A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS - parte 5


Capítulo II
A vida e a morte. A vigília e o sono
O sono é uma morte incompleta; a morte é um sono perfeito.
A natureza submete-nos ao sono para habituar-nos à idéia da morte, e adverte-nos por meio dos sonhos sobre
a persistência de uma outra vida.
A luz astral em que o sono nos mergulha é como um oceano onde flutuam inumeráveis imagens, restos das
existências naufragadas, miragens e reflexos daquelas que passam, pressentimentos daquelas que vão nascer.
Nossa disposição nervosa atrai-nos para aquelas imagens que correspondem à nossa agitação, à nossa fadiga
especial, como um ímã colocado em meio a detritos metálicos atrairia e escolheria, sobretudo, a limalha de
ferro.
Os sonhos revelam-nos a doença ou a saúde, a calma ou a agitação de nosso mediador plástico e, por
conseguinte, também de nosso aparelho nervoso.
Formulam nossos presentimentos por meio da analogia das imagens.
Pois todas as idéias têm um duplo signo para nós, relativo à nossa dupla vida.
Existe uma língua do sono, de que é impossível, no estado de vigília, compreender e até mesmo reunir as
palavras.
A língua do sono é a da natureza, hieroglífica em seus caracteres e ritmada apenas em seus sons.
O sono pode ser vertiginoso ou lúcido.
A loucura é um estado permanente de sonambulismo vertiginoso.
Uma comoção violenta pode despertar os loucos, assim como pode matá-los.
As alucinações, quando trazem consigo a adesão da inteligência, são acessos passageiros de loucura.
Toda fadiga do espírito provoca o sono; mas, se a fadiga é acompanhada de irritação nervosa, o sono pode ser
incompleto e tomar os caracteres do sonambulismo.
Adormece-se por vezes sem disso se aperceber em meio à vida real, e então, em vez de pensar, sonha-se.
Por que temos reminiscências de coisas que nunca nos aconteceram? É que as sonhamos acordados.
Esse fenômeno do sono involuntário e não sentido, que atravessa de repente a vida real, produz-se
freqüentemente em todos aqueles que superexcitam seu organismo nervoso com excessos, quer de trabalho,
quer de vigílias, quer de bebida, quer de um eretismo qualquer.
Os monomaníacos dormem quando se entregam a atos insensatos, e não têm mais consciência de nada ao
acordarem.
Quando Papavoine foi preso pelos soldados, disse-lhes tranqüilamente estas palavras notáveis:
- Vós tomais o outro por mim.
Era ainda o sonâmbulo que falava.
Edgar Poe, esse gênio infeliz que se embriagava, descreveu de um modo terrível o sonambulismo dos
monomaníacos. Ora é um assassino que ouve, e acredita que todo o mundo ouve, o coração de sua vítima
bater através das lajes do túmulo, ora é um envenenador que, por força de dizer a si mesmo: Estou em
segurança, contanto que não vá denunciar a mim mesmo, termina por sonhar em voz alta que se denuncia e
denuncia-se de fato.
Edgar Poe não inventou ele próprio nem os personagens nem os fatos de seus estranhos contos, sonhou-os
acordado, e é por isso que tão bem lhes dá as cores de uma horrível realidade.
O doutor Brière de Boismont, em sua notável obra sobre as Alucinações, conta a história de um inglês, aliás
muito sensato, que acreditava ter encontrado um homem com quem travara conhecimento; este o conduzira a
almoçar em sua taberna, depois, tendo-o convidado a visitar a Igreja de São Paulo, tentara precipitá-lo do alto
da torre onde haviam subido juntos.
Desde esse momento, o inglês estava obcecado por esse desconhecido, que apenas ele podia ver, e que
reencontrava sempre quando estava só e acabava de jantar bem.
Os abismos atraem; a embriaguez chama a embriaguez; a loucura possui irresistíveis atrativos para a loucura.
Quando um homem sucumbe ao sono, abomina tudo o que poderia acordá-lo.
Acontece o mesmo com os alucinados, os sonâmbulos extáticos, os maníacos, os epiléticos e todos aqueles
que se abandonam ao delírio de uma paixão. Eles ouviram a música fatal, entraram na dança macabra e
sentem-se arrastados no turbilhão da vertigem. Vós lhes falais, não vos ouvem mais, vós os advertis, não vos
compreendem mais, mas vossa voz os importuna; têm sono do sono da morte.
A morte é uma corrente que arrasta, um precipício que absorve, mas de cujas profundezas o menor
movimento vos pode trazer de volta. Sendo a força de repulsão igual à de atração, freqüentemente, no instante
mesmo de expirar, fica-se violentamente preso à vida, freqüentemente também, pela mesma lei de equilíbrio,
passa-se do sono à morte; por complacência para com o sono.
Um bote balança-se próximo às margens do lago. A criança nele entra, a água brilhante de mil reflexos dança
à sua volta chamando-a, a corrente que retém o barco estira-se e parece querer romper-se; um pássaro
maravilhoso lança-se, então, da margem e plana cantando sobre as ondas alegres; a criança quer segui-lo, leva
a mão à corrente, solta o elo.
A Antigüidade adivinhara o mistério da morte atraente e representara-o na fábula de Hilas. Cansado após uma
longa navegação, Hilas chega a uma ilha florida, aproxima-se de uma fonte para retirar água, uma miragem
graciosa lhe sorri; ele vê uma ninfa estender-lhe os braços, os seus enfraquecem e não podem retirar o cântaro
pesado; o frescor da fonte adormece-o, os perfumes da margem embriagam-no, ei-lo debruçado sobre a água
como um narciso cuja haste fosse quebrada por uma criança a brincar; o cântaro cheio cai ao fundo e Hilas
segue-o, morre sonhando com ninfas que o acariciam, e não ouve mais a voz de Hércules que o chama de
volta aos trabalhos da vida, e que percorre todas as margens gritando mil vezes: Hilas, Hilas!
Outra fábula, não menos comovente, que sai das sombras da iniciação órfica, é a de Eurídice chamada de
volta à vida pelos milagres da harmonia e do amor, Eurídice, esta sensitiva rompida no próprio dia de seu
casamento e que se refugiou na tumba ainda trêmula de pudor! Logo, ela ouve a lira de Orfeu, e lentamente
sobe em direção à luz; as terríveis divindades do Érebo não ousam fechar-lhe a passagem. Ela segue o poeta,
ou antes, a poesia que ela adora... Mas ai do amante se mudar a corrente magnética e se seguir, com um único
olhar, aquela que ele deve somente atrair! O amor sagrado, o amor virginal, o amor mais forte que o túmulo
busca apenas a dedicação e foge desvairado diante do egoísmo do desejo. Orfeu sabe disso, mas por um
instante esquece. Eurídice, em suas brancas vestes de noiva, está deitada no leito nupcial, ele, sob as
vestimentas de grande hierofante, está em pé, a lira nas mãos, a cabeça coroada com os louros sagrados, os
olhos voltados para o Oriente, e canta. Canta as flechas luminosas do amor que atravessam as sombras do
antigo caos, as ondas da doce claridade escorrendo da teta negra da mãe dos deuses, Eros e Ânteros. Adônis
que volta à vida para escutar os lamentos de Vênus e que se reanima como uma flor sob o orvalho brilhante de
suas lágrimas; Castor e Pólux que a morte não pôde desunir e que se amam ora no inferno, ora na terra...
Depois ele chama suavemente Eurídice, sua querida Eurídice, sua Eurídice tão amada:
Ah! miseram Eurydicen animâ fugiente vocabat,
Eurydicen! toto referebant flumine ripae.
Enquanto ele canta, aquela pálida estátua que a morte fez colore-se com as primeiras nuanças da vida, seus
lábios brancos começam a avermelhar-se como a aurora da manhã... Orfeu a vê, treme, balbucia, o hino vai
expirar em sua boca, mas ela empalidece novamente; então o grande hierofante tira de sua lira cantos
dilacerantes e sublimes, não olha mais senão para o céu, chora, implora, e Eurídice abre os olhos... Infeliz!
não olhes para ela, canta ainda, não afugentes a borboleta de Psiquê, que quer pousar nesta flor!... Mas o
insensato viu o olhar da ressuscitada, o grande hierofante cede à embriaguez do amante, a lira cai de suas
mãos, olha Eurídice, corre em sua direção... Aperta-a em seus braços e a encontra ainda gelada, seus olhos
tornaram a fechar-se, seus lábios estão mais pálidos e mais frios do que nunca, a sensitiva estremeceu, e o
vínculo delicado da alma rompeu-se novamente e para sempre... Eurídice está morta e os hinos de Orfeu não
mais a trarão de volta à vida.
