I N T R O D U Ç Ã O
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O LIVRO DOS ESPÍRITOS
sias por falta de um significado que a defina com precisão determinada.
É a palavra alma. A divergência de opiniões sobre a natureza da
alma resulta da aplicação particular que cada um faz dessa palavra.
Uma língua perfeita, em que cada idéia tivesse sua representação por
um termo próprio, evitaria muitas discussões; com uma palavra para
cada coisa, todos se entenderiam.
Segundo alguns, a alma é o princípio da vida material orgânica,
não tem existência própria e termina com a vida: é o materialismo
puro. É nesse sentido e por comparação que se diz de um instrumento
rachado quando não emite mais som: não tem alma. De acordo com
essa opinião, a alma seria um efeito e não uma causa.
Outros pensam que a alma é o princípio da inteligência, agente
universal do qual cada ser absorve uma porção. De acordo com esse
pensamento, haveria para todo o universo apenas uma única alma
que distribui suas centelhas entre os diversos seres inteligentes
durante a vida. Após a sua morte, cada centelha retornaria à fonte
comum, onde se misturaria no todo, como as águas dos riachos e dos
rios retornam ao mar de onde saíram. Essa opinião difere da anterior
apenas em que, nessa hipótese, há no corpo mais do que a matéria e
que resta alguma coisa depois da morte; mas é quase como se não
restasse nada, uma vez que, incorporando-se ao todo de onde veio,
perde a individualidade e, assim, não teríamos mais consciência de
nós mesmos. De acordo com essa opinião, a alma universal seria Deus e
cada ser, uma porção da divindade. Essa é uma variante do panteísmo 3.
E por fim, segundo outros, a alma é um ser moral, distinto e independente
da matéria, que conserva sua individualidade após a morte.
Essa concepção é, indiscutivelmente, a mais generalizada, visto que,
sob um nome ou outro, a idéia desse ser que sobrevive ao corpo se
encontra como crença instintiva e independentemente de qualquer
ensinamento, entre todos os povos, seja qual for o grau de sua civilização.
Essa doutrina, segundo a qual a alma é a causa e não o efeito,
é a dos espiritualistas.
Sem discutir o mérito dessas opiniões, considerando apenas o
lado lingüístico da questão, diremos que as três aplicações da palavra
alma constituem três idéias distintas e que, para serem claramente
expressas, cada uma precisaria de um termo diferente. A palavra tem,
portanto, uma tríplice significação e cada uma tem razão em seu ponto
de vista, na definição que lhe dá. O problema é a língua ter apenas
uma palavra para designar três idéias. Para evitar qualquer equívoco,
seria preciso aplicar o significado da palavra alma a uma dessas três
idéias. Escolher qualquer uma é indiferente, é uma questão de ajuste
3 - Panteísmo: doutrina filosófica segundo a qual só Deus é real. Tudo o que existe é a manifestação
de Deus, que por sua vez é a soma de tudo o que existe (N. E.).
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de opiniões; o importante é que nos entendamos. Acreditamos mais
lógico tomá-la na sua concepção mais comum; é por isso que denominamos
ALMA o ser imaterial e individual que existe em nós e que
sobrevive ao corpo. Ainda que esse ser não existisse e fosse apenas
um produto da imaginação, seria preciso assim mesmo um termo para
designá-lo.
Na falta de uma palavra especial para cada uma das outras duas
idéias, denominamos princípio vital o princípio da vida material e orgânica,
qualquer que lhe seja a origem, e que é comum a todos os
seres vivos, desde as plantas até o homem. Podendo existir vida sem
depender da capacidade de pensar, o princípio vital é assim uma propriedade
distinta e autônoma4. A palavra vitalidade não daria a mesma
idéia. Para alguns, o princípio vital é uma propriedade da matéria,
um efeito que se produz quando a matéria se encontra em determinadas
circunstâncias. Segundo outros, e esta é a idéia mais comum, ele
se encontra num fluido especial, universalmente espalhado e do qual
cada ser absorve e assimila uma parte durante a vida, como vemos
os corpos inertes absorverem a luz. Este seria, então, o fluido vital,
que, segundo algumas opiniões, seria o fluido elétrico animalizado, designado
também sob os nomes de fluido magnético, fluido nervoso, etc.
O que quer que ele seja, há um fato que não se poderá contestar,
porque é resultante da observação: é que os seres orgânicos têm em
si uma força íntima que produz o fenômeno da vida, enquanto essa
força dure; que a vida material é comum a todos os seres orgânicos e
é independente da inteligência e do pensamento; que a inteligência e
o pensamento são capacidades próprias de algumas espécies orgânicas;
e que, enfim, entre as espécies orgânicas dotadas de inteligência
e de pensamento, há uma que é dotada de um senso moral especial
que lhe dá uma incontestável superioridade sobre as outras: é a
espécie humana.
Concebe-se assim que nem o materialismo nem o panteísmo
excluem em suas teorias a noção de alma por causa do significado
abrangente que se lhe pode atribuir. Mesmo o espiritualista pode entender
muito bem a alma segundo uma das duas primeiras definições,
sem reduzir o ser imaterial distinto ao qual dará um nome qualquer.
Assim, a palavra alma não representa uma idéia única; é um
Proteu5 que cada um acomoda a seu gosto, daí a fonte de tantas disputas
intermináveis.
Ao se utilizar da palavra alma em qualquer dos três casos, teríamos
uma idéia clara ao lhe acrescentar um qualificativo que especificasse
o ponto de vista a que se refere, ou a aplicação que se faz dela.
4 - Autônoma: que se realiza sem a intervenção de agentes externos; independente, livre (N. E.).
5 - Proteu: aquele que muda constantemente de opinião ou de sistema (N. E.).
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
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O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Seria, então, uma palavra genérica, representando ao mesmo tempo
o princípio da vida material, da inteligência e do sentido moral, mas
que se diferenciaria por um atributo, como o gás, por exemplo, que se
distingue quando lhe acrescentamos as palavras hidrogênio, oxigênio
ou azoto. Assim é que deveríamos compreender a alma vital para designar
o princípio da vida material; a alma intelectual para o princípio da
inteligência que se expressa enquanto há vida e a alma espírita para
o princípio de nossa individualidade após a morte. Como se vê, tudo isso
é uma questão de palavras, mas uma questão muito importante para
entender. De acordo com isso, a alma vital seria comum a todos os seres
orgânicos: plantas, animais e homens; a alma intelectual seria própria
dos animais e dos homens; e a alma espírita, apenas do homem.
Acreditamos dever insistir nessas explicações, porque a Doutrina Espírita
baseia-se naturalmente na existência em nós de um ser independente
da matéria e que sobrevive à morte do corpo. Como a palavra alma
deve aparecer freqüentemente no decorrer desta obra, é importante
saber o exato sentido que lhe damos, a fim de evitar qualquer equívoco.
Vamos, agora, ao ponto principal desta instrução preliminar.
A HISTÓRIA
A Doutrina Espírita, como toda idéia nova, tem seus adeptos e
seus opositores. Vamos tentar responder a algumas das objeções,
examinando o valor dos motivos em que se apóiam, sem termos, entretanto,
a pretensão de convencer a todos, porque há pessoas que
acreditam que a luz tenha sido feita exclusivamente para elas. Dirigimo-
nos às pessoas de boa-fé, sem idéias preconcebidas ou obstinadas
e sinceramente desejosas de se instruir, e demonstraremos que a
maior parte das objeções à Doutrina provém de uma observação incompleta
dos fatos e de um julgamento feito com muita leviandade e
precipitação.
Lembremos primeiramente e em poucas palavras a série progressiva
dos fenômenos que deram origem à Doutrina Espírita.
O primeiro fato observado foi o de que diversos objetos se movimentavam;
de maneira geral, chamaram-no de mesas girantes ou dança
das mesas. Esse fenômeno, observado primeiramente nos Estados
Unidos, ou melhor, que se repetiu e foi anunciado naquele país, porque
a história prova que remonta à mais alta Antiguidade, se produziu
acompanhado de circunstâncias estranhas, como barulhos anormais,
pancadas sem causa aparente ou conhecida. Dos Estados Unidos se
propagou rapidamente pela Europa e em seguida por todo o mundo.
A princípio houve muita incredulidade, mas a multiplicidade das experiências
não mais permitiu duvidar da realidade.
3
13
Se o fenômeno tivesse ficado restrito ao movimento dos objetos
materiais, poderia ser explicado por uma causa puramente física. Estamos
longe de conhecer todos os agentes ocultos da natureza e todas as
propriedades daqueles que conhecemos; a eletricidade, aliás, multiplica
a cada dia ao infinito os recursos que ela proporciona ao homem
e parece destinada 6 a iluminar a ciência com uma nova luz. Não haveria,
portanto, nada de impossível se a eletricidade, modificada por algum
fator ou qualquer outro agente desconhecido, fosse a causa desse
movimento. A reunião de muitas pessoas, aumentando o poder da
ação, parecia apoiar essa teoria, porque se podia considerar todo o
conjunto como uma pilha múltipla cujo potencial estava em razão do
número de elementos.
O movimento circular não apresentaria nada de extraordinário,
está na natureza, todos os astros se movem em círculos; poderíamos
ter um pequeno reflexo do movimento geral do universo, ou melhor,
uma causa até então desconhecida poderia produzir acidentalmente,
com pequenos objetos e em determinadas circunstâncias, uma corrente
parecida à que faz girar os mundos.
Ocorre que o movimento nem sempre era circular; muitas vezes
era brusco, desordenado; outras vezes o objeto era violentamente
sacudido, derrubado, levado numa direção qualquer e, contrariamente a
todas as leis da estática7, levantado do chão e mantido no espaço.
Ainda não havia nada nesses fatos que não pudesse ser explicado
pelo poder de um agente físico invisível. Não vemos a eletricidade
derrubar edifícios, destruir árvores, lançar ao longe os mais pesados
corpos, atraí-los ou repeli-los?
Os ruídos anormais, as pancadas, supondo-se que não fossem um
dos efeitos normais da dilatação da madeira ou de qualquer outra causa
acidental, poderiam muito bem ser produzidos pelo acúmulo de um fluido
oculto: a eletricidade não produz os ruídos mais violentos8?
Até aí, como se vê, tudo podia ocorrer no domínio dos fatos puramente
físicos e fisiológicos. Sem sair desse círculo de idéias, havia
matéria para estudos sérios e dignos de fixar a atenção dos sábios.
Por que isso não aconteceu? É lamentável dizer, mas isso se prende
a causas que provam, entre mil fatos semelhantes, a leviandade do
espírito humano. Por se tratar de um objeto comum, no caso a mesa
que serviu de base às primeiras experiências, provocou a estranheza
e a indiferença dos sábios. Que influência, muitas vezes, não tem uma
palavra sobre as coisas mais sérias? Sem considerar que o movimen-
6 - Kardec escreveu “parece destinada” porque referia-se aos primeiros inventos relacionados à eletricidade,
como a lâmpada, que estava, na época, em pesquisas e ainda era desconhecida (N. E.).
7 - Estática: ciência que estuda o equilíbrio dos corpos sob a ação das forças (N. E.).
8 - Os trechos “não vemos a eletricidade derrubar edifícios...” e “a eletricidade não produz os ruídos mais
violentos” referem-se às descargas elétricas provocadas pelos relâmpagos, trovões e raios (N. E.).
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
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O LIVRO DOS ESPÍRITOS
to poderia ser dado a um outro objeto qualquer, a idéia das mesas
prevaleceu, sem dúvida, porque esse era o objeto mais cômodo e ao
redor de uma mesa as pessoas se sentam com mais naturalidade do
que ao redor de qualquer outro móvel. Portanto, os homens de inteligência
superior são, algumas vezes, tão pretensiosos que não seria
nada impossível considerar que inteligências de elite tenham acreditado
que se rebaixariam caso se ocupassem daquilo que foi convencionado
chamar a dança das mesas. É mesmo provável que se o fenômeno
observado por Galvani9 o tivesse sido por homens comuns e
ficasse conhecido por um nome simples, ainda estaria rebaixado ao mesmo
plano da varinha mágica. Qual é, de fato, o sábio que não teria
julgado uma indignidade se ocupar da dança das rãs 10?
Entretanto, alguns sábios, bastante modestos por admitir que a
natureza poderia muito bem não lhes ter dito sua última palavra, quiseram
ver, para tranqüilizar as suas consciências. Mas aconteceu que
o fenômeno nem sempre correspondeu à expectativa que tinham, e
como o fato não se produziu conforme a sua vontade e segundo seu
modo de experimentação, concluíram pela negativa. Apesar do que
decretaram, as mesas continuaram a girar, e podemos dizer como
Galileu: “Todavia elas se movem!” Diremos mais: “É que os fatos se
multiplicaram de tal modo que hoje têm direito à cidadania e que não se
trata senão de achar-lhes uma explicação racional”.
Pode-se deduzir algo contra a realidade de um fenômeno pelo fato
de ele não se produzir de um modo sempre idêntico, atendendo à vontade
e às exigências do observador? Acaso não estão os fenômenos da
eletricidade e da química também subordinados a certas condições?
Deve-se negá-los porque não se produzem fora dessas condições? Portanto,
não há nada de surpreendente em que o fenômeno do movimento
dos objetos pelo fluido humano também tenha suas condições para se
realizar e deixe de se produzir quando o observador, colocando-se em
seu próprio ponto de vista, pretende fazer com que ele se realize conforme
o seu capricho ou submetê-lo às leis dos fenômenos conhecidos,
sem considerar que para os fatos novos pode e deve haver novas leis?
Portanto, para conhecer essas leis é preciso estudar as circunstâncias
em que os fatos se produzem, e esse estudo só pode ser fruto de uma
observação perseverante, atenta e às vezes muito longa.
Mas algumas pessoas alegam que muitas vezes há fraudes evidentes.
Em primeiro lugar, devemos perguntar se estão bem certas disso e
se não tomaram por fraudes os efeitos que não conseguiram entender,
como o camponês que confundiu um sábio professor de física realizando
9 - Luigi Galvani: médico e físico italiano (N. E.).
10 - Dança das rãs: Galvani notou que as rãs dissecadas, expostas em pedaços sobre uma
superfície de ferro, davam pulos. Dessa observação a ciência caminhou para o conhecimento
do fluido nervoso e mais tarde da pilha elétrica (N. E.).
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experiências como um mágico habilidoso. Mas, mesmo supondo que a
fraude pudesse acontecer algumas vezes, seria razão para negar o
fato? Deve-se negar a física porque há ilusionistas e mágicos que dão
a si mesmo o título de físicos? Aliás, é preciso levar em conta o caráter
das pessoas e o interesse que podiam ter em enganar. Então seria
um gracejo? Admite-se que uma pessoa possa se divertir por um instante,
mas uma brincadeira indefinidamente prolongada seria tão cansativa
para o mistificador11 quanto para o mistificado. De resto, numa
mistificação que se propaga de um lado a outro do mundo e entre
pessoas mais sérias, mais veneráveis e mais esclarecidas, haveria
algo tão extraordinário quanto o próprio fenômeno.
O MÉTODO
Se os fenômenos de que nos ocupamos ficassem restritos ao movimento
dos objetos, estariam dentro, como dissemos, do domínio das
ciências físicas. Mas não foi isso que aconteceu: estavam destinados
a nos colocar no caminho de fatos de uma natureza estranha. Acreditou-
se descobrir, não sabemos por iniciativa de quem, que a impulsão
dada aos objetos não era somente produto de uma força mecânica
cega, mas que havia nesse movimento a intervenção de uma causa
inteligente. Esse caminho, uma vez aberto, revelou um campo totalmente
novo de observações: era o véu levantado de sobre muitos
mistérios. Há, de fato, um poder inteligente? Essa é a questão. Se
esse poder existe, qual é ele, qual é a sua natureza, sua origem? Ele
está acima da humanidade? Essas são as outras questões decorrentes
da primeira.
As primeiras manifestações inteligentes aconteceram por meio de
mesas se levantando e batendo, com um dos pés, um número determinado
de pancadas e respondendo desse modo sim ou não, segundo fora
convencionado, a uma questão proposta. Até aí, não havia nada de convincente
para os céticos12, porque se podia acreditar num efeito do acaso.
Obtiveram-se, em seguida, respostas mais desenvolvidas por meio
das letras do alfabeto: o objeto móvel, batendo um número de vezes
correspondente ao número de ordem de cada letra, chegava a formular
palavras e frases respondendo às perguntas propostas. A precisão das
respostas e sua correlação com a pergunta causaram espanto. O ser
misterioso que assim respondia, quando interrogado sobre sua natureza,
declarou que era um Espírito ou gênio, deu o seu nome e forneceu
diversas informações a seu respeito. Aqui há um fato muito importante
11 - Mistificador: enganador; que abusa da credulidade; burlador (N. E.).
12 - Cético: que duvida de tudo, descrente (N. E.).
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
4
16
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
que convém ressaltar: ninguém havia imaginado os Espíritos como um
meio de explicar o fenômeno. Foi o próprio fenômeno que se revelou.
Muitas vezes, nas ciências exatas, formulam-se hipóteses para se ter
uma base de raciocínio, mas isso não ocorreu nesse caso.
Esse meio de comunicação era demorado e incômodo. O Espírito, e
isso ainda é uma circunstância digna de nota, indicou um outro processo.
