O indígena não tinha provisão de água nas ocas. Quando tinha sede,
bebia fora, direto da fonte. O português foi quem deu a sugestão de
ter água em casa.
As carnes consumidas pelos nativos, algumas incompatíveis com o
nosso paladar, eram as mais variadas: macacos, antas, peixes, pacas,
cotias, gaviões, lagartos, porcos e até mesmo cobra cascavel. Padre
Anchieta descreve textualmente esses hábitos: “quase todos
os índios tomam ao fogo e comem dessas cobras e de outras, depois
de lhe tirarem a cabeça; assim como não poupam os sapos,
lagartos, ratos e outros animais desse gênero”.
Dentre os diversos peixes que comiam, podem ser citados a pescada,
o mandubi, o mapará, o acará, o surubim, o tucunaré, as raias, o
pirarucu, o peixe-boi, o pacu etc. Os crustáceos e moluscos também
eram apreciados pelos aborígenes.
O apetite singular dos tupis também pode ser observado através da
prática da antropofagia. A carne humana era um prato festivo, que
ele apreciavam após os combates. Mas está comprovado que a
antropofagia era um ritual, uma prática de exceção. Nossos índios
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só comiam carne humana do prisioneiro de guerra de comprovado
heroísmo, mediante determinadas cerimônias, julgando, desse
modo, assimilar as qualidades heróicas do inimigo.
O índio não praticava a agricultura e sua sustentação se baseava no
que a terra tinha para oferecer. Não havia escassez porque, sempre
que havia ameaça de fome, a tribo emigrava em busca de terras
mais férteis, mais abundantes e de regiões que apresentassem
numerosas caças. Essa mobilidade garantia o equilíbrio alimentar
para o grupo e pode explicar a força e a resistência físicas dessa
população.
Exemplos da contribuição indígena
A contribuição dos costumes indígenas na alimentação atual é, sem
dúvida, imensa.Citamos alguns exemplos:
n O uso da polpa do buriti no preparo de refrescos e outros alimentos.
n O uso da mandioca na produção dos mais variados alimentos:
tapioca, farinhas, cauim (vinho indígena).
n Refresco de guaraná. Os aborígenes costumavam tomar essa
bebida para ter disposição para caçar. Acreditavam também que
o guaraná curava febres, dores de cabeça e cãibras. O seu efeito
diurético já era conhecido.
n A paçoca, alimento preparado com carne assada e farinha de
mandioca esmagados numa espécie de pilão. Tornou-se o farnel
dos bandeirantes por ser próprio para as viagens pelo sertão.
n O hábito de comer camarão, lagosta e caranguejo com molho
seco de pimenta. Tal costume foi herdado tanto dos índios quanto
dos africanos.
n A moqueca. Para os índios referia-se unicamente ao modo de
preparo dos peixes, feitos então no moquém (utensílio para cozinhar
peixe). Hoje em dia, tem grande variedade de ingredientes,
seja no tipo de molho, tempero ou carne utilizada.
n O caruru, um prato à base de vegetais como o quiabo, mostarda
ou taioba, que acompanha os mais diferentes tipos de carne,
como peixe, cozidos, charque, galinha, siri etc.
n Mingau, pirão, beiju, pimenta (amarela e vermelha), chimarrão.
A cozinha brasileira sofreu uma série de influências, mas a culinária
indígena não se dissolveu na aculturação, como a culinária negra,
hoje dificilmente legítima. A comida indígena permaneceu relativamente
fiel aos modelos quinhentistas e aos padrões da própria elaboração
das farinhas, assados de carne e peixe, bebidas de frutas.
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A contribuição dos portugueses
Não se sabe quando exatamente surgiu a verdadeira comida brasileira.
Muitas vezes não se tem certeza nem mesmo se certas plantas
são brasileiras ou não. Dá para imaginar um Brasil sem mangueira,
sem jaqueira, sem fruta-do-conde? Pois o Brasil era assim antes dos
portugueses. Eles é que trouxeram esses produtos para plantar.
Quem primeiro comeu comida brasileira foram os tripulantes da frota
de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil. Eles relataram a
existência de produtos como palmito, inhame e camarão.
Com relação ao palmito, Pero Vaz de Caminha, o escrivão da frota
de Cabral, em geral tão minucioso, não conta na sua carta como a
palmeira foi derrubada para extrair o coração vegetal. Ele diz apenas:
“Há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos.
