- A obra em si nada vale - disse Eliphas. - É uma constituição, que se supõe ser de Honório II, que o senhor
talvez encontre citada por algum colecionador de constituições apócrifas; o senhor poderia procurar na
biblioteca.
- Farei isso, pois em Paris passo quase todo o meu tempo na bibliotecas públicas.
- Não está ocupado no ministério de Paris.
- Não, no momento não. Estive trabalhando durante algum tempo na paróquia São Germano de Auxerre.
- E, pelo que vejo, ocupa-se agora com pesquisas curiosas sobre as ciências ocultas.
- Não exatamente; mas persigo a realização de uma idéia... Tenho alguma coisa a fazer.
- Suponho que essa alguma coisa não seja uma operação de magia negra; sabe, como eu, senhor abade, que a
Igreja sempre condenou e ainda condena severamente tudo o que se relaciona com essas práticas proibidas.
Um pálido sorriso, marcado por uma espécie de ironia sarcástica, foi toda a resposta do abade, e a conversa
interrompeu-se.
No entanto, o quiromante Desbarolles observava atentamente a mão do padre; este percebeu e seguiu-se,
naturalmente, uma explicação, o abade então ofereceu de bom grado sua mão ao experimentador. Desbarolles
franziu as sobrancelhas e pareceu embaraçado. A mão era úmida e fria, os dedos lisos e espatulados; o monte
de Vênus, ou a parte da palma da mão que corresponde ao polegar, de um desenvolvimento bastante notável,
a linha da vida curta e interrompida, cruzes no centro da mão, estrelas no monte da Lua.
- Senhor abade - disse Desbarolles -, se o senhor não tivesse uma sólida instrução religiosa, tornar-se-ia um
perigoso sectário, pois, por um lado, é inclinado ao misticismo mais exaltado e, pelo outro, à obstinação mais
concentrada e menos comunicativa que possa existir no mundo. O senhor procura muito, mas imagina mais
ainda, e como não confia a ninguém suas imaginações elas poderiam atingir proporções que as
transformariam em suas verdadeiras inimigas. Seus hábitos são contemplativos e um pouco indolentes, mas é
uma sonolência cujos despertares podem ser dignos de temor. É levado a uma paixão que seu estado... Mas,
perdoe-me, senhor abade, receio ter ultrapassado os limites da discrição.
- Diga tudo, senhor, posso ouvir tudo e desejo tudo saber.
- Pois bem! se, como não duvido, o senhor dedica à caridade toda a atividade inquieta que as paixões do
coração lhe dariam, deve ser muitas vezes bendito por suas boas obras.
Mais uma vez o abade deu aquele sorriso duvidoso e fatal que dava ao seu pálido rosto tão singular expressão.
Levantou-se e despediu-se sem ter dito seu nome e sem que ninguém se tivesse lembrado de perguntá-lo.
Eliphas e Desbarolles reconduziram-no até a escada em respeito à sua dignidade de padre. Perto da escada,
voltou-se e disse lentamente:
- Em breve os senhores ouvirão dizer algo... Ouvirão falar de mim, acrescentou sublinhando cada palavra.
Depois saudou-os com um gesto de cabeça e com a mão, virou-se sem acrescentar uma só palavra e desceu a
escada.
Os dois amigos retomaram à casa da senhora A...
- Eis aí um singular personagem - disse Eliphas. - Pareceu-me ver Pierrot des Furnambules no papel de um
traidor. O que nos disse ao partir parece-se bastante com uma ameaça.
- O senhor intimidou-o - disse a senhora A... - Antes de sua chegada, ele começava a expor todo seu
pensamento, mas o senhor falou-lhe de consciência e das leis da Igreja, ele não ousou confessar o que queria.
- Ora essa! o que ele queria então?
- Ver o diabo.
- Pensaria, por acaso, que o trago no bolso?
- Não, mas sabe que o senhor dá aulas de cabala e de magia, esperava que o ajudasse em seus
empreendimentos. Contou-nos, à minha filha e a mim, que em seu presbitério, no campo, já fizera uma noite
uma evocação com o auxílio de um grimório vulgar. Então, disse ele, um redemoinho pareceu abalar o
presbitério, as vigas rangeram, a madeira do forro estalou, as portas balançaram-se, as janelas abriram-se com
estrondo, e ouviram-se assovios em todos os cantos da casa. Esperava, então, a visão formidável, mas nada
viu, nenhum monstro se apresentou; numa palavra, o diabo não quis aparecer. É por isso que ele procura o
grimório de Honório, pois espera encontrar aí conjurações mais fortes e ritos mais eficazes.
- Realmente! esse homem então é um monstro... ou um louco.
- Deve estar apenas ingenuamente apaixonado - disse Desbarolles. - Está tormentado por alguma paixão
absurda e não espera absolutamente nada, a menos que o diabo se intrometa.
- Mas como, então, ouviremos falar dele?
- Quem sabe? Talvez tencione seqüestar a rainha da Inglaterra ou a mãe do sultão.
A conversa parou por aí, e um ano inteiro se passou sem que nem a senhora A.... nem Desbarolles, nem
Eliphas ouvissem falar do jovem padre desconhecido.
Na noite do primeiro para o segundo dia de janeiro do ano de 1857, Eliphas Levi acordou sobressaltado com
as emoções de um sonho estranho e fúnebre. Parecia-lhe estar num quarto gótico em ruínas muito semelhante
à capela abandonada de um velho castelo. Uma porta oculta por um pano negro dava para esse quarto, atrás
do pano adivinhava-se a luz tênue e avermelhada dos círios, e parecia a Eliphas que, levado por uma
curiosidade cheia de terror, aproximava-se do pano negro... Então o pano entreabriu-se, uma mão estendeu-se
e agarrou o braço de Eliphas. Ele não viu ninguém, mas ouviu uma voz baixa que dizia em seu ouvido:
- Venha ver seu pai que vai morrer!
O magista acordou com o coração palpitante e a testa banhada de suor.
"O que quer dizer esse sonho?", pensou. "Meu pai morreu há muito tempo; por que me dizem que ele vai
morrer, e por que essa advertência perturbou meu coração?"
Na noite seguinte, o mesmo sonho voltou com as mesmas circunstâncias, e Eliphas Levi acordou mais uma
vez ouvindo repetir ao seu ouvido:
- Venha ver seu pai que vai morrer!
Essa repetição de pesadelos impressionou Eliphas penosamente: ele aceitara para 3 de janeiro um convite para
jantar em companhia alegre, escreveu para desculpar-se, achando-se pouco disposto para a alegria de um
banquete de artistas. Permaneceu, então, em seu gabinete de estudos; o tempo estava carregado; ao meio-dia,
recebeu a visita de um de seus discípulos de magia, o visconde de M... A chuva caiu, então, com tal
abundância que Eliphas ofereceu seu guarda-chuva ao visconde, que recusou-se a aceitá-lo. Seguiu-se uma
discussão de polidez, cujo resultado foi que Eliphas saiu para reconduzir o visconde. Enquanto estavam fora,
a chuva cessou, o visconde encontrou um carro, e Eliphas, ao invés de voltar para casa, atravessou
maquinalmente o Luxemburgo, saiu pelo portão que dá para a Rua do Inferno, e encontrou-se diante do
Panteão.
Uma dupla fileira de barracas improvisadas para a novena de Santa Genoveva indicava aos peregrinos o
caminho de Santo Estêvão do Monte. Eliphas, cujo coração estava triste e, por conseguinte, disposto às
orações, seguiu essa via e entrou na Igreja. Podiam ser, nesse momento, quatro horas da tarde.
A igreja estava cheia de fiéis, e o ofício realizava-se com um grande recolhimento e uma solenidade
extraordinária. Os estandartes das paróquias da cidade e do subúrbio atestavam a veneração pública por essa
virgem que salvou Paris da fome e das invasões. No fundo da igreja, o túmulo de Santa Genoveva
resplandecia de luz. Cantavam-se as ladainhas e a procissão saía do coro.
Após a cruz, acompanhada de seus acólitos e seguida pelos meninos do coro, vinha o estandarte de Santa
Genoveva; depois caminhavam em duas filas as senhoras genovevinas, vestidas de preto com um véu branco
na cabeça, uma fita azul ao pescoço e a medalha da legenda, um círio na mão encimado por uma pequena
lanterna gótica, como as que a tradição atribui às imagens da santa. Pois, nos antigos legendários, Santa
Genoveva é sempre representada com uma medalha ao pescoço, a que lhe deu São Germano de Auxerre, e
segurando um círio que o demônio esforça-se em apagar, mas que é preservado do sopro do espírito imundo
por um pequeno tabernáculo milagroso.
Após as senhoras genovevinas vinha o clero, depois, finalmente, aparecia o venerável arcebispo de Paris,
mitrado de branco, portando uma capa levantada de cada lado por dois grandes vigários; o prelado, apoiandose
em seu báculo, caminhava lentamente e abençoava à direita e à esquerda a multidão que se ajoelhava à sua
passagem. Eliphas via o arcebispo pela primeira vez e observou os traços de seu rosto. Expressavam a
bonomia e a doçura; mas podia-se notar aí a expressão de um grande cansaço e mesmo de um sofrimento
nervoso penosamente dissimulado.
A procissão desceu até o ádrio da igreja atravessando a nave, subiu pela nave à esquerda da porta de entrada e
chegou ao túmulo de Santa Genoveva; depois voltou pela nave da direita continuando a cantar ladainhas.
