pontífices de todos os cultos passados vieram, após o sacrificador da associação universal, dar o beijo
de paz na barba branca do maldito reconciliado. Depois, todos, em pé ao redor da mesa, comungaram
com ele. Aaswerus então sentiu-se viver uma vida nova, pareceu-lhe que era o próprio Cristo e que,
dividindo ele mesmo os pães que se multiplicariam sobre a Mesa santa, ele os distribuiria à multidão.
Assim acabou o sonho do Judeu Errante; um barulho de armas e de gritos de angústia o acordou:
eram os salteadores das nações que dividiam entre si a cidade santa. Ele saiu do palácio dos papas
que oscilava sobre os túmulos entreabertos e voltou a caminhar para continuar a volta ao mundo que,
talvez brevemente, ele não mais recomeçará. Não o lastimeis, vós todos que o encontrareis curvado,
ofegante e poeirento; ele é mais feliz que todos os grandes políticos de nosso século e que os últimos
reis desse mundo; ele sabe para onde vai.
VIGÉSIMA LENDA
O reino do Messias. Quando o espírito de inteligência se espalhar sobre a terra, virá um tempo em que
o espírito do Evangelho será a luz das nações. Compreender-se-á que o princípio do poder é a
soberana razão, como está dito no início, por tanto tempo mal compreendido, do Evangelho segundo
São João. Então Cristo renascerá todos os dias, não mais simbolicamente nos altares, mas realmente
e corporalmente em toda a superfície da Terra. Ele não disse que o menor entre nós é ele? Assim,
então, o nascimento de cada criança será um Natal, e todos os homens respeitarão o Salvador uns
nos outros. Cristo não mais será apenas pobre, faminto, proscrito, sem mulher e sem filhos,
perseguido e crucificado; será rico como Jó após sua provação, estará na abundância de todas as
coisas, será esposo, será pai, reinará e perdoará soberanamente aqueles que o tiverem perseguido.
Porque, um dia, todas as nações serão apenas uma nação, todos os tronos serão submetidos a um só
trono e sobre esse trono sentar-se-á um justo que terá o espírito de Jesus Cristo e que será assim o
próprio Jesus Cristo, como nós todos podemos ser ele quando ele está em nós. Esse rei reconciliará o
Oriente com o Ocidente e o Norte com o Sul. Ele dará aos povos a verdadeira liberdade porque
tornará inabaláveis as bases da justiça.
Reprimindo a libertinagem ele suprimirá a miséria. Todos terão o direito e os meios de fazer o bem;
ninguém terá o direito de se embrutecer e de ser vicioso. A penalidade será substituída pela higiene
moral, os culpados serão vistos como doentes e submetidos ao tratamento dos alienados. A grande
expiação da Cruz é suficiente para todas as ofensas humanas e suprimirá um dia o cadafalso,
execrável desde que inútil. Não mais se permitirá a existência real do erro, porque somente a verdade
existe e a mentira é fugidia como o sonho. Não haverá, pois, mais do que uma religião no mundo e o
pontífice universal declarará, do alto da suprema autoridade, que os judeus, os maometanos, os
budistas, etc., são cristãos mal instruídos, dos quais ele é chefe e pai. Ele os abençoará e os
convocará ao grande concílio das nações. Ele lhes abrirá o tesouro inesgotável das indulgências e das
preces e dará realmente e em verdade sua benção à cidade e ao mundo. Será então a época da volta
do filho pródigo; ele não tem mais nada, mas seu irmão lhe emprestará e ele trabalhará para
reconquistar sua riqueza. Será a hora em que as virgens loucas, tendo enfim o óleo em suas
lâmpadas, voltarão a bater na porta, e se o esposo se recusar a abrir, as virgens sábias lhes
estenderão a mão e as farão entrar pela janela; porque a última palavra do cristianismo é
solidariedade, reversibilidade, caridade universal; e em verdade vos digo que não há um santo no céu
que não esteja pronto a descer ao inferno para livrar dele as pobres almas, mesmo que seja preciso lá
ficar só, em lugar delas, e fechar para sempre as portas sobre ele. Concebeis um céu sobreposto a um
inferno? Um banquete eterno em frente a uma eterna fogueira, uma casa de paz e de preces sobre um
porão cheio de soluços e de torturas? Um sonho apenas deve preencher o sono eterno de cada justo:
a libertação de um condenado; e se este sonho fosse sem esperança, tornar-se-ia um pesadelo mais
terrível que os próprios suplícios do inferno. É dessa forma que os gnósticos, isto é, aqueles que
sabiam, em outros termos, os iniciados do cristianismo primitivo, interpretavam os oráculos dados pelo
espírito de Jesus Cristo; eles foram seguidos pelos discípulos de Orígenes, mas a Igreja os condenou,
e tinha razão em condená-los, porque divulgavam as doutrinas secretas e profanavam os mistérios do
Mestre. Não se deve, exagerando a esperança do vulgo, suprimir da lei a sua sanção terrível, e o
dogma da eternidade do inferno só exprime, afinal, o divórcio eterno entre o bem e o mal. Os apócrifos
são o lado revolucionário do espírito de Jesus; seu lado hierárquico, edificante e constituinte, pertence
de direito à Igreja docente, da qual não nos cabe usurpar as funções. Em continuação a essas lendas
tão singelamente orientais, poderíamos apresentar as narrações, evidentemente simbólicas, da lenda
dourada, os atos apócrifos dos apóstolos, a história do gigante Cristóforo dobrado em dois sob o peso
misterioso de um menino, o martírio de santa Fé, de santa Esperança e de santa Caridade, e tantas
outras inspiradas pelo mesmo espírito e todas brilhantes, com as mesmas cores maravilhosas. Um
sopro de inspiração nova passara sobre o mundo e esse sopro era o de Jesus Cristo. O que distingue
os evangelhos apócrifos dos evangelhos canônicos é, talvez, a maior audácia nas suas ficções e a
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menor prudência na indicação das tendências revolucionárias e radicais; mas está em toda parte o
mesmo gênio emancipador do pobre, protetor do fraco, a mesma ternura maternal pelos órfãos da
sociedade, a mesma fé, humana porque é divina e divina porque é humana. As histórias maravilhosas
variam porque a forma da parábola é arbitrária. É somente o espírito que vivifica. Essas histórias,
aliás, são essencialmente judaicas e podemos compará-las com os apólogos do Talmude; podemos
acusá-las de misticismo e idealismo exagerados; mas que sonhos magníficos, quando os tomamos
somente por sonhos! São fotografias de aspirações coletivas; são as parábolas póstumas de Jesus
inteiramente reavivadas em seus discípulos; são os oráculos, não são mesas giratórias, mas mesas
eucarísticas, e eis como os espíritos divinos falam após sua morte, se é que podem morrer. Mas não,
os grandes pensamentos não morrem e não têm necessidade, para serem transmitidos, de bater
contra as paredes. Eles movem as almas e não os móveis, eles batem nos corações e não nas pedras
ou nas tábuas; eles são como árvores que lançam a semente e reproduzem florestas. Em vão, quer-se
escravizá-los e circunscrevê-los; eles têm uma energia que faz rebentar as barreiras e que destrói as
prisões; correm como o incêndio em madeira morta. Não mais procureis Jesus no túmulo onde os
padres o haviam colocado; ele ressuscitou; ele não está mais aqui, não procureis o vivo entre os
mortos! O que querem de nós pois essas larvas e esses vampiros que, nos círculos de pretensos
espíritos, procuram diminuir o Homem-Deus! Que faremos de um Jesus sem divindade e sem
milagres? Não são seus maiores milagres aqueles de seu espírito? Quereis escrever sua história?
