A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS


A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS
Eliphas Levi
SUMÁRIO
PREFÁCIO ............................................................... 5
PRIMEIRA PARTE ......................................................... 7
Mistérios Religiosos .................................................. 7
Problemas a resolver ................................................ 7
Considerações preliminares .......................................... 7
ARTIGO I .............................................................. 11
Solução do primeiro problema ......................................... 11
O Verdadeiro Deus .................................................. 11
Esboço da teologia profética dos números ............................. 12
I - A Unidade ...................................................... 12
II - O Binário ..................................................... 14
III - O Ternário ................................................... 15
IV - O Quartenário ................................................. 16
V - O Quinário ..................................................... 18
VI - O Senário ..................................................... 21
VII - O Setenário .................................................. 22
VIII - O Número Oito ............................................... 25
IX - O Número Nove ................................................. 26
X – Número Absoluto da Cabala ...................................... 28
XI - O Número Onze ................................................. 28
XII - O Número Doze ................................................ 30
XIII - O Número Treze .............................................. 31
XIV - O Número Catorze ............................................. 34
XV - O Número Quinze ............................................... 37
XVI - O Número Dezesseis ........................................... 38
XVII - O Número Dezessete .......................................... 40
XVIII - O Número Dezoito ........................................... 41
XIX - O Número Dezenove ............................................ 42
ARTIGO II ............................................................. 44
Solução do segundo problema .......................................... 44
A Verdadeiro Religião .............................................. 44
ARTIGO III ............................................................ 47
Solução do terceiro problema ......................................... 47
Razão dos Mistérios ................................................ 47
ARTIGO IV ............................................................. 49
Solução do quarto problema ........................................... 49
A Religião Provada pelas objeções que lhe são opostas .............. 49
ARTIGO V .............................................................. 52
Solução do último problema ........................................... 52
Separar a religião da superstição e do fanatismo ................... 52
RESUMO DA PRIMEIRA PARTE EM FORMA DE DIÁLOGO .......................... 53
A Fé, A Ciência, A Razão ............................................. 53
SEGUNDA PARTE ......................................................... 56
Mistérios Filosóficos ................................................ 56
Considerações preliminares ......................................... 56
SOLUÇÃO DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS ..................................... 58
Primeira Série ....................................................... 58
Segunda Série ........................................................ 60
TERCEIRA PARTE ........................................................ 62
Os Mistérios da Natureza ............................................. 62
O Grande Agente Mágico ............................................. 62
LIVRO I ............................................................... 63
OS Mistérios Magnéticos .............................................. 63
CAPÍTULO I ......................................................... 63
A Chave do Mesmerismo ............................................ 63
Capítulo II ........................................................ 67
A vida e a morte. A vigília e o sono ............................. 67
Capítulo III ....................................................... 72
Mistérios das alucinações e da evocação dos espíritos ............ 72
As Mães .......................................................... 96
As Duplas ........................................................ 96
As Simples ....................................................... 97
Semita XXXI ..................................................... 110
Axioma .......................................................... 111
Capitulo IV ....................................................... 115
Os fantasmas fluídicos e seus mistérios ......................... 115
LIVRO II ............................................................. 118
Os Mistérios Mágicos ................................................ 118
