a Jerusalém; perguntamos onde estava aquele que nasceu Rei dos judeus, como narra São Mateus;
então, o dito Rei a colocou no caminho e lhe mostrou o estábulo onde havia nascido a Criança. Então
beijaram-se em grande reverência e separaram-se um do outro, e Ana, muito admirada, esqueceu de
perguntar ao Rei seu nome. Ana encontrou sua filha com Jesus e José. Quando Ana chegou a Belém
foi ao estábulo onde Jesus havia nascido, e o viu deitado na manjedoura: e logo que Maria percebeu
sua mãe, foi para junto dela e a recebeu com grande alegria, dizendo-lhe que fosse bem-vinda, o
mesmo fez José, e de tão grande alegria começaram a chorar. Maria e José levaram Ana para junto
da manjedoura onde Jesus estava tranqüilo, entre o asno e o boi. Assim que o viu, ela se prosternou a
seus pés e o adorou dizendo: Ó meu Deus! Ó meu Salvador! Ó Filho de Deus todo-poderoso! Ó meu
Deus, meu criador! Ó Rei dos reis! Ó Senhor dos senhores! O quê! Esse estábulo é teu palácio? Esta
manjedoura é o precioso berço que te havia preparado? Depois levantou os olhos para o céu, e
chorando ternamente disse a Maria: Ó minha filha muito querida! O conforto de minha alma, é este o
rico leito que te havia preparado? Olhando novamente ao seu redor, viu o estábulo aberto e demolido
por todos lados, e disse, com lágrimas nos olhos: Ó minha criança! Corta-me o coração de grande
tristeza ver esse precioso tesouro de todo mundo estar exposto nesse lugar aos maus tratos do tempo
e desta rude estação. Então Maria, sua filha, e José reconfortaram-na docemente, dizendo que era a
vontade divina, e que Deus assim quisera; disseram-lhe ainda muitas outras razões consoladoras, de
modo que ficou conformada. Ela tomou então Jesus entre os braços beijando-o com grande devoção;
Jesus abraçou-a com seus pequenos braços, e lhe mostrou sinal de amor. Ela permaneceu com eles,
ajudando-os no que podia, esperando o dia da Purificação, segundo a lei de Moisés, para que
pudessem retirar-se para Nazaré em sua casa, e pensava colocar o Menino Jesus no rico berço que
havia mandado fazer, e Maria no belo leito que lhe preparara. Como Maria, Ana e José com Jesus
foram ao templo de Jerusalém. E quando o dia da purificação de Maria chegou, quarenta dias após o
nascimento de Jesus, Maria, Ana e José foram juntos com Jesus a Jerusalém; quando chegaram,
foram ao templo para ali fazerem suas preces e oferendas segundo o regulamento da lei; depois
retornaram a Nazaré; Ana estava muito feliz pelo fato de receber Jesus em sua casa, e foi na frente,
deixando os outros com Maria, para que ficassem à vontade. Como o anjo apareceu para José, e o
exortou a conduzir a criança e sua mãe ao Egito. Quando Ana retornou a Nazaré para sua casa, e
Maria, José e os outros ainda estavam a caminho, o anjo apareceu a José em sonho, dizendo que se
levantasse, pegasse o filho com sua mãe e fosse ao Egito e que saísse de lá apenas quando lhe
dissesse; porque era certo que Herodes procuraria a criança para matá-la. José levantou-se
rapidamente, avisou Maria, que ficou triste pois não poderia avisar Ana, sua mãe, de sua partida. José
colocou Maria sobre seu asno com o Menino Jesus, e José os conduziu com temor nessa perigosa
viagem. Milagre. Encontra-se escrito que quando Jesus chegou no Egito, todos os ídolos que lá
estavam caíram e desmoronaram. Da tristeza de Ana por sua filha ter ficado para trás. Quando Ana
chegou a Nazaré, em sua casa, preparou-a o melhor possível para receber o Menino Jesus com sua
mãe, e desejava muito sua chegada: ia sempre olhar para ver se os via; e não percebendo nada, foi
ao encontro deles na direção de Jerusalém, temendo que lhes tivesse ocorrido algum inconveniente
no caminho, tanto tempo demoravam; depois de ter caminhado muito, perguntou de casa em casa se
os haviam visto, descrevendo como eram. Quando percebeu que não conseguia ter notícias, foi a
Jerusalém, muito desolada, e perguntou em todo lugar se os haviam visto; fez a mesma coisa em
Betânia, Belém, Jericó, na África, na Síria, em Samaria, em Naim, e em todos os lugares onde era
possível ir, mas infelizmente não conseguia descobrir onde estavam. Depois de Ana ter procurado por
um ano, e não os tendo encontrado, tomou o caminho de casa, dizendo: Ai, meu Deus! Como estou
desolada! E que precioso tesouro perdi! Peço ao Senhor que me prive da vida, porque bem o mereço,
visto que também deixei minha mãe Emerantiana procurar por mim durante dois anos, em todos os
países, com grande dor em seu coração; percebo agora que aborrecimento ela deve ter tido por amor
a mim. Nessa tristeza, retornou a Belém, para mais uma vez antes de sua morte poder ver o lugar e a
manjedoura onde Jesus havia deitado. A compaixão de Ana chegando a Belém, vendo o massacre
dos pequenos inocentes. Quando Ana, cheia de dor, chegou perto de Belém, ouviu os gritos
penetrantes dos Inocentes, e as lamentações desesperadas das mães que choravam por sua sorte, e
não somente as pessoas estavam tristes, mas também os animais, porque o barulho era tão grande
que toda a natureza estava consternada; os bois, as ovelhas e outros animais errantes pelos campos,
manifestavam por essa situação a tristeza que sentiam: e quando Ana se aproximou mais da cidade
de Belém, ouviu cada vez mais os clamores; entrando na cidade, viu os pequenos inocentes gemendo
pelas ruas, inúmeros mortos, e o sangue que corria pelas ruas. Viu também as crianças que os
algozes desumanos haviam degolado entre os braços de suas mães.
Muitos pais e mães seguravam seus filhos, chorando e arrancando seus próprios cabelos; outros
ofereciam seus bens para salvar a vida de seus filhos, mas nada era capaz de poupá-los dessa
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crueldade; sua resistência levava-os, algumas vezes, a perderem a vida junto com seus filhos; e em
geral todo o mundo estava consternado nessas cidades aflitivas; havia até quem deixasse sua
morada, para privar-se de ver semelhante desumanidade. Ó Deus todo-poderoso! Vejo agora que,
desde que estou viva, jamais vi semelhante tirania. Senhor todo-misericordioso, consolai essas pobres
mães desoladas, cujos pequenos filhos foram massacrados. Rogo-vos, Ó Deus muito bendito, que
vingueis os autores dessa horrível carnificina; porque o mundo universal não poderia reparar tal
ofensa; não há ninguém além de vós, meu Deus, que o pudesse reparar. Ana faz juntar as criançinhas
mortas que estavam nas ruas, mergulhadas em sangue, e as faz enterrar. Quando Ana viu que
Herodes colocara à morte as criancinhas, e que o povo tomado de piedade fora retirado de Belém, foi
tocada de compaixão por esses pobres inocentes jogados nas ruas; ela os colocou num lugar para
fazer enterrá-los com grande reverência. Passados quatro dias, o povo que havia fugido retornou;
cada um foi para sua casa, e vendo a grande caridade que Ana havia demonstrado para com seus
filhos mortos, disseram uns aos outros: Ana já nos fez muito bem no passado, curando nossos cegos,
coxos, paralíticos e outros doentes, e a nós, dando sepultura a nossos filhos, e nós somos ingratos.
Mesmo vendo sua filha grávida, não houve ninguém entre nós que lhe tenha dado abrigo; assim
precisou instalar-se nesse estábulo, onde deu à luz, e nenhum de nós a auxiliou; porque duvidamos e
por causa de nossa ingratidão, Deus nos enviou essa punição; e outros dizem: Ana, senhora piedosa
de entre as filhas de Jerusalém, não se encontrou ninguém semelhante a ti, nós te agradecemos por
tuas obras; confessamos não sermos suficientemente capazes para te agradecer como seria preciso.
