A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS - parte 8


AXIOMA I
Nada resiste à vontade do homem quando ele sabe o verdadeiro e quer o bem.
AXIOMA II
Querer o mal é querer a morte. Uma vontade perversa é um começo de suicídio.
AXIOMA III
Querer o bem com violência é querer o mal; pois a violência produz a desordem, e a desordem produz o mal.
AXIOMA IV
Pode-se e deve-se aceitar o mal como meio para o bem; mas é preciso nunca querê-lo ou fazê-lo, do contrário
destruir-se-ia com uma mão o que se edificasse com a outra. A boa fé nunca justifica os maus meios; corrigeos
quando são suportados e condena-os quando deles se lança mão.
AXIOMA V
Para se ter direito de possuir, sempre é preciso querer pacientemente e por muito tempo.
AXIOMA VI
Passar a vida querendo o que é impossível possuir, sempre é abdicar da vida e aceitar a eternidade da morte.
AXIOMA VII
Quanto mais a vontade supera obstáculos, mais se fortalece. É por isso que Cristo glorificou a pobreza e a dor.
AXIOMA VIII
Quando a vontade é consagrada ao absurdo, é reprovada pela eterna razão.
AXIOMA IX
A vontade do homem justo é a vontade do próprio Deus, e é a lei da natureza.
AXIOMA X
É pela vontade que a inteligência vê. Se a, vontade é sã, a visão é justa. Deus disse: Que seja a luz! e a luz é; a
vontade disse: Que o mundo seja como eu o quero ver! e a inteligência o vê como a vontade quis. É o que
significa a expressão assim seja, que confirma os atos de fé.
AXIOMA XI
Quando alguém cria fantasmas, põe no mundo vampiros, e será preciso alimentar esses filhos de um pesadelo
voluntário com seu sangue, sua vida, sua inteligência e sua razão, sem nunca saciá-los.
AXIOMA XII
Afirmar e querer o que deve ser é criar; afirmar e querer o que não deve ser é destruir.
AXIOMA XIII
A luz é um fogo elétrico colocado pela natureza a serviço da vontade: ilumina os que dela sabem servir-se,
queima os que dela abusam.
AXIOMA XIV
O império do mundo é o império da luz.
AXIOMA XV
As grandes inteligências cuja vontade equilibra-se mal assemelham-se aos cometas, que são sóis abortados.
AXIOMA XVI
Nada fazer é tão funesto quanto fazer o mal, mas é mais covarde. O mais imperdoável dos pecados mortais é a
inércia.
AXIOMA XVII
Sofrer é trabalhar. Uma grande dor sofrida é um progresso realizado. Os que sofrem muito vivem mais do que
os que não sofrem.
AXIOMA XVIII
A morte voluntária por abnegação não é um suicídio; é a apoteose da vontade.
AXIOMA XIX
O medo é apenas uma preguiça da vontade, e é por isso que a opinião desencoraja os covardes.
AXIOMA XX
Consegui não temer o leão, e o leão vos temerá. Dizei à dor: Quero que tu sejas um prazer, e ela se tornará até
mais do que um prazer, uma felicidade.
AXIOMA XXI
Uma corrente de ferro é mais fácil de quebrar que uma corrente de flores.
AXIOMA XXII
Antes de declarar um homem feliz ou infeliz, sabei como o fez a direção de sua vontade: Tibério morria todos
os dias em Capri, enquanto Jesus provava sua imortalidade e sua divindade no Calvário e na cruz.
Capítulo II
O poder da palavra
É o verbo que cria as formas, e as formas, por sua vez, reagem sobre o verbo para modificá-lo e terminá-lo.
Toda palavra de verdade é o começo de um ato de justiça.
Pergunta-se se o homem algumas vezes pode ser necessariamente impelido para o mal. Sim, quando ele tem o
julgamento falso e, por conseguinte, o verbo injusto.
Mas alguém é tão responsável por um julgamento falso como por uma má ação.
O que falseia o julgamento são as vaidades injustas do egoísmo.
O verbo injusto, não podendo realizar-se pela criação, realiza-se pela destruição. É preciso que mate ou
morra.
Se pudesse permanecer sem ação seria a maior de todas as desordens, uma blasfêmia duradoura contra a
verdade.
Tal é a palavra ociosa da qual Cristo disse que se prestará conta no juizo final. Um gracejo, uma tolice que
recreia e que faz rir não é uma palavra ociosa.
A beleza da palavra é um esplendor de verdade. Uma palavra verdadeira é sempre bela, uma bela palavra é
sempre verdadeira.
É por isso que as obras de arte são sempre santas quando são belas.
Que me importa que Anacreonte cante Batylle, se, em seus versos, ouço as notas da divina harmonia que é o
hino eterno da beleza? A poesia é pura como o sol: ela estende seu véu de luz sobre os erros da humanidade.
Ai daquele que quisesse erguer o véu para perceber fealdades.
O Concílio de Trento disse que é permitido às pessoas sábias e prudentes lerem os livros dos antigos, mesmo
obscenos, por causa da beleza da forma.
Uma estátua de Nero ou de Heliogábalo feita como as obras-primas de Fídias não seria uma obra
absolutamente bela e absolutamente boa? E os que gostariam de vê-la destruída por representar um monstro
não mereceriam as vaias do mundo inteiro?
As estátuas escandalosas são as estátuas malfeitas; e a Vênus de Milo seria profanada se fosse exposta ao lado
das Virgens que ousam expor em algumas igrejas.
Aprende-se o mal nos livros de moral tolamente escritos, bem mais do que nas poesias de Catulo ou nas
engenhosas alegorias de Apuleio.
Não há maus livros senão os livros malpensados ou malfeitos.
Todo verbo de beleza é um verbo de verdade. É uma luz formulada em palavra.
