A Ciência dos Espíritos
por Eliphas Levi
Filosofia Oculta
A ciência dos espíritos
Revelação do Dogma Secreto dos Cabalistas
Espírito Oculto dos Evangelhos
Apreciação das Doutrinas e dos Fenômenos Espíritas
por Eliphas Levi
A ciência dos espíritos
A SOCIEDADE DAS CIÊNCIAS ANTIGAS, dando prosseguimento as suas publicações sobre Filosofia
Oculta, edita hoje uma obra que trata da Ciência dos Espíritos; trata-se de um livro que, sob a forma
literária e poética, oculta para o vulgo e ensina para os estudiosos da matéria os maiores mistérios da
Ciência. Este estudo está dividido em três partes: na primeira parte, sob o título Espíritos reais, trata
de Deus e do homem reunidos e idealizados na pessoa de Jesus Cristo; na segunda parte, sob o título
de Espíritos hipotéticos, fala dos anjos, dos demônios e das almas desencarnadas, segundo as
doutrinas cabalísticas e mágicas; na terceira parte, consagrada aos pretensos espíritos ou fantasmas,
aborda as evocações e aprecia os fenômenos e as doutrinas espíritas.
A Ciência supõe necessariamente Deus, estuda os espírito do homem em suas mais altas aspirações,
examinas as hipóteses relativas aos espíritos desconhecidos e rejeita os fantasmas. Acima da Ciência
está Deus, na Ciência Cabalística está o Absoluto, na Filosofia Oculta está o Agente Universal. A
esplicação desta força universal nos é dada magistralmente por Eliphas Levi, o sábio cabalista francês
do século passado.
Introdução
ELIPHAS LEVI, o mais importante ocultista do século XIX, escreveu um conjunto de livros que
constitui um curso completo de Filosofia Oculta. A maioria desses livros foram traduzidos para a língua
portuguesa, fornecendo ao estudioso de Ocultismo as bases necessárias para que possa atingir, por
seu esforço, as luzes do conhecimento. Seus livros contêm o desenvolvimento da teoria cabalística,
trazida até sua época por Guilhaume Postel, Raymund Lullo, Paracelsus, Jacob Boheme, Kircher,
Khunrath, Louis Claude de Saint-Martin e tantos outros mentores do Gênero Humano. O próprio
Eliphas Levi foi às fontes originais, consultando velhos manuscritos hebreus, latinos ou gregos.
Desvendou o Zohar, traduzindo os trechos mais importantes para seus discípulos; penetrou no Sepher
Yetsirah, como todo cabalista deve fazer. Estudou a fundo os Evangelhos apócrifos, bem como todos
os antigos grimórios que pôde reunir em uma vida repleta de pesquisas e de trabalho, o que lhe
permitiu adquirir grande erudição.
Em A CIÊNCIA DOS ESPÍRITOS, Eliphas Levi explica os dogmas cabalísticos, que contêm em
resumo toda a Ciência, mas a Ciência da qual eles são a expressão foi desenvolvida nas suas obras
precedentes: a História da Magia explica as asserções contidas no Dogma e Ritual da Alta Magia; a
Chave dos Grandes Mistérios completa e explica a História da Magia. A Ciência dos Espíritos dá a
chave dos dogmas cabalísticos, cuja doutrina em seu conjunto forma uma verdadeira Ciência. Esse
livro nos introduz na essência da Bíblia; demonstra-nos a imortalidade da alma, ergue o véu do Plano
Invisível e adverte-nos dos perigos que corre o viajante temerário, que profana as regiões
desconhecidas da Natureza.
A CIÊNCIA DOS ESPÍRITOS harmoniza o Antigo Testamento com o Novo; busca a Ciência
Cabalística nas suas origens, através das Escrituras Santas legadas ao Gênero Humano pelo
Judaísmo e pelo Cristianismo. Faz a Luz jorrar das antigas lendas bíblicas, explicando-nos o sentido
real do simbolismo religioso pelas chaves cabalísticas. Confronta os fenômenos modernos do
Espiritismo com as antigas narrações bíblicas sobre os espíritos, evocações sangrentas e aparições.
Relata-nos a história de Jesus segundo o Talmude e segundo a Tradição Oculta; explica-nos os
fenômenos que denominou "Espíritos Reais e Hipotéticos", "pretensos espíritos ou fantasmas", pela
teoria dos cabalistas sobre os anjos, demônios e as almas dos mortos.
Este livro, um dos mais importantes do autor, reconcilia a Ciência com a Fé, destruindo as
superstições e os preconceitos, e fornece mais poesia e revelação ao simbolismo dos próprios
Evangelhos. Mostra-nos, ademais, que as lendas e alegorias mais distanciadas da realidade objetiva
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são as que apresentam maior ligação com a Revelação Divina. Deixa claro que as Escrituras
Sagradas são alegorias iniciáticas e que a história dá lugar ao símbolo.
Por intermédio da luz que emana da Divindade e que iluminou seu Espírito, Eliphas Levi explica-nos
as diferentes lendas evangélicas, relacionando-as com os mistérios da evolução humana nos
diferentes planos da Criação. Descreve-nos os mais sublimes quadros de visões, trazendo à terra as
apoteoses do Mundo Divino. Em muitas passagens ele é magistral; suas páginas parecem poemas,
compostos com a beleza da inspiração divina. Suas narrações levam-nos a um mundo desconhecido,
pleno de beleza e de amor; traçam-nos o caminho que todo homem deve seguir para atingir a Glória
de habitar com o Cristo; mostram as contradições e o desespero dos "filósofos" sem fé e dos crentes
passivos que não procuram o conhecimento. A todos demonstra a necessidade de reconciliar a razão
com a fé, de conduzir simultaneamente sua vida no trabalho e na prática da caridade. A Salvação está
no equilíbrio da Força e da Beleza: "a harmonia resulta da analogia dos contrários". A letra mata e o
espírito vivifica. O Cristo fala no coração do justo que se fez digno de coabitar com o Verbo, que não
mede sacrifícios para ajudar seu semelhante a caminhar em paz na senda da Verdade e da Justiça.
Conduzir a própria vida no sacrifício, no trabalho e na prática da Caridade é viver segundo os preceitos
cristãos.
Em essência, essa doutrina é tão antiga quanto o homem sobre a terra, pois que o retorno à Divindade
pressupõe a restauração da grandeza primitiva do filho. E essa dignificação da natureza humana não
se faz sem o concurso da Graça Divina. Mas para que a mão de Deus paire sobre a cabeça do
homem, é necessário que este tenha méritos. É preciso que sua obra de Reconciliação abrace toda a
Humanidade e que seus feitos em benefício de seus semelhantes possam produzir uma energia que,
subindo até o Plano Divino, comova até o próprio Criador do Universo. Essa força, produto da Vontade
Humana, atrairá as energias divinas que jorrarão na alma do Iniciado, formando um manto de luz.