Em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia, ousamos dizer que a ressurreição dos mortos não é um fenômeno
impossível na própria ordem da natureza, e nisso não negamos nem contradissemos de nenhum modo a fé
fatal da morte. Uma morte que pode cessar é apenas uma letargia e um sono, mas é sempre pela letargia e pelo
sono que a morte começa. O estado de quietude profunda que se sucede, nesse momento, às agitações da vida
leva então a alma distendida e dormente, não se pode fazê-la voltar, forçá-la a novamente mergulhar, senão
excitando violentamente todas as suas feições e todos os seus desejos. Quando Jesus, o Salvador do mundo,
estava na terra, a terra era mais bela e mais desejável do que o céu, e no entanto, para acordar a filha de Jairo,
Jesus precisou gritar e sacudi-la. Foi a poder de frémitos e de lágrimas que chamou de volta do túmulo o
amigo Lázaro, tão difícil é interromper uma alma cansada que dorme o seu primeiro sono!
Todavia, o rosto da morte não tem a mesma serenidade para todas as almas que o contemplam; quando se teve
frustrado o objetivo da vida, quando se levam consigo cobiças desenfreadas ou ódios insaciados, a eternidade
aparece para a alma ignorante ou culpada com tão formidáveis proporções de dores que ela tenta algumas
vezes lançar-se novamente na vida mortal. Quantas almas assim agitadas pelo pesadelo do inferno
refugiaram-se em seus corpos gelados e já cobertos pelo mármore da tumba! Foram encontrados esqueletos
revirados, convulsos, retorcidos, e foi dito: Aí estão homens que foram enterrados vivos. Enganavam-se
frequentemente, e bem podiam ser retomados da morte, ressuscitados da sepultura que, por se terem
abandonado completamente às angústias do limiar da eternidade, com ela foram ter por duas vezes.
Um magrietista célebre, o barão Dupotet, ensina no seu livro secreto sobre a Magia que se pode matar pelo
magnetismo como pela eletricidade. Essa revelação nada tem de estranho para quem conhece bem as
analogias da natureza. É certo que, dilatando-se além dos limites-ou coagulando-se repentinamente o
mediador plástico de um sujeito, pode-se separar sua alma de seu corpo. Basta algumas vezes provocar numa
pessoa uma violenta cólera ou um enorme susto para matá-la subitamente.
O uso habitual do magnetismo geralmente coloca o sujeito que a ele se abandona à mercê do magnetizador.
Quando a comunicação é bem estabelecida, quando o magnetizador pode produzir à vontade o sono, a
insensibilidade, a catalepsia, etc., só lhe custaria um esforço a mais trazer também a morte.
Contaram-nos, como verdadeira, uma história de que todavia não garantimos a autenticidade.
Vamos contá-la porque pode ser verdadeira.
Pessoas que duvidavam ao mesmo tempo da religião e do magnetismo, desses incrédulos que se prestam a
todas as superstições e a todos os fanatismos, haviam convencido, a peso de ouro, uma pobre moça a
submeter-se às suas experiências. Era uma natureza impressionável e nervosa, cansada além disso pelos
excessos de uma vida mais do que irregular, e já enojada da existência. Adormecem-na; ordenam-lhe que
veja; ela chora e debate-se. Falam-lhe de Deus.... tremem-lhe todos os membros.
- Não - diz ela -, ele me dá medo; não quero olhar para ele.
- Olhe para ele, eu quero.
Ela abre então os olhos; suas pupilas dilatam-se; fica apavorante.
- O que você está vendo?
- Não consigo dizer... Oh! por misericórdia, por misericórdia, acordem-me!
- Não, olhe e diga o que está vendo.
- Vejo uma noite negra em que turbilhonam fagulhas de todas as cores em volta de dois grandes olhos que se
movem sem parar. Desses olhos saem raios que se enrolam em serpentinas e ocupam todo o espaço... Oh! isso
me dói! acordem-me!
- Não, olhe.
- Para onde mais querem que eu olhe?
- Olhe dentro do paraíso.
- Não, não posso subir até lá; a grande noite me rechaça e volto sempre a cair.
- Então olhe dentro do inferno.
Aí, a sonâmbula agita-se convulsivamente.
- Não! Não! - grita soluçando -, não quero; me daria vertigem; cairia. Oh! segurem-me! detenham-me!
- Não, desça.
- Aonde querem que eu desça?
- Ao inferno.
- É horrível! Não, não, não quero ir!
- Vá.
- Misericórdia!
- Vá, eu quero.
As feições da sonâmbula ficam terríveis de se ver; os cabelos em pé; os olhos esbugalhados só mostram o
branco; o peito arfa e deixa escapar um som rouco.
- Vá até lá, eu quero - repete o magnetizador.
- Estou aqui - diz entre dentes a infeliz, caindo esgotada. Depois, não responde mais; a cabeça inerte tomba
sobre os ombros; os braços pendem ao longo do corpo. Aproximam-se dela; tocam-na. Querem, já tarde
demais, acordá-la; o crime estava consumado; a mulher estava morta e os autores dessa experiência sacrílega,
graças à incredulidade pública em matéria de magnetismo, não foram perseguidos. Coube à autoridade atestar
um óbito, e a morte foi atribuída à ruptura de um aneurisma. O corpo, aliás, não tinha nenhuma marca de
violência; mandaram-no enterrar e encerrou-se o caso.
Eis um outro caso que nos foi contado por companheiros da Volta à França.
Dois companheiros hospedavarn-se no mesmo albergue e dividiam o mesmo quarto. Um dos dois tinha o
hábito de falar dormindo, quando então respondia às perguntas que seu colega lhe fazia. Uma noite, ele
começa, de repente, a soltar gritos sufocados, o outro companheiro acorda e pergunta-lhe o que está havendo.
- Mas então você não está vendo - diz o que está dormindo não está vendo esta pedra enorme... está se
soltando da montanha... está caindo sobre mim, vai me esmagar.
- Pois então fuja!
- Impossível, meus pés estão enroscados num espinheiro que se aperta cada vez mais... Ai! Socorro! lá... lá
está a grande pedra que vem para cima de mim.
- Toma, aqui está ela! - diz rindo o outro, que lhe atira na cabeça o travesseiro para acordá-lo.
Um grito terrível, subitamente sufocado na garganta, uma convulsão, um suspiro, depois mais nada. O
desastrado brincalhão levanta-se, puxa o colega pelo braço, chama-o, assusta-se por sua vez, grita, alguém
traz uma luz... o infeliz sonâmbulo estava morto.
Capítulo III
Mistérios das alucinações e da evocação dos espíritos
Uma alucinação é um ilusão produzida por um movimento irregular da luz astral.
É, como dissemos antes, a mistura dos fenômenos do sono aos da vigília.
Nosso mediador plástico aspira e respira a luz astral ou a alma vital da terra, como nosso corpo aspira e
respira a atmosfera terrestre. Ora, do mesmo modo que em alguns lugares o ar é impuro e irrespirável,
também algumas circunstâncias fenomenais podem tornar a luz astral malsã e não assimilável.
Tal ar também pode ser muito vivo para algumas pessoas e convir perfeitamente a outras, sendo assim
também com a luz magnética.
O mediador plástico assemelha-se a uma estátua metálica permanentemente em fusão. Se o molde está
defeituoso, ela torna-se disforme; se o molde se quebra, ela foge.
O molde do mediador plástico é a força vital equilibrada e polarizada. Nosso corpo, por meio do sistema
nervoso, atrai e retém essa forma fugidia de luz especificada; mas a fadiga local ou a superexcitação parcial
do aparelho pode ocasionar disformidades fluídicas.
Essas disformidades alteram parcialmente o espelho da imaginação e ocasionam alucinações habituais
próprias aos visionários extáticos.
O mediador plástico, feito à imagem e semelhança de nosso corpo, cujos órgãos reproduz luminosamente, tem
visão, tato, audição, olfato e paladar que lhe são próprios; pode, quando está superexcitado, comunicá-los por
vibrações ao aparelho nervoso, de tal modo que a alucinação seja completa. A imaginação parece, então,
triunfar sobre a própria natureza e produz fenômenos verdadeiramente estranhos. O corpo material inundado
de fluido parece participar das qualidades fluídicas, escapa às leis da gravidade, torna-se momentaneamente
invulnerável e mesmo invisível num círculo de alucinados por contágio. Sabe-se que os convulsionários de
São Medardo deixavam-se atenazar, espancar, triturar, crucificar, sem que sentissem nenhuma dor, que se
erguiam do chão, andavam de cabeça para baixo, comiam alfinetes e os digeriam.
Achamos oportuno relatar aqui o que publicamos no jornal O Estafeta sobre os prodígios do médium
americano Home e sobre vários fenômenos da mesma ordem.
Nunca fomos, nós mesmos, testemunhas dos milagres do senhor Home, mas nossas informações vêm das
melhores fontes, recolhemo-nas numa casa onde o médium americano foi acolhido com benevolência quando
estava infeliz, e com indulgência quando chegou a tomar sua doença por uma felicidade e uma ventura. É a
casa de uma senhora nascida na Polônia, mas três vezes francesa pela nobreza de seu coração, pelos encantos
inefáveis de seu espírito e pela celebridade européia de seu nome.