Capítulo I ........................................................ 118
Teoria da vontade ............................................... 118
Deus e a Liberdade .............................................. 118
Deus e a Liberdade .............................................. 118
Capítulo II ....................................................... 121
O poder da palavra .............................................. 121
Capítulo III ...................................................... 124
As influências misteriosas ...................................... 124
Capítulo IV ....................................................... 129
Mistérios da perversidade ....................................... 129
QUARTA PARTE ...................................................... 134
Os grandes segredos práticos ou as realizações da ciência ....... 134
Introdução ..................................................... 134
CAPÍTULO I ........................................................ 136
Da transformação. A vara de Circe. .............................. 136
O banho de Medéia. A magia vencida por suas próprias armas. ..... 136
O grande arcano dos jesuítas e o segredo de seu poder ........... 136
Capitulo II ....................................................... 138
Como se pode conservar e renovar a juventude. Os segredos de
Cagliostro. ..................................................... 138
A possibilidade da ressurreição. Exemplo de Guilherme Postel, dito
................................................................ 138
o Ressuscitado. De um operário taumaturgo, etc. ................. 138
Capítulo III ......................................................... 141
O grande arcano da morte ........................................ 141
Capítulo IV ....................................................... 143
O grande arcano dos arcanos ..................................... 143
EPÍLOGO .............................................................. 146
A Chave dos Grandes Mistérios
De acordo com Henoch, Abraão,
Hermes Trismegisto e Salomão
Eliphas Levi
Chave absoluta das ciências ocultas dada por
Guilherme de Postel e completado por Eliphas Levi
A religião diz: Acreditai e compreendereis. A ciência vem vos dizer: Compreendei e acreditareis. "Então, toda
a ciência mudará de fisionomia; o espírito, por muito tempo destronado e esquecido, retomará seu lugar; será
demonstrado que as tradições antigas são inteiramente verdadeiras; que o paganismo não passa de um sistema
de verdades corrompidas e deslocadas; que basta limpá-las, por assim dizer, e recolocá-las em seu lugar, para
vê-las brilhar com todo o esplendor. Em uma palavra, todas as idéias mudarão; e, uma vez que, de todos os
lados, uma multidão de eleitos clama em concerto: "Vinde, Senhor, vinde!", por que reprovaríeis os homens
que se lançam nesse futuro majestoso e se glorificam de adivinhá-lo?"
Joseph de Maistre,
Soirées de Saint-Pétersbourg
PREFÁCIO
Os espíritos humanos têm a vertigem do mistério. O mistério é o abismo que atrai, sem cessar, nossa
curiosidade inquieta por suas formidáveis profundezas.
O maior mistério do infinito é a existência de Aquele para quem e somente para Ele - tudo é sem mistério.
Compreendendo o infinito, que é essencialmente incompreensível, ele próprio é o mistério infinito e
externamente insondável, ou seja, ele é, ao que tudo indica, esse absurdo por excelência, em que acreditava
Tertuliano.
Necessariamente absurdo, uma vez que a razão deve renunciar para sempre a atingi-lo; necessariamente
crível, uma vez que a ciência e a razão, longe de demonstrar que ele não é, são fatalmente levadas a deixar
acreditar que ele é, e elas próprias a adorá-lo de olhos fechados.
É que esse absurdo é a fonte infinita da razão, a luz brota eternamente das trevas eternas, a ciência, essa Babel
do espírito, pode torcer e sobrepor suas espirais subindo sempre; ela poderá fazer oscilar a Terra, nunca tocará
o céu.
Deus é o que aprenderemos eternamente a conhecer. É, por conseguinte, o que nunca saberemos.
O domínio do mistério é um campo aberto às conquistas da inteligência. Pode-se andar nele com audácia,
nunca se reduzirá sua extensão, mudar-se-á somente de horizontes. Todo saber é o sonho do impossível, mas
ai de quem não ousa aprender tudo e não sabe que, para saber alguma coisa, é preciso resignar-se-a estudar
sempre!
Dizem que para bem aprender é preciso esquecer várias vezes. O mundo seguiu esse método. Tudo o que se
questiona em nossos dias havia sido resolvido pelos antigos; anteriores a nossos anais, suas soluções escritas
em hieróglifos não tinham mais sentido para nós; um homem reencontrou sua chave, abriu as necrópoles da
ciência antiga e deu a seu século todo um mundo de teoremas esquecidos, de sínteses simples e sublimes
como a natureza, irradiando sempre unidade e multiplicando-se como números, com proporções tão exatas
quanto o conhecimento demonstra e revela o desconhecido. Compreender essa ciência é ver Deus. O autor
deste livro, ao terminar sua obra, acreditará tê-lo demonstrado.