Esse manto acalentará o coração de todos aqueles que necessitam, uma vez que o homem, cada vez
mais sintonizado com a Vontade Divina, servirá de elo de ligação do Céu com a Terra. E esse trabalho
de Regeneração da Humanidade, de Reintegração da criatura no seio do Criador, difundido a todos os
povos da terra pelo Cristo e por seus seguidores, foi, necessariamente realizado pelo primeiro Adepto
que a Humanidade conheceu e que a Cabala personifica na figura de Adão, o primeiro pecador e o
primeiro a obter a Reintegração. Adão forma o tipo do homem tornado Filho de Deus, como Jesus
Cristo, o exemplo a ser seguido por todos os homens.
A Iniciação promete a Reconciliação do Judaísmo com o Cristianismo através da consideração do
Schin (c), que entra na palavra Jehovah (h w h y) formando Jehoschuah (h w c h y), o Messias, o
Cristo. É o grande mediador universal posto a serviço da regeneração do homem. É a ferramenta do
Grande Arquiteto do Universo que desbasta a Pedra Bruta, colocando-a no edifício do tempo que,
depois de construído, aparecerá na Jerusalém Celeste, como nos narra São João em seu Apocalipse.
A CIÊNCIA DOS ESPÍRITOS, isto é, a Ciência segundo o Espírito, que explica a iluminação dos seres
criados, enaltecendo suas inteligências e seus corações, é a mesma tanto no Antigo como no Novo
Testamento, como demonstra Eliphas Levi em todas as suas obras. É a Tradição Oculta ensinada nos
antigos santuários que chegou até nós e que o Autor vivifica com o talento que nos é conhecido. Essa
Ciência, ensinada a Moisés, Esdras, Daniel, Ezequiel, Davi, Salomão e a tantos outros adeptos
surgidos na humanidade, foi reconstituída no advento do Cristianismo e adaptada aos novos passos
que a humanidade iria dar em sua evolução coletiva. Isso explica por que a doutrina cristã não se
limitou ao povo hebreu, mas conquistou o mundo. O conhecimento da tradição primitiva pelos
primeiros cristãos é demonstrado nas obras cabalísticas que são o Apocalipse e o Evangelho segundo
São João. As mais belas narrativas do Mundo Divino já vistas são inspirações divinas destinadas a
fortalecer a doutrina da religião nascente. Essa tradição se mantém intacta em pleno século XX e será
legada à posteridade por aqueles que fazem por merecer o apoio do Reparador. Pois se os campos
tornam-se desertos, a mão da Providência faz com que a fertilidade surja em outras terras. E os
homens deslocam-se para a Terra Prometida, material e espiritualmente falando. Foi assim que o
Cristianismo trouxe aos gentios a oportunidade de serem chamados Filhos de Deus, e nisso está o
seu grande mérito. A Nova Jerusalém não é deste mundo, mas todo lugar que acolher um Filho do
Eterno será chamado "Terra de Israel".
Toda a Ciência está na afirmação de que o Verbo é o Princípio e o Fim de todo o trabalho de criação;
ele é o alfa e o ômega. Ele é Deus e se manifesta para extinguir as trevas e resgatar os homens da
escravidão das paixões e dos vícios. Ele se faz carne para que a vontade do Pai se afirme e se una à
Vontade do Filho. É preciso que o homem adquira a CIÊNCIA DOS ESPÍRITOS e que em espírito vá
até o mundo de Yetsirah receber a unção do Verbo, que descerá dos mundos superiores, podendo ser
recebido pelo Anjo de Deus, como ocorreu com São João; irá, assim, vislumbrar a Árvore da Vida e a
Jerusalém Celeste, sentindo no próprio íntimo a abertura dos sete selos. Soarão, então, as sete
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trombetas, manifestando o júbilo do Céu pela apoteose do coroamento de um novo Eleito, pela derrota
da besta e do falso profeta. Quando regressar ao Plano Físico, trará a mensagem divina às sete
Igrejas e a todos os povos da terra.
"O homem nada pode quando está só", explica-nos Eliphas Levi. "As Grandes Forças Humanas são
as forças coletivas. O homem deve receber em si a Luz Divina, que jorra substancialmente do seio de
Deus, e projetá-la por sua vez sobre toda a Natureza; ele deve atrair toda a criação inferior pelo amor,
e lançar-se em direção a Deus por esforços jamais esmorecidos."
Sociedade das Ciências Antigas
Prefácio
Anunciamos novos estudos sobre a Filosofia Oculta. A primeira série desses estudos foi publicada.
Sob a forma literária e poética do apólogo, ocultamos para o vulgo e ensinamos para os investigadores
esclarecidos os maiores mistérios da ciência.Abordamos hoje a segunda série, a que trata da ciência
dos espíritos.Este estudo está dividido em três partes.Na primeira parte, sob o título de espíritos reais,
tratamos de Deus e do homem reunidos e idealizados na pessoa de Jesus Cristo.Na segunda parte,
sob o título de espíritos hipotéticos, falaremos dos anjos, dos demônios e das almas desencarnadas,
segundo as doutrinas cabalísticas e mágicas.Na terceira parte, consagrada aos pretensos espíritos ou
aos fantasmas, tratamos das evocações e apreciamos os fenômenos e as doutrinas espíritas.A
Ciência supõe necessariamente Deus, estuda o espírito do homem em suas mais altas aspirações,
examina as hipóteses relativas aos espíritos desconhecidos e rejeita os fantasmas.Dissemos em
nosso Dogma e Ritual da Alta Magia que Deus para nós é o AZOTO dos sábios.M.de Mirville, que não
compreendeu essa palavra, explicou-a simplesmente como sendo um erro de ortografia, que nos
atribuiu, e imaginou ingenuamente que adoramos o gás azoto.A palavra AZOTH, empregada pelo
sábio iniciado Basílio Valentino, para exprimir o agente universal, é composta da primeira e da última
letra dos alfabetos hebraico, grego e latino.Ela equivale ao INRI da Maçonaria e significa o princípio e
o fim, isto é, o absoluto nos três mundos.Acima da ciência está Deus, na ciência cabalística está o
absoluto, na física oculta está o agente universal.Esse nome exprime, pois, três coisas:
1.º) A hipótese divina;
2.º) A síntese filosófica;
3.º) A síntese física.
Isto significa uma crença, uma idéia e uma força.Não estamos dando essas explicações para Mirville,
que não pode ser considerado um ingênuo de boa fé, e que tem, a priori, o propósito de não nos
compreender, e até mesmo de nos injuriar.Sabemos que esse é o procedimento da escola a que ele
pertence.Damos essa explicação para os leitores que não procuram senão a verdade. Comecemos
nosso livro.
