A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS - parte 9


desaparece e, segundo a especialidade absorvente ou irradiante desse egoísmo, os membros dessecam-se ou
ficam comprometidos por uma excessiva gordura. A natureza, ao fazer de nosso corpo o retrato de nossa
alma, garantiu tal semelhança para sempre, e retoca-o incansavelmente. Lindas mulheres que não sois
bondosas, estai certas de não permanecerdes belas por muito tempo. A beleza é um adiantamento que a
natureza faz à virtude: se a virtude não está pronta para o acerto da dívida, a emprestadora recuperará
impiedosamente seu capital.
A perversidade, ao modificar o organismo cujo equilíbrio ela destrói, cria ao mesmo tempo a fatalidade das
necessidades que impele à destruição do próprio organismo e à morte. Quanto menos o perverso desfruta,
mais sede de prazer tem. O vinho é como água para o ébrio, o ouro derrete nas mãos do jogador; Messalina
cansa-se sem ficar saciada. A volúpia que lhes escapa transforma-se para eles num longo desejo irritado.
Quanto mais seus excessos são homicidas, mais parece-lhes que a suprema felicidade se aproxima... Mais
uma golada de licor forte, mais um espasmo, mais uma violência contra a natureza... Ah! finalmente, o prazer!
a vida... e seu desejo, no paroxismo de sua insaciável fome, extingue-se para sempre na morte!
QUARTA PARTE
Os grandes segredos práticos ou as realizações da ciência
Introdução
As altas ciências da Cabala e da magia prometem ao homem um poder excepcional, real, efetivo, realizador, e
deve-se encará-las como vãs e mentirosas se não o dão.
Vós julgareis os doutores por suas obras, dizia o mestre supremo, e essa regra de julgamento é infalível.
Se quereis que eu acredite no que sabeis, mostrai-me o que fazeis.
Deus, para elevar o homem à emancipação moral, esconde-se dele e de certo modo abandona-lhe o governo
do mundo. Deixa-se adivinhar pelas grandezas e harmonias da natureza, a fim de que o homem se aperfeiçoe
progressivamente, sempre ampliando a idéia que faz de seu autor.
O homem conhece Deus apenas pelos nomes que dá a esse Ser dos seres e só o distingue pelas imagens que
dele tenta traçar. Assim, ele é de certo modo o criador daquele que o criou. Acredita-se o espelho de Deus e,
ampliando indefinidamente sua própria miragem, acredita poder esboçar no espaço infinito a sombra daquele
que é sem corpo, sem sombra e sem espaço.
CRIAR DEUS, CRIAR-SE A SI PRÓPRIO, TORNAR-SE INDEPENDENTE, IMPASSÍVEL E IMORTAL:
aí está com certeza um programa mais temerário do que o sonho de Prometeu. Pois bem, esse programa é
paradoxal apenas na forma que empresta a uma falsa e sacrílega interpretação. Num sentido ele é
perfeitamente razoável, e a ciência dos adeptos promete realizá-lo e dar-lhe uma perfeita execução.
O homem, com efeito, cria um Deus conforme à sua própria inteligência e à sua própria bondade, não pode
elevar seu ideal mais alto do que lhe permite seu desenvolvimento moral. O Deus que ele adora é sempre seu
próprio reflexo aumentado. Conceber o que seja o absoluto em bondade e em justiça é ser ele próprio muito
justo e muito bom.
As qualidades do espírito, as qualidades morais são riquezas, e as maiores de todas as riquezas. É preciso
adquiri-las pela luta e pelo trabalho. Objetar-nos-ão a desigualdade das aptidões e as crianças que nascem com
uma organização mais perfeita. Mas devemos crer que tais organizações são o resultado de um trabalho mais
avançado da natureza e que as crianças delas dotadas adquiriram-nas, senão por seus próprios esforços, ao
menos pelas obras solidárias dos seres humanos a quem sua existência está ligada. É um segredo da natureza,
que nada faz ao acaso; a propriedade das faculdades intelectuais mais desenvolvidas como a do dinheiro e das
terras constitui um direito imprescritível de transmissão e de herança.
