fecundidade, encherão seus templos de ossadas, esgotarão a juventude na solidão e nas lágrimas. As
virgens serão viúvas antes do tempo e extinguir-se-ão na tristeza, porque os homens terão
desprezado e profanado os mistérios sagrados de Ísis. O que o profeta egípcio anunciava
antecipadamente, os judeus nos acusam de ter feito. Dizem eles que desprezamos o verdadeiro Deus,
e adoramos a carne de um enforcado. Rendemos culto a essas relíquias da morte que Moisés declara
imundas. Consagramos nossos padres e nossos religiosos a um celibato que reprova a natureza e que
condena aquele que disse aos seres: crescei e multiplicar. Quanto à moral de nossos evangelhos,
confessam que é pura, não reprovam nada em nossos apóstolos, e o autor do Sepher Toldos Jeschu
diz que São Pedro era um servidor do verdadeiro Deus, que vivia na austeridade e em penitência,
compondo hinos e morando no alto de uma torre; que pregava a misericórdia e a doçura,
recomendando aos cristãos que não maltratassem os judeus. Mas, acrescenta o mesmo autor, após a
morte de Cephas, outro doutor veio a Roma; este sustentava que São Pedro tinha alterado os
ensinamentos do Mestre. Ele misturava um falso judaísmo às práticas cristãs, ameaçava aqueles que
não o obedeciam com um inferno ardente e lodoso; prometia às multidões um milagre em confirmação
de sua doutrina; mas quando ergueu sua cabeça contra o céu, uma pedra caiu do céu e o esmagou.
Assim perecem todos os teus inimigos, Senhor, acrescenta finalizando o autor do Sepher, e que todos
aqueles que te amam sejam como o sol quando brilha com toda a sua força. Desse modo, segundo os
judeus que aceitam o Sepher Toldos Jeschu, não é o cristianismo, mas sim o anticristianismo que os
rechaça. Ora, o anticristianismo apareceu na Igreja, com efeito, desde os primeiros séculos e no
tempo mesmo dos apóstolos. O anticristo, dizia São João, é o que divide Jesus Cristo, e ele já está
neste mundo. Em outro lugar, esse apóstolo escreve que não ousa visitar seus fiéis, porque um
prelado orgulhoso, chamado Diotrephes, impede-os de recebê-lo. Sabei, dizia São Paulo, que o
mistério da iniqüidade já se realiza, de sorte que aquele que tem agora terá até a morte, depois se
manifestará o filho da iniqüidade que se eleva acima de tudo que é divino, a ponto de sentar-se no
templo de Deus e de se mostrar, ele próprio, como Deus, até que o Senhor o destrua pelo espírito de
sua palavra e pela luz resplandecente de seu segundo advento. Jesus era um verdadeiro profeta e um
verdadeiro sábio, dizem os muçulmanos, mas seus discípulos tornaram-se insensatos e adoraram-no
como sendo um Deus. No entanto, judeus e mulçulmanos se enganam; não adoramos Jesus como
sendo um Deus diferente do próprio Deus. Dizemos como Miguel dos hebreus: Quis ut Deus?
Dizemos com os crentes do islamismo: Não há outro deus além de Deus; mas esse Deus único,
indivisível, universal; nós o adoramos manifestando a perfeição humana em Jesus Cristo. Acreditamos
em uma aliança íntima da divindade com a humanidade, da qual resulta, para empregar a linguagem
dos teólogos, não a confusão, mas a comunicação dos idiomas, Deus adotando, para curá-las, as
fraquezas da humanidade, que ele eleva até ele, com sua força e seus esplendores. Toda alma
dotada do sentido interior que adora, todo coração que padece da necessidade de amar até o infinito,
sentirá que nesta concepção sublime, e só nela, o, ideal, religioso se determina e se completa, que
todos os sonhos dogmáticos e simbólicos só podem ser a investigação e a produção dessa síntese, ao
mesmo tempo divina e humana, que Deus em nós e nós em Deus com Jesus Cristo e por Jesus Cristo
é a paz, é a fé, é a esperança, é a caridade sobre a terra, é no céu a eternidade da vida e da
felicidade. Eis por que nenhuma religião jamais substituirá o cristianismo no mundo. O que se poderia
acrescentar ao infinito? Que idéia seria ao mesmo tempo mais grandiosa e mais consoladora que a do
homem Deus consolidando, pelo seu exemplo, a grande lei da abnegação que realiza os sacrifícios,
assim consagrando para sempre a aliança e como que a identificação de Deus com a humanidade?
Os antigos acreditavam que nem toda verdade deve ser dita a todos, ao menos não da mesma
maneira, e ocultavam a ciência sob o véu da alegoria. É assim que as mitologias se formaram.
Aqueles que se enfadam dos símbolos mitológicos devem renunciar à ciência do velho mundo cujos
monumentos são todos mais ou menos mitológicos. Nosso século que, contra todas as evidências,
não admite em princípio a desigualdade das inteligências, detesta a mitologia. Procuram-se, agora,
fatos históricos e positivos até nas teogonias de Sanchoniaton e de Hesíodo. O que não se
compreende é tratado como absurdo e tolice, e é assim que Renan, mutilando e estropiando os textos
da lenda evangélica, criou sua pretensa Vida de Jesus. O Jesus de Renan, espécie de pastorinho
entusiasta e entregue a não sei que onanismo intelectual, meio louco e meio impostor, vendendo tudo
barato desde que seja adorado, é, apesar de toda a doce poesia que cerca as reminiscências
verdadeiramente cristãs do autor, um ser ridículo e odioso. Não se trata, assim, do verdadeiro Jesus
da lenda evangélica. Aliás, sendo Renan, segundo dizem, um estudioso eminente, versado na língua
hebraica, como pôde ignorar ou negligenciar o Sepher Toldos Jeshu, as tradições talmudistas e os
evangelhos apócrifos? É que o gênio simbólico causava horror à sua imaginação fria e positiva. É que
ele queria agradar aos ignorantes, cuja preguiça intelectual repele tudo o que exige trabalho para ser
compreendido. É que ele precisava de fama imediata, e é preciso convir que conseguiu muito bem.
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Mas, conseguir aguadar não é conseguir fazer bem. Faça pois, para refutar Renan, alguma coisa que
chegue a ser lida como seu livro, dizia-nos um grande artista, que nessa circunstância talvez não fosse
um grande crítico. Não podemos, em nome da ciência, aceitar esse desafio. Dizendo a verdade não
chegaremos a ser lidos tão universalmente, nem tão avidamente e de imediato, mas chegaremos a ser
lidos por leitores mais eminentes e por mais tempo. O Evangelho é um livro simbólico, o que não prova
que Jesus não tenha existido. Rousseau dizia que o inventor de uma história semelhante seria mais
extraordinário que o herói. Aceitamos plenamente esse argumento. Jesus é suficientemente grande
quanto à inteligência e quanto ao coração para criar essa admirável lenda, é superior àquele que
adora estupidamente, ou que nega mais estupidamente ainda o vulgo; ele é verdadeiramente a
encarnação sempre viva do Verbo de verdade, e nós o saudamos Filho de Deus, em todo o resplendor
e em toda a energia do termo. Até o presente só se viu do Evangelho a letra que mata e a casca que
seca; iremos revelar o espírito e a vida, Minhas palavras, dizia Jesus, são espírito e vida, e, para
compreendê-las, a matéria e a carne de nada servem. Mas, para explicar esse texto sagrado, quais
são nossas autoridades? A ciência e a razão.
- Mas a fé o explicou de outro modo.
- A fé cega, sim; a fé esclarecida, não.
- Mas só Deus pode esclarecer a fé.
- Sim, pela razão e pela ciência, que são também filhas de Deus.
Dito isso, comecemos nosso estudo.
Cristo quer dizer ungido ou sagrado; isto é, sacerdote e rei.
O cristianismo é a religião hierárquica das almas e a monarquia da mais perfeita devoção.