Um grupo de fiéis seguia a procissão e caminhava logo atrás do arcebispo.
Eliphas misturou-se a esse grupo para atravessar mais facilmente a multidão que ia se formar novamente e
para alcançar a porta da igreja, pensativo e enternecido com essa piedosa solenidade.
A frente da procissão já tornava a entrar no coro, o arcebispo chegava à grade da nave: aí o vão era muito
estreito para que três pessoas pudessem passar de frente; o arcebispo, portanto, estava adiante e os dois
grandes vigários atrás sempre segurando as extremidades de sua capa, que encontrava-se, assim, jogada e
puxada para trás, de modo que o prelado apresentava seu peito descoberto e protegido apenas pelos bordados
cruzados da estola.
Então, os que estavam atrás do arcebispo viram-no estremecer, e ouviu-se uma interpelação feita em voz alta,
todavia sem clamor. O que fora dito? Parecia ter sido: Abaixo as deusas! mas acreditava-se ter ouvido mal,
tão deslocada e sem sentido parecia essa frase. No entanto, a exclamação repetiu-se duas ou três vezes,
alguém gritou: "Salvem o arcebispo!" outras vozes responderam: "Às armas!" A multidão dispersou-se, então,
revirando as cadeiras e as barreiras, precipitou-se para as portas gritando. Eram choros de criança, gritos de
mulheres, e Eliphas, arrastado pela multidão, foi de certo modo carregado para fora da igreja; mas os últimos
olhares que pôde lançar aí dentro depararam-se com um terrível e indelével quadro.
No meio de um círculo alargado pelo terror dos que o rodeavam, o prelado estava em pé, só, sempre apoiado
em seu báculo e sustentado pela rigidez de sua capa, que os grandes vigários haviam soltado, e que pendia
agora até o chão.
A cabeça do arcebispo estava um pouco inclinada, os olhos e a mão que não segurava o báculo estavam
erguidos para o céu. Sua atitude era a que Eugênio Delacroix deu ao Bispo de Liège assassinado por bandidos
do Javali das Ardenas; havia no seu gesto toda a epopéia do martírio, era uma aceitação e uma oferenda, uma
prece por seu povo e um perdão para o seu algoz.
A tarde caía, e a igreja começava a escurecer. O arcebispo, com os braços erguidos para o céu e iluminado por
um último raio de luz vindo dos caixilhos da nave, destacava-se contra um fundo sombrio, onde se distinguia
apenas um pedestal sem estátua em que estavam escritas estas duas palavras da paixão de Cristo: ECCE
HOMO, e mais adiante, no fundo, uma pintura apocalíptica representando os quatro flagelos prontos a
lançarem-se sobre o mundo, e os turbilhões do inferno seguindo os rastros poeirentos do cavalo pálido da
morte.
Diante do arcebispo, um braço erguido, que se desenhava na sombra como uma silhueta infernal, segurava e
brandia uma faca: soldados avançavam com a espada em punho.
E enquanto todo esse tumulto acontecia no ádrio da igreja, o canto das ladainhas continuava no coro como a
harmonia das esferas celestes perpetua-se, atenta às nossas revoluções e às nossas angústias.
Eliphas Levi fora arrastado para fora pela multidão. Saíra pela porta da direita. Quase no mesmo instante, a
porta da esquerda abria-se com violência, e um grupo furioso precipitava-se para fora da igreja.
Esse grupo girava em volta de um homem que cinqüenta braços pareciam segurar, que cem punhos estendidos
queriam socar.
Esse homem, mais tarde, queixou-se de ter sido maltratado pelos soldados; mas, tanto quanto se podia
observar nesse tumulto, os soldados protegiam-no contra a exasperada multidão.
Mulheres corriam em seu encalço gritando: Matem-no! - Mas o que ele fez? - diziam outras vozes.
- O miserável! deu um soco no arcebispo, diziam as mulheres. Depois outras pessoas saíram da igreja, e as
versões contraditórias entrecruzavam-se.
- O arcebispo teve medo e passou mal - diziam alguns.
- Ele morreu - respondiam outros.
- Viram a faca? - acrescentava um novo interlocutor.
- Era longa como um sabre, e o sangue escorria na lâmina.
Esse pobre monsenhor perdeu um de seus sapatos - observava uma velha senhora juntando as mãos.
- Não foi nada! Não foi nada! - veio anunciar, então, uma locadora de cadeiras.
- Podem voltar para a igreja: monsenhor não está ferido, acabam de declará-lo no púlpito.
A multidão, então, fez um movimento para retornar à igreja.
- Saiam! Saiam! - disse nesse mesmo instante a voz grave e desolada de um padre.
- O ofício não pode prosseguir. A igreja será fechada; está profanada.
- Como está o arcebispo? - disse então um homem.
- Senhor - respondeu o padre -, o arcebispo está morrendo, e talvez nesse momento mesmo em que falamos
ele esteja morto!
A multidão dispersou-se consternada, para ir divulgar essa funesta notícia em toda Paris.
Uma circunstância estranha envolveu Eliphas, e de certo modo desviou o seu espírito da profunda dor pelo
que acabava de acontecer.
Na hora do tumulto, uma mulher idosa e de aparência muito respeitável tomara-lhe o braço solicitando sua
proteção.
Ele achou-se no dever de responder a esse apelo, e, quando saiu da multidão com essa senhora:
- Como estou feliz - disse-lhe - por ter encontrado um homem que se aflige com esse grande crime com o qual
alegram-se, nesse momento, tantos miseráveis!
- O que diz, senhora, e como é possível existirem seres tão depravados para alegrarem-se com tamanha
infelicidade?
- Silêncio! - disse a velha senhora - talvez nos ouçam... Sim - acrescentou, abaixando a voz -, há pessoas que
estão encantadas com o que aconteceu, e olhe, ali, há poucos minutos, havia um homem de aparência sinistra,
que dizia para a multidão inquieta, quando interrogado sobre o que acabava de acontecer... Oh! não foi nada!
foi uma aranha que tombou!
- Não, a senhora deve ter ouvido mal. A multidão não teria permitido esse abominável propósito, e o homem
teria sido imediatamente preso.
- Quisera Deus que todo o mundo pensasse como o senhor - disse a dama.
Depois acrescentou:
- Recomendo-me às suas orações, pois vejo que é um homem de Deus.
- Talvez não seja a opinião de todo o mundo - respondeu Eliphas.
- E o que nos importa o mundo? - continuou a senhora com vivacidade - ele é mentiroso, caluniador, ímpio!
talvez fale mal do senhor. Não me espanto com isso, e se o senhor pudesse saber o que ele diz de mim,
compreenderia por que desprezo sua opinião.
- O mundo fala mal da senhora!
- Certamente, e o pior mal que se possa dizer.
- Como assim?
- Acusa-me de sacrilégio.
- A senhora está me assustando. E de qual sacrilégio, por favor?
- De uma indigna comédia que teria representado para enganar duas crianças na montanha da Salette.
- Quê! seria...
- Sou a senhorita Merlière.
- Ouvi falar de seu processo, senhorita, e do escândalo que provocou, mas parece-me que sua idade e sua
responsabilidade deveriam protegê-la de semelhante acusação.
- Venha ver-me, senhor, e o apresentarei a meu advogado, senhor Farre, é um homem talentoso que eu
gostaria de ganhar para Deus.
Conversando assim os dois interlocutores haviam chegado à Rua do Velho Pombal. A dama agradeceu ao seu
cavalheiro improvisado e renovou o convite para que fosse vê-Ia.
- Vou tentar - disse Eliphas. - Mas, se for, perguntarei ao porteiro pela senhorita Merlière?
- Cuidado! não me conhecem por esse nome; pergunte pela senhora Dutruck.
- Dutruck, está bem, senhora, queira aceitar meus humildes cumprimentos.
E separaram-se.
O julgamento do assassino começou, e Eliphas, ao ler nos jornais que esse homem era padre, que fizera parte
do clero de São Germano de Auxerre, que fora pároco no interior, que parecia furioso, lembrou-se do padre
pálido que um ano antes procurava o grimório de Honório. Mas a descrição que as páginas públicas davam
desse criminoso contrariava as lembranças do professor de magia. Com efeito, a maioria dos jornais
atribuíam-lhe cabelos negros... Portanto, não é ele, pensava Eliphas. No entanto, tenho ainda no ouvido e na
memória as palavras que para mim estariam agora explicadas por esse grande crime:
- Não tardarão a saber algo. Em breve ouvirão falar de mim.
O julgamento teve lugar com todas as horríveis peripécias que todos conhecem, e o acusado foi condenado à
morte.
No dia seguinte, Eliphas leu numa folha judiciária o relato dessa cena inaudita nos anais da justiça; e sentiu a
vista turvar-se quando leu o trecho em que se descrevia o acusado: "Ele é loiro".
- Deve ser ele - disse o professor de magia.
Alguns dias depois, uma pessoa que na audiência pudera traçar um esboço do perfil do condenado mostrou-o
a Eliphas.
- Deixe-me copiar este desenho - disse, tremendo de espanto.
Fez a cópia e levou-a ao seu amigo Desbarolles a quem perguntou sem maiores explicações:
- Conhece este rosto?
- Sim - assentiu vivamente Desbarolles -; espere, é o padre misterioso que vimos na casa da senhora A.... e
que queria fazer evocações mágicas.
