A Ciência dos Espíritos - parte 5


que acreditavam dar alma a seus ídolos ao sujá-los de sangue fresco. O que fazeis, fazia-se antes da
vinda de Jesus Cristo; fez-se e ainda se faz, talvez na Índia; faz-se sobretudo entre os selvagens,
onde os charlatões cercam de cabeleiras sangrentas o altar de seus manitus, que conjuram e fazem
falar. O magnetismo é a projeção dos espíritos do sangue e vós magnetizais vossos móveis
empobrecendo vosso cérebro e vosso coração.
CAPÍTULO 6
Os últimos iniciados do velho mundo: Apolônio de Tiana, Máximo de Éfeso e Juliano. Os pagãos da
revolução - um hierofante de ceres no século dezoito. O sacrifício de si mesmo pelos outros tem algo
de aparentemente tão insensato, mas tão sublime em realidade, que esse antagonismo que se
encontra entre a razão egoísta e o entusiasmo do devotamento justifica totalmente o Credo quia
absurdum do paradoxal Tertuliano. A fé, como a antiga Minerva, nasceu armada e se apresenta
inicialmente como triunfante. A própria natureza, a santa e imortal natureza, parecia vencida por um
instante, porque estava superada. No dia em que o homem morreu voluntariamente para salvar os
outros, o sobrenatural foi provado. Então os sábios deste mundo e os raciocinadores se espantaram;
procuraram no Evangelho o segredo do poder do cristianismo e não o encontraram. Viram apenas
uma compilação mística de parábolas judaicas e de alegorias egípcias; resolveram opor um livro a
esse livro e um homem a Jesus Cristo, e assim foi escrita a vida de Apolônio de Tiana. Esse
monumento contemporâneo dos Evangelhos não foi suficientemente estudado: encontram-se aí
histórias e símbolos; a fábula aí obscurece a verdade, mas esta fábula é sempre uma doutrina
apresentada sob o véu da alegoria. É dessa forma que a viagem de Apolônio à Índia e sua visita ao rei
Hiarchas no país dos Sábios representam todo o dogma de Hermes e contêm todos os signos
convencionados, todo o segredo dos antigos santuários, isto é, a grande obra da ciência e da
natureza. Os dragões da montanha são os metalóides ígneos que contêm o mercúrio filosófico; o poço
onde se encontram os reservatórios da chuva e do vento é a adega onde fermenta o fogo
eletromagnético alimentado pelo ar e excitado pela água. O mesmo acontece com outros símbolos. O
rei Hiarchas parece enganar-se quanto ao fabuloso Hiram, do qual Salomão obtinha os cedros do
Líbano e o ouro de Ophir. Notemos que Jesus não pedia nada aos reis de seu tempo e que quando
Herodes o interroga ele não se dá ao trabalho de responder. Apolônio é sóbrio; é casto como Jesus e
como ele se devota a uma vida errante e austera. A diferença essencial entre um e outro é que
Apolônio favorecia as superstições e Jesus as destruía. Apolônio incita a derramar o sangue e Jesus
maldiz as obras do gládio. Uma cidade está afligida pela peste; Apolônio chega, o povo, que o vê
como um taumaturgo, precipita-se em torno dele e o conjura a fazer cessar o flagelo. A peste que vos
aflige, ei-la! exclama o falso profeta mostrando um velho mendigo. Apedrejai este homem e o contágio
cessará. Sabe-se do que é capaz uma multidão furiosa, cheia de superstição e de medo. O velho
desapareceu sob um monte de pedras. Filostrato acrescenta que depois desentulharam o lugar do
assassínio e que lá só encontraram o cadáver de um grande cão negro; e aqui o absurdo não chega a
justificar a atrocidade. Jesus não fazia apedrejar ninguém, nem mesmo a mulher adúltera; rejeitava os
flagelos públicos sobre a cabeça do pobre Lázaro, que o mau rico repelia de sua porta e do qual os
cães tinham piedade. Para curar a miséria, esta peste aos olhos dos afortunados, oferecia o paraíso e
não o último suplício. Apolônio aqui não é senão um miserável feiticeiro, e Jesus é o filho de Deus.
Apolônio tem visões; assiste em espírito a morte do tirano de Roma e solta gritos de alegria. Coragem!
diz ele dirigindo-se aos assassinos; batei, imolai esse monstro! Jesus não tem uma palavra de
maldição contra Herodes e contra Pilatos e ora mesmo por eles ao mesmo tempo que por seus
algozes, quando diz esta palavra sublime: Pai, perdoai-lhes; porque não sabem o que fazem! O gênio
de Apolônio é uma brilhante loucura que se revolta e protesta, o de Jesus é uma razão modesta que
aceita e se submete. Com Apolônio de Tiana o velho mundo parecia ter dito sua última palavra; mas a
Providência, que é boa jogadora, deu-lhe ainda Juliano, para que ele pudesse, mais uma vez, tomar
sua desforra. Juliano era um filósofo como Apolônio e um imperador como Marco Aurélio. Mas
também era um sofista à maneira de Libânio, e concedia toda sua confiança a charlatões como
Jâmblico e Máximo de Éfeso. Jamais este espírito inflexível e elevado pôde compreender os doces
mistérios da manjedoura. Juliano não amava as mulheres e não tinha filhos, era casto menos por
sacrifício que por menosprezo ao prazer; sua rudeza filosófica o fazia negligenciar até os mais comuns
cuidados de limpeza. Ele confessa, no Misopogon, que seus cabelos e sua barba eram freqüentados
pelos mais sórdidos insetos e o diz quase como se fosse um mérito. Aqui o César pediculosus tornase
verdadeiramente grotesco. Oh! o belo queixo de bode! oh! o barbudo mal penteado!, cantavam os
habitantes de Antióquia. Juliano acredita responder exprobando aos cantores sua debilidade e seus
desregramentos. Como se os vícios de uns pudessem autorizar a imundície de outros. Esse herói
sujo, que, apesar de tudo, havia recebido do cristianismo uma nuance indelével de filantropia, era, por
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religião, amante dos sacrifícios e do sangue. Que vítima foi esse grande filósofo! que açougueiro esse
excelente príncipe! diziam os antepassados de Pasquino. Também o vemos sempre com as roupas
arregaçadas e as mãos repletas de vísceras fumegantes. Não estávamos mais no tempo em que os
príncipes gregos, cantados por Homero, estrangulavam e despedaçavam, eles próprios, as vítimas.
Juliano não compreendia nem sua época nem a dignidade de sua classe. Nero pudera fazer-se
histrião porque, segundo a bela expressão de Tácito, o terror era razão do menosprezo; mas Juliano,
bom demais para se fazer temer, muito desagradável para se fazer amar, não podia escapar ao
ridículo ao exercer as funções repugnantes dos sacrificadores antigos. Sacrifica-se enfim ele próprio, e
o mundo cristão aplaude. Afirma-se que após sua morte foram abertas as portas de um pequeno
templo que ele havia feito emparedar antes de partir para sua expedição à Pérsia, e que lá foi
encontrado o cadáver de uma mulher nua pendurada pelos cabelos e com o ventre aberto. É uma
invenção do ódio ou a revelação de um mistério? Seria essa mulher um mártir ou uma vítima
voluntária? Pendemos para essa última idéia. Talvez se tenha encontrado uma jovem fanática que
quisera opor seu sacrifício ao do Cristo para a prosperidade do reino de Juliano e o retorno aos velhos
deuses. O imperador fechara os olhos e só o grande pontífice assistira ao holocausto. O templo
murado, a vítima sangrenta suspensa entre o céu e a terra como uma prece palpitante, tudo isso
parece uma paródia da crucificação. Sabe-se que numa época bastante próxima da nossa havia
moças que se faziam crucificar assim pelo triunfo do protesto jansenista, e, se pensarmos nos ritos
bárbaros que desonravam a religião de Juliano, não rejeitaremos imediatamente como uma calúnia
póstuma a história da mulher sangrenta e do templo emparedado. Juliano havia sido iniciado nos
grandes mistérios por Máximo de Éfeso e acreditava na virtude onipotente do sangue. Com efeito, fora
através de um batismo de sangue que Máximo de Éfeso o havia consagrado aos antigos deuses.