Foi um desses seres espirituais que ensinou a prender um lápis a um
pequeno cesto ou a um outro objeto. Esse cesto, colocado sobre uma
folha de papel, foi posto em movimento pelo mesmo poder oculto que
fazia mover as mesas; mas, em vez de um simples movimento regular, o
lápis traçou, por si mesmo, letras formando palavras, frases e discursos
inteiros de muitas páginas, tratando das mais altas questões da filosofia,
da moral, da metafísica, da psicologia, etc., e isso com tanta rapidez
como se fosse escrito à mão.
Esse conselho foi dado simultaneamente nos Estados Unidos, na
França e em diversos países. Eis os termos em que foi dado em Paris, no
dia 10 de junho de 1853, a um dos mais fervorosos adeptos da Doutrina,
que desde 1849 se ocupava com a evocação dos Espíritos: “Vá pegar no
quarto ao lado o pequeno cesto; prenda-lhe um lápis, coloque-o sobre
um papel e ponha os dedos sobre a borda”. Alguns instantes depois, o
cesto se pôs em movimento, e o lápis escreveu esta frase muito claramente:
“O que eu vos digo aqui, eu vos proíbo expressamente de o dizer
a alguém. A próxima vez que eu escrever, escreverei melhor”.
O objeto ao qual se adaptava o lápis era apenas um instrumento,
sua natureza e forma não tinham importância. Procurou-se sua disposição
mais cômoda, por isso muitas pessoas fazem uso de uma pequena
prancheta.
O cesto ou a prancheta apenas podem ser colocados em movimento
sob a influência de algumas pessoas dotadas, para esse fim, de um
poder especial e que são designadas como médiuns, isto é, intermediários
entre os Espíritos e os homens. As condições de que se origina esse
poder especial têm causas ao mesmo tempo físicas e morais ainda desconhecidas,
visto que se encontram médiuns de todas as idades, de
ambos os sexos e em todos os graus de desenvolvimento intelectual.
Essa faculdade13, esse dom, se desenvolve pelo exercício.
O SURGIMENTO DA PSICOGRAFIA
Mais tarde se reconheceu que o cesto e a prancheta, na realidade,
eram apenas um substituto da mão, e o médium, pegando diretamente
o lápis, pôs-se a escrever por um impulso involuntário e quase febril.
5
13 - Faculdade: capacidade, aptidão (N. E.).
17
Dessa forma, as comunicações tornaram-se mais rápidas, fáceis e completas.
Hoje é o meio mais empregado, tanto é que o número de pessoas
dotadas dessa aptidão é muito grande e multiplica-se todos os dias. A
experiência fez conhecer outras variedades da faculdade mediúnica e
constatou-se que as comunicações poderiam igualmente ter lugar pela
fala, pela audição, pela visão, pelo tato, etc. e até mesmo pela escrita
direta dos Espíritos, ou seja, sem a interferência da mão do médium nem
do lápis.
Comprovado o fato, era preciso estabelecer e demonstrar um ponto
essencial: qual era o papel do médium nas respostas e a parte que poderia
nelas tomar, mecânica e moralmente. Duas circunstâncias fundamentais,
que não poderiam escapar a um observador atento, podem resolver
a questão. A primeira é a maneira pela qual o cesto se movia sob influência
do médium, somente pela imposição dos dedos sobre a borda. O
exame demonstra a impossibilidade de que o médium pudesse lhe impor
qualquer direção. Essa impossibilidade torna-se mais evidente quando
duas ou três pessoas colocam ao mesmo tempo as pontas dos dedos
nas bordas de um mesmo cesto. Seria preciso uma concordância de
movimentos entre elas verdadeiramente fenomenal, e ainda seria preciso
mais, a concordância de seus pensamentos para que pudessem se entender
quanto à resposta a dar à questão formulada. Um outro fato, não
menos importante, ainda vem se juntar à dificuldade: é a mudança radical
que se constata na caligrafia, conforme o Espírito que se manifesta;
porém, cada vez que o mesmo Espírito retorna, sua escrita se reproduz.
Seria preciso, portanto, que o médium fosse capaz de mudar sua própria
escrita de 20 maneiras diferentes e, principalmente, que pudesse se lembrar
da que pertence a este ou àquele Espírito.
A segunda circunstância resulta da própria natureza das respostas
que são, na maioria, principalmente quando se trata de questões abstratas14
ou científicas, notoriamente fora dos conhecimentos e algumas vezes
além da capacidade intelectual do médium, que não tem consciência do
que escreve sob influência do Espírito. Com freqüência, o médium não
ouve ou não compreende a questão proposta, uma vez que pode ser feita
numa língua que lhe é estranha, ou mesmo mentalmente; e a resposta
pode ser dada por escrito ou falada nessa mesma língua. Enfim, acontece
que muitas vezes o cesto escreve espontaneamente, sem pergunta
prévia, sobre um assunto qualquer e inteiramente inesperado.
Essas respostas, em alguns casos, têm uma tal marca de sabedoria,
profundidade e oportunidade, revelam pensamentos tão elevados,
tão sublimes, que somente podem proceder de uma inteligência
superior, fundamentada na mais pura moralidade. Outras vezes, são tão
levianas, tão fúteis e até mesmo tão vulgares que a razão se recusa
14 - Questões abstratas: de difícil compreensão, vagas e obscuras (N. E.).
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
18
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
a acreditar que possam proceder de uma mesma fonte. Essa diversidade
da linguagem e dos ensinamentos somente se pode explicar
pela diversidade das inteligências que se manifestam. Estarão essas
inteligências na humanidade ou fora dela? Esse é o ponto a esclarecer,
para o qual se encontrará a explicação completa nesta obra, exatamente
como foi revelada pelos próprios Espíritos.
Eis que os efeitos ou fenômenos evidentes e incontestáveis que se
produzem fora do círculo habitual de nossas observações não se processam
misteriosamente, mas sim à luz do dia, e todos podem vê-los e
constatá-los, porque não são privilégio de um único indivíduo, uma
vez que milhares de pessoas os repetem todos os dias à vontade.
Esses efeitos têm necessariamente uma causa, e a partir do momento
que revelam a ação de uma inteligência e de uma vontade saem do
domínio puramente físico.
Muitas teorias foram anunciadas a esse respeito. Elas serão examinadas
em seguida e veremos se podem fornecer a razão de todos
os fatos que se produzem. Admitamos, em princípio, antes de chegar
até lá, a existência de seres distintos da humanidade, uma vez que
esta é a explicação fornecida pelas inteligências que se revelam, e
vejamos o que nos dizem.
RESUMO DOS PRINCIPAIS PONTOS DA
DOUTRINA ESPÍRITA
Os seres que se comunicam designam-se, a si mesmos, como o
dissemos, sob o nome de Espíritos ou de Gênios, tendo pertencido, pelo
menos alguns, a homens que viveram na Terra. Eles constituem o mundo
espiritual, como nós constituímos, durante nossa vida, o mundo corporal.
Resumimos assim, em poucas palavras, os pontos mais importantes
da Doutrina que eles nos transmitiram, a fim de respondermos
mais facilmente a algumas objeções.
“Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente
justo e bom.”
“Criou o universo, que compreende todos os seres animados e
inanimados, materiais e imateriais.”
“Os seres materiais constituem o mundo visível ou corporal; os
seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, ou seja, dos Espíritos.”
“O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistindo
e sobrevivendo a tudo.”
“O mundo corporal é apenas secundário, poderia deixar de existir
ou nunca ter existido, sem alterar a essência do mundo espírita.”
“Os Espíritos vestem temporariamente um corpo material perecível,
cuja destruição pela morte lhes devolve a liberdade.”
6
19
“Entre as diferentes espécies de seres corporais, Deus escolheu
a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que atingiram um
certo grau de desenvolvimento, o que lhe dá a superioridade moral e
intelectual sobre os outros.”
“A alma é um Espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu
envoltório.”
“Há três coisas no homem: 1ª) o corpo ou ser material semelhante
ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2ª) a alma ou
ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3ª) o laço que une a alma
ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.
“Assim, o homem tem duas naturezas: pelo corpo participa da
natureza dos animais, dos quais tem os instintos; pela alma participa
da natureza dos Espíritos.”
“O laço ou perispírito que une o corpo e o Espírito é uma espécie de
envoltório semimaterial. A morte é a destruição do envoltório mais grosseiro.
O Espírito conserva o segundo, que constitui para ele um corpo etéreo,
invisível para nós no estado normal, mas que pode tornar-se algumas vezes
visível e mesmo tangível, como ocorre no fenômeno das aparições.”
“O Espírito não é, portanto, um ser abstrato, indefinido, que somente
o pensamento pode conceber; é um ser real, definido, que, em alguns
casos, pode ser reconhecido, avaliado pelos sentidos da visão, da audição
e do tato.”
“Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais em
poder, inteligência, saber e nem em moralidade. Os da primeira ordem
são os Espíritos superiores, que se distinguem dos outros por
sua perfeição, seus conhecimentos, sua proximidade de Deus, pela
pureza de seus sentimentos e seu amor ao bem: são os anjos ou
Espíritos puros. Os das outras classes não atingiram ainda essa perfeição;
os das classes inferiores são inclinados à maioria das nossas
paixões: ao ódio, à inveja, ao ciúme, ao orgulho, etc. Eles se satisfazem
no mal; entre eles há os que não são nem muito bons nem muito
maus, são mais trapaceiros e importunos do que maus, a malícia e a
irresponsabilidade parecem ser sua diversão: são os Espíritos desajuizados
ou levianos.”
“Os Espíritos não pertencem perpetuamente à mesma ordem.
Todos melhoram ao passar pelos diferentes graus da hierarquia espírita.
Esse progresso ocorre pela encarnação, que é imposta a alguns
como expiação15 e a outros como missão. A vida material é uma prova
que devem suportar várias vezes, até que tenham atingido a perfeição
absoluta. É uma espécie de exame severo ou de depuração, de
onde saem mais ou menos purificados.”
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
15 - Expiação: nova oportunidade de reparar as faltas e os erros de vidas passadas. É a Lei de
Causa e Efeito (N. E.).
20
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
“Ao deixar o corpo, a alma retorna ao mundo dos Espíritos, de
onde havia saído, para recomeçar uma nova existência material, depois
de um período mais ou menos longo, durante o qual permanece
no estado de Espírito errante16.”
“O Espírito deve passar por várias encarnações. Disso resulta que
todos nós tivemos muitas existências e que ainda teremos outras que,
aos poucos, nos aperfeiçoarão, seja na Terra, seja em outros mundos.”
“A encarnação dos Espíritos se dá sempre na espécie humana;
seria um erro acreditar que a alma ou o Espírito pudesse encarnar no
corpo de um animal*.”
“As diferentes existências corporais do Espírito são sempre progressivas
e o Espírito nunca retrocede, mas o tempo necessário para
progredir depende dos esforços de cada um para chegar à perfeição.”
“As qualidades da alma17, isto é, as qualidades morais, são as do
Espírito que está encarnado em nós; desse modo, o homem de bem é
a encarnação do bom Espírito, e o homem perverso a de um Espírito
impuro.”
“A alma tinha sua individualidade antes de sua encarnação e a
conserva depois que se separa do corpo.”
“Na sua reentrada no mundo dos Espíritos, a alma reencontra
todos aqueles que conheceu na Terra e todas as suas existências
anteriores desfilam na sua memória com a lembrança de todo o bem
e de todo o mal que fez.”
“O Espírito, quando encarnado, está sob a influência da matéria.
O homem que supera essa influência pela elevação e pela depuração
de sua alma aproxima-se dos bons Espíritos, com os quais estará um
dia. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões e coloca todas
as alegrias da sua existência na satisfação dos apetites grosseiros se
aproxima dos Espíritos impuros, porque nele predomina a natureza
animal.”
“Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do universo.”
“Os Espíritos não encarnados ou errantes não ocupam uma região
determinada e localizada, estão por todos os lugares no espaço
e ao nosso lado, vendo-nos numa presença contínua. É toda uma
população invisível que se agita ao nosso redor.”
“Os Espíritos exercem sobre o mundo moral e o mundo físico uma
ação incessante. Eles agem sobre a matéria e o pensamento e constituem
uma das forças da natureza, causa determinante de uma multidão
16 - Espírito errante: que está na erraticidade, período entre uma e outra encarnação, como está
explicado nesta obra, na questão 223 e seguintes (N. E.).
* Há entre a doutrina da reencarnação e a da metempsicose, tal como a admitem certas seitas,
uma diferença característica que é explicada na seqüência da obra. Para saber sobre metempsicose,
consulte as questões 222, 611 e seguintes (Nota de Kardec).
17 - Alma: dizemos do espírito quando está no corpo, encarnado (N. E.).
21
de fenômenos até agora inexplicável ou mal explicada e que apenas
encontram esclarecimento racional no Espiritismo.”
“As relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os
bons Espíritos nos atraem e estimulam para o bem, sustentando-nos
nas provações da vida e ajudando-nos a suportá-las com coragem e
resignação. Os maus nos sugestionam para o mal; é um prazer para
eles nos ver fracassar e nos assemelharmos a eles.”
“As comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas.
As comunicações ocultas ocorrem pela influência boa ou má
que exercem sobre nós sem o sabermos; cabe ao nosso julgamento discernir
as boas das más inspirações. As comunicações ostensivas ocorrem
por meio da escrita, da palavra ou outras manifestações materiais,
muitas vezes por médiuns que lhes servem de instrumento.”
“Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou por evocação.
Podem-se evocar todos os Espíritos, tanto aqueles que animaram homens
simples como os de personagens mais ilustres, qualquer que
seja a época em que viveram, os de nossos parentes, amigos ou inimigos,
e com isso obter, por meio das comunicações escritas ou verbais,
conselhos, ensinamentos sobre sua situação depois da morte,
seus pensamentos a nosso respeito, assim como as revelações que
lhes são permitidas nos fazer.”
“Os Espíritos são atraídos em razão de sua simpatia pela natureza
moral do ambiente em que são evocados. Os Espíritos superiores se
satisfazem com reuniões sérias em que dominam o amor pelo bem e
o desejo sincero de receber instrução e aperfeiçoamento. A sua presença
afasta os Espíritos inferiores que, caso contrário, encontrariam
aí livre acesso e poderiam agir com toda a liberdade entre as pessoas
levianas ou guiadas somente pela curiosidade. Em todos os lugares
onde se encontram maus instintos, longe de obter bons conselhos,
ensinamentos úteis, devem-se esperar apenas futilidades, mentiras,
gracejos de mau gosto ou mistificações, visto que, freqüentemente,
eles tomam emprestado nomes veneráveis para melhor induzir ao erro.”
“Distinguir os bons dos maus Espíritos é extremamente fácil. A
linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna, nobre, repleta
da mais alta moralidade, livre de toda paixão inferior; seus conselhos
exaltam a sabedoria mais pura e sempre têm por objetivo nosso
aperfeiçoamento e o bem da humanidade. A linguagem dos Espíritos
inferiores, ao contrário, é inconseqüente, muitas vezes banal e até mesmo
grosseira; se por vezes dizem coisas boas e verdadeiras, dizem na
maioria das vezes coisas falsas e absurdas por malícia ou por ignorância.
Zombam da credulidade e se divertem à custa daqueles que os interrogam
ao incentivar a vaidade, alimentando seus desejos com falsas
esperanças. Em resumo, as comunicações sérias, no verdadeiro sentido
da palavra, apenas acontecem nos centros sérios, cujos membros estão
unidos por uma íntima comunhão de pensamentos, visando ao bem.”
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
22
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
“A moral dos Espíritos superiores se resume, como a de Cristo,
neste ensinamento evangélico: ‘Fazer aos outros o que quereríamos
que os outros nos fizessem’, ou seja, fazer o bem e não o mal. O
homem encontra neste princípio a regra universal de conduta, mesmo
para as suas menores ações.”
“Eles nos ensinam que o egoísmo, o orgulho e a sensualidade
são paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos
à matéria; que o homem que se desliga da matéria já neste mundo,
desprezando as futilidades mundanas e amando o próximo, se aproxima
da natureza espiritual; que cada um de nós deve se tornar útil
segundo as capacidades e os meios que Deus nos colocou nas mãos
para nos provar; que o forte e o poderoso devem apoio e proteção ao
fraco, pois aquele que abusa de sua força e de seu poder para oprimir
seu semelhante transgride a Lei de Deus. Enfim, ensinam que no mundo
dos Espíritos nada pode ser escondido, o hipócrita será desmascarado
e todas as suas baixezas descobertas; que a presença inevitável,
em todos os instantes, daqueles com quem agimos mal é um
dos castigos que nos estão reservados; que ao estado de inferioridade
e de superioridade dos Espíritos equivalem punições e prazeres que
desconhecemos na Terra.”
“Mas também nos ensinam que não há faltas imperdoáveis que
não possam ser apagadas pela expiação. Pela reencarnação, nas
sucessivas existências, mediante os seus esforços e desejos de melhoria
no caminho do progresso, o homem avança sempre e alcança a
perfeição, que é a sua destinação final.”
Este é o resumo da Doutrina Espírita, resultante do ensinamento
dado pelos Espíritos superiores. Vejamos agora as objeções que lhe
fazem.
A DOUTRINA ESPÍRITA E A CIÊNCIA
Para muitas pessoas, a oposição de cientistas, se não é uma prova,
é pelo menos uma forte opinião contrária. Não somos dos que se levantam
contra os sábios, porque não queremos que digam que nós
os insultamos; nós os temos, ao contrário, em grande estima e ficaríamos
muito honrados de estar entre eles. Porém, suas opiniões não
podem ser em todas as circunstâncias um julgamento irrevogável.