Primeira parte
ESPÍRITOS REAIS
A CIÊNCIA DOS ESPÍRITOS
Introdução
Deus ou o espírito criador, que a ciência é forçada a admitir como primeira causa;Deus que é a
hipótese necessária na qual se ligam todas as certezas;O homem ou o espírito criado cuja vida
aparente começa e termina, mas cujo pensamento é imortal;O mediador ou o espírito do Cristo
homem sobre-humano pelo pensamento, Deus humanizado pelo trabalho e pela dor:Tal é o tríplice
objeto da ciência dos espíritos. O homem, nada podendo conceber acima de si mesmo, idealiza-se
para conceber Deus. O Cristo, por seus sublimes pensamentos e suas admiráveis virtudes, realizou
esse ideal. É, pois, em Jesus Cristo que se deve estudar Deus, e como o mediador é também o
protótipo e o modelo da humanidade, é ainda nele que se deve estudar o homem considerado
exclusivamente sob o ponto de vista do espírito. A ciência dos espíritos se resume pois, inteiramente,
na ciência de Jesus Cristo.Os anjos e os demônios são seres puramente hipotéticos ou lendários;
pertencem à poesia e não poderiam pertencer à ciência.Contentemo-nos com os homens, estudemos
Jesus Cristo e procuremos Deus. Quanto menos definimos Deus, mais somos forçados a acreditar
nele. Negar o Deus indefinido e desconhecido, princípio existente e inteligente do ser e da inteligência,
é afirmar temerariamente a mais vaga e a mais absurda de todas as negações; também Proudhon,
essa contradição encarnada, pôde dizer com razão que o ateísmo é um dogma negativo e constitui a
mais ridícula de todas as crenças: a crença irreligiosa. Mas um Deus definido é necessariamente um
Deus finito, e todas as religiões pretensamente reveladas de uma maneira positiva e particular
desabam logo que a razão as toca; não há senão uma religião, e Vítor Hugo disse bem quando
bradou: Protesto em nome da religião contra todas as religiões. Se Deus tivesse autorizado somente
Moisés, não teria permitido Jesus. Se tivesse autorizado somente Jesus, não teria permitido Maomé.
Não pode aí haver senão uma lei divina, mas há, nesse baixo mundo, uma multidão de juízes e uma
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grande multidão de advogados que tentam rebater incessantemente, apesar de seus perpétuos
desabamentos, a Babel das contradições humanas. Pascal, esse ateu tão religioso, esse cético
supersticioso que duvidava de tudo em presença da lógica inexorável dos números e que acreditava
no deus dos Jansenistas baseando-se num amuleto, Pascal, que, contra a sua própria vontade, não
era católico porque queria ser excessivamente católico, não teve medo de afirmar que é mais
garantido acreditar nos dogmas da Igreja Romana, a única a ameaçar com o inferno aqueles que não
aderem a esses dogmas, como se uma ameaça não-humana fosse uma razão e como se, em matéria
de fé, fosse legítimo que o medo superasse a confiança.
Produzir trevas para aumentar o medo, redobrar a obscuridade dos mistérios, exigir a obediência
cega, é a magia negra das religiões; é o segredo dos sacerdócios ambiciosos que querem substituir a
divindade pelo sacerdote, a própria religião pelo templo e as virtudes pelas práticas. Esse foi o crime
dos Magos que pereceram por uma reação fatal: esse foi o crime dos sacerdotes hebreus, contra os
quais Jesus veio protestar, e que crucificaram Jesus. O quê?! O céu nos imporia uma lei rigorosa,
sancionada por suplícios eternos, e não deixaria claro e evidente para todos a própria promulgação
dessa lei! Como?! A verdade, ou antes, o livro fechado que a contém seria o quinhão exclusivo de
alguns fanáticos inexoráveis, e a humanidade quase inteira seria abandonada às oscilações do erro e
à fatalidade de uma maldição infinita! Só é maldito aquele que pode acreditar nisso. O Deus que ele
adora assemelha-se a esses monstruosos ídolos do México, cujos lábios eram incessantemente
umedecidos com corações sangrando. Uma religião exclusiva não é uma religião católica. Católica
quer dizer universal. Apoderar-se das forças fatais e dirigi-las para fazer delas a alavanca da
inteligência, esse é o grande segredo da magia. Apelar às paixões mais cegas e ilimitadas em seu
impulso, submetê-las a uma obediência de escravo, é criar a onipotência. Desse modo, colocar o
espírito sob o império do sonho, exaltar ao infinito a cobiça e o medo por meio de promessas e
ameaças que serão tomadas por sobrenaturais porque serão contra a natureza, fazer um exército da
imensa multidão de cabeças fracas e de corações lassos que se tornarão generosos por interesse ou
por temor, e com esse exército conquistar o mundo: eis o grande sonho sacerdotal e todo o segredo
político dos pontífices da magia negra. Ao contrário, esclarecer os ignorantes, libertar as vontades,
libertar os homens do medo e dirigi-los pelo amor, tornar acessíveis a todos a verdade e a justiça,
impor à fé apenas as hipóteses necessárias à razão, e conduzir assim todos os povos a um Dogma
único, simples, consolador e civilizador: essa é a realidade divina, e foi isso que o Evangelho deu ao
mundo. O Evangelho é o espírito de Jesus, e esse espírito é divino. Eis nossa profissão de fé
claramente formulada sobre a divindade de Jesus Cristo. Minhas palavras são espírito e vida, disse
esse revelador sublime; nada disso se refere à carne. O Evangelho é a história de seu espírito. Não é
a crônica de sua carne. Homem pela carne, Deus pelo espírito. Ele morreu e ressuscitou. Se viverdes
de meu espírito, disse a seus Apóstolos, vossa carne será minha carne e vosso sangue será meu
sangue, e essas coisas tão eminentemente espirituais, materializadas pela estupidez dos teólogos
bárbaros, deram-nos hóstias sangrentas e comunhões antropofágicas. É chegado o tempo de não
mais confundir o espírito com a carne. A ciência dos espíritos é o discernimento do espírito, e quando
o espírito de Jesus Cristo for compreendido, esse espírito que a Igreja chama e adora sob os nomes
de espírito de ciência, espírito de inteligência, espírito de força, espírito de iniciativa ou de conselho, e,
por conseguinte, espírito de liberdade, quando esse espírito, repetindo, for compreendido, já não se
pedirão oráculos ao sono, à catalepsia, ao sonambulismo ou às mesas giratórias. A ciência dos
espíritos tem por base o conhecimento do espírito de Jesus Cristo, que é a mais alta expressão das
aspirações inteligentes e magnéticas da humanidade. Jesus, o homem de luz e de bondade, foi
pressentido e saudado antecipadamente pelos iniciadores de todos os cultos. O Egito, sob o nome de
Horus, adorava-o dormente ainda no seio de Ísis; a Índia o chamava de Krishna e o suspendia nas
mamas de Devaki; os Druidas elevaram uma estátua à virgem que devia gerá-lo; Moisés e os profetas
preludiaram com magníficos ditirambos a epopéia dos Evangelhos; Maomé o reconhece e só protesta
contra a adoração idolátrica de sua carne. A humanidade é, pois, cristã desde o início do mundo.
