A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS - parte 3


X – Número Absoluto da Cabala
A chave das sefirotes (ver Dogma e Ritual da Alta Magia).
XI - O Número Onze
Onze é o número da força; é o da luta e do martírio.
Todo homem que morre por uma idéia é um mártir, pois nele as aspirações do espírito triunfaram sobre os
temores dos animais.
Todo homem que morre na guerra é um mártir, pois morre pelos outros.
Todo homem que morre miserável é um mártir, pois é como um soldado vencido na batalha da vida.
Aqueles que morrem pelo direito são tão santos em seu sacrifício quanto as vítimas do dever e, nas grandes
lutas da revolução contra o poder, os mártires caem dos dois lados.
Sendo o direito a raiz do dever, nosso dever é defender nossos direitos.
O que é um crime? É o exagero do direito. O assassínio e o roubo são negações da sociedade; é o despotismo
isolado de um indivíduo que usurpa a realeza e faz guerra por sua conta e risco.
O crime deve ser sem dúvida reprimido, e a sociedade deve defender-se; mas quem poderia ser justo o
suficiente, grande o suficiente e puro o suficiente para ter a pretensão de punir?
Paz a todos os que tombam na guerra, mesmo na guerra ilegítima, pois arriscaram a cabeça e perderam-na, e,
tendo pago, o que podemos ainda reclamar?
Honra a todos os que combatem bravamente e lealmente! Vergonha somente aos traidores e aos covardes!
O Cristo morreu entre dois ladrões e levou consigo um deles ao céu.
O reino dos céus é dos lutadores e se ganha à força.
Deus dá sua onipotência ao amor. Gosta de triunfar sobre o ódio, mas vomita a tibieza.
O dever é viver, nem que seja por um instante!
É belo ter reinado por um dia, mesmo por uma hora! Mesmo que seja sob a espada de Dâmocles ou na
fogueira de Sardanapalo.
Mas é mais belo ter visto a seus pés todas as coisas do mundo e ter dito: Serei o rei dos pobres e meu trono
será sobre o calvário.
Existe um homem mais forte do que aquele que mata, é o que morre para salvar.
Não existem crimes isolados nem expiações solitárias.
Não existem virtudes pessoais nem devotamentos perdidos.
Quem não for irrepreensível é cúmplice de todo mal, e quem não for absolutamente perverso pode participar
de todo bem.
É por isso que um suplício é sempre uma expiação humanitária, e toda cabeça que é recolhida de um
cadafalso pode ser saudada e honrada como a cabeça de um mártir.
É por isso também que o mais nobre e o mais santo dos mártires podia, ao entrar em sua consciência, achar-se
digno da pena que iria suportar e dizer, saudando o gládio pronto a feri-lo: Justiça seja feita!
Puras vítimas das catacumbas de Roma, judeus e protestantes massacrados por indignos cristãos.
Padres da Abbaye e dos Carmes, guilhotinados do terror, realistas degolados, revolucionários sacrificados,
soldados de nossos grandes exércitos que semeasses as ossadas pelo mundo, vós todos que morresses com
sofrimento, ousados de toda sorte, bravos filhos de Prometeu que não tendes medo nem do raio nem do
abutre, honra a vossas cinzas, paz e veneração a vossas memórias! Sois os heróis do progresso, os mártires da
humanidade!
XII - O Número Doze
O doze é o número cíclico; é o do símbolo universal.
Eis uma tradução dos versos feitos para o símbolo mágico e católico sem restrição:
Creio num só Deus onipotente, nosso pai,
Eterno criador do céu e da terra.
Creio no Rei salvador, chefe da humanidade.
Da divindade, filho, palavra e esplendor.
Concepção viva do eterno amor,
Divindade visível e luz atuante.
Desejado pelo mundo sempre e em todos os lugares.
Mas que não é um Deus separável de Deus.
Descido entre nós para libertar a terra,
Santificou a mulher em sua mãe.
Era o homem celeste, sábio e doce homem.
Nasceu para sofrer e morrer como nós.
Proscrito pela ignorância, acusado pela inveja,
Morreu na cruz para nos dar a vida.
Todos os que o tomarem por guia e apoio
Podem, por sua doutrina, ser Deus como ele.
Ressuscitou para reinar sobre os tempos;
Deve, da ignorância, as nuvens dissipar.
Seus preceitos, um dia mais fortes e mais conhecidos,
Serão o julgamento dos vivos e dos mortos.
Creio no Espírito Santo cujos únicos intérpretes
São o espírito e o coração dos santos e dos profetas.
É um sopro de vida e fecundidade
Que provém da humanidade e do Pai.
Creio na família única e sempre santa
Dos justos que o céu reuniu em seu temor.
Creio na unidade do símbolo, do lugar,
Do pontífice e do culto na honra de um só Deus.
Creio que, em nos transformando, a morte nos renove,
E que em nós, como em Deus, a vida é eterna.
XIII - O Número Treze
O treze é o número da morte e o do nascimento; é o da propriedade e da herança, da sociedade e da família, da
guerra e dos tratados.
A sociedade tem por bases as trocas do direito, do dever e da fé mútua.
O direito é a propriedade; a troca, a necessidade; a boa fé, o dever.
Aquele que quer receber mais do que dá ou que quer receber sem dar é um ladrão.
A propriedade é o direito de dispor de uma parte da fortuna comum; não é nem o direito de destruição nem o
direito de seqüestro.
Destruir ou seqüestrar o bem público não é possuir, é roubar.
Digo bem público, porque o verdadeiro proprietário de todas as coisas é Deus, que quer que tudo seja de
todos. O que quer que façais, não levareis convosco ao morrer nenhum dos bens deste mundo. Ora, o que vos
deve ser tomado um dia não vos pertence realmente. Foi apenas um empréstimo.
