A Ciência dos Espíritos - parte 4


desenha vagamente na sombra, ele procura e não encontra o rosto dessa figura e ouve, como que no
fundo de si mesmo, uma voz que parece uma respiração fraca; eis o fenômeno natural perfeitamente
caracterizado: é um pesadelo do primeiro sono, é a alma do sonhador que amedronta a si mesma. Ele
escuta com pavor o eco noturno e enfraquecido de seus próprios pensamentos e os formula com uma
penosa atenção, com palavras de desespero. O homem, diz ele, tentaria inutilmente ser justo perante
Deus; Deus encontra a perversidade até no coração de seus anjos. Rebanho sem inteligência, a
humanidade se espreme em volta do abismo e todos devem cair para sempre na noite escancarada
da morte. A criatura mancha o céu e Deus se apressa em limpá-lo; todos passam e morrem sem ter
encontrado a sabedoria. É assim que a noite exorta a noite e que a morte anuncia a morte. O
pesadelo desconhecido revela apenas a ignorância e consagra seu crente a um pesadelo eterno.
Preserva-nos, Senhor, diz Davi no livro dos Salmos, da coisa assustadora que passeia na noite. Esse
sopro leve, essa agonia que mal se ouve, esse espectro sem rosto caracterizando de uma maneira
surpreendente a ilusão e o erro: é quase o nada e o silêncio, é o vento que parece falar em voz baixa
roçando as dobras rígidas da mortalha, é a reminiscência que se apaga na onda móvel e invasora do
sonho; e o homem que o sonho arrebata já não sabe se dorme ou se está acordado; raciocina durante
o sono, e, ao despertar no dia seguinte, falará como se ainda sonhasse. Nunca seria demais admirar a
arte com que o autor do livro de Jó desenha o caráter do supersticioso representado por Eliphas; sua
ciência começou por um terror noturno; também ela é apenas esmorecimento e terror. Ela é negra
como a noite, cega e sem rosto como o fantasma. É o orgulho de um alienado que se compraz em sua
demência e que se consola em desesperar dando-se a amarga alegria de empurrar os outros para o
desespero. Todos os criminosos por religião mal compreendida foram visionários; Jacques Clément e
Ravaillac eram perseguidos por sombras desconhecidas e ouviam durante sua insônia o pequeno
sopro de Eliphas. A voz que diz: "Mata" e a que diz: "Desespera e morre", saem igualmente do túmulo.
Mas esse túmulo é o da nossa razão, e os mortos voltam apenas em nossos sonhos; também o
estado de mediunidade é uma extensão do sonho, é o sonambulismo com toda a variedade de seus
êxtases. Aprofundemos os fenômenos do sono, e dominaremos todos os mistérios do espiritismo. Eis
por que a lei mosaica, assim como a lei cristã, condenava os espíritos de Python e os que advinham
por Ob. Explicamos essas expressões: Python é uma palavra que os intérpretes hebreus empregaram
para expressar a grande serpente astral, o fogo vital ininteligente, o turbilhão fatal da vida física, o que
cerca a terra mordendo a cauda e que o sol atravessa por todos os lados com suas flechas, isto é,
com seus raios; a serpente que tentou Eva e que esmagou sua cabeça sob o pé da mulher
regenerada procurando sempre lhe morder o calcanhar. Ob é a luz passiva, porque os cabalistas
hebreus dão três nomes a esta substância universal, agente da criação que toma todas as formas ao
equilibrar-se pela balança de duas forças. Ativa, ela se chama Od; passiva se chama Ob; equilibrada
se chama Aour. Od se escreve com "vau daleth", que significa hieroglificamente amor e poder; Ob,
com "vau beth", significa amor e fraqueza ou atrativo fatal; Aour, com "aleph-vau-resch", significa
princípio de amor regenerador. (Veja em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia as concordâncias das
letras hebraicas com os hieróglifos e os números das grandes chaves do Tarô samaritano.) Os que
adivinham por Ob são pois os intérpretes da fatalidade. Ora, consentimos a fatalidade quando a
consultamos; abandonamo-nos a ela procurando-a através de oráculos. Damos assim arras à morte,
enfraquecemos seu livre arbítrio. Os que cooperam com essa adivinhação assemelham-se aos
empíricos que venderiam veneno publicamente, e Moisés, segundo os costumes de seu país e de seu
tempo, não era muito severo quando os condenava à morte. O cavaleiro de Richemback, ao chamar
de Od a luz astral, reencontrou um dos verdadeiros nomes cabalísticos da luz universal, mas não o
aplicou com exatidão ao generalizá-lo. Od é a luz dirigida ou mesmo diretriz; é a luz astral elevada ao
estado de luz de glória. Quanto ao fluído do sonambulismo, é necessário chamá-lo de Ob, porque é
seu verdadeiro nome, e somos forçados a reconhecer que os verdadeiros sonâmbulos, quando não
são dirigidos por um magnetizador poderoso em Od, são advinhas por Ob ou pelo espírito de Python
do qual fala a Escritura Santa. Os que os consultam cometem pois aquela imprudência ou aquela
impiedade que empurrou Saul, abandonado por Deus, para o antro da pitonisa de Endor. Alguns
comentadores, entre os quais se deve mencionar São Methodius, denominado Eubulius, bispo de Tiro
no início do século IV, viram a pitonisa de Endor como uma hábil intrigante que enganou a credulidade
do rei de Israel. Primeiro ela finge não reconhecer o rei, e depois, repentinamente, como se o seu
demônio lhe revelasse a verdade, cai aos pés de Saul. Essa encenação dá certo. O príncipe maníaco
tranqüiliza-a e se mostra disposto a acreditar nela; ele lhe ordena que evoque Samuel. A pítia então
faz mil contorções e se deixa cair pesadamente por terra. O que vês? grita-lhe Saul, todo trêmulo. -
Vejo deuses que saem da terra onde vejo subir os poderes da terra. - O que mais vês? - Vejo um
velho envolto em um manto. - É Samuel, diz o crédulo monarca. Então a feiticeira, sem dúvida
secretamente devotada a Davi, faz sair de seu ventre uma voz lúgubre. É Samuel que explode em
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censuras e ameaças. Saul, mais morto do que vivo, já não pode beber nem comer; ele é vencido de
antemão; caminha para a batalha como que para o suplício; os filisteus rodeiam-no na montanha de
Gelboe, e ele se deixa cair sobre seu gládio ao invés de se defender. Ele não deixou com a adivinha
seu livre arbítrio e sua razão? Rei caído e doravante incapaz de reinar, homem indigno de conduzir
homens, ele que havia pronunciado a pena de morte contra os feiticeiros e contra aqueles que os
consultavam, mostra-se rei pelo menos morrendo, e o faz ao matar-se em último ato de justiça. Ao
sábio bispo de Tiro repugnava, com razão, pensar que a paz de uma tumba como a de Samuel
pudesse ser perturbada pelas evocações sacrílegas de uma mulher condenada; lembrava-se aliás
dessa palavra tão decisiva do Evangelho na parábola do mau rico: CHAOS MAGNUM FIRMATUM
EST. O grande caos consolidou-se, de sorte que aqueles que estão em cima já não podem descer; e
sobre esse assunto nosso sábio amigo, o saudoso Louis Lucas, fazia uma observação muito judiciosa.