Vestida à moda indiana, egípcia, judaica ou turca, em toda parte a humanidade é a mesma e o dogma
é universal. Proclamemos pois, hoje, a catolicidade do mundo e não excomunguemos nem mesmo
aqueles que querem isolar-se num céu cujas nuvens de glória se formariam dos vapores de uma
fogueira onde queimaria sob eles e por eles quase toda a humanidade. Um tempo virá, e ele está
próximo, em que tais idéias inspirarão em todo mundo um terror tal, que não se ousará mais professálas
em voz alta, e que a memória dos inquisidores de todos os cultos será condenada por sua vez, e
para sempre, pela inquisição do desprezo. Uma das grandes pirâmides do Egito estava semioculta
pelas montanhas de areia. De século em século, as bordas nômades do deserto amontoaram sobre
elas construções híbridas e imundícies, de modo que não a enxergávamos mais. Um grande príncipe
chega, ele quer desaterrar esse lugar para ali construir um templo; escava-se em redor do monte de
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lixo, ele é escalado, derrubado, e a grande pirâmide reaparece em toda sua majestade. Isso é uma
apologia. A guerra da filosofia contra a Igreja não a destruirá, mas a libertará; porque a Igreja é a
sociedade dos homens, animada pelo espírito de Jesus Cristo. À medida que as superstições
religiosas, ou antes, irreligiosas descem, o Evangelho sobe; ele é estável, eterno e inabalável,
quadrado na base e simples como as pirâmides. Há sempre uma lógica no poder; forças sem razão
seriam forças sem alcance e, por conseguinte, sem efeito. Se o Evangelho é um poder, existe uma
lógica no Evangelho.
A lógica ou a razão, o logos do poder supremo, é Deus. Essa razão, essa lógica universal, ilumina
todas as almas razoáveis. Ela resplandece nas obscuridades da dúvida; atravessa, penetra, dilacera
as trevas da ignorância, e as trevas não podem compreendê-la, pegá-la, encerrá-la e aprisioná-la.
Essa razão fala pela boca dos sábios; resumiu-se em um homem que, por isso, foi chamado de logos
feito carne, ou grande razão encarnada. Os milagres desse homem foram milagres de luz, isto é, de
inteligência e de razão. Ele fez os homens compreenderem que a verdadeira religião é a filantropia. A
palavra é moderna em francês, mas encontra-se textualmente em grego no evangelho segundo São
João. Ele os fez ver que não é nem em tal cidade, nem sobre tal montanha, nem no templo que se
deve procurar Deus, mas no espírito e na verdade. Seu ensinamento foi simples como sua vida. Amar
a Deus, isto é, ao espírito e à verdade, mais do que a todas as coisas, e ao próximo como a vós
mesmos, eis, dizia ele, toda a lei. É dessa forma que ele abria os olhos dos cegos, que forçava os
surdos a ouvirem e os coxos a caminharem direito. As maravilhas que operava nos espíritos foram
contadas sob essa forma alegórica, tão familiar aos orientais. Sua palavra tornou-se um pão que se
multiplica; seu poder moral, um pé que caminha sobre as ondas, uma mão que apazigua as
tempestades. As lendas se multiplicaram com a admiração cada vez maior de seus discípulos. São
contos encantadores, semelhantes aos das Mil e Uma Noites, e era digno dos séculos bárbaros, que
acreditamos ter ultrapassado e que ainda não terminaram, tomar essas ficções graciosas por
realidades materiais e grosseiras, discutir anatomicamente a virgindade maternal de Maria,
estabelecer entre as mãos de Jesus uma padaria invisível e milagrosa para multiplicar os pães no
deserto, e ver correr um sangue globular e seroso, um sangue antropofágico e revoltante, sobre as
brancas e puras hóstias que protestam contra o sangue e que anunciam para sempre a consumação
do sacrifício. O Evangelho pertence à ciência apenas como monumento da fé, e não como documento
da história. É o símbolo das grandes aspirações da humanidade. É a lenda ideal do homem perfeito.
Essa lenda, a Índia já havia esboçado ao contar a maravilhosa encarnação de Vishnu na pessoa de
Krishna. Krishna é também filho de uma virgem. A casta Devaki amamentando seu divino filho
encontra-se no Panteão indiano e parece uma imagem de Maria. Perto do berço de Krishna encontrase
a figura simbólica do asno; a mãe leva a criança para livrá-la de um rei ciumento que queria matálo.
Se os Vedas não fossem anteriores ao Evangelho, acreditar-se-ia que tudo isso é cópia de nosso
Novo Testamento. Quer dizer que tudo isso é desprezível e nada contém de divino? Acreditamos que
é necessário chegar a uma conclusão diametralmente oposta. O espírito do Evangelho é eterno e sua
fórmula é a das aspirações da humanidade tão antigas quanto o mundo. A idéia de uma encarnação,
isto é, de uma manifestação de Deus no homem, encontra-se em todos os dogmas dos santuários
antigos; o livro do ocultismo, Siphra Di-Tzeniutha, que contém as mais altas doutrinas do judaísmo
sobre Deus, representa a divindade saindo da humanidade como uma luz, e a humanidade descendo
da divindade como uma sombra, de modo que tendo Deus criado o homem, o homem, por sua vez, é
chamado a realizar e a criar, por assim dizer, a idéia de Deus. Que o Evangelho é um livro simbólico,
isso os Apóstolos não nos ocultaram. Cristo é o fundamento, diz São Paulo, e sobre esse fundamento
alguns construíram com pedra, outros com madeira, outros ainda com palha. O fogo da provação virá,
e tudo o que não for sólido será consumido. É desse modo que se pode explicar a escolha que se fez
mais tarde dos livros canônicos, e a rejeição definitiva dos Evangelhos apócrifos. São João, por sua
vez, nos diz: Jesus fez e disse ainda muitas coisas, e, se quiséssemos escrever todas, não creio que o
mundo inteiro pudesse conter os livros que se poderiam fazer. Ora, o campo da história é limitado,
mas o da alegoria é imenso, e se São João não quisesse indicar com essa frase o verdadeiro alcance
dos Evangelhos teria dito um absurdo. Mas quando os Apóstolos se calassem, a evidência falaria o
suficiente. Como se deve, por exemplo, demonstrar a pessoas que o diabo, isto é, o personagem
fictício que representa o mal, não transportou Jesus, concreta e efetivamente, sobre uma montanha
tão alta que se poderia ver de lá todos os reinos da terra? O Evangelho está cheio de histórias
semelhantes compostas segundo o gênio dos hebreus, que ocultavam sempre sua doutrina secreta
através de enigmas e imagens; segundo o gênio do próprio Jesus, que, no dizer dos Evangelistas,
quase nunca falava sem parábolas. O Talmude inteiro é composto segundo esse método, e
Maimônides diz que os absurdos mais evidentes desse livro escondem segredos da mais alta
sabedoria. Observemos somente, diz o abade Chiarini, em sua Teoria do Judaísmo, que, para estudar
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o Talmude, é indispensável, entre outras coisas, passar os olhos pelas antiguidades religiosas de
todos os povos do Oriente, a fim de não atribuir apenas ao judaísmo, como geralmente se faz, o estilo
alegórico e esse amor imoderado pelas fábulas sagradas, comum a todos os intérpretes das religiões
orientais. Quer dizer que, sob todas essas alegorias, a pessoa real do Cristo desaparece e se anula?
Devemos considerar, como Dupuis e Volney, a existência humana e pessoal de Jesus tão duvidosa
como a de Osíris, tão fabulosa como a do indiano Krishna? Como se ousaria afirmar isso, uma vez
que Jesus Cristo está ainda vivo em suas obras, ainda presente em seu espírito, que já mudou e
certamente transfigurará toda a face da terra? Duvidou-se da existência de Homero, mas de qual
Homero? Daquele dos comentadores pode ser, mas a Ilíada e a Odisséia não estão aí? Esses divinos
poemas compuseram-se sozinhos? E que grande distância existe entre esses livros sem dúvida
admiráveis e o poema vivo do cristianismo, essa Ilíada dos mártires onde os deuses combatem e são
vencidos por mulheres e crianças? Essa Odisséia da Igreja que, após tantas perseguições e
tempestades, chega, mendicante sublime, ao umbral do palácio dos Césares, lança com um braço
vitorioso as flechas que atravessam os corações de seus inimigos e vai sentar-se no trono do mundo.
