ao menos no dizer dos simplórios e das amas a quem seu dedinho conta tantas coisas: a mão tem sete
protuberâncias que os cabalistas, segundo as analogias naturais, atribuíram aos sete planetas: a do polegar, a
Vênus; do indicador, a Júpiter; do médio, a Saturno; do anular, ao Sol; do auricular, a Mercúrio; dos dois
outros, a Marte e à Lua. De acordo com sua forma e sua predominância, eles julgavam os atrativos, as
aptidões e, por conseguinte, os prováveis destinos dos indivíduos submetidos à sua apreciação.
Não existe vício que não deixe marca, nem uma virtude que não tenha seu sinal. Além disso, para os olhos
exercitados do observador, não há hipocrisia possível. Compreender-se-á que tal ciência já é um poder
verdadeiramente sacerdotal e real.
A predição dos principais acontecimentos da vida já é possível pelas numerosas probabilidades analógicas
dessa observação, contudo existe uma faculdade que se designa pressentimentos ou sensitivismo. As coisas
eventuais freqüentemente existem em sua causa antes de realizarem-se em ações, os sensitivos vêem
antecipadamente os efeitos nas causas, e existiram antes de todos os grandes acontecimentos surpreendentes
predições. Durante o reinado de Luís Filipe, ouvimos sonâmbulos e extáticos anunciarem a volta do Império e
precisarem a data de seu advento. A República de 1848 estava claramente anunciada na profecia de Orval,
que datava no mínimo de 1830 e de que suspeitamos, bem como daquelas atribuídas aos Olivarius, ter sido
obra pseudônima de Mlle. Lenormand. Mas isso pouco importa para nossa tese.
Essa luz magnética que faz prever o futuro também faz adivinhar as coisas presentes e ocultas; como é a vida
universal, ela é também o agente da sensibilidade humana, transmitindo a uns os males ou a saúde dos outros,
segundo a influência fatal dos contatos ou as leis da vontade. É o que explica o poder das bênçãos e dos
feitiços tão claramente reconhecido pelos grandes adeptos e sobretudo pelo maravilhoso Paracelso. Um crítico
judicioso e sagaz, M. Ch. Fauvety, num artigo publicado pela Revista Filosófica e Religiosa, aprecia de modo
notável os trabalhos avançados de Paracelso, Pomponace, Goglenius, Crollius e Robert Flud sobre o
magnetismo. Mas o que nosso sábio amigo e colaborador estuda somente como uma curiosidade filosófica,
Paracelso e os seus praticavam sem preocuparem-se muito em torná-lo compreensível para o mundo, pois era
segundo eles, um desses segredos tradicionais para os quais o ocultismo é de rigor, e que basta indicar aos que
sabem, deixando sempre um véu sobre a verdade para desorientar os ignorantes.
Ora, eis o que Paracelso reservava somente para os iniciados, e que compreendemos ao definir os caracteres
cabalísticos e as alegorias de que ele faz uso na coleção de suas obras:
A alma humana é material, o mens divino lhe é oferecido para imortalizá-la e fazê-la viver espiritual e
individualmente, mas sua substância natural é fluídica e coletiva.
Há no homem, pois, duas vidas, a individual ou racional, e a vida comum ou instintiva. É por esta última que
se pode viver uns nos outros, uma vez que a alma universal, como todo organismo nervoso com uma
consciência separada, é a mesma para todos.
Vivemos da vida comum e universal no embrionato, no êxtase e no sono. De fato, no sono a razão não age, e
a lógica, quando é encontrada em nossos sonhos, ocorre apenas fortuitamente e segundo os acasos das
reminiscências puramente físicas.
Nos sonhos, temos a consciência da vida universal; misturamo-nos à água, ao fogo, ao ar e à terra; voamos
como os pássaros; escalamos como os esquilos; rastejamos como as serpentes; estamos embriagados de luz
astral; tornamos a mergulhar na morada comum, como acontece de modo mais completo na morte; mas então
(e é assim que Paracelso explica os mistérios da outra vida) os maus, isto é, aqueles que se deixaram dominar
pelos instintos da besta em prejuízo da razão humana, afogam-se no oceano da vida comum com todas as
angústias de uma morte eterna; os outros flutuam e gozam para sempre das riquezas daquele ouro fluido que
conseguiram dominar.