Colhemos e comemos muitos deles.” Essa descrição tão simplificada
fez com que alguns estudiosos pensassem que se tratavam de bananas
e não de palmitos. A dúvida ainda continua...
O inhame também não era inhame, que veio depois, das ilhas de
Cabo Verde e da Ásia. Tratava-se do aipim.
Caminha fala em outras sementes, raízes e frutas, que não enumera,
e louva o estado de saúde dos índios, que não gostaram nem um
pouco das iguarias portuguesas. Ao provarem o vinho, mal lhe puseram
a boca; pão e peixe cozidos, confeitos, mel e figos secos mal
experimentaram. Com o tempo, foram agindo de modo diferente:
comeram, entre outras coisas, presunto cozido e arroz e beberam
vinho.
Índio, como cita Caminha em sua carta, desconfiou de galinha: “quase
tinham medo dela, e não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram
como espantados”. O primeiro tabu dos índios foi, ao que
parece, a galinha. Um dos primeiros navegadores estrangeiros conta
que, antes de 1550, havia muitos desses animais, mas os nativos
não os consumiam.
A partir do momento em que chegaram ao Brasil, os colonos europeus
se viram “obrigados” a se ajustar ao tipo de economia alimentar.
Organizavam as suas roças à maneira dos índios e promoviam,
com a ajuda destes, a caça e a pesca. As peixadas tornaram-se indispensáveis
para os banquetes e festanças. Mas essa adaptação
aos costumes alimentares da colônia não impediu que os portugueses
procurassem introduzir produtos do além-mar, como gado, cereais,
trigo, aves, couves, alfaces, pepinos, abóboras, lentilhas etc.
Alho, cebola, cominho, coentro e gengibre são heranças das primeiras
hortas lusitanas em terras tupiniquins.
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Os portugueses estavam habituados a tomar vinho e encontraram
um sucedâneo nas bebidas indígenas: milho cozido em água com
mel.
Nos primeiros tempos, houve, de fato, fartura. Mas essa fartura durou
pouco por dois motivos: o aumento da população e o advento da
monocultura da cana de açúcar. A cultura desse produto estimulou
a produção de doces e de cachaça e essa bebida passou a fazer
estragos sobretudo entre as populações ameríndias, prejudicando a
saúde dos antigos habitantes de nossa terra.
A produção de gêneros alimentícios passou a ser pequena demais,
acentuando a divisão da sociedade em classe dominante e dominada.
É nessa época que começa a haver deficiência de vitaminas,
principalmente da vitamina A, no Brasil. A situação se agrava ainda
mais quando os bandeirantes descobrem as minas de ouro, provocando
êxodo da população costeira para a região das minas. Todos
queriam garimpar. Ninguém plantava. No meio de tanto ouro, morria-
se de fome. Quem tinha alimentos para vender enriquecia facilmente.
É, talvez, o começo da história da fome e da exploração no
país...
O costume de comer carne de gado começou com a vinda dos rebanhos
para o continente americano no século XVI. Assim, sarapatel,
panelada, buchada, entre outros, não foram técnicas africanas, mas
processos europeus. O sarapatel ou sarrabulho, alimento preparado
com sangue e vísceras de porco e carneiro, o português aprendeu
na Índia. A panelada e a buchada, preparadas com vísceras assadas
em grelha ou chapa do fogão, têm origem castelhana e entraram no
país por influência da vizinhança e contato espanhol. Os indígenas
nem conheciam o consumo de carne bovina e os africanos nunca
tiveram tal costume. Em períodos de escassez, o negro africano
vendia boi para adquirir comida no comércio.
O português também trouxe as festas tradicionais – Páscoa, São
João, Natal –, com seus cantos, danças e comidas típicas. Trouxe o
pão, feito com quase todos os cereais: cevada, centeio, aveia e principalmente
trigo. Vieram ainda com os portugueses, trazidas de
outras colônias, especialmente as africanas, novas frutas: uva, figo,
maçã, marmelo, pêssego, romã, cidra, tâmaras, melão, melancia.
Foi o português que plantou o coqueiro, semeou o arroz, trouxe o
pepino, a mostarda e diversos condimentos e ervas. O prato mais
gloriosamente nacional do país, a feijoada completa, é um modelo
aculturado do cozido português com feijão e carne seca.