Juliano, conduzido à cripta do templo de Diana, seminu e com os olhos vendados, recebeu das mãos
de Máximo um cutelo, e uma voz misteriosa lhe ordenou que batesse numa pálida figura humana que
ele podia apenas entrever; a venda foi recolocada nos olhos do neófito, conduziram sua mão e o
fizeram tocar numa carne quente e viva; nela ele cravou o gládio sagrado, e depois foi forçado a se
prosternar sob a fonte que acabara de abrir. Uma aspersão quente e nauseabunda o fez estremecer,
mas guardou silêncio e recebeu até o fim a consagração do sangue vertido. Por esse sangue, dizia
Máximo, eu te lavo da impureza do batismo. Tu és o filho de Mitra e cravaste o gládio no flanco do
touro sagrado. Que a purificação do taurobólio te purifique! Juliano acabava de sacrificar um homem?
não havia ele imolado apenas um touro? é o que ele próprio então devia ignorar; mas que esses ritos
foram aqueles dos grandes mistérios, disso não poderíamos duvidar, visto que os encontramos ainda
nas tradições do iluminismo e nos antigos rituais da maçonaria, herdeira, como sabem todos os
eruditos desta especialização, das doturinas e das cerimônias da antiga iniciação. Segundo o uso dos
historiadores antigos, Ammien Marcellin compôs um belo discurso que coloca na boca de Juliano
agonizante, como se um homem com o fígado atravessado por um dardo pudesse sonhar em fazer
discursos. Aqui achamos melhor acreditar na tradição cristã do que na história sofística. Ora, eis o que
diz essa tradição: Quando foi retirado o dardo de três gumes da ferida de Juliano, quando seu sangue
corria em abundância e ele se sentia desfalecer, ele encheu as duas mãos com esse sangue que
perdia e os ergueu em direção ao céu pronunciando estas misteriosas palavras: Tu venceste, Galileu!
Tomam-se essas palavras por uma blasfêmia, mas não seriam antes uma retratação tardia? O iniciado
do taurobólio compreendia tarde demais que o sacrifício de si mesmo triunfa sobre o sacrifício dos
outros. Ele sentia que dando seu próprio sangue pelos homens, o Cristo derrogou para sempre os
sacrifícios sangrentos do velho mundo. O soberano pontífice de Júpiter concedia sua demissão
oferecendo ao céu, por um lado, seu próprio sangue ao invés daquele dos bodes e dos touros. Sim,
ele parecia dizer, tu que por desprezo eu chamava de Galileu, tu és maior que eu e tu me venceste!
Toma, eis meu sangue que te dou como tu deste o teu. Eu morro e reconheço que tu és meu mestre!
Tu venceste, Galileu! As mãos do infeliz imperador enfraqueceram, o sangue voltou à sua cabeça, e
acredita-se que ele as quis acenar em direção ao céu. Talvez assim ele se tenha purificado das
máculas do taurobólio e renovado os traços apagados de seu batismo. Seu ato de arrependimento
não foi reconhecido e deixou pesar o anátema sobre sua memória. Mas ele fora bom e justo e Deus
não deixa perecer para sempre os que amaram e procuraram o bem, mesmo nas sombras do erro.
Com base na fé nos fantasmas evocados por Máximo de Éfeso Juliano havia acreditado na existência
real de seus deuses, e esses fantasmas eram alucinações do sangue. Afirma-se que Juliano,
esgotado pelos jejuns preparatórios e morno ainda de seu batismo de sangue, viu passar diante dele
todas as divindades do velho Olimpo. Ele não as viu tais como são representadas pelos poetas da
antigüidade, mas tais como existem na imaginação desencantada das multidões: velhos, decrépitos,
miseráveis e abandonados. Não eram mais as grandes divindades de Homero, eram os deuses
grotescos de Luciano, tanto é verdade que os pretensos espíritos que se evocam são miragens ou
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reflexos de uma imaginação coletiva. O espiritismo visionário é a fotografia dos sonhos. As fotografias
mentais são, aliás, mais duradouras que as fotografias solares, porque se as primeiras se apagam
podemos renová-las sempre lançando o espírito nas mesmas aberrações. Vimos em 93 os últimos
iniciados nos grandes mistérios, os filantropos da escola de Juliano, perseguirem através de uma
nuvem de sangue o fantasma da liberdade. Vimos de alguma forma escapar da tumba Brutus
grotescos e Publícolas sórdidas que juravam pela santa guilhotina invocando deuses. São Justo
sonhava com um mundo governado por velhos laboriosos e vitoriosos ornados por um cinto branco.
Robespierre fez de si próprio grande pontífice, e, segundo a lei sangrenta dos antigos mistérios, teve
que perecer sob a faca daqueles que havia iniciado; todos os filósofos e apóstatas como Juliano
pereceram, como ele, desesperados em relação ao futuro. Mas, menos generosos que ele, talvez
menos sinceros, pereceram sem presentear o céu com a oferenda de seu próprio sangue e sem
confessar que mais uma vez Galileu havia vencido. Eis onde levam os sonhos, eis o que produz a
evocação dos mortos. Se os houvessem deixado dormir em suas tumbas, os Brutus e os Cassius, se
os espectros do areópago e do fórum não se tivessem erigido nos cérebros excitados desses homens
cuja razão era tão bem representada por uma mulher devassa, não se teriam lançado aos milhares os
filhos da França na goela devoradora do Moloch revolucionário. Mas as larvas que nos vêm do alémtúmulo
são sempre frias e alteradas; os fantasmas pedem sangue, e quando as cabeças se
desorganizam a ponto de criar visões, as mãos estão bem perto de cometer crimes. - Dai-me flechas!,
exclamava Quanctius Aucler, que um débil hierofante de Ceres vinga a natureza ultrajada! Trata-se de
matar os sacerdotes; mas nosso homem, que a alucinação revolucionária havia tornado
completamente louco, queria matá-los a golpes de flechas, para dar a seu suplício uma cor mais
antiga. Esse Quanctius Aucler, que se dizia hierofante de Ceres, deixou um livro curioso intitulado a
Treicie, onde pede seriamente a volta do culto a Júpiter, visto que não seria possível aderir-se ao reino
de Saturno. Mas a Revolução não quis adorar nem Saturno nem Júpiter; ela própria foi Saturno, e,
segundo a sombria profecia de Vergniaud, ela devorou todos os seus filhos.
CAPÍTULO 7
Os espíritos na Idade Média - O diabo desempenha sempre o papel principal na comédia dos
prodígios - O arcebispo Udon de Magdeburgo - O diácono Raimundo - Os vampiros - As casas malassombradas.