O cristianismo primitivo dos apóstolos de Jesus era uma doutrina secreta que tinha seus signos, seus
símbolos e seus diferentes graus de iniciação. Para os santos ou eleitos, o dogma cristão era uma
sabedoria elevada e profunda; para os simples catecúmenos, era uma maravilhosa e obscura
revelação. Sabemos que o Mestre sempre se exprimia só por parábolas e ocultava a verdade sob o
véu transparente das imagens, a fim de proteger a nova ciência contra as blasfêmias da ignorância e
as profanações da maldade: Não atirai vossas pérolas aos porcos, dizia ele a seus discípulos, para
que eles não as pisoteiem, e para que, voltando-se contra vós, não vos devorem. Jesus também não
deixou nada por escrito, mas legou a seus apóstolos suas tradições e seu método de ensino. Ora, eis
qual era o fundamento do dogma cristão:A inteligência é eterna; ela se expande porque é viva. A vida
da inteligência, sua expansão, é a palavra, o Verbo; o Verbo é pois eterno como a inteligência, e o que
é eterno é Deus. O Verbo manifesta-se pela ação criadora que produz a forma, ele se reveste da
forma humana, e a carne torna-se a vestimenta do Verbo; havia o Verbo mesmo quando não existia a
expressão exata: assim o Verbo se fez carne. O Verbo perfeito é a unidade divina expressa na vida
humana. O homem verdadeiro é nosso Senhor, o chefe do qual todos os fiéis são os membros. A
humanidade, constituída por uma escala hierárquica e progressiva, tem por chefe aquele que é Deus,
porque ele é ao mesmo tempo o melhor dos homens, aquele que morreu pelos outros a fim de reviver
em todos. Somos todos, pois, um mesmo corpo cuja alma deve ser a de Jesus Cristo, nosso protótipo
e nosso modelo, o Verbo feito carne, o Homem-Deus. Tudo, portanto, deve em princípio ser comum
entre nós, como entre os membros de um mesmo corpo; mas, de fato, cada membro deve se
contentar com o lugar que ocupa, e a ordem hierárquica é sagrada como a vontade de Deus. Cristo,
revelando a lei da unidade, que é a lei do amor, armou o espírito de força para vencer o egoísmo da
carne, que é a divisão e a morte, instituiu um signo chamado Comunhão, para opô-lo ao egoísmo, que
é o espírito de divisão e de separação. Ora, a comunhão não era outra coisa senão a caridade
representada por uma mesa comum, e como Cristo havia destinado sua carne à dor e à morte para
legar a seus fiéis o pão fraterno ao qual ligava, no futuro, seu pensamento perseverante e sua nova
vida, dizia-lhes: Comei todos, esta é minha carne! Também dizia do vinho da fraternidade: Bebei
todos, este é meu sangue, porque eu o derramei inteiramente para vos assegurar para sempre a
realidade desse signo. A comunhão era, pois, a fraternidade divina e humana, e por conseguinte
também a liberdade; pois onde pode estar o opressor entre irmãos cujo pai é o próprio Deus? O
cristianismo era, portanto, a mudança mais radical e vinha subverter o velho mundo. Isso basta para
explicar a necessidade dos mistérios, porque o mundo há mil e oitocentos anos devia estar ainda
menos disposto do que hoje a se deixar destruir: ele tinha mais tempo para viver. Todavia, o Cristo
não queria concluir revoluções senão pela força moral, sabendo bem que só existe essa força que não
é cega: ele havia plantado o grão da mostardeira, e dizia a seus discípulos para esperar a árvore;
havia ocultado o fermento na massa e queria que a deixassem fermentar. A vida do Cristo estava toda
em sua doutrina, e, sobretudo para seus discípulos, sua existência devia ser inteiramente moral. O que
dizia, fazia-o no domínio do espírito; é por que os livros evangélicos contêm o dogma e a moral em
parábolas, e freqüentemente o próprio Mestre é o sujeito das narrações alegóricas de seus apóstolos.
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Temos que procurar as provas disso somente nos evangelhos apócrifos, pois razões de alta
conveniência nos impedem de abordar os evangelhos consagrados. Não aprovamos nem
condenamos, todavia, os trabalhos do doutor Strauss, pois não somos juízes de Israel. Comecemos
pela narração de algumas lendas extraídas desses livros antigos muito pouco estudados em nossos
dias.
PRIMEIRA LENDA
Como uma mulher chorava por não ser mãe e como teve uma filha que se tornou a mãe de Deus.
Havia uma mulher chamada Hannah que era estéril porque seu esposo tinha-se afastado dela. Essa
mulher estava, pois, triste e desolada, como a Sinagoga quando aguardava o Messias. Veio o tempo
das novas páscoas e ela não ousava vestir suas roupas de festa, porque não era mãe e suas próprias
criadas a censuravam por ser estéril. Ela se foi, então, e deixou-se cair sob um loureiro. Era no tempo
em que Roma acabava de dominar o mundo. E sobre os galhos desse loureiro ela viu um ninho de
pardais e chorou amargamente, repetindo: Não sou mãe. Então o Espírito do Senhor lhe falou e lhe
disse: Estou tocado pela tua dor, e te devolverei teu esposo; Porque meu ouvido está sempre
inclinado em direção aos lábios daqueles que choram. Tu dizes: Não coloquei um homem no mundo, e
eu te prometo alguma coisa mais feliz: porque tu gerarás a mulher sem pecado; Aquela a quem direi,
pela boca da humanidade: És minha mãe! A Sinagoga gerará a Igreja de onde sairá o princípio da
associação católica; a escravidão engendrará a liberdade; a mulher escrava colocará no mundo a
mulher pura e livre. Com essas palavras, Hannah sentiu suas lágrimas secarem: levantou-se e correu,
porque pressentia que seu esposo não estava longe. Ela o encontrou, quando ele conduzia seu
rebanho e voltava dos campos dizendo: Dormirei esta noite em minha casa. E ela o abraçou e em
seguida lhe disse: Amanhã deixarei de ser estéril. E tudo lhe aconteceu conforme ela havia acreditado,
e cumprido o termo tornou-se mãe. Mas suas companheiras, que a felicitaram, disseram-lhe, como
que para amainar sua alegria: É apenas uma menina. Que seja chamada Maria, respondeu Hannah, e
que o mundo espere, porque minha filha terá um filho: Maria será mãe de Deus. Suas companheiras
não compreenderam o que ela queria dizer, mas envolveram a criança em roupas brancas e
colocaram-na em seu berço novo, admirando o quanto era bela. Quando a pequena Maria tinha três
anos seus pais levaram-na ao templo, e, como eles a haviam colocado no chão, ela subiu sozinha os
degraus do altar. Assim, numa idade tão tenra, sua religião já foi livre e suas crenças não lhe foram
impostas. Ela ficou no templo até a idade de catorze anos e tomou-se de amor pela beleza eterna. É
por isso que disse: Sou a serva do Senhor. É por isso que jamais foi serva de um homem. O espírito
de amor então não havia ainda descido sobre a Terra, a geração era vista como uma mácula. O
homem era filho da carne, o cristianismo não o havia feito ainda filho de Deus.
SEGUNDA LENDA
Como Deus ordenou que um velho companheiro carpinteiro esposasse uma virgem de sangue real.
Havia, na tribo de Judá, um bom velho chamado José, carpinteiro de profissão, homem viúvo, e pai de
muitos filhos, muito trabalhador, ainda que de habilidade medíocre, simples em seus pensamentos,
mas justo em seus julgamentos, o que lhe havia dado o apelido de Justo, o verdadeiro modelo do
homem do povo, o tipo do verdadeiro proletário. A ele deveria ser confiada a Virgem, porque o povo
pobre sabe o que custa a família e compreende melhor que ninguém a santidade do lar, a pureza da
jovem, e a dignidade da mãe. José, pois, tendo ouvido tocar os clarins do Templo, que anunciavam o
décimo-quarto ano após o nascimento de Maria, deixou seu machado e foi a Jerusalém. Lá,
encontravam-se jovens de todas as tribos, que desejavam a beleza de Maria; todos sonhavam com o
prazer que teriam em possuí-la; José pensava na felicidade de ser seu amigo e de trabalhar para nutrila,
deixando-a dona de si mesma. O sumo sacerdote disse aos jovens: Pegai na mão bastões, e
aquele cujo bastão florescer e sobre a cabeça do qual a pomba pousar, aquele será o esposo de
Maria. Mas, quando Maria olhou, não viu florido o bastão de nenhum de seus pretendentes que
queriam tornar-se seus donos, e a pomba não encontrou em quem pousar. Chamaram então, por
escárnio, o velho José, que se mantinha afastado, e ele teve o bastão florido. Então a pomba pousou
e Maria lhe estendeu a mão. José lhe disse: - Como o Senhor escolheu-me para ser seu esposo? pois
sou velho e tenho filhos grandes. Maria lhe disse: - És justo e não oprimirás a virgem que Deus te
confia. Prometi a Deus que não seria escrava de um homem; sirva-me de pai. Porque todos esses
jovens que estão aqui me desejaram sem me amar, e não consentirei jamais no ultraje de seus
desejos. José lhe disse: - Que assim seja, e a levou para sua casa em Nazaré, onde a deixou, e voltou
a trabalhar em Capharnaüm. Ora, Maria era de estirpe real e sacerdotal e levou como dote, ao
trabalhador José, a hereditariedade da realeza e do sacerdócio. Assim, por ter compreendido a
dignidade da Virgem, e ter sido feito o seu protetor, o simples trabalhador tornou-se sacerdote e rei, e
o mundo trocou de donos. Porque Maria não havia escolhido, para seu guardião, nem um sacerdote,
nem um rei, mas um pobre velho carpinteiro chamado José, e isso porque ele era justo. E foi aí o início
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desse reino de justiça, que, apesar de todos os esforços dos maus, finalmente se estabelecerá sobre a
terra.