Porém, é preciso uma sombra para que a mais brilhante luz produza-se e torne-se visível; e a palavra criadora,
para tornar-se eficaz, necessita de contraditores. É preciso que suporte a prova da negação, do sarcasmo,
depois aquela ainda bem mais cruel da indiferença e do esquecimento. "É preciso", dizia o Mestre, "que o
grão apodreça para germinar."
O verbo que afirma e a palavra que nega devem casar-se, e de sua união nascerá a verdade prática, a palavra
real e progressiva. É a necessidade que deve constranger os trabalhadores a escolherem por pedra angular a
que inicialmente fora desconhecida e rejeitada. Que a contradição nunca desencoraje, pois, os homens de
iniciativa. O arado necessita de uma terra e a terra resiste porque trabalha. Ela defende-se como todas as
virgens, concebe e dá à luz lentamente como todas as mães. Vós, pois, que quereis semear uma planta nova no
campo da inteligência, compreendei e respeitai as resistências pudibundas da experiência limitada e da razão
tardia.
Quando uma palavra nova vem ao mundo, necessita de laços e cueiros; foi o gênio que a concebeu, mas é a
experiência que deve alimentá-la. Não receeis que seja desamparada e morra; o esquecimento para ela é um
repouso favorável e as contradições são uma cultura. Quando um sol desponta no espaço, cria ou atrai
mundos. Uma única fagulha de luz fixa promete ao espaço um universo.
Toda a magia está numa palavra, e essa palavra, pronunciada cabalisticamente, é mais forte que todos os
poderes do céu, da terra e do inferno. Com o nome de Jod he van he domina-se: os reinos são conquistados
em nome de Adonai, e as forças ocultas que compõem o império de Hermes são totalmente obedientes àquele
que sabe pronunciar segundo a ciência o nome incomunicável de Agla.
Para pronunciar segundo a ciência as grandes palavras da Cabala, é preciso pronunciá-las com uma
inteligência inteira, com uma vontade que nada detenha, com uma atividade que nada rejeite. Em magia ter
dito é ter feito; o verbo começa com letras, termina com atos. Só se quer realmente algo quando se quer com
todo o coração, a ponto de por isso ferir as mais caras afeições; com todas as forças a ponto de expor a saúde,
a fortuna e a vida.
É pela devoção absoluta que a fé se prova e se constitui. Mas o homem armado de semelhante fé poderá
remover montanhas.
O inimigo mais fatal de nossas almas é a preguiça. A inércia possui uma embriaguez que nos adormece; mas
o sono da inércia é a corrupção e a morte. As faculdades da alma humana são como as ondas do oceano:
necessitam, para conservarem-se, do sal e do amargor das lágrimas; necessitam das tormentas do céu e da
agitação das tempestades.
Quando, ao invés de caminharmos na rota do progresso, queremos ser carregados, estamos dormindo nos
braços da morte; é para nós que é dito, como ao paralítico do Evangelho: Carregai vossa cama e andai! Somos
nós que devemos carregar a morte para precipitá-la na vida.
Segundo a magnífica e terrível expressão de São João, o inferno é um fogo que dorme. É uma vida sem
atividade e sem progresso; é enxofre em estagnação: stagnum ignis et sulphuris.
A vida que dorme é análoga à palavra ociosa e é disso que os homens terão de prestar contas no dia do juízo
final.
A inteligência fala e a matéria agita-se; só descansará depois de ter tomado a forma dada pela palavra. Vede o
verbo cristão há dezenove séculos trabalhando o mundo. Que combates de gigantes! Quantos erros
experimentados e rechaçados! Quanto cristianismo desiludido e irritado no fundo do protesto, desde o século
XVI até o século XVIII! O egoísmo humano, desesperado com suas derrotas, amotinou sucessivamente todas
as suas estupidezes. Revestiram o Salvador do mundo com todos os andrajos e todas as púrpuras derrisórias:
depois de Jesus o Inquisidor, fez-se o Jesus Revolucionário. Se fordes capaz, medi quantas lágrimas e quanto
sangue correram, ousai prever quanto ainda correrá antes que se chegue ao reino messiânico do Homem-
Deus, que subjuga ao mesmo tempo todas as paixões aos poderes e todos os poderes à justiça!
ADVENIAT REGNUM TUUM! Eis o que setecentos milhões de vozes repetem noite e dia em toda a
superfície da terra, há quase mil e novecentos anos, enquanto os israelitas continuam a esperar o Messias. Ele
falou, e ele voltará; veio para morrer, e prometeu retornar para viver.
CÉU É A HARMONIA DOS SENTIMENTOS GENEROSOS.
INFERNO É O CONFLITO DOS INSTINTOS COVARDES.
Quando a humanidade, a poder de experiências sangrentas e dolorosas, tiver compreendido bem essa dupla
verdade, abjurará do inferno do egoísmo para entrar no céu da abnegação e da caridade cristã.
A lira de Orfeu desbravou a Grécia selvagem, e a lira de Anfião construiu a misteriosa Tebas. É que a
harmonia é a verdade. A natureza inteira é harmonia, mas o Evangelho não é uma lira: é o livro dos princípios
eternos que devem regular e que regularão todas as liras e todas as harmonias vivas do universo.
Enquanto o mundo não compreender estas três palavras: verdade, razão, justiça, e estas: dever, hierarquia,
sociedade, a divisa revolucionária, liberdade, igualdade, fraternidade, será apenas uma tríplice mentira.
Capítulo III
As influências misteriosas
Não há meio-termo possível. Todo homem é bom ou mau. Os indiferentes, os mornos não são bons, são, pois,
maus, e os piores de todos os maus, pois são imbecis e covardes. O combate da vida assemelha-se a uma
guerra civil, os que permanecem neutros traem igualmente os dois lados e renunciam ao direito de serem
contados dentre os filhos da pátria.
Todos nós respiramos a vida dos outros e de algum modo insuflamo-lhes uma parte de nossa existência. Os
homens inteligentes e bons são, sem saberem, os médicos da humanidade, os homens tolos e maus são
envenenadores públicos.