A publicação dessas informações no Estafeta atraiu-nos, sem que saibamos bem por quê, as injúrias de um
senhor De Pène, conhecido, desde então, por seu duelo infeliz. Lembramo-nos, na ocasião, da fábula de La
Fontaine sobre o louco que atirava pedras num sábio. O senhor De Pène tratava-nos de "padre que abandonou
a batina" e de mau católico. Mostramo-nos pelo menos bom cristão compadecendo-nos dele e perdoando-o, e,
como é impossível ser "padre que abandonou a batina" sem nunca ter sido padre, deixamos cair por terra uma
injúria que não nos atingia.
Na semana passada, o senhor Home queria mais uma vez deixar Paris, essa Paris onde, se os próprios anjos e
demônios aparecessem sob uma forma qualquer, não passariam muito tempo por seres maravilhosos, e nada
melhor teriam a fazer senão retornar logo ao céu ou ao inferno, para escapar ao esquecimento e ao abandono
dos humanos.
O sr. Home, com ar triste e desiludido, despedia-se, então, de uma nobre dama, cuja benevolente acolhida fora
uma de suas primeiras alegrias na França. Naquele dia, como sempre, a sra. B... foi gentil com ele, e quis retêlo
para jantar; o misterioso personagem ia aceitar, quando alguém disse que era esperado um cabalista
conhecido no mundo das ciências ocultas pela publicação de um livro intitulado Dogma e Ritual da Alta
Magia; as feições do sr. Home alteraram-se de repente, e ele declarou balbuciando e com uma visível
perturbação que não podia ficar e que a aproximação daquele professor de magia causava-lhe um insuperável
terror. Tudo o que lhe disseram para tranqüilizá-lo foi inútil. - Não julgo esse homem - dizia ele -, nem afirmo
que ele seja bom ou mau, nada sei sobre isso, mas sua atmosfera me faz mal, perto dele me sentiria sem forças
e como que sem vida.
E, depois dessa explicação, o sr. Home apressou-se a despedir-se e a sair.
Esse terror dos homens de prestígio em presença dos verdadeiros iniciados à ciência não é um fato novo nos
anais do ocultismo. Pode-se ler em Filóstrato a história da estrige que treme ao ouvir chegar Apolônio de
Tiana. Nosso admirável escritor Alexandre Dumas dramatizou essa lenda mágica no belo resumo de todas as
lendas que serviria de prólogo à sua grande epopéia romanesca do Judeu Errante. A cena passa-se em
Corinto; é uma cerimônia de casamento antiga com belas crianças coroadas de flores que carregam archotes
nupciais e cantam epitalâmios graciosos e ornados de voluptuosas imagens como as poesias de Catulo. A
noiva está linda, em suas castas vestes, como a Polímnia antiga; está amorosa e deliciosamente provocante em
seu pudor, como uma Vênus de Corrégio ou uma Graça de Cânova. Aquele que ela desposa é Clínias, um
discípulo do célebre Apolônio de Tiana. O mestre prometeu vir às núpcias de seu discípulo, mas não vem, e a
bela noiva respira mais aliviada, pois teme Apolônio. No entanto, o dia não acabou. É chegada a hora do leito
nupcial, e de repente Méroe treme, empalidece, olha fixamente em direção à porta, estende a mão aterrorizada
e diz numa voz sufocada: "Ei-lo! é ele!" É Apolônio de fato. Eis o mago, eis o mestre: a hora dos
encantamentos passou, os prestígios caem diante da verdadeira ciência. Procura-se a bela noiva, a branca
Méroe, e vê-se apenas uma velha mulher, a bruxa Canídie, a devoradora de criancinhas. Clínias está
desiludido, agradece seu mestre; está salvo.
O vulgo sempre se enganou sobre a magia, e confunde os adeptos com os encantadores. A verdadeira magia,
isto é, a ciência tradicional, dos magos, é inimiga mortal dos encantamentos; ela impede ou faz cessar os
falsos milagres, hostis à luz e fascinadores de um pequeno número de testemunhas preparadas ou crédulos. A
desordem aparente nas leis da natureza é uma mentira; não é, pois, uma maravilha. A maravilha verdadeira, o
verdadeiro prodígio sempre resplandecente aos olhos de todos é a harmonia sempre constante dos efeitos e
das causas; são os esplendores da ordem eterna!
Não saberíamos dizer se Cagliostro teria feito milagres diante de Swedenborg, mas teria certamente temido a
presença de Paracelso e de Henri Khunrath, se esses dois grandes homens tivessem sido seus contemporâneos.
Longe de nós, no entanto, a idéia de denunciar o sr. Home como um bruxo de baixa categoria, isto é, um
charlatão. O célebre médium americano é doce e ingênuo como uma criança. É um pobre ser muito sensitivo,
sem intriga e sem defesa; é o joguete de uma força terrível que ele ignora, e ele próprio é certamente a
primeira de suas vítimas.
O estudo dos estranhos fenômenos que se produzem em torno desse moço é da maior importância. Trata-se de
rever seriamente as denegações demasiado levianas do século XVIII, e de abrir diante da ciência e da razão
horizontes menos estreitos que os da crítica burguesa, que nega tudo o que ainda não pode explicar. Os fatos
são inexoráveis, e a verdadeira boa fé nunca deve recear examiná-los.
A explicação desses fatos que todas as tradições obstinam-se em afirmar e que se reproduzem diante de nós
com uma incômoda publicidade, essa explicação, antiga como os próprios fatos, rigorosa como a matemática,
mas pela primeira vez tirada das sombras onde a escondiam os hierofantes de todas as idades, seria um grande
evento científico, se pudesse obter bastante luz e publicidade. Vamos talvez preparar esse evento, pois não
nos seria permitido a esperança audaciosa de concluí-lo.
Em primeiro lugar, eis os fatos em toda sua singularidade. Comprovamo-os e vamos restabelecê-los com uma
rigorosa exatidão abstendo-nos, inicialmente, de qualquer explicação ou comentário.
O sr. Home está sujeito a êxtases que o põem, segundo ele, em contato diretamente com a alma de sua mãe, e,
pela intermediação desta, com todo o mundo dos espíritos. Descreve, como os sonâmbulos de Cahagnet,
pessoas que nunca viu e que são reconhecidas pelos que as evocam; vos dirá mesmo seus nomes e responderá
de sua parte a perguntas que só podem ser compreendidas por elas e por vós mesmos.
Quando ele está num apartamento, ruídos inexplicáveis fazem-se ouvir. Batidas violentas ecoam nos móveis e
nas paredes; algumas vezes as portas e as janelas abrem-se como se fossem impelidas por uma tempestade;
fora, chega-se a ouvir o vento e a chuva; ao sair, o céu está sem nuvens, e não se sente nem o mais leve sopro
de vento.
Os móveis são erguidos e deslocados sem que ninguém os toque.
Lápis escrevem sozinhos. A caligrafia é a do sr. Home, e cometem os mesmos erros que ele.
As pessoas presentes sentem-se tocar e agarrar por mãos invisíveis. Esses contatos, que parecem escolher as
damas, carecem de seriedade, e por vezes mesmo de conveniência, em sua aplicação. Pensamos que nos
compreendem o suficiente.
Mãos visíveis e tangíveis saem ou parecem sair das mesas, mas para isso é preciso que as mesas estejam
cobertas. São necessários alguns preparativos ao agente invisível, assim como aos mais hábeis sucessores de
Robert Houdin.
Essas mãos mostram-se sobretudo na escuridão; são quentes e fosforescentes ou frias e negras. Escrevem
tolices ou tocam piano; e quando tocam piano é preciso vir o afinador, pois seu contado é sempre fatal à
afinação do instrumento.
Um dos mais recomendáveis personagens da Inglaterra, sir Edward Bulwer Lytton, viu e tocou essas mãos;
lemos a declaração escrita e assinada por ele. Declara mesmo tê-las apertado e puxado para si com toda a
força, para fazer saírem do seu esconderijo os braços a que naturalmente elas deviam estar ligadas. Mas a
coisa invisível foi mais forte do que o romancista inglês, e as mãos escaparam-lhe.
Um fidalgo russo, que foi o protetor do senhor Home e cujo caráter e boa fé não poderiam ser alvo de
nenhuma dúvida, o conde A.B... também viu e apertou vigorosamente as mãos misteriosas. Eram, disse ele,
formas perfeitas de mãos humanas, quentes e vivas; só que não se sentiam os ossos. Cerradas num aperto
inevitável, as mãos não lutaram para escapar, mas diminuíram, fundiram-se de algum modo, e o conde acabou
por nada mais segurar.