Quanto ao usufruto, é o resultado do trabalho; mas o próprio trabalho não é uma garantia segura de posse, e a
guerra pode vir, pela devastação ou pelo incêndio, deslocar a propriedade.
Fazei, pois, um bom uso das coisas que perecem, vós que perecereis antes delas!
Levai em consideração que o egoísmo provoca o egoísmo e que a imoralidade do rico corresponderá a crimes
dos pobres.
O que quer o pobre, se é honesto?
Quer trabalho. Usai vossos direitos, mais fazei vosso dever: o dever do rico é expandir a riqueza; o bem que
não circula está morto, não entesoureis a morte.
Um sofista disse: A propriedade é o roubo. E queria sem dúvida falar da propriedade absorvida, subtraída à
troca, desviada da utilidade COMUM.
Se esse era seu pensamento, ele poderia ir mais longe e dizer que tal supressão da vida pública é um
verdadeiro assassínio.
É o crime do açambarcamento, que o instinto público sempre viu como um crime de lesa-majestade humana.
A família é uma associação natural que resulta do casamento.
O casamento é a união de dois seres que o amor uniu e que se prometem um devotamento mútuo no interesse
dos filhos que podem nascer.
Dois esposos que têm um filho e se separam são ímpios. Será que querem executar o julgamento de Salomão
e separar também o filho?
Prometer-se um amor eterno é puerilidade: o amor sexual é uma emoção sem dúvida divina, mas acidental,
involuntária e transitória; mas a promessa do devotamente recíproco é a essência do casamento e o princípio
da família.
A sanção e a garantia dessa promessa devem ser uma confiança absoluta.
Todo ciúme é uma suspeita, e toda suspeita é um ultraje.
O verdadeiro adultério é o da confiança: a mulher que se queixa de seu marido perto de outro homem; o
homem que confia a outra mulher, que não a sua, as aflições ou as esperanças de seu coração, esses traem
verdadeiramente a fé conjugal.
As surpresas dos sentidos só são infidelidades por causa dos arrebatamentos do coração que se abandona mais
ou menos ao reconhecimento do prazer. Afora isso, são faltas humanas, de que é preciso envergonhar-se e que
se deve esconder: são indecências que é preciso evitar afastando as ocasiões, mas que nunca se deve procurar
surpreender; os bons costumes são a proscrição do escândalo.
Todo escândalo é uma torpeza. Não se é indecente porque tem-se órgãos que o pudor não nomeia; mas se é
obsceno quando são mostrados.
Maridos, escondei as chagas de vossa vida a dois; não desnudeis vossas mulheres perante o escárnio público!
Mulheres, não exibais as misérias do leito conjugal: seria vos ínscreverdes na opinião pública como
prostituídas.
É preciso uma elevada dignidade de coração para conservar a fé conjugal: é um pacto de heroismo que
somente as grandes almas podem compreender em toda a extensão.
Os casamentos que são rompidos não são casamentos, são acasalamentos.
No que se pode transformar uma mulher que abandona o marido? Não é mais esposa, não é viúva; o que é
então? É uma apóstata da honra, que é forçada a ser licenciosa, porque não é nem virgem nem livre.
Um marido que abandona a mulher a prostitui e merece o nome infame que é dado aos amantes das jovens
perdidas.
O casamento é sagrado, indissolúvel, quando existe realmente.
Mas só pode existir para seres de elevada inteligência e nobre coração.
Os animais não se casam, e os homens que vivem como animais sofrem as fatalidades de sua natureza.
Fazem sem cessar tentativas para agir racionalmente. Suas promessas são tentativas e simulacros de
promessas; seus casamentos, tentativas e simulacros de casamento; seus amores, tentativas e simulacros de
amor. Quereriam sempre e não querem nunca; começam sempre e não terminam nunca. Para tais pessoas, as
leis só se aplicam pela repressão.
Tais seres podem ter uma ninhada, mas nunca têm uma família: o casamento, a família são direitos do homem
perfeito, do homem emancipado, do homem inteligente e livre.
Por isso, consultar os anais dos tribunais e lede a história dos parricidas.
Erguei o véu negro de todas estas cabeças cortadas e perguntai-lhes o que pensaram do casamento e da
família, que leite sugaram, que carinhos as enobreceram... Depois tremei, vós todos que não dais a vossos
filhos o pão da inteligência e do amor, vós todos que não sancionais a autoridade paterna pela virtude do bom
exemplo...
Esses miseráveis eram órfãos pelo espírito e pelo coração e vingaram-se de seu nascimento!...
Vivemos num século em que mais do que nunca a família é desconhecida no que tem de augusta e sagrada: o
interesse material mata a inteligência e o amor; as lições da experiência são desprezadas, regateia-se as coisas
de Deus. A carne insulta o espírito, a fraude ri na cara da lealdade. Quanto mais ideal, mais justiça: a vida
humana ficou órfã dos dois lados.
Coragem e paciência! Este século irá para onde devem ir todos os culpados. Vede como é triste! O tédio é o
véu negro de sua cabeça... a carroça anda, e a multidão segue estremecendo...
Logo, mais um século será julgado pela história, e será escrito num túmulo de ruínas: Aqui jaz o século
parricida! o século carrasco de Deus e de seu Cristo!
Na guerra tem-se o direito de matar para não morrer: mas na batalha da vida, o mais sublime dos direitos é o
de morrer para não matar.
A inteligência e o amor devem resistir à opressão até a morte, nunca até o assassínio.
Homem de coração, a vida daquele que te ofendeu está em tuas mãos, pois ele é senhor da vida dos outros, o
qual não faz questão da sua. Massacra-o com tua grandeza: perdoa-o!
- Mas será proibido matar o tigre que nos ameaça?