Depois, quando tiverdes visto Deus, o hierofante vos dirá: Virai-vos e, na sombra que projetais na presença
desse sol das inteligências, ele fará aparecer o Diabo, o fantasma negro que vedes quando não olhais para
Deus e quando acreditais ter preenchido o céu com vossa sombra, porque os vapores da terra parecem tê-la
feito crescer ao subir.
Pôr de acordo, na ordem religiosa, a ciência com a revelação e a razão com a fé, demonstrar em filosofia os
princípios absolutos que conciliam todas as antinomias, revelar enfim o equilíbrio universal das forças
naturais, tal é a tripla finalidade desta obra, que será, por conseguinte, dividida em três partes.
Mostraremos a verdadeira religião com caracteres tais que ninguém, crente ou não, poderá desconhecê-la, será
o absoluto em matéria de religião. Estabeleceremos, em filosofia, os caracteres imutáveis dessa verdade, que
é, em ciência, realidade, em julgamento, razão e, em moral, justiça. Enfim, faremos conhecer estas leis da
natureza cujo equilíbrio é o sustento e mostraremos o quanto são vãs as fantasias de nossa imaginação diante
das realidades fecundas do movimento e da vida. Convidaremos também os grandes poetas do futuro para
refazerem a divina comédia, não mais de acordo com os sonhos do homem, mas segundo as matemáticas de
Deus.
Mistério dos outros mundos, forças ocultas, revelações estranhas, doenças misteriosas, faculdades
excepcionais, espíritos, aparições, paradoxos mágicos, arcanos herméticos, diremos tudo e explicaremos tudo.
Quem pois nos deu esse poder? Não tememos revelá-lo a nossos leitores.
Existe um alfabeto oculto e sagrado que os hebreus atribuem a Henoch, os egípcios a Tot ou a Mercúrio
Trismegisto, os gregos a Cadmo e a Palamédio. Esse alfabeto, conhecido pelos pitagóricos, compõe-se de
idéias absolutas ligadas a signos e a números e realiza, por suas combinações, as matemáticas do pensamento.
Salomão havia representado esse alfabeto por setenta e dois nomes escritos em trinta e seis talismãs e é o que
os iniciados do Oriente denominam ainda de as pequenas chaves ou clavículas de Salomão. Essas chaves são
descritas e seu uso é explicado num livro cujo dogma tradicional remonta ao patriarca Abraão, é o Sepher
Yétsirah, e, com a inteligência do Sepher Yétsirah, penetra-se o sentido oculto do Zohar, o grande livro
dogmático da Cabala dos hebreus. As clavículas de Salomão, esquecidas com o tempo e que se dizia estarem
perdidas, nós as encontramos, e abrimos sem dificuldade todas as portas dos antigos santuários, onde a
verdade absoluta parecia dormir, sempre jovem e sempre bela, como aquela princesa de um conto infantil que
espera durante um século de sono o esposo que deve despertá-la.
Depois de nosso livro, ainda haverá mistérios, mas mais alto e mais longe nas profundezas infinitas. Esta
publicação é uma luz ou uma loucura, uma mistificação ou um monumento. Lede, refleti e julgai.
PRIMEIRA PARTE
Mistérios Religiosos
Problemas a resolver
I. Demonstrar de uma maneira certa e absoluta a existência de um Deus e dela dar uma idéia satisfatória para
todos os espíritos.
II. Estabelecer a existência de uma verdadeira religião de maneira a torná-la incontestável.
III. Indicar o alcance e a razão de ser de todos os mistérios da religião única, verdadeira e universal.
IV. Transformar as objeções da filosofia em argumentos favoráveis à verdadeira religião.
V. Traçar o limite entre a religião e a superstição e dar a razão dos milagres e dos prodígios.
Considerações preliminares
Quando o conde Joseph de Maistre, este grande lógico apaixonado, disse com desespero: O mundo está sem
religião, assemelhou-se àqueles que dizem temerariamente: Deus não existe.