Sim, o homem é chamado a terminar a obra de seu Criador, e cada um dos instantes por ele empregados para
tornar-se melhor ou perder-se é decisivo para toda uma eternidade. É pela conquista de uma inteligência para
sempre reta e de uma vontade para sempre justa que ele se torna vivo para a vida eterna, pois que nada
sobrevive à injustiça e ao erro, a não ser a pena por sua desordem. Compreender o bem é querê-lo, e, na
ordem da justiça, querer é fazer. Eis por que o Evangelho nos diz que os homens serão julgados segundo suas
obras.
Nossas obras tanto nos fazem o que somos, que, como já dissemos, nosso corpo sofre modificação com
nossos hábitos e, algumas vezes, transformação total de sua forma.
Uma forma conquistada ou suportada torna-se para toda a existência uma providência ou uma fatalidade.
Essas figuras estranhas que os egípcios davam aos símbolos humanos da divindade representam as formas
fatais. Tífon, por sua boca de crocodilo, está condenado a devorar incessantemente para encher seu ventre de
hipopótamo. Assim, por sua voracidade e sua fealdade, é consagrado à destruição eterna.
O homem pode matar ou vivificar suas faculdades pela negligência ou pelo abuso. Pode criar para si
faculdades novas pelo bom uso das que recebeu da natureza. Freqüentemente se diz que as afeições não
podem ser comandadas, que a fé não é possível a todos, que não se refaz o caráter, e todas essas asserções são
verdadeiras apenas para os preguiçosos ou os perversos. Alguém pode se tornar crente, piedoso, amante,
devoto, quando sinceramente o quer. Pode-se dar a calma da justeza ao espírito como a onipotência da justiça
à vontade. Pode-se reinar no céu pela fé, e na terra pela ciência. O homem que sabe comandar a si próprio é
rei de toda a natureza.
Vamos mostrar, neste último livro, por que meios os verdadeiros iniciados tornaram-se mestres de vida
comandando a dor e a morte; como operam em si mesmos e nos outros as transformações de Proteu; como
exercem as adivinhações de Apolônio; como fazem o ouro de Raimundo Lúlio e de Flamel; como possuem,
para renovar sua juventude, os segredos de Postel, o Ressuscitado, e do fabuloso Cagliostro. Vamos dizer,
enfim, a última palavra da magia.
CAPÍTULO I
Da transformação. A vara de Circe.
O banho de Medéia. A magia vencida por suas próprias armas.
O grande arcano dos jesuítas e o segredo de seu poder
A Bíblia conta que o rei Nabucodonosor, no auge de seu poder e orgulho, foi repentinamente transformado
em besta.
Fugiu para lugares selvagens, pôs-se a pastar a relva, deixou crescer a barba, os cabelos e todo o pêlo do
corpo, bem como as unhas, e permaneceu nesse estado durante sete anos.
Em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia, dissemos o que pensamos dos mistérios da licantropia, ou seja, da
metamorfose dos homens em lobisomens.
Todos conhecem a fábula de Circe e compreendem sua alegoria.
O ascendente fatal de uma pessoa sobre outra é a verdadeira vara de Circe.
Sabe-se que quase todas as fisionomias humanas portam alguma semelhança com um animal, isto é, a
assinatura de um instinto especializado.
Ora, os instintos são balanceados pelos instintos contrários e dominados por instintos mais fortes.
Para dominar os carneiros, o cão explora o medo do lobo.
Se vós sois cão, e se quereis que uma linda gatinha vos ame, tendes apenas uma medida a tomar:
metamorfosear-vos em gato.
Como? Pela observação, imitação e imaginação. Pensamos que se compreende aqui nossa linguagem
figurada, e recomendamos essa revelação a todos os magnetistas; aí está o mais profundo de todos os segredos
de sua arte.
Eis sua fórmula em termos técnicos:
"Polarizar sua própria luz animal, em antagonismo equilibrado com um pólo contrário."
Ou então:
Concentrar em si mesmo as especialidades absorventes para dirigir as irradiantes para uma morada
absorvente; e vice-versa.
Esse governo de nossa polarização magnética pode ser feito com o auxílio das formas animais de que
falamos, e que servirão para fixar a imaginação.
Demos um exemplo:
Quereis agir magneticamente sobre uma pessoa polarizada como vós, o que sabereis no primeiro contato, se
fordes magnetizador; porém, ela é um pouco menos forte que vós: é um rato, sois uma ratazana. Fazei-vos
gato, e tomá-la-eis.