- Pois bem, meu amigo! o senhor confirma minha triste convicção. O homem que vimos, não tornaremos mais
a ver, a mão que o senhor examinou tornou-se sanguinária. Ouvimos falar dele, como nos anunciara, pois este
padre pálido, sabe qual era seu nome?
- Oh! meu Deus! - disse Desbarolles mudando de cor - receio saber.
- Pois o senhor sabe, era o infeliz Louis Verger!
Algumas semanas depois do que acabamos de contar, Eliphas Levi conversava com um livreiro que tem por
especialidade colecionar velhos livros de ciências ocultas sobre o grimório de Honório.
- É agora um artigo impossível de ser encontrado, dizia o comerciante. O último que tive nas mãos cedi-o a
um padre que ofereceu cem francos por ele.
- Um jovem padre! e lembra-se qual era sua fisionomia?
- Oh! perfeitamente. Mas o senhor deve conhecê-lo, pois ele contou-me tê-lo visto, e fui eu quem o indicou.
Assim, não havia mais dúvida, o infeliz padre encontrara o fatal grimório, fizera a evocação e preparara-se
para o crime através de uma série de sacrilégios, pois eis no que consiste a evocação infernal, segundo o
grimório de Honório:
"Escolher um galo preto e dar-lhe o nome do espírito das trevas que se quer evocar."
"Matar o galo, reservar sua língua, o coração e a primeira pena da asa esquerda."
"Deixar secarem a língua e o coração e reduzi-los a pó."
"Não comer carne e não beber vinho nesse dia."
"Na terça-feira, ao nascer do dia, dizer uma missa dos anjos."
"Traçar sobre o altar com a pena do galo molhada em vinho consagrado assinaturas diabólicas (aquelas do
lápis do senhor Home e das hóstias ensangüentadas de Vintras)."
"Na quarta-feira, preparar uma vela de cera amarela; levantar-se à meia-noite, e, sozinho numa igreja,
começar o ofício dos mortos."
"Misturar a esse ofício evocações infernais."
"Terminar o ofício à luz de uma única vela, que será em seguida apagada, e permanecer sem luz na igreja
assim profanada até o nascer do sol."
"Na quinta-feira, misturar à água benta o pó da língua e do coração do galo preto, e fazer um cordeiro macho
de nove dias engolir a mistura..."
A mão recusa-se a escrever o resto. É um misto de práticas brutais e atentados revoltantes apropriados a matar
o discernimento e a consciência.
Mas para comunicar-se com o fantasma do mal absoluto, para realizar o fantasma a ponto de vê-lo e tocá-lo,
não é preciso estar, necessariamente, sem consciência e sem discernimento?
Aí está certamente o segredo dessa inacreditável perversidade, dessas fúrias assassinas, desse ódio doentio
contra toda ordem, toda magistratura, toda hierarquia, dessa fúria sobretudo contra o dogma que santifica a
paz, a obediência, a doçura sob o símbolo tão comovente de uma mãe.
Esse infeliz estava certo de que não morreria. O imperador, acreditava ele, seria forçado a perdoá-lo, um
exílio honroso esperava-o, seu crime lhe daria uma enorme celebridade, seus devaneios seriam comprados a
peso de ouro pelos livreiros. Tornar-se-ia imensamente rico, atrairia a atenção de uma grande dama e se
casaria do outro lado do mar. Era com promessas semelhantes que outrora o fantasma do demônio também
tentava e fazia saltar de um crime a outro Gilles de Laval, senhor de Retz. Um homem capaz de evocar o
diabo, segundo os ritos do grimório de Honório, engajou-se de tal maneira na trilha do mal que está disposto a
todas as alucinações e a todas as mentiras. Assim Verger adormecia no sangue para acordar em não sei que
abominável Panteão; e acordou no cadafalso.
Mas as aberrações da perversidade não constituem uma loucura; a execução desse miserável provou-o.
Sabe-se que resistência desesperada ele opôs aos executores. "É uma traição", dizia, "não posso morrer assim!
Uma hora apenas, uma hora para escrever ao Imperador! O Imperador deve salvar-me."
Quem, pois, o traía?
Quem, pois, prometera-lhe a vida?
Quem, pois, assegurara-lhe de antemão uma clemência impossível, visto que ela teria revoltado a consciência
pública?
Perguntai tudo isso ao grimório de Honório!
Duas coisas nessa história tão trágica relacionam-se com os fenômenos do senhor Home: o ruído de
tempestade ouvido pelo mau padre quando de suas primeiras evocações e a perturbação que o impediu de
expor todo seu pensamento na presença de Eliphas Levi.
Pode-se observar também a aparição de um homem sinistro regozijando-se com o luto público e sustentando
um propósito verdadeiramente infernal em meio à multidão consternada, aparição observada apenas pela
extática da Salette, a tão célebre senhorita Merlière, que, não obstante ter a aparência de uma pessoa boa e
respeitável, é muito exaltada e capaz talvez de agir e de falar, sem se aperceber, sob a influência de um
sonambulismo ascético.
Esta palavra sonambulismo traz-nos de volta ao senhor Home, e nossos relatos não nos fizeram esquecer do
que o título deste trabalho prometia a nossos leitores.
Devemos dizer-lhes o que é o senhor Home.
Vamos manter nossa promessa.
O senhor Home é um doente afetado por um sonambulismo contagioso.
Isso é uma asserção.
Restou-nos uma explicação e uma demonstração a dar.
Essa explicação e essa demonstração, para serem completas, pediam um trabalho capaz de encher um livro.
Esse livro está pronto e publicá-lo-emos brevemente.
Eis seu título: A Razão dos Prodígios, ou o Diabo diante da Ciência.
Por que o diabo? Porque demonstramos através de fatos o que antes de nós o senhor Mirville
incompletamente pressentira.
Dizemos incompletamente porque o diabo é, para o senhor Mirville, uma personagem fantástica, enquanto
para nós é o uso abusivo de uma força natural.
Um médium disse: O inferno não é um lugar, é um Estado.
Poderíamos acrescentar: O diabo não é nem uma pessoa nem uma força; é um vício e, por conseguinte, uma
fraqueza.
Voltemos por um momento ao estudo dos fenômenos.
Os médiuns geralmente são seres doentes e limitados.
Nada de extraordinário podem fazer diante das pessoas calmas e instruídas.
É preciso estar habituado a seu contato para ver e sentir algo.
Os fenômenos não são os mesmos para todos os espectadores. Assim, onde um verá uma mão, o outro notará
apenas um vapor esbranquiçado.
As pessoas impressionáveis pelo magnetismo do senhor Home experimentam uma espécie de mal-estar;
parece-lhes que a sala gira, e têm a sensação de que a temperatura abaixa-se rapidamente.
Os prodígios ou os prestígios realizam-se melhor diante de um pequeno número de testemunhas escolhidas
pelo próprio médium.
Numa reunião de pessoas que verão os prestígios, pode encontrar-se uma que não verá absolutamente nada.
Dentre as pessoas que vêem, não vêem todas a mesma coisa.
Assim, por exemplo:
Numa noite, na casa da senhora B... I o médium fez aparecer o filho que essa senhora perdeu. Apenas a
senhora B... via a criança, o conde de M... via um pequeno vapor esbranquiçado em forma de pirâmide, as
outras pessoas nada viam.
Todo mundo sabe que certas substâncias, o haxixe, por exemplo, entorpecem sem privar do uso da razão, e
fazem ver, com uma surpreendente impressão de realidade, coisas que não existem.
Grande parte dos fenômenos do senhor Home pertencem a uma influência natural semelhante à do haxixe.
Eis por que o médium quer operar apenas diante de um pequeno número de pessoas escolhidas por ele.
O restante desses fenômenos deve ser atribuído ao poder magnético.
Ver algo com o senhor Home não é um indício tranqüilizador para a saúde de quem vê.
Aliás, mesmo que a saúde fosse excelente, essa visão revela uma perturbação passageira do aparelho nervoso
em suas relações com a imaginação e com a luz.
Se essa perturbação fosse frequentemente repetida, a pessoa se tornaria seriamente doente.
Quem sabe quantas catalepsias, tétanos, loucuras e mortes violentas a mania das mesas girantes já produziu?
Esses fenômenos tornam-se particularmente terríveis quando deles a perversidade se apodera.
É então que se pode realmente afirmar a intervenção e a presença do espírito do mal.
Perversidade ou fatalidade, os pretensos milagres obedecem a um desses dois poderes.
Quanto às escrituras cabalísticas e às assinaturas misteriosas, diremos que se reproduzem pela intuição
magnética das imagens do pensamento no fluido vital universal.
Esses reflexos instintivos podem produzir-se se o Verbo mágico nada tiver de arbitrário e se os signos do
santuário oculto forem a expressão natural das idéias absolutas.
É o que demonstramos em nosso livro.
Mas, para não remetermos nossos leitores do desconhecido ao futuro, vamos antecipar dois capítulos dessa
obra inédita, um sobre o Verbo cabalístico, o outro sobre os segredos da cabala, e deles tiraremos conclusões
que completarão de modo satisfatório para todos a explicação que prometemos para os fenômenos do senhor
Home.
Existe um poder gerador das formas; este poder é a luz.
A luz cria as formas segundo as leis das matemáticas eternas, pelo equilíbrio universal do dia e da sombra.
Os signos primitivos do pensamento delineiam-se por si sós na luz, que é o instrumento material do
pensamento.
Deus é a alma da luz. A luz universal e infinita é para nós como o corpo de Deus.
A cabala ou a alta magia é a ciência da luz.