- Se for um tigre com rosto humano, é mais belo deixar-se devorar, no entanto, aqui, a moral nada prescreve.
- Mas e se o tigre ameaça meus filhos?
- A própria natureza vos responderá.
Harmódio e Aristogiston tinham festas e estátuas na Grécia antiga. A Bíblia consagrou os nomes de Judite e
Aud e uma das mais sublimes figuras do livro santo, Sansão cego e acorrentado que sacode as colunas do
templo e grita: Que eu morra com os filisteus!
Acreditai, entretanto, que, se Jesus, antes de morrer, tivesse ido a Roma apunhalar Tibério, teria salvado o
mundo como fez ao perdoar seus carrascos e até mesmo ao morrer por Tibério?
Brutus, ao matar César, salvou a liberdade romana? Ao matar Calígula, Quéreas apenas deu lugar a Cláudio e
a Nero. Protestar contra a violência com violência é justificá-la e forçá-la a se reproduzir.
Mas triunfar sobre o mal pelo bem, sobre o egoísmo pela abnegação, sobre a ferocidade pelo perdão: é o
segredo do cristianismo e da vitória eterna.
Eu vi o lugar em que a terra sangrava ainda pelo assassínio de Abel e nesse lugar passava um regato de
pranto.
E miríades de homens avançavam conduzidos pelos séculos, deixando cair lágrimas no regato.
E a eternidade, agachada e morna, contemplava as lágrimas que caíam, contava-as uma a uma, e nunca havia
o suficiente para lavar uma mancha de sangue.
Mas, entre duas multidões e duas épocas, veio o Cristo, pálida e resplandecente figura.
E, na terra do sangue e das lágrimas, plantou a vinha da fraternidade, e as lágrimas e o sangue aspirados pelas
raizes da árvore divina tornaram-se a seiva deliciosa da uva que deve embriagar de amor os filhos do futuro.
XIV - O Número Catorze
Catorze é o número da fusão, da associação e da unidade universal, e é em nome do que representa que
faremos aqui um apelo às nações, a começar pela mais antiga e mais santa.
Filhos de Israel, por que, em meio ao movimento das nações, continuais imóveis como se guardásseis os
túmulos de vossos pais?
Vossos pais não estão mais aqui, ressuscitaram: pois o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó não é o Deus dos
mortos!
Por que imprimis sempre a vossa geração a marca sangrenta do cutelo?
Deus não quer mais separar-vos dos outros homens; sede nossos irmãos, e comei conosco hóstias pacíficas
nos altares que o sangue nunca conspurca.
A lei de Moisés está cumprida: lede vossos livros e compreendei que fostes um povo cego e duro, como
dizem todos os vossos profetas.
Mas fostes também um povo corajoso e perseverante na luta.
Filhos de Israel, tornai-vos filhos de Deus: compreendei e amai!
Deus apagou de vossa fronte a marca de Caim, e os povos ao vos ver passar não dirão mais: Aí estão os
judeus! gritarão: Abram alas para nossos irmãos, abram alas para os que nos precederam na fé.
E iremos todos os anos comemorar convosco a páscoa na nova Jerusalém.
E descansaremos debaixo de vossa videira e de vossa figueira; pois sereis ainda amigos do viajante, em
memória de Abraão, de Tobias e dos anjos que os visitavam.
E em memória daquele que disse: Quem ao menor dentre vós recebe a mim me recebe.
Pois doravante não recusareis mais um asilo em vossa casa e em vosso coração a vosso irmão José que
vendesses às nações.
Porque ele se tornou poderoso na terra do Egito onde procuráveis pão durante os dias de esterilidade.
E ele recordou-se de seu pai Jacó e de Benjamim, seu jovem irmão; e perdoa vossa inveja e vos abraça
chorando.
Filhos dos crentes, cantaremos convosco: não existe outro Deus senão Deus e Maomé é seu profeta.
Dizei com os filhos de Israel: Nenhum Deus existe senão Deus e Moisés é seu profeta!
Dizei com os cristãos: Não existe outro Deus senão Deus e Jesus Cristo é seu profeta!
Maomé é a sombra de Moisés. Moisés é o precursor de Jesus.
O que é um profeta? É um representante da humanidade que procura Deus. Deus é Deus, o homem é o profeta
de Deus quando faz que acreditemos em Deus.
A Bíblia, o Alcorão e o Evangelho são três traduções diferentes do mesmo livro. Há somente uma lei como há
somente um Deus.
Ó mulher idealizada, ó recompensa dos eleitos, és mais bela do que Maria?
Ó Maria, filha do Oriente, casta como o puro amor, grande como as aspirações maternais, vem ensinar aos
filhos do Islã os mistérios do céu e os segredos da beleza.
Convida-os para o festim da nova aliança, lá, em três tronos resplandecentes de pedrarias, três profetas estarão
sentados.
A árvore tuba fará de seus galhos recurvados um dossel para a mesa celeste.
A esposa será branca como a lua e rubra como o sorriso da manhã.
Todos os povos acorrerão para vê-Ia e não temerão mais passar Al Sirah, pois, sobre essa ponte cortante como
uma lâmina de barbear, o Salvador estenderá sua cruz e virá estender a mão aos que vacilarem, e aos que
caírem a esposa estenderá seu véu perfumado e os trará em sua direção.
Povos, batei palmas e aplaudi o último triunfo do amor! Somente a morte ficará morta e somente o inferno
será queimado.
Ó nações da Europa, a quem o Oriente estende as mãos, uni-vos para expulsar os ursos do Norte! Que a
última guerra faça triunfar a inteligência e o amor, que o comércio entrelace os braços do mundo e que uma
civilização nova, saída do Evangelho armado, reúna todos os rebanhos da terra sob o cajado do mesmo pastor!