Além de todas essas contribuições à nossa culinária, os portugueses
introduziram hábitos que marcaram definitivamente nosso paladar:
valorizaram o uso do sal e revelaram o açúcar aos africanos e
índios do Brasil. A partir daí, nossa cozinha adotou os doces de ovos
e das mais diversas frutas. Surgiram a goiabada, a marmelada, a
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cajuada e todas as outras “adas” que constituem o arsenal
energético de nossas sobremesas.
A impressão popular instintiva reconhece o poder corrosivo do sal.
Foi preciso algum tempo para que as pessoas passassem a tolerar
o presunto, o chouriço e as salsichas com sal e pimenta. Os sertanejos
já acusavam o sal de fazer mal aos rins. O açúcar, entretanto,
conquistou a todos imediatamente. Comia-se até farinha de mandioca
com açúcar e recomendava-se comer de boca fechada porque,
do contrário, iria mais farinha para o rosto dos vizinhos do que para
o próprio estômago. Com a indústria do açúcar, surgiu a fabricação
do álcool, ou melhor, da cachaça, conquistando indígenas e africanos.
Os nativos e os africanos não usavam óleos vegetais e muito menos
gorduras animais para preparar os alimentos. Não conheciam a
fritura. Outra revelação portuguesa.
Existem registros sobre a alimentação dos portugueses durante o
período colonial, especialmente da Corte vinda para o Brasil. São
referências às adaptações à nova terra, povos e costumes. A seguir,
comentamos algumas delas:
n A canção popular dizia que D. João VI fazia o que lhe mandavam
e comia o que lhe davam, mas seus pratos prediletos eram frangos,
galinhas, capões e o arroz com chouriço.
n O prato principal do almoço de D. Pedro I (filho de D. João VI) e
de sua esposa, a Princesa Maria da Glória, era o toucinho, geralmente
servido com arroz, couve, batatas, inglesa ou doce, pepinos
cozidos e um pedaço de carne assada. Tudo isso era fervido
numa espécie de sopa, adicionando-se alho, pimenta e verduras.
Depois comiam massas, acompanhadas de carnes.
n O prato predileto de D. Pedro II, filho de D. Pedro I, era a canja,
embora comesse depressa apenas para satisfazer a fome.
n Campos Sales, presidente do Brasil de 1898 a 1902, tinha paixão
por maracujás, enquanto Rui Barbosa preferia moela e fígado.
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A contribuição dos africanos
Antes dos escravos africanos chegarem ao Brasil, eles já haviam
recebido uma espécie de “curso prévio de alimentação local” . Tinham
comido o milho americano, farinha de mandioca, aipim e diferentes
tipos de feijões, além de tomarem cachaça, em vez do
vinho da palmeira dendê.
Os portugueses distribuíram diversas espécies de alimentos com
surpreendente eficiência. De suas mais distantes colônias orientais
e africanas trouxeram para o Brasil sementes, raízes, “mudas” e
bulbos. A disseminação da mandioca, do milho, da batata e do amendoim
brasileiros tiveram uma intensidade, rapidez e precisão incomparáveis.
O café, o açúcar, o cacau e o fumo também se expandiram,
ainda que mais lentamente.
Os negros faziam farinha, já conhecida pelos tupis brasileiros. Comiam
o milho sempre cozido, em forma de papa, angu ou fervido
com leite de vaca, em preparo semelhante ao atual mungunzá.
A banana foi herança africana no século XVI e tornou-se inseparável
das plantações brasileiras, cercando as casas dos povoados e as
ocas das malocas indígenas, e decorando a paisagem com o lento
agitar de suas folhas. Nenhuma fruta teve popularidade tão fulminante
e decisiva, juntamente com o amendoim. A banana foi a maior
contribuição africana para a alimentação do Brasil, em quantidade,
distribuição e consumo.
Da África vieram ainda a manga, a jaca, o arroz, a cana de açúcar.
Em troca, os africanos levaram mandioca, caju, abacaxis, mamão,
abacate, batatas, cajá, goiaba e araçá. O coqueiro e o leite de coco,
aparentemente tão brasileiros, também vieram do continente africano,
bem como o azeite de dendê.