Existem pessoas perto de quem sentimo-nos melhores. Vede esta jovem senhora da alta sociedade, ela
conversa, ri, adorna-se como todas as outras, por que, então, tudo nela é melhor e mais perfeito? Nada mais
natural que sua distinção, nada mais franco e mais nobremente despretensioso que sua conversa. Perto dela
tudo deve achar-se à vontade, exceto os maus sentimentos, mas eles são impossíveis perto dela. Ela não
encontra os corações, prende-os e os instrui, não embriaga, encanta. O que toda sua pessoa prega parece ser
uma perfeição mais aprazível do que a própria virtude; é mais graciosa que a graça, suas ações são fáceis e
inimitáveis como a bela música e os belos versos. Era dela que uma encantadora mundana, muito amiga para
ser rival, dizia depois de um baile: Pareceu-me ver a Sagrada Bíblia em movimento. Vede ao contrário esta
outra mulher, afeta a mais rígida devoção e se escandalizaria ao ouvir os anjos cantarem, mas sua fala é
malévola, seu olhar é altivo e desdenhoso; quando fala sobre virtude poderia provocar o amor ao vício. Para
ela Deus é um marido ciumento que ela tem o grande mérito de não enganar; suas máximas são desoladoras,
as ações mais vãs que caridosas e poder-se-ia dizer após a ter encontrado na igreja: Vi o diabo orando a Deus.
Ao deixar a primeira, senti-vos cheio de amor por tudo o que é belo, por tudo o que é bom e generoso. Estais
feliz por lhe terdes dito tudo o que ela vos inspirou de bem e por terdes sido por ela aprovado; dizei-vos que a
vida é boa, uma vez que foi dada por Deus a semelhantes almas, estais cheio de coragem e de esperança. A
outra vos deixa enfraquecido, rejeitado, ou talvez, o que é pior, estimulado a fazer o mal; vos faz duvidar da
honra, da piedade e do dever; perto dela só escapais ao tédio pela porta dos maus desejos. Falastes mal de
alguém para agradá-la, diminuíste-vos para adular seu orgulho, ficais descontente com ela e convosco mesmo.
O sentimento vivo e certo dessas diversas influências é próprio dos espíritos justos e das consciências
delicadas, e é precisamente o que os antigos escritores ascéticos chamavam graça do discernimento dos
espíritos.
Sois cruéis consoladores, dizia Jó a seus pretensos amigos. De fato, os seres viciosos sempre afligem ao invés
de consolarem. Têm um tato prodigioso para encontrar e escolher as mais desesperadoras banalidades.
Chorais um afeto perdido, como sois ingênuo! Zombavam de vós, não vos amavam. Com dor confessais que
vosso filho é coxo, amigavelmente vos fazem ver que ele é corcunda. Ele tosse e inquietai-vos, suplicam-vos
ternamente que tomeis cuidado, pois talvez esteja tuberculoso. Vossa mulher está doente há muito tempo,
consolai-vos, pois ela morrerá.
Espera e trabalha, eis o que o céu nos diz pela voz de todas as boas almas; desespera e morre, eis o que o
inferno nos grita em todas as palavras, todos os movimentos, todas as amizades e todos os afagos dos seres
imperfeitos ou degradados.
Qualquer que seja a reputação de uma pessoa e quaisquer que sejam os testemunhos de amizade que ela vos
dá, se, ao deixá-la, sentivos menos amigo do bem e menos forte, ela é perniciosa para vós: evitai-a.
Nossa dupla imantação produz em nós duas espécies de simpatias. Temos necessidade de, alternadamente,
absorver e irradiar. Nosso coração gosta dos contrastes, e existem poucos exemplos de mulheres que tenham
amado sucessivamente dois gênios.
Repousamo-nos pela proteção dos cansaços da admiração, é a lei do equilíbrio; mas por vezes também as
naturezas sublimes surpreendem-se em caprichos de vulgaridade. O homem, disse o abade Gerbet, é a sombra
de um Deus no corpo de um animal: existem os amigos do anjo e os complacentes para com o animal. O anjo
atrai-nos, mas, se não tomamos cuidado, é a besta que nos leva: ela deve mesmo fatalmente levar-nos quando
se trata de asneiras, isto é, das satisfações desta vida nutriz da morte, que na linguagem das bestas chama-se
vida real. Em religião, o Evangelho é um guia seguro, o mesmo não sendo em negócios, e muitas pessoas,
quando se tratasse de estabelecer a sucessão temporal de Jesus Cristo, se entenderiam melhor com Judas
Iscariotes do que com São Pedro.
Admiram a probidade, disse Juvenal, e não lhe dão o que lhe cabe. Se, por exemplo, tal homem célebre não
tivesse escandalosamente mendigado a riqueza, alguém teria pensado em recompensar sua velha musa?
Alguma herança lhe teria caído do céu? A virtude toma nossa admiração, nossa bolsa, portanto, nada lhe deve,
essa grande dama é bastante rica sem nós. Preferimos dar ao vício, ele é tão pobre!
"Não gosto dos mendigos e dou apenas aos pobres vergonhosos", dizia um homem inteligente. "Mas o que
lhes dais, se não os conheceis?" "Dou-lhes minha admiração e minha estima, e não preciso conhecê-los para
isso." "Como necessitais de tanto dinheiro", foi perguntado a outro, "se não tendes filhos nem encargos?"
"Tenho meus pobres vergonhosos a quem não me posso impedir de dar muito." "Apresente-os a mim, talvez
dê-lhes também." "Oh! certamente já conheceis alguns. Tenho sete deles, que comem excessivamente, e um
oitavo que come mais do que os outros sete: os sete são os sete pecados capitais; o oitavo é o jogo."