A natureza, dizia ele, abre à vida todas as suas portas, tendo o cuidado de fechá-las atrás dela para
que ela jamais retroceda. Vede a seiva nas plantas, vede os sumos alimentadores no alambique das
entranhas, vede o sangue nas veias; um movimento regular os faz avançar sempre, e depois que eles
passam, os canais estreitam-se e se estrangulam. Os vivos de uma esfera superior, acrescentou ele,
não podem mais recair na nossa esfera, do mesmo modo como a criança já nascida não pode voltar
para dentro de sua mãe; pensamos como ele e não cremos que a alma de Samuel tenha podido vir de
outro mundo maldizer mais uma vez o infeliz Saul. Para nós, a pitonisa de Endor era uma vidente à
maneira dos estáticos de Cahagnet; pelo sonambulismo, ela se pôs em comunicação com a alma
sombria do rei de Israel e evocou os seus fantasmas. É do fundo da consciência dos assassinos de
padres e profetas e não do vazio da terra que se levanta o espectro sangrento de Samuel, e quando a
sibila repetia com uma voz de ventríloqua anátemas e ameaças, ela os lia escritos pelo remorso do
próprio pensamento de Saul.
CAPÍTULO 2
(Continuação do anterior)
Os mortos ressuscitados - O filho da Sunamita - O túmulo de Eliseu Os antigos hebreus acreditavam
como os modernos na imortalidade da alma. Moisés no entanto não fez nenhuma menção sobre o
assunto no Pentateuco. Esse dogma, com efeito, era reservado aos iniciados, e para reencontrá-lo em
todo seu esplendor é necessário penetrar nos santuários da Cabala. Moisés, cuja grande obra era
afastar seu povo da idolatria, sabia que a fé mal esclarecida na imortalidade da alma conduzia ao culto
dos antepassados e não queria que os hebreus fossem chineses. Não queria que o povo de Abraão e
de Jacó levasse do Egito o fetichismo dos cadáveres, não queria dar ao templo do Deus vivo um
subsolo povoado de múmias. A conservação dos cadáveres, com efeito, é um ultraje à natureza,
porque é um prolongamento artificial da morte. Moisés temia também encorajar a necromancia e
parecia prever de longe a epidemia das mesas falantes e dos espíritos espancadores. É perigoso
superexcitar a imaginação das multidões, e o cristianismo mais tarde não escapou desse perigo. O
sonho do céu fez negligenciar muito a terra , e nunca é demais lembrar que, segundo a palavra do
Mestre, a vontade de Deus deve ser feita assim na terra como no céu. O que está embaixo é como o
que está em cima, diz Hemes Trismegisto, e o que está em cima é como o que está embaixo: quando
a barbárie está na terra, está também no céu que os homens representam. Tomo por testemunha o
fanatismo da Idade Média e o deus dos inquisidores. A religião de Moisés é uma razão sem ternura, e
o cristianismo foi de início uma ternura sem razão. É necessário perdoar àqueles que amaram muito.
Adorar os mortos que nos são caros é um erro, sem dúvida, mas é um crime imperdoável? Não há
mortos para nós, aliás, tudo é vivo. Nossas próprias relíquias, esses restos de ossadas que causam
tanto horror ao puritanismo judaico, já não são fragmentos de cadáveres. Reanimadas pela fé comum,
regadas por doces lágrimas de esperança, reaquecidas pela caridade de todos, são sementes de
ressurreição e garantias de vida eterna. Israelitas, concedei alguma coisa à santa loucura do amor e
nos reconduzireis mais facilmente à severidade do dogma pela indulgência da razão! Crer na
ressurreição dos mortos é crer na imortalidade da alma. Ora, os hebreus acreditavam na ressurreição
dos mortos. Elias ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, Eliseu, o da Sunamita, e um morto que
lançaram por acaso no sepulcro desse profeta ressuscitou ao contato de suas ossadas. As duas
ressurreições, a do filho da viúva e a do filho da Sunamita, parecem muito calcadas uma na outra.
Seja o que for, a narração da última contém detalhes de operações magnéticas dignas de serem
notadas. O filho da Sunamita morreu de uma congestão cerebral em conseqüência de uma insolação.
Eliseu primeiro enviou seu servidor Giezi confiando-lhe seu próprio bastão: Tu o voltarás, disse-lhe ele,
na direção do rosto da criança, e tu o farás tocá-lo. Giezi parte com a bengala; mas seja por inépcia,
seja por falta de fé, sua operação não produz nada e ele volta sem ter tido êxito. Então, o próprio
Eliseu dirige-se ao leito da criança e toma a resolução de reaquecê-lo por incubação e insuflação.
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Coloca o rosto sobre o rosto da criança, as mãos sobre as mãos dela, os pés sob seus pés; depois,
sem dúvida para retomar forças, interrompe e passeia pelo quarto; enfim recomeça sua incubação
magnética e a criança retorna à vida. É o que lemos no quarto livro dos Reis. Dissemos, em nosso
Dogma e Ritual da Alta Magia, que uma ressurreição não nos parece impossível enquanto o
organismo vital não for destruido. A natureza, com efeito, não realiza nada de repente, e a morte
natural é sempre precedida de um estado que se parece um pouco com a letargia. É um torpor que
uma grande sacudida ou o magnetismo de uma poderosa vontade podem vencer, e isso explica a
ressurreição do morto jogado sobre os ossos de Eliseu. O homem estava provavelmente nesta letargia
que comumente precede a morte. Os que o carregavam assustaram-se vendo chegar uma borda de
salteadores do deserto e atiraram ao acaso o cadáver no sepulcro aberto do profeta para ocultá-lo dos
infiéis. A alma do morto sem dúvida pairava pelas regiões baixas da atmosfera, ainda mal separada de
seus despojos mortais; o pavor de sua família comunicou-se simpaticamente com esta alma; ela teve
medo de que seus restos fossem profanados pelos incircuncisos e entrou violentamente em seu corpo
para elevá-lo e salvá-lo. Sua ressurreição é atribuída ao contato com as ossadas de Eliseu, e o culto
das relíquias data logicamente dessa época. É certo que os hebreus, que consideram sagrado o livro
onde é narrada essa história, não devem achar ruim o culto que os católicos prestam às ossadas e
aos outros restos de seus santos. Por que, por exemplo, o sangue de São Januário teria menos
virtude que o esqueleto de Eliseu?
CAPÍTULO 3
Os espíritos no evangelho: demônios, possessos e aparições. Jesus chama Satã de "príncipe desse
mundo"; é pois um poder que exerce seu império sobre a terra. Não é um poder espiritual, porque
então excluiria o poder de Deus. Jesus diz que o viu cair do céu como o raio ou sob a forma de raio. É
pois um poder material análogo à eletricidade. Jesus diz que Satã é mentiroso como seu pai, porque o
pai de Satã é o espírito de mentira que dá personalidade ao erro. Utilizar mal as forças da natureza é
engendrar Satã. Conceber tudo sem Deus é conceber Satã. O diabo é um panteísmo sem cabeça.
É o homem com cabeça de bode.
É o instinto animal colocado no lugar da razão reguladora.
É a sombra que nega o corpo.
É o pote que nega o oleiro.
É o pesadelo, é o absurdo da razão negando o absurdo da fé.
É o acaso afirmando-se contra a regra; é a careta insultando a beleza; é o nada que diz: Sou Deus.
Satã é a loucura, e os possuídos pelo demônio são os loucos.