A luz corresponde-se com a vida.
O reino das trevas é a morte.
Todos os dogmas da verdadeira religião estão escritos na cabala em caracteres de luz numa página de sombra.
A página de sombra são as crenças cegas.
A luz é o grande mediador plástico.
A aliança da alma com o corpo é um casamento de luz e de sombra.
A luz é o instrumento do Verbo, é a escritura branca de Deus no grande livro da noite.
A luz é a fonte dos pensamentos, e é nela que se deve buscar a origem de todos os dogmas religiosos. Mas só
há um verdadeiro dogma, como só há uma pura luz; apenas a sombra é infinitamente variada.
A luz, a sombra e sua união que é a visão dos seres, tal é o princípio analógico dos grandes dogmas da
Trindade, da Encarnação e da Redenção.
Tal é também o mistério da cruz.
Eis o que nos será fácil provar pelos monumentos religiosos, pelos signos do Verbo primitivo, pelos livros
iniciados na cabala, pela explicação racional, enfim, de todos os mistérios por meio das chaves da magia
cabalística.
Com efeito, em todos os simbolismos encontramos as idéias de antagonismo e de harmonia produzindo uma
noção trinitária na concepção divina, depois a personificação mitológica dos quatro pontos cardeais do céu
completa o setenário sagrado, base de todos os dogmas e de todos os ritos. Para convencermo-nos disto,
bastará relermos e meditarmos sobre a sábia obra de Dupuis, que seria um grande cabalista se tivesse visto
uma harmonia de verdades onde suas preocupações negativas apenas o deixaram ver um concerto de erros.
Não devemos refazer aqui o seu trabalho, que todos conhecem; mas o que importa provar é que a reforma
religiosa de Moisés era inteiramente cabalística, e que o cristianismo, ao instituir um dogma novo,
simplesmente reaproximou-se das fontes primitivas do mosaísmo, e que o Evangelho não é mais do que um
véu transparente lançado sobre os mistérios universais e naturais da iniciação oriental.
Um sábio notável, mas muito pouco conhecido, M. P. Lacour, em seu livro sobre os Eloim ou deuses de
Moisés, lançou nova luz sobre essa questão e encontrou nos símbolos do Egito todas as figuras alegóricas do
Gênesis. Mais recentemente, um bravo pesquisador, de vasta erudição, M. Vincent (de Yonne), publicou um
tratado sobre a idolatria entre os antigos e os modernos, onde ergue o véu da mitologia universal.
Convidamos os homens de estudos conscienciosos a lerem essas diferentes obras e nós nos concentraremos no
estudo especial da cabala entre os hebreus.
Sendo o Verbo, ou a palavra, segundo os iniciados nessa ciência, toda a revelação, os princípios da alta cabala
devem se encontrar reunidos nos próprios sinais que compõem o alfabeto primitivo.
Ora, eis o que encontramos em todas as gramáticas hebraicas.
Há uma letra principiante e universal geradora de todas as outras. É o Iod h .
Há duas outras letras mães opostas e análogas entre si; o Aleph t e o Mem n , seguindo-se a outras o Schin a .
Há sete letras duplas, o Beth c , o Ghimel d , o Daleth s , o Caph f , o Phé p , o Resch r e o Tau , .
Finalmente há doze simples que são as outras letras; ao todo, vinte e duas.
A unidade é representada de modo relativo pelo aleph, o ternário é figurado ou por iod, mem, schin, ou por
aleph, mem, schin.
O setenário por beth, ghimel, daleth, caph, phé, resch, tau.
O duodenário pelas outras letras. O duodenário é o ternário multiplicado por quatro; e entra também no
simbolismo do setenário.
Cada letra representa um número:
Cada conjunto de letras uma série de números.
Os números representam idéias filosóficas absolutas.
As letras são hieróglifos abreviados.
Vejamos agora as significações hieroglíficas e filosóficas de cada uma das vinte e duas letras. (Ver
Belarmino, Reuchlin, São Jerônimo, Kabbala denudata, o Sepher Yétsírah, Technica curiosa do padre Schott,
Pico delia Mirandola e os outros autores, especialmente os da coleção de Pistorius.)
As Mães
O iod - o princípio absoluto, o ser produtor;
O mem - o espírito, ou o Jaquim de Salomão;
O schin - a matéria, ou a coluna Boaz.
As Duplas
Beth - o reflexo, o pensamento, a lua, o anjo Gabriel, príncipe dos mistérios;
Ghimel - o amor, a vontade, Vênus, o anjo Anael, príncipe da vida e da morte;
Daleth - a força, o poder, Júpiter, Sachiel Melech, rei dos reis;
Caph - a violência, a luta, o trabalho, Mars Samaël Zébaoth, príncipe das falanges;
Phé - a eloqüência, a inteligência, Mercúrio, Rafael, príncipe das ciências;
Resch - a destruição e a regeneração, o Tempo, Saturno, Cassiel, rei dos túmulos e das solidões;
Tau - a verdade, a luz, o Sol, Micael, rei dos Eloim.
As Simples
As simples dividem-se em quatro ternários trazendo por títulos as quatro letras do tetragrama divino v u v h .
No tetragrama divino, o iod, como acabamos de dizer, figura o princípio produtor ativo. O he v representa o
princípio produtor passivo, o ctëiss. O vau , figura a união dos dois ou o linga, e o he final é a imagem do
princípio produtor secundário, isto é, da reprodução passiva no mundo dos efeitos e das formas.
As doze letras simples v u z y j h k b o g m e , divididas em grupos de três, reproduzem a noção do triângulo
primitivo, com a interpretação e sob a influência de cada uma das letras do tetragrama.
Vê-se que a filosofia e o dogma religioso da cabala estão indicados aí de modo completo mas velado.
Interroguemos agora as alegorias do Gênesis.
"No princípio (iod, a unidade do ser), Eloim, as forças equilibradas (Jaquin e Boaz) fizeram o céu (o espírito)
e a terra (a matéria), em outras palavras, o bem e o mal, a afirmação e a negação." Assim começa o relato de
Moisés.
Depois, quando se trata de dar um lugar ao homem e um primeiro santuário à sua aliança com a divindade,
Moisés fala de um jardim no meio do qual uma fonte única dividia-se em quatro rios (o Jod e o Tetragrama),
depois de duas árvores, uma da vida, outra da morte, plantadas perto do rio. Aí são colocados o homem e a
mulher, o ativo e o passivo, a mulher simpatiza com a morte e arrasta consigo em sua ruína Adão, eles são,
pois, expulsos do santuário da verdade e um chérub (uma esfinge com cabeça de touro, ver os hieróglifos da
Assíria, da Índia e do Egito) é colocado à porta do jardim da verdade para impedir os profanadores de
destruírem a árvore da vida. Aí está, portanto, o dogma misterioso com todas as suas alegorias e seus horrores
que sucede à simples verdade. O ídolo substituiu Deus, e a humanidade decadente não tardará a dedicar-se ao
culto do novilho de ouro.
O mistério das reações necessárias e sucessivas dos dois princípios um sobre o outro é, em seguida, indicado
pela alegoria de Caim e Abel. A força vinga-se, por opressão, das seduções da fraqueza; a fraqueza mártir
expia e intercede pela força condenada em conseqüência do crime à vergonha e ao remorso. Assim revela-se o
equilíbrio do mundo moral, assim assenta-se a base de todas as profecias e o ponto de apoio de toda política
inteligente. Abandonar uma força a seus próprios excessos é condená-la ao suicídio.
O que faltou a Dupuis para compreender o dogma religioso universal da cabala foi a ciência desta bela
hipótese demonstrada em parte e realizada a cada dia mais pelas descobertas da ciência: a analogia universal.
Privado dessa chave do dogma transcendental, não pôde ver em todos os deuses senão o sol, os sete planetas e
os doze signos do zodíaco, mas não viu no sol a imagem do logos de Platão, nos sete planetas as sete notas da
gama celeste, e no zodíaco a quadratura do ciclo ternário de todas as iniciações.
O imperador Juliano, esse espiritualista incompreendido, esse iniciado cujo paganismo era menos idólatra do
que a fé de certos cristãos, o imperador Juliano, dizemos, compreendia melhor que Dupuis e Volnay o culto
simbólico ao sol. Em seu hino ao rei Hélio reconhece que o astro do dia é apenas o reflexo e a sombra
material daquele sol de verdade que ilumina o mundo da inteligência e que é ele próprio apenas um clarão
tomado emprestado ao absoluto.
Coisa notável, Juliano tem o Deus supremo que os cristãos pensavam serem os únicos a adorar, idéias bem
maiores e bem mais justas do que as de vários pais da Igreja, adversários e contemporâneos desse imperador.
Eis como ele expressa-se em sua defesa do helenismo:
"Não basta escrever num livro: Deus disse, e as coisas foram feitas. É preciso ver se as coisas que atribuem a
Deus não são contrárias às próprias leis do Ser. Pois, se assim for, Deus não as pode ter feito, ele que não
pode dar desmentidos à natureza sem negar-se a si próprio... Sendo Deus eterno, é absolutamente necessário
que suas ordens sejam imutáveis como ele."
Eis como falava esse apóstata e esse ímpio, e mais tarde um doutor cristão, que se tornou o oráculo das
escolas de teologia, devia, inspirando-se talvez nas belas palavras do descrente, colocar um freio em todas as
superstições ao escrever esta bela e corajosa máxima que tão bem resume o pensamento do grande imperador:
"Uma coisa não é justa porque Deus a quer; mas Deus a quer porque ela é justa."