Outras pessoas que viram e tocaram essas mãos dizem que os dedos são inchados e rígidos, e comparam-nos a
luvas de borracha cheias de um ar fosforescente e quente. Por vezes, no lugar de mãos, são pés que se exibem,
todavia, nunca a descoberto. O espírito, a quem provavelmente faltam sapatos, respeita ao menos nisso a
delicadeza das damas, e nunca mostra seu pé a não ser sob um cortinado ou uma toalha.
A aparição desses pés cansa e assusta muito o senhor Home. Ele procura então aproximar-se de alguma
pessoa saudável, agarra-a como se temesse afogar-se; e a pessoa assim agarrada pelo médium sente-se de
repente num estado singular de esgotamento e debilidade.
Um fidalgo polonês, que assistia a uma das sessões do senhor Home, colocara no chão entre seus pés um lápis
sobre um papel, e pedira um sinal da presença do espírito. Durante alguns instantes nada se moveu. De
repente, o lápis foi lançado ao outro extremo do apartamento. O fidalgo abaixou-se, pegou o papel e viu aí
três signos cabalísticos que ninguém compreendia. Só o senhor Home, ao vê-los, pareceu experimentar uma
grande contrariedade e manifestou um certo temor; porém recusou-se a explicar a natureza e a significação
desses caracteres. Guardaram-nos, então, e trouxeram-nos para este professor de magia, cuja aproximação o
médium tanto receara. Examinamo-os e aqui está sua minuciosa descrição.
Estavam desenhados com força e o lápis quase rasgara o papel.
Estavam espalhados na folha sem ordem e sem alinhamento.
O primeiro era o signo que os iniciados egípcios geralmente colocavam na mão de Tífon. Um tau com duplo
traço vertical aberto em forma de compasso, uma cruz com alça tendo no alto um círculo, abaixo do círculo
um duplo traço horizontal, sob o duplo traço horizontal um duplo traço oblíquo em forma de V invertido.
O segundo caráter representava uma cruz de grande hierofante com as três travessas hierárquicas. Esse
símbolo, que remonta à mais alta Antigüidade, é ainda o atributo de nossos soberanos pontífices e arremata a
extremidade superior de seu bastão pastoral. Mas o signo traçado pelo lápis tinha de particular que o ramo
superior, a cabeça da cruz, era duplo e formava ainda o terrível V tifoniano, o signo do antagonismo e da
separação, o símbolo do ódio e do combate eterno.
O terceiro caráter era o que os maçons denominam cruz filosófica, uma cruz de quatro ramos iguais com um
ponto em cada um dos ângulos. Porém, em vez de quatro pontos, havia somente dois, colocados nos dois
ângulos da direita, ainda um signo de luta, de separação e de negação.
O professor, que nos será permitido distinguir aqui do narrador e nomear na terceira pessoa, para não cansar
nossos leitores parecendo falar-lhes de nós, o professor, pois, mestre Eliphas Levi, deu às pessoas reunidas na
sala da senhora B... a explicação científica das três assinaturas, e eis o que ele disse:
"Estes três signos pertencem à série dos hieróglifos sagrados e primitivos conhecidos somente pelos iniciados
da primeira ordem, o primeiro é a assinatura de Tífon. Ele exprime a blasfêmia desse espírito do mal
estabelecendo o dualismo no princípio criador. Pois a cruz com alça de Osíris é um linga invertido, e
representa a força paterna e ativa de Deus (a linha vertical saindo do círculo) fecundando a natureza passiva (a
linha horizontal). Dobrar a linha vertical é afirmar que a natureza tem dois pais; é colocar o adultério no lugar
da maternidade divina, é afirmar, ao invés do primeiro princípio inteligente, a fatalidade cega que tem por
resultado o conflito eterno das aparências no nada; é, pois, o mais antigo, o mais autêntico e o mais terrível de
todos os estigmas do inferno. Significa o deus ateu, é a assinatura de Satã.
"Essa primeira assinatura é hierática e refere-se aos caracteres ocultos do mundo divino.
"A segunda pertence aos hieróglifos filosóficos, representa a medida ascensional da idéia e a extensão
progressiva da forma.
"É um triplo tau invertido, é o pensamento humano afirmando alternativamente o absoluto nos três mundos, e
esse absoluto termina aqui por um forcado, ou seja, pelo signo da dúvida e do antagonismo. De tal modo que,
se o primeiro caráter queria dizer: Não existe Deus, este tem por significação rigorosa: A verdade hierárquica
não existe.
"O terceiro, ou a cruz filosófica, foi em todas as iniciações o símbolo da natureza e de suas quatro formas
elementares, os quatro pontos representam as quatro letras indizíveis e incomunicáveis do tetragrama oculto,
esta fórmula eterna do grande arcano G.’. A.’.
"Os dois pontos da direita representam a força, os da esquerda figuram o amor, e as quatro letras devem ser
lidas da direita para a esquerda começando pelo alto à direita, e indo daí para a letra embaixo à esquerda, e
assim para as outras fazendo a cruz de Santo André.
"A supressão dos dois pontos da esquerda exprime, pois, a negação da cruz, a negação da misericórdia e do
amor.
"A afirmação do reino absoluto da força, e de seu antagonismo eterno, de alto a baixo e de baixo ao alto.
"A glorificação da tirania e da revolta.
"O signo hieroglífico do vício imundo, que se teve ou não razão de reprovar aos Templários, é o signo da
desordem e do desespero eternos."
Tais são, portanto, as primeiras revelações da ciência oculta dos magos sobre esses fenômenos de
manifestações sobrenaturais. Agora, seja-nos permitido relacionar essas assinaturas estranhas a outras
aparições contemporâneas de escrituras fenomenais, pois é um verdadeiro processo que a ciência deve instruir
antes de levá-lo ao tribunal da razão pública. É preciso, pois, não desprezar nenhuma averiguação e nenhum
indício.
Nas proximidades de Caen, em Tilly-sur-Seulles, uma série de fatos inexplicáveis produziam-se, havia alguns
anos, sob a influência de um médium ou de um extático chamado Eugène Vintras.
Algumas circunstâncias ridículas e um processo fraudulento logo fizeram cair no esquecimento e mesmo no
desprezo esse taumaturgo, atacado aliás com violência em panfletos cujos autores eram antigos admiradores
de sua doutrina, pois o médium Vintras também dogmatiza. No entanto, uma coisa é notável nas invectivas de
que ele é alvo: é que seus adversários, mesmo esforçando-se em condená-lo, reconhecem a verdade de seus
milagres e contentam-se em atribuí-los ao demônio.
Quais são, pois, os milagres tão autênticos de Vintras?
Sobre esse assunto estamos melhor informados do que ninguém, como logo se notará. Autos assinados por
testemunhas honradas, artistas, médicos, padres, aliás irrepreensíveis, foram-nos comunicados; interrogamos
testemunhas oculares, e, melhor do que isto, vimos. As coisas merecem ser contadas com alguns detalhes.
Existe em Paris um escritor, no mínimo excêntrico, que se chama Madrolle. É um ancião cuja família e
relações são honradas. Escreveu primeiramente no sentido católico mais exaltado, recebeu os estímulos mais
lisonjeiros das autoridades eclesiásticas e até mesmo breves emanações da Santa Sé, depois conheceu Vintras;
e, arrastado pelo prestígio de seus milagres, tornou-se um sectário determinado e um inimigo irreconciliável
da hierarquia e do clero.
Na época em que Eliphas Levi publicava seu Dogma e Ritual da Alta Magia, recebeu uma brochura de
Madrolle que o surpreendeu. O autor sustentava abertamente os paradoxos mais inauditos no estilo
desordenado dos extáticos. Para ele, a vida bastava para a expiação dos grandes crimes, uma vez que ela era a
conseqüência de uma sentença de morte. Os piores homens, por serem os mais infelizes de todos, pareciamlhe
oferecer a Deus uma expiação mais sublime. Enfurecia-se contra toda repressão e toda danação. "Uma
religião que condena", exclamava ele, "é uma religião condenada!" Depois pregava a licença mais absoluta
sob o pretexto de caridade, e chegava até a dizer que o ato de amor mais imperfeito e aparentemente mais
repreensível valia mais que a melhor das preces. Era o Marquês de Sade tornado pregador. Depois negava o
diabo com um entusiasmo por vezes pleno de eloqüência.
"Podeis conceber", dizia ele, "um diabo que Deus tolera, que Deus autoriza! Conceber além disso um Deus
que fez o diabo e que o deixa atormentar criaturas já tão fracas e tão prontas a se enganarem! Um Deus do
diabo enfim, secundado, preconceituoso e mal superado em suas vinganças por um diabo de Deus!..." O
restante da brochura tinha a mesma força. O professor de magia esteve a ponto de aterrorizar-se e tratou de
conseguir o endereço de Madrolle. Não foi sem alguma dificuldade que ele chegou até esse singular
panfletário, e eis a seguir mais ou menos o que foi a conversa:
Eliphas Levi: - Senhor, recebi sua brochura. Venho agradecer-lhe e testemunhar-lhe ao mesmo tempo meu
espanto e meu pesar.