Ana então consolou os pais e as mães aflitos. Ana repousou onde Jesus Cristo havia nascido. Seis
dias depois, Ana foi ao lugar que havia servido de abrigo a Maria para dar à luz o Filho de Deus;
estava cansada e não havia comido nada; ajoelhou-se onde Jesus Cristo havia estado para repousar,
fez sua oração diante da manjedoura, em seguida pegou um pouco de palha da manjedoura onde
Jesus Cristo havia nascido e deitou-se em cima para descansar; estando adormecida, ficou extasiada
em espírito e viu todas as penas que Jesus Cristo sofreria pela salvação de seu povo, e foi por essa
razão que se fez homem e que era conveniente para a salvação do gênero humano; logo depois viu
as dores que Maria sua filha, com suas duas irmãs e seus filhos, sofreriam, e que combateriam por
Jesus Cristo até a morte. Ana despertou e disse: Ó doce Menino Jesus! és esse cordeiro inocente que
será imolado no Calvário pela salvação do mundo: Ó pena salutar! Ó dor bem-aventurada! que todos
aqueles que descendem de mim pudessem assim sofrer por teu nome, se assim está previsto ser
conveniente, e meu pobre corpo permanece sem sofrer pena; e por isso, rogo-vos, meu Deus, que
consintais em mostrar-me um lugar onde, por amor a vós, possa castigar meu corpo; quero reconciliar
a árvore para que o fruto não morra, porque sei que o fruto é precioso e será eterno. Ana partiu de
Belém para se retirar ao deserto. Quando Ana resolveu ir para o deserto pelo amor de Deus, para lá
ter uma vida austera, foi sondar os pobres doentes que costumava auxiliar, e antes de partir os
abençoou e também distribuiu entre eles o resto de seus bens. Feito isso, despediu-se deles e foi para
os desertos. Quando os pobres souberam disso, correram atrás dela, chorando e dizendo: Nossa mãe
e benfeitora nos deixou. Quem cuidará de nós? Quem nos auxiliará em nossas necessidades? Quem
nos dará de beber e comer? Sol, ilumina-nos, a fim de que possamos encontrar Ana que tanto bem
nos fez: lamentavam-se e corriam para o deserto para encontrá-la; mas não a puderam encontrar e
muitos morreram de desgosto. A vida austera de Santa Ana. Como se havia proposto a levar uma vida
austera, levou-a com efeito; a partir dessa época não dormiu mais em seu leito, mas no chão; e seu
alimento era pão e água; visitou os doentes e tratou os pobres e ungiu os peregrinos com preciosos
ungüentos. Fazia a mesma coisa com os leprosos, ainda que fossem disformes; limpava e renovava
suas vestes; de modo que a fama de sua vida santa espalhou-se por todo o país; no entanto
conservava sua humildade. Desejava que os ricos e os pobres imitassem sua santa vida. Com a idade
de cinqüenta anos, determinou-se viver ainda mais austeramente; para isso penetrou no mais secreto
deserto que pôde encontrar; parou num lugar onde havia uma caverna sobre uma colina e nela foi
repousar, e só comia raizes; quando tinha sede ia procurar água a duas léguas de lá, e essa
austeridade continuou por muitos anos. Ana estando no deserto foi tentada pelo inimigo. O inimigo,
vendo que Ana vivia santamente no deserto, ficou com inveja; transformou-se num jovem, como se
fosse um anjo enviado de Deus, e chegou a ela, dizendo: Ana, levanta-te prontamente e vem comigo;
porque Deus enviou-me para te conduzir para onde estão tua filha e seu filho, e eles estão extraviados
no deserto onde entraram atrás de ti, procurando-te. Ana levantou-se rapidamente e o seguiu,
pensando que fosse um anjo enviado por Deus. Ele a conduziu ao pé de uma montanha muito alta e
reta, de modo que só poderia subir nela com muito esforço. Então o espírito maligno disse-lhe: Ana,
veremos agora se amas Deus; e se queres castigar tua carne pelo amor dele, segue-me. Ana
respondeu: Subirei a montanha com aflição. Mas não olhes de modo algum atrás de ti. Ele subiu a
primeira elevação, e ela depois dele. Quando haviam subido um pouco, ela encontrou pedras
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cortantes por onde deveria passar, de modo que os pés de Ana cortaram-se e o sangue saía por todo
lado. Ana, vendo isso, disse lamentando-se: Ó Maria, minha querida filha! se passares por aqui,
considera este caminho, regado por meu sangue ao te procurar. Quando se esforçou para subir ainda
mais alto, encontrou pedras ainda mais afiadas, de sorte que seus pés foram dilacerados, o que a fez
cair ao chão de fraqueza; nesse estado ela disse com uma voz lastimosa: O espírito está pronto, mas
a carne é fraca. Então o inimigo que estava sob a figura de um anjo lhe disse: Se não podes caminhar,
permíte-me que te arraste para o cume dessa montanha. Ela lhe permitiu. O espírito maligno puxou
Ana para o alto da montanha e bateu seu corpo contra as pedras cortantes, de modo que todo o seu
corpo ficou dilacerado. Então Ana disse: Meu Deus, bendito sejais vós que me enviaste uma criatura
que castiga meu corpo e prova minha paciência; padeço com boa vontade por vosso amor. Um anjo
consola Ana e a liberta da tirania do espírito maligno. Estando Ana em grande sofrimento e dor, o anjo
de Deus veio a ela, dizendo: Eu te saúdo, alma generosa, sabe que Deus tem aprovado tudo o que
sofreste por amor a ele, e receberás a recompensa; porque ensinaste a todo mundo que se deveria
viver no amor de Deus e de seu próximo, e que é preciso procurar Deus para encontrá-lo. Quando
disse isso ele a levou até onde o inimigo a pegara, e subitamente todas as chagas ficaram curadas e
sãs como antes. Jesus e Maria com suas irmãs visitaram Ana no deserto. Ana continuou longamente
sua vida austera no deserto, e estando então com setenta e um anos, começava a decair; vivia
sempre em tristeza desde que se viu separada de Jesus e de Maria, não sabendo onde estavam. Mas
Jesus, o Filho de Maria, que tudo conhecia conforme sua divindade, sabia bem onde ela estava; ele
fora testemunha ocular de seus sofrimentos e de sua austera penitência. Sabia também que ela
estava perto de seu falecimento e que se preparava para a morte. Jesus disse a sua mãe: Todo o
Antigo Testamento não nos forneceu um modelo mais perfeito de virtude que tua santa mãe, que
incessantemente inflama-se do amor divino, e deve brevemente passar desta vida à outra para lá
gozar do repouso eterno. Por isso, minha mãe, vamos juntos, tuas irmãs e seus filhos, para vê-la, e
consolá-la antes de sua morte. Quando Maria ouviu essas palavras, ficou feliz porque mais uma vez
poderia ver sua mãe e lhe falar; reuniu suas irmãs e seus filhos, e foram, Jesus com eles, ao deserto,
onde São João Batista fazia penitência junto ao rio Jordão, deserto esse pelo qual os filhos de Israel
passaram com Josué indo para a Terra Prometida. E porque Elizabeth, mãe de São João, era irmã de
Ana, Jesus disse-lhe: Vem também ver uma santa senhora no deserto, que leva uma vida angelical
em um corpo mortal; minha mãe repousou nove meses em seu seio, sua grande santidade atrai para
ela as atenções do céu e da terra; e por isso, é conveniente, visto que estamos ainda na terra, que a
visitemos. Quando São João Batista ouviu isso ficou feliz, desejando ver a árvore que havia carregado
tão preciosos frutos. Jesus visitou Santa Ana com seus amigos, e como foram recebidos. Quando
Jesus e sua comitiva chegaram até Ana no deserto, ela ficou radiante; levantou-se, pôs-se diante
deles e os recebeu com grande reverência; Jesus e Maria iam na frente dos outros. Quando Ana
chegou perto de Jesus, prosternou-se a seus pés, e os beijou chorando, cantando depois o salmo In
te, Domine, speravi, etc. Em vós, Senhor, depositei minha confiança, não ficarei confusa eternamente.
Continuou esse salmo até o fim. Logo depois abraçou sua boa filha com ternura e fez o mesmo com
suas irmãs e com todos do séquito. Depois disso, Jesus e Maria sentaram-se com Ana entre eles, e os
da comitiva cercaram-nos com seus filhos. Os bons conselhos que Ana dá àqueles que a visitam.
Quando Ana se viu em meio a sua família, falou com ternura dizendo-lhes: Rogo-vos, meus filhos, que
ouçais o que vos vou dizer: Amai-vos uns aos outros, de modo que nenhuma adversidade ou castigo
vos separe do amor fraternal; tende lembrança de que sois descendentes de uma raça tal qual vedes
diante de vossos olhos: caminhai nas sendas do Senhor; sede misericordiosos; não condeneis
ninguém; sede caridosos com os pobres; levai uma vida pura e pacífica sobre a terra; não ambicionei
os bens perecíveis da terra, desejai somente os bens eternos. Rogo-vos que no tempo da paixão de
Cristo, não o abandoneis; porque sabereis, depois dessa paixão, que ele é verdadeiramente o
Redentor dos homens. Depois de ter assim falado, Ana sentiu que a morte estava próxima, colocou
sua cabeça sobre o peito de Jesus, dizendo: Tende lembrança daquela que expira em vosso amor.
Jesus visita Ana com sua comitiva, e como foram recebidos. Depois disso, Jesus viu uma grande
claridade no céu onde os anjos estavam reunidos. Então Jesus disse a Ana: Minha amada, aqueles
que te honrarem na terra e me invocarem em teu nome serão atendidos. Essa Terça-feira é o dia do
teu nascimento. É também o dia de tua morte; por isso abençôo esse dia, e o consagro em teu nome,
e a todos àqueles que te invocarem nesse dia eu ouvirei, porque viveste santamente e glorificaste meu
Pai. E mais, por causa da grande santidade daqueles que descendem de ti, estarás sentada num dos
tronos de meu Pai celeste, a fim de que possas ver toda a família reunida, e também todos aqueles
que te servirão devotadamente. Então Ana disse a São João, o Evangelista, que ainda era jovem: Meu
querido filho, um tempo virá em que Maria, minha filha, ficará em grande aflição e poucas pessoas
então confessarão a divindade de Jesus Cristo; por isso eu a recomendo a ti, rogo-te que não a deixes
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nesse tempo de aflição, porque ela estará mergulhada em extrema tristeza; terminando de dizer essas
palavras, sentiu aproximar-se seu último momento. A morte de Santa Ana. Ana repousou sua cabeça
sobre o peito de Jesus, e Jesus colocou a sua contra o seio de Maria, falando docemente com ela.
