhamos pensado em continuar nossas ousadas revelações
sobre o dogma oculto dos antigos, com uma ampla e completa apologia da catolicidade no sentido do
conde Joseph de Maistre; mas esse trabalho não é feito para nós, e não nos julgamos nem
suficientemente dignos, nem suficientemente autorizados, para empreendê-la. Ser-nos-á suficiente dar
o seu plano e os seus principais pensamentos. Algum dia, outros o farão, disso não duvidamos. A
cada um sua obra: a nossa é a de um pioneiro e não de um construtor. Eis pois algumas pedras
nossas e nossos esboços de arquitetura.
DA VERDADE CATÓLICA
Contra os céticos, os espíritas e os heréticos modernos Plano e materiais Prefácio
O único modo de unir para sempre a filosofia e a religião é reconhecer que elas são opostas uma à
outra, mas opostas como os dois pólos que sustentam o eixo da terra. Desde que uma religião é
explicada, ela deixa de existir como religião e torna-se um sistema de filosofia. O Credo quia absurdum
é,eterno. Primeira palavra da revelação
1. Deus é - lei natural; o ser é o ser.
Segunda palavra da revelação
2. Deus é espírito - lei de Moisés; o ser vivo é pensante.
Terceira palavra da revelação
3. Deus é espírito de caridade - lei do Salvador; o ser bom.
Existência do mal. - Existência relativa, mas real, o mal só existe como abuso do bem; é uma
perversão voluntária do ser real como a liberdade do homem - irrevogável como ela. O pecado mortal
é a negação formal, prática e confirmada do espírito de caridade. Esta negação, tornada eterna pelo
suicídio da liberdade, é o inferno. O orgulho, ou o desejo injusto da dominação e da estima; a luxúria,
ou o desejo injusto dos prazeres da carne; a cupidez, ou o desejo injusto dos bens desse mundo, são
os três inimigos do homem. O espírito de caridade vence os três. A moral não é uma convenção entre
os homens; é uma lei fatal que vos dirige para a direita ou para a esquerda, segundo vossa opção, em
todos os instantes de vossa vida. O mal é uma força de inércia, o bem uma força de ação. - O
exercício, ou antes, o hábito do mal, paralisa a alma; o exercício do bem, ao contrário, torna-a capaz
de um bem cada vez mais sublime e mais elevado. Para aquele que gosta de cumprir os deveres de
um homem honesto, os deveres de um cristão são antes uma consolação que uma sobrecarga. O
pecado original tem por pena a morte e a exclusão do paraíso terrestre. Deus não ameaçou Adão das
penas do inferno - não se pode então dizer que as crianças mortas sem batismo pertencem ao inferno.
- Elas não poderiam entrar nesse estado no reino dos céus, eis o que pertence à fé segundo a
Escritura. Seu destino é o segredo da misericórdia de Deus; mas, se é permitido disso pensar em
alguma coisa, é no espírito de caridade. O espírito de caridade ordena a doçura para consigo mesmo,
e é preciso ter, mesmo na penitência, um espírito pacífico e benevolente oposto aos temores
exagerados, aos escrúpulos, às macerações imprudentes. Nada há de mais sábio, mais harmonioso,
mais moderado, mais amável que o espírito de caridade. Charitas patiens est, benigna est, non
inflatur, non oemulatur, non agit perperam, non quoerit quoe sua sunt, non cogitat malum, non gaudet
super iniquitatem, congaudet autem veritati. Esse espírito existe na Igreja católica? - Sim, sem dúvida
alguma; e os escândalos contrários só podem fazer sobressair esta verdade. -O espírito de caridade é
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de tal modo a base das instituições católicas, que sem esse espírito elas não subsistiriam um dia.