TERCEIRA LENDA
Como a virgem tornou-se mãe sem pecado, e das ansiedades de José. Naquele tempo, tendo Maria
saído para tirar água, um jovem de grande beleza abordou-a perto da fonte e lhe disse: Eu te saúdo,
cheia de graça. Maria perturbou-se e voltou precipitadamente para casa, mas lá reencontrou o mesmo
jovem que a saudou dizendo-lhe outra vez: Não temas nada, sou um anjo do Senhor, é ele quem me
envia a ti. O que mais ele lhe disse encontra-se narrado nos Evangelhos, onde se vê que esse jovem
era o anjo Gabriel. Mas os judeus, na sua malícia, pretendiam que fosse um soldado chamado
Panther, e que, durante muitos dias, voltava para ver Maria em sua casa. Seis meses após, José
voltou a Nazaré e ficou consternado vendo que a virgem estava grávida. Ele lhe perguntou como
pudera isso acontecer, e ela respondeu chorando: Não faltei com minhas promessas e não sou infiel
nem diante de Deus nem diante de vós. José bem sabia que não a tinha tocado e não se atribuía
nenhum direito sobre ela, visto que ela o havia escolhido somente para seu amigo e seu guardião.
Entretanto ele ficou com o coração triste e não mais a interrogou, mas pensava em mandá-la embora.
Uma noite, quando adormecera com esse pensamento, uma mão o tocou e uma voz lhe falou. Abrindo
bem os olhos, viu diante de si o mesmo anjo que havia aparecido a Maria. Pai José, disse-lhe, tu
prometeste proteger Maria; por que queres abandoná-la quando ela mais tem necessidade de
cuidados de um pai e de um amigo? Ela não te pertence, és tu que pertences a ela; por que queres
abandoná-la? Prometeste respeitar os segredos de seu pudor; tu a deixaste virgem e tu a reencontras
prestes a tornar-se mãe. Honra-a sempre como a uma virgem e protege-a como a uma mãe. Por que
condenas a criança cujo pai não conheces? Não sabes que sempre o pai de uma criança é Deus?
Ama-a pois por causa de Maria que está confiada a ti, e guarda-a em consideração a Deus, seu pai.
Dessa forma ocultarás de todos a maldade dos homens, e tua casa será abençoada. José meditou
sobre essas palavras durante o resto da noite, e, ao amanhecer, foi encontrar Maria e lhe disse:
Perdoa-me por te fazer chorar, eu que sou teu pai; sou teu amigo e te fiz chorar. Pensava em te
mandar embora quando te tornasses mãe, e quem pois te receberia se teu velho José te
abandonasse? Guarda esse segredo que é de Deus; eu protegerei teu filho que é também filho de
Deus e do qual terei a honra de cuidar como se fosse meu. Maria respondeu-lhe: Bendito sejas,
porque a verdade eterna falou em teu coração. Poderias me desonrar, e não o fizeste. Por isso teu
nome será venerável. E quando as gerações do futuro me chamarem de Maria, a bem-aventurada, a ti
chamarão José, o justo. E o filho de Deus te chamará de pai, porque tu te pareces com Deus, que é
justo e bom, e ele te assistirá em teu último dia, porque terás sido o fiel guardião de seu nascimento.
QUARTA LENDA
Por que Maria ria e chorava ao voltar a Belém, e de suas duas parteiras, Zelomi e Salomé. Após o
ocorrido, José foi obrigado a voltar a Belém com Maria para obedecer ao decreto de César Augusto. E,
quando estavam a caminho, José, olhando Maria que estava sentada sobre seu asno, viu que ela
chorava e lhe disse: Por que choras? Maria lhe disse: Vejo um grande povo que chora, e meu filho se
atormenta em minhas entranhas. Porque estão lá, deitados sobre a terra nua, como ovelhas magras e
tosquiadas até a pele, e, por pastores, eles têm carniceiros. José olhou a seu redor e não viu ninguém.
Pensou que Maria estivesse sofrendo por causa de seu estado de avançada gravidez. Depois de um
instante observou-a mais uma vez e a viu sorrir, embora seus olhos estivessem ainda úmidos de
lágrimas. - Então agora sorris? perguntou-lhe. - Sim, respondeu Maria, porque vejo uma multidão que
está em alegria porque meu filho veio romper seus grilhões. - Fica tranqüila, disse José com bondade,
espero que cheguemos logo, e poderás repousar; não te canses com devaneios e palavras inúteis.
Então um anjo se apresentou e disse a José: Por que chamas de inúteis as palavras que não
compreendes? Faze descer Maria porque o tempo urge, e é aqui que ela deve dar à luz, e lhe
mostrava com o dedo a entrada de uma caverna. Maria entrou então na caverna, que se encheu de
luz quando, sozinha e sem dores, pôs seu filho no mundo. Entretanto, José havia saído para procurar
socorro, e trouxe consigo duas parteiras, a primeira chamada Zelomi e a segunda, Salomé, e lhes
disse: Uma virgem vai dar à luz, e continua virgem. Zelomi viu a luz celeste e acreditou na palavra de
José, porque compreendeu que ele havia falado conforme o Espírito do Senhor. Mas Salomé ficou
incrédula, e porque quisera tocar Maria, sua mão e seu coração secaram. Maria então teve piedade
dela e lhe disse: - É assim que a vã curiosidade seca aqueles que querem julgar as coisas do espírito
pelo testemunho dos sentidos. Zelomi representa a fé e tu representas a razão; ela sabe porque crê; e
tu ignoras porque duvidas; ela é sã e diligente, e tu, eis que estás doente e paralisada; mas se
abraçares meu filho ficarás curada, porque te tornarás como ele se consentires em amá-lo. Salomé
acreditou na palavra da mãe; prosternou-se diante da criança, tomou-a nos braços e embalou-a
docemente, abraçando-a com respeito. Então ela se sentiu curada, e uniu-se a Zelomi, a serviço de
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Maria e de Jesus. Jesus, em seguida, foi levado a um estábulo e deitado numa manjedoura, como se
lê no livro dos Evangelhos, e os pastores pobres dos campos vizinhos vieram saudar essa criança do
novo povo, cujo nascimento já fazia tremer os reis do velho mundo.
QUINTA LENDA
Como o filho do carpinteiro suavizava o ódio das serpentes. Naquele tempo o rei Herodes, tendo medo
do filho do pobre trabalhador, fez massacrar todas as crianças de Belém. Porque o egoísmo usurpador
da terra não quer que haja lugar para todo mundo, e colocou a morte como sentinela nas portas da
vida. José então foi forçado a fugir com Maria e seu filho. Ora, como eles estavam nos limites da
Judéia, sentaram-se à sombra, próximos de uma caverna perto da qual brincavam algumas crianças.
Imediatamente duas enormes serpentes saíram sibilando da caverna, e as crianças fugiram gritando.
Mas o menino Jesus fez um sinal, e as serpentes pararam diante dele como que para adorá-lo, e
vieram se arrastando lentamente, como se aos poucos se fossem amansando, até colocar suas
cabeças aos pés da mãe do menino. José queria então bater nelas com seu bastão. Mas Maria o
impediu, dizendo-lhe: Deixa-as viver, porque seu veneno transformou-se em doçura, e já que deixaram
de prejudicar, não tens mais o direito de matá-las. Está escrito a meu respeito que a mulher esmagará
a cabeça da serpente, mas se a serpente pudesse deixar de ser má, de envenenar com suas
mordidas, por que não teria piedade delas como de outros seres vivos? I Deus não criou nada inútil, e
quando todas as criaturas estiverem na ordem que lhes foi destinada, deixarão de prejudicar umas às
outras. Não está escrito que os próprios dragões e as serpentes da terra devem louvar a Deus? Não
destruas, mas instrui e dirige os seres vivos. As crianças que antes haviam fugido, vendo que as
serpentes não faziam mal a Jesus e a Maria, retomaram e acabaram até por se animar a brincar com
os répteis, e as serpentes brincavam com elas sem tocá-las e sem irritá-las, porque só com o olhar de
seus olhos tão doces e com um gesto de sua mão tão terna, Jesus as havia desarmado de todo o seu
veneno e de toda a sua cólera.