Tais serão as conquistas do progresso; tal é o objetivo para o qual nos empurra todo o movimento do mundo.
O progresso é o movimento; e o movimento é a vida.
Negar o progresso é afirmar o nada e deificar a morte.
O progresso é a única resposta que a razão pode opor às objeções relativas à existência do mal.
Nada está bem, mas tudo estará bem um dia. Deus inicia e acabará sua obra.
Sem o progresso, o mal seria imutável como Deus!
O progresso explica as ruínas e consola Jeremias que chora.
As nações sucedem-se como os homens e nada é estável porque tudo caminha em direção da perfeição.
O grande homem que morre lega a sua pátria o fruto de seu trabalho; a grande nação que se extingue na terra
transfigura-se numa estrela para iluminar as obscuridades da história.
O que ele escreveu por suas ações fica gravado no livro eterno; acrescentou uma página à bíblia do gênero
humano.
Não digais que a civilização é má; pois assemelha-se ao calor úmido que amadurece as colheitas, desenvolve
rapidamente os princípios da vida e os princípios da morte, mata e vivifica.
É como o anjo do julgamento que separa os maus dos bons.
A civilização transforma em anjos de luz os homens de boa vontade e coloca o egoísta abaixo da besta; é a
corrupção dos corpos e a emancipação das almas.
O mundo ímpio dos gigantes elevou ao céu a alma de Henoch; acima das bacanais da Grécia primitiva elevase
o espírito harmonioso de Orfeu.
Sócrates e Pitágoras, Platão e Aristóteles resumem, ao explicá-las, todas as aspirações do mundo antigo; as
fábulas de Homero permanecem mais verdadeiras do que a história, e só nos restam das grandezas de Roma
os escritos imortais que elaborou o século de Augusto.
Assim, Roma talvez só tenha abalado o mundo com suas guerreiras convulsões para gerar seu Virgílio.
O cristianismo é o fruto das meditações de todos os sábios do Oriente que revivem em Jesus Cristo.
Assim, a luz dos espíritos nasceu onde nasce o sol do mundo; o Cristo conquistou o Ocidente, e os doces raios
do sol da Ásia tocaram os gelos do Norte.
Movidos por esse calor desconhecido, formigueiros de homens novos espalharam-se por um mundo exaurido;
as almas dos povos mortos brilharam sobre os povos rejuvenescidos e aumentaram neles o espírito de vida.
Há no mundo uma nação que se chama franqueza e liberdade, pois essas duas palavras são sinônimos do
nome França.
Essa nação sempre foi, de algum modo, mais católica do que o papa e mais protestante do que Lutero.
A França das cruzadas, a França dos trovadores e das canções, a França de Rabelais e de Voltaire, a França de
Bossuet e de Pascal, ela é a síntese dos povos; ela consagra a aliança da razão e da fé, da revolução e do
poder, da crença mais terna e da dignidade humana mais altiva.
Por isso, vede como ela caminha, como se agita, como luta, como cresce!
Freqüentemente enganada e ferida, nunca batida, entusiasta com seus triunfos, audaciosa em seus reveses, ela
ri, canta, morre e ensina ao mundo a fé na sua imortalidade.
A velha guarda não se rende, mas também não morre. Confiai no entusiasmo de nossos filhos, que querem ser
um dia, eles também, soldados da velha guarda!
Napoleão não é mais um homem, é o próprio gênio da França, é o segundo salvador do mundo, e também deu
como símbolo a seus apóstolos a cruz!
Santa Helena e o Gólgota são os marcos da nova civilização, são os pilares de uma imensa arcada que o arcoíris
do último dilúvio forma e que lança uma ponte entre dois mundos.
E pensaríeis que a espora de um tártaro quebrará um dia o pacto de nossas glórias, o testamento de nossa
liberdade!
Dizei antes que voltaremos a ser crianças e retornaremos ao seio de nossas mães!
Caminha!, caminha!, diz a voz divina a Aasveros. Avança! avança! grita para a França o destino do mundo!...
E para onde vamos? Para o desconhecido, para o abismo talvez; não importa! Mas para o passado, para os
cemitérios do esquecimento, mas para os cueiros que nossa própria infância rasgou, mas para a imbecilidade e
a ignorância das primeiras idades... nunca! nunca!
XV - O Número Quinze
Quinze é o número do antagonismo e da catolicidade.
O cristianismo divide-se agora em duas Igrejas: a Igreja civilizadora e a Igreja bárbara, a Igreja progressista e
a Igreja estacionária.
Uma é ativa, a outra é passiva; uma sempre condenou as nações e os governos, uma vez que os reis a temem;
a outra submeteu-se a todos os despotismos e só pode ser um instrumento de servidão.
A Igreja ativa realiza Deus pelos homens e só ela crê na divindade do Verbo humano, intérprete do Verbo de
Deus.
O que é, afinal de contas, a infalibilidade do papa, senão a autocracia da inteligência confirmada pelo sufrágio
universal da fé?
A esse respeito, dir-se-á, o papa deveria ser o primeiro gênio de seu século. Por quê? É melhor, na realidade,
que ele seja um espírito comum. Sua supremacia não é mais divina, porque é, de algum modo, mais humana.
Os acontecimentos não falam mais alto do que os rancores e as ignorâncias irreligiosas? Não vedes a França
católica sustentar com uma mão o papado desfalecido e com a outra segurar a espada para combater na
liderança do exército do progresso?
Católicos, israelitas, turcos, protestantes já combateram sob a mesma bandeira; o crescente uniu-se à cruz
latina, e juntos lutamos contra a invasão dos bárbaros e contra sua embrutecida ortodoxia.
É para sempre um fato consumado. Ao admitir dogmas novos, a cátedra de São Pedro acaba de se pronunciar
solenemente progressiva.