A palmeira do dendê foi cultivada ao redor da cidade de Salvador, o
maior centro demográfico da época, onde a presença africana tornou-
se marcante. O uso do dendê era transmitido pelos escravos e
as negras que serviam nas residências dos brancos. Eles impunham
o azeite-de-dendê como a cozinheira portuguesa impunha o uso do
azeite de oliva. Quando o Rio de Janeiro se tornou capital do Brasil
(1763) e a população aumentou, exigindo maior número de escravos
para os serviços domésticos e plantio de açúcar, algodão e café
nas regiões vizinhas, o azeite-de-dendê acompanhou o negro, seja
nas frituras de peixe, ensopados, escabeches ou nos refogados.
As extensas plantações de açúcar, o ciclo do ouro e dos diamantes
e o surto cafeeiro fizeram com que grande parte da população negra
se deslocasse em direção a Pernambuco, Minas Gerais e São Paulo,
respectivamente. Mas nessas regiões, a culinária africana não
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conseguiu se impor com a mesma força. Em parte alguma a cozinha
africana conservou a cor e o sabor que se mantiveram na Bahia.
A intensificação do tráfico de escravos, da segunda metade do século
XVIII à primeira metade do século seguinte, facilitou a ida e a
vinda de várias espécies de plantas alimentares entre Brasil e África.
A população negra que vivia no Brasil plantou inúmeros vegetais
que logo se tornaram populares, tais como: quiabo, caruru,
inhame, erva-doce, gengibre, açafrão, gergelim, amendoim africano
e melancia, entre outros.
Os negros trouxeram para o país a pimenta africana, cujo nome localizava
a origem, Malagueta. A malagueta apenas aumentou o prestígio
das pimentas brasileiras, que também dominaram o continente
africano. Quanto às carnes, o único animal africano que continua
colaborando no cardápio brasileiro é a galinha-d’angola.
O cardápio do escravo de uma propriedade abastada consistia em
farinha de mandioca, feijão preto, toucinho, carne-seca, laranjas,
bananas e canjica. Para o negro de propriedades mais humildes, a
alimentação se resumia a um pouco de farinha, laranjas e bananas.
Angu de milho também fazia parte da dieta do escravo em Minas
Gerais, Goiás e Mato Grosso, além da caça e pesca ocasionais. Nas
fazendas do Norte, eram consumidos alguns tipos de peixe e faziase
uma espécie de “bucha” com a carne de carneiro, como a atual
buchada de bode. Às vezes os escravos comiam pirão, prato mais
bem aceito, provavelmente por ser mais fácil de engolir, pois não
havia tempo para comer.
O negro criou um jeito de fazer render a pouca comida que recebia:
inventou o pirão escaldado chamado massapê, feito com farinha de
mandioca e água fervente, acrescido de pimenta malagueta. O
massapê ainda é usado em nosso meio rural.
O escravo dos engenhos de açúcar se alimentava de mel com farinha.
Bebia caldo de cana, cachaça, mel com água, sucos e café.
Exemplos de pratos brasileiros de origem africana
Citamos, a seguir, alguns pratos brasileiros de origem africana com
os respectivos ingredientes (há variações regionais):
n Abará ou abalá: bolo de feijão fradinho cozido com sal, pimenta,
azeite de dendê e camarão seco. É enrolado em folhas de bananeira
e cozido no vapor.
n Aberém: massa de milho cozida em banho-maria, sem levar tempero.
Acompanha vatapá, caruru.
n Acarajé: massa de feijão fradinho, com condimentos. Forma uma
espécie de bolinho e é frito no azeite de dendê. Serve-se com
camarão, pimenta etc.
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n Bobó: massa que pode ser de feijão mulatinho, inhame, aipim
etc. É cozida e temperada com azeite de dendê, camarão e condimentos.
Come-se puro ou com carne ou pescado.
n Cuscuz: massa de milho pilada, cozida e umedecida com leite
de coco (o original africano era feito com arroz e com outros
condimentos ao invés do leite de coco).
n Cuxá: diz-se no Maranhão do arroz cozido, temperado com folhas
de vinagreira, quiabo, gergelim torrado e farinha de mandioca.
n Mungunzá: milho cozido com leite de vaca ou de coco.
n Quibebe: sopa de abóbora com leite de vaca ou coco. Há variações
com carne seca, toucinho, quiabo, maxixe etc.
n Vatapá: um tipo de caldo grosso feito de pão dormido, farinha de
trigo e camarões, servido com peixe, bacalhau ou galinha, acrescido
de pimenta, azeite de dendê, leite de coco e condimentos.