SEXTA LENDA
Do grande e maravilhoso rebanho que se reuniu em torno da criança da manjedoura. Quando Jesus,
nos braços de sua mãe, atravessava o deserto para ir ao Egito, os tigres e os leões saíram de seus
antros e os seguiram, as panteras deitavam-se aos pés de Maria para lhe servir de almofada quando
ela descansava; os unicórnios escavavam a terra para fazer brotar fontes; os leviatãs lhe
emprestavam sua sombra; os cervos e as gazelas misturavam-se sem temer os leões e os tigres;
porque Jesus vinha dar a paz ao mundo e espalhar sua doçura por toda a natureza. Esse rebanho
inumerável de todos os animais da terra, símbolos de todas as paixões humanas, caminhava em torno
da divina mãe, e uma criança os conduzia.
SÉTIMA LENDA
A palmeira do deserto. Eles chegaram num deserto onde não havia nem animais vivos, nem
mananciais, nem fontes, e como lá procurassem sombra, só encontraram uma única palmeira. Maria
desceu de sua montaria e veio sentar-se à sombra dessa palmeira, e vendo que ela estava carregada
de frutos disse a José: - Gostaria de saborear essas frutas, pois o calor é demais. José lhe respondeu:
- A árvore é muito alta e já não sou jovem. Jesus disse então à palmeira: Inclina-te e apresenta teus
frutos a minha mãe. A palmeira então inclinou-se e veio apresentar seus frutos à mão de Maria, que ao
colhê-los ofereceu-os a Jesus e a José. Em seguida, como ela continuasse curvada sobre seu tronco
e inclinada, Jesus disse-lhe: Ergue-te! E a palmeira se ergueu. Jesus disse-lhe: - Dá-nos água da
nascente oculta que alimenta tuas raízes. E imediatamente, de dentro das raízes da palmeira, uma
fonte límpida jorrou. E Jesus disse ainda à palmeira: - Tu não morrerás e frutificarás novamente no
jardim de meu pai. Porque todas as criaturas foram dadas aos homens para seu uso, e eles devem
submeter toda a natureza pelo trabalho; então dirão às montanhas: Aplanai-vos, e as montanhas se
aplanarão; e às árvores: Dai-nos vossos frutos, e as árvores se inclinarão; e às fontes: Subi e jorrai da
terra, e as fontes subirão e jorrarão; e os filhos da mulher consolarão sua mãe e lhe dirão: Descansa e
te refresca, porque é para te servir que a natureza nos obedece. Um anjo então apareceu no cimo da
palmeira; apanhou um galho e retomou seu vôo em direção ao céu para replantar a palmeira do
deserto nos campos do futuro, que será o reino de Deus. Essa terra, onde o gênio da fraternidade
completará os milagres do trabalho, onde a mãe não mais será escrava de seus filhos, onde os justos
não mais serão exilados, onde a verdade terá uma pátria; A terra então não mais será uma madrasta,
porque será livre, e um antagonismo ímpio não mais a forçará a ser estéril. O homem então disporá da
onipotência de Deus, e falará à natureza e a natureza obedecerá. É o que quis dizer Tiago, o Menor,
apóstolo do santo Evangelho, com essa lenda da palmeira.
OITAVA LENDA
Os três malfeitores.
Escrevemos mais longamente essa lenda: eis em toda a sua simplicidade, tal como a encontramos
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nos evangelhos da Santa-Infância. A santa família do Salvador, proscrita por Herodes, encontrou dois
ladrões no deserto. Esses ladrões chamavam-se, segundo alguns, Titus e Dumachus, e, segundo
outros, Dismas e Gestas; seguimos os costumes dos hebreus denominando-os, em nossa lenda,
Johanan e Oreb, isto é, o Misericordioso e o Homem de sangue. Um deles, Oreb, queria degolar a
santa família. Mas Johanan se opôs e, servindo ele próprio de guia aos três viajantes, deu-lhes
hospedagem em sua caverna. Ora, Deus lembrou-se da misericórdia e da hospitalidade do ladrão:
Jesus, na cruz, perdoou-lhe todos os pecados e prometeu dar a ele, por sua vez, hospedagem no céu
no mesmo dia. Assim os fariseus deveriam um dia crucificar três malfeitores, e entre esses três
deveriam encontrar o justo por excelência e o culpado arrependido. Para que se saiba que a justiça
dos homens será apenas um açoite que baterá para punir e não para curar, que todo pecador que
coopera com uma sentença de morte talvez aceite a responsabilidade do deicídio. Vós todos que
estais sem dúvida isentos de pecado, visto que ousais atirar a primeira pedra no culpado, lembrai-vos
dos três malfeitores e acautelai-vos para não bater no meio ou à direita, quando quiserdes bater à
esquerda!
NONA LENDA
Como, na chegada do Salvador ao Egito, caíram os ídolos de ouro e de prata, e os seres depravados
morreram. Está escrito nos evangelhos da Infância e nas crônicas antigas que ao nascer o Salvador
muitos milagres se realizaram. Assim, primeiramente, os oráculos calaram-se em Delfos e por toda a
terra, o que significava que as antigas religiões já tinham tido seu tempo e que tendo o Verbo divino
penetrado mais profundamente na humanidade e estando ele resumido em Jesus, os antigos oráculos
nada mais tinham a dizer, a não ser para lhe render testemunho, como ocorreu no Egito e em outros
lugares. O segundo milagre simbólico da chegada do Salvador foi a morte de todos os seres
depravados que ultrajavam a natureza desviando-a de seus desejos; isso deve ser entendido apenas
no sentido moral, porque a pureza e a castidade acabavam de revelar-se ao mundo e reabilitar a
geração humana. Acrescenta-se também que todas as águas amargas tornaram-se doces e potáveis,
para fazer entender que a doutrina de fraternidade deveria adoçar todos os pensamentos e servir
como que de refrigério às almas fatigadas de ódio e de cólera. Os velhos evangelistas dizem ainda
que Jesus, quando seus pais se levantaram de sob a palmeira milagrosa da lenda precedente,
abreviou-lhes o resto da viagem, e eles se encontraram às portas de Mênfis; então todos os ídolos do
Egito caíram prosternados, e a estátua de Ísis, deixando escapar de seus braços a imagem de Horus,
desceu de seu pedestal. Todas essas imagens poéticas são fáceis de compreender. A doutrina do
Cristo abrevia, para a humanidade, o longo tempo do exílio, os cultos terminam desde que são
substituídos por um culto mais perfeito e as imagens confusas cedem lugar às imagens mais exatas,
como essas últimas cederão lugar, finalmente, à realidade.
DÉCIMA LENDA
Como, quando Jesus voltava do Egito, os prisioneiros romperam suas algemas. As verdades
nascentes não encontram asilo seguro em lugar nenhum. Jesus tinha que deixar a Judéia para
escapar às suspeitas homicidas de Herodes, e eis que o ressentimento dos sacerdotes ia persegui-lo
no Egito. José ficou sabendo que Herodes estava morto e partiu com Maria e seu filho para voltar a
Nazaré. Lê-se, no capítulo décimo terceiro do evangelho da Infância, um dos mais antigos entre os
evangelhos apócrifos, que a santa família, na volta do Egito, passou perto de uma caverna onde
ladrões mantinham presos seus cativos. Com a aproximação da santa criança os ladrões acreditaram
ouvir o barulho de um grande exército e os clarins dos arautos que anunciavam a aproximação de um
grande rei; então fugiram aterrorizados. Os cativos, ficando sós, quebraram as algemas uns dos outros
e recuperaram tudo o que lhes havia sido roubado; e saindo para ir ao encontro do grande rei e de seu
exército, viram apenas uma criança, uma jovem mulher e um velho, e lhes perguntaram: Afinal onde
está o grande rei que aterrorizou nossos inimigos e nos fez quebrar nossas algemas? - Ele vem depois
de nós, respondeu José. Com efeito, a idéia cristã aterroriza os ladrões do velho mundo. Não os
expulsamos mais, eles fogem diante da luz do cristianismo que avança e os pobres prisioneiros
quebram mutuamente suas algemas. O grande rei e o grande exército que os ladrões ouviram é o
povo justo cujo reino deve chegar após o do cristianismo simbólico, e é por isso que José dizia: Ele
virá depois de nós. É estranho encontrar tais idéias em lendas tão antigas. Mas sabemos que, na
humanidade, o sentimento precede sempre a concepção e é por esse motivo que a religião se formula
antes da filosofia. As fábulas precedem os dogmas, aos dogmas sucedem os princípios, e é sempre a
mesma verdade que germina, floresce e frutifica, e se desenvolve sucessivamente sob a influência de
suas diferentes estações.
DÉCIMA-PRIMEIRA LENDA
Os apólogos da santa infância.
I
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Jesus e os passarinhos. Certo dia, o menino Jesus estava brincando com outras crianças; faziam
passarinhos de argila, e cada um preferia a sua obra à dos outros. Mas Jesus, tendo abençoado os
passarinhos que acabava de fazer, disse-lhes: Vão! e eles voaram. Acontece o mesmo com os
sistemas religiosos nas épocas de dúvida: cada um prefere o seu, mas o melhor será aquele que
viverá.