A pátria do cristianismo católico é a da ciência e das belas-artes, e o Verbo eterno do Evangelho vivo e
encarnado numa autoridade visível é ainda a luz do mundo.
Silêncio pois aos fariseus da nova sinagoga! Silêncio às tradições odiosas da escola, ao presbiterianismo
arrogante, ao jansenismo absurdo e a todas estas vergonhosas e supersticiosas interpretações do dogma eterno,
tão justamente estigmatizadas pelo gênio impiedoso de Voltaire!
Voltaire e Napoleão morreram católicos. E será que sabeis o que deve ser o catolicismo do futuro?
Será o dogma evangélico posto à prova como ouro pela crítica dissolvente de Voltaire, e realizado no governo
do mundo pelo gênio de um Napoleão cristão!
Os que não quiserem caminhar, os acontecimentos os arrastarão ou passarão sobre eles!
Imensas calamidades podem ainda pesar sobre o mundo. Os exércitos do Apocalipse um dia talvez
desencadearão os quatro flagelos. O santuário será depurado. A santa e severa pobreza enviará seus apóstolos
para sustentar todo aquele que cambalear, reanimar aquele que estiver fatigado e espalhar o óleo santo em
todas as feridas!
O despotismo e a anarquia, esses dois monstros ávidos de sangue, dilacerar-se-ão e aniquilar-se-ão um ao
outro depois de serem mutuamente sustentados, por pouco tempo, pelo próprio entrelaçamento de sua luta.
E o governo do futuro será aquele cujo modelo é mostrado na natureza pela família, no ideal religioso pela
hierarquia dos pastores. Os eleitos devem reinar com Jesus Cristo durante mil anos, dizem as tradições
apostólicas: ou seja, durante uma seqüência de séculos, a inteligência e o amor dos homens de elite dedicados
aos encargos do poder administrarão os interesses e os bens da família universal.
Então, segundo a promessa do Evangelho só haverá um rebanho e um pastor.
XVI - O Número Dezesseis
Dezesseis é o número do templo.
Digamos o que será o templo do futuro.
Quando o espírito de inteligência e de amor tiver se revelado, toda trindade manifestar-se-á em sua verdade e
em sua glória.
A humanidade transformada em rainha e, como que ressuscitada, terá a graça da infância em sua poesia, o
vigor da juventude em sua razao e a sabedoria da idade madura em suas obras.
Todas as formas que o pensamento divino revestiu sucessivamente renascerão imortais e perfeitas.
Todos os traços que a arte sucessiva das nações tinha esboçado reunir-se-ão e formarão a imagem completa de
Deus.
Jerusalém reconstruirá o templo de Jeová de acordo com o modelo profetizado por Ezequiel; e o Cristo, novo
e eterno Salomão, nele cantará, debaixo de lambris de cedro e de ciprestes, suas núpcias com a santa
liberdade, a jovem esposa do cântico.
Mas Jeová terá largado seu raio para abençoar com as duas mãos o noivo e a noiva: aparecerá sorridente entre
os dois esposos e alegrar-se-á por ser chamado de pai.
Entretanto, a poesia do Oriente, em suas mágicas lembranças, ainda o chamará de Brama e Júpiter. A índia
ensinará a nossos climas encantados as fábulas maravilhosas de Vishnu, e experimentaremos na fronte ainda
ensangüentada de nosso Cristo bem-amado a tripla coroa de pérolas da mística trimurti. Vênus purificada sob
o véu de Maria não mais chorará seu Adônis.
O esposo ressuscitou para não mais morrer, e o javali infernal encontrou a morte em sua passageira vitória.
Reerguei-vos, templos de Delfos e Éfeso! O deus da luz e das artes tornou-se o Deus do mundo, e o verbo de
Deus concorda em ser chamado de Apolo! Diana não reinará mais como viúva nos campos solitários da noite;
seu crescente prateado está agora sob os pés da esposa.
Mas Diana não foi vencida por Vênus; seu Endimião acaba de despertar, e a virgindade vai orgulhar-se de ser
mãe!
Sai da tumba, ó Fídias, e alegra-te com a destruição de teu primeiro Júpiter: é agora que vais gerar um Deus!
Ó Roma! Que teus templos reergam-se ao lado de tuas basílicas; sê ainda a rainha do mundo e panteão das
nações; que Virgílio seja coroado no capitólio pelas mãos de São Pedro; e que o Olimpo e o Carmelo unam
suas divindades sob o pincel de Rafael!
Transfigurai-vos, antigas catedrais de nossos pais; arremessei até as nuvens vossas flechas cinzeladas e vivas,
e que a pedra conte por figuras animadas as sombrias lendas do Norte, alegradas pelos apólogos dourados e
maravilhosos do Alcorão!
Que o Oriente adore Jesus Cristo em suas mesquitas, e que nos minaretes de uma nova Santa Sofia a cruz se
eleve em meio ao crescente!
Que Maomé liberte a mulher para dar ao verdadeiro crente as huris com que tanto sonhou, e que os mártires
do Salvador ensinem castas carícias aos belos anjos de Maomé.
Toda a terra revestida com os ricos ornamentos que todas as artes lhe bordaram será então um templo
magnífico, cujo padre eterno será o homem!
Tudo o que foi verdadeiro, tudo o que foi belo, tudo o que foi doce nos séculos passados reviverá
gloriosamente nessa transfiguração do mundo.
E a forma bela continuará inseparável da idéia verdadeira, como o corpo será um dia inseparável da alma,
quando a alma, tendo alcançado todo o seu poder, terá feito para si um corpo à sua imagem.
Esse será o reino do céu sobre a terra, e os corpos serão os templos da alma, da mesma forma que o universo
regenerado será o templo de Deus.
E os corpos e as almas, e a forma e o pensamento, e o universo inteiro serão a luz, o Verbo e a revelação
permanente e visível de Deus. Amém! Assim seja!