Um é mudo, o outro rasga suas roupas e se esconde nas tumbas; um outro lança-se ora no fogo, ora
na água, e parece afetado pela monomania do suicídio. O que é tudo isso? Doenças mentais, e Jesus,
atribuindo a Satã, isto é, à eletricidade desviada, a maior parte das outras doenças, diz a respeito de
uma mulher disforme e dobrada em dois: Vede esta filha de Abraão que foi ligada por Satã! Vê-se que
Satã é aqui a personificação do próprio mal físico. Ligada por Satã quer dizer aqui, evidentemente,
ligada por uma afecção nervosa ou reumática. Aliás, a serpente da Gênese não poderia ser o Satã de
Milton. Era o mais insinuante e o mais astucioso dos animais, diz o texto sagrado, e Deus, para punilo,
condenou-o a rastejar sobre seu ventre e a comer a terra; suplício que não se parece em nada com
as chamas tradicionais do inferno. É verdade também que a serpente real e não alegórica rastejava
antes do pecado de Eva e jamais comeu terra, trata-se pois, aqui, de uma alegoria; trata-se desse fogo
astral que rasteja e que atormenta, desse fogo terrestre que alimenta a vida física ao dar a morte. É
também o mesmo Satã que pode tornar doentes ou paralíticos as antigas filhas de Abraão. O que
pensar também dessa legião de demônios que, expulsos do corpo de um possesso, pedem como uma
graça que se possam refugiar num rebanho de porcos que tornam furiosos e correm a se afogar no
lago de Tiberíade? Não é esta evidentemente uma parábola judaica, cujo fim é mostrar o quanto o
porco é um animal impuro? Se devemos tomar ao pé da letra semelhantes histórias, Voltaire tem mil
vezes razão de caçoar disso. Mas sabe-se que a letra mata e que só o espírito vivifica. Não queremos
dizer com isso que o fato em si seja impossível. A raiva dos cães comunica-se aos homens; por que a
raiva dos homens ou certas loucuras furiosas não se comunicariam aos animais? Mas quantos anjos
decaídos, quantos espíritos puros condenados ao inferno encontram alívio ao se afogarem sob formas
de porcos; que o Salvador do mundo, a razão suprema encarnada, consinta nessa maldade horrenda
e ridícula, é isso que o mais vulgar bom senso não pode admitir. Há, evidentemente, alguma coisa
oculta sob essa narração aparentemente revoltante. Quando um espírito imundo é expulso do corpo
de um homem, diz o Salvador, ele vai percorrendo lugares áridos e procurando o repouso que não
pode encontrar; então diz: Retornarei à casa que deixei. Então ele vai e, reencontrando essa casa
limpa e enfeitada, vai tomar sete outros espíritos mais maldosos que ele; eles entram todos juntos,
estabelecem-se e o estado do doente torna-se pior do que estava antes. Se fosse para entender esse
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discurso simbólico no sentido dos demonólogos, o próprio Jesus, ao curar os possessos, teria feito
más ações, visto que segundo sua própria doutrina ele os expunha a uma obsessão sete vezes mais
cruel. Mas trata-se aqui de doenças mentais, que freqüentemente agravamos ao querer curá-las. Se
expulsarmos uma ilusão da cabeça de um louco, ele logo terá outras sete mais insensatas que a
primeira. É por isso que Jesus ocultava da multidão as altas verdades de sua doutrina e só as revelava
ao pequeno círculo de iniciados disfarçando-as em parábolas. Ele temia o espírito impuro que se
chama legião ou multidão. Quero, dizia ele, que essas pessoas ouçam sem compreender, que vejam
sem ver, porque tenho medo de que não se convertam. Ai! ele pressentia as guerras religiosas, os
massacres e as fogueiras; via de longe o Império Romano desabando no sangue das perseguições, e
o fanatismo rancoroso condenando à morte a piedade que ora e que perdoa. Ele expulsava um
demônio mudo, era o culto dos ídolos, e via chegar sete demônios tagarelas, os sete pecados capitais
erigidos em doutores da Igreja. É por isso que se empenhava em calar-se, quando ele mesmo, talvez,
já tivesse dito demais. Também, quando é traído e renegado pelos seus, caluniado e amaldiçoado
pelos padres, acusado diante dos juízes, entregue aos clamores da vil multidão que pede sua morte,
ele se encerra no mais absoluto silêncio, não responde nada a Pilatos, não quer dizer nada a Herodes;
o que lhes diria ele, e por quê? Eles são indignos e incapazes de entendê-lo. Enfim, quando esgotou
até a lia a taça da ingratidão, quando se sente morrer num suplício atroz sem ter podido fazer outra
coisa pelos homens que tanto amou senão torná-los mais culpados e mais maldosos, seu coração se
dilacera, ele parece duvidar de si mesmo, e dá esse grito terrível: Meu Deus! Meu Deus! Por que me
abandonaste? Quando expirou, diz o Evangelho, a terra tremeu, o sol se obscureceu, o véu do templo
se rasgou de cima até embaixo, as pedras racharam, os túmulos abriram-se, os mortos saíram e
apareceram a várias pessoas. Se fosse para tomar essas coisas ao pé da letra, a história faria
certamente uma menção qualquer a esse acontecimento formidável. O tremor da terra teria sido
universal, e o obscurecimento do sol outra coisa que não um simples eclipse. Quais são as pedras que
racharam? Todas as pedras. As cidades então deveriam ter desabado. Algumas pedras? Quais? E por
que estas e não aquelas? Os mortos saíram de seus túmulos? Em que estado? Tal como eram? No
estado de putrefação e de esqueletos, ou com corpos novos? Foi então uma verdadeira ressurreição.
Mas a Escritura chama Jesus Cristo de o primeiro-nascido dentre os mortos, isto é, o primeiro dos
ressuscitados, e nesse momento Jesus apenas acabava de morrer. A letra aqui não resiste um só
instante ao exame; é necessário recorrer ao espírito, isto é, à alegoria. Jesus Cristo morreu de fato e o
velho mundo tremeu; ele não se recuperará desse abalo, e o colosso romano cairá pedaço por
pedaço. O véu do templo se rasgou, isto é, os mais secretos mistérios da religião judaica são
desvendados, é a humanidade divina ou a divindade humana. O sol se obscureceu, isto é, os antigos
cultos do Oriente que tomavam o sol pela mais perfeita imagem de Deus perderam sua virtude. Um sol
vivo acaba de aparecer sobre a terra, ele desaparece para renascer, os dias da alma encontraram sua
chama. As pedras se racham, isto é, os mais duros corações não podem resistir à doce violência do
grande sacrifício. Os túmulos abrem-se por si mesmos, porque a morte acaba de deixar escapar as
chaves das portas eternas. Os mortos levantam-se e parecem ressuscitar de antemão, porque a morte
triunfante da maior das vítimas acaba de dar um golpe mortal na própria morte, e a imortalidade da
alma torna-se visível, de certo modo, sobre a terra. Esse é o sentido, o verdadeiro sentido, o único
sentido possível e lógico das palavras sagradas tomadas ao pé da letra por tantas crianças entre as
quais é preciso colocar as teologias imbecis da Idade Média. Quanto às aparições do próprio Jesus
Cristo, não falaremos nelas, porque são domínio exclusivo da fé. Diremos apenas que não favorecem
em nada as idéias do espiritismo, porque Jesus Cristo aparece não como morto, mas como vivo. Não
é em espírito, é em carne e osso que ele se encontra no meio de seus discípulos, convida-os a tocá-lo,
pede-lhes o que comer; come, com efeito, e bebe no meio deles. São Tomás o toca e encontra um
corpo real e palpável. No entanto esse corpo passa através de portas fechadas. São coisas do outro
mundo que nada, certamente, neste mundo poderia explicar. Esse corpo palpável e real, esse corpo
que tem carne e osso, esse corpo que se alimenta de pão e de mel, aparece e desaparece como uma
fantasmagoria. Há aí evidentemente algum mistério. Os primeiros cristãos, forçados a se esconder,
tinham suas parábolas e seu ocultismo. Escreviam para serem compreendidos apenas pelos iniciados.