II
Jesus e a criança caída. Em outra ocasião, Jesus estava brincando num terraço com crianças de sua
idade. Uma delas caiu do alto desse terraço e morreu. Vendo isso, todas as outras crianças fugiram,
exceto Jesus. Então os pais da criança morta acorreram aos gritos, acusando Jesus de tê-la jogado.
Jesus, sem dar atenção às palavras deles, desceu tranqüilamente, pegou a criança pela mão e a
ressuscitou. É desse modo que se acusa a idéia cristã dos males que ela vem reparar.
III
Jesus e o grão de trigo. Certo dia, o menino Jesus pegou um grão de trigo e, abençoando-o, colocou-o
na terra. Esse grão germinou e produziu, só ele, o trigo para alimentar todos os pobres do país, e José
ainda ficou com o resto. Essa lenda, restituída por Tomás, o Israelita, parece ser a primeira idéia do
milagre alegórico da multiplicação dos pães. O grão que Jesus semeou é esta palavra: Vós sois
irmãos, associai-vos. A associação centuplicará os recursos da humanidade e se pode dizer, na
verdade, que o pão se multiplicará.
DÉCIMA-SEGUNDA LENDA
A morte do carpinteiro José. Quando chegou o tempo em que o bom velho José deveria descansar,
suas faculdades se debilitaram, sua memória obscureceu e sua inteligência diminuiu. Maria cuidou
dele com ternura e paciência, como havia cuidado de seu filho. Chegou o momento da agonia e José
começou a se atormentar dizendo: Ai, ai de mim! porque pequei durante minha longa vida, e que será
de minha pobre alma se Deus julgá-la com rigor? Os terrores do inferno me perseguem. Ai de mim,
porque trabalhei bastante durante minha vida e minha morte está cheia de medo. Jesus, então,
aproximou-se do leito do doente e lhe disse: José, meu pai, homem justo e laborioso, repousa em paz.
O inferno do pobre trabalhador é na terra, e como Deus poderia, após uma vida tão penosa e
laboriosa, atormentá-lo ainda após a morte? Em seguida, levantando os olhos, Jesus viu aproximar-se
os fantasmas da noite eterna, os esqueletos com olhos ardentes, os demônios horríveis com os
membros peludos e monstruosos, as larvas gementes e pálidas, os grifos negros com asas de
morcegos e o inferno inteiro se movendo sobre ondas de sombras espessas como a baleia de Jonas e
com uma imensa boca aberta, como que para engolir o mundo. Jesus soprou essas hediondas
quimeras e elas se evaporaram como a lembrança de um sonho. E José só viu perto dele Jesus e
Maria, que sustentavam sua cabeça entre as mãos e enxugavam o suor frio de sua fronte, enquanto o
anjo da morte tocava seus olhos com um ramo de lis, cujo perfume parecia espalhar por todos os seus
traços o repouso e o sorriso eternos. Os anjos da fé, da esperança e da caridade receberam sua alma
e seu corpo voltou à terra. Mas Jesus ordenou que ele fosse preservado da corrupção, porque, disse
ele, sua morte é apenas um sono, à espera de que o reino dos maus tenha passado. Então virá meu
reino, o da justiça e da fraternidade, e lembrar-me-ei de meu pai, o velho e corajoso trabalhador. Eu o
acordarei de seu sono de morte e ele virá sentar-se junto a mim no banquete da comunhão universal.
Que o sepulcro lhe seja, pois, como a crisálida para o inseto laborioso que fia seu sudário e espera
uma outra vida mais livre e mais brilhante. Dorme José, dorme pobre trabalhador! Quando
despertares, serás herdeiro do céu e, pelo trabalho, poderás conquistar o mundo.
DÉCIMA-TERCEIRA LENDA
O sermão na montanha.
Depois de Jesus ter repelido numa visão todas as coroas da Terra que lhe eram oferecidas pelo gênio
do mal, a quem elas pertenciam, e que lhe propunha comprar a tirania ao preço de escravidão, como
estava na lei do velho mundo; Depois de ter dominado a fome, o orgulho e a ambição do poder, Jesus,
o conquistador pacífico, subiu a montanha, e, cercado de pastores e pecadores, começou seu primeiro
discurso: Bem-aventurados aqueles que são pobres de espírito, porque a eles pertence o reino dos
céus! Isso queria dizer: Infelizes os escravos da riqueza egoísta, porque só acumularão a miséria
eterna! Bem-aventurados aqueles que são dóceis, porque possuirão a terra! É como se dissesse:
Infelizes os que querem reinar sobre a terra pela violência, porque o poder lhes escapará! Bemaventurados
aqueles que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados aqueles que têm fome
e sede de justiça, porque serão saciados. Pobres e deserdados, esperai pois! o cristianismo vos abre
a porta de um futuro feliz. Bem-aventurados os misericordiosos, porque obterão a misericórdia!
Compreendemos que a frase acima quer dizer também: Infelizes os homens sem piedade, porque não
haverá piedade para eles! Bem-aventurados aqueles que têm o coração puro, porque verão Deus!
Deus é a verdade e a justiça. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados de filhos de
18
Deus! Um de nossos poetas disse: o amor é mais forte do que a guerra. A força bruta passará e se
consumirá, mas a razão calma e senhora de si mesma triunfará e terá sempre um novo poder! Bemaventurados
aqueles que sofrem perseguição pela justiça, porque a eles pertence o reino do céu! É
perdoando que os mártires provam sua realeza. Quem persegue, abdica, e quem sofre, resiste.
Resistir é poder, e poder é reinar. Não vim para destruir, mas para realizar, dizia ainda o filho do
carpinteiro, declarando-se assim o iniciador do progresso. O que dizia então ao judaísmo podemos
dizê-lo ao catolicismo, nós, os homens do progresso religioso; nós, seus discípulos e continuadores de
sua obra! Se vossa justiça, dizia ele, não é mais rica que a dos escribas e fariseus, não entrareis no
reino dos céus, e podemos dizer: Se não sois melhores e mais justos que os mais ardentes do velho
mundo e da Idade Média, não entrareis na associação universal do cristianismo realizado. Cristo disse:
Aquele que injuriar seu irmão merecerá condenação; e nós dizemos: Aquele que não cuidar de seu
irmão e que tratar como estranho um só membro da família humana, merecerá ser renegado pela
família e terá lugar no julgamento dos fratricidas. Cristo disse: Perdoai sempre, e nós dizemos: Não
vos ofendais mesmo com o mal que vos possam fazer. Os maus são doentes, tratai-os e não vos
irriteis contra eles. Ele disse: Prestai atenção, antes do vosso sacrifício, se vosso irmão não tem
alguma coisa contra vós e ide reconciliar-vos com ele antes de vossa prece. E dizemos: Antes de vos
sentardes à mesa perguntei a vosso irmão se não precisa de nada; dai primeiramente uma parte de
vosso pão a quem não o tem, em seguida sentai no banquete da comunhão e Deus vos reconhecerá
como seus filhos. Ele disse: Aquele que abandona sua mulher é um adúltero, e aquele que rechaça
sua companheira a impele à prostituição. E nós dizemos: Aquele que prostitui uma mulher, ultraja sua
mãe, e aquele que casa sua filha por dinheiro, vende sua filha, e aquele que compra ou vende uma
mulher, a prostitui; porque a essência do casamento é o amor e as relações conjugais sem amor são a
impureza. Cristo disse: Não jureis, mas que vossa palavra seja sagrada. E nós dizemos: Para que a
palavra seja sagrada é necessário que ela seja livre. Libertemos a inteligência; não fechemos a boca
senão à mentira. Aquele que sufoca a palavra verdadeira é um deicida. Condenar não é responder.