XVII - O Número Dezessete
Dezessete é o número da estrela; é o da inteligência e do amor.
Inteligência guerreira, audaciosa, cúmplice do divino Prometeu, primogênita de Lúcifer, louvor a ti em tua
audácia! Quiseste saber para ter, desafiaste todos os trovões e afrontaste todos os abismos!
Inteligência, tu a quem os pobres pecadores amaram até o delírio, até o escândalo, até a reprovação! Direito
divino do homem, essência e alma da liberdade, louvor a ti! Pois perseguiram-te pisoteando, por ti, todos os
sonhos mais caros de sua imaginação, os fantasmas mais amados de seu coração!
Por ti foram repelidos e proscritos; por ti suportaram a prisão, o desenlace, a fome, a sede, o abandono
daqueles que amavam e as sombrias tentações do desespero! Eras o direito deles, e eles conquistaram-te!
Agora eles podem chorar e crer, podem submeter-se e rezar!
Caim arrependido teria sido maior do que Abel: é o legítimo orgulho satisfeito que tem o direito de se fazer
humilde!
Creio porque sei por que e como é preciso crer; creio porque amo e porque não temo mais nada. Amor! amor!
redentor e reparador sublime; tu que fazes tanta felicidade de tantas torturas, tu, o sacrificador do sangue e das
lágrimas, tu que és a própria virtude e o salário da virtude; força da resignação, liberdade da obediência,
alegria das dores, vida da morte, louvor, louvor e glória a ti! Se a inteligência é uma lâmpada, és a sua chama;
se é o direito, és o dever; se é a nobreza, és a felicidade! Amor pleno de orgulho e pudor nos mistérios, amor
divino, amor oculto, amor insano e sublime, Titã que toma o céu com duas mãos e que o força a descer,
último e inefável segredo da viuvez cristã, amor eterno, amor infinito e ideal que seria suficiente para criar
mundos, amor! amor! bênção e glória a ti! Glória às inteligências que se encobrem para não ofender os olhos
doentes! Glória ao direito que se transforma inteiramente em dever e que se torna a devoção! às almas viúvas
que amam e consumam-se sem serem amadas! aos que sofrem e não fazem nada sofrer, aos que perdoam os
ingratos, aos que amam seus inimigos! Oh! felizes sempre, felizes mais do que nunca os que se empobrecem e
que se esgotam para se dar! Felizes as almas que fazem sempre tua paz! Felizes os corações puros e simples
que não se acham melhor do que ninguém! Humanidade minha mãe, humanidade filha e mãe de Deus,
humanidade concebida sem pecado, Igreja universal, Maria! Feliz de quem tudo ousou para te conhecer e te
entender, e de quem está pronto a tudo sofrer para te servir e te amar!
XVIII - O Número Dezoito
Esse número é o do dogma religioso, que é toda poesia e todo mistério.
O Evangelho diz que, quando da morte do Salvador, o véu do templo rasgou-se, porque essa morte
manifestou o triunfo da devoção, o milagre da caridade, o poder de Deus no homem, a humanidade divina e a
divindade humana, o último e o mais sublime dos arcanos, a última palavra de todas as iniciações.
Mas o Salvador sabia que não seria compreendido a princípio, e disse: Não suportaríeis agora toda a luz de
minha doutrina; mas, quando se manifestar o espírito de verdade, ele vos ensinará toda verdade e sugerirá o
sentido do que eu vos disse.
Ora, o espírito de verdade é o espírito de ciência e de inteligência, o espírito de força e de conselho.
Foi esse espírito que se manifestou solenemente na Igreja romana, quando ela declarou nos quatro artigos do
decreto de 12 de dezembro de 1845:
1º Que, se a fé for superior à razão, a razão deve apoiar as inspirações da fé;
2º Que a fé e a ciência tem cada uma seu domínio separado, e que uma não deve usurpar as funções da outra;
3º Que é próprio da fé e da graça não enfraquecer, mas, ao contrário, afirmar e desenvolver a razão;
4º Que o concurso da razão, que examina não as decisões da fé mas as bases naturais e racionais da autoridade
que decide, longe de prejudicar a fé, não poderia senão ser-lhe útil; em outras palavras, que a fé,
perfeitamente racional em seus princípios, não deve temer, mas deve, ao contrário, desejar o exame sincero da
razão.
Semelhante decreto é toda uma revolução religiosa acabada, e a inauguração do Espírito Santo na terra.
XIX - O Número Dezenove
É o número da luz.
É a existência de Deus provada pela própria idéia de Deus.
Ou é preciso dizer que o Ser imenso é um túmulo universal, ou que se move automaticamente, uma forma
sempre morta e cadavérica, ou é preciso admitir o princípio absoluto da inteligência e da vida.
A luz universal está morta ou viva? Fatalmente dedicada à obra da destruição ou providencialmente dirigida
para a criação universal?
Se Deus não existe, a inteligência é apenas uma decepção pois ela carece de absoluto e seu ideal é uma
mentira.
Sem Deus, o ser é um nada que se afirma, e a vida, uma morte que se disfarça.
A luz é uma noite sempre enganada pela miragem dos sonhos.
O primeiro e o mais essencial ato de fé é pois este.
O Ser é, e o ser do ser, a verdade do ser é Deus.
O Ser é vivo com inteligência, e a inteligência viva do Ser absoluto é Deus.
A luz é real e vivificante; ora, a realidade e a vida de toda luz é Deus.
O Verbo da razão universal é uma afirmação e não uma negação.
Cegos os que não vêem que a luz física é apenas o instrumento do pensamento!
Somente o pensamento vê a luz e a produz empregando-a em benefício próprio.
A afirmação do ateísmo é o dogma da noite eterna; a afirmação de Deus é o dogma da luz!