Observam-se e registram-se as coisas pouco caritativas da Igreja. É uma profissão de fé no espírito de
caridade que lhe deve ser essencial, e sem o qual não a conhecemos. Para salvar o mundo, é
necessário despertar o espírito de caridade; é preciso espalhar esse espírito, é preciso torná-lo
universal. Para isso, não são necessários nem os livros nem os discursos, mas esforços de caridade,
sacrifícios heróicos, boas obras e preces incessantes. Alguns pensamentos do Conde de Maistre
Seria, parece-me, uma bela idéia fazer sentar Baco e Minerva à mesma mesa, para impedir um de ser
libertino, e outro de ser pedante. (Soirées de Saint-Pétersbourg, p.10) Se algumas vezes a superstição
acredita crer como a acusam, com maior freqüência o orgulho crê não crer. (p.14) Com efeito, a
incredulidade é uma crença negativa, e a credulidade exclui a fé. "Não sabeis o que dizeis", é o
cumprimento que um homem sensato teria direito de fazer à multidão que se põe a dissertar sobre as
questões espinhosas da filosofia. Credes que é preciso ser como Descartes para ter o direito de
zombar de seus turbilhões? (p.19)
IDÉIA DOMINANTE DA OBRA
A maior quantidade de felicidade, mesmo
temporal, pertence, não ao homem virtuoso,
mas à virtude.
O gládio da justiça não tem bainha: sempre deve ameaçar ou bater. (p.45)
Nossos filhos carregarão a pena de nossas faltas. Nossos pais os vingaram de antemão. (p.61)
O que é IOVI, senão IOVA?
O selvagem não é o homem primitivo, é um homem degradado. (p.82)
A águia acorrentada pede uma mongolfieira para elevar-se nos ares? Não, ela pede somente que os
liames sejam rompidos. (p.104)
Sou, como job, repleto de discursos: plenus sum sermonibus. (p.104)
O estado da natureza é a civilização. (p.108)
Somos para o homem primitivo o que o selvagem é para nós. (p.123)
Não existe virtude propriamente dita sem vitória sobre nós mesmos, e o que não nos custa nada não
vale nada.
1. Repartição.
2. Decadência.
3. Providência.
4. Prece.
5. Hierarquia dos seres, relativamente ao mal. A matéria não é mais do que a prova do espírito.
6. Eficácia da prece; liberdade humana.
Jamais temamos elevar-nos demais e enfraquecermos as idéias que devemos ter da imensidade
divina. Para colocar o infinito entre dois termos, não é necessário abaixar um, é suficiente elevar o
outro ilimitadamente. É preciso acreditar no que sempre se acreditou, em toda parte e por todos.
(Vícente de Lérins) Mercúrio tem o poder de arrancar os nervos de Tifon, para com eles fazer as
cordas de lira divina. (Plutarco de Isis et Osíris, p.314). O anjo exterminador gira como o sol ao redor
desse globo desafortunado, e só deixa respirar uma nação para surpreender outras. Entre a blasfêmia
humana que nega Deus e o pretenso paradoxo divino que nega o homem, o Evangelho nos dá um
meio ao mesmo tempo divino e humano, que nos faz evitar um e outro dos dois escolhos: é a
afirmação do Deus feito homem; é o Verbo divino revelado na humanidade. Por que nos mostrar
sempre o algoz quando temos necessidade de encontrar sobretudo o médico? Todos os grandes
homens foram intolerantes, e é preciso sê-lo. (Citação de Grimm, epígrafe das Cartas sobre a
Inquisição.) Os grandes males políticos, sobretudo os ataques violentos contra o corpo do Estado,
nunca poderão ser evitados e rechaçados senão por meios igualmente violentos. (Primeira Carta
sobre a Inquisição) Reverencio a sabedoria que propõe um novo órgão, da mesma forma que aquela
que propusesse uma nova perna. (Filosofia de Bacon, p.9) Bacon, Indução; Condillac, Análise; Kant,
Crítica. Não pode haver uma nova ciência da inteligência, e nem, sobretudo, um novo método de
descoberta. O orgulho somente pode dar novos nomes a antigas noções, e a ignorância e a
inaplicação podem tomar esses nomes por coisas. (Ibid., p.12) Foi em vão que o Criador colocou em
nossas mãos o archote da analogia; Bacon vem colocar seu apagador poético sobre essa luz divina.
(p.33) Há uma grande analogia entre a graça e o gênio porque o gênio é uma graça. O verdadeiro
homem de gênio é aquele que age por movimento ou por impulsão, sem jamais contemplar-se e sem
jamais dizer a si mesmo: Sim, é pelo movimento que ajo. O que Haller não viu em uma gema de ovo?