Enquanto dura essa infância da razão moderna que chamamos de Idade Média, as
forças secretas da natureza, os fenômenos de magnetismo, sobretudo as alucinações cujos claustros
são abundantes viveiros, fazem crer na influência quase contínua dos espíritos. Os fantasmas aéreos
que a imaginação cria e que realimenta nas nuvens, tornam-se silfos, os vapores da água são
ondinas, as vertigens do fogo são salamandras, as emanações embriagadoras da terra são gnomos,
os duendes dançam com as fadas ao luar. Todo o sabat desencadeou-se. A razão dorme, a crítica
está ausente, a ciência está muda, Abelardo expia cruelmente suas homenagens prematuras à
inteligência e ao amor. Os mortos movem-se, os sepulcros falam, sem que se suspeite que vivos
tenham sido enterrados. Somente o Evangelho brilha no meio dessas trevas profundas, como uma
lâmpada sempre acesa numa igreja cheia de terrores e mistérios. Ora, o Evangelho declara que os
mortos não podem e não devem jamais voltar; que a ordem da Providência opõe-se a isso. Eis o texto
que nunca seria demais repetir integralmente para opô-lo aos delírios dos espíritas; nós o
encontramos no final do sexto capítulo de São Lucas: "Segundo a ordem de todas as coisas, entre vós
e nós o grande caos consolidou-se, de modo que, daqui, NÃO SE PODE IR A VÓS, e que, de onde
estais, NÃO SE PODE VIR AQUI" (é Abraão que fala ao mau rico). O mau rico responde: "Eu te rogo,
pai, que envies Lázaro à casa de meu pai, porque tenho cinco irmãos e Lázaro os advertirá a fim de
que não venham por seu turno a este lugar de tormentos." E Abraão lhe diz: "Eles têm Moisés e os
profetas, que eles os escutem." E ele lhe diz: "Não, pai Abraão; mas se alguém entre os mortos for
visitá-los, eles farão penitência." Abraão responde: "Se eles não escutam Moisés nem os profetas, não
escutariam nem mesmo um morto que tivesse ressuscitado." Essa passagem é infinitamente notável e
contém toda uma revelação sobre a ordem eterna e imutável dos destinos do homem. Vemos aqui a
força da natureza que impele a vida para frente e fecha as portas atrás dela para que jamais recue. Os
degraus da escada santa consolidam-se para sempre sob os pés daqueles que sobem e eles não
podem mais, ouvis bem? ELES NÃO PODEM MAIS descer para voltar. Observemos ainda que Abraão
só admite a possibilidade do retorno de Lázaro à terra pelo caminho da ressureição, e não pela
obsessão espírita. Segundo um dos grandes dogmas da Cabala, o espírito despoja-se para subir e é
necessário que se revista para descer. Só há aqui uma maneira possível para que um espírito já
liberto se manifeste novamente na terra: é necessário que ele retome seu corpo e que ressuscite. Isso
é bem diferente de esconder-se em uma mesa ou em um chapéu. Eis por que a necromancia é
horrível. É que ela constitui um crime contra a natureza. O necromante não tem a temeridade de
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querer agitar a escada santa para fazer cair os espíritos que sobem? Isto não é possível, sem dúvida,
e o sacrílego evocador será assaltado apenas por suas próprias vertigens. Igualmente, os melhores
teólogos da Idade Média diziam que os mortos ficavam irrevogavelmente lá, para onde a justiça, de
Deus os havia enviado, e que o demônio responde ao apelo dos mágicos e toma a forma dos mortos
que chamamos para enganar a consciência humana e fazer crer aos feiticeiros que eles podem
perturbar conforme sua vontade o império das almas e de Deus. Isto significa, em termos alegóricos,
precisamente o que dizemos na linguagem da razão e da ciência. O demônio é a loucura, é a
vertigem, é o erro; é a personificação de tudo o que é falso e insensato. Aqui estendemos a Mirville
uma mão que ele certamente não segurará. Deixemos a ele seu diabo de papelão que ele faz jorrar de
seus grossos livros como que de um brinquedo de surpresa: Mirville é uma crianca. Insistimos aqui na
autoridade do Evangelho e dos teólogos, porque se trata de coisas que são exclusivamente do
domínio da fé. A ciência não admite nada que não possa demonstrar: ora, a ciência não saberia
demonstrar a continuação da vida humana após a morte. Ela não admite pois os espíritos; e o título de
nosso livro, A Ciência dos Espíritos, seria um paradoxo se não significasse ciência das hipóteses
relativas aos espíritos. A ciência é puramente humana, e a fé não poderia racionalmente afirmar-se
divina se não fosse imensamente coletiva. É esta coletividade que dá às crenças o nome de religião,
isto é, o liame moral que une os homens uns aos outros. A ciência não poderia negar a necessidade
que os homens têm de religião assim como não poderia negar o fenômeno das grandes associações
religiosas. Ao mesmo tempo que a religião está na natureza do homem, ela pertence à ciência que
estuda o homem; mas esta ciência deve limitar-se a constatar, sem se deixar influenciar por ele, o
fenômeno da fé. Uma crença isolada não merece o nome de fé, porque fé significa confiança:
desconfiar de toda autoridade social e ter confiança apenas em si mesmo, é ser louco. O católico crê
na Igreja, porque a Igreja representa para ele a elite dos crentes. Eis o que justifica a fé do carvoeiro.
Ora, o carvoeiro não é crente apenas em matéria de religião, deve sê-lo também em matéria de
ciência: irá ele negar ou contestar o gênio de Newton porque não compreende seus teoremas? Não
sou especialista em pintura, mas me referiria de bom grado a Ingres, Paul Delaroche, Gigouse; e
esses grandes artistas, que podem não ser especialistas em teologia, em exegese, em cabala, não
estariam sendo sensatos se não se referissem àqueles que têm estudado de maneira especial essas
altas ciências. Talvez nem sempre eu compreenda o que eles possam dizer sobre os arcanos da
pintura; por que se zangariam eles se meus livros não lhes são totalmente claros? Basta-me que os
homens de ciência especial e de julgamento os compreendam e seria muito razoável dirigir-me a eles.
Tal é pois o fundamento da fé. É a confiança daqueles que não sabem naqueles que sabem; como a
fórmula das crenças deve sempre buscar na ciência a base de suas hipóteses, como não se pode crer
racionalmente no que a ciência demonstra estar errado, como é necessário que a ciência admita ao
menos a possibilidade das hipóteses, como as hipóteses da fé são aquelas que a ciência confessa
jamais poder transformar em axiomas ou em teoremas, daí resulta que em matéria de fé sobretudo a
autoridade é necessária e que esta autoridade deve ser coletiva, hierárquica e universal, em outras
palavras, católica. É o que tínhamos a provar. Na Idade Média a fé é cega porque não admite a crítica
e não se apóia na ciência, que é falha. Isso faz com que o raciocínio seja fraco e os delírios abundem.
A medicina, por exemplo, não ousa ocupar-se da alma, e é à alma que se atribui a debilidade do
cérebro. Os alucinados são então inspirados, seja de Deus, seja do diabo, as mulheres histéricas são
possessas; os maníacos são almas que Deus conduz por vias misteriosas. Tudo é possível então,
tudo é permitido dentro da pretensa ordem sobrenatural, exceto, no entanto, as evocações às quais
somente o inferno pode obedecer, e que perturbam inutilmente a ordem imutável da natureza e o
silêncio eterno dos sepulcros. O Evangelho afirma que as almas do céu não podem descer e que as
almas do inferno não podem subir. Restam as do purgatório. Mas essas, consagradas à expiação, não
podem mais pecar e não têm, por conseguinte, o poder de atormentar os vivos e de induzi-los ao erro.