Madrolle: - Seu pesar, senhor! Queira explicar-se, não estou entendendo.
- Lamento profundamente, senhor, vê-lo cometer erros que outrora eu mesmo cometi. Mas eu tinha, então,
pelo menos a desculpa da inexperiência e da juventude. Falta alcance à sua brochura porque falta-lhe medida.
Por certo sua intenção era protestar contra erros na crença, contra abusos na moral; e acontece serem a própria
crença e a moral que o senhor ataca. A exaltação que transborda em seu pequeno escrito deve mesmo causarlhe
muito transtorno, e alguns de seus melhores amigos devem ter-se preocupado com seu estado de saúde...
- Sem dúvida! Já se disse e ainda se diz que sou louco. Mas não é de hoje que os crentes devem suportar a
loucura da cruz. Estou exaltado porque, no meu lugar, o senhor também estaria, pois é impossível permanecer
frio na presença dos prodígios.
- Oh! Oh! o senhor está falando de prodígios, isso me interessa. Vejamos, cá entre nós e de boa fé, de que
prodígios se trata?
- Ora! de que prodígios senão daqueles do grande profeta Elias, que voltou à terra sob o nome de Pierre
Michel.
- Estou ouvindo; o senhor quer dizer Eugène Vintras. Ouvi falar de suas obras. Mas ele realmente faz
milagres?
(Nesse momento, Madrolle dá um salto da cadeira, ergue os olhos e as mãos para o céu, e termina por sorrir
com uma condescendência que se assemelha a uma profunda piedade.)
- Se ele faz milagres, meu senhor! E os maiores!... Os mais surpreendentes!... Os mais incontestáveis!... Os
mais verdadeiros milagres que se tenham feito na terra desde Jesus Cristo!... Como! milhares de hóstias
aparecem sobre altares onde não havia nenhuma, o vinho brota em cálices vazios, e não é uma ilusão, é vinho,
um vinho delicioso... ouvem-se músicas celestes, exalam-se aromas do outro mundo... e finalmente sangue...
um verdadeiro sangue humano (foi examinado por médicos!), um sangue de verdade, estou dizendo, goteja e
por vezes jorra das hóstias deixando nelas caracteres misteriosos! Estou lhe dizendo o que vi, ouvi, toquei,
provei! E o senhor quer que eu permaneça frio diante de uma autoridade eclesiástica que acha mais cômodo
negar tudo do que examinar qualquer coisa...!
- Com licença, meu senhor; é sobretudo em matéria de religião que a autoridade nunca pode errar... Em
religião, o bem é a hierarquia, e o mal é a anarquia; a que se reduziria, com efeito, a influência do sacerdócio,
se o senhor coloca como princípio que é preciso acreditar no testemunho dos sentidos mais do que nas
decisões da Igreja? A Igreja não é mais visível do que todos os seus milagres? Os que vêem milagres e não
vêem a Igreja são bem mais dignos de compaixão do que os cegos, pois não lhes resta nem mesmo o recurso
de se deixarem conduzir...
- Meu senhor, sei tanto quanto o senhor essas coisas. Mas Deus não pode estar em desacordo consigo próprio.
Não pode permitir que a boa fé seja ludibriada, e a própria Igreja não poderia decidir que sou cego quando
tenho dois olhos... Ouça, eis o que se lê nas cartas de Jan Hus, quadragésima terceira carta, no final:
"Um doutor disse-me: "Em todas as coisas submeter-me-ia ao concílio, tudo então seria bom e legítimo para
mim." Acrescentou: "Se o concílio dissesse que tendes apenas um olho, embora tenhais dois, ainda assim
seria preciso dizer que o concílio tem razão." Quando o mundo inteiro, respondi, afirmasse tal coisa, enquanto
tivesse o uso da razão, não poderia concordar sem ferir minha consciência." Eu lhe direi como Jan Hus: Antes
de haver uma Igreja e concílios, há uma verdade e uma razão.
- Um momento, meu caro senhor. Antigamente o senhor era católico, não é mais; as consciências são livres.
Observarei apenas que a instituição da infalibilidade hierárquica em matéria de dogma é de modo bem diverso
racional e bem mais incontestavelmente verdadeira que todos os milagres do mundo. Aliás, o que não se deve
fazer para conservar a paz! Acredita o senhor que Jan Hus não teria sido um homem bastante superior, se
tivesse sacrificado um de seus olhos à concórdia universal, ao invés de inundar a Europa de sangue! Oh!
Senhor, que a Igreja decida quando lhe aprouver que sou caolho; só lhe peço uma graça, a de me dizer de qual
olho, para que eu possa fechá-lo e olhar através do outro, com uma ortodoxia irrepreensível!
- Confesso que não sou ortodoxo ao seu modo.
- Estou percebendo. Mas voltemos aos prodígios! O senhor os viu, tocou, sentiu, provou; mas, vejamos,
exaltações à parte, queira me contar um bem detalhado, bem circunstanciado, e que sobretudo seja
evidentemente um milagre. Estou sendo indiscreto ao lhe pedir isso?
- De modo nenhum; mas qual escolherei? Há tantos! Ouça - acrescentou Madrofle após um instante de
reflexão e com um leve tremor de emoção na voz -, o profeta está em Londres e nós estamos aqui. Pois bem!
se o senhor lhe pedisse, apenas em pensamento, que lhe enviasse imediatamente a comunhão e se, num lugar
designado pelo senhor, em sua casa, numa peça de roupa, num livro, o senhor encontrasse, ao voltar, uma
hóstia, o que diria?
- Declararia esse fato inexplicável pelos meios usuais da crítica. - Pois bem, senhor! - exclama então Madrolle
triunfante - no entanto, é isso que muitas vezes me acontece; quando quero, isto é, quando estou preparado e
quando espero ser digno! Sim, senhor, encontro a hóstia quando a peço; eu a encontro real, palpável, mas
freqüentemente decorada com pequenos corações milagrosos que se acreditaria pintados por Rafael.
Eliphas Levi, que se sentia pouco à vontade para discutir fatos a que se misturava uma espécie de profanação
das coisas mais veneradas, despediu-se do antigo escritor católico e saiu meditando sobre a estranha
influência desse Vintras, que modificara assim esta velha crença e esta velha mente de sábio.
Alguns dias depois, o cabalista Eliphas foi acordado muito cedo por um visitante desconhecido. Era um
homem de cabelos brancos, todo vestido de preto, a fisionomia de um padre extremamente devoto, de
aspecto, em suma, inteiramente respeitável.
Esse eclesiástico estava munido de uma carta de recomendação assim escrita:
"Caro Mestre,
Envio-lhe um velho sábio que deseja "arranhar" com o senhor o hebraico da bruxaria. Receba-o como eu
mesmo (quero dizer como eu mesmo o recebi), desembaraçando-se dele da melhor maneira possível.
Todo seu na sacrossanta Cabala.
Ad. Desbarolles."
- Senhor Abade - diz Eliphas sorrindo após haver lido -, estou à sua inteira disposição e nada posso recusar ao
amigo que me escreve, então o senhor esteve com meu excelente discípulo Desbarolles?
- Sim, senhor, e encontrei nele um homem muito amável e muito sábio. O senhor e ele, acredito serem dignos
da verdade que recentemente se manifestou através de surpreendentes milagres e das revelações positivas do
arcanjo São Miguel.
- O senhor nos deixa honrados. O prezado Desbarolles surpreendeu-o, então, por sua ciência?
- Oh! com certeza ele possui os segredos da quiromancia num grau bastante notável; apenas com a leitura de
minha mão contou-me quase toda minha vida.
- Ele é bem capaz disso. Mas entrou em detalhes?
- O suficiente, senhor, para convencer-me de seus conhecimentos extraordinários.
- Disse-lhe que o senhor é o antigo pároco de Mont-Louis, na diocese de Tours? Que é o discípulo mais
zeloso do extático Eugène Vintras? E que se chama Charvoz?
Tamanha reviravolta causou-lhe um choque: o velho padre, a cada uma dessas três frases, dera um salto na
cadeira. Quando ouviu seu nome empalideceu e levantou-se como se fosse impulsionado por uma mola.
- O senhor é realmente um mágico? - exclamou ele. - Charvoz é de fato meu nome, mas não é o que uso; façome
chamar La Paraz...
- Eu sei. La Paraz é o sobrenome de sua mãe. O senhor deixou uma posição bastante invejável: a de pároco de
um cantão e de um encantador presbitério, para compartilhar da existência agitada de um sectário...
- Diga de um grande profeta!
- Senhor, acredito inteiramente em sua boa fé. Mas vai me permitir examinar um pouco a missão e o caráter
de seu profeta.
- Pois não, senhor, o exame, o grande dia, a luz da ciência, eis o que pedimos. Venha a Londres e verá! Os
milagres são permanentes.
- Pode me dar, antes, alguns detalhes exatos e conscienciosos sobre os milagres?