A raiva do fogo (Bacon). Horror do vazio! Cabeças estúpidas, é o amor do êmbolo! - O coração do
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macaco está para o coração do homem assim como os sonhos da poesia humana estão para a
providência de Deus.
AS QUATRO CARACTERÍSTICAS DO ABSOLUTO APLICADAS À RELIGIÃO
Verdade - Realidade - Razão - Justiça
Demonstração preliminar
Verdade - identidade do ser com a idéia.
Realidade - identidade do ser com a ciência.
Razão - identidade do ser com o verbo.
Justiça - identidade do ser com a ação.
Primeira demonstração
Identidade do ser absoluto com Deus, tal como a define a fé católica.
1. A idéia de Deus é um fato psicológico, real, universal, incontestável.
2. Desenvolvimentos realistas dessa idéia.
3. Influências da hierarquia ou da anarquia sobre essa idéia.
4. Catolicidade da idéia divina.
Segunda Demonstração
Identidade do ser religioso com a ciência católica.
1. Como a verdadeira religião natural deve ser uma religião divinamente revelada.
2. Que não há religião onde existe apenas ciência.
3. Acordo necessário da religião e da ciência resultante de seu próprio antagonismo.
4. Ciência religiosa católica, ou teologia.
Terceira Demonstração
Razão
1. A afirmação religiosa só é racional na ordem católica e hierárquica.
2. Razão profunda de pretensos absurdos religiosos.
3. Despropósito evidente de todos os dissidentes.
4. Razão da fé católica demonstrada pela esperança e pela caridade.
Indiferença em matéria de religião significa indiferença em matéria de moral. Irreligioso quer dizer
imoral. Os católicos romanos são uma família de muitos pais, e por conseguinte de muitas mães, a
menos que sua igreja não seja adúltera. É uma família sem unidade. Os protestantes são uma família
sem pai nem mãe, são órfãos para não ter que obedecer a seus pais.
O ISLAMISMO Religião de quietismo e de morte; fatalidade e resignação.
O BUDISMO
Sombra do catolicismo esboçado com as trevas dos antigos
símbolos da Índia.
O BRAMANISMO É para o budismo o que a Igreja grega é para a Igreja latina.
O JUDAISMO É um tronco vivo, mas cortado, que só pode reviver unindo-se a seu
ramo vivo - a catolicidade.
O SAINTSIMONISMO
Egoísmo sensual, temperado pelos há bitos polidos e permutas
industriais.
O FURIERISMO
Produzir a ordem através da desordem, o prazer através da pena, a
verdade através do vício, o bem através do mal, a harmonia através
da anarquia; abolir o sofrimento e por conseguinte o prazer; destruir
as noções de bem e mal; embrutecimento e bestialidade.
O CETICISMO Nada - nada - nada.
A crítica de Voltaire é uma crítica ardilosa e pedante. Trata-se de um texto ou de uma palavra que ele
não compreende e que seu pároco compreende mal! Trata-se do espírito de caridade, que não era
seguramente o espírito de Voltaire. A verdadeira religião natural é a religião revelada; é da natureza de
uma religião o ser revelada, senão como ela nos ligaria a uma ordem superior?