O purgatório, dizem os teólogos, é um inferno resignado, porque lá fica a esperança. Lá sofre-se, amase,
ora-se, mas não se pode sair antes do tempo marcado pela justiça eterna. O que podem ter em
comum esses reclusos da expiação e da prece com as divagações, ora estúpidas, ora astuciosas, das
mesas falantes? Como o próprio demônio, esta personificação selvagem e grandiosa do incurável
orgulho e do desespero irremediável, desceria às graças do arlequim ou às moralidades do Sr.
Prud'homme? O diabo da Idade Média é quase sempre malicioso, quanto a isso estamos de acordo;
mas quem não vê aqui, atrás dos chifres do bode, passar as orelhas da mãe demente, dessa sátira
gaulesa que às vezes coloca no próprio Deus tolices de seus ministros e faz o romance cômico de
Belzebu como fez o romance de Renard? O diabo, aliás, jamais deixou de morar na consciência dos
maus sacerdotes, e os embustes dos antigos santuários reproduziam-se freqüentemente com os
antigos vícios nos templos do Deus novo. Se os ruídos inexplicados quebravam o silêncio dos
campos, eram almas que pediam preces, e as preces, para o sacerdote, são o dinheiro. Outras vezes,
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também narrativas inverossímeis denunciavam apenas um milagre e serviam para ocultar um crime;
citaremos como exemplo apenas a terrível lenda de Eudes ou Udo, arcebispo de Magdeburgo. Era um
prelado muito sábio para seu século e parecia querer, antes da época marcada pela Providência,
comecar a revolução religiosa reservada ao gênio medíocre, mas opiniático, de Lutero. Udo de
Magdeburgo era declaradamente contra o celibato dos padres; tirara do claustro uma abadessa da
qual fazia quase publicamente sua concubina, esperando que pudesse chamá-la de sua mulher. O
jovem clérigo começava a se desviar para o caminho do escândalo; os antigos padres estavam
sombrios e aguardavam. Eis que, certa manhã, o arcebispo foi encontrado sem vida no coro de sua
catedral; a cabeça, separada do tronco, estava, num esgar, em meio a um charco de sangue; o corpo
estava nu. Evidentemente o arcebispo fora arrancado de seu leito e arrastado pela igreja, onde o
haviam decapitado. Quais eram pois os algozes, ou, melhor dizendo, os assassinos? A mulher que
repartia o quarto com Udo contou tremendo que uma voz terrível se fizera ouvir. Ela dizia, em um tom
de salmodia: Cessa de ludo, Lusisti satis Udo; rimas bárbaras que podem ser traduziras como:
Repousa pois, Basta de prazer Udon. Depois uma porta secreta do apartamento se abriu, e homens
negros lançaram-se sobre o arcebispo, arrancando-o do leito e o levando com eles. A mulher não vira
mais nada e não ouvira mais nada, pois desfalecera de pavor. Ora, havia no capítulo da catedral de
Magdeburgo um cônego chamado Frederico, que passava por santo e levava vida de asceta. Esse
cônego velava aquela noite na igreja e orava a Deus para que cessassem os escândalos do
arcebispo. A grande nave estava silenciosa; o céu não tinha lua, e o velho sacerdote tremia na
profundeza da noite quando repentinamente a porta da sacristia abriu-se com um baque e ouviram-se
uivos estranhos misturados com gritos abafados. Um personagem vestido de branco, tendo nos
ombros grandes asas, veio iluminar os círios do altar-mor. Frederico então pôde ver um homem que
espécies de demônios mantinham completamente subjugado; em seguida sua atencão voltou-se
novamente para a porta da sacristia: uma procissão singular entrava na igreja. Na frente caminhavam,
fáceis de serem reconhecidos por sua roupa tradicional e suas insígnias legendárias, os santos
protetores da igreja de Magdeburgo, em seguida os anjos vestidos de branco, procedendo uma mulher
de estatura alta com um manto azul e uma coroa de ouro, que se podia tomar pela Virgem; depois
dela vinham outros anjos vestidos de preto e vermelho, entre os quais aparecia São Miguel, armado
de um longo cutelo; finalmente, cercado de ceroferários portando tochas iluminadas, caminhava um
homem coroado de espinhos e segurando uma grande cruz à mão. Todo esse clero do outro mundo
tomou lugar no coro. O Cristo, ou pelo menos aquele que fazia o personagem, sentava no próprio
lugar e no trono do arcebispo, e os demônios começaram a acusar Udo, que seguravam entre eles,
amarrado e provavelmente amordaçado. O culpado não tinha nada a responder. A Mãe de Deus fez
mencão de orar por ele; depois, quando o demônio falou de escândalos do prelado e da religiosa
seduzida, a Virgem baixou seu véu e se retirou fazendo um gesto de desgosto. O juiz fez sinal a São
Miguel; o cutelo resplandeceu e desceu; os círios e as tochas apagaram-se e tudo desapareceu na
sombra. O cônego Frederico perguntou-se se não estaria sonhando e caminhou trêmulo para o coro.
Chegando ao pé do altar sentiu que a laje estava úmida e se chocou contra uma massa inerte. A
própria lâmpada do altar estava apagada e Frederico teve que retornar à sua casa para buscar luz,
mas a emoção e o pavor o impediram de voltar à igreja; foi só pela manhã que os servos da catedral,
abrindo as portas, viram o cadáver decapitado. O corpo do maldito não foi enterrado em terra santa; as
manchas de seu sangue sobre as lajes do coro não foram lavadas: cobriram-na somente com um
tapete, e quando se instalou um novo arcebispo de Magdeburgo, o capítulo e o clero conduziram-no
solenemente a esse lugar; levantaram o tapete e fizeram com que o prelado visse o sangue do
sacrílego Udo. Nada nas sombrias lendas da Idade Média nos parece mais aterrorizador do que esse
assassinato atribuído a Jesus Cristo; e, certamente, se a separação dos dois mundos não era
intransponível para aqueles que subiram mais alto; se o próprio Salvador podia, sem perturbar a
ordem eterna da Providência, fazer-se ainda presente entre nós de forma que não em seu Evangelho
e sua Eucaristia, não teria ele próprio vindo paralisar e derrubar os atos dessa tragédia infame? Não
teria ele vindo absolver e salvar o infeliz Udo dizendo-lhe, como à mulher adúltera: - Vai, e não peques
mais? Se os espíritos do outro mundo pudessem armar-se de um gládio material para esperar os
culpados da terra, teria Torquemada podido finalizar tranqüilamente seus autos-de-fé? Será que
Alexandre VI, que envenenava as hóstias e praticava publicamente incestos, não mereceria, bem mais
do que Udo de Magdeburgo, ser decapitado pelos anjos, não à noite e no segredo de uma igreja
deserta, mas em pleno sol, urbi et orbi, diante de Roma inteira e diante do universo inteiro? Mas só
cabe aos homens, aos flagelos, à velhice e à doença proferir a morte. Deus é o pai da vida; ele não
encarrega seus anjos de serem valetes de nossos cadafalsos e não encarregou seus sacerdotes de
serem fornecedores do inferno. Embuste interessado de uma parte, ignorância de outra, fenômenos
inexplicados mas não inexplicáveis, eis o que justifica a pretensa intervenção dos espíritos durante
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todo o curso da Idade Média. O estudo da natureza estava então abandonado por uma escolástica
bárbara; jurava-se em nome de Aristóteles e do mestre das sentenças; o medo do inferno impedia que
se ocupassem do mundo, e o pensamento da morte fazia negligenciar a vida. Sabe-se da história de
um certo diácono Raimundo, a quem o terror do inferno causou um pesadelo póstumo cujo resultado
foi a fundação do Grande Convento por São Bruno; contágio do medo, transmissão epidêmica do
delírio. Se a santidade, naquele tempo, consistia no maior pavor do inferno, que homem foi mais santo
que o infeliz diácono Raimundo? Tomado por uma letargia de pavor que todo mundo tem pela morte,
ele se enrolou três vezes em seu sudário e levantou-se do túmulo gritando: Sou acusado! - sou
julgado! - sou condenado! Depois caiu, dessa vez vencido e verdadeiramente morto pelo terror. A
cerimônia fúnebre foi então cessada, apagaram-se os círios e seu corpo foi lançado em algum buraco
escavado às pressas. Quem sabe se dessa vez era definitivamente a morte e se o infeliz não acordou
uma quarta vez sob a terra para se sentir enterrado vivo e roer os punhos de desespero! Admitimos
nas nossas obras precedentes a possibilidade do vampirismo e temos mesmo procurado explicá-lo.