Nesse momento Ana estendeu seus braços, Maria os sustentou, regando-os com suas lágrimas.
Percebeu-se então uma claridade que descia do céu, envolvendo Ana. Então ela pronunciou esse
versículo do salmo de Davi, dizendo: Como o cervo cansado deseja as fontes refrescantes, igualmente
minha alma suspira por vós, ó meu Deus! que sois a fonte de vida; quando aparecerei diante da face
do Pai celeste? Ela continuou esse, salmo até o fim; terminando, entregou seu espírito a Deus; e
aqueles que estavam assistindo prosternaram-se ao chão, rendendo bênção a Deus de diversas
maneiras, por salmos e cânticos; mas por comum fragilidade verteram muitas lágrimas. O corpo de
Santa Ana foi enterrado. Tendo Jesus e Maria, sua mãe, com sua comitiva ficado junto de Ana durante
vinte dias, e tendo ela morrido, levaram seu corpo a Nazaré; ungiram-no com ungüentos preciosos,
porque a mãe do Filho de Deus havia saído de suas entranhas; enterraram-na junto a Joaquim, seu
marido: permaneceram ali até domingo à noite. Estando ela enterrada, eles a choraram durante
quarenta dias. Conclusão do autor para fortalecer o que foi escrito sobre a vida de Santa Ana. Como
nada é impossível para Deus, não é necessário duvidar de modo algum das grandes maravilhas que
Deus operou naqueles que viveram santamente na terra; por isso vemos, na vida dos santos e santas,
que Deus lhes concedeu o dom de fazer uma infinidade de milagres, e coisas extraordinárias pela
virtude de seu santo nome. Aqueles que solicitaram e solicitam devotadamente Santa Ana, sentiram
os efeitos de sua poderosa interferência junto a Deus. Assim, no principio (Archos), era a luz (a
senhora dos dias, Emerantiana), e a luz gerou a graça, e a graça a beleza sem mácula, que foi
chamada Maria. Assim começa essa lenda que se poderia chamar o Evangelho da Virgem. Ana, como
sua filha Maria, santifica-se nas suas dores, porque o espírito do cristianismo é o sacrifício. O inocente
sacrificado pelo culpado! Que injustiça! dirá Michelet! Ó filósofo do amor! Podes chamar injusto um
sacrifício voluntário? O cristianismo é a graça, porque é o sacrifício. É o dever preferido ao direito,
porque o homem, com efeito, não tem outro direito que não o de fazer seu dever. E o cristianismo lhe
diz que seu dever é o de sacrificar-se pelos outros. É nesse aspecto que o cristianismo é sobrehumano.
É por isso que as fábulas pagãs, justamente admiradas por Michelet, são a Bíblia da
humanidade, o Evangelho é e continuará sendo o Testamento da Divindade. Michelet, em seu livro,
deseja dividir a graça e a lei e opô-las uma à outra. Como não compreende que ao invés de dividi-las é
preciso reuni-las, e que a graça sem lei, mas também a lei sem a graça, são duas soberanas
injustiças? Seu livro tem, entretanto, algo de grande e verdadeiro, que demonstra a grande e única
religião da humanidade, sempre revelada à fé pelo gênio, e sempre a mesma sob os véus de todas as
mitologias e de todos os símbolos. O próprio Mirville, esse diabólico incorrigível, rende homenagem a
essa maravilhosa unidade do dogma universal, que é a catolicidade das nações. A alta filosofia da
natureza, oculta sob os véus da alegoria, criou as mitologias que continuam e se completam em
nossas lendas. A lenda de Santa Ana pertence a esse ciclo de engenhosas fábulas cristãs, que se
chama lenda dourada. Essa lenda, onde o espírito simbólico do cristianismo primitivo mistura-se às
ingênuas crenças da Idade Média, pareceu-nos digna de ser reproduzida e conservada. Encontra-se
aí alguma coisa análoga à bela fábula de Psique. A graciosa, a filha da luz, é a alma humana, que
gerou o mito sublime de Maria, mãe de Jesus. Ela perde seus filhos como Psique perdeu o Amor, e os
procura através das mais rudes provas. Ela ficou à mercê da maldade do anjo mau como Psique da
cólera de Vênus; mas o demônio que a arrasta através das pedras pontiagudas e cortantes a conduz
no entanto ao seu alvo. Ela reencontra seus filhos após muito cansaço e adormece para a eternidade
sobre o peito de Jesus. O sacrifício: eis a grande palavra do cristianismo, e é o que os Renan e os
Michelet não compreendem. O sacrifício está acima de toda justiça, e por isso é a razão suprema da
graça. A natureza é bela sem dúvida, mas está cheia de morte e de corrupção. É o sacrifício que a
transfigura e que a conserva; a natureza sacrificada eleva-se acima de si própria e torna-se
sobrenatural. Havíamos dito que o sobrenaturalismo é apenas o sobrenatural exaltado. Sim, exaltado
e divinizado pelo sacrifício. Sacrifício do espírito pela fé; sacrifício da vontade pela obediência;
sacrifício dos sentidos pela austeridade; sacrifício da própria vida pelo martírio. Cristãos! eis vossos
títulos à imortalidade. Os antigos o haviam compreendido quando inventaram o devotamento sublime,
as peregrinações, a virgindade e o martírio de Antígone. Psique só desposa o Amor depois de ter
perseguido a obediência até a morte. Hércules só sobe glorioso ao céu depois de ter arrancado,
pedaço por pedaço, com sua carne sangrenta, a túnica de Djanira.
Sofrer para ser forte, morrer para renascer imortal. Eis, segundo o simbolismo religioso universal, a
única chave dos grandes mistérios. Resumimos. O espírito de sacrifício é o espírito de Jesus Cristo.O
espírito de Jesus Cristo é o de Deus e da humanidade, e a ciência dos espíritos é, se a
compreendemos bem, apenas a ciência do
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Evangelho. Epílogo
COMPOSTO À MANEIRA DAS LENDAS EVANGÉLICAS E RESUMINDO O ESPíRiTO DESTA OBRA
I OS VIVOS E OS MORTOS
Naquele tempo, Cristo passou pelo campo das sepulturas, e ali encontrou um jovem ajoelhado que
chorava diante de uma cruz. Vendo esse jovem, Jesus teve piedade de sua dor, e, aproximando-se,
perguntou-lhe: Por que choras? O jovem que chorava voltou-se e respondeu, estendendo a mão: -
Minha mãe aí está há três dias. Jesus lhe disse: Crê em mim, meu filho, tua mãe não está aí.
Colocaram aí a última vestimenta que ela deixou; por que choras sobre esse despojo insensível?
Levanta-te e caminha; tua mãe te espera. O jovem balançou tristemente a cabeça e disse: - Não me
levantarei e não caminharei para procurar a morte; eu a esperarei e ela virá; e então, eu sei, reunirme-
ei à minha mãe. Então o Cristo: - A morte espera a morte, e a vida procura a vida! Não entristeças
por uma dor egoísta e estéril a alma daquela que te precedeu; não retardes sua caminhada em
direção a Deus por teu desespero e tua inércia. Porque seu amor vive ainda em teu coração, e não o
perderás se a fizeres viver dignamente em ti. Ao invés de chorar tua mãe, ressuscita-a! Não me olhes
com admiração, e não penses que quero desmanchar tua dor! Aquela que lastimas está perto de ti; um
dos véus que separavam vossas almas caiu; resta ainda um. E separados somente por esse véu,
deveis viver um pelo outro; trabalharás para ela e ela orará por ti.
- Como trabalharei por ela? pergunta o órfão: ela já não tem necessidade de nada, agora que está sob
a terra.
- Enganas-te, meu filho, e confundes ainda o corpo com a vestimenta. Ela precisa mais do que nunca
de inteligência e de amor no mundo dos espíritos. Ora, és a vida de seu coração e a preocupação de
seu espírito, e ela te pede ajuda. Para isso passarás a vida fazendo o bem, e com isso chegarás junto
dela com as mãos plenas quando Deus vos reunir. Para ter o direito de repousar é preciso trabalhar.
Ora, se não trabalhares para tua mãe, atormentarás sua alma. Por isso te dizia: Levanta-te e caminha;
porque a alma de tua mãe levantar-se-á e caminhará contigo, e a ressuscitará em ti se fizeres frutificar
seu pensamento e seu amor. Ela tem um corpo na terra, é o teu; tens uma alma no céu, é a sua. Que
esta alma e esse corpo caminhem juntos e tua mãe reviverá. Crê, meu filho, o pensamento e o amor
jamais morrem, e aqueles que crês mortos vivem mais que tu, pensam e amam mais. Se o
pensamento da morte te entristece e apavora, refugia-te no seio da vida; é lá que encontrarás todos
aqueles que amas. Os mortos são aqueles que não pensam e não amam; porque trabalham pela
corrupção, e a corrupção por sua vez os trabalha. Deixa pois os mortos chorarem sobre os mortos, e
vive com os vivos! O amor é o elo das almas; e quando é puro, esse elo é indestrutível. Tua mãe te
precede, ela caminha para Deus; mas está ligada ainda a ti; e se adormeceres no torpor ou num triste
egoísmo, ela será forçada a te esperar e sofrerá. Mas em verdade te digo que todo o bem que fizeres
será creditado à sua alma, e se fizeres o mal, ela sofrerá voluntariamente o castigo. Por isso te digo:
Se a amas, vive por ela. O jovem então levantou-se, e suas lágrimas cessaram de correr, contemplava
a face do Senhor com admiração, porque o rosto de Cristo irradiava inteligência e amor, e a
imortalidade resplandecia em seus olhos. Então ele tomou o jovem pela mão e lhe disse: - Vem.