- Oh! quantos quiser.
E o velho padre começou imediatamente a contar coisas que todo o mundo teria considerado impossíveis, mas
que não fizeram o professor de alta magia sequer franzir as sobrancelhas.
Coisas como por exemplo:
- Um dia, Vintras, num acesso de entusiasmo, pregava diante de seu altar heterodoxo; vinte e cinco pessoas
assistiam a esse sermão. Um cálice vazio estava sobre o altar, cálice bem conhecido pelo abade Charvoz;
trouxera-o ele próprio de sua igreja de Mont-Louis, e tinha absoluta certeza de que esse cálice sagrado não
tinha nem conduto misterioso nem fundo duplo.
"Para vos provar", diz Vintras, "que é o próprio Deus quem me inspira, ele me faz saber que o cálice vai se
encher com as gotas de seu sangue sob a aparência de vinho, e todos vós podereis saborear o produto das
vinhas do porvir, o vinho que devemos beber com o Salvador no reino de seu pai..."
- Tomado de espanto e medo - continua o abade Charvoz subo ao altar, pego o cálice, olho no fundo: estava
inteiramente vazio. Viro-o diante de todos, depois volto a me ajoelhar ao pé do altar, segurando o cálice entre
as mãos... De repente ouve-se um leve ruído, como se tivesse caído do teto uma gota de água no cálice, e uma
gota de vinho aparece no fundo. Todos os olhares voltam-se para mim, olha-se para o teto, pois nossa simples
capela estava armada num quarto pobre; no teto não havia buraco nem fenda, nada se via cair, e no entanto o
barulho da queda das gotas multiplicava-se mais rápido e mais apressado... e o vinho brotava do fundo do
cálice para a borda. Quando o cálice ficou cheio, passei-o lentamente sob os olhares da assembléia, depois o
profeta molhou aí seus lábios, e todos, um após o outro, provaram o vinho milagroso. Qualquer lembrança de
um sabor delicioso não poderia dar a idéia de seu gosto. E o que lhe direi - acrescentou o abade Charvoz - dos
prodígios de sangue que nos surpreendem todos os dias. Milhares de hóstias feridas e sangrentas refugiam-se
em nossos altares. Os estigmas sagrados aparecem diante de todos aqueles que os querem ver. As hóstias,
inicialmente brancas, marmorizam-se lentamente de caracteres e de corações ensangüentados... Deve-se
acreditar que Deus abandona aos prestígios do demônio as coisas mais santas? ou antes de mais nada é
preciso adorar e crer que é chegada a hora da suprema e última revelação?
O abade Charvoz, ao falar assim, tinha na voz aquela espécie de tremor nervoso que Eliphas Levi já observara
em Mandrolle. O mágico balançava a cabeça com um ar pensativo; depois, de repente:
- Senhor - diz ao abade -, o senhor traz consigo uma ou várias dessas hóstias. Seja gentil deixando-me vê-Ias.
- Senhor...
- Eu sei que o senhor as tem; por que tentar negar?
- Não o nego - diz o abade Charvoz -, mas o senhor me permitirá não expor às investigações da incredulidade
os objetos da mais sincera e devotada crença.
- Senhor Abade - diz gravemente Eliphas -, a incredulidade é a desconfiança de uma ignorância quase certa de
estar enganada. A ciência não é incrédula. A princípio creio em sua convicção, uma vez que o senhor aceitou
uma vida de privações e mesmo de reprovações por essa infeliz crença. Mostre-me, pois, suas hóstias
milagrosas e creia em todo o meu respeito pelos objetos de uma sincera adoração.
- Pois bem! - diz o abade Charvoz após ter ainda hesitado um pouco -, vou mostrar-lhe.
Então ele desabotoou o alto de seu colete negro e tirou um pequeno relicário de prata, diante do qual pôs-se de
joelhos com lágrimas nos olhos e preces nos lábios; Eliphas ajoelhou-se perto dele, e o abade abriu o relicário.
Havia no relicário três hóstias, uma inteira, as duas outras quase em pasta e como que amassadas com sangue.
A hóstia inteira tinha no centro um coração em relevo dos dois lados; um grumo de sangue moldado na forma
de coração, e que parecia ter-se formado na própria hóstia de modo inexplicável. O sangue não poderia ter
sido aplicado por fora, pois a coloração por embebição deixara brancas as partes aderentes à superfície
exterior. A aparência do fenômeno era a mesma dos dois lados. O mestre de magia foi tomado por um tremor
involuntário.
Essa emoção não escapou ao velho pároco que, tendo adorado mais uma vez e fechado seu relicário, tirou do
bolso um álbum e entregou-o a Eliphas sem nada dizer. Eram cópias de todos os caracteres sangrentos
observados nas hóstias desde o começo dos êxtases e dos milagres de Vintras.
Havia corações de todos os tipos, emblemas de todos os gêneros. Mas três sobretudo excitaram ao máximo a
curiosidade de Eliphas...
- Senhor Abade - diz ele a Charvoz -, conhece estes três signos?
- Não - disse ingenuamente o abade -, mas o profeta garante que são da mais alta importãncia e que sua
significação oculta deverá ser conhecida logo, isto é, no final dos tempos.
- Pois bem, senhor - diz solenemente o professor de magia - antes mesmo do fim dos tempos vou explicar-lhe:
estes três signos cabalísticos são a assinatura do diabo!
- É impossível! - exclama o velho padre.
- É isso mesmo - continuou com firmeza Eliphas.
Ora, eis que signos eram esses:
1º - A estrela do microcosmo, ou o pentagrama mágico. É a estrela de cinco pontas da maçonaria oculta, a
estrela em que Agripa desenhou a figura humana, a cabeça na ponta superior, os quatro membros nas quatro
outras. A estrela flamejante que, invertida, é o signo hieroglífico do bode da magia negra, cuja cabeça pode,
então, estar desenhada na estrela, os dois chifres no alto, à direita e à esquerda as orelhas, a barba embaixo. É
o signo do antagonismo e da fatalidade. É o bode da luxúria atacando o céu com seus chifres. É um signo
execrado mesmo no sabbat pelos iniciados de uma ordem superior.
2º - As duas serpentes herméticas, porém as cabeças e as caudas, ao invés de se juntarem em dois
semicírculos paralelos, estavam de fora, e não havia linha intermediária representando o caduceu. Acima da
cabeça das serpentes via-se o V fatal, o forcado tifoniano, o caráter do inferno. À direita e à esquerda, os
números sagrados III e VII relegados sobre a linha horizontal que representa as coisas passivas e secundárias.
O sentido do caráter, portanto, era este:
O antagonismo é eterno.
Deus é a luta das forças fatais que criam sempre destruindo.
As coisas religiosas são passivas e passageiras.
A audácia delas se serve, a guerra delas se aproveita, e é através delas que a discórdia se perpetua.
3º - Finalmente, o monograma cabalístico de Jehova, o Iod e o He, porém invertidos, o que forma, segundo os
doutores da ciência oculta, a mais terrível de todas as blasfêmias e significa, de qualquer modo que se leia:
"Só a fatalidade existe: Deus e o espírito não são. A matéria é tudo, e o espírito é apenas uma ficção dessa
mesma matéria em demência. A forma é mais que a idéia, a mulher mais que o homem, o prazer mais que o
pensamento, o vício mais que a virtude, a multidão mais que seus chefes, os filhos mais que seus pais, a
loucura mais que a razão!"
Eis o que estava escrito em caracteres de sangue nas hóstias supostamente milagrosas de Vintras!
Damos nossa palavra de honra de que todos os fatos acima enunciados são tais como os relatamos e de que
nós mesmos vimos e explicamos os caracteres, segundo a verdadeira ciência mágica e as verdadeiras chaves
da Cabala.
O discípulo de Vintras comunicou-nos também a descrição e o desenho das vestes pontificais dadas, dizia ele,
pelo próprio Jesus Cristo ao pretenso profeta durante um de seus sonos extáticos. Vintras mandou
confeccionar essas vestes e enfeita-se com elas para fazer seus milagres. São vermelhas. Ele deve trazer na
fronte uma cruz em forma de linga, ter um bastão pastoral encimado por uma mão, cujos dedos estão todos
fechados, à exceção do polegar e do auricular.
Ora, tudo isso é diabólico por excelência, e não é uma coisa verdadeiramente maravilhosa essa intuição dos
signos de uma ciência perdida? Pois foi a alta magia que, apoiando o universo sobre as duas colunas de
Hermes e de Salomão, dividiu o mundo metafísico em duas zonas intelectuais, uma branca e luminosa
encerrando as idéias positivas, a outra negra e obscura contendo as idéias negativas, e que deu à noção
sintética da primeira o nome de Deus, à síntese da outra o nome do diabo, ou de Satã.