O mundo, com efeito, está sem a religião do conde Joseph de Maistre, assim como é provável que Deus, tal
qual o concebe a maioria dos ateus, não exista.
A religião é uma idéia apoiada num fato constante e universal; a humanidade é religiosa: a palavra religião
tem, portanto, um sentido necessário e absoluto. A própria natureza consagra a idéia que representa essa
palavra e a eleva à altura de um princípio.
A necessidade de crer liga-se estreitamente à necessidade de amar: é por isso que as almas têm necessidade de
comungar com as mesmas esperanças e com o mesmo amor. As crenças isoladas não passam de dúvidas: é o
laço da confiança mútua que faz a religião ao criar a fé.
A fé não se inventa, não se impõe, não se estabelece por convicção política; manifesta-se, como a vida, com
uma espécie de fatalidade. O mesmo poder que dirige os fenômenos da natureza estende e limita, além de
todas as previsões humanas, o domínio sobrenatural da fé. Não se imaginam as revelações, elas se impõem, e
nelas se crê. Por mais que o espírito proteste contra as obscuridades do dogma, está subjugado pela atração
dessas mesmas obscuridades, e freqüentemente o mais indócil dos pensadores coraria em aceitar o título de
homem sem religião.
A religião ocupa um espaço bem maior entre as realidades da vida do que pretendem crer aqueles que
dispensam a religião ou que têm a pretensão de dispensá-la. Tudo o que eleva o homem acima do animal, o
amor moral, a abnegação, a honra são sentimentos essencialmente religiosos. O culto da pátria e do lar, a
religião do juramento e das lembranças são coisas que a humanidade jamais abjurará sem se degradar
completamente, e que não saberiam existir sem a crença em alguma coisa maior do que a vida mortal, com
todas as suas vissicitudes, suas ignorâncias e suas misérias.
Se a perda eterna no nada tivesse de ser o resultado de todas as nossas aspirações às coisas sublimes que
sentimos serem eternas, a fruição do presente, o esquecimento do passado e a displicência para com o futuro
seriam nossos únicos deveres, e seria rigorosamente verdadeiro dizer, com um sofista célebre, que o homem
que pensa é um animal degradado.
Por isso, de todas as paixões humanas, a paixão religiosa é a mais poderosa e a mais vivaz. Produz-se seja
pela afirmação seja pela negação, com igual fanatismo, uns afirmando com obstinação o deus que fizeram à
sua imagem, outros negando Deus com temeridade, como se tivessem podido compreender e devastar por um
único pensamento todo o infinito que está ligado a seu grande nome.
Os filósofos não refletiram suficientemente sobre o fato fisiológico da religião na humanidade: a religião, com
efeito, existe além de toda discussão dogmática. É uma faculdade da alma humana, da mesma forma que a
inteligência e o amor. Enquanto houver homens, a religião existirá. Considerada assim, ela não é outra coisa
que a necessidade de um idealismo infinito, necessidade que justifica todas as aspirações ao progresso, que
inspira todas as abnegações, que sozinha impede a virtude e a honra de serem unicamente palavras que
servem para iludir a vaidade dos fracos e dos tolos em proveito dos fortes e dos hábeis.
É a essa necessidade inata de crença que se poderia dar o nome de religião natural, e tudo o que tende a
diminuir e limitar o impulso dessa crença está, na ordem religiosa, em oposição à natureza. A essência do
objeto religioso é o mistério, uma vez que a fé começa no desconhecido e abandona todo o resto às
investigações da ciência. A dúvida é, aliás, mortal à fé; ela sente que a intervenção do ser divino é necessária
para cobrir o abismo que separa o finito do infinito e afirma essa intervenção com todo o ímpeto de seu
coração, com toda a docilidade de sua inteligência. Fora desse ato de fé, a necessidade religiosa não encontra
satisfação e transmuta-se em ceticismo e em desespero. Mas, para que o ato de fé não seja um ato de loucura,
a razão quer que ele seja dirigido e regulado. Pelo quê? Pela ciência? Vimos que nesse caso a ciência é
impotente. Pela autoridade civil? É absurdo. Colocai guardas para vigiar as orações!