Quando a ciência sai da observação material dos fatos e procura
apreciar e explicar esses fatos, o campo está aberto às hipóteses e às
suposições; cada um defende seu pequeno sistema na intenção de
fazê-lo prevalecer e o sustenta com firmeza. Não vemos todos os dias
as opiniões mais divergentes alternativamente acatadas e rejeitadas,
repelidas como erros absurdos, ou proclamadas como verdades in-
7
23
contestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério de nossos julgamentos,
o argumento incontestável. Na ausência de fatos, a dúvida é opinião
sábia e prudente.
Para as coisas de conhecimento de todos, a opinião dos sábios deve
ser respeitada, e com razão, porque sabem mais e melhor do que a
maioria das pessoas comuns; mas na questão de novos princípios, de
coisas desconhecidas, sua maneira de ver é sempre e apenas uma suposição,
porque não estão mais do que quaisquer outros livres de preconceitos.
Direi até mesmo que o sábio talvez tenha mais preconceitos,
porque uma tendência natural leva-o a submeter tudo ao ponto de vista
em que se especializou: o matemático apenas vê a prova numa demonstração
algébrica, o químico relaciona tudo à ação dos elementos, etc.
Todo homem que se dedica a uma especialização subordina a ela todas
as suas idéias. Fora do seu campo, muitas vezes se perderá, por querer
submeter tudo ao seu modo de ver; é uma conseqüência da fraqueza
humana. Consultarei, de bom grado e com toda a confiança, um químico
sobre uma questão de análise de uma substância, um físico sobre a
energia elétrica, um mecânico sobre a força motriz; mas eles me permitirão,
sem que isso desmereça o respeito que sua especialização merece,
considerar suas opiniões negativas sobre o Espiritismo idênticas ao conceito
de um arquiteto sobre uma questão de música.
As ciências gerais se apóiam nas propriedades da matéria, que pode
ser manipulada e experimentada à vontade; os fenômenos espíritas se
fundamentam na ação das inteligências que têm vontade própria e nos
provam a cada instante que não estão à disposição dos nossos caprichos.
As observações, em vista disso, não podem ser feitas da mesma
maneira; requerem condições diferenciadas, especiais e um outro ponto
de partida. Querer submetê-las aos nossos processos comuns de investigação
é querer estabelecer e forçar semelhanças que não existem.
A ciência propriamente dita, como ciência, é incompetente para pronunciar-
se na questão do Espiritismo; ela não tem que se ocupar com isso, e
qualquer que seja seu julgamento, favorável ou não, não tem nenhuma
importância. O Espiritismo pode vir a ser uma convicção pessoal que os
sábios possam ter como indivíduos, sem considerar a sua qualidade de
sábios, isto é, a sua especialização e o seu saber científico. Contudo,
querer conceder a questão à ciência equivaleria a decidir a existência
da alma por uma assembléia de físicos ou astrônomos. De fato, o
Espiritismo está inteiramente fundamentado na existência da alma e
na sua situação depois da morte; contudo, é extremamente ilógico
pensar que um homem deve ser um grande psicólogo porque é um
grande matemático ou um grande anatomista. O anatomista, ao dissecar
o corpo humano, procura a alma, e como o seu bisturi não a
encontra, como encontra um nervo, ou porque não a vê sair volátil
como um gás, conclui que ela não existe, porque se coloca sob um
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
24
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
ponto de vista exclusivamente material. Resultará que ele tenha razão
contra a opinião universal? Não. Vemos, portanto, que o Espiritismo
não é da competência da ciência.
Quando a crença espírita estiver bastante difundida, quando for
aceita pelas massas, e, a se julgar pela rapidez com que se propaga,
esse tempo não está longe, acontecerá com o Espiritismo o que ocorre
com todas as idéias novas que encontraram oposição: os sábios
irão se render à evidência. Chegarão a ela por si sós e pela força das
coisas. Até lá, é inoportuno desviá-los de seus trabalhos especiais,
para obrigá-los a se ocupar de uma coisa estranha ao seu mundo, que
não está nem nas suas atribuições, nem nos seus programas. Enquanto
isso não ocorre, aqueles que, sem um estudo prévio e aprofundado
da matéria, se pronunciam pela negativa e zombam de todos
os que não estão de acordo com a sua opinião, esquecem que o mesmo
ocorreu com a maior parte das grandes descobertas que honram
a humanidade. Eles se expõem a ver seus nomes incluídos na extensa
lista dos ilustres contestadores das idéias novas e inscritos ao lado
dos membros da erudita assembléia que, em 1752, acolheu com zombaria
e muitos risos o relatório de Franklin18 sobre os pára-raios, julgando-
o indigno de figurar ao lado das comunicações que eram apreciadas;
e desse outro que fez a França perder o benefício da iniciativa
do motor a vapor, declarando que o sistema de Fulton19 era um sonho
irrealizável. Entretanto, essas eram questões da sua competência. Se
essas assembléias, que contavam em seu seio com a elite dos sábios
do mundo, apenas tiveram a zombaria e o sarcasmo por idéias que
não compreendiam e que alguns anos mais tarde deveriam revolucionar
a ciência, os costumes e a indústria, como esperar que uma questão
estranha aos seus trabalhos obtenha melhor acolhimento?
Esses erros lamentáveis de alguns homens de comprovada sabedoria,
indignos de sua memória, não tiraram dos sábios os títulos
com que, em outros campos de ação, se fazem respeitar. Mas acaso é
necessário um diploma oficial para se ter bom senso, e fora das poltronas
acadêmicas somente há tolos e imbecis? Que se observem os
adeptos da Doutrina Espírita, e que avaliem se entre eles somente há
ignorantes, e se o número imenso de homens de mérito que a abraçaram
permite nivelá-la à categoria das crendices populares. Pelo caráter
e pelo saber desses homens, vale bem a pena dizer: uma vez que
eles afirmam, é certo pelo menos que há alguma coisa.
Repetimos ainda que se os fatos de que nos ocupamos ficassem
reduzidos ao movimento mecânico dos objetos, a procura da causa
física desse fenômeno entraria no campo da ciência; mas, desde que
se trata de uma manifestação fora das leis dos homens, ela escapa da
18 - Benjamin Franklin: estadista norte-americano que inventou o pára-raios (N. E.).
19 - Robert Fulton: mecânico norte-americano que inventou a propulsão, o motor a vapor (N. E.).
25
competência da ciência material, porque não se pode exprimir nem
por algarismos, nem pela força mecânica. Quando surge um fato novo
que não se situa no círculo de alguma ciência conhecida, o sábio,
para estudá-lo, deve despojar-se de seu saber e considerar que é um
estudo novo que não se pode fazer com idéias preconcebidas.
O homem que considera que o seu saber é infalível está bem perto
do erro. Mesmo os que defendem as mais falsas idéias apóiam-se
sempre na sua razão, e é em virtude disso que rejeitam tudo que lhes
parece impossível. Aqueles que antigamente repeliram as admiráveis
descobertas de que hoje a humanidade se honra faziam apelo à razão
para as rejeitar; porém, o que se chama razão é, muitas vezes,
somente orgulho disfarçado, e quem quer que se acredite infalível se
coloca como igual a Deus. Dirigimo-nos, portanto, àqueles que são
bastante ponderados para duvidar do que não viram e que, julgando o
futuro pelo passado, não acreditam que o homem tenha chegado ao
seu apogeu, nem que a natureza tenha virado para ele a última página
de seu livro.
A SERIEDADE DA DOUTRINA
Acrescentamos que o estudo de uma doutrina, como a Doutrina
Espírita, que nos lança de repente e em cheio numa ordem de coisas
tão novas e grandiosas, somente pode ser feito por homens sérios,
perseverantes, isentos de prevenções e movidos por uma firme e sincera
vontade de chegar a um resultado esclarecedor. Não podem ser
considerados assim os que julgam, a priori 20, levianamente e sem ter
visto tudo; que não dão a seus estudos nem a seqüência, nem a regularidade,
nem a cautela necessária; e muito menos certas pessoas que,
para não perder a pose de sua reputação de homens de espírito21, se
empenham em encontrar um lado ridículo nas coisas mais verdadeiras,
ou assim julgadas, por pessoas cujo saber, caráter e convicções fazem
jus ao respeito de quem se tem na conta de ser bem-educado. Aqueles
que não julgarem os fatos espíritas dignos de si e de sua atenção que
se calem; ninguém tenciona violentar sua crença, mas que saibam respeitar
a dos outros.
O que caracteriza um estudo sério é a seqüência que se dá a
esse estudo. Deve causar estranheza o fato de não se obter, muitas
vezes, nenhuma resposta sensata às questões, sérias por si próprias,
quando são feitas ao acaso e lançadas à queima-roupa no meio de
enxurradas de perguntas absurdas? Uma questão, aliás, é muitas vezes
complexa e requer, para ser esclarecida, indagações preliminares
20 - A priori: diz-se do conhecimento, afirmação, verdade, etc. anterior à experiência (N. E.).
21 - Homens de espírito: inteligentes, geniais (N. E.).
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
8
26
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
ou complementares. Quem quer aprender uma ciência deve fazer um
estudo metódico dela, começar pelo início e seguir o encadeamento e o
desenvolvimento das idéias. Aquele que sem mais nem menos pergunta
a um sábio algo sobre a ciência da qual nada sabe acaso obterá algum
proveito? E o próprio sábio poderá, com a melhor boa vontade, dar uma
resposta satisfatória? Essa resposta isolada será forçosamente incompleta
e, muitas vezes, por isso mesmo, ininteligível, ou poderá parecer
absurda e contraditória. Acontece exatamente o mesmo nas relações
que estabelecemos com os Espíritos. Se quisermos nos instruir na sua
escola, é preciso fazer um curso com eles, mas proceder exatamente
como entre nós: selecionar os professores e trabalhar com constância.
Dissemos que os Espíritos superiores apenas vêm às reuniões
sérias e, em especial, àquelas em que reina uma perfeita comunhão
de pensamentos e de sentimentos pelo bem. A leviandade e as questões
inúteis os afastam, como, entre os homens, afastam as pessoas
racionais; o campo fica, então, livre à multidão de Espíritos mentirosos
e fúteis, sempre à espreita de ocasiões para zombar e se divertir
à nossa custa. O que devemos esperar de uma reunião dessa natureza
quando desejamos resposta a uma questão séria? Será respondida?
Sim, será, mas respondida por quem? É como se no meio de um
bando de gozadores lançássemos estas questões: o que é a alma?
O que é a morte? E outras também de igual tom recreativo. Se quereis
respostas sérias, sede sérios no verdadeiro sentido da palavra e colocai-
vos de acordo com todas as condições que se requerem. Somente
assim obtereis grandes coisas. Sede mais laboriosos e perseverantes
em vossos estudos; sem isso os Espíritos superiores vos abandonarão,
como faz um professor com seus alunos negligentes.
A DOUTRINA E OS SEUS CONTESTADORES
O movimento dos objetos é um fato comprovado. A questão é
saber se, nesse movimento, há ou não uma manifestação inteligente
e, caso haja, qual é a origem dessa manifestação.
Não trataremos somente do movimento inteligente de alguns objetos,
nem de comunicações verbais, nem mesmo das diretamente escritas
pelo médium. Esse gênero de manifestação, clara e evidente
para aqueles que viram e se aprofundaram no assunto, não é à primeira
vista muito convincente para um observador novato, por não a
entender como independente da vontade do médium. Não trataremos
somente da escrita obtida com a ajuda de um objeto qualquer munido
de um lápis, como o cesto, a prancheta, etc. A maneira como os dedos
do médium ficam colocados sobre o objeto desafia, como já dissemos,
a habilidade mais consumada de poder participar de qualquer
9
27
modo que seja no traçado das letras. Mas admitamos ainda que, por
efeito de uma habilidade maravilhosa, o médium possa enganar o olhar
mais atento. De que maneira explicar a natureza das respostas, quando
estão muito além de todas as idéias e de todos os conhecimentos do
médium? E, que se note bem, não se trata de respostas monossilábicas,
mas muitas vezes de numerosas páginas escritas com a mais espantosa
rapidez, seja espontaneamente, seja sobre um assunto determinado.
Pela mão do médium, mais alheio e avesso à literatura, nascem,
algumas vezes, poesias de uma sublimidade e pureza irrepreensíveis,
que os melhores poetas se dignariam em assinar. O que acrescenta
ainda mais estranheza a esses fatos é que acontecem em todos
os lugares, e que os médiuns se multiplicam ao infinito. Esses fatos
são reais ou não? Para isso, apenas temos uma resposta: vede e observai,
ocasiões não faltarão; mas observai repetidamente, por um período
e obedecendo às condições determinadas.
Diante da evidência, o que respondem os opositores? “Sois”,
dizem, “vítimas do charlatanismo ou joguete de uma ilusão.” Diremos,
primeiramente, que é preciso separar a idéia de charlatanismo de onde
não há lucro; os charlatães não fazem seu trabalho de graça. Isso seria,
então, uma mistificação. Mas por que estranha coincidência tantos mistificadores
teriam combinado em harmonia e concordância para, de um
canto a outro do planeta, agir da mesma forma, produzir os mesmos
efeitos e dar sobre os mesmos assuntos e em tão diversas línguas respostas
idênticas, se não quanto às palavras, pelo menos quanto ao sentido?
E o que levaria pessoas sérias, honradas, instruídas a se prestar a
semelhantes artimanhas e com que objetivo? Como encontrar entre as
crianças a paciência e a habilidade necessárias para esse fim? Porque,
se esses médiuns não são instrumentos passivos, será preciso reconhecer
neles habilidade e conhecimentos incompatíveis com a idade infantil
e com certas posições sociais.
Então, dizem que, se não há trapaças, os dois lados podem ser vítimas
de uma ilusão. Numa avaliação lógica, a qualidade dos testemunhos
tem grande valor; portanto, é o caso de se perguntar se a Doutrina
Espírita, que hoje conta com milhões de seguidores, apenas os recruta
entre os ignorantes? Os fenômenos em que se apóia são tão extraordinários
que compreendemos a dúvida, mas não se pode admitir a pretensão
de alguns incrédulos que julgam ter o privilégio exclusivo do bom
senso e que, sem respeito pela decência ou o valor moral de seus adversários,
tacham, sem cerimônia, de tolos todos que não estão de acordo
com as suas opiniões. Aos olhos de toda pessoa sensata, ajuizada, a
opinião das pessoas esclarecidas, que por muito tempo viram, estudaram
e meditaram um fato, constituirá sempre, se não uma prova, pelo
menos uma probabilidade em seu favor, uma vez que pôde prender a
atenção de homens sérios que não têm interesse em propagar erros,
nem tempo a perder com futilidades.
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
28
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
OBJEÇÕES
Dentre as objeções, há algumas sedutoras, pelo menos na aparência,
que podem induzir ao erro por serem tiradas da observação
dos fenômenos espíritas e serem feitas por pessoas respeitáveis.
Uma delas é que a linguagem de alguns Espíritos não parece
digna da elevação que se supõe em seres sobrenaturais. Mas, se considerarmos
o resumo da Doutrina que apresentamos, seguramente se
concluirá o que os próprios Espíritos nos ensinam: eles não são iguais
nem em conhecimento, nem em qualidades morais, e que não se deve
tomar ao pé da letra tudo o que dizem. Cabe às pessoas sensatas
distinguir o bom do mau. Seguramente, os que, em função disso, concluem
que apenas temos contato com seres maldosos, cuja única
ocupação é a de mistificar, não têm conhecimento das comunicações
que se recebem nas reuniões, onde apenas se manifestam Espíritos
Superiores; caso contrário, não pensariam assim. É lastimável que a
casualidade os tenha levado a ver apenas o lado mau do mundo espírita,
pois é difícil imaginar que por uma tendência de simpatia tenham
atraído para si Espíritos maus, mentirosos ou aqueles cuja linguagem
é revoltante de tão grosseira, em vez dos bons Espíritos. No máximo,
poderíamos concluir que a solidez dos princípios dos opositores da
Dourina Espírita não é bastante poderosa para afastar o mal e que,
encontrando um certo prazer em satisfazer sua curiosidade, os maus
Espíritos aproveitam a oportunidade para se introduzir entre eles, enquanto
os bons se afastam.
Julgar a questão dos Espíritos por esses fatos seria tão pouco
lógico quanto julgar o caráter de um povo pelo que se diz e se faz
numa reunião de alguns amalucados ou de pessoas de má fama, e da
qual não participam nem os sábios, nem as pessoas sensatas. Essas
pessoas se encontram na situação de um estrangeiro que, chegando
a uma grande capital pelo mais pobre e feio subúrbio, julgasse todos
os habitantes pelos costumes e a linguagem desse bairro ínfimo. No
mundo dos Espíritos, há também uma sociedade de bons e de maus.
Portanto, que os opositores da Doutrina estudem bem o que se passa
entre os Espíritos Superiores e ficarão convencidos de que a cidade
celeste encerra outra coisa além da ralé do povo, a camada mais baixa
da sociedade. Mas, perguntam, os Espíritos Superiores vêm até nós?
A isso respondemos: Não fiqueis no subúrbio; vede, observai e julgai.
Os fatos estão aí para todos, a menos que sejam a elas que se apliquem
essas palavras de Jesus: “Têm olhos e não vêem, ouvidos e
não ouvem”.
Uma variante dessa opinião consiste em ver somente nas comunicações
espíritas, e em todos os fenômenos a intervenção de um poder
10
29
diabólico, novo Proteu que se revestiria de todas as formas para melhor
nos enganar. Não a consideramos à altura de um exame sério, por isso
não nos deteremos nela; encontra-se respondida por aquilo que dissemos;
acrescentaremos somente que, se fosse assim, seria preciso convir que o
diabo é algumas vezes muito sábio, razoável e, sobretudo, muito moral, ou,
então, que há também bons diabos.