Perseguir uma idéia é sancioná-la. Um homem inteligente que fala fora de tempo pode não ter razão,
para julgar é preciso ouvi-lo. Aquele que é forçado a se calar tem sempre razão. Quanto à
perversidade e à estupidez, o próprio bom senso impõe-lhes silêncio. Ele disse: Oferece a face
esquerda se te baterem na direita; e se te tomarem a túnica, abandona também teu manto. E nós
dizemos a nossos irmãos: Quando vos caluniarem por ter dito a verdade ireis vos expor ainda à
injustiça, e quando tiverdes sofrido a injúria e a calúnia, ireis vos expor com júbilo à miséria e à morte
no desprezo. Quanto mais vossos inimigos vos batem, mais eles enfraquecem; quanto mais sofreis,
mais sois fortes. Cristo disse: Não sejais hipócritas. E nós dizemos: Prestai solicitude a todos, falai
menos de moral e sede menos infames. Sede francos e modestamente homens, e não procureis
encobrir as torpezas da estupidez sob as asas de um anjo. Ele disse: Não se pode servir a Deus e ao
dinheiro. E nós dizemos: A propriedade não se faz respeitar quando não tem por origem o trabalho e
por regra a fraternidade na associação. Ele disse: Não julgueis e não sereis julgados. E nós dizemos:
Operai a transformação da penalidade em higiene moral, levantai aquele que cai e não batais nele; dai
às enfermidades morais tratamentos morais, e não punições ímpias; não gireis em um círculo
sangrento punindo o homicídio, porque agindo dessa forma dais de algum modo razão aos assassinos
e perpetuais uma guerra de canibais. Se quereis que o homicídio seja realmente um crime, fazei com
que não seja jamais um direito, e lembrai-vos desse condenado que dizia: Assassinando, arrisquei
minha cabeça; vós ganhais, eu pago: estamos quites. E em seu pensamento acrescentava: Somos
iguais. Cristo disse: Procurai primeiramente o reino de Deus e sua justiça e o resto vos será dado por
acréscimo. E nós dizemos: O reino de Deus não é o reino da fome para Lázaro e das orgias do rico
mau. O reino de Deus é o sol para todos, e a terra para todos é a fraternidade do trabalho, é a
prostituição tornada impossível pelo respeito à mulher, é a escada social acessível, em todos os seus
degraus, ao trabalho e mérito de todos. É o trabalho para todos; é a família para todos, é a
propriedade para todos, é o reino da razão, é o sacerdócio do amor, é a comunhão de cada um em
todos e de todos em cada um, é a unidade divina e humana, Deus vivo na humanidade, o Cristo
ressuscitado e vivo no grande corpo do povo cristão; a liberdade progressiva e submetida à ordem, a
igualdade relativa na ordem da hierarquia e a fraternidade distribuindo tudo a todos, segundo as leis
da harmonia, que é a eterna sabedoria.
DÉCIMA-QUARTA LENDA
Algumas palavras de Jesus Cristo que não estão nos Evangelhos canônicos e que foram conservadas
pela tradição dos primeiros séculos. Jesus estava certo dia, com seus discípulos, nos limites da
Judéia, nas proximidades do deserto, e se perderam nas montanhas. Encontraram um pastor que
estava deitado à sombra de um sicômoro e perguntaram-lhe o caminho. O pastor, que era preguiçoso,
não se deu ao trabalho nem de levantar nem de lhes responder, mas apenas estendeu o pé na
19
direção que deveriam seguir, e nem mesmo voltou a olhar para eles. Eles se foram e encontraram
uma jovem que voltava da fonte, sustentando sobre a cabeça um cântaro de água. Perguntaram
também a ela qual o caminho, e a jovem não só lhes indicou, mas, carregada como estava, pôs-se a
andar na frente deles e só os deixou após tê-los colocado em seu caminho. Mestre, disse São Pedro,
qual será a recompensa dessa jovem tão diligente e tão caridosa? - Ela se casará com o pastor
preguiçoso, respondeu Jesus. E, como os discípulos ficassem espantados, ele lhes disse: A felicidade
da mulher é ser mãe e, quando ela salva, por seu amor, o homem com quem divide suas próprias
virtudes, ela é mãe duas vezes, porque seu esposo e o filho que ele lhe dá precisam igualmente dela.
Todo sacrifício feito por amor aumenta o amor, e tudo o que aumenta o amor aumenta a felicidade.
Que ouça isso quem tem ouvidos para entender. Então João, o discípulo bem-amado, aproximando-se
do mestre, disse-lhe: Creio em vossa palavra e sei que assim será em vosso reino. A felicidade da
devoção será aqui o primeiro prêmio do sacrifício, e será recompensado aquele que fizer o bem
oferecendo-lhe ocasião de fazer mais bem ainda. Mas, dizei-me, quando virá vosso reino e por que
sinal os homens o reconhecerão? Jesus respondeu: Quando dois forem apenas um, quando o que
está dentro estiver fora e quando o homem com a mulher não forem nem homem nem mulher; Isto é,
quando tiver cessado o antagonismo entre a inteligência e o amor, entre a razão e a fé, entre a
liberdade e a obediência. Quando o pensamento evangélico, que é a fraternidade, for realizado pelas
formas políticas e sociais; E quando a mulher for a irmã pura e a esposa bem-amada do homem,
diante da sociedade assim como diante de Deus, sem que haja antagonismo ou rivalidade entre os
dois sexos. Essa palavra, citada pelo papa São Clemente, autor contemporâneo dos Apóstolos, é todo
o programa da renovação social operada pelo ideal cristão. Jesus diz ainda: A vida é um banco; sede
hábeis cambistas. Aquele que dá ganha mais que aquele que rebece. Se, pois, pretendeis enriquecer,
dai.
DÉCIMA-QUINTA LENDA
A direita e a esquerda de Jesus, o Thabor e o deserto, o povo organizado em grupos. Jesus revela-se
a seus três discípulos mais inteligentes, como o centro da humanidade, colocando-se, no passado,
entre Moisés, o homem da ordem e da doutrina, e Elias, o homem do protesto e da profecia
insubmissa. Tal é a significação dessa transfiguração do Thabor onde Pedro queria edificar três
tabernáculos, um para Moisés, um para Cristo e o terceiro para Elias: mas o tempo da síntese não
havia ainda chegado. Não esqueçamos que os evangelistas colocaram em ação toda a parte esotérica
ou oculta do Evangelho, e que para dizer: Jesus elevou o espírito de seus discípulos a uma grande
altura e fez com que compreendessem toda a verdade de sua doutrina, eles dizem: Jesus os conduziu
sobre uma montanha e, transfigurando-se, diante deles, apareceu a todos resplandecente de luz, de
modo que seu rosto estava brilhante como o sol e suas roupas deslumbrantes como a neve. João e
Tiago disseram-lhe então: Mestre, fazei-nos sentar um à vossa direita, outro à vossa esquerda,
quando vosso reino tiver chegado. Jesus disse-lhes: Posso conceder-vos parte em meu cálice e em
meu batismo; mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não cabe a mim conceder; esses
lugares estão reservados àqueles que são predestinados por meu Pai. Assim Jesus esperava ainda
dois homens para completar sua doutrina e concluir sua obra: o homem da direita, isto é, o homem da
ordem e da organização; e o homem da esquerda, isto é, o homem da expansão, do amor e da
harmonia. Quanto à organização social, Jesus indicou-a sumariamente na parábola da multiplicação
dos pães, onde lemos que Jesus dividiu o povo em grupos de cem e de cinqüenta, secundum
contubernia, segundo morassem ou pudessem morar juntos. Depois repartiu, entre todos, os
cinqüenta pães e os dois peixes que representavam o primeiro avanço da pobreza crente na
associação, e a associação multiplicou de tal modo esses débeis recursos, que, com aquilo que
sobrou, podiam-se encher doze cestos. Aqui, o que afirmamos sobre o simbolismo dos milagres
evangélicos está suficientemente comprovado pelo absurdo da letra e a impossibilidade material do
fato, como o doutor Strauss teve o trabalho de demonstrar. Mas o sentido da parábola é admirável, a
parábola é necessária quando a verdade é perigosa ou inútil de ser revelada. Também Jesus dissera:
Tenho ainda muitas coisas a vos ensinar, mas não podereis carregá-las agora. O espírito de
inteligência virá e vos ensinará toda a verdade. Primeiro todo o velho mundo deveria dissolver-se e
perecer, depois esse espírito deveria chegar e renovar a face da terra. Talvez estejamos na hora da
dissolução universal, mas tranqüilizamos nosso coração e esperamos: porque, sobre as ruínas, já
podemos ver a pomba celeste e o sopro da revelação renovada já se ergue nas nuvens do Oriente.
DÉCIMA-SEXTA LENDA
O que é a comunhão. Para mostrar que todos têm direito ao pão que alimenta e ao vinho que fortifica,
Jesus, falando em nome da humanidade, disse do pão: Isto é minha carne; e do vinho: Isto é meu
sangue. E o pão é verdadeiramente a carne da humanidade, como o vinho é verdadeiramente o
sangue daqueles que o bebem; porque o pão renova a carne e o vinho esquenta o sangue. Ora,
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Jesus, falando em nome da própria humanidade, disse: O pão que conquistei por meus trabalhos e por
minha morte é minha carne e eu a dou a todos a fim de que todos a comam; o vinho é meu sangue e
eu o derramarei para todos a fim de que todos bebam e vivam de minha vida. É dessa maneira que
Cristo constituiu a unidade divina e humana: dando-lhe por base a comunhão do pão e do vinho na
qual todos são chamados por Deus, e a qual não se pode recusar a ninguém. Assim aquele que priva
injustamente seu irmão de sua parte na comunhão do pão, rasga e se apropria de um pedaço da
carne de Cristo; ele come assim o que deveria ser a carne de seu irmão e através dessa antropofagia
deicida, ao invés de comungar com a humanidade, comunga com seus carrascos. Mas para que a
comunhão do pão seja possível na realidade e sem representações, é necessário que não mais haja
preguiçosos. "Aquele que não trabalha não deve comer." E para que a comunhão do vinho não seja
uma desordem é preciso que não mais existam bêbados. Advertência ao povo!