Resta, pois, a autoridade moral, única que pode constituir o dogma e estabelecer a disciplina do culto de
comum acordo, dessa vez, com a autoridade civil, mas não conforme às suas ordens; é preciso, em uma
palavra, que a fé dê à necessidade religiosa uma satisfação real, inteira, permanente, indubitável. Para tanto, é
preciso a afirmação absoluta, invariável, de um dogma conservado por uma hierarquia autorizada. É preciso
um culto eficaz que dê, com uma fé absoluta, uma realização substancial aos signos da crença.
A religião, assim compreendida, sendo a única que satisfaz a necessidade natural de religião, deve ser
chamada de a única verdadeiramente natural. E chegamos por nós mesmos a esta dupla definição: a
verdadeira religião natural é a religião revelada, é a religião hierárquica e tradicional, que se afirma
absolutamente acima das discussões humanas pela comunhão da fé, da esperança e da caridade.
Ao representar a autoridade moral e ao realizá-la pela eficácia de seu ministério, o sacerdote é santo e
infalível, enquanto a humanidade está sujeita ao vício e ao erro. O padre, ao agir como padre, é sempre o
representante de Deus. Pouco importam as faltas ou mesmo os crimes do homem. Quando Alexandre VI fazia
uma ordenação, não era o envenenador que impunha as mãos aos bispos, era o papa. Ora, o papa Alexandre
VI nunca corrompeu nem falsificou os dogmas que o condenavam, os sacramentos que, em suas mãos,
salvavam os outros e não o justificavam. Houve sempre e em todos os lugares homens mentirosos e
criminosos; mas, na Igreja hierárquica e divinamente autorizada, nunca houve e nunca haverá nem maus
papas nem maus padres. Mau e padre são palavras que não se ajustam.
Falamos de Alexandre VI e acreditamos que esse nome baste, sem que nos oponham outras lembranças
justamente execradas. Grandes criminosos puderam duplamente desonrar-se, por causa do caráter sagrado de
que estavam revestidos; mas não lhes foi dado desonrar esse caráter, que continua sempre radiante e
esplêndido acima da humanidade que cai.
Dissemos que não há religião sem mistérios; acrescentemos que não há mistérios sem símbolos. Sendo o
símbolo a fórmula ou a expressão do mistério, ele só exprime sua profundidade desconhecida por imagens
paradoxais emprestadas do conhecido. Devendo caracterizar o que está acima da razão científica, a forma
simbólica deve necessariamente encontrar-se fora dessa razão: daí, a palavra célebre e perfeitamente justa de
um Pai da Igreja: Creio, porque é absurdo, credo quia absurdum.
Se a ciência afirmasse o que não sabe, destruiria a si própria. A ciência não pode, portanto, realizar a obra da
fé, tanto quanto a fé não pode decidir em matéria de ciência. Uma afirmação de fé com que a ciência tenha a
temeridade de ocupar-se será apenas um absurdo para ela, da mesma forma que uma afirmação de ciência que
nos fosse dada como artigo de fé seria um absurdo na ordem religiosa. Crer e saber são dois termos que nunca
se podem confundir.
Tampouco poderiam opor-se um ao outro num antagonismo qualquer. É impossível, com efeito, crer no
contrário do que se sabe sem deixar, por isso mesmo, de o saber, e é igualmente impossível chegar a saber o
contrário do que se crê sem deixar imediatamente de crer.