"Senhor, dai-me cinco francos, estou morrendo de fome." "Imbecil! estás morrendo de fome e queres que te
encoraje a prosseguir em tão mau caminho! Morres de fome e tens a imprudência de confessá-lo! Queres
tornar-me cúmplice de tua incapacidade, nutriz de teu suicídio! Queres um prêmio pela miséria? Por quem me
tomas? Acaso sou um traste da tua espécie..."
"Meu amigo, preciso de um milhão de escudos para seduzir uma mulher honesta." "Ah! isso é mau; mas não
sei recusar nada a um amigo. Toma, e quando tiveres conseguido dá-me o endereço dessa pessoa." Eis o que
se chama, na Inglaterra e em outros lugares, agir como um perfeito cavalheiro.
"O homem honrado sem trabalho rouba, e não mendiga!", respondeu um dia Cartouche a um transeunte que
lhe pedia esmola. É enfático como a palavra emprestada a Cambronne; e, na realidade, talvez o célebre ladrão
e o grande general tenham ambos respondido do mesmo modo.
Foi esse mesmo Cartouche quem de outra feita ofereceu, por iniciativa própria e sem que lhe fosse pedido,
vinte mil libras a alguém falido. Entre irmãos é preciso saber viver.
A assistência mútua é uma lei da natureza. Ajudar nossos semelhantes é ajudar a nós mesmos. Mas acima da
assistência mútua eleva-se uma lei maior e mais santa: é a assistência universal, é a caridade.
Todos admiramos e amamos São Vicente de Paulo, mas quase todos temos também um fraco secreto pela
habilidade, pela presença de espírito e, sobretudo, pela audácia de Cartouche.
Os cúmplices confessos de nossas paixões podem repugnar-nos humilhando-nos; saberemos, sujeitando-nos
aos perigos, resistir-lhes por orgulho. Mas que pode haver de mais perigoso para nós que nossos cúmplices
hipócritas e ocultos? Seguem-nos como o desgosto, esperam-nos como o abismo, envolvem-nos como a
vertigem. Nós os desculpamos para desculparmo-nos, os defendemos para defendermo-nos, os justificamos
para justificarmo-nos e os suportamos em seguida porque é preciso, porque não temos força para resistir a
nossas inclinações, porque não desejamos isso.
Apossaram-se de nosso ascendente, como diz Paracelso, e onde quiserem conduzir-nos iremos.
São nossos maus anjos, sabemo-lo no fundo de nossa consciência; mas os poupamos, pois fizemo-nos seus
servidores, a fim de que eles também nos sirvam.
Nossas paixões, aduladas e poupadas, tornaram-se servas-senhoras; e os complacentes para com nossas
paixões são valetes que se tornaram nossos mestres.
Respiramos nossos pensamentos e aspiramos os dos outros impressos na luz astral, tornada sua atmosfera
eletromagnética: assim, a companhia dos maus é menos funesta para as pessoas de bem do que a dos seres
vulgares, covardes e mornos. Uma forte antipatia adverte-nos facilmente e salva-nos do contato com os vícios
grosseiros; não é assim com os vícios disfarçados, diminuídos de certo modo e tornados quase amáveis. Uma
mulher honesta sentirá apenas repulsa em companhia de uma moça perdida; mas tem tudo a recear das
seduções de uma doidivanas.
Sabemos que a loucura é contagiosa; mas os loucos são mais particularmente perigosos quando são amáveis e
simpáticos. Entramos pouco a pouco em seu círculo de idéias, chegamos a compreender seus exageros
compartilhando seus entusiasmos, habituamo-nos à sua lógica excepcional e transviada, chegamos a pensar
que não são tão loucos quanto acreditávamos no início. Daí a acreditar que são os únicos a ter razão não há
muita distância. Nós os amamos, os aprovamos, estamos loucos como eles.
As afeições são livres e podem ser racionalizadas; mas as simpatias são fatais e muito freqüentemente
desarrazoadas; dependem das atrações mais ou menos equilibradas da luz magnética, e agem sobre os homens
do mesmo modo que sobre os animais. Divertiremo-nos tolamente com uma pessoa que nada tem de amável
porque estamos misteriosamente atraídos e dominados por ela. Freqüentemente, essas simpatias estranhas
começaram por vivas antipatias; os fluidos repeliam-se no início, equilibrando-se depois.
A especialidade equilibrante do mediador plástico de cada pessoa é o que Paracelso chama seu ascendente, e
denomina flagum ao reflexo particular das idéias habituais de cada um na luz universal.
Chega-se ao conhecimento do ascendente de uma pessoa pela adivinhação sensitiva do flagum, e por um
direcionamento perseverante da vontade vira-se o lado ativo do próprio ascendente para o lado passivo do
ascendente do outro, quando se quer apoderar-se do outro e dominá-lo.
O ascendente astral foi adivinhado por outros magistas, que o chamaram turbilhão.
É, dizem eles, uma corrente de luz especializada, reproduzindo sempre um mesmo círculo de imagens, e, por
conseguinte, de impressões determinadas e determinantes. Esses turbilhões existem para os homens como
para as estrelas. "Os astros", diz Paracelso, "respiram sua alma luminosa e atraem a irradiação uns dos outros.
A alma da terra, cativa das leis fatais da gravitação, desprende-se especializando-se e passa pelo instinto dos
animais para chegar à inteligência do homem. A parte cativa dessa alma é muda, mas conserva por escrito os
segredos da natureza. A parte livre não pode mais ler essa escritura fatal sem perder instantaneamente sua
liberdade. Só se passa da contemplação muda e vegetativa ao pensamento livre e vibrante mudando de meios
e de órgãos. Daí vem o esquecimento que acompanha o nascimento e as reminiscências vagas de nossas
intuições doentias, sempre análogas às visões de nossos êxtases e de nossos sonhos."
Essa revelação do grande mestre da medicina oculta lança uma enorme luz sobre todos os fenômenos do
sonambulismo e da adivinhação. Aí está, também, para quem souber encontrá-la, a verdadeira chave das
evocações e das comunicações com a alma fluídica da terra.