Na cidade de Salvador houve uma concentração negra mais homogênea,
o que possibilitou a defesa das velhas comidas africanas, ao
contrário das demais regiões. Foi ao redor das crenças, em especial
do candomblé, que a cozinha africana manteve os elementos primários
de sua sobrevivência.
As influências atuais
Nas últimas três décadas, ocorreram importantes mudanças nos
hábitos alimentares dos brasileiros: redução no consumo do arroz,
feijão e farinha de trigo; maior consumo de carnes em geral, ovos,
laticínios e açúcar; substituição da gordura animal por óleos vegetais,
manteiga por margarina e aumento nos gastos com alimentos
industrializados.
O ritmo agitado imposto pelo mercado de trabalho deixa cada vez
menos tempo livre para alimentação e lazer. Os intervalos precisam
ser bem aproveitados e o horário das refeições, em especial o do
almoço, acaba servindo para várias atividades. Começam a surgir
alternativas nas indústrias de alimentos e dos serviços de alimentação:
alimentos congelados e pré-cozidos, drive-thru, fast-food,
delivery, e self-service traduzem a importação do novo estilo do padrão
alimentar brasileiro.
Os profissionais de saúde e educação devem se questionar e avaliar
se há perdas importantes dos nossos hábitos alimentares culturais
devido à “globalização” da forma de nos alimentarmos, ou se
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existem aspectos da evolução tecnológica na área alimentícia que
merecem ser incorporados à nossa cultura.
A orientação e educação alimentar, através dos modernos meios de
comunicação, aliadas à preservação dos bons hábitos alimentares e
de salários compatíveis com o direito de alimentar, são fundamentais
para se vencer a luta contra a má nutrição do brasileiro.
A alimentação nas diferentes
regiões do Brasil
Fatores ambientais
Os fatores de ordem geográfica e sociológica precisam ser considerados
quando estudamos os hábitos alimentares brasileiros. Quanto
ao aspecto geográfico, devemos destacar que o Brasil fica entre
a linha do Equador e a zona temperada pouco abaixo do Trópico de
Capricórnio, o que facilita o cultivo de alimentos variados (de climas
temperado e tropical). O fato de nosso país ter 8 mil km de costa
atlântica favorece uma atividade pesqueira bastante diversificada.
Com relação ao aspecto sociológico, convém lembrar a rápida miscigenação
entre índios, portugueses e negros africanos e entre os
imigrantes que vieram para o Brasil a partir do século XIX, atraídos
pela abertura do movimento imigratório. Famílias italianas, alemãs,
portuguesas, espanholas, polonesas, japonesas e árabes introduziram
seus hábitos alimentares nas regiões onde se estabeleceram.
A colonização
A participação espanhola e a portuguesa até certo ponto se confundem,
por serem muito semelhantes. Ambos os povos tiveram influência
árabe e, com ela, a devoção pelo azeite de oliva, cebola, alho,
frutas cítricas, arroz e papas de cereais.
Como a contribuição dos imigrantes, especialmente a presença de
alemães e italianos, influenciou a culinária brasileira?
Os alemães vieram em quantidades apreciáveis para o Brasil, fundando
colônias. Começaram chegando a São Leopoldo (RS) em 1824
e ficaram pelo Sul, ocupando também Santa Catarina e Paraná. O
Norte e Nordeste não lhes pareceram confortáveis, por serem de
clima bastante diferente ao que estavam acostumados. O alemão
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não nos trouxe influência nova na alimentação, mas reforço ao consumo
de certas espécies usadas pelos portugueses desde o século
XVI, tais como a cerveja, carnes salgadas e defumadas, batatas,
salsichas, mortadela e toucinho defumado. Devido ao clima favorável
da região Sul, dedicaram-se ao cultivo de frutas européias como
maçã, uva, ameixa, pêssego e pêra. Cultivaram também o trigo e o
centeio para garantir a produção do pão preto, além de hortaliças
como o repolho para o preparo do chucrute (repolho fermentado
em água e sal). Com a criação de porcos, asseguraram a produção
de lingüiças e outros embutidos.