Num dos admiráveis contos que não inventou, mas que narrou melhor do que ninguém, Perrault põe em cena
um mestre gato que, por seus ardis, induz um ogro a metamorfosear-se em rato; mal ele acabara de fazê-lo, foi
devorado pelo gato. Os contos da Mamãe Gansa seriam, como o Asno de Ouro, de Apuleio, verdadeiras
lendas mágicas, e ocultariam, sob a aparência pueril, os formidáveis segredos da ciência?
Sabe-se que os magnetizadores dão à água pura, apenas com a imposição das mãos, isto é, de sua vontade
expressa por um sinal, as propriedades e o sabor do vinho, dos licores e de todos os medicamentos possíveis.
Sabe-se também que os domadores de animais ferozes subjugam os leões fazendo-se eles mesmos mental e
magneticamente mais fortes e mais ferozes que os leões.
Jules Gérard, o intrépido matador de leões da África, seria devorado se tivesse medo. Mas, para não ter medo
de um leão, é preciso, por um esforço de imaginação e de vontade, fazer-se mais forte e mais selvagem que o
próprio animal; é preciso dizer a si mesmo: O leão sou eu, e este animal diante de mim é apenas um cão que
deve sentir medo.
Fourier sonhara os antileões: Jules Gérard realizou essa quimera do sonhador falansteriano.
Mas, para não temer os leões, basta ser um homem corajoso e ter armas, dirão.
Não, isso não basta. É preciso, por assim dizer, conhecer de cor seu leão, calcular as investidas do animal,
adivinhar seus ardis, evitar suas garras, prever seus movimentos, numa palavra, ser mestre na profissão de
leão, como diria o bom La Fontaine.
Os animais são os símbolos vivos dos instintos e das paixões dos homens. Se tornais um homem temeroso,
vós o transformais em lebre; se, ao contrário, impeli-o à ferocidade, fazeis dele um tigre. A vara de Circe é o
poder fascinador da mulher; e os companheiros de Ulisses transformados em porcos não são uma história
apenas daquele tempo.
Mas nenhuma metamorfose se opera sem destruição. Para transformar um gavião em pomba, é necessário
primeiro matá-lo, depois cortá-lo em pedaços, de modo a destruir até o menor vestígio de sua primeira forma,
depois fervê-lo no banho mágico de Medéia.
Vede como os hierofantes modernos procedem para realizar a regeneração humana; como fazem, por
exemplo, na religião católica para transformarem um homem mais ou menos fraco e apaixonado num estóico
missionário da Companhia de Jesus.
Aí está o grande segredo dessa ordem venerável e terrível, sempre desconhecida, freqüentemente caluniada e
sempre soberana.
Lede atentamente o livro intitulado os Exercícios de Santo Inácio e vede com que mágico poder esse gênio
opera a realização da fé.
Ele ordena a seus discípulos que vejam, toquem, cheirem, degustem as coisas invisíveis; quer que os sentidos
sejam exaltados na oração até a alucinação voluntária. Meditais sobre um mistério da fé, Santo Inácio quer
primeiramente que construais um lugar, que o sonheis, vejais, toqueis. Se é o inferno, ele vos faz tatear rochas
ardentes, nadar em trevas espessas como o pez, coloca em vossa língua enxofre líquido, enche vossas narinas
de um abominável mau cheiro; mostra-vos atrozes suplícios, vos faz ouvir gemidos sobre-humanos; diz à
vossa vontade para criar tudo isso através de exercícios persistentes. Cada um o faz a seu modo, mas sempre
da forma mais capaz de impressioná-lo. Não é mais a embriaguez do haxixe servindo à fraude do Velho da
Montanha; é um sonho sem sono, uma alucinação sem loucura, uma visão racional e intencional, uma criação
verdadeira da inteligência e da fé. Daí em diante, ao pregar, o jesuíta poderá dizer: É o que vimos com nossos
olhos, o que ouvimos com nossos ouvidos, o que nossas mãos tocaram, é isso o que vos anunciamos. O
jesuíta assim formado comunga com um círculo de vontades exercitadas como a sua: desse modo, cada um
dos padres é forte como a sociedade, e a sociedade é mais forte que o mundo.
Capitulo II
Como se pode conservar e renovar a juventude. Os segredos de Cagliostro.
A possibilidade da ressurreição. Exemplo de Guilherme Postel, dito
o Ressuscitado. De um operário taumaturgo, etc.