As pessoas cuja influência perigosa se faz sentir num único contato são as que fazem parte de uma associação
fluídica; ou que dispõem, quer voluntariamente, quer sem saberem, de uma corrente de luz astral desviada.
Aquelas, por exemplo, que vivem no isolamento e na privação de toda comunicação humana e que estão
diariamente em relação fluídica com animais reunidos em grande número, como estão normalmente os
pastores, esses estão possuídos pelo demônio a que se denomina legião, e, por sua vez, reinam
despoticamente sobre as almas fluídicas dos rebanhos confiados à sua guarda: desse modo sua benevolência
ou sua malevolência faz prosperar ou morrer o rebanho; podem exercer essa influência de simpatia animal
sobre mediadores plásticos humanos mal defendidos por uma vontade fraca ou uma inteligência limitada.
Assim explicam-se os encantamentos operados habitualmente pelos pastores e os fenômenos ainda muito
recentes do presbitério de Cideville.
Cideville é um pequeno vilarejo da Normandia onde, há alguns anos, produziram-se fenômenos semelhantes
aos que se produziram, depois, sob a influência do senhor Home. Mirville estudou-os cuidadosamente e
Gougenot Desmousseaux repetiu todos seus detalhes num livro publicado em 1854 e intitulado: Costumes e
Práticas dos Demônios. O que há de notável nesse último autor é que ele parece adivinhar a existência do
mediador plástico ou do corpo fluídico. "Com certeza não temos duas almas", diz ele, "mas talvez tenhamos
dois corpos." Com efeito, tudo o que ele conta pareceria provar essa hipótese. Trata-se de um pastor, cuja
forma fluídica infestava um presbitério e que foi ferido à distância pelos golpes desfechados à sua larva astral.
Aqui perguntaremos aos senhores Mirville e Gougenot Desmousseaux se eles tomam esse pastor pelo diabo e
se, de perto ou à distância, o diabo, tal como o concebem, pode ser arranhado ou ferido. Na Normandia, até
então, quase não eram conhecidas as doenças magnéticas dos médiuns e o infeliz sonâmbulo, que fora preciso
tratar e curar, foi rudemente maltratado e até agredido, segundo se diz, não em aparência fluídica, mas em sua
própria pessoa, pelo próprio pároco. Aí está, convenhamos, um singular gênero de exorcismo! Se realmente
essas violências aconteceram, e se são imputáveis a um eclesiástico que dizem, e que pode ser, credulidade à
parte, muito bom e respeitável, reconheçamos que escritores como Mirville e Gougenot Desmousseaux
tornam-se de certo modo seus cúmplices.
As leis da vida física são inexoráveis e, em sua natureza animal, o homem nasce escravo da fatalidade; e é à
custa de lutas contra os instintos que ele pode conquistar a liberdade moral. Duas existências diferentes,
portanto, nos são possíveis na terra: uma fatal, a outra livre. O ser fatal é o joguete ou o instrumento de uma
força que ele não dirige: ora, quando os instrumentos da fatalidade se encontram e se chocam, o mais forte
destrói ou domina o mais fraco; os seres verdadeiramente libertos não temem nem as bruxarias nem as
influências misteriosas.
Dir-nos-ão que o encontro de Caim pode ser fatal para Abel. Sem dúvida; mas semelhante fatalidade é uma
felicidade para a santa e pura vítima, é uma infelicidade apenas para o assassino.
Assim como entre os justos existe uma grande comunidade de virtudes e méritos, existe entre os maus uma
solidez absoluta de culpabilidade fatal e castigo necessário. O crime está nas disposições do coração. As
circunstâncias quase sempre independentes da vontade fazem sozinhas a gravidade dos atos. Se a fatalidade
tivesse feito de Nero um escravo, ele se teria tornado um histrião ou um gladiador e não teria incendiado
Roma: seria preciso agradecer-lhe por isso?
Nero era cúmplice de todo o povo romano e os únicos responsáveis pela fúria desse monstro eram os que a
deveriam ter impedido. Sêneca, Burro, Tráseas, Corbulão, eis os verdadeiros culpados desse reino terrível:
grandes homens egoístas ou incapazes! Souberam apenas morrer. Se um dos ursos do Jardim Zoológico
escapasse e devorasse algumas pessoas, seria ele ou seus vigias quem deveria prestar contas? Todo aquele que
se liberta dos erros comuns deve pagar um resgate proporcional à soma desses erros: Sócrates responde por
Anito, e Jesus teve que sofrer um suplício que se igualou em horrores a toda a traição de Judas.
É assim que, ao pagar as dívidas da fatalidade, a liberdade conquistada compra o império do mundo; é a ela
que compete ligar ou desligar: Deus entregou-lhe as chaves do céu e do inferno.
Homens que abandonais as bestas a si mesmas, quereis que elas vos devorem.
As multidões escravas da fatalidade só podem gozar da liberdade pela obediência absoluta à vontade dos
homens livres; elas devem trabalhar para eles, porque eles respondem por elas.
Mas, quando a besta governa as bestas, quando o cego conduz os cegos, quando o homem fatal governa as
massas fatais, o que se deve esperar? Terríveis catástrofes, e elas nunca faltarão.
Ao admitir os dogmas anárquicos de 89, Luís XVI lançara o Estado num declive fatal. A partir desse
momento todos os crimes da Revolução pesaram unicamente sobre ele; apenas ele faltara a seu dever.