DÉCIMA-SÉTIMA LENDA
O julgamento de Jesus. Não repetiremos aqui os fatos narrados pelos quatro evangelistas pois eles
são conhecidos de todo o mundo. O grande drama da paixão é, há dezoito séculos e meio, o
julgamento escrito dos sacerdotes e reis, a condenação sangrenta das leis do velho mundo e o
protesto imortal dos condenados contra uma sociedade deicida. Somente um dos evangelhos
apócrifos ou secretos, o de Nicodemos, acrescenta à narração dos quatro algumas circunstâncias
muito notáveis; são elas: Quando Pilatos fez Jesus entrar no pretório para interrogá-lo, as águias de
Roma e as imagens dos deuses que portavam os estandartes inclinaram-se diante do rei do futuro. Os
judeus irritados exclamavam: César foi traído. Eis que são rendidas a este homem as honras do
império. O próprio Pilatos ficou pasmado e perguntou aos vexilários o que significava aquilo que
acabava de acontecer: eles protestaram dizendo que o faziam contra sua vontade e que não podiam
evitá-lo. Pilatos fez vir os homens mais robustos do pretório e os mais hostis a Jesus (pois foram
esses que, uma hora depois, flagelaram-no e o coroaram de espinhos); em seguida confiou-lhes as
insígnias recomendando que as mantivessem firmemente; e os simulacros divinos inclinaram-se uma
segunda vez diante de Jesus à vista de todo mundo e ficou provado que a força dos homens nada
pode contra a mudança das idéias e que os signos religiosos mais protegidos pelo poder caem por si
mesmos e se inclinam diante dos símbolos proscritos que o progresso revela, protestando contra o
julgamento dos homens e simpatizando com a agonia dos mártires. Jesus foi, pois, interrogado em
segredo por Pilatos, em seguida foi conduzido até os judeus, e seus acusadores foram ouvidos; eram,
como se sabe, os príncipes dos sacerdotes, os anciões do povo, os fariseus, os escribas e os
doutores, isto é, tudo o que havia de considerável e de respeitado na nação judaica. Pilatos perguntou
se ele não tinha também algumas testemunhas que o absolvessem. Fez-se, de início, um grande
silêncio porque os raros amigos de Jesus tiveram medo. Finalmente Zaqueu, o publicano, levantou
timidamente a voz para dizer que Jesus bebera e comera em sua casa, e depois lhe tocara o coração
pela sabedoria de seus discursos. Os risos e as algazarras da multidão não o deixaram completar,
porque os publicamos eram vistos como homens infames, e os fariseus fizeram valer o testemunho de
Zaqueu como uma prova a mais contra Jesus. Depois de Zaqueu, foi uma mulher toda chorosa que se
lançou aos pés do procônsul; não deixaram que ela proferisse nem mesmo uma só palavra; um grito
de reprovação elevou-se de toda a multidão: É Madalena, a prostituta, é esta que derrama aos pés
desse vagabundo os perfumes preciosos que ela paga com sua pessoa; ela é digna dele e ele não é
indigno dela! Excomunhão para os infames! Entretanto, o cego de Jericó acabava de atravessar a
multidão e gritava, estendendo as mãos para se fazer escutar: Nasci cego e Jesus me devolveu a
visão! - É um imbecil! gritaram os padres; não o escutem, ele não merece crédito: nós o expulsamos
da Sinagoga. - Estava morto e ele me ressuscitou, disse então um homem de Betânia chamado
Lázaro. Pilatos e os romanos começaram a rir: os judeus saduceus soltaram gritos selvagens; e
Lázaro foi expulso pelos lictores. Então uma senhora rica e considerada adiantou-se e disse: Sou
viúva, meu nome é Seraphia; afligia-me um fluxo de sangue que me fazia morrer aos poucos. Um dia
Jesus estava passando, acompanhado de uma multidão de pobres que ele instruía, de mulheres do
povo que consolava e de doentes que havia curado. Aproximei-me dele sem nada dizer e apenas
toquei na franja de sua roupa: então fui tomada de veneração e de susto, porque me senti curada. A
essas palavras os judeus começaram a murmurar; todavia continham seus clamores porque Seraphia
era rica e respeitada. Pilatos então tomou a palavra e disse: Façam retirar esta senhora, ela não pode
ser admitida como testemunha neste processo, porque, segundo vossas leis, que são as de todo o
Oriente, o testemunho de uma mulher é nulo em justiça. Depois de Seraphia, ninguém ousou levantar
a voz a favor de Jesus; os que eram considerados pessoas honestas acusavam-no e ele só tinha em
sua defesa pessoas sem reconhecimento, pessoas suspeitas de lepra ou de devassidão, pessoas da
populaça e mulheres. Ele foi, pois, condenado e não se encontraram expressões para resumir seus
crimes; escreveram por escárnio. É o rei dos judeus. Seraphia, que foi depois chamada Verônica,
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vendo que seu testemunho não podia salvar seu Salvador, foi chorando esperá-lo no caminho quando
ele saía da cidade carregando sua cruz, e apesar dos gritos dos algozes e das pancadas dos
soldados, ela se aproximou dele e lhe enxugou o rosto com uma toalha fina, que guardou a marca de
sangue dos traços de Jesus. E os mártires dos primeiros séculos não tinham outra imagem de seu
mestre que não os traços de sangue que marcavam o lugar dos traços de Jesus sobre a toalha de
Seraphia.
DÉCIMA-OITAVA LENDA
Pedro e João. Jesus tinha um discípulo pouco inteligente, pelo qual se sentia amado e que acreditava
fervorosamente nele. Tinha o caráter simples e ardente do trabalhador; tinha todas as virtudes e todos
os defeitos do povo, igualmente pronto ao desânimo e ao empenho, mas, em suma, sempre amigo de
seu mestre e disposto a dar a vida por ele. Esse discípulo era um homem do porto chamado Simão.
Jesus considerou-o como o modelo vivo do trabalho corajoso e lhe disse: Tu és a pedra sobre a qual
fundarei minha associação (ecclesiam), e as portas do inferno, isto é, os poderes desse mundo não
prevalecerão jamais contra ela. A pedra bruta que foi rejeitada pelos arquitetos da sociedade presente
tornar-se-á a pedra angular de uma sociedade nova. Dar-te-ei as chaves do reino da inteligência e do
amor, que é o reino dos céus, e és tu que realizarás as vontades de Deus na terra. Somente aqueles
serão acorrentados e tu os acorrentarás, e outros serão livres, visto que os libertarás, porque tu és o
homem do trabalho e te faço meu representante diante do futuro. A Igreja, antes da chegada do
espírito de inteligência, acreditou ver nessas palavras a consagração do poder absoluto e infalível dos
papas, e um certo Alexandre VI pretendeu ser o herdeiro legítimo das promessas feitas a Pedro, o
homem de fé, o trabalhador e o mártir. Todavia, os primeiros papas eram apenas os representantes do
povo perante Deus e, por isso mesmo, de Deus perante o povo, visto que era o povo quem os
escolhia; e é por esse motivo que os grandes pontífices dos bons tempos do catolicismo foram
tribunos que resistiam aos imperadores, puniam os crimes dos grandes e defendiam os povos contra
os vícios de seus mestres. Enquanto o papado reinou ele foi santo; a corrupção para ele devia ser a
decadência. Quando fores velho, disse Jesus a Pedro, um outro te cercará e te fará ir onde tu não
queres. Triste quadro da servidão temporal a que se reduziu o papado decaído! Entretanto, o papado
é um princípio, é a primeira monarquia cristã, e o cristianismo não se regenerará sem ele. O apóstolo
Pedro foi até o fim a imagem do gênio laborioso e desconhecido; crucificaram-no como a seu mestre e
o puseram de cabeça para baixo, tanto os carrascos tinham medo de vê-lo em pé. Jesus havia
milagrosamente profetizado o que narra a lenda, porque quando Pedro saíra de Roma para fugir da
perseguição de Nero, o Salvador lhe apareceu carregando sua cruz, e lhe disse: Vou a Roma onde
devo ser crucificado uma segunda vez. Pedro compreendeu que o cristianismo devia conquistar sua
liberdade pelo martírio; retornou pois sobre seus passos e voltou para morrer. Jesus tinha um outro
discípulo que foi chamado de discípulo do amor e que sempre é representado jovem porque, segundo
a lenda, ele não deveria morrer. João é o evangelista da síntese e liga ao cristianismo todo o gênio de
Platão na filosofia do Verbo. Jesus havia resumido toda a lei em duas palavras: Amai Deus, amai-vos
uns aos outros. São João faz cumprir o amor a Deus no amor ao próximo e afirma que ninguém jamais
viu Deus, mas que vemos os homens e que neles devemos amar a divindade que os anima. Amar
Deus na humanidade, tal é pois toda a religião; nosso século, adotando essa fórmula, só fez resumir a
doutrina de São João. São Paulo diz que a fé e a esperança passarão, mas que a caridade não
acabará jamais. Essa palavra é a promessa do reino da fraternidade, e é porque o futuro pertence ao
amor que o personagem místico de São João é considerado imortal pelos legendários. Dizia-se que
ele dormia em seu ataúde e que sua respiração agitava docemente a poeira da sepultura. Ele
esperava a volta de seu mestre, como as virgens sábias que tiveram o cuidado de se apoderar do óleo
da caridade para avivar sua lâmpada, para quando Deus desejasse manifestar-se novamente. Diziase,
com efeito, que um óleo maravilhoso vertia do sepulcro de São João e devolvia a saúde aos
doentes. É assim que a lenda segue-se ao Evangelho e adota suas imagens, como o Evangelho
reproduz, explicando-as, as grandes figuras da Bíblia. Mas em todo o conjunto dos livros sagrados e
da tradição mística, um apóstolo tem o cuidado de nos prevenir disso, a letra mata e o espírito vivifica.