A idéia de uma ordem perfeita e imutável na natureza, a noção de uma hierarquia ascendente e de uma
influência descendente em todos os seres fornecerá aos antigos hierofantes a primeira classificação de toda a
história natural. Os minerais, os vegetais, os animais foram estudados analogicamente, e atribuíram-se sua
origem e suas propriedades ao princípio passivo ou ao princípio ativo, às trevas ou à luz. O signo de sua
eleição ou de sua reprovação, desenhado na sua forma, tornou-se o caráter hieroglífico de um vício ou de uma
virtude; depois, de tanto tomar o signo pela coisa, e exprimir a coisa pelo signo, acabou-se por confundi-los, e
tal é a origem da história natural fabulosa em que leões deixam-se abater por galos, em que delfins morrem de
dores após haverem feito ingratos entre os homens, em que mandrágoras falam e estrelas cantam. Esse mundo
encantado é verdadeiramente o domínio poético da magia; mas tem como realidade apenas a significação dos
hieróglifos que lhe deram origem. Para o sábio que compreende as analogias da alta cabala e a relação exata
das idéias com os signos, esse país fabuloso das fadas é uma região ainda fértil em descobertas, pois as
verdades muito belas ou muito simples para agradar aos homens sem véus foram todas ocultadas sob essas
sombras engenhosas.
Sim, o galo pode intimidar o leão e tornar-se seu mestre, porque a vigilância frequentemente substitui a força
e consegue domar a cólera. As outras fábulas da pretensa história natural dos antigos explicam-se do mesmo
modo, e, nesse uso alegórico das analogias, já se pode compreender os abusos possíveis e pressentir os erros
que se devem ter originado na cabala.
A lei das analogias foi, de fato, para os cabalistas da segunda ordem, o objeto de uma fé cega e fanática. É a
essa crença que devem ser relacionadas todas as superstições reprovadas aos adeptos das ciências ocultas. Eis
como raciocinavam:
O signo exprime a coisa.
A coisa é a virtude do signo.
Há correspondência analógica entre o signo e a coisa significada.
Quanto mais perfeito é o signo, mais a correspondência é total.
Dizer uma palavra é evocar um pensamento e torná-lo presente. Dizer Deus, por exemplo, é manifestar Deus.
A palavra age sobre as almas e as almas reagem sobre os corpos; pode-se, portanto, assustar, consolar, fazer
adoecer, curar, matar e ressuscitar por palavras.
Proferir um nome é criar ou chamar um ser.
No nome está contida a doutrina verbal ou espiritual do próprio ser.
Quando a alma evoca um pensamento, o signo desse pensamento escreve-se por si só na luz. Invocar é
adjurar, isto é, jurar por um nome: é fazer ato de fé nesse nome e comungar na virtude que ele representa.
As palavras, portanto, são por si próprias boas ou más, venenosas ou salutares.
As palavras mais perigosas são as palavras vãs e proferidas levianamente, porque são abortos voluntários do
pensamento.
Uma palavra inútil é um crime contra o espírito de inteligência. É um infanticídio intelectual.
As coisas são para cada pessoa o que ela as faz ao denominá-las. O verbo de cada pessoa é uma impressão ou
uma prece habitual.
Falar bem é viver bem.
Um belo estilo é uma auréola de santidade.
Desses princípios, uns verdadeiros, outros hipotéticos, e das conseqüências mais ou menos exageradas que
deles tiravam, resultava para os cabalistas supersticiosos uma confiança absoluta nos encantamentos,
evocações, conjurações e orações misteriosas. Ora, como a fé sempre realiza prodígios, nunca lhe faltaram as
aparições, os oráculos, as curas maravilhosas, as doenças súbitas e estranhas.
Foi assim que uma simples e sublime filosofia tornou-se a ciência secreta da magia negra. É sobretudo desse
ponto de vista que a cabala pode ainda excitar a curiosidade da maioria em nosso século tão desconfiado e tão
crédulo. No entanto, como acabamos de expor, a verdadeira ciência não está aí.
Os homens raramente procuram a verdade por ela mesma; têm sempre por motivo secreto em seus esforços
alguma paixão a satisfazer ou alguma cupidez a saciar. Dentre os segredos da cabala, há um que sempre
atormentou os pesquisadores: o segredo da transmutação dos metais e a conversão de todas as substâncias
terrestres em ouro.
De fato, a alquimia tomou emprestado à cabala todos os seus signos, e era na lei das analogias, resultantes da
harmonia dos contrários, que baseava suas operações. Um segredo físico imenso estava, aliás, oculto sob
parábolas cabalísticas dos antigos. Conseguimos decifrá-lo e vamos confiá-lo às investigações dos fazedores
de ouro. Ei-lo:
1º - Os quatro fluidos imponderáveis são apenas as manifestações diversas de um mesmo agente universal que
é a luz.
2º - A luz é o fogo que serve à grande obra sob forma de eletricidade.
3º - A vontade humana dirige a luz vital por meio do aparelho nervoso. Em nossos dias isso denomina-se
magnetizar.
4º - O agente secreto da pedra filosofal, o azote dos sábios, o ouro vivo e vivificante dos filósofos, o agente
produtor metálico universal é a ELETRICIDADE MAGNETIZADA.
A aliança dessas duas palavras ainda não nos diz muito e, no entanto, elas talvez encerrem uma força capaz de
revolucionar o mundo. Dizemos talvez por conveniência filosófica, pois, de nossa parte, não duvidamos da
alta importância desse grande arcano hermético.
Acabamos de dizer que a alquimia é filha da cabala; e, para convencer-se disso, basta interrogar os símbolos
de Flamel, de Basílio Valentim, as páginas do judeu Abraão e os oráculos mais ou menos apócrifos da mesa
de esmeralda de Hermez. Em toda a parte encontram-se os traços dessa década de Pitágoras tão
brilhantemente aplicada, no Sepher Yétsirah, à noção completa e absoluta das coisas divinas, essa década
composta da unidade e de um tríplice ternário que os rabinos denominaram o Bereschit e a Mercabah, a
árvore luminosa das Sefirotes e a chave dos Schemamphorasch.
Falamos, com certa extensão, em nosso livro intitulado Dogma e Ritual da Alta Magia, de um monumento
hieroglífico conservado até os nossos dias sob um pretexto fútil, e que sozinho explica todas as escrituras
misteriosas da alta iniciação. Esse monumento é o tarô dos Boêmios que deu origem a nossos jogos de cartas.
Compõe-se de vinte e duas letras alegóricas e de quatro séries, cada uma de dez hieróglifos relativos às quatro
letras do nome de Jehovah. As diversas combinações desses signos e dos números que lhes correspondem
formam a mesma quantidade de oráculos cabalísticos, de modo que a ciência inteira está contida nesse livro
misterioso. Essa máquina filosófica perfeitamente simples surpreende pela profundidade e exatidão de seus
resultados.
O abade Trithème, um de nossos maiores mestres em magia, compôs sobre o alfabeto cabalístico um trabalho
muito engenhoso a que ele denomina poligrafia. É uma série combinada de alfabetos progressivos em que
cada letra representa uma palavra, as palavras correspondem-se e completam-se de um alfabeto ao outro, e
não há dúvida de que Trithème teve conhecimento do tarô e dele se utilizou para dispor numa ordem lógica
suas sábias combinações.
Jerônimo Cardano conhecia o alfabeto simbólico dos iniciados como se pode reconhecer pelo número e pela
disposição dos capítulos de sua obra sobre a sutileza. Essa obra, com efeito, é composta de vinte e dois
capítulos, e o tema de cada capítulo é análogo ao número e à alegoria da carta correspondente no tarô.
Fizemos a mesma observação sobre um livro de São Martinho intitulado Quadro Natural das Relações que
existem entre Deus, o Homem e o Universo. A tradição desse segredo não foi, pois, interrompida desde os
primórdios da cabala até os nossos dias.
Os giradores de mesa e os que fazem falar os espíritos através de quadrantes alfabéticos estão, pois, muitos
séculos atrasados e não sabem que existe um instrumento de oráculo claro e de um sentido exato por meio do
qual se pode comunicar com os sete gênios dos planetas e fazer falar à vontade as setenta e duas rodas de
Aziah, Jezirah e Briah. Para isso basta conhecer o sistema de analogias universais, tal como expôs
Swedenborg na chave hieroglífica dos arcanos, depois embaralhar as cartas e tirar ao acaso, dispondo-as
sempre pelos números correspondentes às idéias cujos esclarecimentos se deseja, depois ler os oráculos como
devem ser lidas as escrituras cabalísticas, isto é, começando no meio indo da direita para a esquerda para os
números ímpares, começando à direita para os pares e interpretando sucessivamente o número pela letra que
lhe corresponde, o conjunto das cartas pela adição de seus números e todos os oráculos sucessivos por sua
ordem numeral e suas relações hieroglíficas.
Essa operação dos sábios cabalistas para encontrar o desenvolvimento rigoroso das idéias absolutas degenerou
em superstições em meio aos padres ignorantes e aos nômades ancestrais dos Boêmios que possuíam o tarô da
Idade Média, sem conhecer seu verdadeiro emprego e que dele se serviam unicamente para ler a sorte.