Sabemos que uma vida sóbria, moderadamente laboriosa e perfeitamente regular geralmente prolonga a
existência. Mas é pouco, a nosso ver, a prolongação da velhice; temos o direito de pedir à ciência que
professamos outros privilégios e outros segredos.
Ser por muito tempo jovem, ou mesmo voltar a sê-lo, eis o que pareceria, com razão, desejável e precioso
para a maioria dos homens. É possível? É o que vamos examinar.
O famoso conde de Saint-Germain morreu, não duvidamos disso; mas nunca o viram envelhecer. Aparentava
sempre quarenta anos, e no auge de sua celebridade afirmava ter mais de oitenta.
Ninon de l’Enclos, tendo atingido uma idade avançada, era ainda uma mulher jovem, bela e sedutora. Morreu
sem ter envelhecido.
Desbarrolles, o célebre quiromante, há muito tempo é para todo o mundo um homem de trinta e cinco anos.
Sua certidão de nascimento diria outra coisa, se ousasse mostrar-se; mas ninguém acreditaria.
Cagliostro sempre foi visto com a mesma idade, e não apenas pretendia possuir um elixir que devolvia aos
idosos, por um instante, todo o vigor da juventude, como também gabava-se de operar a regeneração física
por meios que detalhamos e analisamos em nossa História da Magia.
Cagliostro e o conde de Saint-Germain atribuíam a conservação de sua juventude à existência e ao uso da
medicina universal, inutilmente procurada por tantos sopradores e alquimistas.
Um iniciado do século XVI, o bom e sábio Guilherme Postel, não afirmava possuir o grande arcano da
filosofia hermética; e no entanto, após o terem visto velho e alquebrado, viram-no novamente com uma tez
vermelha e sem rugas, barba e cabelos negros, corpo ágil e vigoroso. Seus inimigos pretenderam que ele se
maquiava e que tingia os cabelos; pois os zombeteiros e os falsos sábios necessitam de uma explicação
qualquer para fenômenos que não compreendem.
O grande meio mágico para conservar a juventude do corpo é impedir a alma de envelhecer, conservando-lhe
preciosamente o frescor original de sentimentos e pensamentos que o mundo corrompido denomina ilusões, e
a que chamaremos miragens primitivas da verdade eterna.
Acreditar na felicidade da terra, na amizade, no amor, numa Providência materna que conta todos os nossos
passos e recompensará todas as nossas lágrimas é ser perfeitamente ingênuo, dirá o mundo corrompido; e não
vê que o ingênuo é ele, que se acredita forte privando-se de todas as delícias da alma.
Acreditar no bem da ordem moral é possuir o bem: e é por isso que o Salvador do mundo prometia o reino do
céu aos que se tornassem semelhantes às criancinhas. O que é a infância? É a idade da fé. A criança ainda
nada sabe da vida; desse modo, resplandece de imortalidade confiante. Como poderia duvidar da dedicação,
da ternura, da amizade, do amor, da Providência, quando está nos braços de sua mãe?
Fazei-vos crianças de coração e permanecereis jovens de corpo.
As realidades de Deus e da natureza superam infinitamente em beleza e bondade toda a imaginação dos
homens. Assim, os empedernidos são pessoas que nunca souberam ser felizes; e os desiludidos provam, por
seus dissabores, que beberam apenas em fontes lamacentas. Para gozar os prazeres, mesmo sensuais, da vida,
é preciso ter o sentido moral; e os que caluniam a existência certamente deles abusaram.
A alta magia, como provamos, reconduz o homem às leis da mais pura moral. Vel sanctum invenit, vel
sanctum facit, disse um adepto; pois ela nos faz compreender que, para ser feliz, mesmo neste mundo, é
preciso ser santo.
Ser santo! é fácil dizer; mas como dar-se a fé, quando não se acredita mais? Como reencontrar o gosto da
virtude num coração tornado insípido pelo vício?
Trata-se aqui de recorrer aos quatro verbos da ciência: saber, ousar, querer e calar-se.
É preciso impor silêncio aos dissabores, estudar o dever e começar por praticá-lo como se o amasse.
Vós sois incrédulo, por exemplo, e gostaríeis de tornar-vos cristão.
Fazei os exercícios de um cristão. Orai regularmente, servindo-vos das fórmulas cristãs; aproximai-vos dos
sacramentos supondo a fé, e a fé virá. Aí está o segredo dos jesuítas, contido nos exercícios espirituais de
Santo Inácio.