Os fenômenos que se produzem atualmente na América e na Europa pertencem certamente a essa
horrível doença. Denominam-se vampiros, impropriamente, certos monomaníacos que, como o
sargento Beltrão, são impelidos fatalmente a se alimentarem da carne dos mortos; mas os verdadeiros
vampiros são mortos que aspiram e sugam o sangue dos vivos. Os médiuns não comem, é verdade, a
carne dos mortos, mas aspiram por todo o seu organismo nervoso o fósforo cadavérico ou a luz
espectral. Eles não são vampiros, mas evocam vampiros. Também são todos débeis e doentes, fracos
de espírito e de corpo e fatalmente inclinados às alucinações e à loucura. As práticas enervantes da
evocação os esgotam depressa, e eles caem num enfraquecimento lento comparável ao que o doutor
Tissot descreve como uma conseqüência dos hábitos solitários. O espiritismo é o onanismo das
almas. A lei de Moisés quer que se coloque à morte aqueles que consultam os oboth, isto é, os
fantasmas de ob ou da luz passiva. O grande legislador queria, através de rigorosos exemplos,
preservar seu povo do contágio do vampirismo e dos abismos da alucinação espectral. Não
acreditamos realmente que o simples sonambulismo magnético tenha merecido consideração a seus
olhos. Não estamos mais no tempo de Moisés, e o Código Penal do profeta hebreu é felizmente
derrogado, como o de Dracon. Certamente não queremos que se matem os sonâmbulos e os
espíritas, mas se nossos procedimentos, fundamentados na ciência e na religião, pudessem persuadir
alguns a se matarem, não teríamos perdido nossas pesquisas e nosso trabalho. Abordemos agora os
lugares fatídicos e as casas mal-assombradas e reconheçamos, antes de tudo, a existência e a
realidade de um grande número de fenômenos, que, sobretudo na Idade Média, favoreciam a crença
nesse tipo de superstição. Mirville cita muito isso: remetemos nossos leitores às suas obras e nos
contentamos com uma citação que ele extrai de um autor que se estima que seja do século quinze,
Alexander ab Alexandro. Eis como fala este autor: "É, diz ele, coisa bem notória e conhecida de Roma
inteira que não tive medo de morar em diversas casas que todo mundo se recusava a alugar em razão
das espantosas manifestações de fantasmas que ali passeavam todas as noites. Lá, além das
algazarras, de tremores e de vozes estridentes que vinham perturbar nosso silêncio e nosso repouso,
víamos ainda um espectro horrendo e completamente preto, de aspecto ameaçador, que parecia
implorar nossa assistência; e para que alguém não me acuse de ter forjado alguma fábula, peço
desculpas por solicitar o testemunho de Nicolas Tuba, homem de mérito e de grande autoridade, que
me pediu que viesse com vários jovens de suas relações para assegurar-se da realidade das coisas.
Eles velaram pois conosco, e ainda que as luzes estivessem acesas, viram subitamente, e ao mesmo
tempo que nós, aparecer esse mesmo fantasma com suas mil evoluções, seus clamores, seus
pavores, que fizeram muitas e muitas vezes com que nossos companheiros acreditassem, apesar de
toda sua coragem, que iriam ser as vítimas. Por toda a casa retumbavam gemidos desse espectro,
todos os quartos estavam infestados ao mesmo tempo; mas quando nos aproximávamos dele, ele
parecia recuar, sobretudo para fugir da luz que tínhamos na mão. Enfim, após um alvoroço
indescritível, durante muitas horas, e quando a noite chegava ao fim, toda a visão se desvaneceu. "De
todas as experiências que tive então, principalmente uma merece ser citada, porque, a meus olhos, foi
a maior desses prodígios e a mais espantosa... A noite havia chegado, e, depois de ter fechado minha
porta com corda forte de seda, deitei-me. Ainda não tinha adormecido, e minha luz ainda não estava
apagada, quando ouvi meu fantasma fazer sua algazarra costumeira à porta; pouco tempo depois,
permanecendo a porta fechada e amarrada, eu o vi, coisa inacreditável!, introduzir-se em meu quarto
pelas fendas e fechaduras. Mal havia entrado, ele entrou sob minha cama, e tendo Marc, meu aluno,
percebido toda essa manobra, gelado de terror, começou a soltar gritos terríveis e pedir socorro. Eu,
vendo sempre a porta fechada, persistia em não acreditar no que vira; vi então o terrível fantasma tirar
de baixo da minha cama um braço e uma mão com que apagou minha luz. Então ele começou a
desarrumar não somente todos os meus livros, mas tudo o que se encontrava em meu quarto,
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proferindo sons que nos gelavam os sentidos. Todo esse barulho despertou a casa e percebemos
luzes no quarto anterior ao meu, e ao mesmo tempo vimos o fantasma abrir a porta e escapar por ela.
Mas eis o que é mais assombroso: ele não foi de modo algum visto por todos aqueles que traziam
luz!..." Mirville, que também cita esse fato, acrescenta: "Sente-se o quanto é fácil explicar
precariamente os fenômenos que se relatam em quatro linhas, mas vemos o quanto cada um vem
acrescentar à dificuldade da solução. Alexandre estava louco nesse momento, seja; mas acreditam
nele seu aluno, seu empregado, e Tuba, e os jovens, e todas as pessoas da casa, e toda a cidade de
Roma que não queria mais essa casa... havia então nessa casa uma causa que alucinava todo
mundo? Qual era esta causa?... Uma causa que, não podendo abrir a porta por fora, passava pelas
fendas, mas abria muito bem as portas por dentro." O que caracteriza principalmente essa história, e o
que Mirville não podia ver, é a falta absoluta de lógica e de verossimilhança que caracteriza as
alucinações e os sonhos. Uma porta fechada por um simples cordão de seda é mais fácil de abrir por
fora do que por dentro, empurrando-se de maneira a romper o cordão, mas aconteceu o contrário; o
Espírito que entrou pelo buraco da fechadura não tinha necessidade de abrir a porta para sair, e ele se
deu a esse trabalho inútil. Não é visível para todo mundo, como disse Mirville, que aqui, seguindo um
método que é o seu, parece não ter nem mesmo lido a citação da qual faz uso. O ar desse quarto
devia estar viciado, visto que a luz se apagou. O braço do fantasma era uma visão da asfixia; ao ser
aberta a porta e havendo corrente de ar, o espectro desapareceu. Poderíamos comparar com essa
história um fato recente que há alguns anos lemos nos jornais. Havia em determinado lugar, e entre
pessoas cujos nomes seriam citados à medida que necessário, um quarto mal-assombrado. Um sábio
resolveu lá deitar, e deitou. Por volta de meia-noite ele sentiu uma opressão horrível, uma dor de
estômago cheia de cólicas e de angústia, e viu, em um clarão fosforescente, um abominável demônio
verde-maçã, que estava de cócoras sobre seu peito e que lhe remexia as entranhas com as unhas.