Robespierre e Marat haviam feito o que deviam fazer. Girondinos e Montanheses fatalmente mataram-se uns
aos outros e suas mortes violentas foram apenas catástrofes necessárias; houve nessa época apenas um grande
e legítimo suplício, verdadeiramente sagrado, verdadeiramente expiatório: o do rei. O princípio da realeza
devia cair se esse príncipe demasiado fraco tivesse sido absoluto. Mas era impossível uma transação entre a
ordem e a desordem. Não se herda dos que são assassinados, eles são poupados, e a Revolução reabilitou Luís
XVI ao assassiná-lo. Após tantas concessões, fraquezas, indignas vilezas, esse homem sagrado uma segunda
vez pela desgraça pôde ao menos dizer, ao subir ao cadafalso: a Revolução está julgada, e eu continuo sendo o
rei da França!
Ser justo é sofrer por todos os que não o são, mas é viver; ser mau é sofrer por si mesmo sem conquistar a
vida, é enganar-se, agir mal e morrer eternamente.
Resumindo: as influências fatais são as da morte, as influências salutares são as da vida. Conforme sejamos
mais fracos ou mais fortes na vida, atraímos ou repelimos o malefício. Esse poder oculto não é senão
demasiado real; mas a inteligência e a virtude terão sempre os meios de evitar suas obsessões e seus ataques.
Capítulo IV
Mistérios da perversidade
O equilíbrio humano compõe-se de dois atrativos; um pela morte, o outro pela vida. A fatalidade é a vertigem
que nos atrai para o abismo; a liberdade é o esforço racional que nos eleva acima das atuações fatais da morte.
O que é um pecado mortal? É uma apostasia de nossa liberdade; é um abandono de nós mesmos às leis
materiais da gravidade; um ato injusto é um pacto com a injustiça: ora, toda injustiça é uma abdicação da
inteligência. Caímos, então, sob o império da força, cujas reações sempre esmagam tudo o que se afasta do
equilíbrio.
O amor pelo mal e a adesão formal da vontade à injustiça são os últimos esforços da vontade expirante. O
homem, não importa o que faça, é mais forte que o bruto e não pode, como este, abandonar-se à fatalidade. É
necessário que escolha e que ame. A alma desesperada que se acredita apaixonada pela morte está ainda mais
viva do que uma alma sem amor. A atividade para o mal pode e deve reconduzir o homem ao bem por
contragolpe e reação. O verdadeiro mal sem remédio é a inércia.
Aos abismos da perversidade correspondem os abismos da graça. Freqüentemente Deus fez de celerados
santos; nunca fez nada de mornos e de covardes.
Sob pena de reprovação, é preciso trabalhar, é preciso agir. A natureza, aliás, provê para isso, e se não
queremos, com toda nossa coragem, ir em direção à vida, ela nos precipita com todas as suas forças para a
morte. Os que não querem caminhar, ela os arrasta.
Um homem que poderia ser chamado o grande profeta dos ébrios, Edgar Poe, esse alucinado sublime, esse
gênio da extravagância lúcida, descreveu com uma realidade assustadora os pesadelos da perversidade...
"Matei este velho porque era estrábico. Fiz isso porque não deveria ser feito."
Eis a terrível contrapartida do Credo quia absurdum, de Tertuliano.
Desafiar Deus e injuriá-lo é um último ato de fé. "Os mortos não te louvam, Senhor", diz o salmista; e
poderíamos acrescentar, se ousássemos: "Os mortos não te blasfemam."
"Oh! meu filho!", dizia um pai inclinado sobre o leito do filho, caído em letargia após um violento acesso de
delírio; "insulta-me; batame, morda-me; sentirei que ainda vives... Mas não fiques para sempre neste silêncio
medonho da tumba!"
Um grande crime sempre protesta contra uma grande tepidez. Cem mil padres honestos teriam podido, através
de uma caridade mais ativa, prevenir o atentado daquele miserável Verger. A Igreja deve julgar, condenar,
punir um eclesiástico escandaloso; mas não tem o direito de abandoná-los aos frenesis do desespero e às
tentações da miséria e da fome.
Nada é tão assustador quanto o nada; e se se pudesse jamais formular sua concepção, se fosse possível admitilo,
o inferno seria uma esperança.
Eis por que a própria natureza procura e impõe a expiação como um remédio; eis por que o suplício suplica,
como tão bem o compreendeu esse grande católico chamado conde Joseph de Maistre; eis por que a pena de
morte é o direito natural e nunca desaparecerá das leis humanas. A mácula do homicídio seria indelével se
Deus não absolvesse o cadafalso; o poder divino abdicado pela sociedade e usurpado pelos celerados
pertencer-lhes-ia sem contestação. O assassinato, então, transformar-se-ia em virtude quando exercesse as
represálias da natureza ultrajada. As vinganças particulares protestariam contra a ausência da expiação
pública, e com os restos do gládio quebrado da justiça a anarquia fabricaria punhais para si.
"Se Deus suprimisse o inferno, os homens fariam outro para desafiá-lo", dizia-nos um dia um bom padre.
Tinha razão; e é por isso que o inferno deseja tanto ser suprimido. Emancipação! tal é o grito de todos os
vícios. Emancipação do homicídio pela abolição da pena de morte; emancipação da prostituição e do
infanticídio pela abolição do casamento; emancipação da preguiça e do roubo pela abolição da propriedade...
Assim gira o turbilhão da perversidade até que chegue a esta fórmula suprema e secreta: Emancipação da
morte pela abolição da vida!
É pelas vitórias do trabalho que se escapa às fatalidades da dor. O que chamamos morte é somente o parto
eterno da natureza. Ininterruptamente, ela reabsorve e retoma em seu seio tudo o que não nasceu do espírito.
A matéria inerte por si mesma só pode existir pelo movimento perpétuo, e o espírito naturalmente volátil só
pode durar fixando-se. A emancipação das leis fatais pela adesão livre do espírito ao verdadeiro e ao bem é o
que o Evangelho denomina nascimento espiritual; a reabsorção na morada eterna da natureza é a segunda
morte.