Escrevei a história do mundo transfigurada por seu gênio. Sua vida é sua doutrina e sua doutrina
ainda vive. Eu vos dou um Jesus de mármore, disse Renan. E daí! O que temos a ver com teu
mármore? temos um Jesus de espírito e de carne, seu espírito está em todo lugar. Sua carne palpita
no peito inocente de nossos filhos, seu sangue aquece e rejuvenesce o coração de nossos velhos.
Filósofo de mármore, guarda tua estátua sem alma e deixa-nos nosso Homem-Deus! Alfredo de Vigny
escreveu que a lenda é, muitas vezes, mais verdadeira que a história, porque a lenda conta, não os
atos freqüentemente incompletos e abortados, mas o próprio gênio dos grandes homens e das
nações. É sobretudo ao Evangelho que se deve referir esse belo pensamento. O Evangelho não é
simplesmente a narração do que aconteceu, é a revelação sublime do que é e do que será sempre.
Sempre o Salvador do mundo será adorado pelos reis da inteligência, representados pelos magos;
sempre multiplicará o pão eucarístico para nutrir e consolar as almas; sempre, quando o invocarmos
na noite e nas tempestades, ele virá a nós caminhando sobre as ondas, ele nos estenderá a mão e
nos salvará ao fazer-nos passar sobre as ondas; sempre curará nossas apatias e devolverá a luz a
nossos olhos; sempre aparecerá a seus crentes luminoso e transfigurado sobre o thabor, explicando a
lei de Moisés e regulando o zelo de Elias. Os milagres do Eterno são eternos. Admitir o simbolismo
das maravilhas do Evangelho é ampliar a luz, é proclamar a sua universalidade e duração. Não, esses
acontecimentos não constituem passado, tal como nos dizem; eles jamais passarão, eles ficam
eternamente. As coisas que passam são acidentes que passam, as coisas que o gênio divino revela
pelo simbolismo são imutáveis verdades. Lede os Padres dos primeiros séculos, passai as grandes
épocas do cristianismo, escutai Santo Agostinho aspirando ao infinito e São Jerônimo sonhando com o
céu, sob o barulho do império romano que desaba; escutai clamar a eloqüência de São João
Crisóstomo e de Santo Ambrósio, em seguida descei às divagações espirituais de Home ou às
elocubrações panteísticas de Allan Kardec; vós sorrireis de piedade e de desgosto. E então, a morte
seria uma amarga decepção! As realidades da outra vida seriam a irrisão de nossas aspirações nesta
vida! O verdadeiro paraíso seria menos resplandecente que o de Dante e o verdadeiro inferno menos
terrível que seu inferno! Ora, os espíritos desencarnados passeariam como os de Swedenborg, com
chapéus na cabeça, e viriam importunar os vivos para lhes fazer escrever misérias! Mas então não
vedes que o inferno da Idade Média com seus horrores surpreendentes seria preferível a esta ridícula
decadência das almas! Que Deus me torture, se é que existe um deus capaz de me torturar, mas que
ele não me torne idiota. Amaria mais o diabo e seus chifres do que as casas de Victorien Sardou
construídas em claves de sol e em traços de letras finas e mal feitas, e que essas flores ideais abertas
sob o lápis dos Médiuns e que parecem pústulas de lepra vistas ao microscópio. Despertai, pobres
espíritos, não sentis pois que estais tendo um pesadelo?
Segunda parte
ESPÍRITOS HIPOTÉTICOS
ou Teorias dos cabalistas sobre os anjos, os demônios e as almas dos mortos. Sobre as coisas que
nossa ciência nesta vida não conseguiria alcançar só se pode raciocinar por hipóteses. A humanidade
não pode saber nada de sobre-humano, visto que o sobre-humano é o que ultrapassa o alcance do
homem; os fenômenos de decomposição que acompanham a morte parecem protestar em nome da
ciência contra essa necessidade inata de crer numa outra vida que gerou tantos sonhos. A ciência,
todavia, deve dar-se conta dessa necessidade, porque a natureza, que não faz nada de inútil, não dá
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aos seres necessidades que não devam ser satisfeitas. A ciência pois, forçada a ignorar, deve supor
pelo menos a existência de coisas que não conhece, e não poderia colocar em dúvida a continuação
da vida após o fenômeno da morte, visto que nada se nota de bruscamente interrompido na grande
obra da natureza, que, segundo a filosofia de Hermes, jamais opera por sobressaltos. As coisas que
estão além dessa vida podem ser vistas de duas maneiras, ou pelos cálculos da analogia, ou pelas
intuições do êxtase; em outros termos, pela razão ou pela loucura. Os sábios da Judéia escolheram a
razão e nos deixaram nos livros, geralmente ignorados, suas magníficas hipóteses. Lendo-os
compreendemos inicialmente que nossas crenças saíram deles como fragmentos inexplicáveis e que o
absurdo aparente de nossos dogmas desaparece quando os contemplamos pelas grandes razões
desses velhos mestres. Admiramo-nos também por encontrarmos ali realizadas e completadas
filosoficamente todas as mais belas e grandiosas aspirações de nossa poesia moderna. Goethe
estudou a Cabala, e a epopéia de Fausto é extraída das doutrinas do Zohar. Swedenborg, Saint
Simon e Fourier parecem ter visto a divina síntese cabalística através das sombras e alucinações de
um pesadelo mais ou menos estranho, segundo os diferentes caracteres desses sonhos. Esta síntese
é, na realidade, o que o pensamento humano pode abordar de mais completo e de mais belo. Os livros
que tratam dos espíritos segundo os cabalistas são a Pneumatica Kabbalistica que se encontra na
Kabbala denudata do barão de Rosenroth, o Liber de revolutionibus animarum por Isaac de Loria, o
Sepher Druschim, o livro de Mosché de Corduero e alguns outros menos célebres. Apresentamos aqui
não somente o resumo, mas de alguma forma a quintessência. Juntamos aqui os trinta e oito dogmas
cabalísticos, tal como os encontramos na coleção dos cabalistas publicada por Pistorius. Esses
dogmas resumem quase toda a ciência, e se não nos contentamos em acrescentar aí uma rápida
explicação é porque em nossas obras precedentes desenvolvemos a ciência da qual esses dogmas
são a expressão.