O espírito de Jesus existe com muito maior certeza e evidência que o gênio de Homero. Mas esse
espírito é um espírito de abnegação e de sacrifício, e é por isso que ele é divino. Quanto menos o
homem se procura, mais se encontra. Quanto mais se abandona, mais merece a adoração do céu.
Quanto mais se esquece, mais será lembrado. Eis, em poucas palavras, os grandes segredos da
onipotência do cristianismo. Jesus, que deu esses preceitos, deu também o exemplo. Ele se anulou
em presença de sua obra. O homem desapareceu no símbolo, e foi assim que se fez Deus. O
Evangelho nos diz que ele conduziu seus discípulos para o alto de uma montanha e se transfigurou
diante deles. Seu rosto tornou-se um sol e suas roupas ficaram brancas como a neve, isto é, o homem
apagou-se na luz da revelação nova. E mais tarde a tradição, completando a lenda, diz que Jesus,
subindo ao céu, não deixou nada dele sobre a terra além do seu espírito espalhado em toda a Igreja, e
a marca indelével de seus pés sobre o cume da montanha. De que serve procurar agora, seja em
Nazaré, seja em Belém, o berço da criança que foi Jesus Cristo, na esperança de reencontrar, em
algum fragmento de seus cueiros, traços de sua vida puramente humana? A choupana de José foi
derrubada há muito tempo, e dos cueiros do Salvador, branqueados pela Virgem, fizeram-se faixas
para cobrir as chagas da humanidade. Jesus ressuscitou. Ele não está mais aqui; por que procurar um
vivo entre os mortos? O Evangelho é Jesus transfigurado; é a epopéia de seu admirável espírito, são
os milagres de sua moral representados pelas mais comoventes imagens. Não se deve suprimir
nenhuma palavra desse livro, não é necessário colocar nele mais nenhuma letra. Porque é o
testamento divino do homem que se anulou para nós. Procuremos nele as luzes para a fé, e não
ensinamentos para a história das crenças consoladoras, e não probabilidades científicas. Quando as
antigas estatuárias do Oriente representavam os deuses, davam-lhes formas híbridas e monstruosas,
a fim de que todos compreendessem que os deuses não são homens. É dessa forma que os
evangelistas, semeando sua narrativa de fatos materialmente impossíveis ou formalmente
contraditórios, nos queriam fazer compreender que não escreviam uma simples história, mas um
profundo símbolo, e que aqui, como em todos os livros sagrados, a letra que mata serve de véu ao
espírito que só vivifica! É pois uma impiedade, uma verdadeira profanação, procurar no exterior da
marca que deixou sobre a montanha, ao se elevar ao céu, os traços eminentemente humanos e
materiais desse homem que, pelo mais perfeito dos sacrifícios, desmaterializou-se, confundindo-se de
alguma forma com Deus. Mas se quiséssemos fazê-lo, se os críticos inimigos do cristianismo
quisessem os documentos para a história desse homem, não seria disfarçando o Evangelho e nele
tecendo variantes de fantasia; não seria dando explicações grotescas a seus milagres, tomado ao pé
da letra, que conseguiriam fazer alguma coisa racional. Jesus era judeu; viveu e morreu entre os
judeus. Foram os judeus que o conheceram, que o rejeitaram, que o acusaram e o condenaram, e se
dezenove séculos após sua glorificação quisermos revisar seu processo, serão os judeus que
deveremos ouvir. Ora, os judeus, apesar das ridículas asserções de Dupuis e de Volney, atestam a
existência real de Jesus e acusam-no ainda de muitos crimes; suas lembranças estão consignadas no
Talmude, esse repertório imenso e completo de todas as tradições dos judeus. Vidas de Jesus,
redigidas conforme o Talmude e aumentadas por comentários odiosos, foram escritas por cabalistas e
rabinos. Conhecemos dois desses escritos: o Sepher Toldos Jeschu e o Maasé Talouy, ou a história
do enforcado. Pesquisamos e encontramos esses livros, dos quais fazemos uma análise fiel,
descartando somente as divagações e injúrias. Lendo-os, compreenderemos por que a grande e
antiga sabedoria de Israel rejeita e despreza nossos mistérios. Que deplorável mal-entendido separa
os pais dos filhos! Como se estivéssemos dizendo que existe um outro deus que não Deus! Como se
Davi tivesse blasfemado quando disse aos mestres da terra: Vós sois deuses e morrereis como
homens. Como se o próprio Jesus não tivesse dito: Retorno para junto de meu Pai e vosso Pai, para
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junto de vosso Deus e meu Deus! Mas de que serve defender uma causa que não tem juízes? Só vejo
aqui partes interessadas. Vejo o ilustríssimo Renan, vejo Veuillot, esse ultramontano tão tristemente
célebre, e, por trás desses dois advogados comprometedores, observo uma plebe mais ardente do
que hábil. Para quem, pois, escreverei? Meu livro não terá importância para meu século se eu não
pisar em um dos sulcos abertos por esses lavradores de terrenos vagos; mas que me importa?
Consagrei minha vida à verdade, e eu a direi para quem quiser e souber entendê-la; se isso não
acontecer em um dia, acontecerá em um ano, se não for em um ano, o será em um século, mas estou
tranqüilo, porque sei que esse dia virá. Não terei nem entusiasmo nem prostração. Não procuro
prosélitos e não temo os adversários, não quero nem um Thabor nem um pelourinho, mas me resigno
tanto a um como ao outro. A verdade não vem de nós e não é para nós. Insensato é tanto aquele que
a oculta como aquele que a revela e se vangloria. Vi homens que a vendiam como foi vendido o
Salvador, mas aqueles que acreditaram pagá-la eram ingênuos e loucos. A verdade não é uma
prostituta, ela não se vende; ela se dá àqueles que a amam e que a procuram com grande
sinceridade. A ignorância da maior parte dos cristãos em relação à teologia dos judeus, à sua
exegese, a seu Talmude, sua Cabala, impede-os de compreender bem o gênio dos evangelhos
nascidos na Judéia. Todos os doutores judeus concordam em admitir a alegoria nas tradições que o
povo eleito queria ocultar à inteligência dos profanos. Maimônides, como já dissemos, encontra tanto
mais ciência e profundidade nas fábulas talmúdícas, quanto mais elas parecem desprovidas de bom
senso, pois a própria enormidade dos absurdos é um preservativo contra a credulidade cega que toma
tudo ao pé da letra, preservativo hierárquico, por assim dizer, porque esclarece apenas aos sábios e
cega cada vez mais os insensatos. É para os sábios que escrevemos. Daremos primeiramente a visão
talmúdica sobre Jesus, depois analisaremos rapidamente os evangelhos canônicos e consagrados a
fazer ressaltar o gênio; procuraremos nos evangelhos apócrifos as manifestações excêntricas desse
gênio universal. Estudaremos as mais antigas hipóteses e os maiores sábios do mundo. Em seguida,
retomaremos a questão dos espíritos e dos milagres, procuraremos seu princípio, examinaremos, para
melhor explicar os antigos, aqueles que se cumprem em nossos dias. Diremos nossa última palavra
sobre o espiritismo, e nosso livro inteiro será apenas uma homenagem ao verdadeiro cristianismo e à
eterna razão.