Como acreditar, de fato, que Deus somente permita ao Espírito do
mal se manifestar para nos perder, sem nos dar, por contrapeso, os
conselhos dos bons Espíritos? Se Ele não o pode impedir, é impotente;
se o pode e não o faz, é incompatível com sua bondade; qualquer destas
suposições seria uma blasfêmia. Notai que admitir a comunicação
dos maus Espíritos é reconhecer em princípio as manifestações; portanto,
a partir do momento que elas existem, isso somente pode acontecer
com a permissão de Deus; como acreditar sem impiedade que
Ele permita o mal com a exclusão do bem? Semelhante doutrina seria
contrária às mais simples noções do bom senso e da religião.
QUE ESPÍRITOS?
Um fato interessante, dizem, é que somente se fala com Espíritos
de pessoas conhecidas e pergunta-se por que só eles se manifestam.
Essa afirmativa é um erro proveniente, como muitos outros, de uma
observação superficial. Entre os Espíritos que se comunicam espontaneamente
há para nós muito mais desconhecidos do que ilustres.
Eles se designam por um nome qualquer e, muitas vezes, por um nome
figurado ou característico. Quanto aos que se evocam, a menos que
não seja um parente ou um amigo, é bastante natural evocar os que
são conhecidos. O nome das pessoas ilustres impressiona mais, é
por isso que são mais notados.
Considera-se estranho também que Espíritos de homens ilustres
venham familiarmente ao nosso chamado e se ocupem, por vezes, de
coisas insignificantes em comparação com as que realizaram durante
a sua vida. Não há nada de espantoso para aqueles que sabem que o
poder ou a consideração que esses homens desfrutaram na Terra não
lhes dá nenhuma supremacia no mundo espiritual; os Espíritos confirmam
nisso as palavras do Evangelho: “Os grandes serão rebaixados
e os pequenos, elevados”, o que se deve entender como a categoria
que cada um de nós virá a ocupar. Assim aquele que foi o primeiro na
Terra pode ser um dos últimos no mundo espiritual; aquele diante do
qual curvávamos a cabeça numa vida pode vir entre nós agora como
o mais humilde operário, porque, ao deixar a vida, deixou toda a sua
grandeza, e o mais poderoso monarca talvez possa estar abaixo do
último de seus soldados.
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
11
30
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
A IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS
Um fato que a observação demonstrou e foi confirmado pelos próprios
Espíritos é que os Espíritos inferiores apresentam-se, muitas vezes,
com nomes conhecidos e respeitados. Quem pode nos assegurar que
aqueles que dizem ter sido, por exemplo, Sócrates, Júlio César, Carlos
Magno, Fénelon, Napoleão, Washington, etc. tenham realmente animado
esses personagens? Essa dúvida existe entre alguns adeptos fervorosos
da Doutrina Espírita; admitem a intervenção e a manifestação dos
Espíritos, mas se perguntam como comprovar sua identidade. Essa comprovação
é, de fato, muito difícil de estabelecer, já que não pode ser
apurada de uma maneira tão prática e simples como por meio de um
documento de identidade. Pode, entretanto, ser feita por alguns indícios.
Quando o Espírito de alguém que conhecemos pessoalmente se
manifesta, seja de um parente ou de um amigo, por exemplo, especialmente
se morreu há pouco tempo, ocorre, em geral, que sua linguagem
está em perfeita relação com o seu caráter; isso já é um indício de identidade.
Mas não há mais dúvida quando esse Espírito fala de coisas
particulares, lembra de fatos de família apenas conhecidos pelo interlocutor.
Um filho não se equivocaria certamente com a linguagem de seu
pai ou de sua mãe, nem os pais com a de seu filho. Algumas vezes,
nessas evocações, acontecem coisas surpreendentes, de forma a convencer
o mais incrédulo. O cético mais endurecido fica, então, maravilhado
com as revelações inesperadas que lhe são feitas.
Uma outra circunstância muito característica vem fundamentar a identidade
do Espírito. Dissemos que a letra do médium muda geralmente
com o Espírito evocado, e que essa escrita se reproduz exatamente igual
a cada vez que o mesmo Espírito se apresenta. Constatou-se, muitas
vezes, que para as pessoas mortas há pouco tempo, essa escrita tem
uma semelhança marcante com a da pessoa quando viva; têm-se visto
assinaturas de uma exatidão perfeita. Estamos longe de dar esse fato,
embora observado, como regra e, principalmente, como uma regra constante;
nós o mencionamos como algo digno de nota.
Somente os Espíritos que atingiram um certo grau de purificação
estão desligados de toda influência corporal. Porém, quando não estão
completamente desmaterializados (é essa a expressão da qual se servem),
conservam a maior parte das idéias, das tendências e até mesmo
das manias que tinham na Terra, o que demonstra o meio de os reconhecermos;
como também numa grande quantidade de fatos e detalhes, que
somente uma observação atenta e firme pode revelar. Vêem-se escritores
discutir suas próprias obras ou suas doutrinas, aprovar ou condenar
certas partes; outros Espíritos a lembrar fatos ignorados ou pouco conhecidos
de sua vida ou de sua morte; enfim, detalhes que são pelo
12
31
menos provas morais de identidade, as únicas a que se pode recorrer
quando se trata de coisas abstratas, isto é, que estão fora da realidade.
Se, portanto, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo
ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para que não o
seja em outros, e se, em relação às pessoas cuja morte ocorreu há
mais tempo, não há os mesmos meios de controle, tem-se sempre o da
linguagem e do caráter que revelam, porque, seguramente, o Espírito
de um homem de bem não falará como um perverso ou um devasso.
Quanto aos Espíritos que se apresentam exibindo nomes respeitáveis,
logo se traem pela linguagem e pelos ensinamentos. Aquele que
dissesse ser Fénelon, por exemplo, e embora acidentalmente ofendesse
o bom senso e a moral, mostraria, por esse simples fato, a fraude.
Se, ao contrário, os pensamentos que exprimisse fossem sempre
puros, sem contradições e constantemente à altura do caráter de
Fénelon, não haveria motivos para duvidar de sua identidade. De qualquer
maneira, seria preciso supor que um Espírito que apenas prega
o bem pode conscientemente empregar a mentira, e isso sem utilidade.
A experiência nos ensina que os Espíritos da categoria, do mesmo
caráter e animados pelos mesmos sentimentos se reúnem em
grupos ou em famílias; que o número de Espíritos é incalculável e
estamos longe de conhecê-los todos; e que até mesmo a maior parte
deles não tem nome para nós. Um Espírito da mesma categoria de
Fénelon pode vir em seu lugar, muitas vezes, enviado a seu pedido;
apresentar-se sob seu nome, pois lhe é idêntico, e substituí-lo, porque
precisamos de um nome para fixar nossas idéias. Mas o que importa,
em definitivo, que um Espírito seja realmente ou não o de Fénelon? A
partir do momento que somente diz coisas boas e que fala como o
próprio Fénelon falaria, é um bom Espírito; o nome com que se apresenta
é indiferente e, muitas vezes, é apenas um meio de fixar nossas
idéias. O mesmo não seria admissível nas evocações dos familiares;
mas aí, como dissemos, a identidade pode ser estabelecida por provas
de alguma forma evidentes.
Contudo, é certo que a substituição dos Espíritos pode ocasionar
uma série de enganos e resultar em erros e, muitas vezes, em mistificações;
essa é uma dificuldade do Espiritismo prático. Mas nunca dissemos
que fosse algo fácil, nem que se pudesse aprendê-lo brincando,
como não se faz com qualquer outra ciência. Nunca será demais repetir
que ele pede um estudo assíduo e, freqüentemente, bastante prolongado;
não podendo provocar os fatos, é preciso esperar que se apresentem
por si mesmos e, freqüentemente, são conduzidos por circunstâncias com
as quais nem ao menos se sonha. Para o observador atento e paciente,
os fatos se produzem e então ele descobre milhares de detalhes característicos
que representam fachos de luz. É assim também nas ciências
comuns, enquanto o homem superficial vê numa flor apenas uma forma
elegante, o sábio descobre nela tesouros para o pensamento.
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
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O LIVRO DOS ESPÍRITOS
CONTRADIÇÕES ENTRE OS ESPÍRITOS
As observações nos levam a dizer algumas palavras a respeito de
uma outra dificuldade, a da divergência na linguagem dos Espíritos.
Como os Espíritos são muito diferentes uns dos outros nos conhecimentos
e na moralidade, é evidente que a mesma questão pode ser
por eles explicada com sentidos opostos, conforme a categoria que
ocupam, como se ela fosse proposta, entre os homens, ora a um sábio,
ora a um ignorante ou a um gracejador de mau gosto. O ponto
essencial, já o dissemos, é saber a quem se dirige.
Mas, dizem os críticos: como se explica que os Espíritos reconhecidos
por seres superiores não estejam sempre de acordo? Diremos,
primeiramente, que além da causa que acabamos de assinalar há
outras que podem exercer uma certa influência sobre a natureza das
respostas, independentemente da qualidade dos Espíritos. Este é um
ponto importante cuja explicação somente será dada pelo estudo. É
por isso que dizemos que esses estudos requerem uma atenção firme,
uma observação profunda e, principalmente, como em todas as
ciências humanas, continuidade e perseverança. São necessários anos
para fazer um médico medíocre, três quartos da vida para fazer um
sábio; como pretender, em algumas horas, adquirir a ciência do infinito?
Portanto, não nos enganemos: o estudo do Espiritismo é imenso,
toca em todas as questões da metafísica22 e da ordem social, é todo
um mundo que se abre diante de nós; será de espantar que seja preciso
tempo, e muito tempo, para o adquirir?
A contradição, aliás, não é sempre tão evidente quanto pode parecer.
Não vemos, todos os dias, homens que, ensinando a mesma
ciência, divergem quanto à definição de uma coisa, seja ao empregar
termos diferentes, seja ao encará-la sob um outro ponto de vista, ainda
que a idéia fundamental permaneça a mesma? Que se conte, se
possível, o número de definições que foram dadas pela gramática!
Acrescentamos ainda que a forma da resposta depende, muitas vezes,
da forma da pergunta. Seria ingenuidade encontrar uma contradição
onde há apenas uma diferença de palavras. Os Espíritos Superiores
não se prendem de nenhum modo à forma; para eles, o fundo do
pensamento é tudo.
Tomemos por exemplo a definição da alma. Por essa palavra comportar
várias significações, os Espíritos podem, assim como nós, divergir
na definição que lhe dão: um poderá dizer que é o princípio da
22 - Metafísica: é parte da filosofia, um conjunto de conhecimentos racionais (e não de conhecimentos
revelados) em que se procura determinar as regras fundamentais do pensamento, e que
nos dá a chave do conhecimento do real em oposição à aparência (N. E.).
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vida; um outro, chamá-la de centelha anímica23; um terceiro, dizer que
é interna; um quarto, que é externa, etc., e todos terão razão em seu
ponto de vista. Poderíamos até mesmo acreditar que alguns deles,
em vista da sua definição, ensinassem teorias materialistas e, entretanto,
não é assim. Ocorre o mesmo em relação a Deus; Ele será: o
Princípio de todas as coisas, o Criador do universo, a Soberana inteligência,
o Infinito, o Grande Espírito, etc., etc. e decisivamente será
sempre Deus. Citamos, por fim, a classificação dos Espíritos. Eles
formam uma escala contínua desde o grau inferior até o superior; portanto,
a classificação não é rígida: um poderia estabelecer três classes;
um outro, cinco, dez ou vinte, à vontade, sem estar, por isso, em
erro. Também as ciências humanas nos oferecem o exemplo: cada
sábio tem o seu sistema, os sistemas mudam, mas a ciência não. Que
se aprenda botânica pelo sistema de Lineu, de Jussieu ou de Tournefort24
e não será menos botânica. Deixemos de dar, portanto, às coisas
de pura convenção mais importância do que merecem, para nos
ocupar daquilo que é verdadeiramente sério, e a reflexão nos fará
descobrir, muitas vezes, naquilo que parece mais contraditório, uma
semelhança que nos havia escapado à primeira vista.
MANEIRAS E MÉTODOS/ERROS DE ORTOGRAFIA
Não nos deteríamos sobre a objeção de alguns críticos às falhas
de ortografia de alguns Espíritos, se ela não nos permitisse fazer, sobre
o fato, uma observação essencial. A ortografia deles, é preciso
dizer, nem sempre é impecável; mas é necessário não ter mais nenhum
argumento para fazer disso objeto de uma crítica séria, alegando que,
uma vez que os Espíritos sabem tudo, devem saber ortografia. Poderíamos
apontar numerosos pecados desse gênero cometidos por mais
de um sábio da Terra, o que não lhes tira em nada o mérito; entretanto,
há nesse fato uma questão mais importante: para os Espíritos e
principalmente para os Espíritos Superiores, a idéia é tudo, a forma
não é nada. Desligados da matéria, sua linguagem é rápida como o
pensamento, uma vez que é o próprio pensamento que se comunica
sem intermediário; em vista disso, devem sentir-se constrangidos, pouco
à vontade, quando são obrigados, para se comunicar conosco, a
se servir de formas longas e confusas da linguagem humana, agravadas
pela insuficiência e imperfeição dessa linguagem para exprimir
todas as idéias; é o que eles próprios dizem. É curioso também ver os
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
23 - Centelha anímica: princípio da vida espiritual; corpo espiritual; o Espírito (N. E.).
24 - Lineu, Jussieu e Tournefort: naturalistas e botânicos, sendo o primeiro sueco e os outros
dois franceses (N. E.).
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O LIVRO DOS ESPÍRITOS
meios que empregam para atenuar esse inconveniente. Certamente
faríamos o mesmo se tivéssemos que nos exprimir numa língua mais
longa em palavras e expressões e mais pobre do que aquela que nos é
usual. É o embaraço que experimenta o homem de gênio, como podemos
imaginar, se impacientando com a lentidão de sua caneta, que
está sempre atrás de seu pensamento. Concebe-se, por essa razão,
que os Espíritos dêem pouca importância ao detalhe da pobreza das
regras ortográficas, quando se trata especialmente de um ensinamento
sério. Já não é maravilhoso, aliás, que eles se exprimam indiferentemente
em todas as línguas e as compreendam todas? Entretanto, não
devemos concluir que a correção convencional da linguagem lhes seja
desconhecida; eles a observam quando necessário. É assim, por exemplo,
que a poesia ditada por eles, muitas vezes, desafia a crítica mais
meticulosa, e isso apesar da ignorância do médium.
A LOUCURA E O ESPIRITISMO
Há também pessoas que vêem perigo em todos os lugares e em
tudo o que não conhecem e rapidamente apontam uma conseqüência
desfavorável no fato de algumas pessoas, ao estudar a Doutrina Espírita,
terem perdido a razão. Como é que homens de bom senso podem ver
nesse fato uma objeção séria? Não ocorre o mesmo com todas as preocupações
intelectuais sobre um cérebro fraco? Sabe-se lá o número de
loucos e maníacos produzidos pelos estudos matemáticos, médicos,
musicais, filosóficos e outros? É preciso, por causa disso, banir esses
estudos? O que prova esse fato? Muitas vezes os trabalhos corporais
deformam ou mutilam os braços e as pernas, que são os instrumentos da
ação material; pode acontecer que os trabalhos da inteligência danifiquem
o cérebro, o instrumento pelo qual o pensamento se expressa.
Mas se o instrumento está quebrado, o Espírito está intacto, e quando se
libertar do corpo vai se achar de posse e na plenitude de suas capacidades.
É dessa maneira, como homem, um mártir do trabalho.
Qualquer uma das grandes preocupações do Espírito pode ocasionar
a loucura: as ciências, as artes e a própria religião mostram-nos
vários casos. A loucura tem como causa principal uma predisposição
orgânica do cérebro, que o torna mais ou menos acessível a algumas
impressões. Se houver predisposição para a loucura, ela assume um
caráter de preocupação principal, se transformando em idéia fixa, podendo
tanto ser a dos Espíritos, em quem com eles se ocupou, como poderá
ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de
uma ciência, da maternidade ou a de um sistema político-social. É provável
que um louco religioso se tornasse um louco espírita, se o Espiritismo
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fosse sua preocupação dominante, como um louco espírita o teria sido
sob uma outra forma, segundo as circunstâncias.
Digo, portanto, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio nessa
relação; e digo mais, afirmo que, se bem compreendido, o Espiritismo
é uma defesa contra a loucura.
Entre as causas mais comuns de superexcitação cerebral, ou seja,
do desequilíbrio mental, estão as decepções, as infelicidades, as afeições
contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais freqüentes
de suicídio. Assim é que o verdadeiro espírita vê as coisas
deste mundo de um ponto de vista mais elevado; elas lhe parecem tão
pequenas, tão mesquinhas, diante do futuro que o espera; a vida é
para ele tão curta, tão passageira, que as tribulações são, a seus
olhos, apenas incidentes desagradáveis de uma viagem. O que em
qualquer outro produziria uma violenta emoção pouco o afeta; sabe,
além de tudo, que os desgostos da vida são provas que servem para
o seu adiantamento, se as suporta sem lamentar, porque será recompensado
segundo a coragem com que as tiver suportado. Suas convicções
lhe dão uma resignação que o protege do desespero e, por
conseqüência, de uma causa freqüente de loucura e suicídio. Ele sabe,
por outro lado, por observar as comunicações com os Espíritos, o
destino dos que encurtaram voluntariamente seus dias, e esse quadro
é muito sério para fazê-lo refletir; também o número de pessoas
que por causa disso se detiveram sobre essa inclinação fatal é considerável.