O signo do linga trazido na fronte é, na Índia, a marca distintiva dos adoradores de Shiva, o destruidor; sendo
esse signo o do grande arcano mágico que detém o mistério da geração universal, trazê-lo sobre a fronte é
fazer profissão de impudor dogmático. Ora, dizem os orientais, no dia em que não houver mais pudor no
mundo, e este estiver abandonado à devassidão, que é estéril, logo acabará por falta de mães. O pudor é a
aceitação da maternidade.
A mão com os três grandes dedos fechados expressa a negação do ternário e a afirmação das únicas forças
naturais.
Os antigos hierofantes, como vai explicar nosso sábio e espirituoso amigo Desbarolles num belo livro, haviam
feito da mão humana o resumo da ciência mágica. O indicador, para eles, representava Júpiter; o grande dedo
ou dedo médio, Saturno; o anular, Apolo ou o Sol. Para os egípcios, o dedo médio era Ops, o indicador, Osíris
e o anular, Hórus; o polegar representava a força geradora, e o auricular, a habilidade insinuante. A mão
mostrando apenas o polegar e o auricular equivale, em língua hieroglífica sagrada, à afirmação exclusiva da
paixão e da habilidade. É a tradução abusiva e material desta grande fala de Santo Agostinho: "Amai e fazei o
que quiserdes." Comparai agora esse signo à doutrina de Madrolle: o ato de amor mais imperfeito e
aparentemente mais condenável vale mais do que a melhor das preces. E vós vos perguntareis qual força é
essa que, independentemente da vontade e da maior ou menor ciência dos homens (pois Vintras é um homem
sem letras e sem instrução), formula seus dogmas com signos enterrados nos destroços do antigo mundo,
reencontra os mistérios de Tebas e de Elêusis, e escreve-nos os mais doutos devaneios da Índia com os
alfabetos ocultos de Hermes.
Que força é essa? Eu vos direi. Mas tenho ainda muitos outros prodígios a vos contar, e este trabalho é,
digamos, como uma instrução jurídica. Devemos antes de mais nada completá-la.
No entanto, ser-nos-á permitido, antes de passar a outros relatos, transcrever aqui uma página de um
iluminado alemão, Ludwig Tieck.
"Se, por exemplo, como narra uma antiga tradição, uma parte dos anjos criados não tardou em decair, e se
foram precisamente, como é dito ainda, os mais brilhantes, pode-se depreender dessa queda apenas que eles
buscavam um caminho novo, uma outra atividade, outras ocupações e uma outra vida, ao contrário daqueles
espíritos ortodoxos, ou mais passivos, que permaneceram na região que lhes era destinada e não fizeram
nenhum uso da liberdade, seu apanágio comum. Sua queda foi essa gravidade da forma que agora chamamos
realidade, e que é a reabsorção do espírito universal nos abismos. É assim que a morte conserva e reproduz a
vida, é assim que a vida é noiva da morte... Compreendeis agora o que é Lúcifer? Não é o gênio mesmo do
antigo Prometeu, essa força que impulsiona o mundo, a vida, o próprio movimento, e que regula o curso das
forças sucessivas? Essa força, por sua resistência, equilibrou o princípio criador. Foi assim que os Eloim
criaram o mundo. Quando em seguida os homens foram colocados na terra, pelo Senhor, como espíritos
intermediários, em seu entusiasmo que os levava a investigar a natureza e suas profundezas, abandonaram-se
à influência daquele soberbo e poderoso gênio, e quando num doce enlevo precipitaram-se na morte, para aí
encontrar a vida, começaram então a existir de modo verdadeiro, natural e como convém às criaturas."
Esta página não necessita de comentário e explica o suficiente as tendências do que se denomina
espiritualismo, ou a doutrina espírita.
Há muito tempo já essa doutrina, ou essa antidoutrina, trabalha o mundo para precipitá-lo numa anarquia
universal. Porém a lei de equilíbrio nos salvará, e o grande movimento de reação já começou.
Retomemos o relato dos fenômenos.
Um operário apresentou-se um dia na casa de Eliphas Levi. Era um homem de uns cinqüenta anos, alto, de
olhar direto e que falava de modo bastante sensato. Perguntado sobre o motivo de sua visita, respondeu:
- O senhor deve saber, venho pedir-lhe e suplicar-lhe que me devolva o que perdi.
Devemos dizer, para sermos sinceros, que Eliphas nada sabia sobre esse visitante nem sobre o que ele pudesse
ter perdido. Assim, respondeu-lhe:
- Acredita-me muito mais bruxo do que na realidade sou; não sei quem é nem o que procura, portanto, se
acredita que lhe possa ser útil em alguma coisa, é necessário que se explique e esclareça o seu pedido.
- Pois bem! uma vez que não quer me compreender, reconhecerá pelo menos isso - disse então o
desconhecido, tirando do bolso um pequeno livro negro e roto.
Era o grimório do papa Honório.
Uma palavra sobre esse pequeno livro tão desacreditado.
O grimório de Honório compõe-se de uma constituição apócrifa de Honório II para a evocação e o governo
dos espíritos; e mais, de algumas receitas supersticiosas... Era o manual dos maus padres que exerciam a
magia negra durante os mais tristes períodos da Idade Média. Encontram-se aí ritos sangrentos misturados a
profanações da missa e das espécies consagradas, fórmulas de bruxaria e de malefícios, e também práticas que
só a estupidez pode admitir e a perfídia aconselhar. Enfim, é um livro completo em seu gênero; assim, tornouse
muito raro nas livrarias, e os apreciadores fazem seu preço subir muito nos leilões.
- Meu caro senhor - disse o operário suspirando -, desde a idade de seis anos, não deixei uma única vez de
fazer meu serviço. Este livro não me deixa, e sigo rigorosamente todas as prescrições que ele contém. Por que
então os que me visitavam abandonaram-me? Eli, Eli, Lamma...
- Pare - disse Eliphas -, não parodie as mais formidáveis palavras que uma agonia já fez o mundo ouvir! Quais
são os seres que o visitavam pelo poder deste livro horrível? Conhece-os? Prometeu-lhes alguma coisa?
Assinou um pacto?
- Não - interrompeu o proprietário do grimório -, não os conheço e não assumi com eles nenhum
compromisso. Sei apenas que entre eles os chefes são bons, os intermediários alternativamente bons e maus;
os inferiores maus, mas não cegamente e sem que lhes seja possível fazer melhor. Aquele a quem evoquei e
que freqüentemente me apareceu pertence à hierarquia mais elevada, pois tinha boa aparência, era bem
vestido e sempre me dava respostas favoráveis. Mas perdi uma página do meu grimório, a primeira, a mais
importante, a que trazia a assinatura do espírito, e, desde então, não aparece mais quando o chamo. Sou um
homem perdido. Estou nu como Jó, não tenho mais força nem coragem. Oh! mestre, eu lhe suplico, o senhor a
quem a uma única palavra, a um único sinal os espíritos obedecerão, tenha piedade de mim e devolva-me o
que perdi!
- Dê-me seu grimório - disse Eliphas. - Que nome dava ao espírito que lhe aparecia?
- Chamava-o Adonai.
- Em que língua era sua assinatura?
- Ignoro, mas suponho que fosse hebraico.
- Tome - disse o professor de alta magia após haver traçado duas palavras hebraicas no começo e no final do
livro. - Eis duas assinaturas que os espíritos das trevas nunca falsificarão. Vá em paz, durma bem e não
evoque mais os fantasmas.
O operário retirou-se.
Oito dias depois voltou a procurar o homem de ciência.
- O senhor devolveu-me a esperança e a vida, minha força voltou em parte, posso, com as assinaturas que me
deu, aliviar a dor dos que sofrem e livrar os obcecados, mas ele não posso mais ver, e, enquanto não o vir de
novo, estarei triste até a morte. Antigamente, ele estava sempre perto de mim, tocava-me por vezes e
acordava-me à noite para me dizer tudo o que eu precisava saber. Mestre, eu lhe suplico, faça com que o veja
de novo.
- Quem?
- Adonai.
- Sabe quem é Adonai?
- Não, mas gostaria de revê-lo.
- Adonai é invisível.
- Eu o vi.
- Ele não tem forma.
- Eu o toquei.
- Ele é infinito.
- É mais ou menos do meu tamanho.
- Os profetas dizem que a orla de sua roupa, do Oriente ao Ocidente, varre as estrelas da manhã.
- Tinha um sobretudo muito limpo e a roupa muito branca.
- A Sagrada Escritura diz ainda que não se pode vê-lo sem morrer.
- Tinha um rosto bom e jovial.
- Mas como o senhor procedia para obter essas aparições?
- Ora! Fazia tudo o que está indicado no grande grimório.
- O quê! mesmo o sacrifício de sangue?
- Sem dúvida.
- Infeliz! mas quem era a vítima?
A essa pergunta, o operário teve um leve tremor, empalideceu, seu olhar perturbou-se.