A história da aparição aos viajantes de Emaús pode lançar alguma luz nessas sombras. Dois viajantes
passavam não longe do burgo de Emaús, eram discípulos de Jesus, e conversavam tristemente sobre
a morte violenta de seu mestre. Um viajante desconhecido os aborda e lhes censura a tristeza;
explica-lhes as escrituras, relembra-os sobretudo das palavras do mestre antes de morrer: "Fareis
comigo apenas um, como faço apenas um com meu Pai. Aquele que me vê, vê meu Pai, e aquele que
vos vir, verá a mim. Aquele que vos escuta me escuta, e quando fordes dois ou três reunidos em meu
nome, estarei lá no meio de vós." Assim falando chegam à hospedaria, o viajante toma o pão, benze-o
e o reparte, como Jesus Cristo fizera antes da Ceia; então os olhos dos dois discípulos abrem-se,
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reconhecem que, segundo sua palavra, Jesus Cristo estava realmente presente entre eles;
compreendem-no ressuscitado e sempre visível entre os seus, sempre presente em sua Igreja.
Comungaram pois da própria mão de Jesus Cristo, e após a comunhão não o viram mais. Está
expresso aqui com reservas e de uma maneira velada todo o mistério do sacerdócio. O sacerdote que
reza a missa é realmente Jesus Cristo pela fé dos espectadores, e a prova disso é que o sacerdote, ao
pronunciar as palavras sacramentais, não diz: Este é o corpo do Cristo, mas, como diz o Mestre: Este
é meu corpo. O devoto então não mais vê o sacerdote, vê Jesus Cristo dando-lhe seu corpo e recebe
realmente o corpo sagrado de Jesus Cristo; mas, após o sacrifício, Jesus desapareceu, e não mais
nos ocupamos do bravo pároco, que, recitando baixinho os versetes de seu Te Deum, retorna à
sacristia. Na igreja de São Gervásio em Paris vê-se uma pintura mural de Gigouse, que representa
muito bem, na nossa opinião, o mistério da ressurreição do Salvador. Não é um trovão, não é um
sepulcro que rebenta no meio dos soldados desvairados, é uma tumba que se abre por si mesma, é
uma luz que desabrocha como uma flor matinal, doce ainda como o crepúsculo, mas suficientemente
potente para esclarecer vivamente os espectadores dessa cena. Cristo não desaparece; caminha para
frente com a placidez da calma eterna. Seu gesto é o do ensinamento das coisas divinas; cremos ver
sua auréola crescer lentamente com nuances irisadas, e em torno dele começa a se criar um céu
novo. Os guardas não estão nem fulminados, nem aterrorizados; estão tomados e como que
paralisados por um estupor, que não é sem admiração e talvez nem sem uma vaga esperança, pois
não é por eles, pobres mercenários do mundo romano, que o Redentor acaba de vencer a morte?
Tudo é calmo nesse quadro, e o pintor chegou aos mais sublimes efeitos através da maior
simplicidade. Depois que vemos esse quadro, nós o revemos sempre em nossa lembrança, e
involuntariamente o contemplamos com uma emoção incansável. O sentimento que experimentamos é
como que um arrebatamento para o pensamento, como um êxtase para o coração. É principalmente
às artes que se deve perguntar as revelações do progresso. O que o filósofo ainda não sabe dizer, ou
não ousa dizer, o artista adivinha, e nos faz sonhar antecipadamente o que um dia deveremos saber.
CAPÍTULO 4
História do Santo Espiridão e de sua filha Irene. Em meados do século IV, em Tremithonte, na ilha de
Chipre, vivia o santo bispo Espiridião, um dos pais do concílio de Nicéia. Era um velho dócil e
venerável, pobre como Jesus, penitente como um asceta, e caridoso como um apóstolo. Havia sido
casado, e sua esposa ao morrer lhe deixara uma filha chamada Irene, que consagrou sua alma à
prece e seu corpo à virgindade. Morava com ela numa choupana cercada por um pequeno jardim que
ele próprio cultivava. Ele era o conselheiro de toda a região e Irene era a providência: tratava dos
doentes e visitava os pobres, enriquecendo-os de coragem e dando-lhes a esmola de todos os
tesouros de seu coração. Depois ela orava, jejuava, fazia vigília, tanto que sua saúde declinava ao
mesmo tempo que sua alma desligava-se cada vez mais da terra. Mal tendo saído das catacumbas, a
Igreja cristã, que Constantino acabava de cobrir com sua púrpura, parecia então ter sido atingida pelo
mal que consumia Hércules quando tocou o vestido sangrento de Djanira; ela rasgava suas entranhas,
o arianismo agressivo e uma ortodoxia turbulenta disputavam seus farrapos. O astucioso e cruel
Constâncio acabava de refrescar com o sangue de sua família a púrpura do manto de Constantino.
Juliano estudava filosofia em Atenas, e em meio ao miserável conflito das teologias e das retóricas,
pressentindo, sem querer resignar-se a ele, o vasto desmoronamento do império, sonhava com as
virtudes de uma outra época, e, na solidão dos velhos templos abandonados, chorava pensando na
glória dos antigos deuses. O cristianismo, com efeito, consagrou o velho mundo à morte, e fazia
santos sem melhorar os costumes públicos; muito pelo contrário, a putrefação tinha pressa em fazer
lugar para a vida nova. A igreja temporal já tinha horríveis bispos, como Jorge da Capadócia, os
santos acreditavam mais do que nunca no fim próximo do mundo e fugiam para o deserto. Espiridião e
sua filha eram ascetas como São Paulo o Ermitão e como Santo Antônio, mas haviam compreendido
que toda a vida divina está no espírito de caridade. Espiridião continuara pois sendo bispo, e para
fazer compreender a nossos leitores como entendia a caridade, narraremos uma passagem de sua
vida. Era no final de uma quaresma, de uma quaresma tal como as fazia Espiridião; os magros
alimentos da santa quarentena se haviam esgotado, era o dia da Sexta-feira Santa. Espiridião deveria
passar esse dia e o dia seguinte sem ingerir nenhum alimento, portanto não havia nada em sua casa,
nada além de um pedaço de carne de porco suspenso sobre a fumaça da lareira, reservado para as
festas de Páscoa; nisso vem bater à sua porta um viajante extenuado de cansaço e de necessidade.
O bispo de Tremithonte recebe-o com diligência cercando-o de cuidados paternais; mas percebe logo
que seu hóspede vai desmaiar de inanição. Que fazer? É tarde, não há casas por perto, a cidade fica
bem longe. Espiridião não hesita. Corta um pedaço da carne salgada, manda cozinhá-la e a apresenta
ao viajante. Este a rejeita com espanto e assombro: Sou cristão, meu pai, diz ele ao bispo, como então
me ofereces hoje carne para comer! Crês que eu seria capaz de insultar dessa forma, por minha
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intemperança, a morte do Cristo, nosso mestre? - Sou cristão como tu, meu filho, responde-lhe
docemente Espiridião, e, além do mais, sou bispo, isto é, pastor e médico. É como médico que te
apresentei esses alimentos, os únicos que tinha em meu poder para te oferecer. Estás esgotado, e
amanhã talvez seja muito tarde para te salvar a vida; come pois esses alimentos que abençôo, e vive.
- Nunca, replica o viajante, porque me aconselhas o que nem tu mesmo farias.