Ele soltou um grito agonizante que foi ouvido; vieram socorrê-lo, ventilaram o quarto, e o sábio,
voltando a si, sentiu-se doente e reconheceu os sintomas do envenenamento pelo arsênico. Tiraramno
do quarto fatal, administraram-lhe reativos, ele se restabeleceu e pôde entregar-se a um exame
sério e atento do quarto mal-assombrado. Reconheceu que o quarto era revestido com papel verdemaçã,
tingido com um preparado à base de arsênico. Então tudo se explicou para ele. Com efeito, o
papel do quarto foi trocado e o fantasma homicida nunca mais voltou. É estudando de perto os
prodígios que se descobrem as leis secretas da natureza. Existe, por exemplo, uma casa que atrai as
pedras como um ferro imantado atrai a limalha de ferro. É estranho, não? Mas é o que também se
deveria dizer quando se observa, pela primeira vez, os fenômenos da imantação. Descobre-se logo
que existem ímãs especiais nos três reinos da natureza, e que a casa lapidada atraía as pedras como
o médium escocês Home ou a jovem camponesa Angélica Cotin atraíam os móveis. A vida do homem
se estende para as coisas que são do seu uso, e as prescrições da Bíblia provam que a lepra contagia
tanto as casas como os homens. Por que não haveria então casas com doenças de imantação
desregulada como havia casas leprosas? O certo é que a natureza é harmoniosa e regular e obedece
a leis rigorosamente exatas quanto ao resultado de sua acão, jamais contradizendo nem seu autor,
nem ela própria. Seu milagre permanente é a ordem eterna. Os prodígios passageiros são acidentes
previstos pela harmonia universal e não provam a intervenção dos espíritos, assim como os meteoros
não provam a existência dos astros. A razão suprema é como o sol: insensato quem não a vê!
FENôMENOS MODERNOS
CAPÍTULO 1
As mesas giratórias e falantes. A existência do ímã universal especializado nos metais, nas plantas,
nos animais, nos homens, era conhecida pelos antigos hierofantes. É essa força misteriosa que se
denominava Od, Ob e Aour, entre os hebreus. É a dupla vibração da luz universal e vital. Luz astral
nos astros, luz magnética nas pedras e nos metais, magnetismo animal nos animais e no homem.
Tudo, na natureza, revela sua existência. As experiências de Mesmer e de seus sucessores provaram
que o magnetismo animal pode comunicar aos objetos inertes a vida e a vontade do homem. Não
haveria pois motivo para espanto no fenômeno das mesas giratórias e falantes, tão difundido em
nossos dias; mas a ignorância gosta de se espantar, porque espantando-se ela fica maravilhada, e
quando fica maravilhada se encanta, depois não quer mais ser desencantada, e não ouve os simples
que falam a verdade. Quase toda a verdade sobre as mesas giratórias encontra-se muito simples e
clara em uma carta de um sábio anônimo que cita M. A. Morin. "Crede, diz o sábio, que não existem
nas mesas nem espíritos, nem fantasmas, nem anjos, nem demônios; mas há tudo isso se quiserdes,
quando quiserdes, e como quiserdes, já que isso depende de vossa força de imaginação, de vosso
temperamento, de vossas crenças íntimas, antigas ou novas. A Mensambulance não é senão um
fenômeno mal observado pelos antigos, incompreendido pelos modernos, mas perfeitamente natural,
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que toca a parte física de um lado e a psíquica de outro; mas era incompreensível antes da descoberta
da eletricidade e da heliografia, porque, para explicar um fato da ordem espiritual, somos obrigados a
nos apoiar no fato correspondente da ordem material, como os antigos poetas o faziam pelas
comparações e os profetas pelas parábolas. "Ora, sabeis que o daguerreótipo tem a faculdade de ser
impressionado não só pelos objetos, mas também pela imagem dos objetos. Ora! o fenômeno em
questão, que se deveria denominar fotografia mental, não produzia somente as realidades, mas
também os sonhos de nossa imaginação, com uma fidelidade tal, que nos enganamos, não podendo
distinguir uma cópia feita ao vivo de uma outra feita a partir da imagem. "Essa fotografia mental, direis,
é algo muito extraordinário, muito maravilhoso. - A mesma coisa se disse da fotografia comum e
depois ela se tornou familiar. Acontecerá o mesmo em relação à nova descoberta: habituar-nos-emos,
e cada um verificará, fazendo mesas como se fazem daguerreótipos, uns bem, outros mal, porque é
preciso estabelecer um conjunto de precauções e de condições indispensáveis para se obter sucesso.