Os italianos estiveram mais próximos dos costumes e do contato
histórico brasileiro. Vieram em grande número a partir de 1860. Trouxeram
para a cozinha nacional o gosto pelas massas de farinha de
trigo, com os molhos espessos e condimentados, a valorização do
queijo, e, para a sobremesa, o sorvete. A presença do queijo ralado
em doces, sopas e massas não é portuguesa e não poderia ter vindo
de índios ou africanos, que não conheciam o queijo. A comida
italiana conquistou a população de todas as regiões e classes sociais,
praticamente sem modificações. A diferença é que o macarrão,
considerado refeição completa na Itália, concorre, aqui, com a farofa,
arroz e o feijão e acompanha carne ou peixe. No princípio do
século XX o macarrão estava no almoço de domingo de muitos fazendeiros
do sertão e atualmente é visto por toda parte: marmitas,
refeições de executivos, restaurantes, comida caseira etc.
Os franceses não chegaram em grande número, mas mesmo assim
nos deixaram muitos hábitos e comportamentos alimentares,
como o champagne, os vinhos, a preparação de festas e cerimônias,
o modo de servir os buffets e a elaboração de menus. Os pratos
em cerimônias importantes deveriam ter nome francês e, além disso,
o idioma era supervalorizado. A França possuía um “imagem”
encantadora aos olhos brasileiros.
Os pratos típicos regionais
As comidas regionais do Brasil são bastante ricas e variadas. As
diferenças alimentares entre uma região e outra acontecem por fatores
ambientais (clima, tipo de solo, disposição geográfica, fauna)
e pelo tipo de colonização. Apresentamos, a seguir, breves comentários
a respeito das características alimentares segundo as cinco
regiões brasileiras. É importante considerar que atualmente as “comidas
típicas” podem ser encontradas com facilidade em todo o
país. Assim, encontrar um gaúcho comendo vatapá já não é motivo
de surpresa para ninguém.
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Região Norte
Os índios nativos da Região Norte tinham como alimento básico a
mandioca. Esta raiz é, até hoje, o prato típico local, servindo, além
de outros usos, para o preparo do tucupi, um molho feito a partir do
“suco” da mandioca ralada e espremida, que depois é decantado e
fervido. Ao caldo obtido são adicionadas alfavaca e chicória. O pato
no tucupi é o prato mais famoso do Pará.
Os peixes também representam uma parcela importante da alimentação,
sendo os mais consumidos o tambaqui, traíra, piranha, pescada,
sardinha de rio, tucunaré, pacu e o pirarucu. Este último também
é chamado “bacalhau da Amazônia”, por ser conservado pelo
processo da salga, introduzido pelos jesuítas em meados do século
XVII.
Outros pratos típicos e seus ingredientes são:
n Tacacá: caldo do tucupi com folhas de jambu, um tipo de erva
encontrada na região.
n Diversos tipos de pimentas com camarões secos, servidos em
cuias.
n Maniçoba: uma panelada de folhas novas de mandioca trituradas
no pilão ou na máquina de moer e cozidas por um dia inteiro.
Depois, são adicionados carne de sol, cabeça de porco,
mocotó, toucinho, sal, alho, folha de louro e hortelã-pimenta.
n Frutas silvestres como açaí, murici, graviola, cupuaçu, mangaba
e pupunha apresentadas sob a forma de sorvetes, sucos e cremes.
A pupunha também é cozida com sal para substituir o pão.
n Castanha do pará, guaraná, manga verde e abacate com farinha
e açúcar.
n Carne de tartaruga, costume que preocupa os ecologistas;
n Jacaré assado ou cozido com pimenta.
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Região Nordeste
Além das influências indígena, portuguesa e negra, os nordestinos
receberam contribuições de holandeses, franceses e ingleses que
invadiram o território e o dominaram durante uma época. O resultado
é uma culinária rica e variada, que veio a caracterizar a comida
da região.
A região Nordeste está dividida em duas partes: a primeira compreende
o litoral, que se estende desde o Piauí até o Sul da Bahia, e é
conhecida como zona da mata; a segunda compreende o sertão
nordestino e é chamada de polígono das secas.
Na zona da mata, o solo é fértil e as plantas encontram condições
adequadas para se desenvolverem bem. Os alimentos mais usados
nessa área são a farinha de mandioca, o feijão, a carne seca, a rapadura
e o milho.
No sertão, a população se dedica à criação de gado bovino e caprino,
usando a carne, leite, queijo e a manteiga. Consome-se feijão, batata-
doce, mandioca e alguns legumes e frutas.
Outros pratos típicos do nordestino são angu, cuscuz, carne de sol
e combinações exóticas como a abóbora com leite, queijo com rapadura,
batata-doce com café, doce de leite com banana etc.
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