- O que não faria por mim talvez, diz o velho, mas o que faria certamente por ti, como farás por mim o
que te rogo. Pega, queres que coloque em minha boca um pouco dessa carne para encorajar-te a
fazer uso dela sem escrúpulos? E Santo Espiridião pega e come um pouco da carne de porco para
encorajar seu hóspede a fazer o mesmo; porque a caridade, segundo ele, era uma lei mais imperiosa
do que a da abstinência e do jejum. Eis como era Santo Espiridião de Tremithonte, eis sem dúvida
como era também sua filha Irene. Esses dois anjos da terra tinham um só coração e uma só alma.
Quando Espiridião ia visitar sua diocese, Irene guardava o eremitério e ali recebia os pobres, os
peregrinos e os que buscavam bons conselhos; tudo o que ela fazia ou dizia estava aprovado de
antemão por seu pai, e Irene, por seu lado, só dizia coisas que o próprio Espiridião dissera, e fazia
com um maravilhoso vaticínio as boas obras que ele fizera. Esses dois santos foram
momentaneamente separados por esse trabalho de renascimento que costumamos chamar de morte.
A mais jovem foi chamada antes à libertação. Irene apagou-se docemente, como uma lâmpada cujo
óleo se acaba. Espiridião lhe rendeu os últimos deveres, mas não chorou, porque ela não o havia
deixado; ele a sentia mais do que nunca ligada a seu pensamento e a seu coração. Parecia-lhe que
tinha uma dupla memória e um duplo pensamento, Irene havia encontrado, talvez, seu paraíso na
alma feliz de Espiridião. Esses detalhes eram necessários para explicar a passagem que se segue.
Durante uma ausência de Espiridião, um cristão, partindo para uma longa viagem, colocara entre as
mãos de Irene uma soma em dinheiro que era toda a sua fortuna. Irene enterrara o depósito sem falar
sobre isso com ninguém. Quando o cristão voltou, Irene estava morta, e grande foi o espanto do santo
bispo ao ouvi-lo reclamar um depósito de que ele não tinha conhecimento. Foi então até o túmulo de
Irene e a chamou três vezes em voz alta. Irene então respondeu do fundo da tumba e disse: Meu pai,
meu pai, que queres de mim? Pelo menos é o que contam os legendários. - Que fizeste do dinheiro
que nosso irmão te havia confiado? pergunta Espiridião. - Meu pai, enterrei-o em tal e tal lugar. O pai
cavou e encontrou o depósito intato. Evidentemente essa história é controvertida quanto aos detalhes,
mas pode ser verdadeira quanto ao fundo. Ninguém irá supor que a alma dos mortos, sobretudo a dos
justos, esteja enterrada na tumba para ali sentir a lenta corrupção da carne e das ossadas. Irene não
estava pois na terra. Que o santo homem tenha ido até o túmulo de sua filha para evocar lembranças
e obter por simpatia magnética uma intuição de segunda visão, não há nada nisso que nos pareça
impossível. Acreditamos na união íntima das almas santas que a morte não saberia separar. Deus
preenche a distância que separa o céu da terra e não a deixa vazia entre os corações. As lembranças
de Irene puderam pois comunicar-se com Espiridião; e, aliás, quem sabe se a santa filha não havia
outrora falado a seu pai desse depósito? Sua idade avançada e as inúmeras ocupações em seu
episcopado talvez o tivessem feito esquecer essa confidência. Não nos acontece freqüentemente de
admirar como sendo um pensamento novo o que já dissemos ou até mesmo escrevemos antes? Por
quantas reminiscências vagas não somos perseguidos, e quem poderá dizer qual o lugar que ocupam
as lembranças já apagadas nos devaneios de nossa vigília e nos sonhos de nosso sono?
Relacionaremos essa revelação de Irene a Espiridião, seu pai, com uma aventura mais recente e
menos conhecida. Trata-se de Sylvain Maréchal, um homem excêntrico do século XVIII que se
acreditava decididamente ateu. Sylvain Maréchal não admitia pois a existência de Deus, e, para ser
lógico, negava igualmente a imortalidade da alma; havia feito versos ruins para defender essa causa
má. Era, aliás, um homem honrado, amado por sua mulher e estimado por seus amigos. Quando lhe
falavam da morte, dizia geralmente que era o grande sono, e acrescentava sentenciosamente esse
dístico, um de seus pecados contra Apolo: Durmamos até o bom tempo, Dormiremos longo tempo.
Ele, que o progresso de seu século só havia conduzido ao ateísmo, duvidava um pouco do progresso
e não acreditava no que se vê, na chegada de um tempo melhor, o ateísmo sendo geralmente apenas
o desespero de uma crença desencorajada. As pessoas que não crêem na imortalidade da alma
morrem, ai! como as outras. Sylvain Maréchal viu chegar a hora do grande sono. Sua mulher e uma
amiga chamada Mme. Dufour velavam perto dele; a agonia havia começado. De repente, o moribundo,
como se lembrasse de alguma coisa, fez um grande esforço para falar, As duas senhoras inclinaramse
para perto dele... Então, com uma voz tão fraca que mal se ouvia, disse essas palavras: Há
quinze... e a voz expirou. Ele tentou retomar e murmurou mais uma vez: Quinze, mas foi impossível
compreender o resto. Seus lábios moviam-se novamente um pouco, e depois, dando um grande
suspiro, ele morreu. Na noite seguinte, Mme. Dufour, que acabava de se deitar, não havia ainda
apagado a lâmpada quando ouviu a porta abrir-se docemente. Colocou a mão diante da luz e
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observou. Sylvian Maréchal estava no meio do quarto, vestido como quando era vivo, nem mais triste
nem mais alegre. - Cara senhora, disse-lhe, vim lhe dizer o que não pude terminar ontem: há mil e
quinhentos francos em ouro escondidos numa gaveta secreta da minha escrivaninha; cuide para que
esta soma não caia em outras mãos que não as de minha mulher. Mme. Dufour, mais espantada do
que assustada com essa aparição pacífica, disse então à alma do outro mundo: - Bem, meu querido
ateu, acho que acreditas agora na imortalidade da alma. Sylvain Maréchal sorriu tristemente,
acenando ligeiramente a cabeça, e replicou apenas repetindo pela última vez seu dístico: Durmamos
até o bom tempo, Dormiremos longo tempo. Depois ele foi embora. O pavor, aí, tomou conta de Mme.