Esse é um dos resultados do Espiritismo. Que os incrédulos
riam dele quanto quiserem. Desejo-lhes as consolações que ele
proporciona a todos que se dão ao trabalho de sondar-lhe as misteriosas
profundezas.
Ao número das causas de loucura é preciso ainda adicionar o dos
temores, e entre estes o medo do diabo, que provocou o desequilíbrio
de mais de um cérebro. Sabe-se lá o número de vítimas que se fez ao
amedrontar as fracas imaginações com esse quadro que se procura
tornar sempre mais pavoroso com terríveis detalhes? O diabo que,
dizem, apenas mete medo às criancinhas, é um freio para torná-las
ajuizadas, como o bicho-papão e o lobisomem. Contudo, quando não
têm mais medo deles, tornam-se piores; e esse belo resultado não é
levado em conta no número das epilepsias25 causadas pelo abalo em
cérebros delicados. A religião seria bem fraca se não gerasse medo,
sua força correria risco, seria abalada. Felizmente não é assim, há
outros meios de ação sobre as almas; o Espiritismo lhe aponta os
mais eficazes e os mais sérios, se souber usá-los com proveito; mostra
a realidade das coisas e com isso neutraliza os efeitos desastrosos
de um temor exagerado.
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
25 - Epilepsia: distúrbio do cérebro (sistema nervoso); disritmia cerebral que provoca contração
muscular involuntária e convulsões (N. E.).
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O LIVRO DOS ESPÍRITOS
TEORIAS ENGANADORAS
Resta-nos examinar duas objeções; as únicas que merecem verdadeiramente
esse nome, porque são baseadas em teorias racionais.
Ambas admitem a realidade de todos os fenômenos materiais e morais,
mas excluem a intervenção dos Espíritos.
A primeira dessas teorias diz que todas as manifestações atribuídas
aos Espíritos não seriam outra coisa senão efeitos magnéticos.
Os médiuns entrariam num estado que se poderia chamar de sonambulismo
acordado, fenômeno do qual toda pessoa que estudou o magnetismo
pôde verificar e testemunhar. Nesse estado, as capacidades
intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal; o círculo das percepções
intuitivas se estende além dos limites de nossa concepção
normal. Dessa maneira, o médium tiraria de si mesmo e por efeito de
sua lucidez tudo o que diz e todas as noções que transmite, mesmo
sobre assuntos que lhe são completamente desconhecidos quando
se acha no seu estado normal.
Não seremos nós que contestaremos a força do sonambulismo, do
qual vimos os extraordinários fenômenos e os estudamos em todas as
fases durante mais de 35 anos. Concordamos, de fato, que muitas manifestações
espíritas podem se explicar por ele, mas uma observação
paciente e atenta mostra uma multidão de fatos em que a intervenção do
médium, a não ser como instrumento passivo, é materialmente impossível.
Àqueles que partilham dessa opinião diremos como aos outros: vede e
observai, pois seguramente não vistes tudo. Em seguida propomos duas
considerações tiradas de sua própria doutrina. De onde veio a teoria
espírita? É um sistema imaginado por alguns homens para explicar os
fatos? De modo algum. Quem a revelou? Precisamente esses mesmos
médiuns dos quais exaltais a lucidez. Se, portanto, essa lucidez é exatamente
como a supondes, por que teriam eles atribuído aos Espíritos o
que possuíam em si mesmos? Como dariam esses ensinamentos tão
precisos, lógicos e sublimes sobre a natureza dessas inteligências extrahumanas?
De duas coisas, uma: ou são lúcidos ou não o são; se o são e
se se pode confiar em sua veracidade, não haveria como, sem contradição,
admitir que não estão com a verdade. Em segundo lugar, se todos
os fenômenos tivessem origem no médium, seriam idênticos no mesmo
indivíduo e não se veria a mesma pessoa manifestar-se em linguagens
diferentes e exprimir alternativamente as mais polêmicas idéias. Essa
falta de unidade nas manifestações obtidas por um mesmo médium prova
a diversidade das fontes; se, portanto, não se pode encontrá-las todas no
médium, é preciso procurá-las fora dele.
Uma outra opinião diz que o médium é a fonte das manifestações,
mas, em vez de as tirar de si mesmo, assim como o pretendem os par-
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tidários da teoria sonambúlica, as tira do meio ambiente. Assim sendo, o
médium seria uma espécie de espelho refletindo todas as idéias, pensamentos
e conhecimentos das pessoas que o rodeiam; não diria nada que
já não fosse conhecido pelo menos por alguns. Não se poderia negar, e
isso é mesmo um princípio da Doutrina, a influência exercida pelos assistentes
sobre a natureza das manifestações. Porém, essa influência é
diferente da que os opositores supõem existir, e daí a ser o médium o eco
dos pensamentos daqueles que o rodeiam há uma grande distância, visto
que milhares de fatos demonstram indiscutivelmente o contrário. Portanto,
há nisso um erro grave que atesta, uma vez mais, o perigo das
conclusões prematuras. Essas pessoas, não podendo negar a existência
de um fenômeno que a ciência comum não pode explicar e não querendo
admitir a presença dos Espíritos, o explicam a seu modo. Esta teoria,
embora enganosa, seria atraente se pudesse abraçar todos os fatos,
mas não é assim. Quando se lhes demonstra com a clareza mais lógica
que algumas comunicações do médium são completamente estranhas
ao pensamento, aos conhecimentos, às próprias opiniões de todos os
assistentes, que essas comunicações são, muitas vezes, espontâneas e
contradizem todas as idéias preconcebidas, eles não recuam e nem se
dão por convencidos. A irradiação, dizem, estende-se muito além do círculo
imediato que nos rodeia; o médium é o reflexo de toda a humanidade,
de forma que, se não tira suas inspirações das coisas que estão ao
seu redor, vai procurá-las fora, na cidade, no país, em todo o globo e
mesmo em outras esferas.
Não creio que se encontre nessa teoria uma explicação mais simples
e mais provável que a do Espiritismo, embora revele uma causa
bem mais maravilhosa. Porém, a idéia de que seres inteligentes povoam
os espaços e que, estando em contato permanente conosco,
nos comunicam seus pensamentos, nada tem que choque mais a razão
do que se supor que essa irradiação universal vinda de todos os pontos
do universo possa concentrar-se no cérebro de um indivíduo.
Ainda uma vez, e esse é um ponto importante sobre o qual nunca
é demais insistir: tanto a teoria sonambúlica quanto a que se poderia
chamar refletiva foram imaginadas por alguns homens; são opiniões
individuais criadas para explicar um fato, enquanto a Doutrina dos
Espíritos não é de concepção humana. Foi ditada pelas próprias inteligências
que se manifestaram quando ninguém sequer a concebia e
que a própria opinião geral a repelia. Portanto, perguntamos: de onde
os médiuns foram tirar uma doutrina que não existia no pensamento de
ninguém na Terra? E perguntamos mais: por que estranha coincidência
milhares de médiuns espalhados por todos os pontos do globo, que
nunca se viram, combinaram dizer a mesma coisa? Se o primeiro
médium que apareceu na França revelou a influência das mesmas opiniões
já aceitas nos Estados Unidos, por que razão teria ido procurar
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
38
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
essas idéias a 2000 léguas além dos mares, entre um povo de costumes
e linguagem estranhos, em vez de procurá-las ao seu redor?
Mas há uma outra particularidade sobre a qual não se tem pensado
o suficiente. É que as primeiras manifestações, tanto na França quanto
nos Estados Unidos, não ocorreram pela escrita, nem pela fala, mas por
pancadas que concordavam com as letras do alfabeto formando palavras
e frases. Foi por esse meio que as inteligências que se revelavam
declararam ser Espíritos. Se pudermos, portanto, supor que haja a intervenção
do pensamento dos médiuns nas comunicações verbais ou
escritas, o mesmo não pode ter ocorrido com as pancadas, cuja significação
não poderia ser conhecida com antecedência.
Poderíamos citar muitos outros fatos que demonstram, na inteligência
que se manifesta, uma individualidade evidente e uma independência
absoluta de vontade. Remetemos, entretanto, os discordantes a uma observação
mais atenta, e se querem estudar sem prevenção e não concluir
antes de terem visto tudo, reconhecerão a fragilidade de sua teoria
para explicar os fatos. Nós nos limitaremos a colocar as questões seguintes:
por que a inteligência que se manifesta, seja ela qual for, recusa-se a
responder a algumas questões sobre assuntos perfeitamente conhecidos,
como, por exemplo, sobre o nome ou a idade do interrogador, sobre
o que tem na mão, o que fez na véspera e o que fará no dia seguinte, etc.?
Se o médium é de fato o espelho do pensamento dos assistentes, nada
haveria de ser mais fácil do que dar essas respostas.
Os adversários retrucam o argumento ao perguntar, por sua vez,
por que os Espíritos, que devem saber tudo, não podem responder a
coisas tão simples, de acordo com o axioma26 Quem pode o mais
pode o menos, concluindo, daí, que não são respostas dos Espíritos.
Se um ignorante ou um zombador se apresentasse diante de uma
assembléia de sábios e perguntasse, por exemplo, por que faz dia em
pleno meio-dia, acredita-se que alguém se desse ao trabalho de responder
seriamente? Seria razoável por isso concluir, pelo silêncio ou
desdém que se desse ao interrogador, que os componentes dessa
assembléia são tolos? Portanto, é precisamente porque os Espíritos
são superiores que não respondem às questões inúteis e ridículas e
não querem se pôr em evidência, é por isso que se calam ou dizem se
ocupar com coisas mais sérias.
Perguntaremos, por fim, por que os Espíritos vêm e vão freqüentemente
num dado momento, e por que, passado esse momento, não
há preces nem súplicas que os possam trazer de volta? Se o médium
somente agisse como um reflexo do impulso mental dos assistentes,
é evidente que, nessa circunstância, o concurso de todas as vontades
reunidas deveria estimular sua clarividência. Se não cede ao desejo
26 - Axioma: princípio evidente que é aceito como universalmente verdadeiro, sem exigência de
demonstração (N. E.).
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da assembléia, fortalecido também por sua própria vontade, é porque
obedece a uma influência estranha a ele mesmo e aos que estão à
sua volta, e que essa influência demonstra, por esse fato, sua independência
e sua individualidade.
A DOUTRINA E AS OBRAS DE DEUS
A descrença com que se têm referido à Doutrina Espírita, quando
não é o resultado de uma oposição sistemática interesseira, tem quase
sempre origem no conhecimento incompleto dos fatos, o que não impede
algumas pessoas de abordar e decidir a questão como se a conhecessem
perfeitamente. Pode-se ser muito inteligente, ter muita instrução
e não se ter bom senso; portanto, o primeiro indício de falta de discernimento
quando se julga é acreditar ser infalível. Muitas pessoas também
vêem as manifestações espíritas somente como curiosidade; esperamos
que pela leitura deste livro elas encontrem nesses extraordinários fenômenos
outra coisa além de um simples passatempo.
A ciência espírita compreende duas partes: uma experimental,
sobre as manifestações em geral, e outra filosófica, sobre as manifestações
inteligentes. Todo aquele que somente observou a primeira
está na posição de quem conhece a física apenas por experiências
recreativas, sem ter penetrado a fundo na ciência. A verdadeira Doutrina
Espírita está no ensinamento dado pelos Espíritos, e os conhecimentos
que esse ensinamento comporta são muito sérios para serem
adquiridos de qualquer outro modo que não seja por um estudo atencioso
e contínuo, feito no silêncio e no recolhimento, porque somente
nessa condição pode-se observar um número infinito de fatos e de
detalhes que escapam ao observador superficial e permitem firmar
uma opinião. Se este livro não tivesse outra finalidade que não fosse
mostrar o lado sério da questão e de provocar estudos nesse sentido,
para nós já seria bastante honroso e ficaríamos felizes por ter realizado
uma obra a que não pretendemos, de resto, nos atribuir mérito pessoal,
uma vez que seus princípios não são de nossa criação e o seu
mérito é inteiramente dos Espíritos que a ditaram. Esperamos que ela
tenha um outro resultado: o de guiar os homens desejosos de se
esclarecer, mostrando-lhes nestes estudos um objetivo grande e
sublime: o do progresso individual e social, e de lhes indicar o caminho
a seguir para atingi-lo.
Concluímos com uma última consideração. Os astrônomos, ao
sondar os espaços, encontraram na distribuição dos corpos celestes
lacunas não justificadas e em desacordo com as leis do conjunto. Eles
supuseram que essas lacunas deveriam estar ocupadas por globos
que escapavam à sua observação, mas, ao mesmo tempo, observa-
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
17
40
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
ram alguns efeitos cuja causa desconheciam e concluíram: “Aí deve
haver um mundo, porque essa lacuna não pode existir e esses efeitos
devem ter uma causa”. Analisando, então, a causa pelo efeito, puderam
calcular os elementos, e mais tarde os fatos vieram justificar suas
previsões. Apliquemos esse mesmo raciocínio a uma outra ordem de
idéias. Se observarmos todas as criaturas, verificaremos que formam
uma cadeia, sem interrupção, desde a matéria bruta até o homem
mais inteligente. Mas entre o homem e Deus, o alfa e o ômega27 de
todas as coisas, que imensa lacuna! É racional pensar que terminem
no homem os elos dessa cadeia? Ou que ele possa transpor de uma
vez a distância que o separa do infinito? A razão nos diz que entre o
homem e Deus deve haver outros escalões, como disse aos astrônomos
que entre os mundos conhecidos devia haver outros mundos desconhecidos.
Qual é a filosofia que preencheu essa lacuna? O Espiritismo
a mostra ocupada por seres de todas as categorias do mundo
invisível, e esses seres não são outros senão os Espíritos dos homens
que atingiram os diferentes graus que conduzem à perfeição;
então, tudo se liga, tudo se encaixa, desde o alfa até o ômega. Vós
que negais a existência dos Espíritos, preenchei, portanto, o vazio
que eles ocupam; e vós que rides deles, ousai rir das obras de Deus e
de seu grande poder!
Allan Kardec
27 - Alfa e ômega: respectivamente a primeira e a última letra do alfabeto grego. Neste caso, o
princípio e o fim (N. E.).
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Princípios Básicos
Os fenômenos que estão além das leis da ciência comum se manifestam
por toda parte e revelam na causa que os produz a ação de
uma vontade livre e inteligente.
A razão diz que um efeito inteligente deve ter como causa uma
força inteligente, e os fatos provaram que essa força pode entrar em
comunicação com os homens por meio de sinais materiais.
Essa força, interrogada sobre sua natureza, declarou pertencer
ao mundo dos seres espirituais que se libertaram do corpo carnal do
homem. Foi assim que a Doutrina dos Espíritos foi revelada.
As comunicações entre o mundo espírita e o mundo corporal estão
na ordem natural das coisas e não constituem nenhum fato sobrenatural,
é por isso que seus vestígios são encontrados entre todos os povos e em
todas as épocas e hoje são comuns e evidentes para todos.
Os Espíritos anunciam que os tempos marcados pela Providência
para uma manifestação universal chegaram e que, sendo os mensageiros
de Deus e os agentes de sua vontade, sua missão é instruir
e esclarecer os homens ao abrir uma nova era para a regeneração da
humanidade.
Este livro contém os seus ensinamentos, foi escrito por ordem e
sob o ditado dos Espíritos Superiores para estabelecer os fundamentos
de uma filosofia racional, isenta dos preconceitos sistemáticos;
não contém nada que não seja a expressão do pensamento deles e
que não tenha sido submetido ao seu controle. Somente a ordem e a
distribuição metódica das matérias, assim como as notas e a forma
de algumas partes da redação, são obra daquele que recebeu a missão
de publicá-lo.
42
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Entre os Espíritos que concorreram para a realização desta obra,
muitos viveram em diversas épocas na Terra, onde pregaram e praticaram
a virtude e a sabedoria; outros não pertencem, pelo nome, a
nenhum personagem cuja lembrança a história tenha guardado, mas
sua elevação é atestada pela pureza dos seus ensinamentos e sua
união com aqueles que trazem nomes venerados.
Eis em que termos nos deram por escrito, e por intermédio de
muitos médiuns, a missão de escrever este livro:
“Ocupa-te com zelo e perseverança do trabalho que empreendeste
com a nossa cooperação, porque esse trabalho é nosso. Nele
pusemos as bases do novo edifício que se eleva e deve um dia reunir
todos os homens num mesmo sentimento de amor e de caridade; mas
antes de o publicares, nós o reveremos em conjunto, a fim de verificar
todos os seus detalhes.
Estaremos contigo todas as vezes que o pedires e para te ajudar
em todos os outros trabalhos, porque isso é somente uma parte da
missão que te foi confiada e que já te foi revelada por um de nós.
Entre os ensinamentos que te são dados, há alguns que deves
guardar somente para ti, até nova ordem. Nós vamos te indicar quando
o momento de publicá-los tiver chegado. Enquanto esperas, examinaos
e medita sobre eles, para estares pronto quando o dissermos.
Coloca no início do livro a cepa de vinha que te desenhamos*,
como emblema do trabalho do Criador; todos os princípios materiais
que podem melhor representar o corpo e o Espírito estão nela reunidos:
o corpo é a cepa; o Espírito é o licor; a alma ou o Espírito unido à
matéria é o bago da uva. O homem purifica o Espírito pelo trabalho e tu
sabes que é somente pelo trabalho do corpo que o Espírito adquire
conhecimento.