CAPÍTULO 1
Unidade e solidariedade dos espíritos. Segundo os cabalistas, Deus cria eternamente o grande Adão,
o homem universal e completo, que encerra em um só espírito todos os espíritos e todas as almas. Os
espíritos vivem pois duas vidas ao mesmo tempo, uma geral, que é comum a todos, e a outra especial
e particular. A solidariedade e a reversibilidade entre os espíritos faz com que vivam realmente uns
nos outros, todos iluminados das luzes de um só, afligidos todos por causa das trevas de um só. O
grande Adão era representado pela árvore da vida; estendese em cima e embaixo da terra em galhos
e raízes; o tronco é a humanidade, as diversas raças são os galhos e os indivíduos inumeráveis são
as folhas. Cada folha tem sua forma, sua vida particular e sua parte de seiva, mas só vive através do
galho, como o próprio galho só vive através do tronco. Os maus são as folhas secas e as cascas
mortas da árvore. Elas caem, apodrecem e se transformam em estrume que retorna à árvore pelas
raízes. Os cabalistas comparam ainda os maus ou os condenados às excreções do grande corpo da
humanidade. Essas excreções servem de adubo à terra que dá frutos para alimentar o corpo; assim a
morte retorna sempre à vida e o próprio mal serve de renovação e de alimento para o bem. A morte,
assim, não existe e o homem não sai jamais da vida universal. Aqueles que chamamos de mortos
vivem ainda em nós e nós vivemos neles; eles estão sobre a terra porque nós aqui estamos, e nós
estamos no céu porque eles lá estão, Quanto mais vivemos nos outros, menos devemos temer a
morte. Nossa vida após a morte, prolonga-se na terra naqueles que amamos, e servimo-nos do céu
para lhes dar a serenidade e a paz. A comunhão dos espíritos do céu na terra, e da terra no céu, fazse
naturalmente, sem perturbação e sem prodígios; a inteligência universal é como a luz do sol que
repousa ao mesmo tempo sobre todos os astros e que os astros refletem para iluminar uns aos outros
durante a noite. Os santos e os anjos não necessitam de palavras nem de sons para se fazer ouvir;
eles pensam em nosso pensamento e amam em nosso coração.O bem que não tiveram tempo de
concluir eles o sugerem e nós o fazemos por eles, eles o desfrutam em nós, e repartimos com eles a
recompensa, porque a recompensa do espírito se engrandece quando a dividimos, e o que damos ao
outro multiplica-se em nós mesmos. Os santos sofrem e trabalham em nós e só serão felizes quando a
humanidade inteira for feliz, visto que fazem parte da indivisibilidade humana. A humanidade tem no
céu uma cabeça que resplandece e que sorri, na terra um corpo que trabalha e que sofre, e no inferno,
que para nossos sábios não é senão um purgatório, pés que estão acorrentados e que queimam. Ora,
a cabeça de um corpo cujos pés queimam só pode sorrir à força de coragem, resignação e esperança;
a cabeça não pode estar alegre quando os pés queimam. Somos todos membros de um só corpo e o
homem que procura suplantar e destruir outro homem é como a mão direita que, por inveja, procuraria
cortar a mão esquerda. Aquele que mata, se mata, aquele que injuria, se injuria, aquele que rouba, se
rouba, aquele que fere, se fere, porque os outros estão em nós e nós estamos neles. Os ricos se
enfadam, odeiam-se uns aos outros e se desgostam da vida; sua própria riqueza os tortura e os abate
porque há pobres que carecem de pão. Os aborrecimentos dos ricos são as angústias dos pobres que
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sofrem neles. Deus exerce justiça por intermédio da natureza e misericórdia pela intervenção de seus
eleitos. Se puseres tua mão no fogo, a natureza te queimará sem piedade; mas um homem caridoso
poderá tratar e curar tua queimadura. A lei é inflexível, mas a caridade é sem limites. A lei condena,
mas a caridade perdoa. Por si mesmo, o inferno nunca rende sua presa, mas pode-se lançar uma
corda àquele que se deixou cair.
CAPÍTULO 2
A transição dos espíritos ou o mistério da morte. Quando o homem adormece em seu último sono, cai
primeiramente numa espécie de sonho, antes de acordar do outro lado da vida. Cada um vê então,
numa bonita fantasia ou num terrível pesadelo, o paraíso ou o inferno nos quais acreditou durante sua
existência mortal.
É por esse motivo que muitas vezes a alma atemorizada se lança violentamente na vida que ela acaba
de deixar e que mortos, bem mortos quando os sepultamos, acordam vivos sob o túmulo. A alma
então, não mais ousando morrer, consome-se em esforços inúteis para conservar a vida leguminosa,
por assim dizer, de seu cadáver. Ela aspira durante seu sono o vigor fluídico dos vivos e o transmite
ao corpo enterrado cujos cabelos crescem como uma erva daninha e cujo sangue vermelho colore os
lábios. Esses mortos tornam-se vampiros; vivem conservados por uma doença póstuma que tem sua
crise, como as outras, e que termina por convulsões horríveis durante as quais o vampiro, procurando
destruir a si próprio, devora os braços e as mãos. As pessoas sujeitas a pesadelos podem fazer uma
idéia do horror das visões infernais. Essas visões são o castigo de uma crença atroz e perseguem
sobretudo as crenças supersticiosas e os ascetas fanáticos: a imaginação está povoada de
atormentadores, e esses monstros, no delírio que se segue à morte, aparecem à alma com uma
espantosa realidade, cercando-a, atacando-a e dilacerando-a procurando devorá-la. O sábio, ao
contrário, é acolhido por visões felizes, acredita ver seus amigos de outrora virem a seu encontro e lhe
sorrirem. Mas tudo isso, dissemos, é apenas um sonho, e a alma não tarda a acordar. Então ela
mudou de meio, está acima da atmosfera que se solidificou sob os pés de seu envoltório, agora mais
leve. Este envoltório é mais ou menos pesado; há os que não conseguem se erguer de seu novo solo;
há outros que, ao contrário, sobem e pairam livremente no espaço, como águias. Mas os liames de
simpatia os ligam sempre à terra na qual viveram e sobre a qual se sentem viver mais do que nunca,
porque estando destruído o corpo que os separava, têm consciência da vida universal e participam
das alegrias e dos sofrimentos de todos os homens. Eles vêem Deus como ele é, isto é, presente em
toda parte na precisão infinita das leis da Natureza, na justiça que triunfa sempre através de tudo o
que acontece, e na caridade infinita que é a comunhão dos eleitos. Eles sofrem, dissemos, mas têm
esperança porque amam e estão felizes por sofrer. Eles saboreiam pacificamente a doce amargura do
sacrifício e são os membros gloriosos, mas que sangram sempre, da grande vítima eterna. Os
espíritos criados à imagem e semelhança de Deus são criaturas como ele, mas, como ele, só podem
criar suas imagens. As vontades audaciosas e desregradas produzem larvas e fantasmas, a
imaginação tem o poder de formar coagulações aéreas e eletromagnéticas que refletem num instante
os pensamentos e sobretudo os erros do homem ou do círculo dos homens que os coloca no mundo.
Essas criações de abortos excêntricos esgotam a razão e a vida daqueles que os fazem nascer, e têm
por característica geral a estupidez e o malefício, porque são os tristes frutos da vontade desregrada.
Aqueles que não cultivaram sua inteligência durante sua existência ficam, após a morte, num estado
de torpor e de estupor cheio de angústias e de inquietude; têm dificuldade em retomar a consciência
de si mesmos, estão no vazio e na noite, não podem nem subir, nem descer, e são incapazes de se
corresponder seja com o céu, seja com a terra. São tirados pouco a pouco desse estado pelos eleitos
que os instruem, os consolam e os esclarecem; depois conseguem ser admitidos para novas
provações cuja natureza nos é desconhecida, porque é impossível que o mesmo homem renasça
duas vezes na mesma terra. Uma folha de árvore, depois que cai, não se liga mais ao galho. A lagarta
torna-se borboleta, mas a borboleta nunca uma lagarta. A natureza fecha as portas atrás de tudo o
que passa e impele a vida para adiante. O mesmo pedaço de pão não poderia ser comido e digerido
duas vezes. As formas passam, o pensamento fica e não mais retorna o que se usou uma vez.
CAPÍTULO 3
Da hierarquia e da classificação dos espíritos. Existem espíritos elevados, espíritos inferiores e
existem também espíritos medíocres. Entre os espíritos elevados podem-se distinguir também os mais
elevados, os menos elevados e aqueles que ficam entre os dois. A mesma distinção pode ser feita em
relação aos espíritos medíocres e aos espíritos inferiores. Assim temos três classes e nove categorias
de espíritos. Essa hierarquia natural dos homens levou a supor, por analogia, as três classes e as
nove ordens dos anjos, e depois, por inversão, os três círculos e os nove degraus do inferno. Eis o que
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lemos em uma antiga Clavícula de Salomão, traduzida pela primeira vez do hebreu: "Eu te darei agora
a chave do reino dos espíritos. Esta chave é a mesma que a dos números misteriosos de Yetsirah. Os
espíritos são regidos pela hierarquia natural e universal das coisas. Três comandam três, por meio de
três. Existem os espíritos do alto, os de baixo e os do meio; em seguida, se voltares à escada santa,
se escavares ao invés de subir, encontrarás a contra-hierarquia das cascas ou dos espíritos mortos.