Dufour, o que prova que só então ela acordou completamente; precipitou-se para fora da cama, e
correu ao quarto da amiga, madame Maréchal, que, por sua vez, vinha vindo ao seu encontro, pálida e
sobressaltada. - Acabo de ver M. Maréchal, disseram ao mesmo tempo as duas mulheres; e contaram
uma para a outra os detalhes quase idênticos da visão que cada uma acabara de ter. Os mil e
quinhentos francos em ouro foram encontrados numa gaveta secreta da escrivaninha. Soubemos
dessa história através de uma amiga comum das duas senhoras, que ouviu delas essa narração várias
vezes. Nós acreditamos que seja verdadeira, mas achamos que as senhoras, quando viram o
fantasma, já estavam em estado de letargia. Preocupadas com as últimas palavras de Maréchal, elas
as ligaram, na lucidez própria, aos sonhos das pessoas aflitas, a mil pequenas circunstâncias que
conheciam sem darem conta, e que estavam gravadas em sua memória involuntária; o moribundo,
aliás, havia projetado sua vontade com força nessas duas almas simpáticas, o que ele queria lhes
dizer, ele lhes comunicou através da força. Elas o reviram, certamente, como se vê em sonho, com
seus hábitos de todos os dias e sua mania de recitar versos ruins; elas o viram como sempre se vêem
os mortos, numa espécie de espelho retrospectivo; elas o viram como um sonâmbulo o teria visto,
assim como o segredo de seu esconderijo e de seu ouro. Há aí um fenômeno notável de alucinação
coletiva e simultânea, com identidade de segunda visão; mas não há nada que possa provar alguma
coisa em favor das evocações e da volta dos mortos. Qualquer que seja o fantasma de Sylvain
Maréchal, sua incredulidade póstuma nos lembra um pensamento muito singular de Swedenborg. Diz
ele que sendo a fé uma graça que é necessário merecer, Deus nunca a impõe a ninguém, mesmo
após a morte. Também não é raro encontrar, no mundo dos espíritos, incrédulos que negam mais do
que nunca o que sempre negaram, e que escapam à evidência da imortalidade supondo que não
estão mortos, mas somente acometidos de alguma doença mental que mudou o lugar de suas
sensações. Vivem sempre como viveram na terra, só se lastimam por não mais verem o que viam, por
não mais ouvirem o que ouviam, por não mais saborearem o que saboreavam, por não mais
possuírem o que possuíam; vivem assim uma falsa existência, protestando contra a verdadeira vida, e
sempre iludidos em seus tédios pela esperança da morte. Essas imaginações do místico sueco são
tão engenhosas quanto espantosas, e bastariam para nos explicar, se não o sono leve de Irene em
seu túmulo de Tremithonte, pelo menos a dupla visita noturna de Sylvain Maréchal, no dia seguinte ao
da sua morte, por interesses materiais e mesquinhos, se, às suposições tiradas da imaginação dos
místicos, não preferíssemos mil vezes as simples hipóteses da ciência e da razão.
CAPÍTULO 5
Mistério das iniciações antigas - As evocações pelo sangue - Os ritos da teurgia - O cristianismo
inimigo do sangue. Os mistérios da loucura são os mistérios do sangue. São os movimentos
desregrados do sangue que perturbam a razão das pessoas excitadas, assim como produzem,
durante a noite, o desregramento dos sonhos. A loucura e certos vícios são hereditários porque
residem no sangue: o sangue é o grande agente simpático da vida; é o motor da imaginação, é o
substratum animado da luz magnética ou da luz astral polarizada nos seres vivos; é a primeira
encarnação do fluído universal, é a luz vital materializada. Ele é feito à imagem e à semelhança do
infinito; é uma substância negativa na qual nadam e se agitam milhares de glóbulos vivos e imantados,
glóbulos plenos de vida e completamente vermelhos dessa insaciável plenitude. Seu nascimento é a
maior de todas as maravilhas da natureza. Ele não vive senão para se transformar; é o Proteu
universal: ele sai dos princípios onde não estava contido, torna-se carne, ossos, cabelos, tecidos
particulares e delicados, unhas, suor, lágrimas. Ele não se alia nem à corrupção nem à morte: quando
a vida cessa, ele se decompõe; se conseguirmos reanimá-lo, refazê-lo por uma imantação nova de
seus glóbulos, a vida recomeçará. A substância universal, com seu duplo movimento, é o grande
arcano do ser; o sangue é o grande arcano da vida. Igualmente, todos os mistérios religiosos são
também mistérios do sangue. Não há cultos sem sacrifícios, e o sacrifício não sangrento só poderia
existir como transubstanciação de um sangue verdadeiro, sempre ardente, sempre falando, sempre
gritando, na sua virtude divinamente expiatória, tanto sobre o altar como sobre o Calvário. Os deuses
da antigüidade amavam o sangue, e os demônios tinham sede. É o que fez o conde Joseph de
Maistre pensar que o suplício castiga, que o cadafalso é um suplemento do altar, e que o algoz é um
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apêndice do sacerdote. É no vapor do sangue, diz Paracelso, que a imaginação recebe todos os
fantasmas que cria. As visões são o delírio do sangue: agente secreto das simpatias, ele propaga a
alucinação como um vírus sutil; quando ele se evapora, seu soro se dilata, seus glóbulos aumentam,
deformam-se e dão corpo às mais bizarras fantasias; quando sobe ao cérebro exaltado de Santo
Antônio ou de Santa Tereza, aparece-lhes realizando para eles quimeras mais estranhas que as de
Callot, de Salvator ou de Goya. Ninguém inventaria os monstros que sua superexcitação faz eclodir: é
o poeta dos sonhos; é o grande hierofante do delírio. Igualmente, tanto na antigüidade como na Idade
Média, evocavam-se os mortos pela efusão do sangue. Escavava-se uma fossa, derramavam-se nela
vinho, perfumes embriagantes e o sangue de uma ovelha negra; as horríveis feiticeiras da Tessália
juntavam ali o sangue de uma criança. Os hierofantes de Baal ou de Nisroch, numa exaltação furiosa,
faziam-se incisões por todo corpo e solicitavam aparições ou milagres aos vapores de seu próprio
sangue: então tudo começava a girar diante de seus olhos perturbados e doentes; a lua adquiria a cor
do sangue espalhado, e eles acreditavam vê-la cair do céu; em seguida começavam a sair da terra, a
esvoaçar, a se arrastar, coisas hediondas e informes: viam-se formar larvas e lêmures; rostos pálidos
e sórdidos como os velhos sudários, com barbas formadas pelo mofo da tumba, vinham inclinar-se
sobre a fossa e esticavam suas línguas secas para beber o sangue espalhado. O mago,
completamente debilitado e ferido, defendia-se contra eles com a espada até a aparição da forma
esperada e do oráculo. Era geralmente o último sonho do esgotamento, o paroxismo da demência;
então o evocador muitas vezes caía como que fulminado, e, se estava só, se não lhe era administrado
socorro imediato, se uma poderosa voz cordial não o chamasse à vida, no dia seguinte seria
encontrado morto, e diriam que os espíritos se tinham vingado. Os mistérios do velho mundo eram de
dois tipos. Os pequenos mistérios estavam ligados à iniciação do sacerdote; os grandes eram a
iniciação à grande obra sacerdotal, isto é, a teurgia. Teurgia, palavra terrível, palavra com sentido
duplo, quer dizer criação de Deus. Sim, na teurgia ensinava-se ao padre como deveria criar os deuses
à sua imagem e semelhança, tirando-os de sua própria carne e animando-os com seu próprio sangue.
Era a ciência das evocações pelo gládio e a teoria dos fantasmas sangrentos. É lá que o iniciado devia
matar o iniciador; é lá que Édipo tornou-se rei de Tebas matando Laio. Tentaremos explicar o que
essas expressões alegóricas têm de obscuro. O que já se pode entrever é que não havia iniciação aos
grandes mistérios sem efusão de sangue e sem efusão mesmo do sangue mais nobre e mais puro. É
na cripta dos grandes mistérios que Ninyas teve que vingar sobre sua própria mãe o assassínio de
Ninus. Os furores e os espectros de Orestes foram obra da teurgia. Os grandes mistérios eram a santa
vema da antigüidade, onde os franco-juízes do sacerdócio moldavam novos deuses com a cinza dos
velhos reis dissolvidas no sangue dos usurpadores ou dos assassinos. Seriam, portanto, eles próprios
assassinos, ou pelo menos algozes? Não, porque o direito ao sacrifício lhes era atribuído pelo
consentimento universal das nações. O sacerdote não assassina, não executa, ele sacrifica; e é por
isso que Moisés, nutrido pelo dogma dos grandes mistérios, escolheu por tribo sacerdotal aquela que
melhor soubera, segundo a própria expressão da Bíblia, consagrar suas mãos no sangue. Não eram
só Baal e Nisroch que pediam então vítimas humanas; o Deus dos judeus também tinha sede do
sangue dos reis, e Josué lhe oferecia hecatombes de monarcas vencidos. Jephté sacrificava sua filha;
Samuel cortava em pedaços o rei Agag sobre a pedra sagrada do Galgar. Moisés, como os antigos
iniciadores nos grandes mistérios, fora com Josué, seu sucessor, até as cavernas do monte Nébo, e
Josué voltara só. Nunca se encontrou o cadáver, porque, nos grandes mistérios, possuía-se o segredo
do fogo devorador. Nadab e Abiu, Coré e Abiron, Dathan sofreram a triste experiência. Quando Saul
foi rejeitado por Deus, isto é, condenado como usurpador do sacerdócio e profanador dos mistérios,
tornou-se joguete das alucinações, porque os grandes hierofontes possuíam o segredo dos
fantasmas. Foi então que Achitophel lhe aconselhou o massacre de todos os sacerdotes, como se
pudessem massacrar a todos. O sangue dos sacrificadores é uma semente de novos sacrifícios.