Depois o conduziu para o alto de uma colina que dominava a cidade inteira, e lhe disse: - Eis o
verdadeiro cemitério. Lá embaixo, nesses palácios que magoam o horizonte, há mortos que é preciso
chorar bem mais do que aqueles que aqui estão, porque aqueles não descansam. Eles se agitam na
corrupção e disputam com os vermes seus alimentos; assemelham-se ao homem que foi enterrado
vivo. O ar do céu lhes falta ao peito, e a terra pesa sobre eles. Eles estão acuados nas estreitas e
miseráveis instituições que fizeram, como nas tábuas de um caixão. Jovem que chorava e pelas
minhas palavras secou as lágrimas, chora agora e geme sobre os mortos que ainda sofrem! Chora
sobre aqueles que se crêem vivos e que são cadáveres atormentados! É a eles que é preciso gritar
com uma voz forte: Saí de vossos túmulos! Oh! Quando ressoará o clarim do anjo? O anjo que deve
despertar o mundo é o anjo da inteligência; o anjo que deve salvar o mundo é o anjo do amor. A luz
será como o relâmpago que se levanta no oriente e que é visto ao mesmo tempo no ocidente: à sua
voz o corpo do cristo, que é o pão fraternal, será revelado a todos, e em torno do corpo que deve
alimentá-los as águias se reunirão! Então o verbo humano, enfraquecido pelos interesses egoístas,
unir-se-á ao Verbo divino. E a palavra unitária, ressoando no mundo inteiro, será o clarim do anjo.
Então os vivos levantar-se-ão, os vivos que se acreditavam mortos e que sofreram esperando a
liberdade. Então tudo o que não morreu caminhará e irá para diante do Senhor, enquanto as cinzas
daqueles que já não existem serão dispersas pelo vento. Jovem, prepara-te, e acautela-te com a
morte! Vive por aqueles que amas, ama aqueles que vivem, e não chores aqueles que subiram um
degrau a mais na escada da vida; chora aqueles que estão mortos! Tua mãe te amava, ama-te por
conseguinte ainda mais agora, que seu pensamento e seu amor libertaram-se do peso da terra. Chora
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aqueles que não pensam em ti e que não te amam. Porque em verdade te digo que a humanidade tem
apenas um corpo e uma alma, e vive em tudo onde se faz sentir trabalho e sofrimento. Ora, um
membro que já não é sensível à existência ou à dor dos outros membros, está morto e deve logo ser
suprimido. Tendo dito essas coisas, o Cristo desaparece aos olhos do jovem que, após ter ficado
alguns instantes imóvel e surpreendido com a lembrança de um sonho, retoma silenciosamente o
caminho da cidade dizendo: - Vou procurar os vivos entre os mortos. E farei o bem a todos aqueles
que sofrem, sofrendo com eles e os amando, para que a alma de minha mãe o saiba e me abençoe no
céu. Porque compreendo agora que o céu não está longe de nós, e que a alma é para o corpo o que o
céu material é para a terra. O céu que cerca e sustenta a terra embebe-se da imensidão, como nossa
alma embriaga-se do próprio Deus. E aqueles que vivem no mesmo pensamento e no mesmo amor
jamais podem ser separados!
II - O FILÓSOFO DESANIMADO
Havia naquele tempo um homem que tinha estudado todas as ciências, meditado sobre todos os
sistemas e que acabara por duvidar de todas as coisas. O próprio ser parecia-lhe um sonho, porque
não encontrava nele motivo suficiente. Havia procurado a natureza de Deus e não a havia adivinhado,
porque nunca tinha amado. E sua inteligência estava obscurecida como o olho de quem fixa o sol. Por
esse motivo estava triste e desanimado. Jesus, que se ocupa dos mortos e que deseja curar os cegos,
teve piedade dessa pobre inteligência doente e desse coração fraco; e entrou uma noite no quarto
solitário do filósofo. Era um homem pálido e calvo, com os olhos fundos, a fronte enrugada e os lábios
desdenhosos. Estava acordado, só, perto de uma pequena mesa coberta de papéis e de livros; mas
não lia e não escrevia mais. A dúvida curvava sua cabeça como uma mão de chumbo, seus olhos
fixos não olhavam e sua boca sorria vagamente com uma profunda amargura. Sua lâmpada consumiase
junto dele, e suas horas passavam em silêncio; sem esperança e sem recordação. Jesus apareceu
diante dele sem nada dizer, e levantando os olhos ao céu, orou. O sábio levantou a cabeça, depois a
balançou e a deixou cair novamente, murmurando baixinho: "Visionário!" - Nosso Pai que está no céu,
que teu nome seja santificado, disse Jesus. - Ele te deixou morrer sobre a cruz, critica o pensador, e tu
chamaste inutilmente: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" - Que teu reino chegue,
continua o Salvador. - Nós o esperamos há mil oitocentos e quarenta anos, diz o filósofo, e ele está
mais longe do que nunca. - Como o sabes? pergunta-lhe então o Mestre, lançando-lhe um olhar doce
e grave. - Nem mesmo sei o que é o reino de Deus que deve vir, respondeu o filósofo. Se existe um
Deus, ele reina ou não reinará nunca. Ora, como não vejo o reino de Deus, não o espero; e não
procuro nem mesmo saber se há um Deus. - Duvidas também da existência do bem e do mal?
pergunta Jesus.
- Suas distinções são arbitrárias, visto que varia conforme os tempos e os lugares.
- Coloca teu dedo sobre a chama de tua lâmpada, diz o Salvador; por que pois retiras a mão com tanta
vivacidade? Não sabes que um pensador como tu disse que a dor não era um mal?
- É que não compartilho sua opinião, mas não sei se tenho mais razão que ele.
- Por que não compartilhas sua opinião?
- Porque sinto a dor e ela me repugna invencivelmente.
- A distinção entre o bem e o mal não é pois arbitrária relativamente às tuas repugnâncias e a tuas
atrações? diz então Jesus; e com efeito, o mal não poderia ser absoluto. O mal só existe para ti e para
todos os seres ainda imperfeitos. É pois para esses que o reino de Deus deve vir, porque eles
mesmos chegarão ao reino de Deus. Eu te convenci de uma repugnância física e te convencerei
também facilmente de uma repugnância moral. O fogo te advertiu pela dor de que destruiria a vida de
teu corpo, e a consciência te advertiu por seus lamentos e seus remorsos de que o crime perderia a
vida de tua alma. O mal para si é a destruição; o bem é a vida, e a vida é Deus! A terra mergulhada
nas trevas espera agora que o sol chegue, e no entanto o sol conserva-se radioso no centro do
universo, e é a terra que gravita em torno dele. Deus reina, mas tu não entraste ainda em seu reino;
porque o reino de meu Pai é o reino da ciência e do amor, da sabedoria e da paz. O reino de Deus é o
reino da luz, e essa luz fustiga teus olhos que não a vêem, porque procuram sua claridade neles
mesmos e só encontram obscuridades.
- Senhor, abri-me pois os olhos, disse o filósofo, e iluminai minhas trevas.
Jesus disse-lhe: - Se eu tivesse fechado teus olhos, deveria abri-los; mas se eu os abrir e tu desejares
fechá-los, como verás a luz?
Não sabes que a vontade do homem age sobre as pálpebras de seus olhos, e que se o forçarmos a
ficar com os olhos abertos ou fechados, ele perderá a visão? Posso te persuadir a acender em ti o
fogo que clareia, e é por isso que te faço ouvir minha palavra, e visto que já desejas que te abra os
olhos não estás longe de ver. Que teu desejo torne-se uma vontade forte, e abrirás tu mesmo os olhos
e verás.
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- Qual é o fogo que ilumina? perguntou o sábio.
- Tu o saberás, disse-lhe o Cristo, quando tiveres amado muito.
Porque se a razão é como uma lâmpada, é o amor que é a chama.
Se a razão é como o olho de nossa alma, é o amor que é o poder e a vida.
Uma grande razão sem amor é um belo olho morto, que é uma lâmpada ricamente esculpida, mas fria
e sem luz.
Quando o egoísmo das paixões animais havia enfraquecido a filosofia humana, salvei o mundo pela
fé, porque a fé é a filosofia do amor. Cremos naqueles que amam e naqueles que sabem ser amados:
também havia dado por base da fé uma caridade imensa, quando eu e meus apóstolos provamos aos
homens, por um martírio sangrento, a sinceridade de nosso amor. E enquanto a Igreja reinou pela
caridade, triunfou pela fé; mas a fé espera a inteligência, e aproxima-se o momento em que aqueles
que acreditaram sem ver compreenderão e verão.
Se pois desejas compreender, começa por amar, a fim de crer,
- Em que acreditarei, pois, Senhor?
- Em tudo o que ignoras: porque a fé é a confiança da ignorância racional. Crê em tudo o que Deus
sabe e tua fé abraçará a imensidão. Confia em teu pai celeste quanto a tudo de que ele se reserva o
conhecimento, e não te inquietes com os destinos infinitos. Ama essa imensa sabedoria da qual és
filho, ama os outros homens que passam ignorantes como tu na terra, e limita ainda agora tua ciência
à realização de teus deveres; tu a verás brevemente crescer por ela mesma e subir até Deus, porque
Deus se deixa ver pelos corações puros.