Essa identidade da vida física permite às vontades mais fortes apoderarem-se da existência das outras e
tornarem-se suas auxiliares, explica as correntes simpáticas que ocorrem em proximidade ou à distância, e dá
todo o segredo da medicina oculta, porque essa medicina tem por princípio a grande hipótese das analogias
universais e, atribuindo todos os fenômenos da vida física ao agente universal, ensina que é preciso agir sobre
o corpo astral para reagir sobre o corpo materialmente visível; ensina também que a essência da luz astral é
um duplo movimento de atração e de projeção; assim como os corpos humanos atraem-se e repelem-se uns
aos outros, podem também absorver-se, propagar-se uns nos outros e realizar trocas; as idéias ou as
imaginações de um podem influenciar sobre a forma do outro e reagir em seguida sobre o corpo exterior.
Assim produzem-se os fenômenos tão estranhos da influência dos olhares na gravidez, assim a proximidade
de pessoas doentes causa maus sonhos, assim a alma respira algo de insalubre na companhia dos loucos e dos
maus.
Pode-se observar que nos pensionatos as crianças adquirem um pouco a fisionomia umas das outras; cada
casa de educação tem, por assim dizer, um ar de família que lhe é próprio. Nos escolas de órfãs dirigidas por
religiosas, todas as garotas parecem-se e adquirem todas essa fisionomia obediente e apagada que caracteriza
a educação ascética. Os homens tornam-se belos na escola do entusiasmo, das artes ou da glória; tornam-se
feios na prisão, e de ar triste nos seminários e nos conventos.
Aqui compreende-se que abandonamos Paracelso para entrar nas conseqüências e nas aplicações de suas
idéias, que são simplesmente as dos antigos magos e os elementos dessa cabala física que chamamos magia.
Segundo os princípios cabalísticos formulados pela escola de Paracelso, a morte seria apenas um sono cada
vez mais profundo e definitivo, que seria possível interromper em seu início exercendo uma poderosa ação de
vontade sobre o corpo astral que se desprende e chamando-o de volta à vida por algum interesse poderoso ou
alguma afeição dominante. Jesus exprimia o mesmo pensamento quando dizia da filha de Jairo: "Esta moça
não está morta, está dormindo"; e de Lázaro: "Nosso amigo adormeceu e vou acordá-lo." Para exprimir esse
sistema ressurreicionista de modo que não ofenda o senso comum, isto é, as opiniões geralmente adotadas,
digamos que a morte, quando não há destruição ou alteração essencial dos órgãos, é sempre precedida de uma
letargia mais ou menos longa. (A ressurreição de Lázaro, se tivesse de ser admitida como fato científico,
provaria que esse estado pode durar quatro dias).
Voltemos agora ao segredo da pedra filosofal que demos somente em hebraico não pontuado no Ritual da
Alta Magia. Eis o texto completo em latim, tal como é encontrado à página 144 do Sepher Yétsirah,
comentado pelo alquimista Abraão (Amsterdam, 1642):
Semita XXXI
Vocatur intelligentia perpetua; et quare vocatur ita? Eo quod ducit motum solis et lunae juxta constitutionem
eorum; utrumque in orbe sibi conveniente.
Rabbi Abraham F.’. D.’.
dicit:
Semita trigésima prima vocatur intelligentia perpetua: et illa ducit solem et lunam et reliquas stellas et figuras,
unum quodque in orbe suo, et impertit omnibus creatis juxta dispositionem ad signa et figuras.
Eis a tradução do texto hebraico que transcrevemos em nosso ritual:
"A trigésima primeira via chama-se inteligência perpétua e rege o sol e a lua e as outras estrelas e figuras,
cada qual em seu orbe respectivo. E distribui o que convém a todas as coisas criadas segundo sua disposição
nos signos e nas figuras."
Vê-se que esse texto é ainda totalmente obscuro para alguém que não conhece o valor característico de cada
uma das trinta e duas vias. (As trinta e duas vias são os dez números e as vinte e duas letras hieroglíficas da
Cabala. A trigésima primeira refere-se ao a , que representa a lâmpada mágica ou a luz entre os chifres de
Baphomet. É o signo cabalístico do od ou da luz astral com seus dois pólos e seu centro equilibrado. Sabe-se
que na linguagem dos alquimistas o sol significa o olho, a lua, a prata, e que as outras estrelas ou planetas
referem-se aos outros metais. Deve-se compreender agora o pensamento do judeu Abraão.