Sabe somente que os principados do céu, as virtudes e as potências não são pessoas, mas
dignidades. São os degraus da escada santa ao longo da qual sobem e descem os espíritos. Miguel,
Gabriel, Rafael e os outros não são nomes, mas títulos. O primeiro dos números é um.A primeira das
concepções divinas denominada Sefirote é Kethev ou a coroa.
A primeira categoria dos espíritos é a de Haioth Haccadosch ou as inteligências do tetragrama divino
cujas letras estão representadas na profecia de Ezequiel por animais misteriosos.
Seu império é o da unidade e da síntese.
Eles correspondem à inteligência.
Eles têm por adversários os Thamiel ou bicéfalos, demônios da revolta e da anarquia cujos dois
chefes, sempre em guerra um com o outro, são Satã e Moloch.
O segundo número é dois, a segunda Sefira é Chocmah ou a sabedoria.
Os espíritos de sabedoria são os Ophanim, nome que significa as rodas, porque tudo funciona no céu
como imensas rodas semeadas de estrelas. Seu império é o da harmonia. Eles correspondem à razão.
Eles têm por adversários os Chaigidel ou as cascas que se prendem às aparências materiais e
ilusórias. Seu chefe, ou antes, seu guia, porque os maus espíritos não obedecem a ninguém, é
Belzebu, cujo nome significa o Deus das moscas, porque as moscas abundam sobre os cadáveres em
putrefação.
O terceiro número é três.
A terceira Sefira é BINAH ou a inteligência.
Os espíritos de Binah são os Aralim ou os fortes.
Seu império é a criação das idéias; correspondem à atividade e à energia do pensamento.
Eles têm por adversários os Satariel ou veladores, demônios do absurdo, da inércia intelectual e do
mistério.
O chefe dos Satariel é Lucifuge, chamado, erroneamente e por antífrase, de Lúcifer, assim como
Eumênides, que são as fúrias, são denominadas em grego as Graciosas.
O quarto número é quatro; a quarta Sefira é GEDULAH ou Chesed, a magnificência ou a bondade.
Os espíritos de Gedulah são os Haschmalin ou os lúcidos.
Seu império é o da beneficência e correspondem à imaginação.
Têm por adversários os Gamchicoth ou os perturbadores das almas.
O chefe ou o guia desses demônios é Astaroth ou Astarte, a Vênus impura dos sírios que
representamos com cabeça de asno ou de touro e mamilos de mulher.
O quinto número é cinco; a quinta Sefira é GEBURAH ou a justiça.
Os espíritos de Geburah são os Seraphim ou os espíritos ardentes de zelo.
Seu império é o da punição dos crimes.
Eles correspondem à faculdade de comparar e de escolher.
Têm por adversários os Galab ou incendiários, gênios da cólera e das seduções, cujo chefe é
Asmodeu, que chamamos também de Samael negro.
O sexto número é seis; a sexta Sefira é TIPHERETH, a suprema beleza.
Os espíritos de Tiphereth são os Malachim ou os reis.
Seu império é o da harmonia universal e correspondem ao julgamento.
Têm por adversários os Tagagririm ou os disputadores cujo chefe é Belphegor.
O sétimo número é sete; a sétima Sefira é NETZAH ou a vitória; os espíritos de Netzah são os Eloim
ou os deuses, isto é, os representantes de Deus.
Seu império é o do progresso e da vida; correspondem ao sensorium ou à sensibilidade.
Têm por adversários os Harab-Serapel ou os corvos da morte, cujo chefe é Baal.
O oitavo número é oito; a oitava Sefira é HOD ou a ordem eterna; os espíritos de Hod são os Beni-
Eloim ou os filhos dos deuses.
Seu império é o da ordem; correspondem ao sentido íntimo; têm por adversários os Samael ou os
batalhadores, cujo chefe é Adramelech.
O nono número é nove; a nona Sefira é IESOD ou o princípio fundamental.
Os espíritos de Iesod são os Querubes ou os anjos, forças que fecundam a terra e que representamos
no simbolismo hebreu sob a aparência de touros.
Seu império é o da fecundidade e correspondem às idéias verdadeiras.
Têm por adversários os Gamaliel ou os obscenos, cuja rainha Lilith é o demônio dos abortos.
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O décimo número é dez; a décima Sefira é MALCHUTH ou o reino das formas.
Os espíritos de Malchuth são os Ischim ou os viris, são as almas dos santos, cujo chefe é Moisés.
Têm por adversários os maus que obedecem a Nahema, o demônio da impureza.
Os maus são representados pelos cinco povos malditos que Josué devia destruir.
Josué ou Jehosua, o salvador, é a figura do Messias.
Seu nome se compõe das letras do tetragrama divino transformado em pentagrama pela adição da
letra Schinn
Cada letra desse pentagrama representa uma potência do bem atacada por um dos cinco povos
malditos.
Porque a história real do povo de Deus é a lenda alegórica da humanidade.
Os cinco povos malditos são os Amalecites ou os agressores, os Geburim ou os violentos, - os
Raphaim ou os lassos, - os Nephilim ou os voluptuosos, - e os Anacim ou os anarquistas.
Os anarquistas são vencidos por Iod, que é o cetro do pai.
Os violentos são vencidos pelo He, que é a doçura da mãe.
Os lassos são vencidos pelo Vau, que é o gládio de Miguel e a geração pelo trabalho e a dor.
Os voluptuosos são vencidos pelo segundo He, que é o parto doloroso da mãe.
Os agressores finalmente são vencidos pelo Schin, que é o fogo do Senhor e a lei equilibradora da
justiça.
Os príncipes dos espíritos perversos são os falsos deuses que eles adoram.
O inferno não tem, pois, outra direção senão a lei fatal que pune a perversidade e que corrige o erro,
porque os falsos deuses só existem na falsa opinião de seus adoradores.
Baal, Belphegor, Moloch, Adramelech foram ídolos dos sírios; ídolos sem alma, ídolos agora
aniquilados e dos quais só ficou o nome. O verdadeiro Deus venceu todos esses demônios como a
verdade vence o erro. Isso se passou na opinião dos homens e as guerras de Miguel contra Satã são
representações do movimento e do progresso dos espíritos. O diabo é sempre um deus de refugo. As
idolatrias creditadas são religiões no seu tempo. As idolatrias antiquadas são superstições e
sacrilégios. O panteão dos fantasmas da moda é o céu dos ignorantes. O bordel dos fantasmas que
nem a loucura quer mais é o inferno. Mas tudo isso só existe na imaginação do vulgo. Para os sábios,
o céu é a suprema razão e o inferno é a loucura. Compreende-se que empregamos aqui a palavra céu
no sentido místico que lhe damos ao opô-la à palavra inferno. Para evocar os fantasmas é suficiente
embriagar-se ou tornar-se louco. Os fantasmas são os companheiros da embriaguez e da vertigem. O
fósforo da imaginação abandonada a todos os caprichos dos nervos superexcitados e doentes se
enche de monstros e de visões absurdas. Chega-se também à alucinação misturando a vigília ao sono
pelo uso graduado dos excitantes e narcóticos; mas tais obras são crimes contra a natureza. A
sabedoria afasta os fantasmas e nos faz comunicar com os espíritos superiores pela contemplação
das leis da natureza e o estudo dos números sagrados."