- Oh! ver Deus! exclamou o sábio entreabrindo os lábios trêmulos, como um homem que tem sede e
que espera a chuva no céu. Oh! reunir finalmente em meu pensamento todos os raios esparsos dessa
verdade que tanto amei e que me escapava sempre!... Mas quem me dará esse amor imenso que faz
comungar o homem com Deus, e o aproxima do centro de toda luz?
- Tu o merecerás pelas tuas obras, disse-lhe o Cristo; porque se nos corrompemos nas obras da
corrupção, se nos perdemos nas obras do ódio, crescemos e salvamo-nos pelas obras do amor. Para
se aproximar de Deus é preciso caminhar, e as ações santas são movimentos de vossa alma.
- Quais são as ações verdadeiramente santas? pergunta o doutor; a prece e o jejum?
- Ouve, diz o Cristo, e não julgues temerariamente teus irmãos que passaram procurando e chorando.
A humanidade está firmada no desejo pela prece e pelas lágrimas. E aqueles de seus filhos que
primeiro tiveram sede das coisas do céu são privados das coisas da terra; mas tudo isso é apenas o
começo. Seria preciso saber abster-se, para aprender a usar bem. Seria preciso sacrificar
primeiramente o corpo pelo pensamento, para emancipar o pensamento. Porque o céu moral é a
liberdade da alma; mas a alma é chamada a reger o corpo e não a destruí-lo, do mesmo modo que o
céu físico rege a terra e não a destrói. O tempo da prece e das lágrimas deve dar lugar aos dias do
trabalho e da esperança: porque a prece dos antigos era um trabalho, e é necessário que nosso
trabalho, para nós, seja uma prece mais eficaz e mais ativa.
- Como trabalharei? perguntou o filósofo; não sei fazer nada de útil.
- Perdeste com esforços vãos o vigor de teu pensamento, respondeu o Cristo: e tu, que querias saber
tudo, não aprendeste nem mesmo a viver. Torna-te novamente uma criança pequena e vai à escola do
amor. Aprende a amar e a fazer o bem, eis a verdadeira ciência da vida. Lembra-te da lenda de
Cristóvão. Era um gigante terrível, mas como ignorava o uso de sua força, era fraco como uma
criança. Precisava pois de um tutor, e colocou-se a serviço de um rei: mas o rei ficou doente e
Cristóvão o deixou. Ele procurou aquele que pode fazer sofrer os reis; e como não conhecia Deus,
uniu-se primeiramente ao gênio do mal. Entretanto um dia uma cruz apareceu sobre um rochedo, e o
gênio do mal caiu como que fulminado por um raio. Cristóvão procurou então aquele cujo signo é a
cruz, e um velho lhe disse que o encontraria fazendo o bem. Cristóvão não sabia nem orar nem
trabalhar, mas era forte e alto, e começou a carregar nos ombros os viajantes perdidos que queriam
atravessar a torrente. Ora, uma noite, ele carregou uma criança pequena sob a qual se inclinou, como
se estivesse segurando o mundo, porque na pessoa do pobre órfão perdido reconhecera o grande
Deus que esperava.
Compreendeste essa parábola?
- Sim, Senhor, disse o filósofo tornado cristão.
- Pois, bem! vai e faz como Cristóvão; carrega o Cristo quando ele cair de cansaço, ou quando as
torrentes do mundo se opuserem à sua passagem. O Cristo para ti será a humanidade sofredora. Sê o
olho do cego, o braço do fraco e o bastão do velho; e Deus te dirá o grande porquê da vida humana.
- Eu o farei, Senhor, e de hoje em diante sinto que já não estarei só no mundo. A qual de meus irmãos
estenderei primeiramente a mão?
- Àquele que é mais infeliz que tu, e que expira desconhecido de si mesmo no pequeno quarto vizinho
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ao teu. Vai pois em seu socorro, fala-lhe que espere, ama-o para que ele creia, faze com que ele te
ame para que viva.
- Conduzi-me para perto dele, Senhor, e falai-lhe por mim.
- Vem e olha, diz o Salvador, e toca levemente a muralha que se entreabre como uma cortina dupla; e
o sábio foi transportado em espírito ao quarto vizinho ao seu. Era o quarto de um jovem poeta que ia
morrer abandonado.
III
O POETA MORIBUNDO
Havia naquele tempo um jovem que, em boa hora, havia escutado em sua alma o eco das harmonias
universais.
Ora, essa música interior havia distraído sua atenção de todas as coisas da vida mortal, porque ele
vivia numa sociedade ainda sem harmonia. Criança, ele era o joguete das outras crianças, que o
tinham por idiota; jovem, dificilmente encontrou uma mão para apertar sua mão, um coração para
repousar seu coração. Seus dias passavam em longo silêncio e em profundo delírio; contemplava com
estranho êxtase o céu, as águas, as árvores, os campos verdejantes; depois seu olhar tornava-se fixo,
magnificências interiores se desenrolavam em seu pensamento e o levavam ainda pelo espetáculo da
natureza. Lágrimas então corriam sem querer pela face pálida de emoção, e se alguém vinha falar-lhe,
ele não ouvia. Também falavam-lhe raramente, e consideravam-no geralmente como um louco. Ele
vivia assim, só com Deus e a natureza, falando a Deus na língua da harmonia, e deixando cair sobre a
terra os cantos que ninguém escutava. Mas as necessidades materiais da vida acabaram por privá-lo
de seu inextricável mundo; ele acordou na terra, ofuscado ainda por suas visões do céu; e quando
quis caminhar, chocou-se contra os homens e contra as coisas, até que caiu ofegante e desesperado.
Foi então que se recolheu em sua pobre moradia e lá esperou a morte. Foi então que o Cristo o olhou
e dele se apiedou. O quarto do poeta era triste, nu e frio; ele estava meio coberto com algumas roupas
usadas; estendido sobre um triste leito de palha, estava agitado pela febre e seus olhos brilhavam com
um fogo sombrio. O Cristo apareceu-lhe vestido com uma túnica branca, emblema da loucura, que
havia recebido de Herodes, e a fronte totalmente coroada de espinhos sangrentos e de uma auréola
de glória.
- Irmão, disse ao pobre doente olhando-o com um inefável amor, por que queres morrer?
- Porque já não se pode viver na terra quando se viu o céu, suspirou o poeta.
- E eu, no entanto, para viver e sofrer na terra, desci do céu, retomou Jesus
- Sois o filho de Deus e sois forte.
- E quis ser o filho do homem para ter fome, para temer e para chorar. Não desfaleci no Jardim das
Oliveiras? Não gemi sobre a cruz como se Deus me tivesse abandonado?
- Bem! eu, diz o doente, saio da vida como vós do Jardim das Oliveiras, e estou sobre o leito de dor
como vós sobre a cruz.
- Se eu só tivesse feito rogar a meu Pai, nos vales, respirando o perfume das roseiras de Saron, se me
tivesse silenciosamente embriagado com os êxtases do Thabor, não teria merecido resgatar o mundo
na cruz responde o Salvador. Mas procurei a ovelha extraviada, e para parar meus pés que corriam
sem cessar atrás das misérias do povo, necessitava dos pregos dos carrascos. Houve necessidade de
pregar minhas mãos para impedi-las de cortar o pão para as multidões esfomeadas; e foi então que, já
não podendo dar outra coisa a meus irmãos, deixei correr todo o meu sangue!
- Cantei, diz o poeta, e os homens não me ouviram.
- É que cantaste só para ti e desdenhaste demais os seus desdéns. Era preciso, a exemplo do Verbo
eterno, desceres suficientemente para te fazeres ouvir.
- Talvez ao invés de me esquecer eles me tivessem crucificado!
- Só então, ó meu irmão! teria sido belo morrer para ressuscitar glorioso!
- Mestre, ao invés de consolar-me em minha última hora, vindes assustar-me e dirigir-me
repreensões?
- Venho curar-te e inspirar-te a coragem de viver, para te fazer merecer uma morte tranqüila e plena
de imortalidade.
Por que queres viver somente no céu esses dias que Deus te dá para passar na terra?
Por que deixas perder-se nas aspirações vagas o imenso amor de teu coração?
Por que te isolas no orgulho de teus sonhos, quando as dores reais sangram e palpitam em torno de
ti?