Por exercícios análogos, um tolo, se o quisesse com perseverança, tornar-se-ia um homem inteligente.
Mudando-se os hábitos da alma, mudam-se certamente os do corpo: já o dissemos e explicamos como.
O que contribui, sobretudo, para envelhecer-nos tornando-nos feios são os pensamentos rancorosos e
amargos, os julgamentos desfavoráveis que fazemos dos outros, nossas raivas por orgulho ferido e paixões
malsatisfeitas. Uma filosofia benevolente e doce evitar-nos-ia todos esses males.
Se fechássemos os olhos aos defeitos do próximo, levando em conta apenas suas boas qualidades,
encontraríamos o bem e a benevolência em toda a parte. O homem mais perverso tem seu lado bom e
abranda-se quando se sabe abordá-lo. Se nada tivésseis em comum com os vícios dos homens, nem mesmo os
perceberíeis. A amizade e as dedicações que ela inspira encontram-se até nas penitenciárias e nas prisões de
forçados. O horrível Lacenaire devolvia fielmente o dinheiro que lhe haviam emprestado, e várias vezes teve
atos de generosidade e beneficência. Não tenho dúvidas de que na vida criminosa de Cartouche e Mandrin
tenha havido lances de virtude capazes de tirar lágrimas dos olhos. Nunca houve ninguém totalmente mau
nem totalmente bom. "Ninguém é bom, a não ser Deus", disse o melhor dos mestres.
O que tomamos em nós por zelo da virtude é freqüentemente apenas um secreto amor-próprio dominador, um
ciúme dissimulado e um instinto orgulhoso de contradição. "Quando vemos desordens manifestas e pecadores
escandalosos", dizem os autores da teologia mística, "cremos que Deus os submete a maiores provas do que
nós, que certamente, ou pelo menos muito provavelmente, não as merecemos, e que faríamos bem pior em seu
lugar."
A paz! a paz! Tal é o bem supremo da alma, e foi para nos dar esse bem que Cristo veio ao mundo.
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que desejam o bem!, clamavam os espíritos do céu
quando o Salvador acabava de nascer.
Os antigos pais do cristianismo contavam um oitavo pecado capital: a tristeza.
De fato, o próprio arrependimento para o verdadeiro cristão não é uma tristeza, é um consolo, uma alegria e
um triunfo. "Queria o mal e não o quero mais, estava morto e estou vivo. O pai do filho pródigo matou o
novilho gordo porque seu filho voltou, que pode fazer o filho pródigo? Chorar, um pouco de confusão, mas
sobretudo de alegria!
Existe apenas uma coisa triste no mundo, é a loucura e o pecado. Visto que estamos livres, riamos e gritemos
de alegria, pois estamos salvos e todos os mortos que nos amam regozijam-se no céu!
Todos trazemos em nós um princípio de morte e um princípio de imortalidade. A morte é a besta, e a besta
sempre produz a tolice. Deus não ama os tolos, pois seu espírito divino denomina-se espírito de inteligência.
A tolice expia pela dor e escravidão. O bastão é feito para as bestas.
Um sofrimento é sempre uma advertência, tanto pior para o que não sabe compreender. Quando a natureza
puxa a corda é porque estamos andando de lado, quando bate é porque o perigo urge. Ai, então, de quem não
reflete!
Quando estamos maduros para a morte, deixamos a vida sem pesar e nada nos faria retornar; mas quando a
morte é prematura a alma lamenta a perda da vida, e um taumaturgo hábil poderia chamá-la de volta ao corpo.
Os livros sagrados indicam-nos o procedimento que se deve, então, adotar. O profeta Elias e o apóstolo São
Paulo empregaram-nos com sucesso. Trata-se de magnetizar o defunto colocando os pés sobre seus pés, as
mãos sobre suas mãos, a boca sobre sua boca, depois reunir toda a vontade e chamar a si longamente a alma
evadida com todas as benevolências e carinhos mentais de que se é capaz. Se o operador inspira à alma
defunta muita afeição, ou um grande respeito, se no pensamento que lhe comunica magneticamente o
taumaturgo pode persuadi-la de que a vida lhe é ainda necessária e que dias felizes lhe estão ainda prometidos
aqui embaixo, ela certamente retomará, e para os homens de ciência vulgar a morte aparente terá sido apenas
uma letargia.