Aqui o rei Schlomoh dirige-se a seu filho Roboam. "Lembra-te, meu filho Roboam, que o temor de
Adonai é apenas o começo da sabedoria. Mantém e conserva aqueles que não têm inteligência no
temor de Adonai, que te dará e conservará minha coroa. Mas aprendes, tu, a vencer o temor pela
sabedoria, e os espíritos descerão do céu para te servir. Eu, Salomão, teu pai, rei de Israel e de
Palmira, procurei e obtive em divisão a santa Chocmah que é a sabedoria de Adonai. E tornei-me o rei
dos espíritos tanto do céu como da terra, o mestre dos habitantes do ar e das almas vivas do mar,
porque possuía a chave das portas ocultas da luz. Realizei grandes coisas pela virtude do Schema
Hamphorasch e pelas trinta e duas vias de Yetsirah. O número, o peso e a medida determinam a
forma das coisas: a substância é uma, e Deus criou-a eternamente. Feliz daquele que conhece as
letras e os números. As letras são números, e os números idéias e as idéias forças, e as forças os
Eloim. A síntese dos Eloim é o Schema. O Schema é um, suas colunas são dois, sua potência é três,
sua forma é quatro, seu reflexo dá oito, que multiplicado por três vos dá os vinte e quatro tronos da
sabedoria. Sobre cada trono repousa uma coroa com três florões, cada florão tem um nome, cada
nome é uma idéia absoluta. Há setenta e dois nomes sobre as vinte e quatro coroas do Schema. Tu
escreverás esses nomes em trinta e seis talismãs, dois em cada talismã, um em cada lado. Tu
dividirás esses talismãs em quatro séries de nove cada uma, segundo o número de letras do Schema.
Na primeira série gravarás a letra Iod representada pelo bastão florido de Aaron, na segunda letra He,
representada pela taça de José. Na terceira, o Vau representado pela espada de Davi, meu pai. E na
quarta, o He final, representado pelo ciclo de ouro. Os trinta e seis talismãs serão um livro que conterá
todos os segredos da natureza. E por suas diversas combinações tu farás falar os gênios e os anjos."
(Aqui termina o fragmento da Clavícula de Salomão.)
CAPÍTULO 4
29
Os dogmas cabalísticos. (Extraídos da coleção dos Cabalistas de Pistorius)
1 Novem sunt hierarchioe. Nove é o número hierárquico. É o que explicamos no capítulo precedente.
2 Schema misericordiam dicit, sed et jtidicium. O nome divino significa misericórdia porque quer dizer
julgamento. O infinito, exercendo seu poder sobre o finito, deve necessariamente punir para corrigir, e
não para se vingar. As forças do pecado não excedem as do pecador, e se o castigo era maior que a
ofensa, o punidor tornado algoz seria o verdadeiro criminoso, completamente indesculpável e ele
mesmo digno apenas de um eterno suplício. O desmedidamente torturado, engrandecido pelo infinito
da pena, tornar-se-ia Deus, e é o que os antigos representaram por Prometeu, que, imortalizando as
mordeduras de seu abutre, deve destronar Júpiter.
3 Peccatum Adoe fuit truncatio Malchub ab arbore sephirotica. O pecado de Adão é Malchuth caído da
árvore sefirótica. Para ter uma existência pessoal e independente, o homem teve que se separar de
Deus. É o que acontece no nascimento. Uma criança que vem ao mundo é um espírito que se separa
do seio de Deus para vir gozar o fruto da árvore da ciência e desfrutar da liberdade. É por isso que
Deus lhe dá uma túnica de carne. Ela é condenada à morte pelo próprio nascimento, que é seu
pecado; mas, por esse pecado que a emancipa, ela força Deus a resgatá-la e se torna o conquistador
da verdadeira vida que não existe sem a liberdade.
4 Cum arbore peccati Deus creavit seculum. A árvore do pecado foi o instrumento da criação do
mundo. As paixões do homem o estimulam ao combate da vida; mas o arrastariam à sua ruína se ele
não tivesse razão para vencê-las e dominá-las. É dessa forma que se criou nele a virtude que é a
força moral, e as tentações são necessárias para isso. Porque a força só se produz em razão da
resistência. É assim que, segundo o Zohar, Deus para criar o relativo abriu um buraco no absoluto. O
tempo parece uma lacuna na eternidade e está dito na Bíblia que Deus arrependeu-se de ter feito o
homem. Ora, só nos arrependemos de um erro, e a criação é, por assim dizer, o pecado do próprio
Deus.
5 Magnus aquilo fons est animarum. O grande aquilão é a fonte das almas. A vida tem necessidade de
calor. Os povos emigram do norte para o sul e as almas inertes têm sede de atividade. É para
encontrar essa atividade que vêm ao mundo. Elas têm frio em sua inação primitiva, porque sua criação
está inacabada. O homem deve cooperar com sua criação. Deus o inicia, mas ele próprio deve se
terminar. Se não tivesse que nascer e nem morrer, ele dormiria absorvido na eternidade de Deus e
jamais seria o conquistador de sua própria imortalidade.
6 Coelum est Keter. O céu é Kether (a Coroa). Os cabalistas não têm nome para designar o monarca
supremo, só falam da coroa que prova a existência do rei e dizem aqui que esta coroa é o céu.
7 Animoe e tertio lumine ad quartam descendunt, inde ad quintam ascendunt. Dies unus. Post mortem
noctem subintrant. As almas filhas da terceira luz descem até a quarta, depois se elevam até a quinta,
e é um dia. Quando a morte chega é a noite. Em Deus, como na humanidade, o número três exprime
a geração, o amor; é a terceira pessoa ou concepção divina, é o que o cabalista pretende exprimir por
essa terceira luz, de onde descem as almas para chegar à quarta, que é a vida natural e elementar.
De lá elas devem se elevar à quinta, que é a estrela pentagramática, o símbolo da quintessência, o
símbolo da vontade que dirige os elementos. Em seguida ele compara uma existência a um dia
seguido de uma noite para fazer pressentir um despertar seguido de uma existência nova.
8 Sex dies geneseos sunt sex litteroe Bereschith. Os seis dias da Gênese são as seis letras da
palavra. t y c a d b
9 Paradisus est arbor Sephiricus. In medio magnus Adam est Tiphereth. O paraíso é a árvore
Sefirótica; o grande Adão que está no meio é Tiphereth.
10 Quatuor flumina ex uno fonte. In medio unius sunt sex et dat decem. As quatro fontes do Éden
saem de uma fonte no meio da qual há seis, e ao todo somam dez. Esses três artigos significam que a
história do paraíso terrestre é uma alegoria. O paraíso terrestre é a verdade sobre a terra. A descrição
que a Bíblia faz desse jardim contém os números sagrados da Cabala. A história da criação de mundo,
que precede a descrição do Éden, é menos uma narração do que um símbolo que exprime as leis
eternas da criação, cujo resumo está contido nas seis letras hieroglíficas da palavra t y c a d b
11 Factum fatum quia fatum verbum est. Um fato é uma fatalidade porque uma fatalidade é uma razão.
Uma razão suprema dirige tudo e não há fatalidade: tudo o que é devia ser. Tudo o que acontece deve
acontecer. Um fato concluído é irrevogável como o destino; mas o destino é a razão da inteligência
suprema.