O jogo de xadrez, atribuído a Palamedes, não tem outra origem senão o tarô, e nele encontram-se as mesmas
combinações e os mesmos símbolos, o rei, a rainha, o cavaleiro, o soldado, o louco, a torre, depois casas
representando os números. Os antigos jogadores de xadrez procuravam em seu tabuleiro a solução dos
problemas filosóficos e religiosos, e argumentavam um contra o outro em silêncio manobrando os caracteres
hieroglíficos através dos números. Nosso vulgar jogo do ganso, copiado dos gregos e igualmente atribuído a
Palamedes, é apenas um tabuleiro de figuras imóveis e números móveis por meio dos dados. É um tarô
disposto em roda destinado ao uso dos aspirantes à iniciação. Ora, a palavra tarô, em que se encontram rota e
tora, exprime ela própria, como demonstrou-o Guilherme Postel, essa disposição primitiva em forma de roda.
Os hieróglifos do jogo do ganso são mais simples que os do tarô, mas encontram-se aí os mesmos símbolos: o
bobo, o rei, a rainha, a torre, o diabo ou tífon, a morte, etc. As probabilidades aleatórias desse jogo
representam as da vida e escondem um sentido filosófico bastante profundo para fazer meditar os sábios e
bastante simples para ser compreendido pelas crianças.
A personagem alegórica de Palamedes é aliás idêntica às de Henoc, de Hermes e de Cádmo, aos quais atribuise
a invenção das letras nas diversas mitologias. Mas, no pensamento de Homero, Palamedes, o revelador e a
vítima de Ulisses, representa o iniciador ou o gênio cujo destino eterno é ser morto por aqueles que inicia. O
discípulo torna-se a realização viva dos pensamentos do mestre apenas depois de ter tomado seu sangue e
comido sua carne, segundo a enérgica e alegórica expressão do iniciador tão mal compreendido pelos cristãos.
A concepção do alfabeto primitivo era, como se pode ver, a idéia de uma língua universal, encerrando em
suas combinações e em seus próprios signos o resumo e a lei da evolução de todas as ciências divinas e
humanas. Acreditamos que, desde então, nada mais bonito nem maior foi sonhado pelo gênio dos homens e
confessamos que a descoberta desse segredo do mundo antigo compensou-nos plenamente por tantos anos de
pesquisas estéreis e trabalhos ingratos nas criptas das ciências perdidas e nas necrópoles do passado.
Um dos primeiros resultados dessa descoberta seria uma nova direção dada ao estudo das escrituras
hieroglíficas ainda tão imperfeitamente decifradas pelos êmulos e pelos sucessores de Champollion. Sendo o
sistema de escritura dos discípulos de Hermes analógico e sintético como todos os signos da cabala, para a
leitura das páginas gravadas nas pedras dos antigos templos não importaria recolocar essas pedras em seu
lugar e contar o número de suas letras comparando-as com os números das outras pedras?
O obelisco de Lúxor, por exemplo, não era uma das duas colunas da entrada de um templo? ficava à direita ou
à esquerda? Se ficava à direita, seus sinais referem-se ao princípio ativo; se ficava à esquerda, é pelo princípio
passivo que se devem interpretar seus caracteres. Mas deve haver uma correspondência exata de um obelisco
ao outro, e cada signo deve receber seu sentido completo da analogia dos contrários; Champollion encontrou
traços do copta nos hieróglifos, um outro sábio talvez encontrasse mais facilmente e mais felizmente o
hebraico, mas o que diriam se não fosse nem hebraico nem copta? Se fosse, por exemplo, a língua universal
primitiva? Ora, essa língua, que é a da alta cabala, existiu certamente, existe na base do próprio hebraico e de
todas as línguas orientais que dele derivam, essa língua é a do santuário, e as colunas da entrada dos templos
geralmente resumiam todos os seus símbolos. A intuição dos extáticos aproxima-se mais da verdade sobre
esses signos primitivos do que a própria ciência dos sábios. Isso porque, como dissemos, o fluido vital,
universal, a luz astral, sendo princípio mediador entre as idéias e as formas, obedece aos impulsos
extraordinários da alma que procura o desconhecido e fornece-lhe naturalmente os signos já encontrados, mas
esquecidos, das grandes revelações do ocultismo. Assim formaram-se as pretensas assinaturas dos espíritos,
assim produziram-se as escrituras misteriosas de Gablidone que visitava o doutor Laváter, dos fantasmas de
Schroepfer, do São Miguel de Vintras e dos espíritos do senhor Home.
Se a eletricidade pode mover um corpo leve ou mesmo pesado sem que seja tocado, seria impossível, pelo
magnetismo, dar à eletricidade uma direção e assim produzir naturalmente sinais e escrituras? É certamente
possível, uma vez que isso é feito.
Assim, portanto, aos que nos perguntarem qual é o maior agente dos prodígios, responderemos:
- É a matéria-prima da pedra filosofal.
- É a ELETRICIDADE MAGNETIZADA.
Tudo foi criado pela luz.
É na luz que a forma conserva-se.
É pela luz que a forma reproduz-se.
As vibrações da luz são o princípio do movimento universal.
Pela luz os sóis ligam-se uns aos outros e entrelaçam seus raios como cadeias de eletricidade.
Os homens e as coisas são imantados de luz como os sóis e podem, por meio de cadeias eletromagnéticas
estendidas pelas simpatias e afinidades, comunicar-se uns com os outros de uma à outra extremidade do
mundo, acariciar-se ou bater-se, curar-se ou ferir-se de modo natural certamente, mas prodigioso e invisível.
Aí está o segredo da magia.
A magia, a ciência que nos vem dos magos. A magia, a primeira das ciências.
A mais santa de todas, uma vez que estabelece de modo mais sublime as grandes verdades religiosas.
A mais caluniada de todas, porque o vulgo obstina-se em confundir a magia com a bruxaria supersticiosa
cujas práticas abomináveis denunciamos.
É somente pela magia que pode, diante das questões enigmáticas da Esfinge de Tebas e das obscuridades por
vezes escandalosas difundidas nos relatos da Bíblia, responder a tais perguntas e encontrar a solução desses
problemas da história judaica.
Os próprios historiadores sagrados reconhecem a existência e o poder da magia que concorria abertamente
com o de Moisés.
A Bíblia conta-nos que Janes e Mambres, os mágicos do Faraó, fizeram em primeiro lugar os mesmos
milagres que Moisés, e que declararam impossíveis à ciência humana os que não puderam imitar. Com efeito,
é mais lisonjeiro para o amor-próprio de um charlatão confessar o milagre do que declarar-se vencido pela
ciência ou pela destreza de um colega, sobretudo quando esse colega é um inimigo político ou um adversário
religioso.
Onde começa e onde termina o possível na ordem dos milagres mágicos? Eis uma grave e importante questão.
É certa a existência dos fatos habitualmente classificados como milagres. Os magnetizadores e os sonâmbulos
fazem-nos todos os dias; a irmã Rose Tamisier os fez, o iluminado Vintras ainda os faz; mais de quinze mil
testemunhas atestavam ultimamente os dos médiuns da América, dez mil camponeses do Berry e da Sologne
atestariam, se necessário, os do deus Cheneau (um antigo comerciante de botões retirado dos negócios e que
se acredita inspirado por Deus). Todas essas pessoas são alucinadas ou espertalhonas? Alucinadas, talvez, mas
o próprio fato de ser sua alucinação idêntica, seja separadamente, seja coletivamente, não é um milagre
bastante grande da parte de quem o produz sempre que deseja e no momento oportuno?
Fazer milagres ou persuadir a multidão de que os faz é quase a mesma coisa, sobretudo num século tão
leviano e tão zombeteiro quanto o nosso. Ora, o mundo está cheio de taumaturgos, e a ciência é
freqüentemente obrigada a negar suas obras ou a recusar-se a vê-las para não ser obrigada a examiná-las e
atribuir-lhes uma causa.
No século passado, repercutiram em toda a Europa os prodígios de Cagliostro. Quem não sabe de todo o
poder que se atribuía a seu vinho do Egito e a seu elixir? Que poderíamos acrescentar a tudo o que se conta
daquelas ceias do outro mundo, em que ele fazia aparecer em carne e osso os personagens ilustres do
passado? No entanto, Cagliostro estava longe de ser um iniciado da primeira ordem, já que a grande
associação dos adeptos abandonou-o à inquisiçao romana, diante da qual, se se deve acreditar nas peças de
seu processo, deu uma ridícula e odiosa explicação do trigrama maçônico L.’.P.’.D.’.
Mas os milagres não são um quinhão exclusivo dos iniciados da primeira ordem e freqüentemente são
realizados por seres sem instrução e sem virtude. As leis naturais encontram num organismo, cujas qualidades
excepcionais nos escapam, uma ocasião para exercerem-se, e fazem sua obra, como sempre, com precisão e
calma. Os gourmets mais delicados apreciam as trufas e consomem-nas, mas são os porcos que as
desenterram: analogicamente, ocorre o mesmo com muitas coisas menos materiais e menos gastronômicas: os
instintos procuram e pressentem, mas apenas a ciência verdadeiramente encontra.
O progresso atual do conhecimento humano diminuiu muito as chances dos prodígios, mas resta ainda um
grande número deles, uma vez que não se conhece nem a força da imaginação nem a razão de ser e o poder do
magnetismo. A observação das analogias universais foi negligenciada e é por isso que não se crê mais na
adivinhação.