Os milagres Os milagres são efeitos naturais da intervenção de uma causa superior sobre aquelas que
produzem os efeitos comuns. Eles não poderiam ser absurdos, e supô-los como tal é ultrajar a
sabedoria de Deus. O aparentemente mais absurdo, o parto da Virgem, só choca nosso entendimento
por causa de nossos raciocínios indecentes e temerários. A mãe de Deus é imaculada, ela é virgem e
mãe sem exprobação. Eis o dogma. Nunca se atentou contra sua virgindade; e por essa razão ela é
imaculada. Como pôde ela então tornar-se mãe? É o segredo de Deus. Aquele que examina e discute
semelhante coisa já não é cristão e não o será jamais. Aquele que procura explicar é temerário. É o
como que é absurdo, não o fato. O espírito deixa-se enganar pelo coração, segundo se diz, e é
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sempre verdade. As objeções insolúveis do espírito vêm das atrações do coração pelas facilidades da
vida. O verdadeiro homem de bem, tendo tudo a ganhar se a religião for verdadeira, crê facilmente na
religião. A inquisição e as guerras religiosas foram obras humanas. - A Igreja tem horror ao sangue,
eis o princípio. Quando os fatos estão em contradição com os princípios, deve-se buscar as razões
nas paixões humanas. A humanidade também tem horror ao sangue, e é em nome da humanidade
que a revolução tem feito perecer tantas vítimas! A pena de morte é contrária ao gênio da Igreja, que
espera sempre a conversão do pecador e considera o tempo que lhe é deixado como um inestimável
benefício do céu. Ela não esfacela a vara quebrada, e não pisoteia a mecha que ainda arde. A moral
católica não é especial a esta comunhão: é a moral universal, rigorosamente aplicada e sancionada
pelas leis positivas. O desapego católico não repele nada de belo, de bom, nem de amável, só
condena e previne o abuso disso. A castidade não é o menosprezo, mas a santificação do amor. O
que se reprova mais na religião, isto é, em seus ministros, são os atos de irreligião. Isso se assemelha
bastante à lógica daqueles que desprezam Deus por não ser suficientemente Deus, para depois
condená-lo a não mais ser Deus. A religião não é mais difícil de praticar que a verdadeira filosofia:
trata-se de ser ou não ser, de viver como homem racional ou como bruto, não existe meio-termo. Uma
vida racional exige os maiores sacrifícios, e a religião só oferece facilidades. Os Catãos do
cristianismo não se arrancam as entranhas; deixam triunfar César e adoram somente Deus. A multidão
dos cúpidos e dos preguiçosos, o que é? Será que pensa? E será que vive? É corrupção que fervilha.
Viver é vencer. A religião de Jesus Cristo sofreu sua última prova, a mais terrível de todas, a mais
decisiva: a crítica e a indiferença. Mas as multidões sofredoras não riram com Voltaire; elas gostariam
mais que o Salvador viesse outra vez chorar com elas. Elas não raciocinam como Strauss; mais vale
orar com os mais humildes fiéis. Ninguém falou no espírito de caridade. Ele não é criticado, e diante
dele não se poderia ficar indiferente. Credes com seriedade na vida, no rigor dos deveres, na
dignidade da fé conjugal, na pureza dos costumes, no dever da sobriedade e da temperança? Se a
resposta é não, não vos falarei da religião; não credes nela. Se a resposta é sim, só vos tenho que
cumprimentar; vós credes e crereis na religião. Nós nos dizemos: Não quero atolar-me no vício, mas
não quero mais viver como um Catão; não quero levar uma existência honesta e cômoda. Isto é uma
ilusão: não se pode ser metade homem e metade animal; um destruirá o outro mais cedo ou mais
tarde. Um momento virá em que tereis de optar, e, quanto mais tarde o fizerdes, mais a vitória será
duvidosa e penosa. A vil multidão, a massa condenada, é a massa dos tépidos, pessoas que não
sabem fazer nem o bem nem o mal. Viver é agir, é pensar, é querer, é fazer. A graça pode fulminar o
mau e lhe converter o coração, mas que pode ela fazer de um tépido? Também o Salvador declara
aos tépidos que ele os vomita. Em que se transformarão os tépidos após a morte? Eles serão
aquecidos no fogo do purgatório. É para eles e em seu benefício que o purgatório foi feito. O que
faltou a Jean Huss e a Lutero para se submeterem à Igreja, apesar de seus próprios raciocínios? - O
espírito de caridade. O que faltava para conciliar e reconciliar Lamennais com a Igreja? -O espírito de
caridade. O que é afinal o espírito de obediência? - O espírito de caridade. Existe um lado de
vulgarização popular e ridícula dos dogmas que se simula tomar pelo próprio dogma. São Paulo
recomenda que nos guardemos contra as lendas absurdas e os contos de mulher velha; mas os
inimigos da religião não levam isso em conta; ficam muito desgostosos por perderem essa boa
oportunidade de rir das coisas que não compreendem.
Não existe Deus sem Jesus Cristo.
Não existe Jesus Cristo sem a Igreja.
Não existe Igreja sem um chefe visível.