Não te deixes desencorajar pela crítica. Encontrarás opositores ferozes,
especialmente entre as pessoas interessadas nos abusos. Irás encontrá-
los, também, mesmo entre os Espíritos, porque aqueles que não
são completamente desmaterializados freqüentemente procuram
semear a dúvida pela malícia ou ignorância; mas continua sempre, acredita
em Deus e marcha com confiança: aqui estaremos para te sustentar
e está próximo o tempo em que a Verdade brilhará por toda parte.
A vaidade de alguns homens que acreditam saber tudo e querem
explicar tudo à sua maneira fará surgir opiniões divergentes, mas todos
que tiverem em vista o grande princípio de Jesus vão se irmanar num
mesmo sentimento de amor ao bem e se unir por um laço fraternal que
abrangerá o mundo inteiro. Eles deixarão de lado as disputas mesqui-
* A cepa (ramo de parreira) que se vê na pág. 41 é a reprodução fiel da que foi desenhada pelos
Espíritos (Nota de Kardec).
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nhas de palavras para apenas se ocupar das coisas essenciais, e a Doutrina
será sempre a mesma, quanto ao fundo, para todos aqueles que
receberem as comunicações dos Espíritos Superiores.
É com a perseverança que chegarás a recolher o fruto de teus
trabalhos. O prazer que experimentarás ao ver a Doutrina se propagar
e ser compreendida será uma recompensa da qual conhecerás todo o
valor, talvez mais no futuro do que no presente. Não te inquietes, portanto,
com os espinhos e as pedras que os incrédulos ou os maus
semearão no teu caminho; conserva a confiança: com a confiança
chegarás ao objetivo e merecerás ser sempre ajudado.
Lembra-te que os bons Espíritos somente assistem aos que servem
a Deus com humildade e desinteresse e repudiam todo aquele
que procura no caminho do céu um degrau para conquistar as coisas
da Terra; eles se distanciam dos orgulhosos e ambiciosos. O orgulho
e a ambição serão sempre uma barreira entre o homem e Deus; são
um véu lançado sobre as claridades celestes, e Deus não pode se
servir do cego para fazer compreender a luz.”
São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo,
São Luís, O Espírito da Verdade, Sócrates, Platão,
Fénelon, Franklin, Swedenborg, etc.
PRINCÍPIOS BÁSICOS
44
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
1 O que é Deus?
– Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.1
2 O que devemos entender por infinito?
– O que não tem começo nem fim; o desconhecido; tudo o que é
desconhecido é infinito.
3 Poderíamos dizer que Deus é infinito?
– Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, que é
insuficiente para definir as coisas que estão acima de sua inteligência.
G Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração.
Dizer que Deus é infinito é tomar o atributo2 de uma coisa por ela
própria, é definir uma coisa que não é conhecida por uma outra igualmente
desconhecida.
PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS
4 Onde podemos encontrar a prova da existência de Deus?
– Num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem
causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e a vossa
razão vos responderá.
G Para acreditar em Deus, basta ao homem lançar os olhos sobre as
obras da criação. O universo existe, portanto ele tem uma causa. Duvidar
da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa e
admitir que o nada pôde fazer alguma coisa.
1 - O texto colocado após o travessão na seqüência das perguntas é a resposta que os Espíritos
deram. O sinal G indica que é um comentário de Kardec às respostas dos Espíritos (N. E.).
2 - Atributo: qualidade de um ser, aquilo que lhe é próprio. Neste caso, ser infinito é uma das
qualidades de Deus entre todas as demais, mas não é só isso, ou não é o bastante para O concebermos
(N. E.).
PARTE PRIMEIRA
AS CAUSAS PRIMÁRIAS
DEUS E O INFINITO
CAPÍTULO
1
DEUS
Deus e o infinito –
Provas da existência de Deus –
Atributos da Divindade – Panteísmo
45
5 Que conclusão podemos tirar do sentimento intuitivo que todos
os homens trazem em si mesmos da existência de Deus?
– A de que Deus existe; de onde lhes viria esse sentimento se repousasse
sobre o nada? É ainda uma conseqüência do princípio de que não
há efeito sem causa.
6 O sentimento íntimo que temos em nós da existência de Deus
não seria o efeito da educação e das idéias adquiridas?
– Se fosse assim, por que vossos selvagens teriam também esse
sentimento?
G Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse o produto
de um ensinamento, não seria universal. Somente existiria naqueles que
tivessem recebido esse ensinamento, como acontece com os conhecimentos
científicos.
7 Poderemos encontrar a causa primária da formação das coisas
nas propriedades íntimas da matéria?
– Mas, então, qual teria sido a causa dessas propriedades? Sempre é
preciso uma causa primária.
G Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas
da matéria seria tomar o efeito pela causa, porque essas propriedades
são elas mesmas um efeito que deve ter uma causa.
8 O que pensar da opinião que atribui a formação primária a uma
combinação acidental e imprevista da matéria, ou seja, ao acaso?
– Outro absurdo! Que homem de bom senso pode conceber o acaso
como um ser inteligente? E, além de tudo, o que é o acaso? Nada.
G A harmonia que regula as atividades do universo revela combinações
e objetivos determinados e, por isso mesmo, um poder inteligente.
Atribuir a formação primária ao acaso seria um contra-senso, porque o
acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a inteligência produz.
Um acaso inteligente não seria mais um acaso.
9 Onde é que se vê na causa primária a manifestação de uma
inteligência suprema e superior a todas as inteligências?
– Tendes um provérbio que diz: “Pela obra reconhece-se o autor.”
Pois bem: olhai a obra e procurai o autor. É o orgulho que causa a incredulidade.
O homem orgulhoso não admite nada acima dele; é por isso que
se julga um espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!
G Julga-se o poder de uma inteligência por suas obras. Como nenhum
ser humano pode criar o que a natureza produz, a causa primária
é, portanto, uma inteligência superior à humanidade.
Quaisquer que sejam os prodígios realizados pela inteligência humana,
essa inteligência tem ela mesma uma causa e, quanto mais grandioso for
o que ela realize, maior deve ser a causa primária. É essa inteligência
superior que é a causa primária de todas as coisas, qualquer que seja o
nome que o homem lhe queira dar.
CAPÍTULO 1 DEUS
46
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
ATRIBUTOS DA DIVINDADE
10 O homem pode compreender a natureza íntima de Deus?
– Não, falta-lhe, para isso, um sentido.
11 Um dia será permitido ao homem compreender o mistério da
Divindade?
– Quando seu Espírito não estiver mais obscurecido pela matéria e,
pela sua perfeição, estiver mais próximo de Deus, então o verá e o compreenderá.
G A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender
a natureza íntima de Deus. Na infância da humanidade, o homem O
confunde muitas vezes com a criatura, da qual lhe atribui as imperfeições;
mas, à medida que o senso moral nele se desenvolve, seu pensamento
compreende melhor o fundo das coisas e ele faz uma idéia de Deus mais
justa e mais conforme ao seu entendimento, embora sempre incompleta.
12 Se não podemos compreender a natureza íntima de Deus,
podemos ter idéia de algumas de suas perfeições?
– Sim, de algumas. O homem as compreende melhor à medida que
se eleva acima da matéria. Ele as pressente pelo pensamento.
13 Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial,
único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, não temos
uma idéia completa de seus atributos?
– Do vosso ponto de vista, sim, porque acreditais abranger tudo. Mas
ficai sabendo bem que há coisas acima da inteligência do homem mais
inteligente e que a vossa linguagem, limitada às vossas idéias e sensações,
não tem condições de explicar. A razão vos diz, de fato, que Deus
deve ter essas perfeições em grau supremo, porque se tivesse uma só de
menos, ou que não fosse de um grau infinito, não seria superior a tudo e,
por conseguinte, não seria Deus. Por estar acima de todas as coisas, Ele
não pode estar sujeito a qualquer instabilidade e não pode ter nenhuma
das imperfeições que a imaginação possa conceber.
G Deus é eterno. Se Ele tivesse tido um começo teria saído do nada,
ou teria sido criado por um ser anterior. É assim que, de degrau em
degrau, remontamos ao infinito e à eternidade.
É imutável; se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o
universo não teriam nenhuma estabilidade.
É imaterial, ou seja, sua natureza difere de tudo o que chamamos
matéria; de outro modo não seria imutável, porque estaria sujeito às
transformações da matéria.
É único; se houvesse vários deuses, não haveria unidade de desígnios,
nem unidade de poder na ordenação do universo.
É todo-poderoso, porque é único. Se não tivesse o soberano poder,
haveria alguma coisa mais ou tão poderosa quanto Ele; não teria feito
todas as coisas e as que não tivesse feito seriam obras de um outro Deus.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
47
É soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das Leis
Divinas se revela nas menores como nas maiores coisas, e essa sabedoria
não permite duvidar de sua justiça nem de sua bondade.
PANTEÍSMO
14 Deus é um ser distinto, ou seria, segundo a opinião de alguns,
resultante de todas as forças e de todas as inteligências do universo
reunidas?
– Se fosse assim, Deus não existiria, porque seria o efeito e não a causa;
Ele não pode ser ao mesmo tempo uma e outra coisa.
Deus existe, não podeis duvidar disso, é o essencial. Crede em mim, não
deveis ir além, não vos percais num labirinto de onde não podereis sair, isso
não vos tornaria melhores, mas talvez um pouco mais orgulhosos, porque
acreditaríeis saber e na realidade não saberíeis nada. Deixai de lado todos
esses sistemas; tendes muitas coisas que vos tocam mais diretamente, a
começar por vós mesmos. Estudai vossas próprias imperfeições a fim de vos
desembaraçar delas, isso vos será mais útil do que querer penetrar no que é
impenetrável.
15 O que pensar da opinião de que todos os corpos da natureza,
todos os seres, todos os globos do universo, seriam parte da Divindade
e constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade, ou seja, o
que pensar da doutrina panteísta?
– O homem, não podendo se fazer Deus, quer pelo menos ser uma
parte d’Ele.
16 Aqueles que acreditam nessa doutrina pretendem nela encontrar
a demonstração de alguns atributos de Deus. Sendo os mundos
infinitos, Deus é, por isso mesmo, infinito; não havendo o vazio ou
o nada em nenhuma parte, Deus está, portanto, em toda parte; Deus,
estando por toda parte, uma vez que tudo é parte integrante de Deus,
dá a todos os fenômenos da natureza uma razão de ser inteligente. O
que se pode opor a esse raciocínio?
– A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer o
absurdo disso.
G Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de
uma inteligência suprema, seria em tamanho grande o que nós somos
em tamanho pequeno. Uma vez que a matéria se transforma sem parar,
se assim for, Deus não teria nenhuma estabilidade, estaria sujeito a todas
as mudanças e variações, a todas as necessidades da humanidade, e
lhe faltaria um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade.
Não se pode imaginar que são as mesmas as propriedades da matéria
e a essência de Deus, sem O rebaixar na nossa concepção. Todas as
CAPÍTULO 1 DEUS
48
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
sutilezas do sofisma3 não conseguirão resolver o problema na sua natureza
íntima. Não sabemos tudo o que Deus é, mas sabemos o que não
pode deixar de ser, e a teoria do panteísmo está em contradição com
suas propriedades mais essenciais; ela confunde o criador com a criatura,
exatamente como se afirmasse categoricamente que uma máquina
engenhosa fosse parte integrante do mecânico que a concebeu.
A inteligência de Deus se revela em suas obras como a de um pintor
em seu quadro, mas as obras de Deus não são o próprio Deus, assim
como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.
3 - Sofisma: argumento falso, enganoso, feito de propósito para induzir ao erro (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
49
17 É permitido ao homem conhecer o princípio das coisas?
– Não, Deus não permite que tudo seja revelado ao homem aqui na Terra.
18 O homem penetrará um dia no mistério das coisas que lhe são
ocultas?
– O véu se levanta para ele à medida que se depura; mas, para compreender
algumas coisas, precisa de faculdades, dons, que ainda não possui.
19 O homem não pode, pelas investigações das ciências, penetrar
em alguns dos segredos da natureza?
– A ciência lhe foi dada para seu adiantamento em todas as coisas,
mas não pode ultrapassar os limites fixados por Deus.
G Quanto mais é permitido ao homem penetrar pelo conhecimento
nesses segredos, maior deve ser sua admiração pelo poder e sabedoria
do Criador; mas, seja pelo orgulho ou fraqueza, sua própria inteligência
o torna, muitas vezes, joguete da ilusão. Amontoa sistemas sobre sistemas
e cada dia que passa lhe mostra quantos erros tomou por verdades
e quantas verdades rejeitou como erros. São outras tantas decepções
para o seu orgulho.
20 Fora das investigações da ciência, é permitido ao homem receber
comunicações de uma ordem mais elevada sobre o que escapa
ao alcance dos seus sentidos?
– Sim, se Deus julgar útil, pode revelar o que a ciência não consegue
apreender.
G É por essas comunicações que o homem obtém, dentro de certos
limites, o conhecimento de seu passado e de sua destinação futura.
ESPÍRITO E MATÉRIA
21 A matéria existe desde o princípio, como Deus, ou foi criada
por Ele em determinado momento?
– Somente Deus o sabe. Entretanto, há uma coisa que a vossa razão
deve deduzir: é que Deus, modelo de amor e caridade, nunca esteve
inativo. Por mais remoto que possa vos parecer o início de sua ação, acaso
o podereis imaginar por um segundo sequer na ociosidade?
CONHECIMENTO DO PRINCÍPIO DAS COISAS
CAPÍTULO
2
ELEMENTOS GERAIS DO UNIVERSO
Conhecimento do princípio das coisas –
Espírito e matéria – Propriedades da matéria –
Espaço universal
50
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
22 Define-se, geralmente, a matéria como sendo o que tem extensão,
o que pode causar impressão aos nossos sentidos, o que é
impenetrável. Essas definições são exatas?
– Do vosso ponto de vista são exatas, visto que somente falais do que
conheceis. Mas a matéria existe em estados que para vós são desconhecidos.
Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil que não cause nenhuma
impressão aos vossos sentidos; entretanto, é sempre matéria, embora
para vós não o seja.
22 a Que definição podeis dar da matéria?
– A matéria é o laço que prende o Espírito; é o instrumento de que ele
se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação.
G De acordo com essa idéia, pode-se dizer que a matéria é o agente,
o intermediário, com a ajuda do qual, e sobre o qual, atua o Espírito.
23 O que é o Espírito?
– Espírito é o princípio inteligente do universo1.
23 a Qual é a natureza íntima do Espírito?
– Não é fácil explicar o Espírito com a vossa linguagem. Para vós, ele
não é nada, visto que o Espírito não é algo palpável, mas para nós é alguma
coisa. Sabei bem: o nada não é coisa nenhuma, o nada não existe.
24 Espírito é sinônimo de inteligência?
– A inteligência é um atributo essencial do Espírito, mas ambos se confundem
num princípio comum, de modo que, para vós, são a mesma coisa.
25 O Espírito é independente da matéria ou é apenas uma propriedade
dela, como as cores são propriedades da luz e o som uma propriedade
do ar?
– Ambos são distintos, mas é preciso a união do Espírito e da matéria
para que a inteligência se manifeste na matéria.
25 a Essa união é igualmente necessária para a manifestação do
Espírito? (Entendemos, aqui, por espírito o princípio inteligente, e não
as individualidades designadas sob esse nome).
– Ela é necessária para vós, porque não sois organizados para perceber
o Espírito sem a matéria; vossos sentidos não são feitos para isso.
26 Pode-se conceber o Espírito sem a matéria e a matéria sem o
Espírito?
– Pode-se, sem dúvida, pelo pensamento.
27 Haveria, assim, dois elementos gerais do universo: a matéria
e o Espírito?
– Sim, e acima de tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Deus,
Espírito e matéria são o princípio de tudo o que existe, a trindade universal.
Mas ao elemento material é preciso acrescentar o fluido universal, que faz o
1 - Compare essa resposta com a da questão 76. Aqui trata-se do Espírito, princípio inteligente,
e não a individualidade. Veja a questão 25-a (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
51
papel de intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita, muito
grosseira para que o Espírito possa ter uma ação sobre ela. Ainda que sob
certo ponto de vista se possa incluí-lo no elemento material, ele se distingue
por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse matéria, não haveria
razão para que o Espírito não o fosse também. Ele está colocado entre o
Espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria; suscetível, por suas
inumeráveis combinações com ela e sob a ação do Espírito, de poder produzir
uma infinita variedade de coisas das quais conheceis apenas uma pequena
parte. Esse fluido universal, primitivo, ou elementar, sendo o agente que o Espírito
utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de
dispersão e nunca adquiriria as propriedades que a força da gravidade lhe dá.
27 a Seria esse fluido o que designamos sob o nome de eletricidade?
– Dissemos que ele é suscetível de inumeráveis combinações; o que
chamais fluido elétrico, fluido magnético, são modificações do fluido universal,
que é, propriamente falando, uma matéria mais perfeita, mais sutil e
que se pode considerar como independente.
28 Uma vez que o próprio Espírito é alguma coisa, não seria mais
exato e menos sujeito a confusões designar esses dois elementos
gerais pelas palavras: matéria inerte e matéria inteligente?
– As palavras pouco nos importam; cabe a vós formular vossa linguagem
de maneira a vos entenderdes. Vossas controvérsias surgem quase sempre
do que não compreendeis sobre as palavras que usais, porque vossa linguagem
é incompleta para as coisas que os vossos sentidos não percebem.