O fogo secreto dos mestres em alquimia era, pois, a eletricidade, e aí está a metade de seu grande arcano; mas
eles sabiam equilibrar sua força por uma influência magnética que concentravam em seu atanor. É o que
resulta dos dogmas obscuros de Basílio Valentim, Bernard Trévisan e Henri Kunrath, que pretendem, todos,
ter operado a transmutação como Raimundo Lúlio, Arnaud de Villeneuve e Nicolas Flamel.
A luz universal, quando imanta os mundos, chama-se luz astral; quando forma os metais, denomina-se azote,
ou mercúrio dos sábios; quando dá vida aos animais, deve chamar-se magnetismo animal.
O bruto sofre as fatalidades dessa luz; o homem pode dirigi-la. É a inteligência que, ao adaptar o sinal ao
pensamento, cria as formas e as imagens.
A luz universal é como a imaginação divina, e esse mundo que muda sem cessar, permanecendo sempre o
mesmo quanto às suas leis de configuração, é o sonho imenso de Deus.
O homem formula a luz por sua imaginação; atrai para si luz suficiente para dar as formas convenientes a seus
pensamentos e mesmo a seus sonhos; se essa luz o invade, se afoga seu entendimento nas formas que evoca,
fica louco. Mas a atmosfera fluídica dos loucos freqüentemente é um veneno para as razões vacilantes e para
as imaginações exaltadas.
As formas que a imaginação superexcitada produz para perturbar o entendimento são tão reais quanto as
impressões da fotografia. Não se pode ver o que não existe. Os fantasmas dos sonhos, e os próprios sonhos
das pessoas acordadas, são, pois, imagens reais que existem na luz.
Existem, aliás, alucinações contagiosas. Mas afirmamos aqui algo mais do que alucinações comuns. Se as
imagens atraídas pelos cérebros doentes são algo real, eles não podem projetá-las exteriormente, reais como
as recebem?
Essas imagens, projetadas por todo o organismo nervoso do médium, não podem afetar todo o organismo
daqueles que, deliberadamente ou não, entram em simpatia nervosa com o médium?
Os feitos do senhor Home provam que tudo isso é possível.
Agora, respondamos aos que crêem ver nesses fenômenos manifestações do outro mundo e fatos de
necromancia.
Tomamos nossa resposta emprestada ao livro sagrado dos cabalistas, e nisto nossa doutrina é igual à dos
rabinos compiladores do Zohar.
Axioma
O espírito reveste-se para descer e despoja-se para subir.
De fato: Por que os espíritos criados são revestidos de corpos?
É que eles devem ser limitados para terem uma existência possível. Despojados de corpo e, por conseguinte,
tornados sem limites, os espíritos criados se perderiam no infinito, e, por não poderem concentrar-se em
algum lugar, estariam mortos e impotentes em toda a parte, porque estariam precipitados na imensidão de
Deus.
Todos os espíritos, portanto, têm corpos, uns mais delgados, outros mais espessos, segundo os meios em que
foram chamados a viver.
A alma de um morto não poderia, pois, viver na atmosfera dos vivos, assim como nós não poderíamos viver
na terra ou na água.
Seria necessário a um espírito aéreo, ou antes, etéreo, um corpo factício semelhante aos aparelhos de
mergulhadores, para que pudesse chegar até nós.
Tudo o que podemos ver dos mortos são os reflexos que deixaram na luz atmosférica, luz cujas impressões
evocamos pela simpatia de nossas lembranças.
As almas dos mortos estão acima de nossa atmosfera. Nosso ar respirável torna-se terra para eles. Foi o que o
Salvador declarou em seu Evangelho, quando fez a alma de um bem-aventurado dizer:
"Agora o grande caos firmou-se para nós, e os que estão no alto não podem mais descer para os que estão
embaixo."
As mãos que o senhor Home faz aparecer são, pois, ar colorido pelos reflexos que sua imaginação doente atrai
e projeta.
São tocadas como são vistas: metade ilusão, metade força magnética e nervosa.
A nosso ver aí estão explicações bastante claras e precisas.
Raciocinemos um pouco com os partidários de aparições do outro mundo:
Ou essas mãos são corpos reais.
Ou são ilusões.