O anticristo é o espírito de cisma e de divisão, spiritus qui solvit Christum.
É o oposto do espírito de caridade.
O anticristo é o homem individual dos tempos modernos que se diz Deus, que se faz o centro de todas
as coisas, só vive para o direito sem reconhecer o dever, e não conhece outra associação que não a
cumplicidade ou o jogo de interesses. A dissensão prognosticada por São Paulo começou no século
XVI, continuou durante os séculos XVII e XVIII; terminará com o século XIX; depois haverá o retorno
durante o século XX, e o grande triunfo da religião acontecerá por volta do ano 2000. Suponhamos
que o furierismo, ou qualquer fantasia que se denomina religiosa e social, tenha podido prevalecer no
mundo; que o Evangelho seja esquecido, e que um dia um homem de gênio o encontre e o pregue.
Que luz! que progresso! que revolução dos costumes! Quando os homens se cansam da verdade, por
um momento o falso lhes parece verdade; mas, quando é a mentira que os desgosta e os fatiga, com
que arrebatamento se lançam em direção à verdade! Dificuldades do próprio dogma O dogma,
formulado e definido pelo espírito de caridade, deve ser interpretado igualmente como espírito de
caridade.
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O PECADO ORIGINAL
Injustiça aparente. - Os inocentes condenados pelo
culpado.
A ENCARNAÇÃO E SUAS
CONSEQUÊNCIAS
Deus apazigua-se ao sacrificar a si mesmo; virgindade
material de Maria.
A CONDENAÇÃO ETERNA
Da maior parte dos homens, tornando quase inútil toda a
economia da salvação.
DUPLO MISTÉRIO
MISTÉRIO DO AMOR
MISTÉRIO DE JUSTIÇA
Explicados e conciliados pelo mistério de caridade.
O dogma formulado e definido pelo espírito de caridade deve ser interpretado igualmente como
espírito de caridade.
I. O pecado original não nos seria imputado se fôssemos inocentes.
II. Se explicarmos Deus comparando-o com o homem, seja quanto às suas misericórdias, seja quanto
às suas cóleras, cairemos necessariamente no absurdo.
III. A condenação eterna baseia-se num fato, e não num número. Todos os homens podem evitá-la,
eis o fato, e o número daqueles que não a querem é inestimável para os outros que não Deus, que só
conhece e julga o fundo dos corações. Fazemos uma idéia falsa da condenação fazendo Deus intervir
como vingador ativo, enquanto Deus deixa vingar suas leis pela própria força de suas leis, e os
pecadores sofrem pela privação dos bens de que se tornaram indignos. Mostrar aqui como qualquer
comentário, seja para carregar, seja para suavizar o dogma rigoroso e terrível, seria despropositado e
ridículo.
OUTRA OBJEÇÃO O abandono em que se encontra a igreja. Abandono profetizado - discessio que
deve preceder a época do retorno dos judeus e do grande triunfo da fé.
QUESTÃO Então, segundo a doutrina da Igreja, a maioria dos homens devem ser condenados? Não;
é verdade que os verdadeiros justos são em pequeno número; mas cada um desses eleitos, dessas
almas de elite, arrastam multidões de fracos ao céu. As preces da Igreja, a comunhão dos santos, têm
uma imensa eficácia. O purgatório aperfeiçoa o que é imperfeito na terra. O espírito de caridade quer
salvar todo mundo e salva a multidão dos fiéis. O sofrimento só enfraquece os covardes; torna a
virtude mais forte. O corpo é uma máquina cuja alma deve ser o maquinista, sob pena dela própria
tornar-se a máquina do corpo, e este é o sentido dessa profunda máxima do Mestre: "Se o cego
conduz o cego, ambos cairão no fosso." O imperador Juliano não adorava ídolos; acreditava na luz
suprema. Mas sua luz era sem calor; ele não tinha compreendido o espírito de caridade. A caridade
não deseja a igualdade entre homens; ela quer, ao contrário, que eles tenham necessidade uns dos
outros. A caridade pertence tanto ao cristianismo católico, que fora dessa comunhão a própria palavra
muda de sentido Os sonhadores são sempre dorminhocos, e o infortúnio lhes vem dormindo. Não é
preciso fazer da vida um sonho, se não se quer fazer da morte um triste despertar.