G Um fato notório domina todas as hipóteses: vemos matéria sem
inteligência e vemos um princípio inteligente independente da matéria. A
origem e a ligação dessas duas coisas nos são desconhecidas. Se elas
vêm ou não de uma fonte comum, se há pontos de contato entre elas, se a
inteligência tem sua existência própria ou se é uma propriedade, um efeito
ou mesmo, conforme a opinião de alguns, se é uma emanação da Divindade,
é o que ignoramos. Elas nos aparecem distintas, é por isso que nós as
admitimos como formando dois princípios que constituem o universo. Vemos
acima de tudo isso uma inteligência que domina todas as outras e as
governa, que se distingue por seus atributos essenciais. É a essa inteligência
suprema que chamamos Deus.
PROPRIEDADES DA MATÉRIA
29 A ponderabilidade2 é um atributo essencial da matéria?
– Da matéria, assim como a entendeis, sim; mas não da matéria considerada
como fluido universal. A matéria etérea e sutil que forma esse
fluido é imponderável para vós, mas nem por isso deixa de ser o princípio
de vossa matéria pesada.
CAPÍTULO 2 ELEMENTOS GERAIS DO UNIVERSO
2 - Ponderabilidade: que se pode medir, pesar, quantificar (N. E.).
52
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
G A gravidade3 é uma propriedade relativa. Fora das esferas de
atração dos mundos, não há peso, do mesmo modo que não há nem
acima, nem abaixo.
30 A matéria é formada de um único ou de vários elementos?
– De um único elemento primitivo. Os corpos que considerais
simples não são verdadeiros elementos, mas transformações da matéria
primitiva.
31 De onde vêm as diferentes propriedades da matéria?
– São modificações que as moléculas4 elementares sofrem por sua
união e em determinadas circunstâncias.
32 Diante disso, os sabores, os odores, as cores, o som, as qualidades
venenosas ou salutares dos corpos apenas seriam modificações
de uma única e mesma substância primitiva?
– Sim, sem dúvida, e que apenas existem pela disposição dos órgãos
destinados a percebê-los.
G Esse princípio é demonstrado pelo fato de que nem todo mundo
percebe as qualidades dos corpos da mesma maneira: um acha uma
coisa agradável ao gosto, outro a acha ruim; uns vêem azul o que outros
vêem vermelho; o que é um veneno para uns é inofensivo ou salutar
para outros.
33 A mesma matéria elementar é suscetível de passar por todas
as modificações e adquirir todas as propriedades?
– Sim, e é o que se deve entender quando dizemos que tudo está em
tudo*.
G O oxigênio, o hidrogênio, o azoto, o carbono e todos os corpos que
consideramos como simples são somente modificações de uma substância
primitiva. Na impossibilidade em que nos encontramos até o presente
de conhecer, a não ser pelo pensamento, essa matéria primitiva,
esses corpos são para nós verdadeiros elementos e podemos, sem maiores
conseqüências, considerá-los assim, até nova ordem.
3 - Gravidade: lei da Física, atração que os planetas e os corpos celestes exercem uns sobre os
outros (N. E.).
4 - Molécula: agrupamento de um ou mais átomos que forma uma substância; a menor quantidade
de matéria (N. E.).
* Esse princípio explica o fenômeno conhecido de todos os magnetizadores e que consiste em
dar, pela vontade, a uma substância qualquer, à água, por exemplo, propriedades muito diversas:
um gosto determinado e mesmo as qualidades ativas de outras substâncias. Uma vez que há
apenas um elemento primitivo e que as propriedades dos diferentes corpos são somente modificações
desse elemento, resulta que a substância mais inofensiva tem o mesmo princípio que a
mais prejudicial. Assim, a água, que é formada de uma parte de oxigênio e de duas de hidrogênio,
torna-se corrosiva duplicando-se a proporção de oxigênio. Uma transformação semelhante pode
se produzir pela ação magnética dirigida pela vontade (N. K.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
53
33 a E essa teoria parece dar razão à opinião daqueles que só
admitem na matéria duas propriedades essenciais, a força e o movimento,
e pensam que todas as outras propriedades são apenas efeitos
secundários, variando de acordo com a intensidade da força e a
direção do movimento?
– Essa opinião é exata. É preciso também acrescentar: conforme a
disposição das moléculas, como vês, por exemplo, num corpo opaco,
que pode tornar-se transparente, e vice-versa.
34 As moléculas têm uma forma determinada?
– Sem dúvida, as moléculas têm uma forma, que não é perceptível
para vós.
34 a Essa forma é constante ou variável?
– Constante para as moléculas elementares primitivas e variável para
as moléculas secundárias, que são somente aglomerações das primeiras;
porque aquilo que chamais molécula ainda está longe da molécula
elementar.
ESPAÇO UNIVERSAL
35 O espaço universal é infinito ou limitado?
– Infinito. Supondo que fosse limitado, devíeis perguntar: o que haverá
além de seus limites? Isso confunde a razão, bem o sei, e, entretanto, a
própria razão diz que não pode ser de outro modo. Essa é a idéia do
infinito em todas as coisas, e não é na vossa pequena esfera que podeis
compreendê-lo.
G Supondo-se um limite ao espaço, por mais distante que o pensamento
possa concebê-lo, a razão diz que além desse limite há alguma
coisa, e, assim, sucessivamente, até o infinito; porém, se essa alguma
coisa fosse o vazio absoluto, ainda seria espaço.
36 O vazio absoluto existe em alguma parte no espaço universal?
– Não, nada é vazio. O que imaginais como vazio é ocupado por uma
matéria que escapa aos vossos sentidos e aos vossos instrumentos.
CAPÍTULO 2 ELEMENTOS GERAIS DO UNIVERSO
54
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
G O universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e aqueles
que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros
que se movem no espaço e os fluidos que o preenchem.
37 O universo foi criado ou existe desde toda a eternidade, como
Deus?
– Sem dúvida, ele não se fez a si mesmo. Se existisse de toda a
eternidade, como Deus, não poderia ser obra de Deus.
G A razão nos diz que o universo não se fez por si só e que, não
podendo ser obra do acaso, deve ser obra de Deus.
38 Como Deus criou o universo?
– Para me servir de uma expressão usual: pela Sua vontade. Nada
revela melhor essa vontade Todo-poderosa do que estas belas palavras
da Gênese: “E Deus disse: ‘Que se faça a luz’. E a luz se fez.”
39 Poderemos conhecer o modo da formação dos mundos?
– Tudo o que se pode dizer e o que podeis compreender é que os
mundos se formam pela condensação da matéria espalhada no espaço.
40 Os cometas seriam, como se pensa atualmente, um começo
da condensação da matéria, mundos em processo de formação?
– Isso é exato, mas o absurdo é acreditar na influência deles. Quero
dizer, na influência que lhes é atribuída vulgarmente, porque todos os corpos
celestes influem em certos fenômenos físicos.
41 Um mundo completamente formado pode desaparecer e a matéria
que o compõe ser espalhada de novo no espaço?
– Sim, Deus renova os mundos como renova os seres vivos.
42 Podemos saber o tempo de duração da formação dos mundos,
da Terra, por exemplo?
– Não posso te dizer, somente o Criador sabe, e bem louco seria
quem pretendesse saber ou conhecer o número dos séculos dessa
formação.
FORMAÇÃO DOS MUNDOS
CAPÍTULO
3
CRIAÇÃO
Formação dos mundos – Formação dos seres vivos –
Povoamento da Terra. Adão – Diversidade das raças
humanas – Pluralidade dos mundos – Considerações e
concordâncias bíblicas a respeito da Criação
55
FORMAÇÃO DOS SERES VIVOS
43 Quando a Terra começou a ser povoada?
– No início tudo era o caos, os elementos estavam desordenados.
Pouco a pouco, cada coisa tomou seu lugar. Então apareceram os seres
vivos apropriados ao estado do globo.
44 De onde vieram os seres vivos da Terra?
– A Terra continha os germes que aguardavam o momento favorável
para se desenvolverem. Os princípios orgânicos se agregaram desde que
cessou a força que os mantinha separados, e eles formaram os germes
de todos os seres vivos. Aqueles germes ficaram em estado latente1, de
inércia, como a crisálida e as sementes das plantas, até chegar o momento
propício para o aparecimento de cada espécie. Então os seres de cada
espécie se reuniram e se multiplicaram.
45 Onde estavam os elementos orgânicos antes da formação da
Terra?
– Eles se encontravam, por assim dizer, no estado de fluido no espaço,
no meio dos Espíritos, ou em outros planetas, à espera da criação da
Terra para começar uma nova existência em um novo globo2.
G A química nos mostra as moléculas dos corpos inorgânicos se unindo
para formar cristais de uma regularidade constante, segundo cada espécie,
desde que se encontrem nas condições adequadas. A menor alteração dessas
condições basta para impedir a reunião dos elementos ou, pelo menos,
mudar a disposição regular que constitui o cristal. Por que não ocorreria o
mesmo com os elementos orgânicos? Conservamos durante anos sementes
de plantas e de animais que somente se desenvolvem a uma temperatura
certa e em ambiente propício; vimos grãos de trigo germinar depois de muitos
séculos3. Há, portanto, nessas sementes, um princípio latente da vitalidade
que apenas espera uma circunstância favorável para se desenvolver. O
que se passa diariamente sob nossos olhos não pode também ter existido
desde a origem do globo? Essa formação dos seres vivos partindo do caos
pela força da própria natureza diminui em alguma coisa a grandeza de Deus?
Longe disso: responde melhor à idéia que fazemos de Seu poder se exercendo
sobre mundos infinitos pela ação de leis eternas. Esta teoria não resolve, é
verdade, a questão da origem dos elementos vitais; mas Deus tem seus
mistérios e colocou limites às nossas investigações.
CAPÍTULO 3 CRIAÇÃO
1 - Estado latente: neste caso, período entre um estímulo e a reação por ele provocada, em que
há falta de atividade. Espécie de dormência dos elementos (N. E.).
2 - Essa afirmativa, no tempo de Kardec, deve ter causado espanto e estranheza. Atualmente há
uma corrente científica que afirma isso categoricamente e aponta como indício o fato de que no
fundo dos oceanos ainda se encontra uma placa de limo que teria contido o protoplasma e na
qual se encontravam esses primeiros elementos orgânicos, que viriam a constituir a origem da
vida de tudo o que existe no planeta (N. E.).
3 - Kardec se refere aos grãos de trigo encontrados nas Pirâmides do Egito, que depois de muitos
séculos germinaram (N. E.).
56
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
46 Ainda há seres que nascem espontaneamente?
– Sim. Mas o germe primitivo já existia em estado latente. Todos os
dias vós mesmos sois testemunhas desse fenômeno. Não dormitam, em
estado latente, tanto no homem quanto no animal, bilhões de germes de
uma multidão de vermes aguardando o momento de despertar para iniciarem
a putrefação que vai provocar a decomposição cadavérica indispensável
à sua existência? Este é um pequeno mundo que dorme e se cria.
47 A espécie humana se encontrava entre os elementos orgânicos
contidos no globo terrestre?
– Sim, e veio a seu tempo. Foi o que levou a dizer que o homem foi
formado do limo da Terra.
48 Podemos conhecer a época do aparecimento do homem e de
outros seres vivos sobre a Terra?
– Não, todos os vossos cálculos são hipotéticos, suposições.
49 Se o germe da espécie humana se encontrava entre os elementos
orgânicos do globo, por que não se formam mais espontaneamente
os homens, como na sua origem?
– O princípio das coisas está nos segredos de Deus. Entretanto, podese
dizer que os homens, uma vez espalhados pela Terra, absorveram os
elementos necessários para a própria formação da espécie, para transmiti-
los de acordo com as leis da reprodução. Ocorreu o mesmo com as
diferentes espécies de seres vivos.
POVOAMENTO DA TERRA. ADÃO
50 A espécie humana começou por um único homem?
– Não; aquele a quem chamais Adão não foi nem o primeiro, nem o
único que povoou a Terra.
51 Podemos saber em que época viveu Adão?
– Mais ou menos na que assinalais: por volta de 4000 anos antes de
Cristo.
G O homem cuja tradição se conservou sob o nome de Adão foi um dos
que sobreviveram, numa região, após alguns dos grandes cataclismos que
abalaram a superfície do globo em diversas épocas e veio a originar uma
das raças que o povoam hoje. As leis da natureza se opõem à opinião de
que os progressos da humanidade, observados muito antes de Cristo, tenham
se realizado em alguns séculos, caso o homem tivesse aparecido na
Terra somente a partir da época assinalada para a existência de Adão. Para
muitos, Adão é considerado, e com muita razão, mais um mito, uma alegoria,
personificando os primeiros tempos do mundo.
DIVERSIDADE DAS RAÇAS HUMANAS
52 De onde vêm as diferenças físicas e morais que distinguem as
variedades de raças humanas na Terra?
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
57
– Do clima, da vida e dos costumes. Aconteceria o mesmo com dois
filhos de uma mesma mãe que, se educados longe um do outro e de
maneira diferente, não se pareceriam em nada quanto ao moral.
53 O homem apareceu em muitos pontos do globo?
– Sim, e em diversas épocas. Esta é uma das causas da diversidade
das raças. Depois, os homens, ao se dispersarem sob diferentes climas e
ao se misturarem os de raças diferentes, formaram novos tipos.
53 a Essas diferenças constituem espécies distintas?
– Certamente que não, todas são da mesma família. Por acaso, diferentes
variedades de um mesmo fruto deixam de pertencer à mesma
espécie?
54 Se a espécie humana não procede de um só indivíduo, os
homens devem deixar por isso de se considerarem irmãos?
– Todos os homens são irmãos perante Deus, porque são animados
pelo Espírito e tendem para o mesmo objetivo. Por que razão deveis sempre
tomar as palavras ao pé da letra?
PLURALIDADE DOS MUNDOS
55 Todos os globos que circulam no espaço são habitados?
– Sim, e o homem da Terra está longe de ser, como pensa, o primeiro
em inteligência, bondade e perfeição. Entretanto, há homens que se julgam
superiores a tudo e imaginam que somente este pequeno globo tem
o privilégio de ter seres racionais. Orgulho e vaidade! Acreditam que Deus
criou o universo só para eles.
G Deus povoou os mundos com seres vivos, todos convergindo para o
objetivo final da Providência. Acreditar que só existem seres vivos no planeta
que habitamos seria colocar em dúvida a sabedoria de Deus, que não faz
nada inútil. A cada um desses mundos Deus deve ter dado uma destinação
mais séria do que divertir as nossas vistas. Nada, aliás, nem pela posição,
nem pelo volume, nem pela constituição física da Terra, pode razoavelmente
fazer supor que seja a única a ter o privilégio de ser habitada, com exclusão
de tantos milhares de mundos semelhantes.
56 A constituição física dos diferentes globos é a mesma?
– Não. Não se assemelham em nada.
57 Como a constituição física dos mundos não é a mesma, podemos
concluir que os seres que os habitam têm corpos e uma organização
diferente?
– Sem dúvida, como entre vós os peixes são feitos para viver na água
e os pássaros, no ar.
58 Os mundos mais afastados do Sol são privados da luz e do
calor, já que o Sol apenas se mostra para eles com a aparência de
uma estrela?
CAPÍTULO 3 CRIAÇÃO
58
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
– Acreditais então que não há outras fontes de luz e de calor além do
Sol, e não considerais o valor e a importância da eletricidade que, em
alguns mundos, desempenha um papel que vos é desconhecido e muito
mais importante do que na Terra? Aliás, já dissemos que os seres desses
mundos não são nem da mesma matéria nem têm os órgãos dispostos
como os vossos.
G As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos
devem ser apropriadas ao meio em que vivem. Se nunca tivéssemos
visto peixes, não compreenderíamos que seres pudessem viver na água. É
assim em outros mundos, que contêm, sem dúvida, elementos que nos são
desconhecidos. Não vemos, na Terra, longas noites polares iluminadas pela
eletricidade das auroras boreais4? O que há de impossível em que, em
certos mundos, a eletricidade seja mais abundante do que na Terra e
tenha aplicações e funções, cujos efeitos não podemos compreender?
Esses mundos podem, portanto, conter em si mesmos as fontes de calor
e de luz necessárias aos seus habitantes.
CONSIDERAÇÕES E CONCORDÂNCIAS BÍBLICAS
A RESPEITO DA CRIAÇÃO
59 G Os povos formaram idéias muito divergentes a respeito da Criação,
conforme o grau de seus conhecimentos. A razão, apoiada na ciência,
reconheceu a impossibilidade e a contradição de algumas teorias. O ensinamento
dos Espíritos a esse respeito confirma a opinião desde há muito
tempo admitida pelos homens mais esclarecidos.
A objeção que se pode fazer a essa teoria é que está em contradição com
o texto dos livros bíblicos, mas um exame sério fará reconhecer que essa contradição
é mais aparente do que real e resulta da interpretação dada a certas
passagens dos textos que em geral têm um sentido alegórico, figurado.
A questão do primeiro homem, Adão, ter sido a única fonte que originou
a humanidade não é o único ponto sobre o qual as crenças religiosas
tiveram que se modificar. O movimento da Terra pareceu, em certa época,
de tal modo oposto ao texto bíblico que não houve forma de perseguição
da qual essa teoria não tenha sido o pretexto e, entretanto, a Terra gira,
apesar dos anátemas5, e ninguém hoje poderia contestá-lo sem depreciar
a sua própria razão e submeter-se ao ridículo.
A Bíblia diz igualmente que o mundo foi criado em seis dias e fixa a
época da criação por volta de 40006 anos antes da Era Cristã. Antes
disso, a Terra não existia, ela foi tirada do nada; o texto é formal, é claro.