Se são corpos, não são, portanto, espíritos.
Se são ilusões produzidas por miragens, seja em nós, seja fora de nós, então vós me dais ganho de causa.
Agora, uma observação:
Todos os doentes de congestão luminosa ou de sonambulismo contagioso perecem de morte violenta, ou pelo
menos de morte súbita.
É por essa razão que antigamente se atribuía ao diabo o poder de estrangular os bruxos.
O bom e honesto Laváter evocava habitualmente o suposto espírito de Gablidone.
Foi assassinado.
Um vendedor de limonadas de Leipsick, Scroepfer, evocava imagens animadas dos mortos.
Suicidou-se com um tiro de pistola.
Sabe-se qual foi o final infeliz de Cagliostro.
Apenas um mal maior que a própria morte pode salvar a vida desses experimentadores imprudentes. Podem
tornar-se idiotas ou loucos, e então só não morrem se forem atentamente vigiados para impedir que se
suicidem.
As doenças magnéticas por si próprias são um encaminhamento para a loucura, e sempre nascem da
hipertrofia ou da atrofia do sistema nervoso.
Assemelham-se ao histerismo, que é uma de suas variações, e freqüentemente são produzidas ou por excessos
de celibato, ou por excessos de um gênero totalmente oposto.
Sabe-se qual a relação existente entre o cérebro e os órgãos encarregados pela natureza da realização de suas
obras mais nobres: as que têm por finalidade a reprodução dos seres.
Não se viola impunemente o santuário da natureza.
Ninguém ergue, sem arriscar a própria vida, o véu da grande Isis.
A natureza é casta, e é à castidade que ela deve as chaves da vida.
Entregar-se aos amores impuros é desposar a morte.
A liberdade, que é a vida da alma, se conserva apenas na ordem da natureza. Toda desordem voluntária a fere,
um excesso prolongado a mata.
Então, ao invés de sermos guiados e preservados pela razão, somos abandonados às fatalidades do fluxo e do
refluxo da luz magnética.
Ora, a luz magnética devora sem cessar porque está sempre criando; para produzir continuamente, é preciso
eternamente absorver.
Daí vêm as monomanias assassinas e as tentações de suicídio.
Daí vem esse espírito de perversidade que Edgar Poe descreveu de forma tão impressionante e tão verdadeira,
e que Mirville teria razão em chamar diabo.
O diabo é a vertigem da inteligência atordoada pelas oscilações do coração.
É a monomania do nada, é a atração do abismo, independentemente do que isso possa ser segundo as decisões
da fé católica, apostólica e romana, em que não receamos tocar.
Quanto à reprodução dos signos e dos caracteres por esse fluido universal a que chamamos luz astral, negar
sua possibilidade seria importar-se pouco com os fenômenos mais comuns da natureza. A miragem nas
estepes da Rússia, os palácios da fada Morgana, as figuras impressas naturalmente no coração das pedras que
Gaffarel denomina gamahés, a configuração monstruosa de algumas crianças proveniente dos olhares ou
pesadelos das mães, todos esses fenômenos e muitos outros provam que a luz está repleta de imagens e
reflexos que projeta e reproduz de acordo com as evocações da imaginação, da lembrança ou do desejo. A
alucinação não é sempre um devaneio sem objeto: desde que todos vêem uma coisa, ela certamente é visível;
mas, se essa coisa é absurda, deve-se rigorosamente concluir que todos estão enganados ou alucinados por
uma aparência real.
Dizer, por exemplo, que nas sessões magnéticas do senhor Home saem das mesas mãos reais e vivas, mãos
verdadeiras, que uns vêem, que outros tocam, e pelas quais outros ainda sentem-se tocados sem vê-Ias, dizer
que essas mãos verdadeiramente corporais são mãos de espíritos é falar como crianças ou como loucos, é
implicar contradição nos termos. Mas reconhecer que esta ou aquela aparência, esta ou aquela sensação se
produz é ser simplesmente sincero e zombar da zombaria dos homens probos ainda quando esses homens
fossem espirituosos como este ou aquele redator brincalhão do jornal.