Fazeis o 2 de setembro, e a noite de São Bartolomeu está justificada. Acreditais punir Torquemada, e
preparais altas obras em Trestaillon. O padre que conduziu Luís XVI ao cadafalso, e que lhe disse
como a autoridade suprema do pontífice: "Filho de São Luís, subi ao céu!" parece realizar, só com a
Convenção pelo ministro subalterno, o grande sacrifício da Revolução. A própria vítima, caindo, revela
e consagra o padre. Colocarei sobre ti um signo, diz Adonai a Caim, para tornar-te inviolável e para
que ninguém ouse colocar a mão sobre ti. Abel foi a primeira vítima, Caim foi o primeiro sacerdote do
mundo. Abel no entanto exercera, antes de Caim, uma espécie de sacerdócio, e derramara primeiro o
sangue das criaturas de Deus. Ele oferecia ao Senhor, diz a Bíblia, as primícias de seu rebanho; Caim,
ao contrário, só presenteava Deus com frutas. Deus recusou as frutas e preferiu o sangue; mas não
tornou Abel inviolável, porque o sangue dos animais é antes a representação do que a realização do
verdadeiro sacrifício. Foi então que o ambicioso Caim consagrou suas mãos no sangue de Abel;
depois construiu cidades e fez reis, porque tornou-se soberano pontífice. Se, mais tarde, Judas
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Iscariotes fez penitência ao invés de suicidar-se, fez uma rude concorrência a São Pedro. São Pedro,
com efeito, era, depois de Judas apenas, o mais sangüinário dos apóstolos. Era só por isso que
merecia ser o primeiro papa? Longe de nós a idéia de uma sacrílega ironia! Revelamos a grande lei
sacerdotal e não insultamos, por isso, o papado. Queremos dizer que o sacrificador assume e resume
em si todos os crimes do povo e que ele é o primeiro a ser purificado pelo sangue todo-poderoso da
vítima. É isso, pelo menos, o que pensavam os hierofantes do velho mundo, quando, na cripta dos
grandes mistérios, vinham oferecer-se, a cabeça coberta por um véu, ao gládio de seus sucessores.
Édipo matara Laio sem conhecê-lo, e todos os grandes iniciados na ciência de Édipo expiavam por
sua vez a morte simbólica de Laio. É assim que, na Maçonaria, que guarda ainda em nossos dias a
tradição simbólica dos antigos mistérios, fala-se sempre em vingar a morte do fabuloso Hiram. O
homem que se sente infeliz sem ter a consciência de ser justo, sente-se facilmente punido por um erro
involuntário; acredita ter matado sua própria felicidade: a necessidade de expiação o faz sonhar com o
sacrifício, e é o sacrifício que faz os sacerdotes, ao consagrar o altar sanguinário dos deuses. Jesus, o
único iniciador que não matou ninguém, morre para a abolição dos sacrifícios sangrentos. É então
maior que todos os pontífices; e que seria ele, então, se não fosse Deus? Ele se fez Deus no Calvário,
mas seus discípulos, renegando-o e o vendendo, fizeram-se sacerdotes e continuaram o velho mundo,
que durará enquanto o sacerdote tiver necessidade de viver do altar, isto é, de comer a carne das
vítimas. E há pretensos sábios que vos dizem que o cristianismo está expirando e que o mundo de
Jesus Cristo está morrendo! É o velho mundo que está morrendo, é a idolatria que está morrendo. O
Evangelho foi apenas anunciado; não reinou sobre a terra. A catolicidade, isto é, a universalidade de
uma só religião, é ainda apenas um princípio que muitas pessoas encaram como uma utopia. Mas os
princípios não são utopias; são mais fortes que os povos e os reis, mais duráveis que os impérios,
mais estáveis que os mundos. O céu e a terra podem passar, diz o Cristo; minhas palavras não
passarão. Lemos nos Atos dos apóstolos que São Pedro teve uma visão. Ele viu uma grande toalha
coberta de animais puros e impuros, e uma voz lhe dizia: Mate e coma! Assim revelou-se pela primeira
vez o mistério do papado temporal. Desde então os soberanos pontífices acreditaram poder matar
para comer. Jesus Cristo jejuava e não matava; até mesmo dissera a São Pedro: Guarda tua espada
na bainha, porque aquele que fere pela espada perecerá pela espada. Mas aí está uma das parábolas
que não poderiam ser compreendidas antes da vinda do espírito de inteligência e de amor que, como
se vê, não estabeleceu ainda seu reino definitivo neste mundo. Os soberanos pontífices dos antigos
cultos eram todos portanto sacrificadores de homens, e todos os deuses do sacerdócio amaram a
carne e o sangue. Moloch só difere de Jehovah pela falta de ortodoxia, e o Deus de Jephté tinha
mistérios semelhantes aos de Belus. Os monges da Idade Média tiravam regularmente seu próprio
sangue, como os sacerdotes de Baal; pois a abstinência perpétua, essa divindade estéril, é um ídolo
que quer sangue: a força vital que se quer subtrair à natureza, deve-se derramá-la sobre o altar da
morte. Dissemos que o sangue é o pai dos fantasmas e é pelos fantasmas do sangue que os
sacerdotes de Babel e de Argos perpetuam a razão de Ninyas e de Orestes. Semíramis e Clitemnestra
tinham sido destinadas aos deuses infernais; e suas lendas se parecem tanto, que se poderia acreditar
que fossem calcadas uma sobre a outra. Ninus era o rei dos sacerdotes; Semíramis quis ser a rainha
dos povos, e garantiu para si, por um crime, a posse da coroa de Ninus. O mundo político não tinha
então tribunal que pudesse julgar essa mulher, tanto ela se justificava por grandes coisas. Ela
semeava o mundo de prodígios. Os que a invejavam agitavam contra ela as multidões: ela vinha só e
as revoltas se apaziguavam. Mas ela tinha um filho que os sacerdotes guardavam como refém: Ninyas
era iniciado nos grandes mistérios; jurou vingar Ninus, cujo assassino ainda não conhecia. Semíramis,
por seu lado, era obcecada por fantasmas e remorsos. Nela, a mulher superava secretamente a
rainha, e freqüentemente descia só à necrópole para chorar e se comover sobre as cinzas de Ninus.