Foi após uma letargia semelhante que Guilherme Postel, chamado de volta à vida pelos cuidados da mãe
Joana, reapareceu com uma juventude nova e passou a chamar-se Postel, o Ressuscitado, Postellus restitutus.
No ano de 1799, havia no subúrbio de Santo Antônio, em Paris, um ferrador que se fazia passar por adepto da
ciência hermética, chamava-se Leriche e passava por ter operado, pela medicina universal, curas milagrosas e
até mesmo ressurreições. Uma dançarina da ópera, que acreditava nele, um dia foi procurá-lo em lágrimas e
disse-lhe que seu amante morrera. O senhor Leriche acompanhou-a à casa mortuária. Quando entrava, uma
pessoa que saía disse-lhe: "É inútil o senhor subir, ele morreu há seis horas." "Não importa", disse o ferrador,
"já que eu vim, vou vê-lo." Subiu, encontrou um cadáver com o corpo todo gelado, exceto na cavidade do
estômago, onde ele acreditou sentir ainda um pouco de calor. Mandou acender um grande fogo, operou
fricções em todo o corpo com toalhas quentes, esfregou-o com medicina universal diluída em álcool (sua
pretensa medicina universal devia ser um pó mercurial análogo ao quermes das farmácias), enquanto isso a
amante do morto chorava e chamava-o à vida com as mais ternas palavras. Após uma hora e meia de
semelhantes cuidados, Leriche pôs um espelho diante do rosto do paciente e achou-o levemente embaçado. Os
cuidados foram redobrados e logo houve um sinal de vida mais acentuado; colocaram-no, então, num leito
bem aquecido e poucas horas depois ele retomara inteiramente à vida. Esse ressuscitado chamava-se Candy,
viveu, desde então, sem nunca adoecer. Em 1845, vivia ainda e morava na praça Chevalier-du-Guet, n° 6.
Contava sua ressurreição a quem quisesse ouvir, e provocava o riso dos médicos e dos membros do conselho
profissional de seu bairro. O bom homem consolava-se à maneira de Galileu e respondia-lhes: "Oh! riam o
quanto quiserem. Tudo o que sei é que o médico-legista tinha vindo, que a inumação estava permitida, que
dezoito horas mais tarde iam me enterrar e que aqui estou."
Capítulo III
O grande arcano da morte
Entristecemo-nos com freqüência ao pensar que a mais bela vida deve terminar, e a aproximação deste terrível
desconhecido a que se denomina morte faz com que nos enfastiemos com todas as alegrias da existência.
Por que nascer, se se deve viver tão pouco? Por que educar com tantos cuidados crianças que morrerão? Eis o
que pergunta a ignorância humana em suas mais freqüentes e mais tristes dúvidas.
Eis também o que vagamente se pode perguntar o embrião humano ao aproximar-se o nascimento que vai
lançá-lo num mundo desconhecido, despojando-o de seu invólucro protetor. Estudemos o mistério do
nascimento e teremos a chave do grande arcano da morte.
Lançado pelas leis da natureza no ventre de uma mulher, o espírito encarnado acorda aí lentamente, e com
esforço cria em si órgãos indispensáveis mais tarde, mas que, à medida que crescem, aumentam seu mal-estar
na situação presente. O tempo mais feliz da vida do embrião é aquele em que, sob a simples forma de uma
crisálida, estende à sua volta a membrana que lhe serve de abrigo e que nada com ele num fluido nutriente e
conservador. Ele é, então, livre e impassível, vive da vida universal e recebe o cunho das lembranças da
natureza que determinarão, mais tarde, a configuração de seu corpo e a forma dos traços de seu rosto. Essa
idade feliz poderia chamar-se a infância do embrião.