Esses fenômenos de luzes que produzem aparições mostraram-se sempre em épocas difíceis para a
humanidade. São os fantasmas da febre do mundo, é o histerismo de uma sociedade que se entedia. Virgílio
conta-nos em belos versos que, na época de César, Roma estava repleta de espectros; sob Vespasiano, as
portas do Templo de Jerusalém abriam-se sozinhas, e ouvia-se gritar: "Os deuses se vão." Ora, quando os
deuses partem, os diabos retornam. O sentimento religioso transforma-se em superstição quando a fé está
perdida; pois as almas têm necessidade de acreditar, porque têm sede de ter esperança. Como a fé pode
perder-se? Como a ciência pode duvidar do infinito e da harmonia? Porque o santuário do absoluto está
sempre fechado para a maioria. Mas o reino da verdade, que é o de Deus, sofre violências e deve ser
conquistado pelos fortes. Existe um dogma, uma chave, uma tradição sublime; e esse dogma, essa chave, essa
tradição é a alta magia. Apenas aí encontram-se o absoluto da ciência e a base eterna da lei, o preservativo
contra toda loucura, toda superstição e todo erro, o Éden da inteligência, o repouso do coração e a quietude da
alma. Não dizemos isso na esperança de convencer os que riem, mas somente para advertir os que procuram.
Coragem e esperança a estes; eles certamente encontrarão, uma vez que nós encontramos.
O dogma mágico não é aquele dos médiuns. Os médiuns que dogmatizam só podem ensinar a anarquia, uma
vez que sua inspiração resulta de uma exaltação desordenada. Eles sempre prevêem desastres, negam a
autoridade hierárquica, assumem a postura de soberanos pontífices, como Vintras. O iniciado, ao contrário,
respeita antes de tudo a hierarquia, ama e conserva a ordem, inclina-se diante das crenças sinceras, ama todos
os signos da imortalidade na fé e da redenção pela caridade, que é toda ela disciplina e obediência.
Acabamos de ler um livro publicado sob a influência da vertigem astral e magnética e ficamos chocados com
as tendências anárquicas de que ele está repleto sob uma grande aparência de benevolência e religião.
Encabeçando a obra, vê-se o signo, ou, como dizem os magistas, a assinatura das doutrinas que ela ensina.
Em vez da cruz cristã, símbolo de harmonia, aliança e regularidade, vê-se aí a vara de videira tortuosa, com
seus brotos em gavinhas, imagens da alucinação e da embriaguez.
As primeiras idéias formuladas nesse livro são o cúmulo do absurdo. As almas dos mortos, diz ele, estão em
toda a parte, e nada mais as limita. Eis o infinito todo povoado de deuses que entram uns nos outros. As almas
podem e querem comunicar-se conosco por meio das mesas e dos chapéus. Assim, nada mais de ensino
regulamentado, de sacerdócio, de Igreja, o delírio alçado à condição de verdade, oráculos que escrevem para a
salvação do gênero humano a palavra atribuída a Cambronne, grandes homens que deixam a serenidade dos
destinos eternos para fazer dançarem nossos móveis e manter conosco conversas semelhantes àquelas que
lhes empresta Béroalde de Verville como meio de ter sucesso. Tudo isso causa piedade; e no entanto, na
América, propaga-se como uma peste intelectual. A jovem América delira, tem febre, talvez esteja em sua
primeira dentição. Mas a França! A França acolher semelhantes coisas! Não, isso não é possível, e isso não é.
Mas, ao renegarem as doutrinas, os homens sérios devem observar os fenômenos, permanecer calmos em
meio às agitações de todos os fanatismos (pois a incredulidade também tem o seu), julgar após haver
examinado. Conservar a razão em meio aos loucos, a fé em meio às superstições, a dignidade em meio aos
caracteres enfraquecidos e a independência em meio aos carneiros de Panurgo é de todos os milagres o mais
raro, o mais belo e também o mais difícil de realizar.
Capitulo IV
Os fantasmas fluídicos e seus mistérios
Os antigos davam-lhes diferentes nomes. Eram larvas, lêmures, empusas. Gostavam do vapor do sangue
derramado, e fugiam do gume do gládio.
A teurgia evocava-os, e a cabala conhecia-os sob o nome de espíritos elementares.
No entanto, não eram espíritos, pois eram mortais.
Eram coagulações fluídicas que se podiam destruir, dividindo-as.
Eram espécies de miragens animadas, emanações imperfeitas da vida humana: as tradições da magia negra as
fazem nascer do celibato de Adão. Paracelso diz que os vapores do sangue das mulheres histéricas povoam o
ar de fantasmas; e essas idéias são tão antigas que as encontramos em Hesíodo, que defende expressamente
fazer secar diante do fogo roupa branca manchada por uma poluição qualquer.