Negar ou mesmo contestar as decisões da fé, e isso em nome da ciência, é provar que não se compreende nem
a ciência nem a fé: com efeito, o mistério de um Deus em três pessoas não é um problema de matemática; a
encarnação do Verbo não é um fenômeno que pertença à medicina; a redenção escapa à crítica dos
historiadores. A ciência é absolutamente impotente para decidir se se tem ou não razão de se acreditar ou não
no dogma; ela pode constatar somente os resultados da crença e, se a fé torna evidentemente os homens
melhores, se, aliás, a fé em si mesma, considerada como um fato fisiológico, é evidentemente uma
necessidade e uma força, será preciso que a ciência o admita e tome o sábio partido de contar sempre com a
fé.
Ousemos afirmar agora que existe um fato imenso, igualmente apreciável pela fé e pela ciência, um fato que
torna Deus visível de algum modo sobre a terra, um fato incontestável e de alcance universal; esse fato é a
manifestação, no mundo, a partir da época em que começa a revelação cristã, de um espírito desconhecido
pelos antigos, de um espírito evidentemente divino, mais positivo que a ciência em suas obras, mais
magnificamente ideal em suas aspirações que a mais elevada poesia, um espírito para o qual era preciso criar
um nome novo, completamente inaudito nos santuários da Antigüidade. Assim, esse nome foi criado, e
demonstraremos que esse nome, que essa palavra é, em religião, tanto para a ciência quanto para a fé, a
expressão do absoluto; a palavra é caridade e o espírito de que falamos chama-se o espírito de caridade.
Diante da caridade, a fé prosterna-se e a ciência, vencida, inclina-se. Há evidentemente aqui alguma coisa
maior do que a humanidade; a caridade prova por suas obras que não é um sonho. É mais forte do que todas
as paixões; triunfa sobre o sofrimento e a morte; faz que Deus seja compreendido por todos os corações e
parece já preencher a eternidade pela realização iniciada de suas legítimas esperanças.
Diante da caridade viva e atuante, que Proudhon ousará blasfemar? Que Voltaire ousará rir?
Empilhai, um sobre os outros, os sofismas de Diderot, os argumentos críticos de Strauss, as Ruínas de Volney
- tão bem nomeadas, pois esse homem não poderia fazer senão ruínas -, as blasfêmias dessa revolução cuja
voz extingue-se uma vez no sangue e outra no silêncio do desprezo; acrescentei a isso o que o futuro pode nos
reservar de monstruosidades e devaneios; depois, que venha a mais humilde e a mais simples de todas as
irmãs da caridade, o mundo abandonará todas as suas tolices, todos os seus crimes, todos os seus devaneios
doentios, para inclinar-se diante dessa realidade sublime.
Caridade! palavra divina, palavra que, por si, leva à compreensão de Deus, palavra que contém uma revelação
inteira! Espírito de caridade, aliança de duas palavras que são toda uma solução e todo um futuro! Que
pergunta, com efeito, essas duas palavras não podem responder?
O que é Deus para nós senão o espírito de caridade? o que é a ortodoxia? não é o espírito de caridade que não
discute sobre a fé a fim de não alterar a confiança dos pequenos e de não perturbar a paz da comunhão
universal? Ora, o que é a Igreja universal senão a comunhão em espírito de caridade? É pelo espírito de
caridade que a Igreja é infalível. O espírito de caridade é a virtude divina do sacerdócio.
Dever dos homens, garantia de seus direitos, prova de sua imortalidade, eternidade de felicidade iniciada para
eles na terra, objetivo glorioso dado a sua existência, fim e meio de seus esforços, perfeição de sua moral
individual, civil e religiosa, o espírito de caridade abrange tudo, aplica-se a tudo, tudo pode esperar, tudo
empreender e tudo cumprir.
Era pelo espírito de caridade que Jesus, expirando na cruz, dava a sua mãe um filho na pessoa de São João e,
triunfando sobre as angústias do mais horrível suplício, soltava um grito de libertação e de salvação ao dizer:
"Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito."