Um sábio cabalista ainda pode, portanto, assustar a multidão e confundir até mesmo as pessoas instruídas:
1º - Adivinhando as coisas ocultas;
2º predizendo muitas coisas futuras;
3º dominando a vontade dos outros de modo a impedi-los de fazer o que desejam e a forçá-los a fazer o que
não desejam;
4º excitando à vontade aparições e sonhos;
5º curando um grande número de doenças;
6º devolvendo a vida a sujeitos em que se manifestam todos os sintomas da morte;
7º finalmente, demonstrando, com exemplos, se necessário, a realidade da pedra filosofal e da transmutação
dos metais, segundo os segredos de Abraão, o Judeu, de Flamel e de Raimundo Lúlio.
Todos esses prodígios operam-se por meio de um único agente que os hebreus chamavam OD, como o
cavaleiro de Reichenbach; que chamamos luz astral, com a escola de Pasqualis Martinez; que Mirville chama
diabo; que os antigos alquimistas denominavam azote. É o elemento vital que se manifesta pelos fenômenos
de calor, de luz, de eletricidade e de magnetismo, que imanta todos os globos terrestres e todos os seres vivos.
Nesse agente manifestam-se as provas da doutrina cabalística sobre o equilíbrio e o movimento pela dupla
polaridade, em que uma atrai enquanto a outra repele, em que uma produz o quente, a outra o frio, enfim em
que uma dá uma luz azul e esverdeada, a outra uma luz amarela e avermelhada.
Esse agente, por seus diferentes modos de imantação, atrai-nos uns para os outros ou distancia-nos uns dos
outros, submete um às vontades do outro fazendo-o entrar em seu círculo de atração, restabelece ou perturba o
equilíbrio na economia animal por suas transmutações e seus eflúvios alternativos, recebe e transmite as
impressões da força imaginária, que é no homem a imagem e a semelhança do verbo criador, produz, assim,
os pressentimentos e determina os sonhos. A ciência dos milagres é, pois, o conhecimento dessa força
maravilhosa, e a arte de fazer milagres é tão simplesmente a arte de imantar ou de iluminar os seres segundo
as leis invariáveis do magnetismo ou da luz astral.
Preferimos a palavra luz a magnetismo, porque ela é mais tradicional no ocultismo e expressa de modo mais
completo e perfeito a natureza do agente secreto. Encontra-se aí, verdadeiramente, o ouro fluido e potável dos
mestres da alquimia, a palavra ouro vem do hebraico or, que significa luz. "O que quereis?", perguntava-se
aos recipiendários de todas as iniciações. "Ver a luz", devia-se responder. O nome iluminados, que
comumente se dá aos adeptos, foi, pois, muito mal interpretado quando lhe deram um sentido místico, como
se significasse homens cuja inteligência teria se tornado iluminada num dia miraculoso. Iluminados quer dizer
simplesmente conhecedores e possuidores da luz, seja pela ciência do grande agente mágico, seja pela noção
racional e ontológica do absoluto.
O agente universal é a força vital e subordinada à inteligência. Abandonado a si próprio, devora rapidamente,
como Moloch, tudo o que gera, e transforma em vasta destruição a superabundância da vida. É, então, a
serpente infernal dos antigos mitos, o Tífon dos egípcios e o Moloch da Fenícia; mas, se a sabedoria, mãe dos
Eloim, coloca-lhe o pé sobre a cabeça, extingue todas as chamas vomitadas por ele e derrama sobre a terra, a
mãos cheias, uma luz vivificante. Do mesmo modo está dito no Zohar que no início de nosso período
terrestre, quando os elementos disputavam entre si a superfície do mundo, o fogo, semelhante a uma serpente
imensa, envolvera tudo em suas espirais e ia consumir todos os seres, quando a clemência divina, erguendo à
sua volta as ondas do mar como uma vestimenta de nuvens, colocou o pé sobre a cabeça da serpente e fê-la
retornar ao abismo. Quem não vê nessa alegoria o primeiro dado e a explicação mais razoável de uma das
imagens mais caras ao simbolismo católico, o triunfo da mãe de Deus?
Os cabalistas dizem que o nome oculto do diabo, seu verdadeiro nome, é o mesmo de Jehovah escrito às
avessas. Isso é toda uma revelação para o iniciado aos mistérios do tetragrama. De fato, a ordem das letras
desse grande nome indica a predominância da idéia sobre a forma, do ativo sobre o passivo, da causa sobre o
efeito. Invertendo-se essa ordem obtém-se o contrário. Jehovah é aquele que doma a natureza como a um
cavalo bravio e a faz ir onde ele quer, chevajoh (o demônio) é o cavalo sem freio que, semelhante aos dos
egípcios no cântico de Moisés, derruba seu cavaleiro arrastando-o consigo para o abismo.
O diabo, pois, existe de modo muito real para os cabalistas, mas não é nem uma pessoa, nem um poder
distinto das próprias forças da natureza. O diabo é a divagação ou o sono da inteligência. É a loucura e a
mentira.
Assim explicam-se todos os pesadelos da Idade Média, assim explicam-se também os estranhos símbolos de
alguns iniciados, como os dos Templários, por exemplo, bem menos culpados por terem prestado culto a
Baphomet do que por terem revelado sua imagem a profanos. O Baphomet, figura panteística do agente
universal, não é outra coisa senão o demônio barbudo dos alquimistas. Sabe-se que os mais graduados na
antiga maçonaria hermética atribuíam a um demônio barbudo dar conclusão à pedra filosofal, cabendo ao não
iniciado nesta palavra persignar-se e tapar a vista, mas os iniciados ao culto de Hermès-Panthée
compreendiam a alegoria e cuidavam em não explicá-la aos profanos.
Mirville, num livro atualmente quase esquecido, mas que teve certa repercussão há alguns meses, deu-se
muito trabalho para reunir algumas bruxarias no gênero das que enchem as compilações dos Delancre, dos
Delrio e dos Bodin. Teria encontrado melhor do que isso na história. E sem falar dos milagres tão averiguados
dos jansenistas de PortRoyal e do diácono Páris, que pode haver de mais maravilhoso do que a grande
monomania do marítimo que fez as crianças e as próprias mulheres acorrerem ao suplício como a uma festa
durante trezentos anos? Que pode haver de mais magnífico do que essa fé entusiasta atribuída durante tantos
séculos aos mais incompreensíveis e, humanamente falando, mais revoltantes dos mistérios? Nessa ocasião,
direis, os milagres vinham de Deus, e servimo-nos deles até como uma prova para estabelecer a verdade da
religião. Ora essa! Os heréticos também deixavam-se matar por dogmas francamente bastante absurdos;
sacrificavam, pois, também a razão e a vida ao seu credo? Oh! com relação aos heréticos é evidente que o
diabo estava em jogo. Pobres-coitados que tomavam o diabo por Deus e Deus pelo diabo! Como desiludiramse
quando os fizeram reconhecer o verdadeiro Deus na caridade, na ciência, na justiça e sobretudo na
misericórdia de seus ministros!
Os necromantes, que fazem aparecer o diabo após uma série fatigante e quase impossível das mais revoltantes
evocações, são apenas crianças ao pé do Santo Antônio da lenda que os tirava aos milhares do inferno e os
arrastava sempre consigo, como de Orfeu se conta que atraía para si os carvalhos, as rochas e os animais mais
selvagens.
Somente Callot, iniciado pelos boêmios nômades durante a infância aos mistérios da bruxaria negra, pôde
compreender e reproduzir as evocações do primeiro eremita. E credes que ao descreverem os sonhos
assustadores da maceração e do jejum, os legendários tenham inventado? Não; ficaram muito aquém da
realidade. Os claustros, com efeito, sempre foram povoados por espectros sem nome, cujas sombras e larvas
infernais pulsam em suas paredes. Certa vez, Santa Catarina de Sena passou oito dias em meio a uma orgia
obscena que teria desencorajado a veia poética de Aretino; Santa Teresa sentiu-se transportada viva ao inferno
e aí sofreu, entre muralhas que se juntavam, angústias que apenas as mulheres histéricas poderão
compreender... Tudo isso, dirse-á, passava-se na imaginação dos pacientes. Mas onde, pois, quereis que se
possam passar fatos de ordem sobrenatural? O certo é que todos esses visionários viram, tocaram, tiveram o
sentimento lancinante de uma realidade aterradora. Falamos baseados em nossa própria experiência, e há
visões de nossa primeira juventude passada num recolhimento e num ascetismo cuja lembrança ainda nos faz
estremecer.
Deus e o diabo são o ideal do bem e do mal absolutos. Mas o homem nunca concebe o mal absoluto senão
como uma falsa idéia do bem. Só o bem pode ser absoluto, e o mal é relativo unicamente a nossas ignorâncias
e a nossos erros. Todo homem para ser deus faz-se primeiro diabo; mas, como a lei da solidariedade é
universal, a hierarquia existe no inferno como no céu. Um ser malévolo sempre encontrará um pior do que ele
para fazer-lhe mal; e quando o mal atinge seu ápice é preciso que cesse, pois só poderia continuar pelo
aniquilamento do ser, o que é impossível. Então os homens-diabo, esgotados seu recursos, recaem no domínio
dos homens-Deus e são salvos por aqueles que inicialmente pareciam ser suas vítimas; mas o homem que se
esmera em viver fazendo o mal presta homenagem ao bem por toda a inteligência e energia que desenvolve
em si próprio. É por isso que o grande iniciador dizia em sua linguagem figurada: Sede frios ou quentes,
porque se sois mornos fazeis-me vomitar.