As pessoas obcecadas pelos fantasmas geralmente estão exaltadas por um celibato muito rigoroso, ou
enfraquecidas por excessos de devassidão.
Os fantasmas fluídicos têm os abortos da luz vital; são mediadores plásticos sem corpo e sem espírito,
nascidos dos excessos do espírito e dos desregramentos do corpo.
Esses mediadores errantes podem ser atraídos por certos doentes que lhes são fatalmente simpáticos, e que
lhes emprestam, às suas expensas, uma existência factícia mais ou menos durável. Servem, então, de
instrumentos suplementares para as vontades instintivas desses doentes: nunca, todavia, para curá-los, sempre
para desviá-los e aluciná-los mais.
Se os embriões corporais têm a propriedade de tomar as formas que lhes dá a imaginação das mães, os
embriões fluídicos errantes devem ser prodigiosamente variáveis e transformar-se com uma surpreendente
facilidade. Sua tendência a darem-se um corpo para atrair uma alma faz com que condensem e assimilem,
naturalmente, as moléculas corporais que flutuam na atmosfera.
Assim, ao coagularem o vapor do sangue, refazem sangue, o mesmo sangue que os maníacos alucinados vêem
escorrer nos quadros e nas estátuas. Mas não são os únicos a vê-lo. Vintras e Rose Tamisier não são
impostores nem vítimas de alguma ilusão; o sangue escorre realmente; médicos examinam-no; analisam-no; é
sangue, verdadeiro sangue humano: de onde vem? Pode ter se formado espontaneamente na atmosfera? Pode
sair naturalmente de um mármore, unia tela pintada ou uma hóstia? Não, certamente; esse sangue circulou em
veias, depois propagou-se, evaporou-se, dessecou-se, o soro tornou-se vapor, os glóbulos poeira intangível, o
todo flutuou e voltejou na atmosfera, depois foi atraído para a corrente de um eletromagnetismo especificado.
O soro voltou a ser líquido, retomou e embebeu novamente os glóbulos que a luz astral coloriu, e o sangue
escorreu.
A fotografia é prova suficiente de que as imagens são modificações reais da luz. Ora, existe uma fotografia
acidental e fortuita que opera, segundo as miragens errantes na atmosfera, impressões duráveis em folhas de
árvores, na madeira e até no coração das pedras: assim formam-se as figuras naturais a que Gaffarel
consagrou várias páginas em seu livro Curiosidades Inauditas, as pedras a que ele atribui uma virtude oculta,
e que denomina gamahés; assim traçam-se as escrituras e os desenhos que tanto surpreendem os observadores
dos fenômenos fluídicos. São fotografias astrais feitas pela imaginação dos médiuns com ou sem a ajuda das
larvas fluídicas.
A existência dessas larvas nos foi demonstrada de modo peremptório por uma experiência bastante curiosa.
Várias pessoas, para testar o poder mágico do americano Home, pediram-lhe que evocasse parentes que elas
alegavam ter perdido, mas que na realidade jamais existiram. Os espectros não faltaram a esse apelo, e os
fenômenos que habitualmente seguiam-se à evocação do médium manifestaram-se plenamente.
Essa experiência por si só bastaria para convencer de credulidade deplorável e de erro formal os que crêem na
intervenção dos espíritos nesses fenômenos estranhos. Para que mortos retornem, é preciso antes de mais nada
que tenham existido, e demônios não seriam tão facilmente enganados por nossas mistificações.
Como todos os católicos, acreditamos na existência dos espíritos das trevas; mas sabemos também que o
poder divino lhes deu as trevas por prisão eterna e que o Redentor viu Satã cair do céu como um raio. Se os
demônios nos tentam é pela cumplicidade voluntária de nossas paixões más, e não lhes é permitido afrontar o
império de Deus e perturbar, por manifestações tolas e inúteis, a ordem eterna da natureza.
Os caracteres e assinaturas diabólicos, que se produzem à revelia dos médiuns, evidentemente não são provas
de um pacto tácito ou formal entre esses doentes e as inteligências do abismo. Esses signos serviram em todos
os tempos para exprimir a vertigem astral e permaneceram no estado de miragem nos reflexos da luz
extraviada. A natureza também tem suas reminiscências e envia-nos os mesmos signos com relação às
mesmas idéias. Não há nisso nada de sobrenatural nem de infernal.