A seguir vem a adolescência, a forma humana torna-se distinta e o sexo determina-se, um movimento operase
no ovo materno semelhante aos vagos devaneios da idade que sucede à infância. A placenta, que é o corpo
externo e real do feto, sente germinar em si algo de desconhecido que já tende a escapar-se, rompendo-a. A
criança, então, entra mais distintamente na vida dos sonhos, seu cérebro, invertido como um espelho de sua
mãe, reproduz com tanta força as imaginações desta, que comunica sua forma aos próprios membros. Sua
mãe, então, é para ele o que Deus é para nós, é uma providência desconhecida, invisível, a que ele aspira a
ponto de identificar-se em tudo com o que ela admira. Está preso a ela, vive através dela e não a vê, nem
mesmo pode compreendê-la, e se pudesse filosofar talvez negasse a existência pessoal e a inteligência dessa
mãe que para ele ainda é apenas uma prisão fatal e um aparelho conservador. Pouco a pouco, no entanto, essa
sujeição incomoda-o, agita-se, atormenta-se, sofre, sente que sua vida vai terminar. Chega uma hora de
angústia e convulsão, seus liames desprendem-se, sente que vai cair no abismo do desconhecido. Está feito,
ele cai, uma sensação dolorosa oprime-o, um frio estranho invade-o, solta um último suspiro que se
transforma num primeiro grito; morreu para a vida embrionária, nasceu para a vida humana!
Na vida embrionária, parecia-lhe que a placenta era seu corpo, e de fato era seu corpo especial embrionário,
corpo inútil para uma outra vida e que deve ser rejeitado como uma imundície no instante do nascimento.
Nosso corpo na vida humana é como um segundo invólucro inútil para a terceira vida e é por isso que o
rejeitamos no instante de nosso segundo nascimento.
A vida humana comparada à vida celeste é um verdadeiro embrionato. Quando as más paixões nos matam, a
natureza aborta e nascemos antes do tempo para a eternidade, o que nos expõe à dissolução terrível a que São
João chama segunda morte.
Segundo a tradição constante dos extáticos, os abortos da vida humana permanecem nadando na atmosfera
terrestre que eles não podem ultrapassar e que aos poucos os absorve e os afoga. Têm a forma humana, mas
sempre imperfeita e truncada: a um falta a mão, a outro um braço, este já tem só o tronco, este último é uma
cabeça pálida que rola. O que os impediu de subirem ao céu foi um ferimento recebido durante a vida
humana, ferimento moral que causou uma disformidade física e, por esse ferimento, pouco a pouco toda sua
existência se vai.
Logo, sua alma imortal ficará nua e, para esconder sua vergonha criando a qualquer preço um novo véu, será
obrigada a arrastar-se nas trevas exteriores e a atravessar lentamente o mar morto, isto é, as águas
adormecidas do antigo caos.
Essas almas feridas são as larvas do segundo embrionato, alimentam seu corpo aéreo com o vapor do sangue
propagado e temem a ponta das espadas. Freqüentemente ligam-se aos homens viciados e vivem de sua vida
como o embrião vive no seio da mãe; podem, então, tomar as mais horríveis formas para representar os
desejos desenfreados dos que as alimentam, e são elas que aparecem sob a forma de demônios aos miseráveis
operadores das obras sem nome da magia negra.
Essas larvas temem a luz, sobretudo a luz dos espíritos. Um clarão de inteligência basta para fulminá-las e
precipitá-las nesse mar morto que não se deve confundir com o lago Asfaltite, na Palestina. Tudo o que aqui
revelamos pertence à tradição hipotética dos videntes e só pode ser afirmado diante da ciência em nome dessa
filosofia excepcional que Paracelso chamava a filosofia da sagacidade, philosophia sagax.
Capítulo IV
O grande arcano dos arcanos
O grande arcano, isto é, o segredo indizível inexplicável, é a ciência absoluta do bem e do mal.
"Quando tiverdes comido o fruto desta árvore, sereis como deuses", diz a serpente.
"Se comerdes, morrereis", responde a sabedoria divina.
Assim, o bem e o mal frutificam numa mesma árvore e brotam de uma mesma raiz.
O bem personificado é Deus.
O mal personificado é o diabo.
Saber o segredo ou a ciência de Deus é ser Deus.
Saber o segredo ou a ciência do diabo é ser o diabo.
Querer ser ao mesmo tempo Deus e diabo é absorver em si a antinomia mais absoluta, as duas forças
contrárias mais tensas; é querer abrigar um antagonismo infinito.
É beber um veneno que apagaria os sóis e que consumiria mundos.
É vestir a túnica devorante de Dejanira.
É votar-se à mais pronta e mais terrível de todas as mortes.
Ai daquele que quer saber demais! Pois se a ciência excessiva e temerária não o matar o tornará louco!
Comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal é associar o mal ao bem e assimilá-los um ao outro.