O primeiro inepto, o primeiro irrefletido que aparece, não está em condições de obter uma boa prova,
tanto para um lado como para o outro. "A magnetização de uma mesa e de uma pessoa é
absolutamente a mesma coisa, e os resultados são idênticos; é a invasão de um corpo estranho pela
eletricidade vital inteligente ou o pensamento do magnetizador e dos assistentes. "Nada pode dar uma
idéia mais justa e mais fácil de se compreender do que a máquina elétrica acumulando o fluído sobre
seu condutor, para obter dele uma força bruta que se manifesta por lampejos da luz, etc. Também a
eletricidade acumulada sobre um corpo isolado adquire um poder de reacão igual à ação, seja para
imantar, para decompor, para inflamar ou para enviar suas vibrações para longe. Estão aí os efeitos
sensíveis da eletricidade bruta produzida pelos elementos brutos; mas há, evidentemente, uma
eletricidade correspondente produzida pela pilha cerebral do homem: essa eletricidade da alma, esse
éter espiritual e universal, que é o meio ambiente do universo metafísico ou incorpóreo, deve ser
estudada antes de ser admitida pela ciência, que não conhecerá nada do grande fenômeno da vida
antes disso. "A eletricidade cerebral, que já não é, para mim e meus colaboradores, uma hipótese,
parece precisar, para manifestar-se a nossos sentidos, do auxílio da eletricidade estática comum;
assim, se esta última falta na atmosfera, quando o ar está muito úmido por exemplo, não se pode
obter nenhum movimento das mesas, que vos dizem claramente no dia seguinte o que lhe faltava na
véspera. "A inteligência de uma mesa acionada é o resumo ou, se preferirdes, o reflexo da inteligência
das pessoas que a acionam; pode-se o mesmo dizer de um salão onde haja atenção e harmonia de
sentimentos e de crenças. Outras vezes, é apenas a repercussão das idéias de uma só pessoa mais
influente por sua vontade que pode até paralisar ou ativar a mesa à distância e lhe impor qualquer
ordem de idéias que lhe agradar. "Não é preciso, de modo algum, que as idéias estejam claras no
cérebro das pessoas: a mesa as descobre e as formula ela própria, em prosa ou em verso, e sempre
em termos próprios; freqüentemente pede tempo para encher certas rimas forçadas; começa um
verso, risca-o, corrige-o ou o inverte à nossa maneira; ela joga, brinca e ri conosco, como faria um
interlocutor bem educado. Se os personagens são simpáticos e afáveis uns com os outros ela se
coloca no tom geral da conversa, é o espírito da família; mas se lhe pedem um epigrama de uma
pessoa ausente, ela se apodera da peça. Quanto às coisas do mundo exterior, faz conjeturas como
nós; compõe seus pequenos sistemas filosóficos, discute-os e os sustenta como um mestre dos mais
retóricos. Em uma palavra, ela faz uma consciência e uma razão dela, com os materiais que encontra
em nós. "Tudo isso vos parecerá bastante bizarro, bastante incrível; mas, depois de verificar,
chegareis lá como nós. "Os americanos estão persuadidos de que são os mortos que voltam; outros,
de que são espíritos; outros, anjos; outros, demônios; e acontece precisamente, a cada grupo, o
reflexo de sua crença, de sua convicção preconcebida: igualmente os iniciados dos templos de
Sérapis, de Delfos, de Branchides, e outros estabelecimentos teúrgicos-médicos desse gênero,
estavam convencidos de antemão de que iriam entrar em comunicação com os deuses adorados em
cada santuário, o que não deixava de ocorrer. "A nós, que sabemos o valor do fenômeno, nada
acontece que não possamos explicar, sem dificuldade, conforme nossos princípios; estamos
perfeitamente seguros de que depois de termos carregado uma mesa com nosso influxo magnético,
criamos uma inteligência análoga à nossa, que se serve como nós de seu livre arbítrio, e pode
conversar conosco, discutir conosco, com um grau de lucidez superior, visto que a resultante é mais
forte do que o indivíduo, ou o todo maior que a parte. "A melhor condição é ter como colaboradores
apenas crianças, quase sem influência mental; é, grosso modo, como se estivéssemos sós em
presença de nossa consciência e em conversa íntima conosco mesmos, só que o argumentador
efêmero formula o que era apenas o estado de caos ou de nebulosa em nossa consciência. "Não há
uma resposta dos antigos oráculos que não encontre sua explicação natural segundo a teoria da qual
temos a chave. Não mais acusamos Heródoto de ter dito disparates em suas mais estranhas
narrações, que temos também por verdadeiras e sinceras, como todos os fatos históricos consignados
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nas narrações de todos os escritores do paganismo. "O cristianismo, que se havia esforçado para
livrar o mundo dessas crenças supersticiosas das quais havia reconhecido a inutilidade e os perigos
sem descobrir as causas, teve que travar os maiores combates para destruir os oráculos e o sibilismo;
teve que empregar mais do que a persuasão, e o estabelecimento da inquisição não teve outra
finalidade; lede Ammien Marcellin e as violências dos primeiros imperadores cristãos contra os
consultantes das mesas, e os sermões de Tertuliano contra aqueles que interrogavam Capellas et
Mensas (Cabras e Mesas). "O Cristianismo precisou de nada menos do que dezessete séculos e meio
para julgar os feiticeiros a ferro e fogo; os últimos sobreviventes foram Urbano Grandier e Cagliostro;
mas, sendo o fenômeno natural, renascia tanto sob a forma dos tremores de São Médard, como sob
as alucinações de São Paris, das quais Talleyrand constatou a realidade na sua juventude,
crucificando uma sibila com o abade de Lavauguillon, sem lhe fazer mal. Mesmer ressuscitou o fato.
"Esse fenômeno é tão antigo quanto o homem, visto que lhe é inerente. Os sacerdotes da Índia e da
China praticaram-no antes dos egípcios e dos gregos. Os selvagens e os esquimós o conheciam; é o
fenômeno da Fé, origem de todos os prodígios; quando a fé enfraquece, os milagres desaparecem.
Aquele que disse "com a fé transportam-se montanhas" não se espantaria com o fato de se erguer
uma mesa. Com a fé, o magnetismo trata um reumatismo, e os pastores do campo obtinham do pé de
suas cabras, como obtemos do pé de nossas mesas, respostas análogas às crenças íntimas dos
interrogadores, igualmente atônitos por ver formulados seus pensamentos, seus instintos e seus
sentimentos, como o selvagem se espanta ao ver refletir sua imagem num espelho. Os mais mal
dotados são aqueles que acreditam conversar com o demônio, o qual repercute seus sonhos e
algumas vezes o estado de suas consciências. O homem, ao se observar no espelho da mesa, Ali se
vê às vezes tão disforme, que é tomado pelo diabo. "Quanto mais houver crentes reunidos por uma fé
qualquer em torno de uma mesa, mais a pilha ficará carregada, mais os resultados serão poderosos e
maravilhosos. "Os primeiros cristãos reunidos em torno da santa mesa para comungar com Deus viam
Deus, como aqueles que têm fé na magia e na feitiçaria vêm encantamentos e feitiçaria em tudo. Os
hóspedes do festim de Baltazar viram nas muralhas a ameaça nascida em sua consciência contra o
autor de semelhantes orgias, e nada mais. Aqueles que crêem nas aparições, em nódoas
fosforescentes, em barulhos estranhos, são também servidos segundo suas idéias; porque é dado a
cada um segundo sua fé. Aquele que pronunciou essas profundas palavras era realmente o Verbo
encarnado; não se enganava e não queria enganar os outros; dizia a verdade, que apenas repetimos
aqui já sem esperar que a aceitem. "O homem é um microcosmo ou um pequeno mundo; tem em si
um fragmento do grande Todo em estado caótico. A tarefa de nossos semidei é de deslindar a parte
que lhe cabe num trabalho mental e material incessante. Eles têm que cumprir sua corvéia pela
invenção perpétua de novos produtos, de novas moralidades e a ordenação dos materiais brutos e
informes concedidos pelo Criador, que os cria à sua imagem para criar por sua vez e completar a obra
da criação, obra imensa que só findará quando o todo estiver tão perfeito, que ele se terá tornado
semelhante a Deus e capaz de sobreviver a si mesmo. Estamos bem longe desse momento final,
porque se pode dizer que tudo está ainda por fazer, refazer e aperfeiçoar aqui. instituições, máquinas
e produtos. Mens non solum agitat sed creat molem. "Vivemos na vida, esse meio ambiente intelectual
que conserva nos homens e nas coisas uma solidariedade necessária e perpétua; cada cérebro é um
gânglio, uma estação do telégrafo nevrálgico universal em relação constante com a estação central e
com todas as outras, pelas vibrações do pensamento. "O sol espiritual ilumina as almas como o sol
material ilumina os corpos, porque o universo é duplo e segue a lei dos pares. O estacionário
ignorante interpreta mal as mensagens divinas e as toma freqüentemente de um modo falso e ridículo.