HISTÓRIA DE JESUS
Segundo os talmudistas
No ano seiscentos e setenta e sete do quarto milênio após a criação do mundo, durante os dias do rei
Jannée, que também se denominava Alexandre, uma grande desgraça veio em ajuda dos inimigos de
Israel. Apareceu então um certo miserável, homem sem consciência e sem moral, procedente de um
dos ramos derivados da tribo de Judá, que se chamava Joseph Panther. Esse homem era de estatura
elevada, de vigor pouco comum e de notável beleza; havia passado a melhor parte de sua vida nos
desregramentos, roubos e violências, e morava em Belém, cidade de Judá. Tinha por vizinha uma
viúva cuja filha se chamava Maria, e é essa mesma Maria, cabeleireira de mulheres, que é
mencionada em diversas partes do Talmude. Essa jovem, ao se tornar adolescente, ficara noiva de um
jovem chamado Jochanan, dotado de grande modéstia, de notável doçura e do verdadeiro temor a
Deus. Ora, aconteceu que, por desgraça, Joseph, passando em frente à porta de Maria, olhou-a e
sentiu arder por ela uma paixão impura; assim, ele passava, passava, sem cessar; mas ela nem
mesmo o olhava. A apatia apodera-se dele, e sua mãe, vendo-o destruir-se, lhe diz: Por que te vejo
emagrecer e empalidecer? Ele responde: É que estou morrendo de amor por Maria, que é noiva de
outro. Sua mãe lhe diz: Não é preciso te atormentar e desesperar por isso; faça o que te vou dizer e
poderás aproximar-te dela e com isso te satisfazer. Joseph Panther escutou sua mãe, passando a
rondar incessantemente a porta de Maria, esperando a ocasião que não encontrava. Quando, numa
noite de sábado, vestido como Jochanan e ocultando a cabeça com seu manto, encontrou Maria na
porta, pegou-a pela mão sem dizer nada, e levou-a para dentro de casa. Ora, ela, acreditando ser
Jochanan, seu noivo, lhe diz: Não me toques; a hora em que deverei ser tua ainda não chegou e neste
momento estou protegida contra ti pelas enfermidades comuns de meu sexo. Mas ele, sem escutá-la,
realizou sua má intenção e voltou para casa; em seguida, perto de meia-noite, como a paixão o
atormentasse ainda, levantou-se, voltou à casa de Maria, que começou a chorar, lhe dizendo com
horror: Como vens me ultrajar uma segunda vez, tu que eu acreditava ser incapaz de abusar de nosso
noivado, e como podes acrescentar ao crime a vergonha, visto que eu te disse que o estado em que
me encontro nesse momento devia me tornar sagrada para ti? Mas ele não escutou suas palavras.
Sem nada dizer, satisfazia seu desejo; em seguida retirou-se e continuou seu caminho. Ora, após três
meses, vieram dizer a Jochanan que sua noiva estava grávida, e Jochanan, assustado, foi encontrar
seu preceptor Simão, filho de Schetach, e lhe revelando o que se passava, perguntou o que deveria
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fazer. Seu mestre perguntou-lhe: Suspeitas de alguém? Jochanan respondeu: Só posso suspeitar de
Joseph Panther, que é um grande libertino e mora na vizinhança. Seu mestre lhe disse: Meu filho,
escuta meu conselho e cala-te. Se este homem abusou uma vez de tua noiva, não é possível que não
mais procure revê-la. Trata de surpreendê-lo, chama testemunhas e faze com que seja julgado pelo
grande Sinédrio. O jovem partiu muito triste, só pensando na desgraça de sua noiva e na vergonha
que poderia recair sobre ele; abandonou a Judéia e foi para a Babilônia, onde permaneceu. Maria, em
seguida, tornou-se mãe de um filho que chamou Jéhosuah, nome de seu tio materno. Tendo a criança
começado a crescer, sua mãe lhe deu por mestre Elchanan. O menino fazia grandes progressos,
porque tinha um espírito preparado para a inteligência das coisas. Isso é extraído e traduzido
textualmente do Sepher Teldos Jeschu. A primeira juventude de Jesus é narrada como se segue pelos
autores talmudistas do Sota e do Sanhédrin, que encontramos citados à página 19 do livro da disputa
de Jéchiel. O rabino Jéhosuah, filho de Pérachiah, que continuou, após Elchanan, a educação do
jovem Jesus, iniciou-o nos conhecimentos secretos; mas tendo Jannée feito massacrar todos os
iniciados, Jéhosuah, para escapar a essa condenação, fugiu para Alexandria no Egito. Esse massacre
dos iniciados, substituído pelo massacre dos inocentes, parece-nos notável, sobretudo se nos
recordarmos de que no livro primeiro dos Reis está dito que Saul, iniciado há pouco no círculo dos
profetas, era uma criança de um ano quando subiu ao trono. Ora, Saul tinha, na realidade, mais de
vinte anos. Era, pois, costume nas iniciações proféticas da judéia, assim como nas da Franco-
Maçonaria moderna, designar o grau dos iniciados por uma idade simbólica, e o Evangelho, falando
da morte das crianças de até dois anos, não contradiria a asserção do Talmude, que a seu modo
tornava-se historicamente mais aceitável do que a narração do Evangelho. Podem-se encontrar traços
da proscrição dos cabalistas, sempre perseguidos e denunciados pela sinagoga oficial, mas não se
encontra essa abominável matança de crianças pequenas, que revolta a natureza e que desonrou
para sempre o reino de Herodes, se é a Herodes, como quer o Evangelho, e não a Jannée, como
pretendem os talmudistas, que se deve atribuir a condenação em questão. Aqui os talmudistas
começam a envolver seu pensamento com alegorias, e eis o que nos contam: Jesus e seu mestre
Ben-Perachiah foram, pois, residir em Alexandria, na casa de uma senhora rica e sábia que os
recebeu com honra e lhes ofereceu todos os seus tesouros. Essa senhora, como podemos
compreender, é o Egito personificado. O jovem Jesus, tendo-a olhado, disse: Esta mulher é bela, mas
tem um defeito nos olhos que deve prejudicar a retidão de seus olhares. Essa terra é bela, mas é um
magnífico exílio. Seu mestre então irritou-se com ele, por ter ele encontrado alguma beleza no Egito e
por ter admirado a terra da servidão. Jesus lhe disse: Não há servidão para os filhos de Deus e a terra
que os abriga é sempre a terra de Israel. Ben-Perachiah amaldiçoou então seu discípulo e o rechaçou
de sua presença. Jesus submeteu-se humildemente, apresentando-se muitas vezes à porta do mestre,
rogando-lhe que o recebesse; o rabino permaneceu inflexível. Um dia, no entanto, quando lia os
mandamentos de Deus que ordenavam amar ao próximo, Jesus apresentou-se, e o mestre, tocado
pelo arrependimento, fez-lhe sinal para aguardar, tendo a intenção de ceder e de recebê-lo; mas
Jesus, entendendo que ele o repelia uma vez mais, foi embora e não voltou. Nossos pais procederam
mal, dizem a esse respeito os doutores do Talmude, em rechaçar Jesus sem escutá-lo, e sobretudo
em, ao mesmo tempo, amaldiçoá-lo. Jamais batemos com as duas mãos naquele que desejamos
punir; guardemos uma para levantá-lo, consolá-lo e curá-lo! Palavra que contém todo um futuro,
palavra que deve um dia trazer a reconciliação entre os filhos e os pais; porque nós também
amaldiçoamos os judeus, rechaçando-os com as duas mãos; portanto, agora também é com duas
mãos que, de um lado e de outro, para expiar essa falta recíproca, devemos nos perdoar e abençoar!