O grande mestre, numa de suas parábolas, condena unicamente o preguiçoso que enterrou seu depósito por
medo de perdê-lo nas operações arriscadas desse banco que se chama vida. Nada pensar, nada amar, nada
querer, nada fazer, eis o verdadeiro pecado. A natureza reconhece e recompensa apenas os trabalhadores.
A vontade humana desenvolve-se e aumenta pela atividade. Para querer realmente, é preciso agir. A ação
domina e sempre arrasta a inércia. Tal é o segredo da influência dos pretensos celerados sobre as pessoas
supostamente honestas. Quantos poltrões e covardes crêem-se virtuosos porque têm medo! Quantas mulheres
honradas olham com inveja para as prostitutas! Não faz ainda muito tempo os galerianos estavam na moda.
Por quê? Pensais que a opinião pública nunca possa render homenagem ao vício? Não, mas ela faz justiça à
atividade e à audácia, e está na ordem que os covardes infames estimem os bandidos audaciosos.
A audácia unida à inteligência é a mãe de todos os sucessos neste mundo. Para empreender, é preciso saber;
para realizar, é preciso querer; para querer verdadeiramente, é preciso ousar; e, para recolher em paz os frutos
da própria audácia, é preciso calar-se.
SABER, OUSAR, QUERER, CALAR-SE são, como dissemos antes, os quatro verbos cabalísticos que
correspondem às quatro letras do tetragrama e às quatro formas hieroglíficas da Esfinge. Saber é a cabeça
humana; ousar são as garras do leão; querer são as ilhargas laboriosas do touro; calar-se são as asas místicas
da águia. Apenas mantém-se acima dos outros homens quem não prostitui os segredos de sua inteligência aos
comentários e ao escárnio daqueles.
Todos os homens verdadeiramente fortes são magnetizadores e o agente universal obedece à sua vontade. É
assim que eles operam maravilhas. Fazem-se acreditar, fazem-se seguir e quando dizem: Isto é assim, a
natureza de certa forma muda aos olhos do vulgo e torna-se o que o grande homem quis. Isto é minha carne e
isto é meu sangue, disse um homem que se fez Deus por suas virtudes e, em presença de um pedaço de pão e
de um pouco de vinho, dezoito séculos viram, tocaram, provaram, adoraram a carne e o sangue divinizados
pelo martírio! Dizei-nos agora que a vontade humana nunca realiza milagres!
Não nos faleis aqui de Voltaire, Voltaire não foi um taumaturgo, foi o espiritual e eloqüente intérprete
daqueles sobre os quais os milagres não agiam mais. Tudo em sua obra é negativo; ao contrário, tudo era
afirmativo na de Galileu, como o chamava um ilustre e muito infeliz imperador. Do mesmo modo, Juliano
tentara em sua época mais do que Voltaire pôde realizar, queria opor o prestígio aos prestígios, a austeridade
do poder à do protesto, as virtudes às virtudes, os milagres aos milagres; os cristãos jamais tiveram inimigos
tão perigosos, e sentiram-no bem, pois Juliano foi assassinado, e a lenda dourada ainda atesta que um santo
mártir, acordado na tumba pelos clamores da Igreja, pegou das armas e feriu o apóstata no ombro em meio a
seu exército e a suas vitórias. Tristes mártires que ressuscitam para serem algozes! Crédulo imperador que se
fiava em seus deuses e nas virtudes dos tempos antigos.
Quando os reis da França viviam cercados pela adoração de seu povo, quando eram vistos como os ungidos
do Senhor e os primogênitos da Igreja, curavam escrófulas. Um homem em voga fará milagres quando quiser.
Cagliostro podia ser apenas um charlatão, mas, desde que a opinião pública fizera dele o divino Cagliostro,
ele devia operar prodígios, e foi também o que aconteceu.
Quando Céphas Barjona era apenas um judeu, proscrito por Nero e que vendia às mulheres dos escravos um
específico para a vida eterna, não passava de um charlatão para todas as pessoas instruídas de Roma; mas a
opinião pública fez do empírico espiritualista um apóstolo; e os sucessores de Pedro, sejam eles Alexandre VI
ou mesmo João XXII, são infalíveis para todo homem bem-educado e que não deseje ser inutilmente banido
da sociedade. Assim segue o mundo.
O charlatanismo, quando bem-sucedido, é, pois, em magia como em todas as coisas, um grande instrumento
de poder. Fascinar habilmente o vulgo não é já dominá-lo? Vê-se que os pobres-diabos dos bruxos que, na
Idade Média, tolamente faziam-se queimar vivos não tinham um grande domínio sobre os outros. Joana d'Arc
era mágica à frente dos exércitos, e em Rouen a pobre moça não foi bruxa. Sabia apenas orar e combater, e o
prestígio que a rodeava cessou assim que lhe colocaram os grilhões. Consta de sua história que o rei da França
a tenha reclamado? Que a nobreza francesa, que o povo, que o exército tenham protestado contra sua
condenação? O papa, de quem o rei da França era o primogénito, excomungou os algozes da Virgem? Não,
nada disso. Joana d'Arc foi bruxa para todos assim que deixou de ser mágica, e certamente não foram os
ingleses os únicos a queimá-la. Quando se exerce um poder aparentemente sobre-humano, é preciso exercê-lo
sempre ou resignar-se a perecer. O mundo vinga-se sempre covardemente por ter acreditado muito, admirado
muito e sobretudo obedecido muito.
Só compreendemos o poder mágico em sua aplicação às grandes coisas, se um verdadeiro mágico prático não
se torna mestre do mundo é porque o desdenha; e para que desejaria diminuir seu soberano poder? "Eu te
darei todos os reinos do mundo se tu caíres a meus pés e me adorares", diz a Jesus o satã da parábola. "Retirate",
diz-lhe o Salvador, "pois está escrito: Tu adorarás somente a Deus..." Eli, Eli lamma Sabbachtani! devia
gritar mais tarde esse sublime e divino adorador de Deus. Se tivesse respondido a satã: Não te adorarei e és tu
que vais cair a meus pés, pois ordeno-te em nome da inteligência e da eterna razão!, não teria devotado sua
santa e nobre vida ao mais atroz de todos os suplícios. O satã da montanha foi bem cruelmente vingado.
Os antigos chamavam a magia prática de arte sacerdotal e arte real; e lembramos que os magos foram os
mestres da civilização primitiva, porque foram os mestres de toda a ciência de seu tempo.
Saber é poder quando se ousa querer.
A primeira ciência do cabalista prático ou do mago é o conhecimento dos homens. A frenologia, a psicologia,
a quiromancia, a observação dos gostos e dos movimentos, do som da voz e das impressões, sejam simpáticas,
sejam antipáticas, são ramos dessa arte, e os antigos não os ignoravam. Gall e Spurzëim reencontraram em
nossos dias a frenologia, Laváter depois de Porta. Cardano, Taisnier, Jean Belot e alguns outros novamente
adivinharam mais do que reencontraram a ciência da psicologia; a quiromancia está ainda oculta e é com
dificuldade que se encontram alguns traços seus na obra bastante recente e muito interessante, aliás, do
cavalheiro d'Arpentigny. Para se ter noções suficientes dessa ciência é preciso remontar às próprias fontes
cabalísticas em que se inspirou o sábio Cornélius Agrippa. É oportuno, pois, dizer algumas palavras a esse
respeito, enquanto aguardamos a obra de nosso amigo Desbarolles.
A mão é no homem o instrumento da ação; é, como o rosto, uma espécie de síntese nervosa, e também deve
ter seus traços e sua fisionomia. O caráter dos indivíduos está traçado aí em signos irrefutáveis. Assim, dentre
as mãos, umas são laboriosas, outras preguiçosas; umas pesadas e quadradas, outras insinuantes e leves. As
mãos duras e secas são feitas para a luta e o trabalho, as mãos macias e úmidas aspiram somente à volúpia. Os
dedos pontudos são escrutadores e místicos, os dedos quadrados, matemáticos, os dedos espatulados,
pertinazes e ambiciosos.
O polegar, pollex, o dedo da força e do poder, corresponde no simbolismo cabalístico à primeira letra do
nome de Jehovah. Esse dedo, pois, é por si só como a síntese da mão: se ele é forte, o homem é forte
moralmente; se é fraco, o homem é frágil. Ele possui três falanges, das quais a primeira está oculta na palma
da mão, como o eixo imaginário do mundo atravessa a espessura da terra. Essa primeira falange corresponde à
vida física, a segunda à inteligência, a última à vontade. As palmas da mão gordas e espessas denotam gostos
sensuais e uma, grande força física; um polegar longo, sobretudo em sua última falange, revela uma vontade
forte que pode chegar ao despotismo; polegares curtos, ao contrário, são caracteres dóceis e fáceis de
dominar.
As pregas naturais da mão determinam suas linhas. Essa linhas, portanto, são o traço dos hábitos, e o
observador paciente saberá reconhecê-las e julgá-las. O homem cuja mão fecha-se mal é desastrado ou infeliz.
A mão tem três funções principais: pegar, segurar e apalpar. As mãos mais macias pegam e apalpam melhor;
as mãos duras e fortes retêm mais tempo. Mesmo as mais leves rugas atestam as sensações habituais desse
órgão. Cada dedo, aliás, tem uma função especial que lhe ocasionou o nome. Já falamos do polegar; o
indicador é o dedo que aponta, é o do verbo e da profecia; o médio domina toda a mão, é o do destino; o
anular é o das alianças e das honras: os quiromantes consagraram-no ao sol; o auricular é insinuante e loquaz,
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