"Como quer o senhor que eu admita", dizia-nos o pároco Charvoz, primeiro vigário de Vintras, "que Satã ousa
imprimir seus hediondos estigmas nas espécies consagradas e tornadas o próprio corpo de Jesus Cristo?"
Declaramos logo que nos era igualmente impossível pronunciarmo-nos a favor de semelhante blasfêmia; no
entanto, como demonstramos em nossos folhetins do jornal O Estafeta, os signos impressos em caracteres
sangrentos nas hóstias de Vintras, regularmente consagradas por Charvoz, eram os que, na magia negra, são
absolutamente reconhecidos como as assinaturas dos demônios.
As escrituras astrais são freqüentemente ridículas ou obscenas. Os pretensos espíritos, interrogados sobre os
maiores mistérios da natureza, respondem muitas vezes com uma expressão grosseira tornada heróica,
segundo dizem, nos lábios militares de Cambronne. Os desenhos que os lápis traçam por si sós reproduzem
com freqüência essas figuras priápicas informes, que o pálido vadio, para servirmo-nos da pitoresca expressão
de Augusto Barbier, desenha assoviando ao longo dos muros de Paris, prova recente do que adiantamos, isto
é, que o espírito não preside de nenhum modo a essas manifestações e que seria soberbamente absurdo
reconhecer aí sobretudo a intervenção dos espíritos desligados da matéria.
O jesuíta Paul Saufidius, que escreveu sobre os usos e costumes dos japoneses, narra um caso muito
interessante. Um grupo de peregrinos japoneses, atravessando um dia um deserto, viu aproximar-se um bando
de espectros em igual número ao seu e que caminhava no mesmo passo. Esses espectros, no princípio
disformes e semelhantes a larvas, tomavam ao se aproximarem a aparência do corpo humano. Logo,
encontraram os peregrinos e misturaram-se a eles, deslizando em silêncio por entre as fileiras, então os
japoneses viram-se duplos, tendo cada fantasma se tornado a imagem perfeita e como que a miragem de cada
peregrino. Os japoneses aterrorizados prosternaram-se, e o bonzo que os conduzia pôs-se a orar por eles com
grandes contorsões e em altos brados. Quando os peregrinos se levantaram, os fantasmas haviam
desaparecido e o grupo devoto pôde continuar livremente seu caminho. Esse fenômeno, que não colocamos
em dúvida, apresenta as duplas características de uma miragem e de uma projeção repentina de larvas astrais,
ocasionadas pelo calor da atmosfera e esgotamento fanático dos peregrinos.
O doutor Brière de Boismont, em seu curioso Tratado das Alucinações, conta que um homem perfeitamente
sensato, e que jamais tivera visões, foi atormentado uma manhã por um terrível pesadelo. Viu em seu quarto
um macaco enorme, horrendo, que rangia os dentes e fazia as mais hediondas contorsões. Acordou
sobressaltado, era dia claro; saltou da cama e ficou apavorado ao ver realmente o medonho objeto de seu
sonho. O macaco estava lá perfeitamente idêntico àquele do pesadelo, igualmente absurdo, igualmente
assustador e fazendo as mesmas caretas. O personagem em questão não podia acreditar em seus olhos;
permaneceu cerca de meia hora imóvel, observando esse singular fenômeno e perguntando-se se estava com
febre alta ou se estava ficando louco. Aproximou-se, enfim, do fantástico animal para tocá-lo e a aparição
dissipou-se.
Cornelius Gemma, em sua História Crítica Universal, conta que em 454, na ilha de Creta, o fantasma de
Moisés apareceu para alguns judeus na praia; trazia na fronte seus chifres luminosos, na mão sua vara
fulminante, e convidava-os a segui-lo apontando-lhes o horizonte na direção da Terra Santa. A notícia desse
prodígio espalhou-se, e uma multidão de israelitas precipitou-se em direção à margem. Todos viram, ou
imaginaram ter visto, a maravilhosa aparição: eram em número de vinte mil, no dizer do cronista, que
supomos ter exagerado um pouco. Logo as cabeças esquentam-se, as imaginações exaltam-se; acredita-se
num milagre mais extraordinário do que foi outrora a travessia do mar Vermelho. Os judeus formam-se em
colunas cerradas e correm em direção ao mar; os últimos empurravam os primeiros com frenesi: acreditavam
ver o suposto Moisés caminhando sobre as águas. Foi um terrível desastre: essa multidão quase toda afogouse,
e a alucinação só se extinguiu com a vida da maioria desses infelizes visionários.