Foi lá que encontrou Ninyas, levado pelos hierofantes: entre o filho e a mãe ergue-se o espectro do rei
assassinado. Semíramis estava coberta por um véu; o fantasma manda bater. O jovem iniciado se
adianta: Semíramis solta um grito e levanta o véu; reconheceu Ninyas: Não, tu não és mais Ninyas, diz
o espectro, tu és eu mesmo, tu és Ninus saído da tumba! E pareceu absorver o jovem nele mesmo e
se confundir com ele de tal modo, que a rainha viu diante dela apenas o espectro de Ninus, pálido e
com o gládio sagrado na mão. Ela então tirou o véu da cabeça e mostrou seu flanco, como faria mais
tarde Agripina. Quando Ninyas voltou a si, estava coberto com o sangue de sua mãe: Fui eu quem a
matou? gritou alucinado. - Não, respondeu Semíramis beijando-o pela última vez, somos duas vítimas;
e o sacrificador, não és tu: eu morri assassinada pelo grande sacerdote de Belus! Assim eram os
sacerdotes da Babilônia, assim foram os de Micenas e de Argos: Calchas pede o sangue de Efigênia;
Clitemnestra amaldiçoa os sacerdotes e vinga sua filha matando Agamenon; Orestes, levado pelos
oráculos, mata sua mãe e vai procurar até o fundo da Chersoneso Taurico o ídolo sangrento da Diana
vingadora. Por que ficamos espantados com esses atentados contra a família, se, séculos mais tarde
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e em pleno cristianismo, vemos um sacerdote romano, o terrível Jerônimo, escrever a seu discípulo
Heliodoro: "Se teu pai se deita na soleira da porta, se tua mãe descobre a teus olhos o seio que te
amamentou, pisoteia o corpo de teu pai, pisa no seio de tua mãe e, com os olhos secos, acode ao
Senhor que te chama!" Tais são os sacrifícios da carne e do sangue que consomem a grande obra da
teurgia. O Deus pelo qual se pisou no seio da mãe deve ser visto daqui por diante com o inferno sob
os pés e o gládio exterminador na mão. Ele perseguirá o asceta com remorso, saboreará na solidão os
terrores do inferno e os desesperos do pensamento. Meloch só queimava crianças durante alguns
segundos; pertencia aos discípulos do Deus que morre para livrar o mundo de criar um Moloch novo
cujo fogo é eterno! Renan, cuja desastrosa obra não gostaríamos de ter escrito, ali colocou entretanto
uma boa palavra, que compensa, a nossos olhos, muitos defeitos. É esta a palavra: "Ninguém foi
menos sacerdote do que Jesus." Ressaltemos, todavia, que se trata do sacerdote da antigüidade, que
ainda se encontra, infelizmente, nos tempos modernos. São Jerônimo era, sem o saber, um hierofante
dos grandes mistérios; São Vicente de Paula é o tipo do novo sacerdote, do verdadeiro sacerdote
cristão, essa reencarnação perpétua de Jesus Cristo. A IGREJA TEM HORROR DO SANGUE. Nesta
máxima indelével resume-se todo o espírito do cristianismo. A Igreja tem horror do sangue e repele
para longe de seu seio todos aqueles que gostam de derramá-lo. O sacerdote cristão não pode
exercer as funções de acusador público, ou de juiz, sem se tornar irregular, isto é, incapaz de exercer
as funções santas. Assim, pois, os inquisidores mortos não eram sacerdotes cristãos, eram
sacrificadores do velho mundo que mentiam ao cristianismo. Um papa não pode condenar ninguém à
morte. O bom pastor dá sua vida por suas ovelhas, mas não sabe degolá-las. Um papa não saberia
fazer a guerra. Quando Júlio II fazia-se de surdo, não mais agia como papa, era ainda um tirano do
Baixo Império. O bom Pio IX, que, segundo se diz, tem visões, deve estar obcecado pelos espectros
de Perouse e de Castelfidardo; então deve ter horror de suas próprias mãos, ele que é o chefe
supremo da Igreja, porque a Igreja tem horror do sangue. Sacrificar os outros por si, eis o velho
mundo, o mundo de Júpiter e de Saturno, o mundo dos Césares e dos presságios. Sacrificar-se pelos
outros, eis o mundo novo, o mundo do Cristo, o mundo do futuro. Matar para viver, eis a grande
fatalidade dos grandes mistérios. Morrer para que os outros vivam, eis o direito divino e a liberdade da
iniciação humana ao triunfo da razão. A divindade e a humanidade estão estreitamente unidas em
Jesus Cristo, e quem bate em uma fere a outra. Juízes da terra, atentai para isso: todo homem daqui
por diante pertence a Cristo; ele pagou com seu sangue inocente toda a humanidade culpada. Todo
culpado é chamado a se arrepender, e todo homem que pode ainda arrepender-se deve ser sagrado
como Caim. Sabeis por que Deus guardava tão preciosamente o sangue de Caim? É que cada gota
desse sangue valia por uma gota de sangue redentor, e, para que o resgate fosse eficaz, era preciso
que nem uma única parcela da coisa resgatável se extraviasse. O sangue de Abel protestava contra
Deus, diz a Bíblia. Quem pois podia fazê-lo calar? Para abafar essa voz era preciso uma voz mais
possante, a de Jesus Cristo. O sangue de Abel pedia justiça: Abel era apenas um homem e o sangue
de Jesus tinha apenas a força suficiente para gritar que a justiça, para Deus, é o perdão. Quem pois
poderia dizer-lhe isto? Jesus Cristo sabia-o apenas para dizer ao mundo, e, se o sabia, é porque era
Deus! Também somente ele poderia abolir o sacerdócio de sangue e instituir o sacerdócio do sacrifício
voluntário. Foi o que fez, foi o que os mártires compreenderam, foi o que os santos como Vicente de
Paula experimentaram, não em vão, mas ainda de modo tão difícil na terra, e ousais dizer que o
cristianismo está morrendo! Eu vos pergunto se ele chegou ao mundo de outra forma senão como
uma palavra incompreendida e um prodígio contestado. Eu vos pergunto se o sangue de Abel deixou
de correr e se o sacerdócio escapou definitivamente das mãos sangrentas dos filhos de Caim. Diz-se
que todos os anos, em Nápoles, o sangue do mártir Januário se liqüefaz e borbulha, como se ele não
pudesse descansar; diz-se que em muitos lugares da França o vinho dos cálices torna-se sangue e
que as hóstias consagradas tingem-se de um suor semelhante ao da agonia no Jardim das Oliveiras.
É que os mártires são solidários uns com os outros; é que o sangue não expiado protesta contra as
efusões do sangue novo. O sangue de São Januário protesta contra a inquisição ainda viva no triste
cérebro dos Gaume e dos Veuillot. O vinho da Eucaristia torna-se sangue para impedir os indignos
sacerdotes de bebê-lo e as hóstias se injetam de nuances da morte, como se Cristo desanimado
renunciasse a transubstanciação e se tornasse um cadáver. Quando o Cristo torna-se um cadáver, é
porque se prepara para ressuscitar, e acreditamos que a ressurreição do cristianismo está próxima;
mas não é isso que temos a comprovar aqui. Permaneçamos no nosso tema e constatemos apenas
que o reino dos deuses de sangue terminou. Não mais derramemos pois o sangue, não mais o
agitemos, mesmo para fazer sair deuses. Deixemos em paz os mortos, porque os oráculos do sangue
derramado são irmãos dos oráculos da tumba. A mesa gira porque o sangue se agita; deixai o sangue
acalmar-se e os pretensos espíritos calar-se-ão. Sim, espíritas, os espíritos que falam nas mesas são
espíritos de vosso sangue. Vós vos esgotais para animar a madeira, como os sacerdotes do México,


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