É cobrir com a máscara de Tífon o rosto irradiante de Osíris.
É erguer o véu sagrado de Ísis, é profanar o santuário.
O temerário que ousa olhar o sol sem sombra torna-se cego e, então, para ele o sol é negro!
É proibido contarmos mais, terminaremos nossa revelação pela figura de três pentáculos.
Essas três estrelas dizem o bastante, pode-se compará-las àquelas que desenhamos no início de nossa história
da magia, e reunindo as quatro será possível chegar a entrever o grande arcano dos arcanos.
Primeiro Pantáculo, a estrela branca
A estrela dos Três Magos
Segundo Pantáculo, a estrela negra
A má estrela
Terceiro Pentáculo, a estrela vermelha
Pentagrama do divino Paracleto
Agora, para completar nossa obra, resta-nos dar a grande chave de Guilherme Postel.
Essa chave é a do tarô. Vêem-se aí os quatro naipes, paus, copas, espada, ouros ou círculo, que correspondem
aos quatro pontos cardeais do céu e aos quatro animais ou signos simbólicos, os números e as letras dispostos
em círculo, depois os sete signos planetários com a indicação de sua tríplice repetição expressa nas três cores,
para significar o mundo natural, o mundo humano e o mundo divino, cujos emblemas hieroglíficos compõem
os vinte e um grandes trunfos de nosso jogo atual de tarô.
No centro do anel, vê-se o duplo triângulo formando a estrela ou selo de Salomão, é o ternário religioso e
metafísico análogo ao ternário natural da geração universal na substância equilibrada.
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s u t h t h u s u t h t h
Em volta do triângulo está a cruz que divide o círculo em quatro partes iguais, assim os símbolos da religião
reúnem-se às linhas da geometria, a fé completa a ciência e a ciência dá a razão da fé.
Com o auxílio dessa chave pode-se compreender o simbolismo universal do antigo mundo e comprovar suas
surpreendentes analogias com nossos dogmas. Reconhecer-se-á assim que a revelação divina é permanente na
natureza e na humanidade; sentir-se-á que o cristianismo não trouxe senão a luz e o calor ao templo universal
ao fazer descer nele o espírito de caridade que é a vida do próprio Deus.
A Chave do Grande Arcano
EPÍLOGO
Graças vos sejam dadas, meu Deus, porque vós me chamasses a essa admirável luz. Sois a inteligência
suprema e a vida absoluta desses números e dessas forças que vos obedecem para povoar o infinito com uma
criação inesgotável. As matemáticas vos provam, as harmonias vos cantam, as formas passam e vos adoram!
Abraão conheceu-vos, Hermes adivinhou-vos, Pitágoras calculou vossos movimentos, Platão aspirava a vós
em tolos os sonhos de seu gênio; mas um único iniciador, um único sábio vos revelou aos filhos da terra, um
único pôde dizer de vós: Meu pai e eu somos apenas um; glória seja, pois, para ele, pois que toda sua glória é
para vós!
Pai, vós o sabeis, aquele que escreve estas linhas muito lutou e sofreu; suportou a pobreza, a calúnia, a
proscrição odiosa, a prisão, o abandono dos que amava, e, no entanto, nunca se julgou infeliz, porque restavalhe
por consolo a verdade e a justiça!
Vós sois o único santo, Deus dos corações verdadeiros e das almas justas, e sabeis se algum dia acreditei estar
puro diante de vós; fui como todos os homens o joguete das paixões humanas, depois venci-as, ou antes,
venceste-as em mim, e destes-me, para que aí repousasse, a paz profunda dos que buscam e ambicionam a vós
somente.
Amo a humanidade porque os homens, enquanto não são insensatos, nunca são maus a não ser por erro ou
fraqueza. Amam naturalmente o bem e é por esse amor, que lhes destes como um sustentáculo em meio a suas
provações, que devem ser reconduzidos cedo ou tarde ao culto da justiça pelo amor da verdade.
Que meus livros vão agora onde Vossa Providência os enviar. Se contiverem as palavras de vossa sabedoria,
serão mais fortes que o esquecimento, se ao contrário contiverem apenas erros, sei ao menos que meu amor
pela justiça e pela verdade lhes sobreviverá, e que assim a imortalidade não pode deixar de recolher as
aspirações e os votos de minha alma que criastes imortal!
Eliphas Levi
FIM

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