É por isso que, quando os cultos têm que morrer, eles se materializam ligando-se à letra da palavra, e
o espírito lhes escapa ampliando sua expansão, como o homem faz quando abandona as roupas de
sua infância. O signo característico de São João, o último dos evangelistas, é uma águia, símbolo de
liberdade, de inteligência e de soberania, porque o reino do amor, facilitando o progresso, deve tornar
todos os homens livres por seu trabalho e sua virtude, cada um por sua vez, os primogênitos da
família humana, sacerdotes, reis e proprietários do mundo. Fecisti non reges et sacerdotes et
regnabimus super terram. (São João) Vós nos fizestes sacerdotes e reis, e reinaremos sobre a Terra.
É por isso que, nesses últimos tempos, a águia reapareceu no mundo. É por isso que a guerra será
apenas a preparação do império universal. O verdadeiro império é a paz: a águia vitoriosa repousará
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sobre o trovão e fixará o sol. Não será mais a águia do conquistador, será a águia do evangelista.
DÉCIMA-NONA LENDA
A visão de Aaswerus. - Anda! dissera o judeu Aaswerus a Cristo oprimido sob sua cruz. - Anda!
respondeu-lhe o Salvador do mundo, até que eu volte aqui e te diga: Repousa! Desde esse tempo,
Aaswerus não pára de fazer a volta ao mundo; e todos os anos, em meados da Páscoa, ele volta para
onde foi sua casa maldita para ver se ali reencontra Jesus. Ele anda, anda, chega quebrado, ofegante,
prestes a cair morto de cansaço; chega e não encontra ninguém. Ele eleva os olhos e vê no céu
sempre implacável uma mão que lhe mostra o Ocidente! Anda! grita-lhe uma voz que parece ser um
eterno eco da sua, no dia do crime, e o velho Aaswerus curva a cabeça; o soluço de salvação que
cresce em seu coração recai silencioso e sem lágrimas; ele recomeça sua viagem eterna. Na época
em que os cruzados tomaram Jerusalém, o Judeu Errante tinha ouvido dizer que Cristo havia
retomado à montanha santa; ele só encontrou ali um padre cercado de soldados. - Um judeu! um
judeu! gritaram alguns homens com mãos sangrentas... Anda! Anda! disseram os soldados batendo no
velho com seus bastões e o aguilhoando com a ponta de suas lanças. Aaswerus meneou a cabeça e
voltou a caminhar, em meio às maldições da multidão. - Ai de mim! murmurou ele, a cruz ainda não
me pode absolver, visto que ela não ensinou ainda o perdão a seus defensores. Os homens só a
adoram como um instrumento de suplício e uma lembrança de vingança! Insensatos, querem vingar
aquele que os salvava perdoando, e não sentem que se condenam eles mesmos ao destruírem o
perdão do Homem-Deus! Eles não sabem que a perseguição exercida pelos cristãos é a negação dos
mártires e a reabilitação de seus algozes. Também, quando Aaswerus reencontrou depois os judeus
perseguidos pelos cristãos, ele os incitava a morrer ao invés de abjurar as crenças de seus pais, e ele
próprio, com seu bastão secular na mão, a barba e os cabelos eriçados ao vento, os conduzia de exílio
em exílio... E no entanto, melhor que ninguém, ele compreendia que Jesus é o filho único de Deus!
Mais tarde ele viu caírem as cruzes e se levantarem os cadafalsos, ouviu falar da santa guilhotina e
não ficou surpreendido; os inquisidores não haviam ainda inaugurado as festas da morte em nome da
Cruz santa? O culto era o mesmo e só o altar estava mudado. Falava-se então também de
humanidade, de progresso; era justo: o machado é mais diligente e menos cruel que o pelourinho
sangrento do Gólgota. Ele viu em seguida recomeçarem as solenidades do bezerro de ouro; há muito
tempo sabia como terminavam tais orgias, e quando lhe perguntam: Que faz a esta hora o filho do
carpinteiro? - ele responde, meneando a cabeça: Um ataúde! Porque ele sente que o tempo está
próximo e seu andar parece tornar-se mais lento; olha por sua vez o século que passa e os
acontecimentos que se precipitam. No dia em que o sucessor de Pedro caiu por se ter apoiado num
cetro, e saiu da cidade eterna por sua vez amaldiçoado e exilado, Aaswerus entrou no Vaticano
deserto, e, com o cotovelo apoiado na cadeira vazia dos papas, deixou a cabeça cair sobre sua mão,
parecendo cochilar por um instante. Reviu em sonho o campo de Jerusalém revestido de sua
fertilidade primeira: a vinha com gigantescas uvas da Terra prometida, as oliveiras carregadas de
frutos cobriam as colinas e os vales estavam cheios de loendros e de roseiras em flor. A montanha de
Mória estava coberta de um povo inumerável, formado por deputados de todos os povos da terra, e no
cimo do monte sagrado elevava-se um imenso altar. No meio do altar, subia até as nuvens um
gigantesco candelabro de ouro, encimado por um sol radioso, e no meio desse sol aparecia, branca e
transparente, a divina hóstia do sacrifício do amor, a síntese do trigo, o símbolo da unidade divina e
humana, o pão da união social e da comunhão universal. Em frente ao altar, um velho estava em pé,
segurando numa das mãos um pão branco e leve, como o da alfaia, e na outra um cálice. Uma música
celeste se fez ouvir e da fronte de todas as falanges elevaram-se nuvens de incenso. Muitos homens,
vestidos com hábitos esplêndidos, trouxeram um quadro que cobriram com um pano branco. Um
desses homens usava a roupa dos soberanos pontífices da lei cristã, um outro, a do chefe dos iman,
um terceiro estava vestido como os grandes sacerdotes da lei judaica, um quarto portava os
ornamentos do grande Lama e todos os quatro agiam e oravam combinados e pareciam amar-se
como irmãos. Era o dia em que Cristo saiu outra vez do túmulo e já mais de duas mil vezes o mundo
havia celebrado o aniversário, mas nenhum fora tão esplêndido como aquele. A música cessou; o
silêncio se fez na multidão e todos os olhos se voltaram em direção ao Ocidente. Então, viu-se
aparecer um outro velho cujos cabelos e a barba cobriam-lhe o peito e os ombros; ele jogou seu
bastão de viagem, endireitou-se com um grande suspiro e se deixou vestir com uma túnica branca,
levantando em direção ao céu os olhos cheios de lágrimas. Ele olhou a hóstia e exclamou chorando: É
ele! Olhou o sacerdote que, escolhido pelo sufrágio de todos, fazia nesse dia o ofício de pontífice
universal, e repetiu: É ele! Olhou a multidão silenciosa e recolhida, e estendeu os braços em ação de
graças, dizendo ainda: É ele! é ele vivo em tudo, é ele só em todo lugar e sempre! Então o sacerdote
do povo desceu do altar, uma cadeira foi colocada diante da Mesa santa sobre a qual depositou-se a
hóstia e o cálice, e o pastor disse, dirigindo-se ao velho: Repousa, Aaswerus! Em seguida os
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