O pensamento humano cria o que imagina; os fantasmas da superstição projetam sua disformidade real na luz
astral e vivem dos próprios terrores que os conceberam. Esse gigante negro que estende suas asas do oriente
ao ocidente para ocultar ao mundo a luz, esse monstro que devora as almas, essa aterrorizante divindade da
ignorância e do medo, numa palavra, o diabo, ainda é, para uma multidão de crianças de todas as idades, uma
aterradora realidade. Em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia, representamo-lo como a sombra de Deus, e
dizendo isso ocultamos ainda metade de nosso pensamento; Deus é a luz sem sombra. O diabo é apenas a
sombra do fantasma de Deus!
O fantasma de Deus! Esse último ídolo da terra; esse espectro antropomórfico que se torna maliciosamente
invisível; essa personificação finita do infinito; esse invisível que não se pode ver sem morrer, sem morrer ao
menos em inteligência e em razão, pois que para ver o invisível é preciso estar louco; o fantasma do que não
tem corpo; a forma confusa que é sem formas e sem limites: eis o que adora sem saber a maioria dos crentes.
Aquele que é essencialmente, puramente, espiritualmente, não sendo nem o ser absoluto, nem um ser abstrato,
nem a coleção dos seres, numa palavra, o infinito intelectual, é muito difícil de se imaginar! Assim, toda
imaginação a seu respeito é uma idolatria, é preciso nele crer e adorá-lo. Nosso espírito deve calar-se diante
dele e apenas nosso coração tem direito a dar-lhe um nome: Pai nosso!
LIVRO II
Os Mistérios Mágicos
Capítulo I
Teoria da vontade
A vida humana e suas dificuldades incontáveis têm por finalidade, na ordem da sabedoria eterna, a educação
da vontade do homem.
A dignidade do homem consiste em fazer o que quer e em querer o bem, em conformidade com a ciência do
verdadeiro.
O bem conforme ao verdadeiro é o justo.
A justiça é a prática da razão.
A razão é o verbo da realidade.
A realidade é a ciência da verdade.
A verdade é a história idêntica ao ser.
O homem chega à idéia absoluta do ser por duas vias, a experiência e a hipótese.
A hipótese é provável quando é solicitada pelos ensinamentos da experiência; é improvável ou absurda
quando é rejeitada por esse ensinamento.
A experiência é a ciência, e a hipótese é a fé.
A verdadeira ciência admite necessariamente a fé; a verdadeira fé conta necessariamente com a ciência.
Pascal blasfemava contra a ciência quando disse que, pela razão, o homem não pode chegar ao conhecimento
de nenhuma verdade.
Assim, Pascal morreu louco.
Mas Voltaire não blasfemava menos contra a ciência, quando declarava absurda toda hipótese da fé e admitia
por regra da razão apenas o testemunho dos sentidos.
Assim, as últimas palavras de Voltaire foram esta fórmula contraditória:
Deus e a Liberdade
Deus, isto é, um mestre supremo: o que exclui toda idéia de liberdade, como a entendia a escola de Voltaire.
E a liberdade, isto é, uma independência absoluta de todo mestre; o que exclui toda idéia de Deus. A palavra
DEUS exprime a personificação suprema da lei e, por conseguinte, do dever; e, se pela palavra LIBERDADE
se quiser entender conosco O DIREITO DE FAZER O DEVER, tomaremos, de nossa parte, por divisa e
repetiremos sem contradição e sem erro:
Deus e a Liberdade
Como só há liberdade para o homem na ordem que resulta do verdadeiro e do bem, pode-se dizer que a
conquista da liberdade é o grande trabalho da alma humana. O homem, libertando-se das más paixões e de sua
servidão, de certo modo cria-se a si próprio uma segunda vez. A natureza fizera-o vivo e sofredor, ele se faz
feliz e imortal; torna-se, assim, o representante da divindade na terra e exerce relativamente sua onipotência.
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