Portanto, só a instrução e a verdadeira ciência poderia destruir as superstições e os disparates
espalhados pelos ignaros tradutores localizados nas estações do ensinamento entre todos os povos
da terra. Esses cegos intérpretes do Verbo têm sempre desejado impor a seus alunos a obrigação de
jurar sem averiguação, in verba magistri. "Não pediríamos mais, infelizmente! se traduzissem
exatamente as vozes interiores que só enganam os espíritos falsos. É a nós, dizem eles, que cabe
desvendar os oráculos, temos a missão exclusiva, spiritus flat ubi vult, e ele só sopra em nós, dizem
eles. "Ele sopra em toda parte, e os raios da luz espiritual iluminam todas as consciências; mas como
há corujas que fogem da luz, há também corpos refringentes e muitos que estão despidos da
faculdade reflexiva. É a maioria; e quando todos os corpos e todos os espíritos refletirem igualmente
esta dupla luz ver-se-á muito mais claro do que hoje." Acreditamos, como o sábio Morin, que os
fenômenos atuais nos colocam na senda das maiores e mais importantes descobertas. Esta fotografia
mental das idéias correntes é algo imenso que nos revela a grande comunicação da vida. Uma alma
única, com efeito, mantém a vida em toda a natureza, mens agitat molem. Essa alma é ativa entre os
seres inteligentes e passiva entre os outros. Ora, o que é ativo age sobre o que é passivo e lhe
empresta mesmo sua força. O homem pode tomar do leão seu vigor, do macaco sua agilidade e sua
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destreza, pode também impor ao leão e ao macaco seu próprio pensamento e servir-se deles como de
instrumentos: tudo isto é uma questão de magnetismo. Credes que o grande pintor, por exemplo,
encontra entre os comerciantes as cores das quais faz irradiar sua tela? Não, seu pensamento
comanda o sol que lhe confia seus reflexos. Todo poder intelectual é uma magia, e a matéria colocada
a serviço do espírito torna-se inteligente. O dia, para manifestar-se, tem necessidade da luz, e, como
diz A. Morin em alguns versos bastante felizes dos quais completamos o pensamento: O tempo de
abdicar chegou para Apolo: Sabemos agora qual gênio invocar. Sua força é: TODO O MUNDO; Ele se
denomina: NINGUÉM; Aquele que não a possui é aquele que a dá, Assim como no ímã o pólo
negativo É o constante agente do efeito positivo. A natureza muda inspira a palavra, A ignorância
pública criou o símbolo, E o homem de gênio é talvez, em duas palavras, Aquele que tira para si o
espírito de todos os tolos. La Fontaine ia mais longe: tirava para si o gênio dos animais, ou antes,
emprestava-lhes o seu, e os fazia falar bem melhor que os nossos médiuns faziam falar as mesas. O
mundo pertence ao gênio. Ele diz à sua pedra: seja viva! e a pedra levanta-se e se anima, O escultor
faz os deuses; depois vem a fé, e os deuses falam, as estátuas movem os olhos, o mármore chora.
Pura imaginação, direis: sim, geralmente, mas nem sempre; e a prova está em que as mesas movemse
e falam realmente. Não se sabe ainda de quais forças pode dispor a imantação humana; e quando
os prodígios da fé tornarem-se conquistas da ciência, o homem, elevado acima de todas superstições,
terá tomado seu lugar no universo; compreenderá que nasceu para comandar a natureza, e que é aqui
o plenipotenciário de Deus, A fotografia é, certamente, uma das mais belas e mais curiosas
descobertas desse século: mas, naquele bom tempo de outrora, que lastimam tão sinceramente
Veuillot e Mirville, não foi o inventor dessa bela coisa acusado de magia, e não foram as massas
ignorantes persuadidas de que essas pinturas instantâneas e maravilhosas eram obra de espíritos
malignos? O que teriam pensado então do estereoscópio, essa luneta dupla que dá relevo a um
reflexo e muda um fantasma em estátua? Um viajante leva os Alpes em seu bolso; coloca-se a cúpula
de São Pedro de Roma num estojo. Juntai o microscópio ao estereoscópio e vereis erguerem-se entre
vossas mãos, em toda sua espantosa altura, as colossais Pirâmides, que podereis contemplar
comodamente através do buraco de uma agulha! Então, nosso caro Mirville, será que vosso diabo não
está nisso nem um pouco? Não, não é? Mas, quanto à fotografia mental das mesas falantes, é
realmente outra coisa: sim, e outra coisa completamente análoga à primeira. Da mesma forma que a
fotografia solar reproduz com uma fidelidade desesperadora os sinais e as verrugas de um rosto, a
fotografia astral reproduz o nada das frívolas comunicações, a temeridade das conjeturas e os erros
dos pensamentos tolos. Conhecemos as pretensas revelações de Victor Hennequin; o médium Rose
afirma-nos que Escousse e Lebras foram Romeu e Julieta, e encontra em Saturno o infortunado
Lesurques, que se tornou jardineiro. Isso nos lembra uma cantiga ininteligível de Vadé: A rainha
Cleópatra Assava em seu lar Castanhas Que Caron Jogava às galinhas. Enquanto Zorobabel, Fazia
cozinhar, em Israel, Mariscos. É o sonho em toda a sua incoerência. Depois ele evoca Mme. Lafarge,
e a faz confessar que ela fora culpada: ultraje ímpio ao túmulo de uma infeliz, cuja memória, protegida
por uma dúvida ante a opinião pública, toca na honra de uma família honrada da qual alguns membros
ainda vivem e crêem na inocência de Maria. Um outro médium, outrora sábio, depois girador de mesas
e alucinado, acredita receber os beijos de uma mulher que amou; logo depois sua amante do outro
mundo fica enciumada, outros lábios póstumos tocam a boca murcha e sem vigor do velho Girard. E a
nova Diana desse grotesco Endimião (ousamos apenas repeti-lo, porque não nos atrevemos a
escrevê-lo), é a própria mãe de Deus. Ao lado dessas atrocidades, vemos sair do lápis dos médiuns
páginas que podem não estar ainda escritas em nenhuma parte, mas que reconhecemos já ter lido em
todo lugar, tanto esses palavrórios são conhecidos e se parecem. Algumas vezes o pretenso Espírito
copia ingenuamente um autor que acredita, sem dúvida, ser pouco conhecido. Aquele que escreve
esse livro ficou espantado, certo dia, ao reler, sob a assinatura de Platão, em um número de Verité,
jornal espírita de Lyon, uma página de sua introdução à História da Magia. O lápis faz canções rasas,
que assina Beranger, e atribui capucinades a Lacenaire: é uma confusão de asneiras pretensiosas e
reminiscências truncadas; é uma lanterna mágica sem luz, é o sabat dos mais pobres diabos que se
possam imaginar; é o caos das extravagâncias. Em seguida, ao lado disso, pareceres cheios de
mistério, hipóteses ousadas e fragmentos de verdadeira ciência, cosidos com os velhos cordões de
Tabarin ou de Jocrisse. Apolônio de Tiana escreve passagens saint-simonianas e as assina "Santo
Agostinho"; Santo Agostinho clama contra a Igreja Católica, São Luis fala como Jean Journet, São
Vicente de Paula faz frases, e o grande Santo Eloi já nem mesmo possui o bom espírito de querer
colocar no lugar as ceroulas do rei Dagoberto. É o ruído anárquico dos loucos, é o equívoco das
balbúrdias, é a confusão das massas fotografadas enquanto se movem; é o espírito impessoal e
múltiplo que afoga estupidamente os animais nos quais se refugia, o espírito que afasta de tudo a
doce influência do Verbo de verdade, e que se denomina legião.


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