Deus não te deu o bálsamo celeste para perfumares tua cabeça; não te confiou o vinho de seu cálice
para embriagar tua boca e desgostá-la das amarguras da terra. Deverias amenizar, erguer, consolar;
deverias ser o médico das almas, e eis que tu mesmo, por haveres ocultado os remédios de Deus, és
mais doente que os outros. Não te compreenderam, dizes; mas és tu, pobre jovem, que não
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compreendeste teus irmãos. O quê! tua inteligência era superior, e não soubeste falar aos pobres de
espírito! Tu te acreditavas grande e tiveste medo de te abaixar para aproximar tua boca do ouvido dos
pequenos! Amaste e ficaste desgostoso das enfermidades dos homens! Ergue-te, pobre anjo caído, e
recomeça tua missão! Sabe que o espírito da harmonia é o espírito do amor que eu anunciava ao
mundo sob o nome do consolador. Se é o Espírito Santo que te anima, sê de hoje em diante o
consolador de teus irmãos, e para ter o direito e o poder de consolá-los, aprende a sofrer e a trabalhar
com eles. Eu era maior que tu, e mais que tu elevei minha alma ao seio das harmonias eternas; e no
entanto passei minha vida trabalhando com os carpinteiros e conversando com os pobres, iluminando
seus espíritos, movendo seus corações e curando suas doenças. Até agora só fizeste poesia em
sonhos e em parábolas, mas chegou o tempo de fazer poesia em ações! Porque tudo o que se faz por
amor à humanidade, tudo o que é devotamente, sacrifício, paciência, coragem e perseverança, tudo
isso é sublime de harmonia, é a poesia dos mártires! Ao invés de amar vagamente o infinito, procura
amar infinitamente teus irmãos que estão perto de ti. Eis um que te trago; ele sofria como tu e chegara
ao nada do pensamento por ter isolado o trabalho de seu pensamento, como tu chegaste ao
desespero do coração por ter isolado teu amor! De agora em diante ambos sabereis que não é bom
para o homem ser só. O filósofo tornado cristão aproxima-se então do leito do doente cuja febre havia
baixado rapidamente diante das palavras doces e severas de Jesus e lhe diz: - Irmão, aceita meus
cuidados e a metade do pão que me resta; amanhã trabalharemos juntos, e quando eu estiver doente
tu me atenderás e darás pão para mim. - Irmão, porque viste o céu, não destrói a escada que te fará
subir até lá; dá-me antes a mão e conduze-me, porque pensei e meditei muito, e sinto agora que não
amei o suficiente. Tu, cuja voz é o eco vivo da harmonia eterna, és um filho do amor celeste, porque a
boca fala da abundância do coração. Mas o amor não poderia tornar-se egoísta sem levar a si mesmo
à morte, e ele só encontra a plenitude da vida dando-se inteiramente aos outros. Vive, pois, para que
te ame, porque se eu amar, serei feliz; e se amas Deus, queres a felicidade daqueles que são os filhos
de Deus como tu. A harmonia é ao mesmo tempo ciência e poesia, a exatidão numérica é a grande lei
da beleza, e as magnificências harmônicas são a razão divina dos números; mas tudo isso, para ser
vivo e real, deve aplicar-se ao que é. Irmão, o positivo de Deus é mil vezes mais poético que o ideal do
homem. Procuremos Deus na humanidade e não desesperemos de seus destinos: porque suas
próprias desordens conduzem-na à harmonia, e se Deus nos contou no número daqueles que são os
primeiros a ver onde deve ir esse povo errante através das solidões, coloquemo-nos à frente desse
grande e laborioso movimento, ao invés de nos isolar e morrer, - Irmão, obrigado para ti, diz o poeta, e
obrigado para aquele que te inspira! De hoje em diante não me retirarei mais do campo de batalha
para morrer só, enquanto ainda poderia combater; julgar-me-ia um covarde e um desertor. Se eu cair
com as armas na mão na primeira ou segunda fileira da milícia humanitária, morrerei cheio de
coragem e bendizendo a Deus, e minha alma não se apresentará só diante do juiz supremo. Desde
esse dia, o filósofo e o poeta uniram-se numa santa amizade, e nunca menosprezaram os mais
humildes trabalhos para sustentar sua vida. Atravessaram assim todas as classes da sociedade e
encontraram em todos os lugares corações doentes que esperavam o bálsamo de uma palavra de
sabedoria e de amor. Por toda parte sentiram que poderiam ainda fazer o bem, e as dores da vida lhes
pareciam leves; porque as suportavam com coragem, para inspirar coragem àqueles que sofriam
como eles, e o devotamento dava-lhes uma nova força.
IV - O NOVO NICODEMOS
Havia naquele tempo um sacerdote que amava a verdade, e que procurava o bem com toda a
sinceridade de seu coração.
Ora, uma noite em que velava e orava, Cristo veio sentar-se junto dele e o olhou com bondade.
- Mestre, sois vós, finalmente? perguntou o pastor. Há muito tempo vos procuro, e sois vós que vindes
a mim durante a noite!
Jesus lhe respondeu: - Nicodemos, veio ver-me à noite porque tinha medo dos judeus: sei que tua
existência depende da nova sinagoga e não quis comprometer-te.
Porque os escribas e os fariseus, e os falsos doutores da lei perseguem-me ainda e perseguem
também àqueles que me recebem.
- Senhor, disse o sacerdote com tristeza, os gloriosos anos que compõem os bons séculos da Igreja
foram infecundos para o futuro? A verdade escapa pois sempre às ardentes aspirações do homem?
Os santos e os mártires enganaram-se, visto que dezoito séculos de luta e de estudo só tiveram como
resultado fazer ainda vossos inimigos aqueles que deveriam ser vossos ministros! Jesus disse-lhe: -
Eles não são todos meus inimigos, e meu Pai conta ainda entre eles almas generosas e corações
puros. Irei a eles como vim a ti, para lembrá-los dos signos dos tempos e para abrir seus olhos para
que vejam. Venho explicar-te ainda em segredo o que ensinava em segredo a esse doutor da antiga
lei, que era também um homem de desejo. Eu lhe dizia que a entrada do reino de Deus era um novo
90
nascimento. A vida do mundo é uma geração incessantemente renovada, e é preciso que os germes
do ano que morre sejam depositados na terra para preparar as riquezas do ano que nascerá. Mas não
se deve colocar o vinho novo nos velhos frascos. A vinha de meu Pai nunca é estéril, e de ano para
ano renova seus frutos, mas ele chama os vinhateiros em diferentes horas do dia. É por isso que eu
chamava os fiéis doutores da antiga lei para um novo nascimento, porque sua velha mãe, a sinagoga
judaica, estava moribunda, e para nascer seria preciso sair de seu seio. E aqueles que acreditaram
deixaram o cadáver da sinagoga mas ficaram unidos à sua alma, e foram os primeiros filhos da Igreja
universal. Mas a Igreja universal era um céu novo e uma terra nova; e para renovar todas as coisas
precisava lutar primeiramente contra todos os poderes da terra e do céu. É por esse motivo que os
primeiros cristãos construíram uma arca para lutar contra o furor dos ventos e a elevação das águas.
Essa arca foi a Igreja hierárquica, a santa Igreja católica, a guardiã do símbolo da unidade. Tanto que
a arca é levada pelas águas, caminha sob o sopro de Deus, e é em seu seio que toda alma viva
procura um refúgio: - mas se ela parar, a nova família deverá sair para povoar novamente o mundo, e
está aí o novo nascimento de que te falei. O sacerdote lhe diz: - Senhor, devo sair da Igreja católica?
Mas a que outra Igreja poderia reunir-me? - Não te digo para sair da Igreja católica, retoma Jesus, mas
convido-te a nela entrar. Digo-te que te separes das sombras para começares a viver na luz. Digo-te
que saias da escola para entrares na sociedade e nela aplicares a ciência que deves adquirir! Eu não
tinha vindo para destruir a lei antiga, mas para lhe dar cumprimento, e venho agora para cumprir a
nova lei. Não disse eu: Crede primeiramente e compreendereis depois, e conhecereis a verdade, e a
verdade vos tornará livres? Não disse eu que minha segunda aparição seria como o relâmpago que
fustiga os olhos de todos e que brilha ao mesmo tempo sobre o mundo inteiro? Não anunciei eu que o
espírito de inteligência viria e que sugeriria a meus discípulos o complemento de minhas palavras? E
não dizem vossos símbolos que o espírito de inteligência é o espírito de amor que deve operar uma
criação nova e que rejuvenescerá a face da terra? Ora, não é o espírito do amor o espírito de ordem e
de harmonia que deve associar todos os homens e fazê-los comungar com a unidade divina e
humana? Saí pois de todos os liames que impedem os irmãos de caminharem junto de seus irmãos,
derrubai as barreiras que separam, ampliai as moradas que se isolam, fugi das doutrinas que
reprovam uns e escolhem outros, saí da sinagoga cega, entrai na Igreja católica, que não é mais agora
um conventículo de padres e de doutores, mas a associação universal de todos os homens de
inteligência e de amor. - Senhor, disse o sacerdote, farei tudo o que me disseres. Onde irei primeiro e
como começarei? - Ficai onde estais, diz Jesus, e fazei o que tendes a fazer. Instruí as crianças,
catequizai os pobres, visitai os doentes e orais pelo povo. Que nada seja mudado em vossas obras,
mas que um amor universal vivifique e as fecunde! Pregai a misericórdia e a paz, pregai a modéstia e
o perdão das injúrias, pregai as santas aspirações voltadas para Deus e a união entre os irmãos! Que
a caridade seja a lei de vossa alma, e não imporeis à consciência dos outros constrangimentos
desesperantes! Sede doces e humildes de coração como meus primeiros discípulos, quando falardes
às mulheres, às crianças e ao povo pobre; mas sede inflexíveis como meus mártires, quando vos
quiserem corromper ou intimidar! O que te digo, digo-o para todos aqueles que, como tu, acreditarão
no espírito de inteligência e de amor, e é por esse motivo que dirijo a palavra a muitos. Não confundais
o espírito de abstinência com o espírito de morte, porque só ordenei a meus discípulos de se absterem
por um tempo das riquezas de seus pais, para que aprendessem a usá-las dignamente. Em verdade te
digo que não vim para matar a carne, mas para salvá-la submetendo-a ao espírito. Porque não deve
haver divisão entre o espírito e a arne do homem; Deus os criou e abençoou igualmente. O espírito é o
rei da carne; um rei não deve reinar para destruir. Os órgãos e os sentidos são os sujeitos da
inteligência. Um rei deve impedir seus subalternos de fazerem o mal; mas deve também prover sua
prosperidade e sua felicidade. A atração não é pois a lei geral dos seres, e o equilíbrio não é a
harmonia das atrações? Que o espírito pois não destrua a carne, e que a carne não apague o espírito.