4 - Aurora boreal: fenômeno observado no Pólo Norte em que a claridade é produzida pela ação
de energia magnética. É uma luz fortíssima e de grande beleza (N. E.).
5 - Anátema: maldição, excomunhão, reprovação, expulsão da Igreja (N. E.).
6 - A criação em 4000 anos: a ciência comprova que a idade da Terra é de aproximadamente
4,6 bilhões de anos (N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
59
Mas, eis que a ciência positiva, a ciência inabalável, vem provar o contrário.
A formação do globo está gravada em caracteres nítidos e indiscutíveis
no mundo fóssil 7, e está provado que os seis dias da criação representam
períodos que podem constituir-se, cada um, de centenas de milhares de
anos. Isso não é um sistema, doutrina, ou opinião isolada; é um fato tão
constatado quanto o movimento da Terra, que a teologia8 não pode recusarse
a admitir, prova evidente do erro em que se está sujeito a cair por tomar
ao pé da letra as expressões de uma linguagem freqüentemente figurada.
Devemos por isso concluir que a Bíblia está errada? Não. Mas podemos
concluir que os homens, em muitos pontos, se enganaram ao interpretá-la.
A ciência, ao escavar os arquivos da Terra, descobriu a ordem em
que os diferentes seres vivos apareceram na sua superfície, e essa ordem
está de acordo com a que é indicada na Gênese9, com a diferença de que
toda a Criação, em vez de ter saído miraculosamente das mãos de Deus
em algumas horas, conforme está escrito no Gênese, se realizou sempre
pela Sua vontade, mas de acordo com a lei das forças da natureza, em
alguns milhões de anos. Deus é por isso menor e menos poderoso? Sua
obra é menos sublime por não ter o prestígio da instantaneidade? Evidente
que não. Seria preciso fazer da Divindade uma idéia bem mesquinha para
não reconhecer Seu grande poder nas leis eternas que estabeleceu para
reger os mundos. A ciência, longe de diminuir a obra divina, mostra-a sob
um aspecto mais grandioso e mais em conformidade com as noções que
temos do poder e da majestade de Deus, em razão de ter se realizado
sem anular as leis da natureza.
A ciência, neste ponto concordante com Moisés, coloca o homem em
último lugar na ordem da criação dos seres vivos; mas, enquanto Moisés,
no Gênese, põe o dilúvio universal no ano de 1654 após a Criação, a Geologia
nos mostra o grande cataclismo10 anterior ao aparecimento do homem na
Terra. Até hoje não se encontrou nas camadas primitivas do globo nenhum
indício nem da presença do homem nem de animais da mesma categoria
do ponto de vista físico. Mas nada prova que isso seja impossível. Muitas
descobertas já lançaram dúvidas a esse respeito. Pode-se, portanto, de
um momento para outro, adquirir a certeza material dessa anterioridade da
raça humana, e então se reconhecerá que, sobre esse ponto, como em
outros, o texto bíblico é um símbolo, uma representação. A questão é
saber se o cataclismo geológico é o mesmo que atingiu Noé. O certo é
que a duração necessária à formação das camadas fósseis não permite
7 - Fóssil: resto petrificado ou endurecido de seres vivos que habitaram a Terra, há milhares de
anos, e que conservaram suas características mais importantes (N. E.).
8 - Teologia: estudo das questões referentes ao conhecimento da divindade e suas relações com
os homens; estudo dos dogmas e dos textos sagrados (N. E.).
9 - Gênese: primeiro livro do Velho Testamento, escrito por Moisés, no qual se descreve a criação
do mundo (N. E.).
10 - Cataclismo: transformação brusca da Terra, abrangendo grande área da crosta; dilúvio,
inundação (N. E.).
CAPÍTULO 3 CRIAÇÃO
60
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
confundi-los, e a partir do momento que se tiverem encontrado traços
da existência do homem antes da grande catástrofe, ficará provado ou
que Adão não foi o primeiro homem, ou que sua criação se perde na
noite dos tempos. Contra fatos não há argumentos possíveis e será
preciso aceitar esses fatos, como se aceitou o do movimento da Terra e
os seis períodos da Criação.
A existência do homem11 antes do dilúvio geológico, na verdade, ainda
é hipotética12, mas eis aqui um detalhe que revela que não é assim.
Ao admitir que o homem tenha aparecido pela primeira vez sobre a Terra
4000 anos antes de Cristo, e que, 1650 anos mais tarde, toda a raça
humana tenha sido destruída, com exceção de uma única família, resulta
que o povoamento da Terra ocorreu somente a partir de Noé, ou seja,
2350 anos antes de nossa era. Porém, quando os hebreus emigraram
para o Egito no décimo oitavo século, encontraram esse país muito
povoado e já muito avançado em civilização. A História prova que nessa
época também a Índia e outros países estavam igualmente florescentes,
sem mesmo se levar em conta a cronologia de alguns outros povos que
remonta a uma época ainda bem mais antiga. Teria sido preciso, portanto,
que do vigésimo quarto ao décimo oitavo século, ou seja, no espaço
de 600 anos, não somente os descendentes de um único homem
pudessem povoar todos os imensos países então conhecidos, supondo
que os outros não o fossem, mas também que, nesse curto espaço
de tempo, a espécie humana pudesse se elevar da ignorância absoluta
do estado primitivo ao mais alto grau do desenvolvimento intelectual, o
que é contrário a todas as leis antropológicas13.
A diversidade das raças vem, ainda, em apoio a essa opinião. O
clima e os costumes, sem dúvida, produzem modificações no caráter
físico, mas sabe-se até onde pode chegar a influência dessas causas, e o
exame fisiológico14 prova que há entre algumas raças diferenças mais
profundas do que o clima pode produzir na constituição física do homem.
O cruzamento das raças origina os tipos intermediários. Ele tende a apagar
os caracteres extremos, primitivos, mas não os produz; apenas cria
variedades. Portanto, em vista disso, para que houvesse cruzamento de
raças, seria preciso que houvesse raças distintas. Como explicar a existência
de raças tão distintas se lhes dermos uma origem comum e sobretudo
tão próxima? Como admitir que, em poucos séculos, alguns
11 - Pesquisas científicas recentes revelaram que o planeta Terra tem aproximadamente 4,6 bilhões
de anos; formas rudimentares de vida (algas e bactérias) datam de aproximadamente 4 bilhões de
anos; o Homem de Neandertal viveu entre 200 mil e 25 mil anos; e o Homem de Cro-Magnon
viveu entre 30 mil e 10 mil anos. – J. Birx – Prometheus Books, 1991, e Enciclopédia Lello – (N. E.).
12 - Hipotético: duvidoso, incerto, fundado em suposições (N. E.).
13 - Antropologia: ciência que tem como objetivo analisar o homem com base nas características
biológicas dos grupos em que se distribui (N. E.).
14 - Fisiologia: ciência que estuda as funções dos órgãos nos seres vivos, animais ou vegetais
(N. E.).
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
61
descendentes de Noé fossem transformados a ponto de produzir, por
exemplo, a raça etíope? Uma transformação desse porte é tão pouco
admissível quanto a hipótese de terem uma mesma origem o lobo e o
cordeiro, o elefante e o pulgão, o pássaro e o peixe. Mais uma vez: nada
pode prevalecer contra a evidência dos fatos.
Tudo se explica, ao contrário, se admitirmos que a existência do homem
é anterior à época que lhe é vulgarmente assinalada; a diversidade
das origens; que Adão, que viveu há seis mil anos, tenha povoado uma
região ainda desabitada; que o dilúvio de Noé foi uma catástrofe parcial e
que foi considerada como um cataclismo geológico e, finalmente, atentando
para o fato da forma de linguagem alegórica própria do estilo oriental e
que se encontra nos livros sagrados de todos os povos. Por isso é prudente
não acusar apressadamente de falsas as doutrinas que podem cedo ou
tarde, como tantas outras, desmentir aqueles que as combatem. As idéias
religiosas, em vez de perder, se engrandecem ao marchar com a ciência.
Esse é o único meio de não mostrar ao ceticismo um lado vulnerável.
CAPÍTULO 3 CRIAÇÃO
62
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
G Os seres orgânicos são os que têm em si uma fonte de atividade
íntima que lhes dá a vida. Eles nascem, crescem, se reproduzem por si
mesmos e morrem. São providos de órgãos especiais para a realização
dos diferentes atos da vida, apropriados às suas necessidades de conservação.
Os homens, os animais e as plantas são seres orgânicos.
Seres inorgânicos são todos os que não têm nem vitalidade, nem
movimentos próprios e são formados apenas pela agregação da matéria;
são os minerais, a água, o ar, etc.
60 É a mesma força que une os elementos da matéria nos corpos
orgânicos e inorgânicos?
– Sim, a lei de atração é a mesma para tudo.
61 Há uma diferença entre a matéria dos corpos orgânicos e a
dos inorgânicos?
– A matéria é sempre a mesma, mas nos corpos orgânicos está animalizada.
62 Qual é a causa da animalização da matéria?
– Sua união com o princípio vital.
63 O princípio vital é um agente particular ou é apenas uma propriedade
da matéria organizada? Numa palavra, é um efeito ou uma causa?
– Uma e outra. A vida é um efeito produzido pela ação de um agente
sobre a matéria. Esse agente, sem a matéria, não é vida, do mesmo modo
que a matéria não pode viver sem esse agente. O princípio vital dá a vida
a todos os seres que o absorvem e assimilam.
64 Vimos que o Espírito e a matéria são dois elementos constituintes
do universo. O princípio vital forma um terceiro?
– É, sem dúvida, um dos elementos necessários à constituição do universo,
mas ele mesmo tem sua fonte na matéria universal modificada. É um
elemento, como para vós o oxigênio e o hidrogênio que, entretanto, não são
elementos primitivos, embora tudo isso proceda de um mesmo princípio.
64 a Disso parece resultar que a vitalidade não tem seu princípio
num agente primitivo distinto, mas numa propriedade especial da matéria
universal, em razão de algumas modificações?
– É a conseqüência do que dissemos.
SERES ORGÂNICOS E INORGÂNICOS
CAPÍTULO
4
PRINCÍPIO VITAL
Seres orgânicos e inorgânicos – A vida e a morte –
Inteligência e instinto
63
65 O princípio vital reside em algum dos corpos que conhecemos?
– Tem sua fonte no fluido universal. É o que chamais fluido magnético
ou fluido elétrico animalizado. Ele é o intermediário, o elo entre o Espírito e
a matéria.
66 O princípio vital é o mesmo para todos os seres orgânicos?
– Sim, modificado conforme as espécies. É o que lhes dá movimento
e atividade e os distingue da matéria inerte, uma vez que o movimento da
matéria não é a vida. A matéria recebe esse movimento, não o dá.
67 A vitalidade é um atributo permanente do agente vital ou apenas
se desenvolve pelo funcionamento dos órgãos?
– Apenas se desenvolve com o corpo. Não dissemos que esse agente
sem a matéria não é a vida? É preciso a união das duas coisas para
produzir a vida.
67 a Pode-se dizer que a vitalidade está em estado latente, quando
o agente vital não está unido ao corpo?
– Sim, é isso.
G O conjunto dos órgãos constitui uma espécie de mecanismo que
recebe um estímulo de atividade íntima ou princípio vital que existe neles.
O princípio vital é a força motriz dos corpos orgânicos. Ao mesmo
tempo que o agente vital estimula os órgãos, a ação deles mantém e
desenvolve a atividade do agente vital, quase do mesmo modo como o
atrito produz o calor.
A VIDA E A MORTE
68 Qual é a causa da morte entre os seres orgânicos?
– O esgotamento dos órgãos.
68 a Podemos comparar a morte com o cessar do movimento
numa máquina desarranjada?
– Sim; se a máquina está mal montada, o movimento cessa; se o
corpo está doente, a vida se extingue.
69 Por que uma lesão do coração causa a morte mais do que em
qualquer outro órgão?
– O coração é a máquina da vida, mas não é o único órgão cuja lesão
ocasiona a morte. É somente uma das peças essenciais.
70 O que acontece com a matéria e o princípio vital dos seres
orgânicos quando eles morrem?
– A matéria sem atividade se decompõe e vai formar novos organismos.
O princípio vital retorna à sua origem, à sua fonte.
G Quando o ser orgânico morre, os elementos que o constituíam passam
a fazer parte de novas combinações e participam na formação de
novos seres, que por sua vez passam a tirar da fonte universal o princípio
da vida e da atividade, o absorvem e assimilam para novamente
devolvê-lo a essa fonte quando deixarem de existir.
CAPÍTULO 4 PRINCÍPIO VITAL
64
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Os órgãos estão, por assim dizer, impregnados de fluido vital que dá a
todas as partes do organismo uma atividade geradora da união entre elas,
e, no caso de lesões, restabelece as funções que estavam momentaneamente
danificadas. Mas quando os elementos essenciais ao funcionamento
dos órgãos são destruídos, ou muito profundamente desarranjados, o fluido
vital é incapaz de transmitir o movimento da vida, e o ser morre.
Mais ou menos por uma ação inevitável e forçosa os órgãos reagem
uns sobre os outros. É da harmonia de seu conjunto que resulta sua ação
mútua. Quando, por qualquer causa, essa harmonia é destruída, suas funções
param como o movimento de uma máquina cujas peças principais se
desarranjaram. Como um relógio que se desgasta com o tempo ou quebra
por acidente, e ao qual a força motriz é incapaz de pôr em movimento.
Temos uma imagem mais exata da vida e da morte num aparelho elétrico.
Esse aparelho, como todos os corpos da natureza, possui eletricidade
em estado latente. Os fenômenos elétricos somente se manifestam
quando o fluido é colocado em atividade por uma causa especial. Então,
poderíamos dizer que o aparelho está vivo. Parando a causa da atividade, o
fenômeno cessa: o aparelho volta ao estado de inércia. Os corpos orgânicos
seriam, assim, uma espécie de pilhas ou aparelhos elétricos nos quais
a atividade do fluido produz o fenômeno da vida. A paralisação dessa atividade
produz a morte.
A quantidade de fluido vital não é precisamente a mesma para todos
os seres orgânicos. Ela varia de acordo com as espécies e não é constante,
seja no mesmo indivíduo ou em indivíduos da mesma espécie. Há os que
são, por assim dizer, saturados desse fluido, enquanto outros possuem apenas
uma quantidade suficiente; daí, para alguns a vida mais ativa, mais
tenaz e, de certo modo, superabundante.
A quantidade de fluido vital se esgota. Pode tornar-se insuficiente para
a manutenção da vida se não for renovada pela absorção e assimilação das
substâncias que o contêm.
O fluido vital se transmite de um indivíduo para outro. Aquele que tem
mais pode dar para quem tem menos e, em alguns casos, restabelecer a
vida prestes a se extinguir.
INTELIGÊNCIA E INSTINTO
71 A inteligência é um atributo do princípio vital?
– Não, uma vez que as plantas vivem e não pensam: apenas têm a
vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, uma vez que
um corpo pode viver sem inteligência. Porém, a inteligência só pode manifestar-
se por meio dos órgãos materiais. É preciso a união com o Espírito
para prover de inteligência a matéria animalizada.
G A inteligência é um dom especial, próprio de algumas classes de
seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de agir, a
consciência de sua existência e de sua individualidade, assim como os
O LIVRO DOS ESPÍRITOS PARTE PRIMEIRA
65
meios de estabelecer relações com o mundo exterior e de proverem as
suas necessidades.
Podem distinguir-se assim:
1º) os seres inanimados, formados apenas de matéria, sem vitalidade
nem inteligência: são os corpos brutos;
2º) os seres animados que não pensam, formados de matéria e dotados
de vitalidade, mas desprovidos de inteligência;
3º ) os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de
vitalidade e tendo a mais um princípio inteligente que lhes dá a faculdade
de pensar.
72 Qual é a fonte da inteligência?
– Já o dissemos: a inteligência universal.
72 a Podemos, então, dizer que cada ser tira uma porção de inteligência
da fonte universal e a assimila, como tira e assimila o princípio
da vida material?
– Isso é apenas uma comparação, mas não é exata. A inteligência é um dom
próprio de cada ser e constitui sua individualidade moral. Por fim, há coisas que
não são dadas ao homem penetrar, e essa por enquanto é uma delas.
73 O instinto é independente da inteligência?
– Não, precisamente, mas ele é uma espécie de inteligência. O instinto
é uma inteligência não-racional. É por meio dele que todos os seres
provêm as suas necessidades.
74 Pode-se assinalar um limite entre o instinto e a inteligência, ou
seja, perceber onde um acaba e a outra começa?
– Não, porque freqüentemente se confundem. Mas pode-se muito
bem distinguir os atos do instinto dos da inteligência.
75 É exato dizer que os dons instintivos diminuem à medida que
aumentam os intelectuais?
– Não; o instinto sempre existe, mas o homem o despreza. O instinto
também pode conduzir ao bem. Ele nos guia, quase sempre, mais seguramente
do que a razão. Nunca se engana.
75 a Por que a razão não é sempre um guia infalível?
– Ela seria infalível se não fosse falseada pela má educação, pelo
orgulho e pelo egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha
e dá ao homem o livre-arbítrio.
G O instinto é uma inteligência rudimentar em que as manifestações
são quase sempre espontâneas, e difere da inteligência propriamente
dita, cujas manifestações expressam uma avaliação de um ato deliberado
que sofreu exame interior.
O instinto varia em suas manifestações quanto às espécies e às
suas necessidades. Entre os seres que têm a consciência e a percepção
das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, quer dizer, à vontade
e à liberdade.
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