O que é Deus, revelado e explicado pela doutrina e os exemplos de Jesus Cristo?
Qual deve ser o objetivo de todos os nossos esforços e o fim de todos os nossos
sacrifícios?
Qual é a prova da verdadeira fé?
O que é a catolicidade, em sentido mais amplo?
Qual é o preservativo de todos os erros do espírito e de todas as desordens do coração?
Qual é a marca distintiva e eterna da verdadeira Igreja?
Qual é a maior força irresistível, a maior verdade irrecusável, a maior divindade evidente
do cristianismo?
O que é o dever e o que pode torná-lo mais necessário à nossa alma que o direito?
Qual é o acordo da autoridade e da liberdade?
Qual é a paz religiosa?
Qual é o acordo da ciência e da fé?
O
E
S
P
Í
R
I
T
O
DE
C
A
R
I
D
66
Qual deve ser o fim de todas as heresias?
Qual é a marca da predestinação?
O que é a vida eterna?
Qual é a razão da infalibilidade da Santa Sé?
Qual é a conciliação das contradições aparentes?
Que força vencerá as zombarias de Voltaire e os argumentos da Escola?
C
A
R
I
DA
D
E
O ESPíRITO DE CARIDADE - PLANO DE UM TRATADO A FAZER
INTRODUÇÃO
A sabedoria humana e a loucura da cruz.
Primeira parte
LIVRO I.
A CIÊNCIA E A FÉ
Noções essenciais e absolutas
Distinção necessária
O espírito e o coração
A árvore da ciência e a árvore da vida
LIVRO II.
O DIREITO E O DEVER
Caim e Abel
Esaú e Jacó
Saul e Davi
A parábola do filho pródigo
Lei natural, beleza e bondade de Deus
Lei antiga, unidade e força de Deus
Lei
Cristã
Época de
Conquista
Autoridade hierárquica. Liberdade dos
filhos de Deus.
LIVRO III.
ECONOMIA DAS IDADES
Época de
Triunfo
Espírito de Caridade
LIVRO IV.
O ESPÍRITO DE CARIDADE
O Espírito de caridade atravessando as épocas
Respostas a todas as objeções contra a fé
Explicação clara e universal dos pontos essenciais da doutrina
A catolicidade necessária
Recapitulação e síntese universal em duas palavras que fazem
apenas uma, o espírito de caridade.
Vencer a rudeza na procura das satisfações naturais é a obra de uma boa educação. Vencer os
atrativos do prazer e sacrificá-lo ao dever é todo o mérito da honra. Vencer a apreensão da dor e
mesmo da morte para obedecer à honra é o heroísmo, é a perfeição humana. Chega-se a esta
perfeição por uma educação progressiva da vontade. O ascetismo era o aprendizado do martírio: não
se morre como Curtius quando se viveu como Natta. - Para inclinar-se assim à perfeição, é preciso
amá-la, - O amor da perfeição é o espírito de caridade. As expiações são as retomadas de uma
educação defeituosa; feliz aquele que sabe reconhecê-las e aceitá-las! Expiar é comer depois da
sobremesa o sal que não se havia misturado aos alimentos. Um homem bem educado não é nem
corrupto, nem bêbado, nem glutão. Um homem de honra pratica severamente a moral humana; um
cristão só professa o desprendimento e a caridade que é o heroísmo de todas as virtudes. O homem
saindo das mãos da natureza não é bom, como pretedeu Rousseau ele tem o instinto do egoísmo, e
suas paixões ao se desenvolverem logo farão dele um animal feroz. A sociedade, fazendo-o temer
suas punições, ensinar-lhe-á antes a hipocrisia e a vileza, e não conseguirá formar-lhe a virtude se a
religião não intervier; e é o que acontece com todos os homens verdadeiramente virtuosos. O
sentimento de honra e de dever é um sentimento religioso. Sem uma fé real no próprio princípio da
honra e do dever seria suficiente parecer honesto e iludir a lei para viver tranqüilo, e não haveria
outros virtuosos além dos tolos. É nesse sentido que não existe realmente probidade sem religião. O


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