Vamos parar aqui, no décimo nono número, embora o alfabeto sagrado tenha vinte e duas letras; as dezenove
primeiras são as chaves da teologia oculta. As outras são as chaves da natureza; voltaremos a elas na terceira
parte desta obra.
Resumamos o que dissemos de Deus citando uma bela evocação emprestada da liturgia israelita. É uma
página do Kether-Malkuth, poema cabalístico do rabino Salomão, filho de Gabirol.
"Sois um, o começo de todos os números, o fundamento de todos os edifícios; sois um e, no segredo de vossa
unidade, os homens mais sábios perdem-se porque não a conhecem. Sois um, e vossa unidade nunca diminui,
nem aumenta, nem sofre nenhuma alteração. Sois um, mas não como o um em matéria de cálculo, pois vossa
unidade não admite nem multiplicação, nem mudança, nem fórmula. Sois um, para quem nenhuma de minhas
fantasias pode fixar definição: eis por que vigiarei minha conduta, evitando cometer faltas com a língua. Sois
um enfim, cuja excelência é tão elevada que não pode cair de maneira alguma, e não como em um que pode
deixar de ser.
"Sois existente; entretanto, o entendimento e a vista dos mortais não podem atingir vossa existência nem
colocar em vós o onde, o como e o porquê. Sois existente, mas em vós mesmo, uma vez que outro não pode
existir convosco. Sois existente desde antes do tempo e em lugar algum. Sois enfim existente e vossa
existência é tão oculta e tão profunda que ninguém pode descobri-Ia ou penetrar seu segredo.
"Sois vivo, mas não desde um tempo conhecido e fixo; sois vivo, mas não por um espírito e uma alma; pois
sois a alma de todas as almas. Sois vivo, mas não como as vidas dos mortais, que são comparadas a um sopro,
e cujo fim será o alimento dos vermes. Sois vivo, e aquele que puder atingir vossos mistérios desfrutará as
delícias eternas e viverá para sempre.
"Sois grande, e perto de vossa grandeza todas estas grandezas se curvam, e tudo o que há de mais excelente
torna-se defeituoso. Sois grande, acima de qualquer imaginação, e elevai-vos acima de todas as hierarquias
celestes. Sois grande, acima de toda grandeza, e sois exaltado acima de qualquer louvor. Sois forte, e
nenhuma de vossas criaturas fará as obras que fazeis e nem sua força poderá ser comparada à vossa. Sois
forte, e é a vós que pertence essa força invencível que não muda nem se altera nunca. Sois forte, e por vossa
magnanimidade perdoais no momento de vossa mais ardente cólera, e mostrai-vos paciente para com os
pecadores. Sois forte, e vossas misericórdias que sempre existiram estendem-se para todas as vossas criaturas.
Sois a luz eterna que as almas puras verão e que a nuvem dos pecados ocultará aos olhos dos pecadores. Sois
a luz que é oculta neste mundo e visível no outro, onde a glória do Senhor se mostra. Sois soberano, e os
olhos do entendimento que desejam vervos estão inteiramente espantados por só poderem atingir de vós uma
parte e nunca o todo. Sois o Deus dos deuses, testemunham-no todas vossas criaturas; e em honra desse
grande nome todas devem render-vos culto. Sois Deus, e todas as criaturas são vossas servidoras e vossas
adoradoras; vossa glória não é embaçada mesmo que outros sejam adorados, porque a intenção deles é a de se
dirigir a vós; são como cegos, cujo objetivo é seguir o grande caminho, e perdem-se. Um afoga-se num poço e
o outro cai numa fossa; todos, em geral, acreditam ter alcançado seus desejos e, no entanto, cansaram-se em
vão. Mas vossos servidores são como clarividentes que andam num caminho seguro, e que dele nunca se
afastam, nem à direita, nem à esquerda, até que entrem no adro do palácio do rei. Sois Deus que sustentais por
vossa deidade todos os seres e que socorreis por vossa unidade todas as criaturas. Sois Deus, e não há
diferença entre vossa deidade, vossa unidade, vossa eternidade e vossa existência; pois tudo é um mesmo
mistério; e, embora os nomes variem, tudo retorna ao mesmo. Sois sábio, e essa ciência, que é a fonte da vida,
emana de vós mesmo; e em comparação com vossa ciência os homens mais sábios são estúpidos. Sois sábio e
o antigo dos antigos, e a ciência sempre alimentou-se convosco. Sois sábio, e não aprendesses a ciência com
ninguém, e tampouco a adquirisses de outro senão de vós. Sois sábio e, como um operário e um arquiteto,
reservasses de vossa ciência uma divina vontade, num tempo marcado para atrair o ser do nada; do mesmo
modo que a luz que sai dos olhos é atraída de seu próprio centro sem nenhum instrumento ou ferramenta. Essa
divina vontade cavou, traçou, purificou e fundiu; ordenou ao nada abrir-se, ao ser aprofundar-se e ao mundo
estender-se. Mediu os céus com o palmo, com seu poder reuniu o pavilhão das esferas, com o laço de seu
poder cerrou as cortinas das criaturas do universo e, tocando com sua força a ponta da cortina da criação, uniu
a parte superior à inferior."
Extraído das orações do Kippur
Demos a essas ousadas especulações cabalísticas a única forma que lhes convém, a da poesia ou da inspiração
do coração.
As almas crentes não precisam das hipóteses racionais contidas nessa explicação nova das figuras da Bíblia,
mas os corações sinceros e afligidos pela dúvida, e que a crítica do século dezoito atormenta, compreenderão
ao lê-la que a própria razão sem a fé pode encontrar no livro sagrado outra coisa além de escolhos; se os véus
com que os textos divinos são cobertos projetam uma grande sombra, essa sombra é tão maravilhosamente
desenhada pelas oposições da luz que se torna a única imagem inteligível de um ideal divino.