12 Portoe jubiloeum sunt. As portas são um jubileu. Há cinqüenta portas da ciência segundo os
cabalistas, isto é, uma classificação geral em cinco séries de dez ciências particulares que formam
juntas a ciência geral e universal. Depois de percorrer todas essas séries, entra-se na jubilação do
verdadeiro saber, representada pelo grande jubileu que ocorre a cada cinqüenta anos.
13 Abraham semper vertitur ad austrum. Abraão volta-se sempre em direção ao vento do sul. Isto é,
30
em direção ao vento que traz a chuva. As doutrinas de Abraão, ou seja, da Cabala, são doutrinas
sempre fecundas. Israel é o povo das idéias reais e do trabalho produtivo. Conservando o depósito da
verdade sofrida com uma admirável paciência, trabalhando com uma rara sagacidade e uma
incansável atividade, o povo de Deus deve conquistar o mundo.
14 Per additionem He Abraham genuit. É pela adição de He que Abraão tornou-se pai. Abraão se
chamava primeiramente Abram. Deus acrescenta, diz a Bíblia, um He a seu nome anunciando-lhe que
ele seria pai da multidão. O He é a letra feminina do tetragrama divino. Representa o verbo e sua
fecundidade, é o signo hieroglífico da realização. O dogma de Abraão é absoluto e seu princípio é
essencialmente realizador. Os judeus em religião não sonham, eles pensam, e sua ação tende sempre
à multiplicação, tanto da família como de riquezas que mantêm a família e lhe permitem crescer.
15 Omnes ante Mosem per unicornem prophetaverunt. Todos os profetas que antecederam Moisés só
juraram pelo unicórnio. Entende-se por isso que só viram um lado da verdade. O chifre, no simbolismo
hebreu, significa o poder, e sobretudo o poder do pensamento. O unicórnio, animal fabuloso que só
tem um chifre no meio da fronte, é a figura do ideal; o touro ao contrário ou o querube é o símbolo da
força que está na realidade. É por isso que Júpiter, Ammon, Osíris, Ísis, são representados com dois
chifres na fronte; é por esse motivo que Moisés também é representado com dois chifres, dos quais
um é a trombeta do Verbo e o outro o chifre da abundância.
16 Mas et foemina sunt Tiphereth et Malchuth. O homem e a mulher são a beleza de Deus e seu reino.
A beleza revela Deus. A natureza se mostra filha de Deus porque é bela. Diz-se que o belo é o
esplendor da verdade e esse esplendor ilumina o mundo, ele tem sua razão de ser. Esse belo é o
ideal, mas esse ideal só é verdadeiro quando se realiza. O ideal divino é como o marido da natureza, é
ele que a torna amorosa e que a faz tornar-se mãe.
17 Copula cum Tiphereth et generatio tua benedicetur. Despose a suprema beleza e tua geração será
abençoada. Se o casamento é santo, a posteridade será santa. Os filhos nascem viciosos quando são
concebidos no pecado. É necessário apurar e enobrecer o amor para santificar o casamento, Se os
seres humanos ao se aproximarem cederem a um instinto que têm em comum com os animais
gerarão animais em forma humana. O verdadeiro casamento une ao mesmo tempo as almas, os
espíritos e os corpos, e os filhos que provêm serão abençoados.
18 Doemon est Deus inversus. O diabo é Deus invertido. O diabo não é senão a antítese de Deus, e
se pudesse ter uma existência real, Deus certamente não existiria. O diabo é mentiroso como seu pai,
disse Jesus. Ora, qual é o pai do diabo? O pai do diabo é a mentira. O diabo nega o que Deus afirma.
A conseqüência disso é que Deus nega o que o diabo ousa afirmar. O diabo afirma sua própria
existência, e Deus, fazendo sempre triunfar o bem, dá a Satã um desmentido eterno.
19 Duo erunt unum. Quod intra est fiet extra e nox sicut dies illuminabitur. Dois farão apenas um. O
que está dentro se produzirá fora e a noite será iluminada como o dia. Deus e a natureza, a autoridade
e a liberdade, a fé e a razão, a religião e a ciência, são princípios eternos que ainda não estão
conciliados. Eles existem, no entanto, e como não se podem destruir mutuamente, é necessário que
se conciliem. O modo de conciliá-los é tentar distingui-los bem e equilibrar um pelo outro. A sombra é
necessária à luz. São as noites que marcam e medem os dias. Que a mulher não procure mais se
fazer homem e que o homem jamais usurpe o império da mulher, mas que ambos se unam para se
completar. Quanto mais a mulher é mulher, mais ela merece o amor do homem; quanto mais o homem
é homem, mais ele inspira confiança à mulher. A razão é o homem; a fé é a mulher. O homem deve
deixar à mulher seus mistérios, a mulher deve deixar ao homem essa independência que ele ama a
ponto de sacrificar-se por ela. Que o pai jamais discuta os direitos da mãe no seu domínio maternal;
mas que a mãe jamais atente à soberania paternal do homem. Quanto mais se respeitarem um ao
outro, mais estreitamente se unirão. Eis a solução do problema.
20 Poenitentia non est verbum. Arrepender-se não é agir. A verdadeira penitência não consiste nem
nos lamentos nem nas lágrimas. Quando se percebe que se faz mal é preciso voltar-se imediatamente
a fazer bem. De que adianta, se me coloquei num caminho errado, bater no peito e começar a chorar
como uma criança ou como um covarde? É preciso voltar sobre meus passos e correr para recuperar
o tempo perdido.
21 Excelsi sunt aqua australis et ignis septemtrionalis et proefecti eorum. Sile. A água é a rainha no
Sul e o fogo no Norte. Guarda silêncio sobre esse arcano. Guardemos silêncio, visto que os mestres o
ordenam. Acrescentemos somente à sua fórmula estas palavras que podem servir para explicá-la: A
harmonia resulta da analogia dos contrários; Os contrários são governados pelos contrários através da
harmonia; O rei das harmonias é o mestre da natureza.
22 In principio, id est in Chocmah. No começo, isto é, pela sabedoria. A sabedoria é o princípio de tudo
o que existe eternamente, tudo começa e termina por ela, e quando a Escritura sagrada fala de um
começo, designa a sabedoria eterna. No começo era o Verbo, isto é, na sabedoria eterna estava o
31
Verbo. Supor que Deus decidiu criar após uma eternidade de inércia, é supor dois enormes absurdos:
1.º uma eternidade que acaba; 2.º um Deus que muda. A palavra Bereschit que começa a Gênese
significa literalmente na cabeça, ou pela cabeça, isto é, no pensamento, que em Deus está a
sabedoria eterna.
23 Vioe oeternitatis sunt triginta duo. Há trinta e duas vias que conduzem ao Eterno. As trinta e duas
vias são os dez números e as vinte e duas letras. Aos dez números se unem idéias absolutas, como a
unidade ao ser; a dois, o equilíbrio; a três, a geração, etc. As letras representam os números em
hebreu, e as combinações de letras dão combinações de números e também de idéias que seguem
com exatidão as evoluções dos números; isso faz da filosofia oculta uma ciência exata que se poderia
chamar a aritmética do pensamento. O livro oculto que serve a essas combinações é o Tarô,
composto de vinte e duas figuras alegóricas das letras e dos números e de quatro séries de dez
contendo os símbolos análogos às quatro letras do nome divino, o Schema tetragramático. Essas
séries podem reduzir-se cada uma a nove, visto que só há, com efeito, nove algarismos, e que o
número dez é a repetição da unidade. Quatro vezes nove são trinta e seis, número dos talismãs de
Salomão, e sobre cada talismã havia dez nomes misteriosos, o que dá os setenta e dois nomes do
Schema hamphorasch. Mirville pergunta a quem persuadiremos dizendo que o Tarô com suas figuras
pagãs é o Schema hamphorasch dos rabinos. Não queremos persuadir ninguém. Estamos em
condições de prová-lo a quem quiser ter o trabalho de estudá-lo conosco. É verdade que as figuras
pagãs, egípcias, etc., não pertencem ao judaísmo ortodoxo. O Tarô existia na Índia, no Egito e mesmo
na China, no mesmo tempo que entre os hebreus. Aquele que chegou até nós é o Tarô samaritano. As
idéias são judaicas, mas os símbolos são profanos e se aproximam muito dos hieróglifos do Egito e do
misticismo da Índia.