Os seres não-emancipados são atraídos para essa segunda morte por uma gravidade fatal, arrastam-se uns aos
outros, como o divino Michelangelo tão bem nos faz ver em sua grande pintura sobre o juízo final; são
invasores e tenazes como pessoas que se afogam, e os espíritos livres devem lutar energicamente contra eles
para não serem por eles retidos em seu vôo e rebaixados fatalmente ao inferno.
Essa guerra é tão antiga quanto o mundo; os gregos representavam-na sob os símbolos de Eros e Anteros, e os
hebreus pelo antagonismo de Caim e Abel. É a guerra dos titãs e dos deuses. Os dois exércitos estão em toda a
parte, invisíveis, mas disciplinados e sempre prontos ao ataque ou à represália. As pessoas ingênuas dos dois
partidos, surpresas com as resistências súbitas e unânimes que encontram, acreditam em vastos complôs,
sabiamente organizados, das sociedades ocultas e todo-poderosas. Eugène Sue inventa Rodin; pessoas da
Igreja falam de iluminados e de maçons; Wronski sonha com seus bandos místicos, e o que há de verdadeiro e
sério no fundo de tudo isso é apenas a luta necessária entre a ordem e a desordem, os instintos e o
pensamento; o resultado dessa luta é o equilíbrio no progresso e o diabo contribui sempre, contra a sua
vontade, para a glória de São Miguel.
O amor físico é a mais perversa de todas as paixões fatais. É o anarquista por excelência; não conhece nem
leis, nem deveres, nem verdade, nem justiça. Faria a moça passar por cima do cadáver de seus pais. É uma
embriaguez irresistivel, uma loucura furiosa, uma vertigem da fatalidade que procura novas vítimas; a
embriaguez de Saturno que quer ser pai para ter crianças a quem devorar. Vencer o amor é triunfar sobre toda
a natureza. Submetê-lo à justiça é reabilitar a vida devotando-a à imortalidade; assim, as maiores obras da
revelação cristã são a criação da virgindade voluntária e a santificação do matrimônio.
Enquanto o amor é apenas um desejo e um gozo, ele é mortal. Para eternizar-se é preciso que se torne um
sacrifício, pois torna-se, então, uma força e uma virtude. É a luta de Eros e Anteros que faz o equilíbrio do
mundo.
Tudo o que superexcita a sensibilidade conduz à depravação e ao crime. As lágrimas chamam o sangue.
Existem grandes emoções que são como licores fortes, usá-las habitualmente é abusar. Ora, todo abuso das
emoções perverte o sentido moral; buscamo-las por elas mesmas, sacrificamos tudo para obtê-las. Uma
mulher romanesca se tornará facilmente uma heroína de Tribunal do Júri, chegará talvez ao deplorável e
irreparável absurdo de suicidar-se para admirar-se e enternecer-se consigo mesma vendo-se morrer.
Os hábitos romanescos levam as mulheres à histeria e os homens à depressão. Manfred, Renê, Lélia são tipos
de perversidade muito mais profunda por racionalizarem seu orgulho doentio e poetizarem sua demência.
Perguntamo-nos aterrorizados que monstro poderia nascer do casamento de Manfred e Lélia!
A perda do sentido moral é uma verdadeira alienação; um homem que não obedece à justiça antes de tudo não
se pertence mais, caminha sem luz na noite de sua existência, agita-se como num sonho vítima do pesadelo de
suas paixões.
As correntes impetuosas da vida instintiva e as fracas resistências da vontade formam um antagonismo tão
distinto que os cabalistas acreditaram no embrionato das almas, isto é, a presença num mesmo corpo de várias
almas que o disputam entre si e freqüentemente tentam destruí-lo, mais ou menos como os náufragos da
Medusa, que no momento em que disputavam a jangada muito estreita, tentavam fazê-la soçobrar.
É certo que alguém ao se tornar servo de uma corrente qualquer de instintos, ou mesmo de idéias, aliena sua
personalidade e torna-se escravo desse gênio das multidões que o Evangelho chama Legião.
Os artistas sabem algo sobre isso. Suas freqüentes evocações da luz universal enervam-nos. Tornam-se
médiuns, isto é, doentes. Quanto mais o sucesso os faz crescer junto à opinião pública, mais sua personalidade
enfraquece; tornam-se sujeitos a acessos, absurdos, invejosos, coléricos; não admitem que outro mérito,
mesmo de ordem diferente, possa produzir-se ao lado do seu, e desde que se tornam injustos eximem-se até de
serem polidos. Para escapar a essa fatalidade os verdadeiros grandes homens isolam-se de toda camaradagem
liberticida e salvam-se dos atritos da vil multidão por uma impopularidade orgulhosa: se Balzac, quando vivo,
tivesse sido um homem de conventículo ou de partido, não teria permanecido, após sua morte, o grande
universal de nossa época.
A luz não ilumina as coisas insensíveis nem os olhos fechados, ou pelo menos só as ilumina em proveito dos
que vêem. A palavra do Gênesis, Que se faça a luz!, é o grito de vitória da inteligência triunfante sobre as
trevas. Essa palavra é sublime porque exprime com simplicidade a maior e mais sublime coisa do mundo: a
criação da inteligência por si mesma quando, convocando seus poderes, equilibrando suas faculdades, ela diz:
Quero imortalizar-me vendo a verdade eterna, que seja a luz! E a luz é. A luz eterna como Deus começa todos
os dias para os olhos que se abrem. A verdade será eternamente a invenção e como que a criação do gênio: ele
grita: Que seja a luz, e ele próprio é porque ela é. Ele é imortal porque compreendera eterna. Ele contempla a
verdade como sua obra porque ela é sua conquista, e a imortalidade como seu triunfo porque ela será sua
recompensa e sua coroa.
Mas nem todos os espíritos vêem com justeza porque nem todos os corações querem com justiça. Existem
almas para as quais a verdadeira luz parece nunca dever existir. Contentam-se com visões fosforescentes,
abortos de luz, alucinações do pensamento, e, apaixonadas por esses fantasmas, temem o dia que os faria
fugirem porque sentem que, não sendo o dia feito para seus olhos, voltariam a cair numa profunda escuridão.