Ideal incompreensível como o infinito e indispensável como a própria essência do mistério.
ARTIGO II
Solução do segundo problema
A Verdadeiro Religião
A religião existe na humanidade como no amor.
É única como ele.
Como ele, existe ou não existe nesta ou naquela alma; mas, seja aceita ou negada, está na humanidade, está,
portanto, na vida, está na natureza, é incontestável diante da ciência e mesmo diante da razão.
A verdadeira religião é a que sempre existiu, que existe e que sempre existirá.
Podem-nos dizer que a religião é isto ou aquilo; a religião é o que é. A religião é ela, e as falsas religiões são
superstições dela copiadas, dela emprestadas, sombras mentirosas dela própria.
Pode-se dizer da religião o que se diz da arte verdadeira. As tentativas bárbaras de pintura ou escultura são
tentativas da ignorância para se chegar à verdade. A arte prova-se por si, brilha com seu próprio esplendor, é
única e eterna como a beleza.
A verdadeira religião é bela, e é por esse caráter divino que se impõe aos respeitos da ciência e ao
assentimento da razão.
A ciência não poderia, sem temeridade, afirmar ou negar as hipóteses do dogma que são verdades para a fé;
mas pode reconhecer, em certos aspectos, a única religião verdadeira, ou seja, a única que merece o nome de
religião, reunindo todos os aspectos que convêm a essa grande e universal aspiração da alma humana.
Uma só coisa evidentemente divina manifestou-se para todos no mundo.
É a caridade.
A obra da verdadeira religião deve ser a de produzir, conservar e difundir o espírito de caridade. Para alcançar
esse objetivo, é preciso que ela própria tenha todas as características da caridade, de modo que se possa bem
defini-la, nomeando-a de caridade organizada.
Ora, quais são as características da caridade?
É São Paulo quem vai nos ensinar.
A caridade é paciente.
Paciente como Deus, porque ela é eterna como ele. Sofre as perseguições e nunca persegue ninguém.
É benevolente e indulgente, chamando para si os pequenos e não rechaçando os grandes.
Não é invejosa. A quem e a que invejaria, não tem a melhor parte que nunca lhe será tirada?
Não é nem inquieta e nem intrigante.
Não tem orgulho, ambição, egoísmo, ira.
Nunca supõe o mal e nunca triunfa pela injustiça, pois põe toda sua alegria na verdade.
Suporta tudo sem jamais tolerar o mal.
Crê em tudo, sua fé é simples, submissa, hierárquica e universal.
Sustenta tudo, e nunca impõe fardos que não carregasse antes.
A religião é paciente, é a religião dos grandes trabalhadores do pensamento: é a religião dos mártires.
É benevolente como o Cristo e os apóstolos, como os Vicentes de Paulo e os Fenelons.
Não deseja nem as dignidades nem os bens da terra. É a religião dos pais do deserto, de São Francisco de
Assis e de São Bruno, das irmãs de caridade e dos irmão de São João de Deus.
Não é nem inquieta nem intrigante, ela reza, faz o bem e espera. É humilde, é doce, só inspira a devoção e o
sacrifício. Tem, enfim, todas as características da caridade, porque é a própria caridade.
Os homens, ao contrário, são impacientes, perseguidores, invejosos, cruéis, ambiciosos, injustos e mostram-se
como tais em nome dessa religião que puderam caluniar, mas que nunca obrigarão a mentir. Os homens
passam, e a verdade é eterna.
Filha da caridade e criando por sua vez a caridade, a verdadeira religião é essencialmente realizadora; acredita
nos milagres da fé, porque os cumpre todos os dias quando faz a caridade. Uma religião que faz a caridade
pode vangloriar-se de realizar todos os sonhos do amor divino. Assim, a fé da Igreja hierárquica transforma o
mistério em realismo pela eficácia de seus sacramentos. Não mais signos, não mais figuras que não tenham
sua força na graça e que não dêem realmente o que prometem. A fé anima tudo, torna tudo de algum modo
visível e palpável; as próprias parábolas de Jesus Cristo tomam um corpo e uma alma. Mostra-se em
Jerusalém a casa do mau rico. Os simbolismos esparsos das religiões primitivas, abandonados pela ciência e
privados da vida da fé, assemelhavam-se a essas ossadas embranquecidas que cobriam o campo de Ezequiel.
O espírito do Salvador, o espírito de fé, o espírito de caridade sopraram esse pó, e tudo o que estava morto
recuperou uma vida tão real que não se reconhece mais nesses vivos de hoje os cadáveres de ontem.
Grande Pantáculo tirado da visão de São João
E por que seriam reconhecidos, uma vez que o mundo renovou-se, uma vez que São Paulo queimou no Éfeso
os livros dos hierofantes. São Paulo era pois um bárbaro, e não estava cometendo um atentado contra a
ciência? Não, mas ele queimava os sudários dos ressuscitados para fazê-los esquecer a morte. Por que então
lembramos hoje as origens cabalísticas do dogma? Por que então lembramos hoje as origens cabalísticas do
dogma? Por que relacionamos as figuras da Bíblia com as alegorias de Hermes? Será para condenar São
Paulo, para trazer a dúvida aos crentes? Certamente não, pois os crentes não necessitam de nosso livro, não o
lerão, não o quererão compreender. Mas queremos mostrar à multidão inumerável dos que duvidam que a fé
relaciona-se à razão de todos os séculos, à ciência de todos os sábios. Queremos forçar a liberdade humana e
respeitar a autoridade divina, a razão a reconhecer as bases da fé, para que a fé e a autoridade, por sua vez,
nunca mais proscrevam nem a liberdade nem a razão.


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