Foi pelo espírito de caridade que doze artesãos da Galiléia conquistaram o mundo; amaram a verdade mais do
que suas vidas; e foram sozinhos dizê-la aos povos e aos reis; provados pela tortura, foram considerados fiéis.
Mostraram às multidões a imortalidade viva em sua morte e regaram a terra com um sangue cujo calor não
podia extinguir-se, pois neles ardia a chama da caridade.
Foi pela caridade que os apóstolos constituíram seus símbolos. Disseram que acreditar juntos é melhor do que
duvidar separadamente; constituíram a hierarquia sobre a obediência, tornada tão nobre e tão grande pelo
espírito de caridade, que servir assim é reinar; formularam a fé de todos e a esperança de todos e puseram esse
símbolo sob a guarda da caridade de todos. Ai do egoísta que se apropria de uma só palavra dessa herança do
Verbo, pois é um deicida que quer desmembrar o corpo do Senhor.
O símbolo é a arca sagrada da caridade, quem quer que o toque é atingido pela morte eterna, pois a caridade
retira-se dele. É a herança sagrada de nossos filhos, é o preço do sangue de nossos pais.
Era pela caridade que os mártires se consolavam nas prisões dos césares e atraíam para sua crença seus
guardas e mesmo seus carrascos.
Era em nome da caridade que São Martinho de Tours protestava contra o suplício dos priscilianos e separavase
da comunhão do tirano que queria impor a fé pela espada.
Foi pela caridade que tantos santos consolaram o mundo dos crimes cometidos em nome da própria religião e
dos escândalos do santuário profanado.
Foi pela caridade que São Vicente de Paulo e Fenelon impuseram-se à admiração dos séculos, mesmo aos
mais ímpios, e fizeram calar de antemão o riso dos filhos de Voltaire diante da seriedade imponente de suas
virtudes.
Foi pela caridade, enfim, que a loucura da cruz tornou-se a sabedoria das nações, porque todos os nobres
corações compreenderam que é mais elevado acreditar ao lado dos que amam e devotam-se do que duvidar ao
lado dos egoístas e dos escravos do prazer!
ARTIGO I
Solução do primeiro problema
O Verdadeiro Deus
Deus só pode ser definido pela fé; a ciência não pode negar nem afirmar que ele existe.
Deus é o objeto absoluto da fé humana. No infinito, é a inteligência suprema e criadora da ordem. No mundo,
é o espírito de caridade.
Será o Ser universal uma máquina fatal que tritura eternamente as inteligências ocasionais ou uma inteligência
providencial que dirige as forças para a melhoria dos espíritos?
A primeira hipótese repugna à razão, é desesperadora e imoral.
Ciência e razão devem, portanto, inclinar-se diante da segunda.
Sim, Proudhon, Deus é uma hipótese, mas é uma hipótese tão necessária que, sem ela, todos os teoremas
tornam-se absurdos ou duvidosos.
Para os iniciados da cabala, Deus é a unidade absoluta que cria e anima os números.
A unidade da inteligência humana demonstra a unidade de Deus.
A chave dos números é a dos símbolos, porque os sintomas são as figuras analógicas da harmonia que vem
dos números.
As matemáticas não saberiam demonstrar a fatalidade cega, uma vez que são a expressão da exatidão que é o
caráter da mais suprema razão.
A unidade demonstra a analogia dos contrários; é o princípio, o equilíbrio e o fim dos números. O ato de fé
parte da unidade e retorna à unidade.
Vamos esboçar uma explicação da Bíblia pelos números, porque a Bíblia é o livro das imagens de Deus.
Perguntaremos aos números a razão dos dogmas da religião eterna, e os números responderão sempre,
reunindo-se na síntese da unidade.
As poucas páginas que se seguem são simples apanhados das hipóteses cabalísticas; são externas à fé e as
indicamos somente como pesquisas curiosas. Não nos cabe inovar em matéria de dogma, e nossas asserções
como iniciado estão inteiramente subordinadas à nossa submissão como cristão.


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