Assim é que os loucos, no início, temem, depois caluniam, insultam, perseguem e condenam os sábios. É
preciso compadecer-se deles e perdoá-los, não sabem o que fazem.
A verdadeira luz repousa e satisfaz a alma, a alucinação, ao contrário, cansa-a e atormenta-a. As satisfações
da loucura assemelham-se aos sonhos gastronômicos das pessoas famintas que aguçam sua fome sem nunca
saciá-la. Daí nascem as irritações e as perturbações, os desencorajamentos e os desesperos. "A vida sempre
nos mentiu", dizem os discípulos de Werther, "eis por que queremos morrer!" Pobres crianças, não é a morte
que vos seria preciso, é a vida. Desde que estais no mundo morreis todos os dias, é à cruel volúpia do nada
que deveis pedir o remédio do nada de vossas volúpias? Não, a vida nunca vos enganou, pois não vivestes
ainda. O que tomais por vida são as alucinações e os sonhos do primeiro sono da morte!
Todos os grandes criminosos são alucinados voluntários, e todos os alucinados voluntários podem ser
fatalmente levados a tornarem-se grandes criminosos. Nossa luz pessoal especializada, concebida,
determinada por nossa afeição dominante é o germe de nosso paraíso ou de nosso inferno. Cada um de nós de
algum modo concebe, põe no mundo e alimenta seu bom anjo ou seu mau demônio. A concepção da verdade
faz nascer em nós o bom gênio; a percepção desejada da mentira é uma incubadora e uma criadora de
pesadelos e de vampiros. Cada um deve alimentar seus filhos, e nossa vida consome-se em proveito de nossos
pensamentos. Felizes os que reencontram a imortalidade nas criações de sua alma! Ai dos que se exaurem
para alimentar a mentira e engordar a morte, pois cada um gozará o fruto de suas obras.
Existem alguns seres inquietos e atormentados cuja influência é turbulenta e a conversa, fatal. Perto deles
sentimo-nos irritados e ao deixá-los sentimo-nos encolerizados; entretanto, por uma perversidade secreta, nós
os procuramos para afrontar a perturbação e gozar as emoções malévolas que eles nos dão. São doentes
contagiosos do espírito de perversidade.
O espírito de perversidade sempre tem por móvel secreto a sede da destruição e por fim o suicídio.
O assassino Eliçabide, segundo suas próprias declarações, não só experimentava uma necessidade selvagem
de matar seus parentes e amigos, como também gostaria, se isso fosse possível, e disse-o com suas próprias
palavras diante do tribunal, de fazer o globo saltar como uma castanha cozida. Lacenaire, que passava seus
dias combinando assassínios para obter meios de passar as noites em ignóbeis orgias, ou nos frenesis do jogo,
vangloriava-se abertamente de ter vivido. Chamava a isso viver! E cantava um hino à guilhotina, que
chamava sua bela noiva! E o mundo estava repleto de imbecis que admiravam esse celerado! Alfred de
Musset, antes de aniquilar-se na embriaguez, desperdiçou um dos primeiros talentos de seu século em contos
de fria ironia e desgosto universal; o infeliz fora enfeitiçado pelo respir de uma mulher profundamente
perversa, que, após tê-lo morto, acocorou-se sobre seu cadáver como um vampiro e rasgou seu sudário.
Perguntávamos um dia a um jovem escritor dessa escola o que provava sua literatura. "Prova", respondeu-nos
franca e ingenuamente, "que é preciso desesperar e morrer." Que apostolado e que doutrina! Mas eis as
conclusões necessárias e rigorosas do espírito de perversidade. Aspirar incessantemente ao suicídio, caluniar a
vida e a natureza, invocar todos os dias a morte sem poder morrer, é o inferno eterno, é o suplício de Satã,
esse avatar mitológico do espírito de perversidade; a verdadeira tradução da palavra grega diabolos, ou diabo,
é o perverso.
Eis um mistério de que os pervertidos não desconfiam. É que só se pode gozar os prazeres da vida, mesmo os
materiais, pelo sentido moral. O prazer é a música das harmonias interiores; os sentidos são apenas seus
instrumentos, instrumentos que desafinam ao contato com uma alma degradada. Os maus nada podem sentir,
porque nada podem amar: para amar, é preciso ser bom. Para eles, portanto, tudo é vazio, e parece-lhes que a
natureza é impotente, porque eles próprios o são, duvidam de tudo porque nada sabem, blasfemam contra tudo
porque de nada gostam; se afagam, é para emurchecer; se bebem, é para embriagar-se; se dormem, é para
esquecer; se acordam, é para entediar-se mortalmente: assim viverá, ou antes, assim morrerá todos os dias
aquele que se liberta de toda lei e de todo dever para tornar-se escravo de suas fantasias. O mundo e a própria
eternidade tornam-se inúteis para quem se torna inútil para o mundo e para a eternidade.
Nossa vontade, ao agir diretamente sobre nosso mediador plástico, isto é, sobre a porção de luz astral que se
especializou em nós e que serve para a assimilação e configuração dos elementos necessários à nossa
existência; nossa vontade, justa ou injusta, harmoniosa ou perversa, configura o mediador à sua imagem e dálhe
aptidões conforme os nossos atrativos. Assim, a monstruosidade moral produz a fealdade física, pois o
mediador astral, esse arquiteto interior de nosso edifício corporal, modificado incessantemente segundo
nossas necessidades verdadeiras ou factícias. Ele faz crescer o ventre e os maxilares do glutão, crispa os
lábios do avarento, torna impudentes os olhares da mulher impura e venenosos os do invejoso e do mau.
Quando o egoísmo prevaleceu numa alma, o olhar torna-se frio, os traços duros; a harmonia das formas


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