Porque um ou outro desses excessos seria a morte! Ora, não vim dar morte àqueles que vivem, vim
para trazer saúde àqueles que estavam doentes e vida àqueles que estavam mortos! Tendo dito essas
coisas, Jesus desapareceu ao olhar do bom padre e deixou-o cheio de esperança e de coragem; pois
ele via a força de Deus relevar de tempos em tempos as fraquezas dos homens e compreendia como
a religião caminha através dos séculos crescendo e triunfando sempre.
V - O TÚMULO DE SÃO JOÃO
Naquele tempo, Jesus percorreu com a rapidez do espírito todos os pontos da terra. Todos estavam
tristes e aguardavam. E por toda parte o Cristo ainda estava só, no Jardim das Oliveiras. Ele entrou
como um pobre peregrino na basílica de São Pedro onde ninguém o reconheceu, aproximou-se do
túmulo dos apóstolos para ver se suas relíquias estavam prontas para a ressurreição; mas as cinzas
dos santos estavam frias e eles continuavam a dormir seu sono. Ora, ele é um desses apóstolos que,
segundo a tradição, jamais deveria ter morrido; aquele que a pintura simbólica representa sempre
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jovem, e que tem uma águia por emblema; é aquela a que chamamos o Apóstolo da caridade e o
discípulo do amor. É aquele que, segundo as lendas dos primeiros séculos, deve despertar no fim dos
tempos, para salvar o mundo, avivando o fogo sagrado da caridade fraternal. E, com efeito, dizem as
mesmas lendas, seus restos não foram reencontrados: os fiéis de Éfeso acreditaram sepultá-lo e
guardá-lo entre eles, mas os anjos chegaram e esconderam o apóstolo adormecido nas solidões de
Patmos. Jesus então foi à ilha de Patmos, que parece ainda assustada com o barulho dos sete
trovões; e aproximou-se da gruta onde dormia seu discípulo fiel. À entrada do túmulo, uma forma
celeste estava sentada imóvel; era como uma mulher coberta por um longo manto azulado que lhe
cobria a cabeça e a envolvia inteira, caindo em volta dela em grandes dobras. Suas mãos pálidas e
um pouco longas estavam unidas com fervor, e seus olhos plenos de uma tristeza resignada e de uma
esperança infinita estavam fixos no túmulo. Jesus aproximou-se dela e lhe disse: - Minha mãe, és tu?
Sabias sem dúvida que eu deveria vir aqui? - Eu sabia, meu filho, respondeu Maria; porque aquele
que repousa aqui, tu o amaste ternamente; e quando tu estavas para morrer, confiaste-me a ele
dizendo: "Eis tua mãe." Agora, para que possa retornar à terra na pessoa das mulheres que
compreenderão o que é ser mãe, é preciso que o discípulo do amor reviva para me proteger. Porque
devo, ó meu filho, na pessoa de todas as mulheres de inteligência e de amor, colocar-te no mundo
uma segunda vez. Minha mãe, retomou Jesus, lembra-te do que o anjo disse às mulheres que me
procuravam no sepulcro: "Por que procurais um vivo entre os mortos? Ele ressuscitou, não está mais
aqui."
- Sabes que o profeta Elias, segundo as tradições judaicas, devia retornar à terra para me preparar os
caminhos. A forma de Elias estava transfigurada e seu espírito voltou na pessoa de João Batista.
Assim em verdade te digo que vives agora na terra na pessoa de todas as mulheres que sentem
estremecer em seu seio a esperança do futuro. É por esse motivo, minha mãe, que apareces hoje pela
última vez sob tua figura simbólica. João, meu discípulo bem-amado, legou seu espírito a todos os
homens cheios de fé e de amor que querem construir a nova Jerusalém, a cidade santa da harmonia,
e em verdade te digo que aqueles que sabem honrar sua mãe são dignos de serem chamados os
filhos da mulher. Porque submetem seus corações às inspirações de teu coração, aqueles que querem
repartir o trabalho com todos os filhos da grande família segundo os atrativos e as aptidões de cada
um, a fim de que todos formem juntos o mel da colméia humana que servirá depois de alimento para
todos. Eles sabem o que é a mulher, aqueles que querem libertar seu amor de toda servidão, para que
ele jamais se prostitua e que a fonte das gerações seja pura. Levanta então e vem, ó minha mãe, vem
ao Calvário, assistir a meu último triunfo simbólico; depois reviveremos na humanidade inteira. Todas
as mulheres serão tu, e todos os homens serão eu, e nós dois faremos apenas um. E o Cristo,
levantando sua mãe e a carregando nos braços como ela o havia carregado tantas vezes quando ele
era pequeno, deixou a ilha de Patmos, e caminhando sobre as ondas do mar, foi em direção às costas
da Palestina. Nesse momento o sol levantou-se e fez resplandecer toda a superfície das águas e as
duas formas celestes deslizavam sem lançar sombra e sem deixar traços, como um casal de pássaros
maravilhosos, ou como uma nuvem leve, cheia de cores da aurora, e colorida com os reflexos do arcoíris.
VI - ADEUS AO CALVÁRIO
Jesus atravessou os campos desolados da Judéia e parou no cimo árido do antigo Calvário. Lá um
anjo com sobrancelhas negras e olho sombrio estava sentado, envolvido em suas duas vastas asas.
Era Satã, o rei do velho mundo. O anjo rebelde estava triste e cansado, e desviava o olhar com
desgosto de uma terra onde o mal estava sem talentos e onde o aborrecimento de uma corrupção
tímida sucedera aos combates titânicos das grandes paixões antigas. Ele sentia que experimentando
os homens instruíra os fortes e enganara apenas os fracos; também já não se dignava a tentar
ninguém, e sombrio, sob seu diadema de ouro, escutava vagamente caírem as almas na eternidade,
como as gotas monótonas de uma chuva eterna. Possuído por uma força que lhe era desconhecida,
viera sentar-se no Calvário e, lembrando a morte do Homem-Deus, estava com inveja. Era um anjo
poderoso e belo; mas estava com inveja do Cristo, e essa inveja era figurada por uma serpente que
mergulhava a cabeça em seu peito e carcomia seu coração. Jesus e Maria estavam em pé perto dele
e olhavam-no em silêncio, com grande piedade. Satã olhou por sua vez o Redentor e sorriu com
amargura. - Vens, perguntou-lhe Satã, experimentar morrer uma segunda vez por um mundo que não
pôde salvar teu primeiro suplício? Experimentaste inutilmente transformar as pedras em pão para
alimentar teu povo, e vens confessar-me tua derrota? Caíste do alto do Templo, e tua divindade
quebrou-se na queda? Vens para me adorar, a fim de possuíres o mundo? Vai, agora é muito tarde, e
não te saberia enganar. O império do mundo escapou àqueles que me adoravam em teu nome; e eu
mesmo estou inerte num reino sem glória. Se estás desalentado como eu, senta perto de mim, e não
pensemos nem em Deus nem nos homens. - Não venho sentar-me junto de ti, disse-lhe o Cristo,
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venho levantar-te, perdoar-te e consolar-te, para que deixes de ser mau.
- Não quero teu perdão, responde o anjo mau, e não sou eu que sou mau.
O mau é aquele que dá aos espíritos a sede de inteligência, e que envolve a verdade em um mistério
impenetrável. É aquele que deixa entrever a seu amor uma virgem ideal, uma beleza embriagadora
que os lança no delírio, e que a dá a eles para arrancá-la logo nos seus primeiros abraços e carregá-la
com cadeias eternas, É aquele, finalmente, que deu a liberdade aos anjos, e que preparou suplícios
infinitos para aqueles que não queriam ser seus escravos! O mau é aquele que matou seu filho
inocente sob pretexto de vingar nele o crime dos culpados, e que não perdoou os culpados, mas lhes
fez um crime a mais com a morte de seu filho! - Por que me lembrar tão amargamente da ignorância e
dos erros dos homens? retoma Jesus: sei melhor que tu o quanto desfiguraram a imagem de Deus, e
tu mesmo bem sabes que Deus não se parece com a imagem que fizeram dele. Deus só te deu sede
de inteligência para te embeber para sempre da verdade eterna. Mas por que fechar os olhos e
procurar o dia em ti mesmo ao invés de olhar o sol? Se procurasses a luz onde ela está, tu a verias;
porque não existem em Deus nem sombras e nem mistérios, as sombras estão em ti e os mistérios
são as fraquezas de teu espírito. Deus não deu liberdade a suas criaturas para tomá-la depois, ele a
deu a suas criaturas como esposa e não como amante ilegítima; ele quer que a possuam e não que a
violentem, porque essa casta filha do céu não sobreviveria a um ultraje, e quando sua dignidade
virginal é ofendida, a liberdade está morta para aquele que a desconheceu. Deus não quer escravos: é
o orgulho revoltado que criou a servidão. A lei de Deus é o direito real de suas criaturas, são os títulos
de sua liberdade eterna. Deus não matou seu filho, mas o filho de Deus deu voluntariamente sua vida
para matar a morte: e é por isso que ele vive agora na humanidade inteira e que salvará todas as
gerações, porque de provação em provação ele conduz a família humana à terra prometida, e ela já
saboreou os primeiros frutos. Venho pois anunciar-te, ó Satã, que chegou tua última hora, a menos
que queiras ser livre e reinar comigo sobre o mundo, pela inteligência e pelo amor. Mas não mais te
chamarás Satã, retomarás o nome glorioso de Lúcifer, e colocarei uma estrela em tua fronte e uma
tocha em tua mão. Serás o gênio do trabalho e da indústria, porque lutaste muito, sofreste muito e
pensaste dolorosamente! Estenderás tuas asas de um pólo ao outro e pairarás sobre o mundo; a
glória despertará com tua voz. Ao invés de ser o orgulho do isolamento, serás o orgulho sublime do
devotamento, e dar-te-ei o cetro da terra e a chave do céu.