Mas voltemos à história de Jesus, segundo os autores do Talmude. Vimos que o jovem iniciado tinha
admirado a ciência do Egito e fora rechaçado por seu mestre por ter sonhado com uma conciliação
entre a filosofia do exílio e a religião da pátria. A perseguição contra os cabalistas abrandou-se e
Jesus voltou à Judéia com seu mestre, ou pelo menos ao mesmo tempo que ele. Como vivera no
Egito? Trabalhando, sem dúvida, no seu ofício de carpinteiro. Ao entrar em sua cidade natal, que
segundo os talmudistas não era Nazaré, mas sim Belém, passou em frente aos anciãos, que estavam
reunidos, conforme o costume, à porta da cidade, e não os saudou; mas ao passar seu mestre
Jehosuah Ben-Perachiah Jesus o saudou, provocando dessa forma os murmúrios dos anciãos. Com
efeito, o jovem os desprezava porque não eram iniciados na verdadeira ciência, e só reconhecia como
seu superior aquele que lhe havia aberto a porta. Os anciãos indignaram-se e o chamaram de filho de
mulher impura, o que surpreendeu Jesus, porque sempre tinha enxergado sua mãe como um modelo
de pureza. Foi consultar um de seus tios, aquele que tinha o seu próprio nome, e este lhe revelou a
desgraça de Maria e todo o mistério de seu nascimento. Jesus retirou-se com o coração ferido e não
retornou mais à casa de sua mãe, começando a pregar a nova ciência: a da reconciliação das nações
e da religião universal com que tinha sonhado no Egito. É então que nossos autores chegam às bodas
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de Canaã, na Galíléia, onde Jesus reecontrou sua mãe e respondeu-lhe duramente quando ela quis
falar-lhe: Mulher, o que há de comum entre ti e eu? Em seguida, vendo que a pobre mulher resignavase
com doçura, ficou com o coração comovido, e, reunindo seus discípulos em torno de si, contou-lhes
o crime de Panther e perguntou-lhes: Credes que eu poderei honrar esse homem como pai? - Não!
responderam todos em uma só voz. Credes que minha mãe seja impura? - Não, responderam
novamente. Pois bem. disse Jesus, não tenho pai sobre a terra, meu pai é Deus que está no Céu, e
quanto à minha mãe, sua virgindade não poderia ser manchada por um crime no qual ela não
consentiu. Eu a considero sempre virgem. Pensais como eu? - Sim, responderam os discípulos. E é
por isso, acrescentam os autores judeus, que Jesus foi considerado por todos os que crêem nele
como o filho de Deus e de uma virgem. Essa história apócrifa, ofensiva para os leitores cristãos, não
deixa de ter uma certa grandiosidade, e pode-se aí observar que os maiores inimigos do cristianismo
rendem uma homenagem involuntária à pureza de Maria e à elevação do caráter de Jesus. Aqui
começa a narração dos milagres, e os talmudistas, longe de negá-los, parecem empenhar-se em
exagerá-los. A lembrança dos milagres estava ainda bem viva e bem forte entre os judeus. Mas eis
como explicam esses milagres. Eles dizem que existe, no santuário do Deus vivo, uma pedra cúbica
sobre a qual estão esculpidas as letras santas, cujas combinações explicam as virtudes do nome
incomunicável. Essa explicação é a chave secreta de todas as ciências e de todas as forças ocultas da
natureza. É o que denominamos o Schema hamphorasch. Esta pedra é guardada por dois leões de
ouro que rugem no momento em que tentamos aproximar-nos dela. Os leitores de nossas obras
sabem o que é o Schema hamphorasch e reconhecerão nos dois leões os gigantescos querubins do
santuário, cujas figuras monstruosas e simbólicas eram capazes de amedrontar e de fazer recuar os
profanos. Além do mais, as portas do templo eram bem guardadas, acrescentam nossos rabinos, e a
porta do santuário só se abria uma vez ao ano, e somente para o grande sacerdote; mas Jesus tinha
aprendido no Egito os grandes mistérios da iniciação e apoderou-se das chaves invisíveis com a ajuda
das quais pôde entrar sem ser descoberto. Copiou os segredos da pedra cúbica, ocultando-os entre as
pernas, como na mitologia grega vemos Júpiter ocultar Baco; em seguida, saiu e começou a
surpreender o mundo. À sua voz os mortos levantavam-se e os leprosos ficavam curados; fazia subir
do fundo do mar as pedras que lá estavam enterradas há séculos, e essas pedras formavam uma
montanha sobre as águas, e do cume dessa montanha Jesus instruía a multidão. Reecontramos aqui,
com todo o gênio do simbolismo oriental, o motivo secreto do ódio dos padres contra Jesus. Ele
revelou ao povo a verdade que eles queriam esconder só para eles; adivinhara a teologia oculta de
Israel e a havia comparado com a sabedoria do Egito, e aí encontrara a razão de uma síntese religiosa
universal. Os padres procuraram então arruiná-lo, e enviaram à sua presença um falso irmão chamado
Judas Iscariotes, para fazê-lo cometer algumas faltas e entregá-lo, assim, a seus inimigos. Esse foi o
Judas que levou Jesus a realizar, no momento em que os chefes da religião apresentavam mais
animosidades contra ele, uma entrada triunfal em Jerusalém, seguida de um tumulto no templo.
Fizeram, ao mesmo tempo, correr o boato de que Jesus encantava as árvores e as tornava estéreis,
que blasfemava contra a lei de Moisés, querendo fazer-se adorar como Deus. No entanto, Jesus ia
todos os dias ao templo, mas como os judeus oravam com a cabeça coberta, ele se perdia nessa
multidão envolvida em hábitos brancos. Judas prometeu aos sacerdotes entregá-lo a eles e fazer, ao
mesmo tempo, um grande escândalo, que pudesse comprometê-lo aos olhos de todo o povo. Ele veio
com uma multidão de pessoas dedicadas aos fariseus e, prosternando-se diante de Jesus, ele o
adorou. Os cúmplices de Judas revoltaram-se contra o sacrilégio e quiseram lançar-se contra Jesus.