24 Justi aquoe, Deus mare. Os justos são as águas. Deus é o mar. Todas as águas vão para o mar e
todas voltam, mas todas as águas não são o mar. Assim, os espíritos vêm de Deus e retornam a
Deus, mas não são Deus. O espírito universal, o universo vivo, o ídolo do panteísmo, não é Deus. O
ser infinito animado de uma vida infinita revela Deus e não é Deus. Como princípio do ser e dos seres,
Deus não poderia ser assimilado nem a um ser nem a nenhum dos seres. O que é então Deus? É o
incompreensível sem o qual não se compreende nada. É aquele que a fé afirma sem vê-lo para dar
uma base à ciência. É a luz invisível da qual toda luz visível é a sombra. É aquilo com que o gênio
humano sonha eternamente sentindo que ele próprio não é senão o sonho de seu sonho. O homem
faz Deus à sua imagem e semelhança e exclama: É assim que Deus me fez. É assim que Deus se fez
homem. É assim que Deus se fez Deus. Procuremos Deus na humanidade e encontraremos a
humanidade em Deus.
25 Angeli apparentiarum sunt volatiles coeli et animantia. Os pássaros do céu e os animais da terra
são os anjos da forma exterior. Os animais são inocentes e vivem de uma vida fatal; são os escravos
da natureza exterior e inferior, como os anjos são os servos da natureza divina e superior; portam as
figuras analíticas do pensamento que se sintetiza no homem; representam as forças específicas da
natureza; vieram ao mundo antes do homem para anunciar ao mundo a vinda próxima do homem e
são os auxiliares de seu corpo como os anjos do céu são os auxiliares de sua alma. O que está em
cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como o que está em cima. A série distribui a
harmonia e a harmonia resulta da analogia dos contrários.
26 Litteroe nominis sunt Danielis regna. As letras do tetragrama são os reinos de Daniel. Os animais
de Ezequiel representam as forças celestes e os de Daniel representam os poderes da terra. Há
quatro animais, segundo o número de elementos e de pontos cardiais. O Éden de Moisés, jardim
circular dividido em quatro por quatro rios que correm de uma fonte central, o plano circular de
Ezequiel (circum duxit me in gyro) vivificado pelos quatro ventos e o oceano de Daniel cujo horizonte
circular é dividido por quatro animais, são símbolos análogos uns aos outros e estão contidos nas
quatro letras hieroglíficas que compõem o nome de Jeovah.
27 Angelus sex alas habens non ttransformatur. O anjo que tem seis asas jamais se transforma. O
espírito perfeitamente equilibrado não muda. Os céus simbólicos são em número de três: o céu divino,
o céu filosófico e o céu natural. As asas da verdadeira contemplação, as do pensamento iluminado e
as da ciência conforme o ser, eis as seis asas que dão a estabilidade aos espíritos e que os impedem
de se transformar.
28 Litteroe sunt hieroglyphicoe in omnibus. As letras sagradas são hieróglifos completos que exprimem
todas as idéias. De modo que pelas combinações dessas letras, que são também números, obtêm-se
combinações de idéias sempre novas e rigorosamente exatas como operações aritméticas, o que é a
maior maravilha e a suprema potência da ciência cabalística.
29 Absconde faciem tuam et ora. Cobre tua face para orar. É costume dos judeus, para orar com mais
recolhimento, envolver suas cabeças com um véu, a que chamam thalith. Esse véu é originário do
32
Egito e assemelha-se ao de Ísis. Ele significa que as coisas santas devem ser ocultas aos profanos e
que cada um deve contar somente a Deus pensamentos secretos de seu coração.
30 Nulla res spiritualis descendit sine indumento. O espírito jamais desce sem vestimenta. As
vestimentas do espírito têm relação com os meios que ele atravessa. Como a beleza ou o peso dos
corpos os faz subir ou descer, assim o espírito veste-se para descer e se despe para subir. Não
saberíamos viver na água e os espíritos desvencilhados dos corpos terrestres não saberiam viver na
nossa atmosfera, como dissemos e repetimos em outro lugar.
31 Extrinsecus timor est inferior amore, sed intrinsecus superior. Exteriormente o medo é inferior ao
amor, mas interiormente é superior. Há dois temores, o temor interessado e o temor desinteressado, o
temor do castigo e o do mal. Ora, o temor do mal, sendo o amor da justiça totalmente puro e
desinteressado, é mais nobre que o amor interessado daqueles que só fazem o bem atraídos pelas
recompensas.
32 Nasus discernit proprietates. O nariz discerne as propriedades. No simbolismo do Zohar, a
generosidade divina está representada pelo comprimento do nariz que se atribui à imagem alegórica
de Deus. A humanidade, ao contrário, é representada com um nariz curto, porque ela compreende
pouco e se irrita facilmente. Em estilo vulgar, ter nariz significa ter sutileza no julgamento e tato na
condução da vida. O olfato do cão é um modo de adivinhação. Pressentir é, de alguma maneira,
adivinhar.
33 Anima bona, anima nova filia Orientis. A alma boa é uma alma nova que vem do Oriente. Há duas
bondades: a bondade original que é a inocência e a bondade adquirida que é a virtude. A alma nova,
filha do Oriente, é pura como o dia que se levanta, mas ela tem que passar pela prova em que sua
candura se apagará e depois ela terá que se purificar pelo sacrifício. Tudo isso será feito em uma só
ou em várias encarnações? É isso que nos é difícil de saber. Dissemos por que as encarnações
sucessivas nos parecem impossíveis; acrescentamos que os cabalistas da primeira ordem nunca as
admitiram. Ao invés de reencarnação, admitem o embrionato, isto é, a união íntima de duas almas,
uma já falecida e a outra ainda viva sobre a terra; aquele que morreu, tendo ainda deveres a cumprir
sobre a terra, cumpre-os por intermédio do vivo. Desta maneira as personalidades ficam intactas e
Elias, sem deixar de ser Elias, pode reviver em João, o batizador. É assim que Moisés e Elias
aparecem no Thabor como assessores de Jesus Cristo; mas dizer que Jesus Cristo era uma
reencarnação de Moisés, isso seria destruir ou a personalidade de Moisés ou a de Jesus.
34 Anima plena superiori conjungitur. Quando uma alma está completa ela se une a uma alma
superior. As almas se unem pelo pensamento e pelo amor sem levar em conta espaços. De sol a sol,
de universo a universo, elas podem não somente corresponder, mas tornar-se presentes umas para as
outras. É dessa forma que se unem, segundo os rabinos, os dois fenômenos, e do embrionato e o do
protetorado. Dissemos o que eles entendem por embrionato; o protetorado é a assistência de uma
alma ivre que auxilia uma alma em castigo, a assunção de um espírito militante por um espírito
glorioso e triunfante; em outros termos, assistência de um santo que se fez o anjo guardião de um
justo. Essas hipóteses são consoladoras e belas; é tudo o que podemos dizer; elas se deduzem do
dogma da solidariedade das almas resultante de sua criação e de sua existência coletivas.