- Não compreendo, disse o demônio sacudindo tristemente a cabeça, e não te poderia compreender:
sabes bem que não posso mais amar! E com um gesto doloroso o anjo decaído mostrava ao Cristo a
chaga que lhe rasgava o peito e a serpente que lhe corroia o coração. Jesus voltou-se para sua mãe e
a olhou: Maria compreendeu o olhar de seu filho, aproximou-se do anjo infeliz e não rejeitou estender
a mão em sua direção e tocar seu peito ferido. Então a serpente caiu por si mesma e expirou aos pés
de Maria, que lhe esmagou a cabeça; a chaga do coração do anjo ficou cicatrizada, e uma lágrima, a
primeira que verteu, desceu lentamente pelo rosto arrependido de Lúcifer. Essa lágrima era preciosa
como o sangue de um deus; e por ela foram resgatadas todas as blasfêmias do inferno. O anjo
regenerado prosternou-se no Calvário e beijou chorando o lugar onde outrora estivera pregada a cruz.
Depois levantou-se triunfante de esperança e resplandecente de amor, e atirou-se nos braços do
Cristo. Então o Calvário tremeu; seu cume árido revestiu-se rapidamente de um verdor fresco e
brilhante e coroou-se de flores. E no lugar onde estivera a cruz uma nova videira ergueu-se e se
carregou de frutos maduros e perfumados. O Salvador disse então: - Eis a videira que dará o vinho da
comunhão universal, e ela crescerá até que todos os seus ramos envolvam toda a terra. Depois,
tomando sua mãe pela mão, estendeu a outra mão ao anjo da liberdade e lhe disse: - Que nossas
formas simbólicas retornem agora ao céu, não mais voltarei a sofrer a morte nessa montanha; Maria
aqui não mais chorará seu filho e Lúcifer não mais trará aqui os remorsos de seu crime agora extinto.
Somos apenas um mesmo espírito: o espírito da inteligência e do amor, o espírito de liberdade e de
coragem, o espírito de vida que triunfou sobre a morte. Todos os três então elevaram-se no espaço; e
se elevaram a uma altura prodigiosa; viram a terra e todos os seus reinos que estendiam seus
caminhos uns juntos dos outros como braços entrelaçados, viram os campos verdes já das primeiras
colheitas fraternais, e do Oriente ao Ocidente ouviram o prelúdio misterioso do cântico da união. E ao
norte, sobre a crista de uma montanha azulada, viram desenhar-se a forma gigantesca de um homem
que elevava seus braços em direção ao céu. Sobre seus braços via-se ainda o traço recente das
chagas que acabavam de se romper, e seu peito estava cicatrizado como o de Lúcifer. Sob seu pé
direito, na ponta mais aguda da montanha, palpitava ainda o cadáver de um abutre cuja cabeça e asas
estavam pendentes. Essa montanha era o Cáucaso; o gigante liberto que estendia suas mãos era o
antigo Prometeu. Assim os grandes símbolos divinos e humanos reencontravam-se e se saudavam
sob um mesmo céu; depois desapareceram para dar lugar ao próprio Deus que vinha morar para
sempre com os homens.
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VII - A ÚLTIMA VISÃO
Acima das formas materiais e da atmosfera terrestre, há uma região em que as almas lançam-se livres
de suas cadeias. É lá que os aromas etéreos obedecem ao pensamento, revestindo-o de todos os
esplendores da forma ideal e povoando maravilhosas belezas do mundo espiritual, da poesia e das
visões. É a essa região que nos arrastam os mais belos sonhos durante nosso sono, e é lá que,
durante suas vigílias laboriosas, a inspiração eleva o gênio dos grandes poetas a quem o sentimento
de harmonia fez pressentir em todos os tempos os grandes destinos humanos. É lá que vivem as
imagens e que reinam as analogias. Porque a poesia está nas imagens; e a harmonia das imagens é
essencialmente analógica. É nessa região ideal que Ésquilo via sofrer Prometeu, e que Moisés
escutava falar Jeová. É lá que o maior poeta do Oriente, a águia de Patmos, o chantre do Apocalipse,
via a Igreja cristã sob a forma de uma mulher em trabalho que dava à luz penosamente o homem do
futuro. É nesse mundo maravilhoso da poesia e das visões que Deus apareceu-lhe encoberto de luz, e
tendo na mão o Evangelho eterno que se abria lentamente, enquanto os flagelos agiam sobre o
mundo e os anjos exterminadores limpavam a terra para dar lugar à cidade da unidade santa e da
harmonia, a nova Jerusalém que descia do céu totalmente edificada, porque a idéia da harmonia
existe em Deus e se realizará por si só na terra quando os homens compreenderem. A figura gloriosa
do Cristo, depois de ter percorrido a terra, subiu a essa região etérea, e lá o Redentor fez ver ao anjo,
outrora rebelde e doravante regenerado, a grande assembléia dos mártires. Lá, encontravam-se todas
as vítimas do despotismo humano, todos aqueles que prefeririam morrer a mentir para a consciência;
As vítimas de Antíoco, os mártires da antiga Roma e os suplícios da Roma nova. Uns por crenças
legítimas, outros por ilusões e sonhos, eles tinham corajosamente afrontado a tirania dos homens, e
todos eram puros perante Deus, porque tinham sofrido para conservar o mais nobre e mais belo de
seus dons: a liberdade! Por muito tempo suas almas vestidas de túnicas brancas manchadas de
sangue gemeram sob o altar e pediram justiça: mas finalmente chegara o dia e todos juntos, com
palmas na mão, avançavam e se colocavam frente ao Redentor. O Cristo apareceu no meio deles,
entre sua mãe e o anjo arrependido, e perguntou-lhes que vingança queriam de seus perseguidores. -
Senhor, que suas almas nos sejam dadas, a fim de que possamos deles dispor para a eternidade,
como eles dispuseram de nós no tempo. O Cristo, então, restituiu-lhes as chaves do céu e do inferno e
lhes disse: - As almas de vossos perseguidores são vossas. Então um grito de alegria e triunfo
ressoou das profundezas do céu até as profundezas do abismo, as almas dos mártires abriram as
portas do inferno e estenderam a mão a seus carrascos. Cada condenado encontrou um eleito como
protetor: o céu ampliou seu espaço e a virgem-mãe chorou de alegria vendo estreitar-se em torno dela
tantos filhos que acreditava perdidos para sempre. Enquanto o céu inteiro sorria com esse magnífico
espetáculo, via-se sobre a terra erguer-se um novo sol e a noite dobrar seus véus em direção ao
Ocidente. As nuvens sombrias do passado desvaneciam-se carregadas de fantasmas; eram as
sombras das grandes monarquias extintas e dos velhos cultos desaparecidos. Entre a noite e a aurora
nascente o crepúsculo branqueava a cabeça de um velho que estava sentado com o rosto voltado
para o Oriente. Era o viajante dos séculos cristãos, o maldito da civilização bárbara, o tipo dos párias,
o velho Aaswerus que repousava. O povo finalmente, tinha uma pátria, e o judeu errante obtivera seu
perdão. A terra tornara-se o templo de Deus. A associação universal realizara a caridade cristã. Todos
viviam e trabalhavam para si e cada um para todos. Cada um desfrutava em paz do fruto de suas
obras, e nenhum dos filhos de Deus padecia de fome perto da mesa de seu pai, porque o trabalho
repartido igualmente facilitava a vida de todos. A associação centuplicara as riquezas da terra, e a
união de todos os interesses dera aos trabalhos do homem uma direção tão divina e uma força tão
maravilhosa, que as próprias estações mudaram, e havia, segundo a promessa do apóstolo, um céu
novo e uma terra nova, e Jesus disse ao anjo da liberdade e do gênio: - Eis a obra que deves concluir.
Eis a nova cidade da inteligência e do amor. A terra está pronta, ela estremece de esperança. Os
homens vêem-na agora como a vira outrora o profeta, coberta de cinzas e de ossaturas; mas uma vida
nova já fermenta nessa cinza, e uma vibração divina percorre essas ossaturas dessecadas.
Brevemente elas se levantarão ao apelo do novo espírito, e um novo povo cobrirá os campos da terra.
A humanidade sairá então de um longo sono, e lhe parecerá ver o dia pela primeira vez! Tendo dito
essas palavras, o Cristo prosternou-se diante do trono de seu pai, dizendo: - Senhor, que vossa
vontade seja feita assim na terra como no céu! E a virgem, que caracteriza a mulher regenerada, e o
anjo da liberdade tornado o gênio da ordem e da harmonia, e todos os mártires consolados, e todos os
condenados penitentes e libertos de suas penas, responderam todos juntos a palavra misteriosa que
une a vontade das criaturas à do Criador, e todas as forças humanas ao poder divino: Amém!
SCA
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