Os discípulos de Jesus tentaram defendê-lo. Jesus conseguiu escapar e refugiou-se no Jardim das
Oliveiras, onde foi perseguido e preso pelos guardas do templo. Colocaram-no então numa prisão,
onde ficou quarenta dias, durante os quais fizeram proclamar seu ato de acusação ao som de
trombetas e perguntaram se alguém queria tomar sua defesa; mas ninguém se apresentou. Jesus foi
então flagelado como rebelde e, em seguida, apedrejado como blasfemador, num lugar chamado Lud
ou Lydda; logo depois, deixaram-no expirar sobre uma cruz em forma de forcado. Alguns de seus
discípulos, que eram ricos, resgataram seu corpo e simularam ostensivamente seu sepultamento; mas
na realidade arrastaram-no secretamente e enterraram-no no fundo do leito de um rio, cujas águas
foram desviadas para abrir sua tumba; depois, deixaram as águas retomarem seu curso. Isto explica
por que o corpo não mais foi encontrado quando os discípulos declararam que seu mestre havia
ressuscitado. A essa narração fundamental os autores do Sepher Toldo Jeschu acrescentaram as
mais ridículas fábulas, tiradas, evidentemente, das lendas cristãs alteradas ou disfarçadas. É dessa
forma que encontramos aqui a história da ascensão de Simão, o Mágico, atribuída ao próprio Jesus
Cristo, com a intenção evidente de confundir o Messias dos cristãos com o famoso impostor. É desse
modo ainda que Simão Pedro ou Céphas é confundido, aqui, com Simão, o Estilita, prova evidente do
pouco valor histórico desse Sepher, que foi composto evidentemente vários séculos após o início da
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era cristã. Os documentos talmúdicos são mais sérios, porque o Talmude é a compilação de todas as
tradições judaicas, e é lá somente, fora dos monumentos cristãos, que se deve procurar a lembrança
desse personagem tão importante para a história, mas que todos os escritores profanos ignoram ou
desconhecem. Essas tradições, marcadas como devem ser por menosprezo e ódio com relação ao
sábio que os judeus crucificaram, contêm confissões preciosas em favor das crenças cristãs. Das
narrações do Talmude resulta, com efeito, segundo as tradições judaicas:
1.º que Jesus de fato existiu;
2.º que ele nasceu em Belém;
3.º que sua mãe, de moral irrepreensível, era somente noiva de um homem justo e crente em Deus,
incapaz portanto de abusar de sua noiva;
4.º que o nascimento extraordinário de Jesus só se explica por um milagre ou por um atentado que os
judeus deviam necessariamente supor, visto que reconheciam a elevada moralidade da jovem virgem
e não admitiam o milagre;
5.º que Jesus foi perseguido pela Sinagoga por causa do mistério de seu nascimento, e mais ainda por
causa da superioridade de sua doutrina;
6.º que essa doutrina supunha a iniciação nos segredos da mais alta teologia dos hebreus, conforme,
em muitos pontos, à filosofia transcendente dos iniciados egípcios;
7.º que ele realizava coisas prodigiosas, curando os doentes, ressuscitando os mortos e adivinhando
coisas ocultas;
8.º que só se pôde condená-lo e fazê-lo morrer por traição;
9.º que seu corpo não foi encontrado quando seus discípulos declararam que ele havia ressuscitado.
Não podemos, racionalmente, perguntar mais sobre esse assunto aos doutores hebreus adversários
de Jesus Cristo. As asserções do Talmude e do Sepher Toldos Jeschu estão repetidas no Nizzachon
vetus, ou antigo livro da Vitória, na Controvérsia do rabino Jechiel e em outras compilações rabínicas.
O Sepher Toldos, ao qual os judeus atribuem grande antigüidade e que ocultam dos cristãos com
precauções tão grandes, que esse livro durante muito tempo não foi encontrado, é citado pela primeira
vez por Raymond Martin, da ordem dos Irmãos Pregadores, quase no final do século XIII. Porchetus
Salvaticus, pouco tempo depois, publicou alguns fragmentos dos quais Lutero se serviu e que se
encontram no VIII tomo de suas obras, edição da Iéna; mas não se possuía ainda o texto hebraico.
Esse texto, encontrado finalmente por Munster e por Buxtorf, foi publicado em 1681 por Christophe
Wagenseilius em Nuremberg, e em Frankfurt, numa coleção intitulada Tela ignea Satanoe, as flechas
ardentes de Satã. Esse livro foi evidentemente escrito por um rabino iniciado nos mistérios da Cabala;
está escrito por dentro e por fora - para nos servimos de uma expressão de São João, o grande
iniciado cristão -, isto é, apresenta um sentido oculto e um sentido vulgar. Os contos absurdos dos
quais está impregnado são parábolas que o autor quer opor àquelas do Evangelho. Censuram aqui
duas coisas em Jesus Cristo: 1.º o fato de ter surpreendido ou adivinhado os mistérios do templo; 2.º
tê-los profanado dizendo-os ao vulgo, que os desfigurou e compreendeu mal. Não podendo retirar a
pedra cúbica do templo, ele fabricou, segundo o autor do Sepher Toldos, uma pedra de argila que
havia mostrado às nações como sendo a verdadeira pedra cúbica de Israel. Juntamos a esse fato a
confissão que São Paulo deixa escapar em uma de suas epístolas: Somente a natureza podia revelar
Deus aos homens, e eles são imperdoáveis por não o compreender. Mas já que, com efeito, não
chegaram a Deus pela sabedoria, foi preciso salvá-los pela loucura, e perguntar à fé o que não se
obtinha pela ciência. Quoniam non cognovissent per sapientiam Deum, placuit per stultitiam
proedicationis salvos facere credentes. É essa loucura da fé que os judeus não querem compreender
e que denominam uma pedra de argila, como se a fé, que é a confiança do amor, não fosse também
durável e freqüentemente mais invencível que a razão; como se o amor, que é a razão da fé, não
fosse também a razão da existência dos seres submissos às investigações da ciência. O amor
encontra o que a razão procura, ele vê aquilo que escapa às investigações da ciência. Quando ela não
sabe mais, começa a crer, e quando a razão esgotada pára e cai no umbral do infinito, a fé abre suas
asas, lança-se, dilacera as nuvens, faz descer à terra a escada luminosa de Jacó e sorri docemente
estendendo a mão à sua irmã. Talvez os cristãos tenham primeiro glorificado a fé de maneira a fazer
crer que renunciavam à razão; é por isso que, em relação a nós, os judeus transformaram-se em
severos guardiões das tradições antigas e protestam eternamente contra todas as idolatrias. São
adversários que nos vigiam, que nos advertem e que reconduziremos um dia ao lhes provar que toda
dissidência que os separa de nós repousa sobre um mal-entendido. Encontram-se nos livros atribuídos
a Hermes essas estranhas lamentações do sábio Trismegisto: Ah, meu filho, um dia virá em que os
hieróglifos sagrados tornar-se-ão ídolos; tomarão os signos da ciência para os deuses, e acusar-se-á o
grande Egito de ter adorado monstros. Mas aqueles que nos caluniarão dessa forma adorarão eles
mesmos a morte ao invés da vida, a loucura ao invés da sabedoria; amaldiçoarão o amor e a
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