35 Post deos rex verus regnabit super terram. Quando não houver mais falsos deuses, um verdadeiro
rei reinará sobre a terra. A idolatria é o culto do despotismo arbitrário, e os reis desse mundo são feitos
à imagem dos deuses que a terra adora. Um deus que pune infinitamente seres finitos após tê-los
criado frágeis e lhes ter imposto uma lei que contraria todas as inclinações de sua natureza, sem que
essa mesma lei seja claramente promulgada por todos, esse Deus autoriza todas as barbaridades dos
autocratas. Quando os homens conceberam um Deus justo terão reis equitativos. As crenças fazem a
opinião e é a opinião que consagra os poderes. O direito divino de Luís XI estava bem em relação com
o Deus de Mominique e de Pio V. É ao Deus de Fenelon e de São Vicente de Paula que devemos a
filantropia e a civilização moderna. Quando o homem progride, Deus caminha; quando ele se levanta,
Deus se engrandece; além disso, o ideal que o homem deseja atua sobre o mundo. O esplendor do
pensamento humano detendo-se sobre o objetivo divino reflete-se sobre a humanidade, porque esse
objetivo não é outra coisa senão um espelho. Esse reflexo do mundo ideal torna-se a luz do mundo
real. Os costumes formam-se segundo as crenças e a política é o resultado dos costumes.
36 Linea viridis gyrat universa. A linha verde circula em torno de todas as coisas. Os cabalistas, em
seus pantáculos, representam a coroa divina por uma linha verde que cerca as outras figuras. O verde
é a aliança das duas cores principais do prisma, o amarelo e o azul: figuras do Eloim ou grandes
potências que se resumem e se unem em Deus.
37 Amen est influxus numerationum. Amém é a influência dos números. A palavra amém, que termina
as preces, é uma afirmação do espírito e uma adesão do coração. É necessário pois, para que essa
palavra não seja uma blasfêmia, que a prece tenha sido razoável. Essa palavra é como uma
33
assinatura mental; por essa plavra o crente se afirma e se faz ele próprio à semelhança de sua prece.
Amém é a aceitação de uma conta aberta entre Deus e o homem. Infeliz daquele que conta mal,
porque ele será tratado como um falsário! Dizer amém após ter formulado o erro é consagrar sua alma
à mentira personificada por Satã. Dizer amém após haver formulado a verdade, é fazer aliança com
Deus.
Terceira parte
PRETENSOS ESPIRITOS OU FANTASMAS
Visões, evocações, fenômenos de necromancia
Da antigüidade até nossos dias
CAPÍTULO 1
os espíritos na Bíblia. O espírito de Eliphas e a sombra de Samuel evocada pela pitonisa de Endor.
Um dia compreender-se-á a Bíblia, saber-se-á que tesouros de ciência primitiva estão ocultos sob
tantos símbolos e figuras, saber-se-á que a Gênese, por exemplo, não é somente a história da
formação de um mundo, mas a exposição de leis eternas que presidem à criação incessante e sempre
renovada dos seres; decifrar-se-á esses hieróglifos, que tanto fazem rir Voltaire; saber-se-á como um
querube, isto é, um touro (o da Europa e de Mitra), pode velar com o gládio em punho à porta do
jardim da ciência. Agora essas alegorias estão ocultas, e os grandes monumentos da antigüidade
hierática permanecem em pé, envoltos em sua solidão e seu silêncio, como as grandes pirâmides que
se mostram aos olhos sem dizer nada de preciso ao pensamento, das quais não se sabe
positivamente se são monumentos científicos ou túmulos. Entre os livros da Bíblia existe um que nos
surpreende sobretudo pela magnificência da forma poética e por sua melancólica profundidade;
estamos falando do livro de Jó, a mais antiga talvez, mas com toda certeza a mais notável síntese que
nos ficou do dogma filosófico e mágico da antiga iniciação. Esse livro explica a origem e a razão de ser
do mal, indica o fim da vida humana e de seus sofrimentos. É a lenda do aflito. A alegoria é
transparente, os próprios nomes dos personagens revelam não indivíduos, mas tipos. Jó, cujo nome
significa "o aflito", é visitado em sua aflição por três falsos amigos, que, sob pretexto de consolá-lo, só
fazem atormentá-lo e afligi-lo mais ainda. Um é Eliphas, o zelador de Deus ou o puritano daquele
tempo. O segundo é Baldad, o amante das velhas idéias. O terceiro é Sophar, o filósofo tenebroso e
malévolo. Eles foram visitar Jó na terra de Hus, cujo nome significa "conselho", e, com toda a
inocência feroz da parvoice, reúnem seus esforços para impeli-lo ao desespero. O primeiro que fala é
Eliphas, e como representa a autoridade altaneira, traz como prova do que fala o testemunho de um
espírito. Alguém, disse ele, lhe falou, alguém desconhecido do qual não viu o rosto, mas ele tremeu de
pavor, os pêlos de sua carne ficaram eriçados e ele sentiu passar diante de seu rosto como que um
pequeno sopro que murmurava palavras incertas. Ele esticou avidamente o ouvido e captou o melhor
possível os fios rompidos desse murmúrio de uma sombra. Eis um médium dos velhos tempos e
vemos, lendo essa passagem, que o autor do livro de Jó conhecia muito bem o gênio dos visionários e
o caráter distintivo das visões. Atribui-se o livro de Jó a Moisés, e não é sem razão, porque a beleza
desse poema não deixa nada a desejar em relação aos hinos do grande profeta dos hebreus; é a
mesma inspiração, é a mesma grandeza nas imagens. Mas, seja ou não de Moisés, esse livro sagrado
é a obra de um grande hierofante, e a mais alta ciência aí se encontra unida às mais sublimes
aspirações da fé. É necessário pois estudar e pesar com cuidado as palavras dessa obra.
Observemos primeiramente que o homem com visões, o médium, como se diria em nossos dias, é,
dos três amigos de Jó, o mais triste e o mais desesperado. Suas doutrinas fazem duvidar da virtude e
conduzem ao nada ou ao inferno a grande maioria dos homens. Ora, quem lhe sugeriu esses dogmas
de desesperança? Um espírito que ele não conhecia, mas cujas palavras seus terrores noturnos
recolhiam e comentavam; eis o que ele conta: "Uma palavra misteriosa me foi dita e, furtivamente, de
alguma forma, meu ouvido captou os fios rompidos de seu murmúrio. "No horror da visão noturna, no
momento em que o sono se apodera comumente dos homens, "Fiquei tomado pelo medo e tremia; e
todos os meus ossos ficaram gelados de pavor. E como um espírito passava diante de mim, todos os
pêlos de minha carne se eriçaram. "Alguém estava lá, alguém de quem não distinguia o rosto, e ouvi
como que um pequeno sopro que me falava." Observemos bem todas as circunstâncias: é o momento
em que a noite é mais profunda, a hora em que o silêncio da natureza prepara as almas para o temor,
e o momento em que a vigília torna-se duvidosa, em que a alma flutua nos primeiros vapores do sono,
quando a razão já está acorrentada. Um temor sem causa aparente apodera-se então do visionário,
seu sangue se agita e se retira em direção ao coração, as extremidades ficam frias, ele treme como se
estivesse com febre, o calafrio percorre sua epiderme, seus cabelos e sua barba se eriçam e é nesse
estado precursor das alucinações que ele acredita ver ou sentir um espírito passar. Um fantasma se
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