- Mestre, o senhor sabe melhor do que eu - disse humildemente e em voz baixa. - Oh! custou-me muito;
sobretudo a primeira vez, num único golpe com a faca mágica cortar a garganta dessa criatura inocente! Uma
noite, tinha acabado de cumprir os ritos fúnebres, estava sentado dentro do círculo, na soleira interna da
minha porta, e a vítima acabava de se consumir num grande fogo feito com álamos e ciprestes... De repente,
perto de mim... vi, ou antes senti, que ele passava... Ouvi um lamento dilacerante... parecia chorar, e a partir
desse momento tinha a impressão de ouvi-lo sempre.
Eliphas levantara-se e olhava fixamente seu interlocutor. Teria diante de si um louco perigoso capaz de repetir
as atrocidades do Senhor de Retz? No entanto, a aparência desse homem era suave e honesta. Não, isso não
era possível.
- Mas enfim, essa vítima... diga-me claramente o que era. O senhor supõe que eu já saiba, e talvez saiba
mesmo, mas tenho razões para querer que me diga.
- Era, de acordo com o ritual mágico, um cabritinho de um ano, virgem e sem defeitos.
- Um cabrito de verdade?
- Sem dúvida. Acredite, não era nem um brinquedo de criança nem um animal empalhado.
Eliphas respirou.
"Ainda bem!" pensou, "este homem não é um bruxo digno da fogueira. Não sabe que os abomináveis autores
dos grimórios, quando falavam do cabrito virgem, queriam dizer uma criancinha."
- Pois bem! - disse então àquele que o consultava -, dê-me detalhes sobre essas visões. O que me conta
interessa-me muitíssimo.
O bruxo, pois é preciso chamá-lo pelo seu nome, o bruxo contou-lhe então uma série de fatos estranhos de
que duas famílias haviam sido testemunhas, e esses fatos eram precisamente idênticos aos fenômenos do
senhor Home: mãos que saíam das paredes, agitações de móveis, aparições fosforescentes. Um dia, o
temerário aprendiz de mágico ousara chamar Astaroth, e vira aparecer um monstro gigantesco que tinha o
corpo de um porco e a cabeça tirada de um colossal esqueleto de boi. Mas tudo isso era contado num tom de
verdade, com uma certeza de ter visto, que excluía qualquer dúvida sobre a boa fé e a inteira convicção do
narrador. Eliphas, que é artista em magia, encantou-se com esse achado. No século XIX, um verdadeiro bruxo
da Idade Média, um bruxo ingênuo e convicto! Um bruxo que viu Satã sob o nome de Adonai, Satã vestido
como um burguês e Astaroth sob sua verdadeira forma diabólica! que obra de arte! que tesouro de
arqueologia!
- Meu amigo - disse a seu novo discípulo -, quero ajudá-lo a encontrar o que diz ter perdido. Pegue meu livro,
observe as prescrições do ritual e venha ver-me daqui a oito dias.
Oito dias depois, nova conferência, e então o operário declarou que inventou uma máquina de salvamento da
maior importância para a marinha. A máquina está perfeitamente montada; falta apenas uma coisa... não
funciona: um defeito imperceptível está no mecanismo. Que defeito é esse? Só o espírito de malícia poderia
dizer. É, pois, absolutamente necessário evocá-lo!...
- Cuidado - disse Eliphas -; antes, diga durante nove dias esta invocação cabalística (e entregou-lhe uma folha
manuscrita). Comece esta noite, e volte amanhã para me dizer o que viu, pois esta noite o senhor terá uma
manifestação.
No dia seguinte, nosso homem não faltou ao encontro.
- Acordei de repente, mais ou menos à uma hora da manhã. Vi diante de minha cama uma grande luz, e dentro
dessa luz um braço de sombra que passava e repassava diante de mim como para magnetizar-me. Então,
tornei a dormir, e, alguns instantes depois, tendo novamente acordado, revi a mesma luz, mas ela mudara de
lugar. Passara da esquerda para a direita, e sobre o fundo luminoso distingui a silhueta de um homem que
cruzava os braços e me olhava.
- Como era esse homem?
- Aproximadamente da sua estatura e do seu peso.
- Está bem. Vá e continue a fazer o que eu lhe disse.
Passaram-se os nove dias; ao final desse tempo, nova visita do adepto; mas dessa vez muito feliz e
agradecido. Ao ver ao longe Eliphas:
- Obrigado, mestre! - exclamou -, a máquina funciona, pessoas que eu não conhecia vieram colocar à minha
disposição o capital de que necessitava para terminar meu empreendimento, reencontrei a paz do sono, e tudo
isso graças ao seu poder.
- Diga antes graças à sua fé e à sua docilidade, e agora adeus, preciso trabalhar... E então? por que este ar
suplicante, o que ainda quer de mim?
- Oh! se o senhor quisesse!...
- Se quisesse o quê? Não obteve tudo o que pediu, e até mais do que pediu, pois o senhor não havia falado em
dinheiro.
- Sim, certamente, disse o outro suspirando, mas gostaria muito de revê-lo!
- Incorrigível!
Algumas semanas depois, o professor de alta magia foi acordado mais ou menos às duas horas da manhã por
uma dor de cabeça aguda. Durante alguns instantes, receou uma congestão cerebral, levantou-se, acendeu a
lâmpada, abriu a janela, passeou pelo seu gabinete de estudos, depois, acalmado pelo ar fresco da manhã,
voltou a deitar-se e adormeceu profundamente; teve, então, um pesadelo; viu, com uma aparência terrível de
realidade, o gigante de cabeça de boi descarnada de que lhe falara o mecânico. Esse monstro perseguia-o e
lutava com ele. Quando acordou já era dia e alguém batia à sua porta. Eliphas levantou-se, jogou uma roupa
sobre o corpo e foi abrir: era o operário.
- Mestre - disse entrando apressadamente e com um ar alarmado -, como o senhor está se sentindo?
- Muito bem - respondeu Eliphas.
- Mas essa noite, às duas horas da manhã, o senhor não correu perigo?
Eliphas não sabia do que se tratava e já não se lembrava de sua indisposição da noite.
- Um perigo? não, nenhum que eu saiba.
- O senhor não foi atacado por um fantasma monstruoso que tentava estrangulá-lo? O senhor não sofreu?
Eliphas lembrou-se.
- Sim, certamente tive um começo de apoplexia e um sonho horrível. Mas como sabe disso?
Na mesma hora, uma mão invisível bateu-me com força no ombro e acordou-me em sobressalto. Sonhava,
então, que o via lutando com Astaroth. Sentei-me na cama e uma voz disse-me ao ouvido: "Levante-se e vá
em socorro de seu mestre; ele está em perigo." Levantei-me precipitadamente.
Mas, em primeiro lugar, para onde era preciso correr? Que perigo o ameaçava? Era em sua casa ou em outra
parte? A voz nada dissera sobre isso. Tomei a decisão de esperar o nascer do sol, e, desde que o dia clareou,
vim em seu auxílio, e aqui estou.
- Obrigado, meu amigo - disse-lhe o mágico estendendo-lhe a mão, Astaroth é um bufão desagradável, e essa
noite um pouco de sangue subiu-me à cabeça, apenas isto. Agora estou perfeitamente bem. Pode, portanto,
ficar tranqüilo e voltar ao trabalho.
Por mais estranhos que sejam os fatos que acabamos de contar, resta-nos revelar um drama fúnebre ainda bem
mais extraordinário.
Trata-se do fato cruento, que no início deste ano, mergulhou no luto e no estupor Paris e toda a cristandade;
fato a que ninguém suspeitou que a magia negra não fosse estranha.
Eis o que aconteceu:
Durante o inverno, no início do ano passado, um livreiro informou ao autor de Dogma e Ritual da Alta Magia
que um eclesiástico procurava seu endereço e demonstrava o maior desejo de vê-lo. Eliphas Levi não se
sentiu, de início, tomado de confiança por esse desconhecido a ponto de expor-se sem precauções à sua visita;
indicou uma casa amiga, onde deveria estar com seu fiel amigo Desbarolles. Na hora combinada e no dia
marcado, eles foram à casa da senha A..., e encontraram o eclesiástico que já há alguns instantes os esperava.
Era um moço bastante magro, de nariz pontiagudo e arqueado, de olhos azuis e ternos. Sua testa ossuda e
saliente era mais larga do que alta: a cabeça era alongada atrás, os cabelos lisos e curtos, repartidos de lado,
eram de um loiro acinzentado, pendendo para o castanho claro, mas com uma nuança particular e
desagradável. A boca era sensual e batalhadora; seus modos, aliás, eram afáveis, a voz doce e a fala algumas
vezes um pouco embaraçada. Perguntado por Eliphas Levi sobre o objetivo sua visita, respondeu que estava à
procura do grimório de Honório e que vinha informar-se com o professor de ciências ocultas sobre o modo de
se obter esse pequeno livro negro, que se tornara praticamente impossível de encontrar.
- Eu daria cem francos por um exemplar desse grimório - dizia ele.


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